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07 setembro, 2026

Avibras pode assumir montagem dos 36 obuseiros ATMOS do Exército

Proposta apresentada pela Elbit prevê participação da empresa de Jacareí na montagem dos dois exemplares de avaliação e das 34 viaturas de série, abrindo uma nova frente de negócios para a fabricante do sistema ASTROS 

Imagem meramente ilustrativa renderizada por IA


*LRCA Defense Consulting - 07/09/2026

A Avibras Aeroco poderá assumir em Jacareí (SP) a montagem dos 36 obuseiros autopropulsados ATMOS 2000 de 155 mm que o Exército Brasileiro pretende adquirir da israelense Elbit Systems. A proposta que incorpora a empresa brasileira ao arranjo industrial foi apresentada ao Comando Logístico do Exército (COLOG) no fim de agosto e agora deverá passar por análise jurídica antes de qualquer contratação.

A informação foi revelada pelo jornalista Marcelo Godoy, de O Estado de S. Paulo, em reportagem publicada nesta segunda-feira (7). Segundo a apuração, a solução prevê que os dois exemplares destinados ao lote de amostra e as 34 viaturas de série sejam montados em Jacareí pela Avibras, enquanto a produção de munições ficará associada à IMBEL. O valor estimado da aquisição é de aproximadamente R$ 800 milhões.

Uma licitação que espera há dois anos 
A proposta representa uma tentativa de destravar uma aquisição que permanece sem contrato desde 2024, embora o ATMOS tenha sido formalmente classificado em primeiro lugar na concorrência internacional conduzida pelo Exército. O resultado oficial, publicado em abril daquele ano, colocou o sistema da Elbit à frente do Zuzana 2, da Excalibur International, do CAESAR, da KNDS France, e do SH15, da Norinco. A Elbit foi então convocada para a assinatura do contrato inicial do lote de amostra.

O processo, entretanto, não avançou para a contratação definitiva. A escolha do equipamento israelense passou a sofrer forte pressão política em razão da guerra em Gaza e da deterioração das relações entre o governo brasileiro e o governo de Israel. Paralelamente, a KNDS questionou o resultado da concorrência. Os recursos apresentados pela empresa francesa não alteraram a classificação final, e o Tribunal de Contas da União também não acolheu a tentativa de suspender o processo.

A Avibras entra na equação 
A nova solução procura preservar a escolha técnica realizada pelo Exército sem modificar as condições essenciais da proposta vencedora. Segundo a reportagem de Godoy, a proposta apresentada pela Elbit e pela AEL Sistemas já previa a participação de uma empresa brasileira na montagem dos obuseiros, embora não identificasse previamente qual empresa seria. Esse desenho permitiria, segundo a avaliação feita pelo Exército, incorporar a Avibras ao arranjo industrial sem alterar as condições fundamentais da oferta vencedora.

A aproximação entre Elbit/AEL e Avibras, portanto, não surgiu com a reportagem desta segunda-feira. O LRCA Defense Consulting já havia informado, em julho, que as empresas negociavam uma solução para a nacionalização da montagem do ATMOS em Jacareí. O portal também havia acompanhado o interesse da Elbit em ampliar sua presença industrial no Brasil.

Uma escolha com lógica industrial 

A escolha da Avibras apresenta uma lógica industrial particularmente forte. O ATMOS é um obuseiro autopropulsado de 155 mm sobre rodas, projetado para operar em diferentes configurações de chassis. A Elbit informa que o sistema pode ser integrado a caminhões 6x6 ou 8x8 escolhidos pelo cliente e que possui automação de pontaria, navegação e carregamento. A configuração brasileira foi associada à família Tatra T-815 6x6, uma plataforma com a qual a Avibras possui experiência acumulada no programa ASTROS.

Embora o obuseiro e o sistema de artilharia de foguetes sejam plataformas distintas, a experiência da empresa com integração de sistemas militares, fabricação de veículos e trabalho sobre chassis Tatra constitui uma base relevante para absorver a montagem do novo equipamento.

A parceria já vinha sendo construída 
A própria história da concorrência reforça essa conexão. A proposta do Zuzana 2, segunda colocada no processo, havia previsto uma parceria com a Avibras para a montagem nacional. A participação da empresa brasileira na produção de um obuseiro 155 mm sobre rodas, portanto, já fazia parte das alternativas industriais consideradas durante a competição, antes mesmo da escolha do ATMOS.

