CEO da empresa do Grupo Embraer aponta plataformas offshore, refinarias e regiões remotas como destinos dos SMRs; a credencial é o trabalho nos sistemas de proteção e controle do LABGENE, em Iperó (SP)
*LRCA Defense Consulting - 20/10/2026 - 17h13
O CEO da Atech, Rodrigo Persico, apontou nesta terça-feira (20), no LinkedIn, os pequenos reatores modulares (SMR, sigla em inglês para Small Modular Reactor) como uma frente de negócios para a empresa do Grupo Embraer, com destaque para plataformas offshore e refinarias da indústria de óleo e gás. Segundo ele, a engenharia da Atech "atua exatamente no núcleo dessa operação": os sistemas de instrumentação, proteção e controle de instalações nucleares.
A credencial que sustenta a afirmação está no interior paulista. A Atech participa do desenvolvimento do LABGENE, o protótipo em terra da planta nuclear que vai propulsionar o submarino Álvaro Alberto, no Centro Experimental Aramar, em Iperó (SP).
O que diz o CEO
Na publicação, Persico descreve os SMRs como uma transformação estrutural na matriz energética global. Além da geração de eletricidade para comunidades isoladas, plataformas e refinarias, ele cita o fornecimento de calor industrial e a produção de hidrogênio como caminhos para descarbonizar cadeias produtivas complexas.
O executivo afirma que esse novo ecossistema exige infraestrutura digital de altíssima criticidade e lista as competências que a Atech oferece: instrumentação, proteção e controle, automação avançada, simuladores e cibersegurança operacional. O texto termina com uma declaração de intenção, não com um anúncio: a empresa se diz "posicionada para contribuir" e quer levar sua engenharia aos desafios do setor de energia global.
Do submarino ao mercado civil
O LABGENE (Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica) é conduzido pelo Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP), no âmbito do Programa Nuclear da Marinha. Trata-se de um reator de água pressurizada (PWR, na sigla em inglês) compacto, montado em terra para validar a planta de propulsão que será embarcada no primeiro submarino convencionalmente armado com propulsão nuclear do País.
É aí que está a ponte com os SMRs. Vários dos projetos de pequenos reatores em desenvolvimento no mundo também são PWR de pequeno porte, com exigências semelhantes de supervisão contínua dos parâmetros da planta, detecção de condições anormais e acionamento confiável das funções de segurança. Nas demonstrações financeiras referentes a 2025, a Atech informa ter realizado testes dos sistemas de proteção e segurança do LABGENE; relatórios de exercícios anteriores registram avanços nos sistemas de indicação de posição das barras de controle e na preparação dos sistemas de controle e segurança da planta.
A experiência, porém, não se transfere automaticamente. Um reator naval de propulsão e um SMR comercial têm requisitos diferentes, e qualquer aproveitamento de soluções dependerá do projeto do reator escolhido e da aprovação das autoridades reguladoras.
Um mercado que começa a sair do papel
Pela definição da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), os SMRs têm potência elétrica de até 300 megawatts por módulo. A proposta é fabricar componentes e módulos em série, em ambiente industrial, transportá-los e montá-los no local de operação, reduzindo prazos e riscos típicos das grandes centrais nucleares.
A China saiu na frente. O Linglong One (ACP100), reator de 125 MWe desenvolvido pela estatal CNNC na ilha de Hainan, concluiu os testes funcionais a frio em outubro de 2025, e sua entrada em operação comercial estava prevista para o primeiro semestre de 2026, o que o tornaria o primeiro SMR comercial em terra do mundo. No Canadá, a Ontario Power Generation obteve, em abril de 2025, a licença de construção do primeiro BWRX-300, da GE Vernova Hitachi, em Darlington, com entrada em serviço prevista para 2029.
Na América do Sul, a Argentina desenvolve o CAREM, protótipo projetado pela Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEA) e instalado no Complexo Nuclear Atucha. Segundo o governo argentino, cerca de 70% dos insumos qualificados, componentes e serviços do projeto são fornecidos por empresas locais, inclusive em instrumentação e controle, o mesmo nicho em que a Atech pretende atuar.
Os obstáculos continuam relevantes: licenciamento, custo, financiamento, qualificação de fornecedores e a demonstração de viabilidade comercial em escala.
O debate no Brasil
No País, o tema chegou ao Congresso. Em outubro de 2025, a Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados realizou audiência pública sobre os SMRs e sua possível aplicação no Brasil, ao lado da retomada de Angra 3. Na ocasião, a COPPE/UFRJ apontou como oportunidades o atendimento a regiões remotas da Amazônia, a polos de mineração e a complexos industriais isolados da rede elétrica.
Qualquer projeto desse tipo terá de passar pelo crivo da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), responsável pela regulação e fiscalização do setor. O recorte escolhido por Persico, com ênfase em plataformas offshore e refinarias, aponta para a indústria de óleo e gás como potencial cliente, embora a publicação não mencione nenhuma operadora.
A empresa e o executivo
Com cerca de 550 funcionários, a Atech foi incorporada integralmente pelo Grupo Embraer em 2013 e é credenciada pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa. Conhecida como a "casa de sistemas" da Base Industrial de Defesa, atua em comando e controle, gerenciamento de tráfego aéreo e sistemas embarcados, e abriu em Lisboa seu primeiro escritório fora do País.
Persico é engenheiro mecânico formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e acumula mais de duas décadas no Grupo Embraer. Antes de assumir a presidência da Atech, foi vice-presidente de Inteligência de Mercado da Embraer Defesa e Segurança.
O que falta para virar negócio
A publicação não anuncia contrato, parceria com fabricante de reatores ou participação em empreendimento específico, e não foram identificados contratos da Atech para SMRs nas informações examinadas. Trata-se, portanto, de um posicionamento tecnológico e comercial.
Há também uma leitura estratégica possível. À medida que o LABGENE avança para sua conclusão, a equipe de instrumentação e controle nuclear da Atech precisará de novas frentes para se manter ocupada e qualificada. Um mercado civil de pequenos reatores, no Brasil ou no exterior, seria uma forma de preservar essa competência, rara no País e construída ao longo de décadas com recursos do programa de defesa.
Se a adoção dos reatores modulares ganhar escala, fornecedores capazes de entregar sistemas críticos dentro dos requisitos nucleares disputarão um segmento de alto valor agregado. Para a Atech, o LABGENE é a credencial; transformá-la em encomendas é o próximo passo.


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