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16 outubro, 2026

Índia transforma compra de aviões em política industrial, e Embraer disputa espaço nas duas pontas

Com linhas de montagem em operação, um programa de 60 cargueiros militares e a exigência de produção local, Nova Délhi testa parceiros estrangeiros. A Embraer aposta no C-390 com a Mahindra e no E175 com a Adani, mas cada frente depende de encomendas ainda não confirmadas



*LRCA Defense Consulting - 16/10/2026 - 13h08

A Índia quer que cada grande compra aeronáutica deixe no país fábricas, fornecedores e engenheiros. A lógica das iniciativas Make in India e Atmanirbhar Bharat, impulsionadas pelo governo de Narendra Modi, é condicionar o acesso ao terceiro maior mercado de transporte aéreo do mundo à transferência de atividades industriais. Para fabricantes estrangeiros, a política abre oportunidades; para o governo indiano, a questão central é quanto do conhecimento e do valor agregado permanecerá efetivamente em território nacional. 

O teste mais visível dessa política é o programa de aeronaves de transporte médio (MTA) da Força Aérea Indiana (IAF). Em 12 de agosto de 2026, o Ministério da Defesa indiano emitiu o pedido de propostas (RFP) para 60 aeronaves, avaliadas em cerca de ₹1 lakh crore (aproximadamente US$ 10,4 bilhões). A brasileira Embraer concorre com o C-390 Millennium, em parceria com a Mahindra; a norte-americana Lockheed Martin oferece o C-130J Super Hercules, associada à Tata Advanced Systems Limited (TASL). O resultado dependerá do desempenho das aeronaves, mas também de qual proposta contribuir mais para a indústria que a Índia pretende construir. 

Uma cadeia aeronáutica em formação 
O exemplo mais concreto dessa estratégia é o C295, produzido pela Airbus em parceria com a TASL. O contrato, assinado em setembro de 2021, prevê 56 aeronaves para a IAF: 16 fabricadas em Sevilha, na Espanha, e 40 produzidas na Índia. A linha de montagem final de Vadodara, em Gujarat, foi inaugurada em outubro de 2024. O primeiro C295 montado no país saiu da linha em maio de 2026 e realizou o voo inaugural em junho; a entrega à IAF estava prevista para setembro. Segundo os parceiros, o programa já envolve mais de 13 mil peças e 4 mil subconjuntos fabricados localmente, 37 fornecedores indianos e mais de 85% da montagem estrutural e final das unidades indianas. Motores e aviônica, porém, continuam a vir de fornecedores estrangeiros, e a produção das 40 aeronaves deve estender-se até 2031. 

Nas asas rotativas, a Airbus e a TASL inauguraram em fevereiro de 2026, em Vemagal, no estado de Karnataka, a primeira linha privada de montagem de helicópteros do país, dedicada ao H125. O primeiro lote está previsto para o início de 2027. A Lockheed Martin, por sua vez, mantém desde 2010 a Tata Lockheed Martin Aerostructures Limited (TLMAL), em Hyderabad, que já entregou 250 empenagens para a linha global do C-130J. Completa o quadro a estatal Hindustan Aeronautics Limited (HAL), responsável pelo caça Tejas e pelo Su-30MKI, com instalações em Bengaluru e Nashik. 

Esses polos estão em estágios diferentes. Anúncio, inauguração de fábrica, primeiro voo, entrega, certificação e produção sustentada são etapas distintas, e apenas parte delas foi cumprida em cada caso.

Um programa desenhado para produzir no país 
O programa MTA destina-se a substituir os An-32, em operação na IAF desde 1984, e, possivelmente, parte dos Il-76. Aprovado pelo Defence Procurement Board em 2 de março de 2026, segue o modelo Buy and Make: 12 aeronaves serão entregues prontas para voo (fly away) e 48 serão produzidas na Índia por meio de parceria entre o fabricante estrangeiro e uma empresa indiana, responsável também por centros de manutenção, reparo e revisão (MRO). As entregas deverão começar em até 36 meses após a assinatura do contrato, e a imprensa indiana menciona uma opção de ampliação de 50% do lote, o que representaria mais 30 unidades.

O RFP foi encaminhado a Tata, Mahindra, Adani Defence & Aerospace, Reliance Defence e HAL. A IAF busca aeronaves na faixa de 18 a 30 toneladas, capazes de operar em grande altitude e em pistas não preparadas, como as Advanced Landing Grounds de Ladakh e do Nordeste indiano, requisito que reflete as lições da crise com a China na fronteira himalaia. As exigências de conteúdo nacional ainda precisam ser confirmadas pelos documentos oficiais: segundo o portal ThePrint, a indigenização mínima seria de 40%, com elevação escalonada até 60%; a Tribune India fala em percentual progressivamente superior a 50%. 

A disputa não se limita, em tese, a dois concorrentes. A Airbus ofereceu o A400M, com apoio do governo alemão e promessa de até 85% de conteúdo local em fases, mas a aeronave, com carga útil de 37 toneladas, excede o requisito, e a imprensa indiana prevê sua saída da competição. O ThePrint também noticiou que a HAL retomou a articulação com a Rússia, revivendo o projeto conjunto de transporte encerrado em 2016. Na prática, o C-390 e o C-130J são apontados como os principais candidatos. 