A aproximação entre a Avibras e a Elbit ganhou novo impulso em 2026, quando a empresa brasileira retomou suas atividades industriais em Jacareí. Em julho, o LRCA registrou as tratativas entre AEL Sistemas, Elbit Systems e Avibras Aeroco para viabilizar a montagem local do ATMOS.

O peso estratégico da munição 155 mm 
Para além das viaturas, a munição constitui um componente estratégico da negociação. A proposta vencedora do ATMOS contempla participação industrial brasileira na produção de munições de artilharia. A IMBEL aparece como protagonista desse eixo, o que amplia o alcance industrial do programa para além da fabricação das próprias viaturas.

A possibilidade de desenvolver no País competências relacionadas ao calibre 155 mm pode ser tão relevante, no longo prazo, quanto a montagem dos 36 obuseiros. Trata-se de uma capacidade que interessa diretamente à autonomia logística da artilharia e à formação de uma cadeia nacional de fornecedores.

KNDS volta a procurar a Avibras 

A movimentação da KNDS acrescenta outra dimensão ao cenário. Segundo Godoy, a empresa francesa voltou a procurar a Avibras e teria apresentado uma possibilidade de parceria envolvendo o CAESAR e transferência de tecnologia para munições dos calibres 105 mm, 120 mm e 155 mm.

A aproximação recupera uma relação industrial anterior entre as duas empresas, que chegaram a trabalhar juntas no conceito do sistema Tupã, derivado do CAESAR. A iniciativa francesa mostra que a Avibras voltou a ser percebida como um ativo industrial relevante e que a empresa brasileira pode se tornar novamente uma parceira disputada por grandes grupos internacionais de defesa.

Ainda não há contrato 
É importante, contudo, separar o que está definido do que ainda depende de decisão. O Exército já definiu o ATMOS como vencedor da concorrência, mas a participação da Avibras ainda está vinculada à análise da proposta apresentada ao COLOG. Segundo a apuração do Estadão, a expectativa no Estado-Maior do Exército é que o primeiro contrato, relativo aos protótipos, seja assinado ainda em 2026. Depois dos testes no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), seria negociado o contrato para as demais 34 viaturas.

Assim, ainda não é correto afirmar que a Avibras tenha recebido ou assinado o contrato dos ATMOS. O que existe, neste momento, é uma proposta formal apresentada ao COLOG, apoiada por uma solução industrial que procura conciliar a decisão técnica do Exército, as restrições políticas envolvendo Israel e a necessidade de fortalecer a Base Industrial de Defesa brasileira.

Mais que uma linha de montagem 
Para a Avibras Aeroco, a eventual contratação teria importância que ultrapassa o valor financeiro do programa. Um programa de 36 viaturas criaria uma linha de produção e integração de sistemas de artilharia, preservando competências de engenharia e ampliando a carteira de encomendas da companhia.

O verdadeiro alcance da oportunidade, porém, dependerá do conteúdo da transferência tecnológica. Quanto maior for a participação brasileira em engenharia, fabricação de componentes, integração, manutenção e desenvolvimento de munições, maior será o efeito estruturante do programa sobre a empresa e sobre a Base Industrial de Defesa.

O caso também ilustra uma característica cada vez mais importante dos grandes programas militares: o equipamento selecionado é apenas uma parte da decisão. A capacidade de gerar produção local, domínio tecnológico, cadeia de fornecedores, autonomia logística e condições para futuros desenvolvimentos pode determinar o verdadeiro valor estratégico de uma aquisição.

No caso do ATMOS, a entrada da Avibras pode transformar uma compra que estava travada por razões políticas e geopolíticas em um programa com impacto direto sobre a indústria brasileira de defesa. A próxima etapa, portanto, será acompanhar a análise do COLOG e verificar se a proposta se converterá, de fato, em contrato.

06 junho, 2026

O obuseiro na estante: o Exército escolheu, o governo não assina e a defesa segue precaríssima

Vencedor de licitação bilionária do Exército, o obuseiro autopropulsado da Elbit Systems segue sem contrato assinado. A Ares, subsidiária brasileira da empresa israelense, exibe uma maquete do sistema em suas instalações. Do lado de fora, o mundo está em guerra e o alto comando brasileiro reconhece: o país não tem defesa compatível com o que seria necessário

Maquete do obuseiro ATMOS na sede da Ares, já com a designação do EB: VBCOAP 155 mm SR (crédito: @Defence360 no X
)


*LRCA Defense Consulting - 06/06/2026

Nas instalações da Ares Aeroespacial e Defesa, no Rio de Janeiro, uma maquete do obuseiro ATMOS ocupa um lugar de destaque. O detalhe resume bem a situação do programa: a subsidiária brasileira da Elbit Systems está pronta para cumprir sua parte, os contratos de suporte logístico e transferência de tecnologia já foram desenhados, a licitação foi concluída, o Exército escolheu o vencedor. Falta apenas a assinatura.

