Vencedor de licitação bilionária do Exército, o obuseiro autopropulsado
da Elbit Systems segue sem contrato assinado. A Ares, subsidiária
brasileira da empresa israelense, exibe uma maquete do sistema em suas
instalações. Do lado de fora, o mundo está em guerra e o alto comando
brasileiro reconhece: o país não tem defesa compatível com o que seria
necessário
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| Maquete do obuseiro ATMOS na sede da Ares, já com a designação do EB: VBCOAP 155 mm SR (crédito: @Defence360 no X ) |
*LRCA Defense Consulting - 06/06/2026
Nas instalações da Ares Aeroespacial e Defesa, no Rio de Janeiro, uma maquete do obuseiro ATMOS ocupa um lugar de destaque. O detalhe resume bem a situação do programa: a subsidiária brasileira da Elbit Systems está pronta para cumprir sua parte, os contratos de suporte logístico e transferência de tecnologia já foram desenhados, a licitação foi concluída, o Exército escolheu o vencedor. Falta apenas a assinatura.
Mais de dois anos após o início do processo formal de seleção e mais de um ano após a declaração de vencedor, o Exército Brasileiro ainda não contratou os 36 obuseiros autopropulsados de 155 mm sobre rodas (VBCOAP 155 mm SR) que o Programa Estratégico Forças Blindadas aguarda desde os primeiros estudos, iniciados em 2017. O motivo não é técnico. Não é jurídico. É político.
Um vencedor sem contrato
Em 29 de abril de 2024, o Comando Logístico do Exército (COLOG) divulgou o resultado do processo licitatório internacional RFP/RFT COLOG nº 01/2023, aberto em agosto de 2023. A vencedora foi a Elbit Systems Land Ltd, com o ATMOS 155 mm/52 calibres montado em chassi Tatra T-815 6×6. A empresa israelense superou três concorrentes: a tcheca Excalibur International (com o Zuzana 2, em segundo lugar), a francesa KNDS (CAESAR, em terceiro) e a chinesa Norinco (SH-15, em quarto). O sistema israelense atendeu a todos os requisitos absolutos estabelecidos pelo Exército e foi avaliado em quatro dimensões: técnica, comercial, suporte logístico integrado e offset.
A cerimônia de assinatura do contrato inicial, que previa a entrega de um lote de amostra com dois exemplares, estava marcada para 7 de maio de 2024. Não ocorreu. O Exército suspendeu o ato por 60 dias, alegando necessidade de revisão jurídica. Nos bastidores, a razão era outra: o conflito em Gaza e a resistência política de parte do governo Lula à formalização de um contrato bilionário com empresa israelense.
O presidente Lula, pressionado por parlamentares do PT, PDT, PSOL e PCdoB pela anulação de todos os contratos de defesa com Israel, acabou dando aval à compra. O argumento do Exército era objetivo: o ATMOS era a melhor proposta técnica e a mais vantajosa para o país em razão da transferência de tecnologia e da criação de empregos. Mas o contrato continuou suspenso. Em outubro de 2024, o ministro da Defesa, José Múcio, foi explícito ao admitir publicamente que o programa estava parado por questões ideológicas, citando a influência do assessor especial Celso Amorim.
Em dezembro de 2024, o Tribunal de Contas da União (TCU) rejeitou a medida cautelar interposta pela KNDS, que pedia a reavaliação do resultado. A decisão do TCU eliminou o último obstáculo formal. Mesmo assim, no início de 2026, o status do programa era descrito por analistas setoriais como o de um "adiamento não anunciado", sem data para assinatura do contrato.
A ToT que está na mesa
A proposta da Elbit Systems não era apenas a venda de 36 viaturas. Incluía um conjunto estruturado de contrapartidas industriais que, se concretizadas, posicionariam o Brasil como fornecedor global de munições de 155 mm. São três frentes principais.