A frente militar da Embraer 
A parceria entre Embraer e Mahindra começou com um memorando de entendimento em fevereiro de 2024. Em outubro de 2025, quando a fabricante brasileira inaugurou sua subsidiária em Nova Délhi, as empresas firmaram um acordo de cooperação estratégica para industrialização, fabricação, montagem, cadeia de suprimentos e MRO. Em fevereiro de 2026, durante a visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, anunciaram planos para uma estrutura de manutenção do C-390 no país, condicionada à seleção da aeronave. 

Em 1º de outubro de 2026, as duas empresas identificaram Nagpur, em Maharashtra, como local proposto para a linha de montagem final do C-390. A unidade reuniria montagem, integração de sistemas, engenharia de fabricação e desenvolvimento de fornecedores locais. Vinod Sahay, do Conselho Executivo do Grupo Mahindra, agradeceu ao governo estadual pela rápida alocação do terreno. O anúncio, contudo, não informou área, investimento nem prazo de construção, e a implantação depende da escolha do C-390 e de uma encomenda efetiva. Em junho, executivos da Embraer haviam declarado à FlightGlobal a disposição de reproduzir na Índia a estrutura de Gavião Peixoto (SP), incluindo a montagem estrutural da fuselagem, e de usar a linha indiana para atender exportações.

O passo societário veio em seguida. Em 9 de outubro, a Mahindra Defence Systems Limited (MDSL) firmou acordo para vender à Embraer 51% da Novavayu Aerospace Limited, constituída em 29 de julho de 2026. A conclusão está prevista até 1º de dezembro. Conforme registrou o LRCA, o preço da participação, cerca de ₹510 mil, e a ausência de receitas indicam a compra de uma sociedade recém-criada, sem atividade comercial conhecida. A operação oferece uma estrutura empresarial para projetos futuros, mas nenhum documento público confirma que a Novavayu operará a unidade de Nagpur.

A Embraer não chega à IAF como estranha. A força aérea opera o sistema de alerta aéreo antecipado Netra, desenvolvido sobre o jato ERJ-145, e, segundo publicação reproduzida pelo LRCA em março, a aquisição de mais seis células para a versão Netra Mk-1A recebeu aprovação do Defence Acquisition Council e do Comitê de Segurança do Gabinete, o que elevará essa frota a nove aeronaves. 


A frente comercial depende de 200 encomendas 
Na aviação civil, a parceira é a Adani Defence & Aerospace. O primeiro memorando foi assinado em janeiro de 2026 e ampliado em 21 de fevereiro, em cerimônia acompanhada por Lula e pelo ministro indiano do Comércio e da Indústria, Piyush Goyal. O objetivo é instalar uma linha de montagem final do jato regional E175, alinhada ao programa indiano de aeronaves de transporte regional. Em junho, segundo o Economic Times, a Região Especial de Investimento de Dholera (DSIR), em Gujarat, foi escolhida como sede, superando Bhogapuram, em Andhra Pradesh. 

A condição, porém, é comercial. O presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, afirmou que a linha só se torna viável com pedidos firmes de ao menos 200 aeronaves; a construção levaria 24 meses, o que permitiria as primeiras entregas em 2028 caso as encomendas fossem fechadas ainda em 2026. Como alternativa, a empresa avalia um centro de acabamento, onde aviões produzidos no Brasil receberiam pintura e interiores. A família E-Jets obteve em julho a certificação de tipo da autoridade de aviação civil indiana (DGCA), e há negociações em curso com a IndiGo, a maior companhia aérea do país, e com a estatal Alliance Air. A Embraer soma cerca de 50 aeronaves de 11 modelos em operação na Índia, entre elas os E175 da Star Air. 

As duas frentes são formalmente separadas. Em 27 de setembro, o presidente da Embraer Defesa & Segurança, Bosco da Costa Junior, reafirmou à agência ANI que a Mahindra é a parceira no programa militar e que a colaboração com a Adani se restringe à aviação comercial. O esclarecimento foi relevante porque a Adani também recebeu o RFP do MTA. Não há evidência pública de que o governo indiano avalie as duas iniciativas em conjunto.

Vantagens que não se anulam 
A Lockheed Martin parte de uma posição consolidada. A IAF adquiriu 12 C-130J a partir de 2011, um deles perdido em acidente em 2014, e conhece a aeronave em operações exigentes, como os pousos na pista de Daulat Beg Oldi, em Ladakh. Tripulações, mecânicos e infraestrutura já estão formados. Além da TLMAL, a TASL iniciou em 18 de dezembro de 2025, em Bengaluru, a construção de uma instalação de MRO para o C-130J, com conclusão prevista para o fim de 2026 e recebimento da primeira aeronave no início de 2027. Desde setembro de 2024, as duas empresas estudam também a ampliação da fabricação e a montagem local do Super Hercules.