Mais de dois anos após o início do processo formal de seleção e mais de um ano após a declaração de vencedor, o Exército Brasileiro ainda não contratou os 36 obuseiros autopropulsados de 155 mm sobre rodas (VBCOAP 155 mm SR) que o Programa Estratégico Forças Blindadas aguarda desde os primeiros estudos, iniciados em 2017. O motivo não é técnico. Não é jurídico. É político.

Um vencedor sem contrato
Em 29 de abril de 2024, o Comando Logístico do Exército (COLOG) divulgou o resultado do processo licitatório internacional RFP/RFT COLOG nº 01/2023, aberto em agosto de 2023. A vencedora foi a Elbit Systems Land Ltd, com o ATMOS 155 mm/52 calibres montado em chassi Tatra T-815 6×6. A empresa israelense superou três concorrentes: a tcheca Excalibur International (com o Zuzana 2, em segundo lugar), a francesa KNDS (CAESAR, em terceiro) e a chinesa Norinco (SH-15, em quarto). O sistema israelense atendeu a todos os requisitos absolutos estabelecidos pelo Exército e foi avaliado em quatro dimensões: técnica, comercial, suporte logístico integrado e offset.

A cerimônia de assinatura do contrato inicial, que previa a entrega de um lote de amostra com dois exemplares, estava marcada para 7 de maio de 2024. Não ocorreu. O Exército suspendeu o ato por 60 dias, alegando necessidade de revisão jurídica. Nos bastidores, a razão era outra: o conflito em Gaza e a resistência política de parte do governo Lula à formalização de um contrato bilionário com empresa israelense.

O presidente Lula, pressionado por parlamentares do PT, PDT, PSOL e PCdoB pela anulação de todos os contratos de defesa com Israel, acabou dando aval à compra. O argumento do Exército era objetivo: o ATMOS era a melhor proposta técnica e a mais vantajosa para o país em razão da transferência de tecnologia e da criação de empregos. Mas o contrato continuou suspenso. Em outubro de 2024, o ministro da Defesa, José Múcio, foi explícito ao admitir publicamente que o programa estava parado por questões ideológicas, citando a influência do assessor especial Celso Amorim.

Em dezembro de 2024, o Tribunal de Contas da União (TCU) rejeitou a medida cautelar interposta pela KNDS, que pedia a reavaliação do resultado. A decisão do TCU eliminou o último obstáculo formal. Mesmo assim, no início de 2026, o status do programa era descrito por analistas setoriais como o de um "adiamento não anunciado", sem data para assinatura do contrato.

A ToT que está na mesa 
A proposta da Elbit Systems não era apenas a venda de 36 viaturas. Incluía um conjunto estruturado de contrapartidas industriais que, se concretizadas, posicionariam o Brasil como fornecedor global de munições de 155 mm. São três frentes principais.

A primeira envolve a Indústria Brasileira de Material Bélico (IMBEL). A Elbit assinou um memorando de entendimento com a IMBEL para investimentos na Fábrica de Juiz de Fora, com o objetivo de ampliar a capacidade de produção de granadas e cargas de 155 mm e habilitar a fabricação de modelos mais modernos. Hoje, a IMBEL produz apenas a granada M107 de alto explosivo, modelo básico e sem certificação Otan, o que limita severamente seu potencial de exportação.

A segunda frente envolve a empresa brasileira CSD (Componentes e Sistemas de Defesa). A intenção declarada pela Elbit é transformar a CSD na principal fornecedora de munições para todos os sistemas ATMOS e SOLTAN em operação no mundo, incluindo munições de alcance estendido e guiadas. O projeto destacaria o Brasil como exportador de munições de artilharia de alta tecnologia para o mercado internacional.

A terceira frente é a montagem nacional. A proposta negociada com o Ministério da Defesa previa que 34 dos 36 obuseiros seriam integrados e montados no Brasil, utilizando as competências da AEL Sistemas (Porto Alegre) e da Ares Aeroespacial e Defesa (Rio de Janeiro), ambas subsidiárias brasileiras da Elbit. Os dois primeiros exemplares, do lote de amostra, seriam produzidos integralmente em Israel e enviados para avaliações técnica e operacional no Centro de Avaliações do Exército (CAEx).