A primeira envolve a Indústria Brasileira de Material Bélico (IMBEL). A Elbit assinou um memorando de entendimento com a IMBEL para investimentos na Fábrica de Juiz de Fora, com o objetivo de ampliar a capacidade de produção de granadas e cargas de 155 mm e habilitar a fabricação de modelos mais modernos. Hoje, a IMBEL produz apenas a granada M107 de alto explosivo, modelo básico e sem certificação Otan, o que limita severamente seu potencial de exportação.
A segunda frente envolve a empresa brasileira CSD (Componentes e Sistemas de Defesa). A intenção declarada pela Elbit é transformar a CSD na principal fornecedora de munições para todos os sistemas ATMOS e SOLTAN em operação no mundo, incluindo munições de alcance estendido e guiadas. O projeto destacaria o Brasil como exportador de munições de artilharia de alta tecnologia para o mercado internacional.
A terceira frente é a montagem nacional. A proposta negociada com o Ministério da Defesa previa que 34 dos 36 obuseiros seriam integrados e montados no Brasil, utilizando as competências da AEL Sistemas (Porto Alegre) e da Ares Aeroespacial e Defesa (Rio de Janeiro), ambas subsidiárias brasileiras da Elbit. Os dois primeiros exemplares, do lote de amostra, seriam produzidos integralmente em Israel e enviados para avaliações técnica e operacional no Centro de Avaliações do Exército (CAEx).
O diretor comercial da Ares, Frederico Medella, confirmou que a empresa "possui vasta experiência na execução de contratos de suporte logístico e ToT com o Exército Brasileiro". A Ares tem histórico comprovado nessa modalidade, incluindo o contrato de US$ 100 milhões firmado em 2017 para o fornecimento de estações de armas remotamente controladas às Forças Armadas.
O offset formal, avaliado como critério classificatório na licitação, contemplava ainda o desenvolvimento de um simulador de treinamento de baixo custo, aproveitando a experiência da Ares na área. Somados, os elementos da proposta configuravam uma das transferências de tecnologia mais abrangentes já oferecidas ao Exército Brasileiro em um programa de artilharia.
Nas instalações da Ares Aeroespacial e Defesa, no Rio de Janeiro, uma maquete do obuseiro ATMOS ocupa um lugar de destaque. O detalhe resume bem a situação do programa: a subsidiária brasileira da Elbit Systems está pronta para cumprir sua parte, os contratos de suporte logístico e transferência de tecnologia já foram desenhados, a licitação foi concluída, o Exército escolheu o vencedor. Falta apenas a assinatura.
Mais de dois anos após o início do processo formal de seleção e mais de um ano após a declaração de vencedor, o Exército Brasileiro ainda não contratou os 36 obuseiros autopropulsados de 155 mm sobre rodas (VBCOAP 155 mm SR) que o Programa Estratégico Forças Blindadas aguarda desde os primeiros estudos, iniciados em 2017. O motivo não é técnico. Não é jurídico. É político.
Um vencedor sem contrato
Em 29 de abril de 2024, o Comando Logístico do Exército (COLOG) divulgou o resultado do processo licitatório internacional RFP/RFT COLOG nº 01/2023, aberto em agosto de 2023. A vencedora foi a Elbit Systems Land Ltd, com o ATMOS 155 mm/52 calibres montado em chassi Tatra T-815 6×6. A empresa israelense superou três concorrentes: a tcheca Excalibur International (com o Zuzana 2, em segundo lugar), a francesa KNDS (CAESAR, em terceiro) e a chinesa Norinco (SH-15, em quarto). O sistema israelense atendeu a todos os requisitos absolutos estabelecidos pelo Exército e foi avaliado em quatro dimensões: técnica, comercial, suporte logístico integrado e offset.
A cerimônia de assinatura do contrato inicial, que previa a entrega de um lote de amostra com dois exemplares, estava marcada para 7 de maio de 2024. Não ocorreu. O Exército suspendeu o ato por 60 dias, alegando necessidade de revisão jurídica. Nos bastidores, a razão era outra: o conflito em Gaza e a resistência política de parte do governo Lula à formalização de um contrato bilionário com empresa israelense.