O C-390 responde com desempenho e potencial industrial. De acordo com os fabricantes, o C-130J-30 transporta até cerca de 20 toneladas e voa a 356 nós de cruzeiro, enquanto o C-390, movido a turbofans, leva até 26 toneladas e atinge 470 nós. A diferença, de aproximadamente 30% em carga e 32% em velocidade, pode reduzir o número de surtidas necessárias para a mesma missão. Desempenho em altitude, condições de pista, disponibilidade e custo ao longo do ciclo de vida, porém, terão de ser examinados conforme os requisitos efetivos da IAF, sem que um único indicador defina o vencedor. O C-390 oferece ainda à Índia a possibilidade de ingressar desde cedo na cadeia de um programa relativamente novo, cuja frota mundial está em expansão, enquanto o C-130J representa padronização e menor risco de transição. 

Do anúncio à autonomia
A eventual coexistência de polos em Vadodara, Vemagal, Hyderabad, Bengaluru, Nashik, Nagpur e Dholera aponta para uma especialização territorial crescente, mas esses centros têm maturidades muito diferentes: alguns produzem há anos, outros acabam de entregar a primeira aeronave e dois existem apenas como propostas condicionadas a encomendas. Montar aeronaves com conjuntos importados não equivale a dominar engenharia, ensaios, integração e certificação. A consolidação da Índia como polo aeronáutico dependerá de pedidos continuados, produtividade, qualidade certificada, mão de obra qualificada e capacidade exportadora. 

Para a Embraer, a Índia representa mais do que a venda de cargueiros. A presença simultânea nos segmentos militar e comercial, somada ao histórico do Netra e aos fornecedores indianos já integrados à sua cadeia, pode estabelecer relações industriais duradouras. A questão em aberto não é apenas qual aeronave a Índia comprará, mas qual parceria contribuirá melhor para a indústria que o país deseja construir. O C-390 encontra um ambiente favorável à sua proposta de industrialização; o C-130J reúne presença operacional e cadeia produtiva comprovadas. A decisão dependerá de critérios e compromissos que ainda não podem ser considerados resolvidos.

10 outubro, 2026

Embraer assume controle de empresa aeroespacial na Índia e amplia parceria estratégica com a Mahindra

Aquisição de 51% da Novavayu Aerospace ocorre oito dias após o anúncio dos planos para uma eventual linha de montagem do C-390 Millennium em Nagpur



*LRCA Defense Consulting - 10/10/2026 -12h20

A Embraer firmou um acordo para adquirir 51% do capital da Novavayu Aerospace Limited, empresa indiana constituída em julho de 2026 e atualmente pertencente à Mahindra Defence Systems Limited (MDSL). A operação foi comunicada pela Mahindra & Mahindra ao mercado financeiro indiano em 9 de outubro e tem conclusão prevista até 1º de dezembro de 2026. Com a transferência das ações, a Novavayu deixará de ser subsidiária integral da MDSL e passará à condição de empresa associada do grupo indiano.

A transação ocorre em um momento particularmente significativo da cooperação entre Embraer e Mahindra. Em 1º de outubro, as companhias anunciaram a escolha preliminar de Nagpur, no estado de Maharashtra, como localização de uma possível linha de montagem final do C-390 Millennium, condicionada à seleção da aeronave no programa de transporte militar médio (MTA) da Força Aérea Indiana (IAF). Embora a proximidade dos anúncios sugira uma possível conexão entre as iniciativas, nenhum documento divulgado até agora confirma que a Novavayu será responsável pela futura instalação.

Uma sociedade nova, com participação brasileira majoritária 
A Novavayu Aerospace foi constituída em 29 de julho de 2026 como subsidiária integral da Mahindra Defence Systems, que integra a estrutura societária da Mahindra & Mahindra por intermédio da Mahindra Advanced Technologies. Segundo o comunicado regulatório, a empresa ainda não havia registrado receitas ou rendimentos na data do anúncio.

Pela participação de 51%, a MDSL receberá aproximadamente 510 mil rúpias indianas. O valor modesto é compatível com a aquisição de uma participação em uma sociedade recém-criada e sem atividade comercial conhecida. Não representa, contudo, o investimento total que eventualmente poderá ser necessário para desenvolver operações industriais. O documento não informa compromissos futuros de capital, instalações, quadro de pessoal ou carteira de contratos.

A participação majoritária dará à Embraer uma posição acionária predominante na empresa indiana. O alcance dos poderes de gestão e das decisões reservadas aos sócios dependerá dos instrumentos societários aplicáveis, que não foram divulgados. O comunicado também esclarece que a operação não constitui transação entre partes relacionadas.

O projeto do C-390 e a escolha de Nagpur 
A cooperação entre as duas empresas começou a ganhar forma em fevereiro de 2024, com um memorando de entendimento voltado à promoção do C-390 Millennium no mercado indiano. Em outubro de 2025, a parceria avançou com um acordo de cooperação estratégica que passou a contemplar industrialização, fabricação local, montagem, desenvolvimento da cadeia de fornecedores e serviços de manutenção, reparo e revisão (MRO). Em fevereiro de 2026, as companhias anunciaram planos para desenvolver capacidade de MRO do C-390 na Índia, igualmente condicionados ao resultado do programa MTA.