O diretor comercial da Ares, Frederico Medella, confirmou que a empresa "possui vasta experiência na execução de contratos de suporte logístico e ToT com o Exército Brasileiro". A Ares tem histórico comprovado nessa modalidade, incluindo o contrato de US$ 100 milhões firmado em 2017 para o fornecimento de estações de armas remotamente controladas às Forças Armadas.

O offset formal, avaliado como critério classificatório na licitação, contemplava ainda o desenvolvimento de um simulador de treinamento de baixo custo, aproveitando a experiência da Ares na área. Somados, os elementos da proposta configuravam uma das transferências de tecnologia mais abrangentes já oferecidas ao Exército Brasileiro em um programa de artilharia. 

Obuseiro israelense ATMOS 2000 - vencedor da licitação do Exército Brasileiro

"Nós não temos defesa" 
O impasse em torno do ATMOS ocorre em paralelo a um debate cada vez mais urgente sobre a capacidade de defesa do Brasil. No último dia do Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre (SSNTFT 2026), realizado em Brasília em 27 de maio de 2026, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, fez uma declaração que rompeu com décadas de discurso oficial. "No passado, não tínhamos nenhuma ameaça na América do Sul. Hoje temos uma percepção de ameaça, incluindo nossa atuação constitucional e legal de auxiliar os Poderes da República na faixa de fronteira, que é uma preocupação enorme, muito vasta. Temos que estar olhando para ela", afirmou.

A declaração, feita diante do Alto Comando e de representantes da Base Industrial de Defesa (BID), reconhece oficialmente uma mudança estratégica no entorno regional. O general não especificou as fontes da ameaça, mas o contexto é conhecido: a crise venezuelana, a disputa por Essequibo, a presença crescente de crime organizado transnacional na faixa de fronteira e a instabilidade política em países vizinhos.

Poucos dias antes, em encontro reservado com representantes da BID em Brasília, o ministro da Defesa, José Múcio, havia feito um diagnóstico ainda mais contundente. "A Defesa é precaríssima. A Defesa brasileira é incompatível com o tamanho e as potencialidades do Brasil. Nós não temos defesa. Muita gente pensa que nós temos como nos defender; nós não temos", declarou o ministro, segundo reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo. Múcio citou como exemplo a mobilização militar realizada quando a Venezuela ameaçou avançar sobre a região de Essequibo, território disputado com a Guiana, e reforçou a necessidade de elevar os investimentos em Defesa para pelo menos 2% do PIB, contra pouco mais de 1% hoje.

O mesmo ministro que reconhece publicamente a fragilidade da defesa brasileira é o responsável por viabilizar, no plano político, a assinatura do contrato do ATMOS. A contradição não passou despercebida no setor.

Um mundo armado, um calendário que escapa 
O contexto internacional que cerca o impasse é o mais desfavorável possível para o adiamento de decisões de defesa. A guerra na Ucrânia demonstrou que o apoio de fogo de artilharia continua sendo o eixo central do combate terrestre de alta intensidade e que a autonomia industrial em munições é condição de sobrevivência operacional. O conflito no Oriente Médio, a tensão entre Estados Unidos e Irã e o rearmamento acelerado de potências médias e grandes reforçam a percepção, expressa pelo próprio ministro Múcio, de que "todo mundo está armado".

O ATMOS, ironicamente, é um produto com histórico de combate exatamente nessas regiões. Utilizado em operações no Oriente Médio, o sistema acumula registros operacionais que orientaram parte dos requisitos técnicos fixados pelo Exército Brasileiro. A escolha pelo chassi Tatra T-815 6×6, o mesmo utilizado pelo sistema de foguetes ASTROS II MK nas versões mais recentes, foi um elemento adicional de padronização logística que pesou na avaliação.

O cronograma original previa a entrega dos dois exemplares do lote de amostra no segundo trimestre de 2025, a partir da assinatura do contrato inicial ainda em 2024. Aprovados os exemplares, o COLOG assinaria o contrato principal para as 34 unidades restantes, com entregas anuais até 2034. Cada mês de atraso comprime esse horizonte e encarece o programa.

Do lado da Ares, a maquete na parede continua esperando. A subsidiária brasileira da Elbit é o elo local de uma cadeia que, para ganhar vida, depende de uma decisão que está menos no plano técnico do que no plano da vontade política.