O presidente Lula, pressionado por parlamentares do PT, PDT, PSOL e PCdoB pela anulação de todos os contratos de defesa com Israel, acabou dando aval à compra. O argumento do Exército era objetivo: o ATMOS era a melhor proposta técnica e a mais vantajosa para o país em razão da transferência de tecnologia e da criação de empregos. Mas o contrato continuou suspenso. Em outubro de 2024, o ministro da Defesa, José Múcio, foi explícito ao admitir publicamente que o programa estava parado por questões ideológicas, citando a influência do assessor especial Celso Amorim.
Em dezembro de 2024, o Tribunal de Contas da União (TCU) rejeitou a medida cautelar interposta pela KNDS, que pedia a reavaliação do resultado. A decisão do TCU eliminou o último obstáculo formal. Mesmo assim, no início de 2026, o status do programa era descrito por analistas setoriais como o de um "adiamento não anunciado", sem data para assinatura do contrato.
A ToT que está na mesa
A proposta da Elbit Systems não era apenas a venda de 36 viaturas. Incluía um conjunto estruturado de contrapartidas industriais que, se concretizadas, posicionariam o Brasil como fornecedor global de munições de 155 mm. São três frentes principais.
A primeira envolve a Indústria Brasileira de Material Bélico (IMBEL). A Elbit assinou um memorando de entendimento com a IMBEL para investimentos na Fábrica de Juiz de Fora, com o objetivo de ampliar a capacidade de produção de granadas e cargas de 155 mm e habilitar a fabricação de modelos mais modernos. Hoje, a IMBEL produz apenas a granada M107 de alto explosivo, modelo básico e sem certificação Otan, o que limita severamente seu potencial de exportação.
A segunda frente envolve a empresa brasileira CSD (Componentes e Sistemas de Defesa). A intenção declarada pela Elbit é transformar a CSD na principal fornecedora de munições para todos os sistemas ATMOS e SOLTAN em operação no mundo, incluindo munições de alcance estendido e guiadas. O projeto destacaria o Brasil como exportador de munições de artilharia de alta tecnologia para o mercado internacional.
A terceira frente é a montagem nacional. A proposta negociada com o Ministério da Defesa previa que 34 dos 36 obuseiros seriam integrados e montados no Brasil, utilizando as competências da AEL Sistemas (Porto Alegre) e da Ares Aeroespacial e Defesa (Rio de Janeiro), ambas subsidiárias brasileiras da Elbit. Os dois primeiros exemplares, do lote de amostra, seriam produzidos integralmente em Israel e enviados para avaliações técnica e operacional no Centro de Avaliações do Exército (CAEx).
O diretor comercial da Ares, Frederico Medella, confirmou que a empresa "possui vasta experiência na execução de contratos de suporte logístico e ToT com o Exército Brasileiro". A Ares tem histórico comprovado nessa modalidade, incluindo o contrato de US$ 100 milhões firmado em 2017 para o fornecimento de estações de armas remotamente controladas às Forças Armadas.
O offset formal, avaliado como critério classificatório na licitação, contemplava ainda o desenvolvimento de um simulador de treinamento de baixo custo, aproveitando a experiência da Ares na área. Somados, os elementos da proposta configuravam uma das transferências de tecnologia mais abrangentes já oferecidas ao Exército Brasileiro em um programa de artilharia.
"Nós não temos defesa"
O impasse em torno do ATMOS ocorre em paralelo a um debate cada vez mais urgente sobre a capacidade de defesa do Brasil. No último dia do Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre (SSNTFT 2026), realizado em Brasília em 27 de maio de 2026, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, fez uma declaração que rompeu com décadas de discurso oficial. "No passado, não tínhamos nenhuma ameaça na América do Sul. Hoje temos uma percepção de ameaça, incluindo nossa atuação constitucional e legal de auxiliar os Poderes da República na faixa de fronteira, que é uma preocupação enorme, muito vasta. Temos que estar olhando para ela", afirmou.