O anúncio de 1º de outubro de 2026 representou outro avanço no planejamento. Embraer e Mahindra informaram que trabalham com o governo de Maharashtra e identificaram Nagpur como local potencial para a montagem final da aeronave. A proposta prevê, caso o programa seja adjudicado à parceria, o desenvolvimento gradual de uma base industrial indiana, envolvendo fornecedores, fabricação, serviços pós-venda, treinamento e suporte durante o ciclo de vida.

O C-390 Millennium é uma aeronave multimissão de transporte militar, com capacidade de carga de até 26 toneladas, destinada a missões como transporte de tropas e equipamentos, lançamento aéreo, evacuação aeromédica, busca e salvamento e apoio humanitário. A Embraer pretende disputar com esse modelo a renovação e ampliação da capacidade de transporte médio da IAF. 


Qual poderá ser a função da Novavayu? 
A criação de uma sociedade com participação majoritária brasileira oferece uma estrutura jurídica potencialmente útil para organizar atividades industriais e comerciais conjuntas na Índia. Entre as possibilidades estão a implantação de instalações, a contratação de fornecedores, a prestação de serviços de suporte e a execução de investimentos relacionados ao C-390. Essas hipóteses, entretanto, não foram confirmadas pelas empresas.

Também não é possível descartar que a Novavayu venha a ter um objeto mais amplo, abrangendo iniciativas aeroespaciais independentes do resultado da concorrência militar. O comunicado de 9 de outubro não esclarece a destinação operacional da sociedade nem a vincula expressamente à área de Nagpur. Assim, seria prematuro afirmar que a aquisição representa a constituição formal da futura fábrica do C-390. No entanto, representa um passo importante em direção a esse objetivo.

O que muda para a parceria 
Até agora, os anúncios públicos concentravam-se principalmente na cooperação comercial e no planejamento de capacidades industriais. O acordo de aquisição acrescenta um componente societário concreto, com participação definida, valor divulgado e prazo estimado de conclusão. A iniciativa indica disposição de aprofundar a relação empresarial, sem significar, por si só, a adjudicação do programa MTA ou a autorização para iniciar a produção de aeronaves na Índia.

A distinção é importante: a linha de montagem de Nagpur permanece condicionada à escolha do C-390 pelo governo indiano e à formalização dos instrumentos necessários. A compra de 51% da Novavayu, por sua vez, constitui uma operação societária anunciada separadamente, cuja conclusão ainda está prevista para ocorrer.

Para a Embraer, a nova participação poderá representar mais um instrumento de presença industrial no mercado indiano. A extensão dessa presença dependerá das atividades efetivamente atribuídas à Novavayu, de futuros aportes e, sobretudo, das decisões relativas ao programa de transporte militar. Por enquanto, o fato comprovado é que a parceria com a Mahindra deixou de se limitar a entendimentos e planos conjuntos e passou a incluir um acordo de controle acionário em uma empresa local.

01 outubro, 2026

Nagpur dá endereço ao projeto industrial do C-390 na Índia

Embraer e Mahindra avançam na preparação de uma linha de montagem e de uma rede de suporte, enquanto disputam o programa indiano de transporte médio



*LRCA Defense Consulting - 01/10/2026

A Embraer e o Grupo Mahindra identificaram Nagpur, no estado de Maharashtra, como a localização proposta para uma linha de montagem final do C-390 Millennium na Índia. Anunciada nesta quinta-feira, 1º de outubro, a definição acrescenta um passo concreto aos preparativos industriais da parceria, que disputa o programa de Aeronave de Transporte Médio (MTA) da Força Aérea Indiana. A implantação, porém, depende da seleção do cargueiro brasileiro e da formalização de uma encomenda pelo governo indiano.

Segundo o comunicado, as empresas trabalham com o Governo de Maharashtra para concluir os processos necessários e permitir que a infraestrutura seja implementada rapidamente, caso vençam a concorrência. Vinod Sahay, membro do Conselho Executivo do Grupo Mahindra, agradeceu ao governo estadual pela rápida alocação do terreno em Nagpur. O anúncio não informa a área, o valor do investimento ou o prazo de construção.

Esse é o avanço mais relevante em relação às manifestações recentes da Embraer. A proposta de produção local passa a ter uma cidade identificada e, conforme a declaração da Mahindra, terreno alocado. O movimento fortalece a preparação da candidatura, mas não representa uma decisão de compra da Força Aérea Indiana nem o início anunciado das obras.

Uma parceria que avança para a implantação industrial 
A cooperação começou com um memorando de entendimento assinado em fevereiro de 2024. Em outubro de 2025, Embraer e Mahindra firmaram um acordo estratégico que ampliou o trabalho conjunto em industrialização, fabricação, montagem, cadeia de suprimentos e manutenção, reparo e revisão, atividade conhecida pela sigla MRO.

Em fevereiro de 2026, as empresas detalharam a intenção de estabelecer capacidade de MRO na Índia. Agora, a identificação de Nagpur aproxima o planejamento da etapa de implantação física, embora a execução permaneça condicionada ao resultado do programa MTA.

Como o portal LRCA registrou em 27 de setembro, Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, já havia reafirmado a Mahindra como parceira da proposta militar, esclarecendo que a colaboração com o Grupo Adani se concentra na aviação comercial. O comunicado desta quinta-feira acrescenta uma definição territorial e o envolvimento do governo estadual a essa estrutura de cooperação já conhecida.