O que está em jogo além do obuseiro 
O atraso no ATMOS não é um caso isolado. Insere-se num padrão mais amplo de programas estratégicos do Exército que dependem de importação e que encontram resistências de diferentes origens. O contingenciamento de R$ 4,363 bilhões no orçamento do Ministério da Defesa, o maior corte nominal entre os ministérios no exercício de 2025, colocou em risco simultâneo o submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto, as fragatas Classe Tamandaré, os caças Gripen NG da FAB, as aeronaves KC-390 e os programas de sistemas terrestres.

No setor de munições, o quadro é sintomático: em janeiro de 2025, o Exército Brasileiro emitiu, por meio de sua comissão em Washington, um pedido de informações (RFI-0159/2025) para a aquisição de munições de 105 mm e 155 mm no exterior. O país que quer ser exportador de granadas de alcance estendido ainda busca no mercado internacional as munições básicas para operar seus obuseiros existentes.

Para a BID brasileira, a equação é conhecida: sem contratos, não há escala; sem escala, não há transferência de tecnologia que se sustente. A ToT prevista no contrato do ATMOS, que incluiria a modernização da IMBEL e a transformação da CSD em fornecedora global, só se materializa se o contrato existir. Enquanto a maquete fica na parede da Ares, o potencial industrial associado ao programa permanece no papel.

13 maio, 2026

De 2023 à guerra de hoje: o recado do Exército ao mercado de defesa

Post do COTER/DF/CAEx sobre o UGV THeMIS chega quando a Força acaba de aprovar política que coloca sistemas não tripulados no centro de sua transformação

UGV THeMIS integrado ao sistema de armas de controle remoto REMAX 4
 

*LRCA Defense Consulting - 13/05/2026

O Comando de Operações Terrestres (COTER), juntamente com a Diretoria de Fabricação (DF) e com o Centro de Avaliações do Exército (CAEx), publicou nas redes sociais, nesta semana, imagens sobre a demonstração do veículo terrestre não tripulado THeMIS, realizada em abril de 2023 no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), na Marambaia (RJ). O evento, promovido pela Milrem Robotics e pelo EDGE Group, apresentou o veículo integrado ao sistema de armas de controle remoto REMAX 4, de tecnologia nacional.

Veículos Terrestres Não Tripulados (UGVs), ou "drones terrestres", são robôs operados remotamente ou autônomos que atuam em solo, essenciais em cenários perigosos. Amplamente usados em 2025 e 2026 para logística, desminagem e evacuação, especialmente na Ucrânia, eles oferecem baixo perfil e riscos reduzidos aos soldados. Podem integrar drones aéreos presos (tethered) para inteligência 360°. 

À primeira vista, a publicação poderia parecer apenas um registro histórico ou um exercício de ufanismo institucional, do tipo “o Exército viu antes de todo mundo”. Mas o contexto em que o post aparece sugere algo mais calculado.

Da prospecção à política formal
Em 9 de abril de 2026, menos de cinco semanas antes da publicação do 
COTER/DF/CAEx, o general Tomás Paiva assinou a Portaria nº 2.662, que aprova a Política de Transformação do Exército Brasileiro (EB10-P-01.031). O documento representa a mais profunda reformulação doutrinária da Força Terrestre nas últimas quatro décadas, segundo analistas especializados.

Entre os pilares centrais da nova política está, precisamente, a “integração de sistemas não tripulados (drones) em diversos escalões”, com emprego previsto em plataformas aéreas, terrestres e marítimas. O documento determina ainda a incorporação acelerada de tecnologias emergentes, o fortalecimento da Base Industrial de Defesa nacional e a atualização doutrinária para operações multidomínio, os mesmos três eixos que o COTER/DF/CAEx destacaram ao descrever a demonstração de 2023.

Em outras palavras: o que em 2023 era prospecção tecnológica virou, em 2026, orientação estratégica formal.

O intervalo entre a demonstração e o post
O THeMIS já era conhecido do Exército desde pelo menos a LAAD 2023, feira de defesa realizada no Rio de Janeiro em abril daquele ano, quando a Milrem Robotics o apresentou pela primeira vez na América Latina. A demonstração no CAEx ocorreu dias depois, com a presença do general Alexandre Martins Castilho, então chefe do Centro Tecnológico do Exército (CTEx). O evento foi noticiado na época por portais especializados como o Tecnodefesa.

O THeMIS é um veículo de lagartas com motorização híbrida diesel/elétrica, peso de 1.650 kg e capacidade de carga de até 1.200 kg. Sua arquitetura modular permite configurações para transporte logístico, evacuação de feridos, reconhecimento, desativação de explosivos e apoio de fogo remoto. O sistema está em uso em 16 países, incluindo oito membros da OTAN.

