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04 novembro, 2026

Do diagnóstico da BID à sala de aula: FIA formará gestores para a indústria de Defesa

Programa previsto para a primeira quinzena de março de 2027 terá 112 horas, seis módulos e certificado de extensão; à LRCA, o general Ivan Neiva Filho defende que as empresas da BID olhem além das compras das Forças Armadas 



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LRCA Defense Consulting - 04/11/2026 -  18h00

A Fundação Instituto de Administração (FIA Business School) prepara para a primeira quinzena de março de 2027 o início do Curso de Especialização em Gestão de Indústrias de Defesa, formação executiva concebida a partir do Projeto de Avaliação e Monitoramento da Base Industrial de Defesa (BID), conduzido pela FIA para a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). Apesar do nome, o programa não conferirá título de especialista: a certificação prevista é de curso de extensão. Em respostas exclusivas à LRCA Defense Consulting, o general de divisão da reserva Ivan Ferreira Neiva Filho, consultor-geral do projeto de pesquisa, detalhou a proposta, o público que pretende alcançar e a mudança de mentalidade que considera necessária para o setor.

Segundo o general, o projeto, desenvolvido em 2025 e 2026, avaliou aproximadamente mil empresas e os 12 segmentos da BID, com análises sobre cadeias produtivas, competitividade, capital humano, inovação, internacionalização e instrumentos de apoio à indústria. A metodologia publicada no portal Radar BID Brasil registra cerca de 985 unidades empresariais, contadas por CNPJ, número que não corresponde necessariamente ao de empresas distintas.

Paralelamente, a equipe conduziu, por meio da Confederação Nacional da Indústria (CNI), um estudo prospectivo sobre as competências que a indústria de Defesa exige hoje e, sobretudo, exigirá no futuro. Os dois levantamentos apontaram desafios que ultrapassam as particularidades técnicas de cada segmento e demandam competências gerenciais especializadas.

“Trata-se, portanto, de uma evolução do projeto de avaliação e monitoramento: do diagnóstico das características e dos desafios da BID para a formação de gestores capazes de contribuir para sua superação”, afirmou Neiva Filho. 

O general conhece bem a BID pelo lado do Estado. Entre 2015 e 2018, dirigiu a Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados (DFPC), órgão do Exército que regula a fabricação, o comércio e a exportação de armas e outros produtos controlados; em seguida, chefiou o Escritório de Projetos do Exército (EPEx), responsável pelo portfólio dos programas estratégicos da Força. Comandou ainda a 7ª Região Militar, em Recife, e encerrou quase 38 anos de serviço, em 2023, como subcomandante logístico do Exército. Formado pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), é mestre em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e em Estudos de Defesa pelo King's College London. Também tem experiência em operações de paz: foi observador militar da ONU em Moçambique, em 1994, e oficial de planejamento na sede da organização, em Nova York, entre 2009 e 2011.

Além das compras das Forças Armadas 
De acordo com o militar, a forte participação do governo na demanda, os projetos de longa maturação, as dificuldades de financiamento e de acesso a mercados externos, as exigências regulatórias e de certificação e a dependência de componentes importados e de tecnologias críticas tornam a gestão dessas empresas particularmente complexa. As necessidades de capacitação identificadas incluem planejamento estratégico, gestão financeira, avaliação de investimentos, gestão da inovação, integração de fornecedores, negociações comerciais e gestão de projetos complexos, além da formação e retenção de profissionais qualificados.

Para Neiva Filho, a principal mudança é de mentalidade. Historicamente vinculada às demandas governamentais, aos programas militares e às capacidades de engenharia, a indústria precisa, segundo ele, “evoluir de uma gestão predominantemente orientada por projetos e capacidades técnicas para uma abordagem mais integrada, voltada à criação de valor, à inovação, à sustentabilidade econômica e ao desenvolvimento de vantagens competitivas”.

“Também é necessário superar a percepção de que as oportunidades empresariais da defesa se restringem às aquisições das Forças Armadas brasileiras”, declarou. Na avaliação dele, a diversificação de mercados, as aplicações duais, as parcerias tecnológicas e a inserção em cadeias internacionais podem ampliar a escala produtiva e reduzir a exposição às oscilações da demanda nacional.

O general ressalva que essa mudança não diminui o papel do Estado, que continuará atuando como formulador de políticas, financiador, regulador e demandante. Ao contrário, ela exige que as empresas se articulem melhor com as políticas públicas e, ao mesmo tempo, construam estratégias próprias de desenvolvimento.

Seis módulos e o chão de fábrica 
A proposta vigente organiza o programa em seis módulos: Fundamentos da Economia e da Indústria de Defesa; Estratégia e Gestão Empresarial na BID; Finanças e Gestão Orçamentária em Defesa; Inovação e Tecnologia na Defesa; Logística e Cadeias de Negócio de Defesa; e Liderança, Cultura Organizacional e Gestão de Pessoas. Os conteúdos incluem economia de Defesa, geopolítica, governança corporativa, financiamento público e privado, proteção de ativos tecnológicos, processos de obtenção, contratações públicas, exportações, composição de preços para mercados externos, negociações governo a governo e mecanismos de compensação comercial e tecnológica (offset). As relações entre empresas e governo serão tratadas de forma transversal.