Para Bosco, a identificação de Nagpur constitui um passo importante na construção de uma base aeroespacial de longo prazo na Índia. Segundo a Embraer, a unidade proposta envolveria conhecimentos de montagem de aeronaves, integração de sistemas, engenharia de manufatura e desenvolvimento de fornecedores locais.

Por que Nagpur importa 
Nagpur já abriga atividades aeronáuticas e o projeto MIHAN, que reúne aeroporto, zona econômica especial e áreas destinadas a manufatura e serviços. A infraestrutura regional ajuda a explicar a atratividade da cidade para uma instalação que precisará combinar produção industrial, logística e acesso aeroportuário. Trata-se de uma leitura das condições locais, não de uma justificativa técnica detalhada divulgada por Embraer e Mahindra.

Há um precedente expressivo. Em junho de 2025, a Dassault Aviation e a Reliance anunciaram um acordo para fabricar jatos executivos Falcon 2000 LXS na Índia. O projeto prevê ampliar as instalações da Dassault Reliance Aerospace Limited, no MIHAN, em Nagpur, com a meta anunciada de realizar o primeiro voo de um Falcon 2000 fabricado localmente até 2028.

Esse histórico demonstra que a proposta do C-390 se insere em uma região com atividade aeroespacial e outros projetos de expansão. Não significa, entretanto, que as empresas compartilharão instalações ou fornecedores. O comunicado da Embraer identifica Nagpur, mas não especifica o lote nem confirma que sua unidade ficará dentro da zona econômica especial do MIHAN.

A disputa também envolve indústria e sustentação da frota
A dimensão industrial ocupa posição central na concorrência. Segundo o Financial Express, em reportagem de 29 de setembro, o programa contempla a aquisição de 60 aeronaves e o pedido de propostas foi emitido em agosto. O jornal destaca as ofertas do C-390, com a Mahindra, e do C-130J-30 Super Hercules, com a Tata Advanced Systems. O comunicado atual da Embraer não detalha quantidades ou condições do processo de aquisição.

A candidatura norte-americana conta com uma relação industrial anterior. Em setembro de 2024, a Lockheed Martin e a Tata Advanced Systems anunciaram um acordo abrangendo manutenção na Índia e a possibilidade de ampliar a fabricação e a montagem do C-130J no país, caso obtenham o contrato MTA e as aprovações governamentais necessárias.

A Lockheed Martin também informou, em dezembro de 2025, a realização da cerimônia de início das obras de uma instalação de MRO em Bengaluru. Essa estrutura foi concebida para apoiar uma aeronave que já integra a frota indiana. Assim, a comparação entre as propostas envolve tanto as características dos aviões quanto a capacidade de produzir, manter e sustentar sua operação por décadas.

No caso do C-390, o plano divulgado em fevereiro prevê manutenção básica e pesada, inspeções estruturais, reparo e revisão de componentes, suporte de aviônicos e treinamento. A Embraer também avalia transformar a Índia em um centro regional de manutenção para outros operadores, possibilidade que ainda depende da concretização do projeto.

Montagem local e autonomia operacional 
A parceria pretende integrar progressivamente empresas indianas à fabricação, aos serviços de pós-venda e ao suporte durante o ciclo de vida do C-390. A proposta se alinha às iniciativas Make in India e Atmanirbhar Bharat, voltadas à produção local e à autossuficiência indiana.

Do ponto de vista operacional, dispor de manutenção e fornecedores próximos pode reduzir a necessidade de enviar componentes ou aeronaves ao exterior e facilitar a formação de pessoal. Esses benefícios potenciais dependerão, contudo, da profundidade da capacitação efetivamente contratada, dos estoques disponíveis e das responsabilidades atribuídas à indústria local.

O C-390 oferece capacidade de carga útil de até 26 toneladas e foi projetado para operar em pistas temporárias ou não pavimentadas, segundo a fabricante. Suas missões incluem transporte de tropas e cargas, lançamento aéreo, evacuação médica, busca e salvamento, combate a incêndios e apoio humanitário. A Embraer também informa que a aeronave pode receber configuração de reabastecimento em voo, como reabastecedor e recebedor.

A implantação de uma linha de montagem, por si só, não esclarece o grau de autonomia tecnológica que a Índia terá. O anúncio não apresenta percentuais de conteúdo local, relação de componentes a fabricar, direitos sobre tecnologias ou a divisão de trabalho entre unidades brasileiras e indianas. Esses elementos serão necessários para avaliar o alcance industrial de um eventual contrato.

O significado para a Embraer e o Brasil 
Para a Embraer, uma encomenda indiana acompanhada de produção local poderá ampliar a escala do C-390 e sua presença em um mercado que exige participação industrial doméstica. O acordo estratégico de 2025 já estabelecia a ambição de atender necessidades indianas e regionais, e não apenas entregar aeronaves prontas.

Para o Brasil, os possíveis ganhos incluem a expansão internacional de uma plataforma desenvolvida no País e oportunidades de fornecimento e serviços vinculadas ao programa. A dimensão desses benefícios, entretanto, dependerá do contrato e da parcela de trabalho preservada ou ampliada na cadeia brasileira. Sem essa divisão, não é possível quantificar exportações, empregos ou efeitos sobre a produção nacional.