Entre 2023 e agora, o interesse do Exército pelos sistemas não tripulados terrestres não ficou estacionado. Em dezembro de 2025, a Diretoria de Fabricação abriu consultas públicas para identificar fornecedores de drones de ataque, tanto os do tipo kamikaze (Sistemas de Munições Remotamente Pilotadas, ou SMRP) quanto os reutilizáveis com capacidade de lançar munições (SARP). O movimento, noticiado no fim do ano passado, ocorreu em paralelo a uma solicitação semelhante da Comissão do Exército Brasileiro em Washington.

Recentemente, surgiram informes de que conhecidas empresas brasileiras de defesa já estão se movimentando para desenvolver modelos de UGVs, inclusive armados, o que pode significar que perceberam a nova tendêcia das Forças Armadas e estão se agilizando, ou receberam um input delas para tanto.

 

Por que publicar agora
A publicação do 
COTER/DF/CAEx tem uma leitura institucional bastante clara: ao resgatar a demonstração de 2023, a Força sinaliza continuidade e coerência. Mostra que a nova política de transformação não surgiu do nada, mas é o desdobramento de um processo de prospecção que vinha sendo conduzido há pelo menos dois anos. É, em resumo, a narrativa do “não nos pegaram de surpresa”.

O contexto geopolítico reforça a urgência do recado. A guerra na Ucrânia tornou os sistemas não tripulados terrestres parte incontornável do debate militar mundial. O próprio documento da Política de Transformação cita a “proliferação de sensores, sistemas não tripulados e fogos de precisão” como uma das lições fundamentais dos conflitos recentes, e aponta que o Exército não estará preparado para esse cenário se não acelerar a transformação.

Há também uma dimensão de Base Industrial de Defesa. Ao destacar a integração do THeMIS com o REMAX 4, sistema de armas nacional, o Exército sinaliza ao mercado que a demanda por tecnologia estrangeira passa necessariamente por parcerias com a indústria brasileira. Não por acaso, a nova política estabelece que os investimentos em modernização devem beneficiar empresas nacionais.

R$ 400 bilhões e o desafio do financiamento
A nova política estima que serão necessários R$ 400 bilhões até 2040 para viabilizar a modernização completa da Força Terrestre. As primeiras mudanças já estão sendo incorporadas ao Plano Estratégico do Exército 2024-2027, com consolidação prevista para o ciclo 2028-2031. Analistas, porém, alertam que, sem financiamento adequado, parte das transformações pode avançar mais devagar do que o planejado.

O que o post do COTER/DF/CAEx faz, nesse quadro, é simples mas eficaz: ancora no passado recente uma transformação que começa agora. O THeMIS visto em 2023 no Campo de Provas da Marambaia pode nunca ser comprado pelo Exército Brasileiro, mas o fato de ele ter sido avaliado serve, hoje, como prova de que a instituição estava atenta quando o futuro ainda era tendência.

21 novembro, 2022

Exército realiza a capacitação operacional de militares na Torre Manual REMAN, da Ares


*Noticiário do Exército - 14/11/2022

O Centro de Avaliações do Exército (CAEx) realizou, no período de 4 a 8 de novembro, a capacitação operacional de militares na Torre Manual REMAN. 

O equipamento é uma estação de armas blindada, projetada pela empresa ARES Aeroespacial e Defesa, capaz de operar com uma Metralhadora .50 (Mtr .50) ou com uma Metralhadora Mag 7,62 (Mtr Mag 7,62), para equipar a Viatura Blindada de Transporte de Pessoal Média Sobre Rodas (VBTP-MSR) 6×6 Guarani, no escopo do Programa Estratégico do Exército (Prg EE) GUARANI.

A atividade contou com a presença de engenheiros e técnicos do CAEx, da empresa ARES e de militares do 15º Regimento de Cavalaria Mecanizado, que foram capacitados e habilitados no manejo do material de emprego militar (MEM), como preparação para a avaliação operacional do MEM.

Foram realizadas instruções de operação e de manutenção, com a execução de tiros com a Mtr .50, nas distâncias de 500 e 700 metros e de tiros com a  Mtr Mag 7,62mm, nas distâncias de 200 até 500 metros.

O projeto se constitui em relevante participação do Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército e da Base Industrial de Defesa e Segurança no processo de modernização e operacionalização da Força Terrestre.


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