A declaração, feita diante do Alto Comando e de representantes da Base Industrial de Defesa (BID), reconhece oficialmente uma mudança estratégica no entorno regional. O general não especificou as fontes da ameaça, mas o contexto é conhecido: a crise venezuelana, a disputa por Essequibo, a presença crescente de crime organizado transnacional na faixa de fronteira e a instabilidade política em países vizinhos.
Poucos dias antes, em encontro reservado com representantes da BID em Brasília, o ministro da Defesa, José Múcio, havia feito um diagnóstico ainda mais contundente. "A Defesa é precaríssima. A Defesa brasileira é incompatível com o tamanho e as potencialidades do Brasil. Nós não temos defesa. Muita gente pensa que nós temos como nos defender; nós não temos", declarou o ministro, segundo reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo. Múcio citou como exemplo a mobilização militar realizada quando a Venezuela ameaçou avançar sobre a região de Essequibo, território disputado com a Guiana, e reforçou a necessidade de elevar os investimentos em Defesa para pelo menos 2% do PIB, contra pouco mais de 1% hoje.
O mesmo ministro que reconhece publicamente a fragilidade da defesa brasileira é o responsável por viabilizar, no plano político, a assinatura do contrato do ATMOS. A contradição não passou despercebida no setor.
Um mundo armado, um calendário que escapa
O contexto internacional que cerca o impasse é o mais desfavorável possível para o adiamento de decisões de defesa. A guerra na Ucrânia demonstrou que o apoio de fogo de artilharia continua sendo o eixo central do combate terrestre de alta intensidade e que a autonomia industrial em munições é condição de sobrevivência operacional. O conflito no Oriente Médio, a tensão entre Estados Unidos e Irã e o rearmamento acelerado de potências médias e grandes reforçam a percepção, expressa pelo próprio ministro Múcio, de que "todo mundo está armado".
O ATMOS, ironicamente, é um produto com histórico de combate exatamente nessas regiões. Utilizado em operações no Oriente Médio, o sistema acumula registros operacionais que orientaram parte dos requisitos técnicos fixados pelo Exército Brasileiro. A escolha pelo chassi Tatra T-815 6×6, o mesmo utilizado pelo sistema de foguetes ASTROS II MK nas versões mais recentes, foi um elemento adicional de padronização logística que pesou na avaliação.
O cronograma original previa a entrega dos dois exemplares do lote de amostra no segundo trimestre de 2025, a partir da assinatura do contrato inicial ainda em 2024. Aprovados os exemplares, o COLOG assinaria o contrato principal para as 34 unidades restantes, com entregas anuais até 2034. Cada mês de atraso comprime esse horizonte e encarece o programa.
Do lado da Ares, a maquete na parede continua esperando. A subsidiária brasileira da Elbit é o elo local de uma cadeia que, para ganhar vida, depende de uma decisão que está menos no plano técnico do que no plano da vontade política.
O que está em jogo além do obuseiro
O atraso no ATMOS não é um caso isolado. Insere-se num padrão mais amplo de programas estratégicos do Exército que dependem de importação e que encontram resistências de diferentes origens. O contingenciamento de R$ 4,363 bilhões no orçamento do Ministério da Defesa, o maior corte nominal entre os ministérios no exercício de 2025, colocou em risco simultâneo o submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto, as fragatas Classe Tamandaré, os caças Gripen NG da FAB, as aeronaves KC-390 e os programas de sistemas terrestres.
No setor de munições, o quadro é sintomático: em janeiro de 2025, o Exército Brasileiro emitiu, por meio de sua comissão em Washington, um pedido de informações (RFI-0159/2025) para a aquisição de munições de 105 mm e 155 mm no exterior. O país que quer ser exportador de granadas de alcance estendido ainda busca no mercado internacional as munições básicas para operar seus obuseiros existentes.
Para a BID brasileira, a equação é conhecida: sem contratos, não há escala; sem escala, não há transferência de tecnologia que se sustente. A ToT prevista no contrato do ATMOS, que incluiria a modernização da IMBEL e a transformação da CSD em fornecedora global, só se materializa se o contrato existir. Enquanto a maquete fica na parede da Ares, o potencial industrial associado ao programa permanece no papel.


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