A identificação de Nagpur permite à Embraer e à Mahindra apresentar um planejamento industrial mais definido à Índia. Os próximos marcos relevantes serão a conclusão dos processos locais, a seleção da aeronave e a contratação. Até lá, terreno e preparação industrial são sinais de comprometimento com a proposta, sem constituir garantia de vitória na concorrência.

07 março, 2026

Embraer teria posicionado o C-390 como plataforma "nave-mãe" multimissão para a Índia, com enxame de drones e capacidade Rapid Dragon

Portal indiano detalha proposta da fabricante brasileira de transformar o C-390 Millennium em uma plataforma aérea capaz de lançar enxames de drones e empregar o conceito Rapid Dragon, tema que esta Consultoria vem acompanhando desde o final de 2024. 

Imagem meramente ilustrativa

*LRCA Defense Consulting - 06/03/2026

"A Embraer está posicionando o C-390 não meramente como um transportador tático, mas como uma plataforma modular multimissão capaz de evoluir para uma avançada 'nave-mãe' aérea."— IDRW, março de 2026

O conceituado portal indiano de defesa Indian Defence Research Wing (IDRW) publicou nesta quinta-feira, 5 de março de 2026, uma análise detalhada sobre o posicionamento estratégico da Embraer junto à Força Aérea Indiana (IAF): o C-390 Millennium não como um simples transportador tático, mas como uma plataforma aérea modular de alto espectro, capaz de se transformar em uma verdadeira "nave-mãe" de drones e de empregar capacidades avançadas de arsenal aéreo, incluindo o conceito norte-americano Rapid Dragon.

Segundo o IDRW, a proposta da fabricante brasileira vai muito além do transporte convencional de tropas e cargas. A Embraer traçou para a IAF um roteiro de codesenvolvimento de variantes especializadas, abrangendo missões de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (IVR), inteligência de sinais (SIGINT) e conceitos avançados de emprego de sistemas não tripulados — inspirados na doutrina de aeronave-arsenal que vem ganhando corpo nas principais forças aéreas do mundo.

O que é o conceito de "nave-mãe" proposto pela Embraer
No coração da proposta está a ideia de que um transportador moderno pode funcionar como um carregador aéreo de sistemas flexível. A grande rampa traseira do C-390 e sua arquitetura de carga paletizada permitem que kits de missão sejam trocados rapidamente, convertendo a aeronave de um veículo logístico em uma plataforma de lançamento de sistemas não tripulados. Essa característica modular é central: qualquer aeronave C-390 poderia receber os kits necessários e estar pronta para missões especiais em poucas horas, sem modificações estruturais permanentes.

A Embraer também explorou junto à IAF conceitos de recuperação aérea de drones comparáveis aos experimentos de captura em voo realizados em outros programas de ponta da aviação mundial. Nessa configuração, o porão de carga do C-390 poderia abrigar um sistema de captura baseado em guincho para recolher drones em retorno ao interior da aeronave, possibilitando reutilização e reimplantação rápida. Tal capacidade transformaria efetivamente o transportador em um nó de comando de drones reutilizável, estendendo a resistência operacional sem exigir bases avançadas em território hostil.

Outra dimensão do conceito de nave-mãe envolve o transporte externo sob as asas. Os hardpoints alares do C-390, originalmente previstos para pods de reabastecimento aéreo, podem suportar plataformas não tripuladas de maior porte, inviáveis de serem lançadas pela rampa traseira. Esses drones transportados externamente poderiam ser liberados em voo para atuar como repetidores de sensores, batedores de reconhecimento ou ativos de apoio eletrônico, coordenados pelos sistemas de missão embarcados.

O conceito Rapid Dragon e o enxame de drones
O IDRW destaca ainda que a Embraer apresentou à IAF a possibilidade de implementar o conceito Rapid Dragon, desenvolvido originalmente pelos Estados Unidos. Nessa configuração, paletes de carga padrão são adaptados para comportar mísseis de cruzeiro ou munições planadas de longo alcance, que são lançadas pela rampa traseira durante o voo, transformando qualquer C-390 em uma plataforma de ataque stand-off sem modificações permanentes na aeronave. O conceito já foi testado com sucesso nos EUA a partir de aeronaves C-130 e C-17, e sua adaptação ao C-390 representaria um salto qualitativo considerável para a IAF.

Paralelamente, a proposta de emprego de enxames de drones lançados a partir da rampa traseira alinha o C-390 com as tendências mais modernas de guerra aérea. A saturação de defesas adversárias por múltiplos sistemas autônomos coordenados é uma das lições mais contundentes extraídas dos conflitos recentes na Ucrânia e em Nagorno-Karabakh, e a IAF demonstra crescente interesse em incorporar essa doutrina à sua força.