O ensino seguirá a metodologia Digital Action Training (DAT), desenvolvida pela própria FIA, que combina fundamentos conceituais, estudos de caso, simulações empresariais e projetos aplicados. Estão previstos também seis webinars, um para cada eixo, que poderão ser realizados em empresas do setor, “gerando a possibilidade de maior interação com o ‘chão de fábrica’”, segundo o general.

O principal instrumento de avaliação será o Trabalho de Aplicação, desenvolvido em grupo sobre um desafio concreto de gestão de uma organização selecionada, sob orientação de professores e consultores da FIA. Os resultados serão apresentados a uma comissão de professores, com previsão de participação da alta direção das organizações envolvidas. 


Extensão, não pós-graduação 

Conforme a proposta, o curso terá 112 horas: 72 horas de encontros remotos síncronos, dois encontros presenciais ou híbridos de 12 horas cada (24 horas no total) e 16 horas para o Trabalho de Aplicação. A duração indicada pelo general é de quatro meses, de março a julho de 2027.

O material de divulgação anuncia “aulas presenciais em imersão no PIT SJC”, o Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos. Questionado especificamente sobre essas imersões, Neiva Filho informou que os encontros presenciais deverão ocorrer preferencialmente em São Paulo, em São José dos Campos ou nas duas cidades, com possibilidade de ajustes conforme a demanda dos participantes.

A LRCA também perguntou se a formação seria reconhecida como pós-graduação lato sensu, com emissão de certificado de especialista. A resposta foi que a proposta prevê certificado de conclusão de curso de extensão, emitido pela Faculdade FIA de Administração e Negócios e condicionado ao aproveitamento acadêmico e à frequência. O prospecto apresenta a FIA como “vinculada à Universidade de São Paulo”; a fundação foi criada por professores da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, mas o certificado será emitido pela faculdade da própria FIA. 

Quem pode participar 
O programa se dirige a dirigentes, executivos, empresários e profissionais de estratégia, finanças, operações, logística, inovação, desenvolvimento de negócios, recursos humanos e relações institucionais de organizações da cadeia de Defesa ou que mantenham relações com ela. Engenheiros e especialistas técnicos com funções gerenciais, ou em preparação para cargos de liderança, também estão no público previsto, assim como militares da ativa e da reserva, pesquisadores e consultores ligados ao setor. A seleção considerará a adequação do perfil profissional aos objetivos do curso, sobretudo a atuação em atividades gerenciais.

A FIA estima um limite de 35 participantes por módulo, somando os alunos regulares, matriculados no programa completo, e os participantes especiais, inscritos em módulos isolados, que serão admitidos até que esse limite seja atingido. O número definitivo de vagas será confirmado na abertura das inscrições, e os valores serão informados na matrícula, com possibilidade de condições especiais para grupos de uma mesma empresa. Segundo o general, algumas organizações já manifestaram interesse em turmas in-company, adaptadas às suas necessidades e viáveis a partir de um número mínimo de participantes. A pergunta sobre bolsas de estudo ainda não teve uma definição.

Para as pequenas e médias empresas, os obstáculos do setor “podem assumir maior intensidade, em razão de limitações de escala, capacidade financeira e disponibilidade de estruturas gerenciais especializadas”, avalia Neiva Filho. A proposta não prevê trilha exclusiva para esse segmento, mas o general aponta os módulos isolados como forma de concentrar a capacitação em temas como financiamento, custos, expansão comercial e inovação, ainda que essa matrícula dependa de vagas remanescentes. Os projetos aplicados também poderão tratar de problemas típicos dessas empresas.

Articulação institucional 
A FIA é a instituição proponente e responde pela estruturação acadêmica, pela coordenação pedagógica e pela execução do programa. O curso nasceu de uma articulação com a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE) e o PIT SJC e conta com apoio institucional do Ministério da Defesa e da ABDI. Segundo o general, a ABDI teve participação fundamental na origem da iniciativa, pois os diagnósticos do projeto de monitoramento constituem uma das principais bases do curso. A ABIMDE e o PIT SJC têm “potencial para contribuir” na aproximação com empresas e centros tecnológicos, e o Ministério da Defesa é “interlocutor institucional relevante” para a compreensão das prioridades estratégicas do setor.

Neiva Filho vê na competição entre grandes potências, na reorganização das cadeias globais de suprimentos e no aumento dos investimentos internacionais em Defesa uma janela de oportunidades, acompanhada de desafios cada vez mais complexos para as empresas brasileiras. Para ele, a mensagem principal ao setor é que “o futuro da Base Industrial de Defesa brasileira dependerá não apenas das tecnologias que suas empresas forem capazes de desenvolver, mas também da competência de seus dirigentes para transformar essas capacidades em inovação, oportunidades de mercado e desenvolvimento econômico sustentável”.

Informações para interessados 
O início está previsto para a primeira quinzena de março de 2027. O cronograma definitivo, as condições de matrícula, os valores e o corpo docente ainda serão divulgados pela FIA. Contato: linok@fia.com.br.

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