C-390 Millennium: dados técnicos relevantes

  • Motorização: dois turbofans IAE V2500-E5
  • Peso máximo de decolagem: 81.500 kg
  • Carga transportável: até 26 toneladas métricas
  • Capacidade de tropas: até 80 soldados equipados
  • Alcance com carga plena: 5.056 km (2.730 NM)
  • Velocidade de cruzeiro: ~850 km/h (Mach 0,80)
  • Hardpoints alares: originalmente para pods REVO; adaptáveis para armamento e drones
  • Parceiros na Índia: Mahindra Defence Systems (produção local e MRO)

Multimissão: a vantagem comparativa do C-390 na licitação MTA
A licitação MTA (Medium Transport Aircraft) da IAF prevê a aquisição de 60 aeronaves para substituir a frota de Antonov An-32 e operar ao lado dos C-17 Globemaster III, C-130J Super Hercules e dos recém-adquiridos Airbus C295. Trata-se de uma das maiores aquisições militares de transporte aéreo do mundo na última década, estimada em cerca de cem mil crores de rúpias (aproximadamente 12 bilhões de dólares). A concorrência é acirrada, com o Lockheed Martin C-130J Super Hercules como principal rival.

Ao apresentar o C-390 como uma plataforma que vai muito além do transporte convencional, a Embraer aposta em uma vantagem decisiva: enquanto concorrentes entregam primordialmente capacidade logística, o C-390 multimissão oferece, em um único chassi, transporte de tropas e cargas, reabastecimento aéreo (REVO), evacuação aeromédica (EVAM), lançamento de paraquedistas, combate a incêndios florestais (MAFFS), operação em pistas curtas e não pavimentadas, patrulha marítima armada (MPA), Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (IVR) e, potencialmente, lançamento e recuperação de drones e emprego do conceito Rapid Dragon.

A parceria com a Mahindra Defence Systems, formalizada por Memorando de Entendimento em fevereiro de 2024 e ampliada para um acordo estratégico de produção local em outubro de 2025, reforça o alinhamento com a política Atmanirbhar Bharat (India Autossuficiente), um critério fundamental para a IAF. Em fevereiro de 2026, Embraer e Mahindra anunciaram ainda um acordo para o estabelecimento de uma instalação de manutenção, reparo e revisão (MRO) no país, caso o C-390 vença a licitação. A linha de montagem final prevista na Índia permitiria ao país tornar-se hub regional de produção, MRO e treinamento para toda a Ásia-Pacífica.

Imagem meramente ilustrativa

O contexto geopolítico: China, modernização e a urgência indiana
Vale registrar que o tema não é exatamente novo. Esta Consultoria vem acompanhando os desdobramentos da proposta da Embraer para a IAF desde dezembro de 2024, quando o IDRW noticiou pela primeira vez a oferta de uma variante armada do C-390M com hardpoints alares. Desde então, análises subsequentes sobre as variantes de Patrulha Marítima Armada, IVR e nave-mãe de drones foram publicadas aqui, à medida que o quadro ia se tornando mais nítido. A matéria de ontem do IDRW agrega novos elementos — em especial o conceito Rapid Dragon e a recuperação aérea de drones, e consolida, com autoridade, um cenário de múltiplas camadas que vai bem além do transporte convencional.

A proposta da Embraer ganha contornos ainda mais relevantes no contexto geopolítico regional. A China, que mantém longas disputas fronteiriças com a Índia, avança aceleradamente no desenvolvimento de plataformas de guerra baseada em drones. O drone-porta-aviões Jiu Tian, revelado no Zhuhai Air Show de novembro de 2024, é capaz de transportar e lançar até 100 drones kamikaze a partir de altitudes de 15.000 metros, com raio de ação de 7.000 km. Trata-se de uma ameaça assimétrica de nova geração que não passa despercebida pelos planejadores estratégicos de Nova Délhi.

Nesse quadro, a possibilidade de que a própria frota de transportadores da IAF, caso o C-390 seja selecionado, possa desempenhar papel análogo, com vantagens operacionais consideráveis por ser tripulada, representa um argumento de peso. A solução modular do C-390 permite que a mesma aeronave alterne entre missões logísticas rotineiras e funções de combate avançado sem necessidade de aeronaves dedicadas adicionais, com impacto positivo nos custos do ciclo de vida.

O DRDO (Organização de Pesquisa e Desenvolvimento de Defesa da Índia) também se move nessa direção: em colaboração com o setor privado, a organização desenvolve enxames de drones com cargas úteis integradas, projetados especificamente para serem lançados a partir de transportadores da IAF. A convergência entre essa demanda doméstica e a oferta da Embraer é, no mínimo, estrategicamente conveniente.

Índia: o maior operador mundial do C-390?
 A materialização dessas propostas em contrato dependerá de múltiplos fatores: a avaliação técnica e financeira pela IAF, o ritmo das negociações sobre transferência de tecnologia (ToT), os resultados dos estudos colaborativos em andamento entre Embraer, FAB e FAP, e as decisões políticas do governo Modi no âmbito do Atmanirbhar Bharat. O que está claro, entretanto, é que a Embraer construiu, ao longo dos últimos anos, uma proposta de valor excepcionalmente robusta para o mercado indiano, e que o C-390 Millennium está muito bem posicionado para se tornar a espinha dorsal da aviação de transporte tático da IAF nas próximas décadas.

Se confirmada a seleção, a Índia se tornará o maior operador mundial do C-390, superando a soma de todos os clientes existentes, incluindo a própria Força Aérea Brasileira. Um fato que, por si só, diz muito sobre o alcance e a relevância estratégica desta aeronave e sobre a capacidade da Embraer de transformar um projeto 100% brasileiro em vetor global de poder aéreo.

04 março, 2026

Embraer C-390 Millennium entra de fato na disputa pelo maior contrato de transporte militar da Índia

Conselho de Defesa indiano aprova avanço na aquisição de 60 aeronaves de transporte médio; aviação brasileira compete com Airbus e Lockheed Martin pela renovação da frota da Força Aérea Indiana


*LRCA Defense Consulting - 04/03/2026

O processo de renovação da frota de transporte da Força Aérea Indiana (FAI) ganhou impulso decisivo nesta terça-feira. O Conselho de Aquisições de Defesa (Defence Procurement Board – DPB) do Ministério da Defesa da Índia recomendou o avanço da proposta de aquisição de 60 aeronaves de transporte médio (MTA, na sigla em inglês) para a FAI. Com o aval do órgão, o C-390 Millennium, da brasileira Embraer, se aproxima de uma das maiores disputas de procurement militar da Ásia.

O programa agora aguarda aprovação do Conselho de Aquisição de Defesa (DAC) e do Comitê de Gabinete de Segurança (CCS). Após a finalização do contrato, 12 aeronaves serão adquiridas prontas para voo, enquanto as outras 48 serão fabricadas domesticamente, em linha com a política "Make in India" do governo Modi.

A disputa
Três gigantes da aviação militar estão na corrida. A FAI emitiu uma Solicitação de Informações (RFI) em dezembro de 2022 para até 80 aeronaves MTA. As respostas vieram da Airbus, com o A-400M; da Lockheed Martin, com o C-130J; e da Embraer, com o C-390 Millennium.

Na categoria de capacidade de carga entre 18 e 30 toneladas, a MTA tem por objetivo substituir tanto as antigas aeronaves russo-soviéticas AN-32 quanto os IL-76 da frota da FAI. Trata-se de um programa avaliado em mais de US$ 2,5 bilhões.

O trunfo brasileiro
O C-390 Millennium desponta como um dos favoritos após anos de avaliações. O C-390 emergiu como o principal candidato em testes realizados em 2024, superando rivais em capacidade de carga e desempenho em pistas não pavimentadas.

Ao contrário do C-130J, movido a turboélice, o KC-390 é propulsionado por motores a jato, oferece capacidade de carga de 26 toneladas contra as 20 toneladas do C-130J, e cruza a 470 nós, permitindo operações de 25 a 30% mais rápidas, mesmo em pistas curtas ou não pavimentadas.

A Embraer reitera que a frota em serviço do C-390 apresenta uma taxa de conclusão de missões acima de 99%. O presidente e CEO da fabricante, Francisco Gomes Neto, foi pessoalmente a Nova Délhi como parte da delegação do presidente Lula para reforçar a oferta brasileira. Neto afirmou que, se vencer o contrato indiano, a empresa transformará a Índia em seu principal polo de produção para atender ao mercado da região Ásia-Pacífico.

O C-390 Millennium foi selecionado pelas forças aéreas do Brasil, Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, Coreia do Sul, Uzbequistão, República Tcheca, Suécia, Eslováquia e Lituânia.

Parceria estratégica com a Mahindra
Para consolidar a candidatura, a Embraer apostou em uma aliança industrial de peso. Em outubro de 2025, a Embraer Defense & Security e o Mahindra Group assinaram um Acordo de Cooperação Estratégica para promover o C-390 Millennium no programa MTA da FAI, com planos para produção local, abrangendo montagem, integração na cadeia de suprimentos e potencial para exportações.

Em fevereiro de 2026, as duas empresas foram ainda mais longe. A Embraer anunciou planos para estabelecer um centro de Manutenção, Reparo e Revisão (MRO) na Índia, em colaboração com o Mahindra Group, caso o C-390 seja selecionado no programa MTA da FAI. A instalação prevê serviços de manutenção de base e pesada, inspeções estruturais, reparo de componentes, suporte de aviônicos e treinamento.

A Embraer também avalia a possibilidade de a Índia funcionar como um hub regional de MRO, prestando serviços a outros operadores do C-390 Millennium no futuro. 

Presença histórica e visão de longo prazo
A relação entre a Embraer e a Índia não começa agora. A plataforma ERJ 145 da Embraer serve de base para o sistema de alerta precoce aerotransportado (AEW&C) 'Netra' da FAI, enquanto aeronaves Legacy 600 são utilizadas para transporte VIP pela Força Aérea e pela Força de Segurança de Fronteira. A Embraer tem presença estabelecida na Índia, com quase 50 aeronaves de 11 tipos diferentes em operação no país em funções de aviação comercial, de defesa e executiva.

A decisão final sobre o vencedor do programa MTA é aguardada para o segundo semestre de 2026. Para a Embraer, uma vitória na Índia não representaria apenas um contrato bilionário; significaria firmar a posição do C-390 Millennium como o novo padrão global de transporte tático militar do século XXI.

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