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13 outubro, 2026

Atech: a engrenagem que dá à Embraer domínio de sistemas, do escudo antidrone ao cérebro das fragatas

Publicação do CEO Rodrigo Persico expõe o portfólio de proteção contra drones da subsidiária, que une sensores, inteligência e comando e controle, e revela o peso de uma empresa pouco visível para o Grupo Embraer na defesa aérea, no controle do espaço aéreo e na Marinha do Brasil



*LRCA Defense Consulting - 13/10/2026 - 17h01

Quando se fala em Embraer, a imagem que vem à mente é a de aviões: o KC-390 Millennium, o A-29 Super Tucano, os jatos comerciais e executivos. Mas boa parte da inteligência que o grupo vende às Forças Armadas não voa. Ela está em consoles, servidores e algoritmos desenvolvidos pela Atech, a subsidiária paulistana que se define como a “casa de sistemas” da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira. Nesta terça-feira (13), o diretor-presidente da empresa, Rodrigo Persico, usou o LinkedIn para apresentar o portfólio antidrone da Atech, chamado em inglês de counter-unmanned aerial systems (C-UAS), e reafirmar que se trata de tecnologia brasileira voltada à proteção de pessoas, operações e ativos estratégicos.

Segundo a publicação, as soluções da empresa integram sensores de radiofrequência, radares, câmeras e recursos de comando e controle para detectar, identificar, classificar e apoiar a neutralização de ameaças aéreas. Persico destacou ainda a capacidade de localizar a origem dos sinais de controle, o que ajuda a identificar o operador do drone hostil e a coordenar as forças de resposta, e listou cinco frentes de emprego: defesa, segurança pública, grandes eventos, infraestruturas críticas e emergências, como o combate a incêndios.

A mensagem chega num momento em que o drone barato se tornou uma das principais ameaças do campo de batalha e da segurança urbana, e ajuda a entender por que uma empresa de cerca de 550 a 600 funcionários (o número varia conforme a fonte) ocupa posição tão estratégica dentro do Grupo Embraer. 


Do sensor ao policial na porta do piloto 
O núcleo do sistema antidrone é a plataforma Arkhe Integrated Surveillance (Arkhe IS), da família de produtos Arkhe, que reúne as soluções de defesa e segurança da Atech. Conforme o material técnico da empresa e a reportagem publicada pelo portal LRCA em abril, a arquitetura é multissensor e modular. Seu ponto de partida é um sensor de radiofrequência passivo, que cobre de 70 MHz a 6 GHz (incluindo as faixas de 433, 868 e 915 MHz e de 2,4, 5,2 e 5,8 GHz, usadas pela grande maioria dos drones comerciais) e opera em 360 graus, de dia ou de noite, inclusive sob mau tempo. Por ser passivo, ou seja, apenas “escuta” o espectro, o sensor dispensa homologação da Anatel.

O equipamento detecta drones com ou sem Remote ID, o protocolo de identificação remota, e coleta telemetria dos modelos comerciais que usam protocolo aberto. Para aeronaves não colaborativas, o modo Strobe executa a radiogoniometria (direction finding), apontando o azimute de origem do sinal. Com dois ou mais sensores, o sistema faz a triangulação e fixa a posição do drone e do rádio controle. O alvo aparece georreferenciado na interface do operador, com simbologia padronizada pela norma militar MIL-STD-2525, e pode ser classificado como amigo, neutro ou hostil. Um módulo de aprendizado de máquina (machine learning) refina a classificação, reduz falsos positivos e apoia a manutenção preditiva.

Sobre essa base, a solução agrega radares, câmeras eletro-ópticas e infravermelhas (EO/IR) e meios de neutralização, como bloqueadores (jammers), que interrompem o enlace do drone, e spoofers, que manipulam os sinais de navegação para desviá-lo. A instalação pode ser fixa (prédios e torres), móvel (viaturas) ou transportável (tripés), e a empresa propõe uma escalada gradual: o cliente começa com sensores de radiofrequência e incorpora radares e câmeras conforme a criticidade da área e o orçamento. Prever a integração de interferidores, porém, não significa que toda configuração entregue inclua neutralização ativa: o emprego de jammers no Brasil depende de autorização e de avaliação de riscos, sobretudo nas proximidades de aeroportos e de sistemas de comunicação sensíveis. O alcance de detecção também não é universal, pois varia com a altura de instalação, a linha de visada e as interferências do local.

O diferencial que a Atech mais enfatiza, e que Persico repetiu na postagem, é tratar o problema como questão de inteligência, e não apenas de bloqueio. Quando um drone é classificado como hostil, a localização da aeronave e do piloto é repassada ao Arkhe GDI, a plataforma de gestão de incidentes, que coordena as equipes em campo, exibe a posição dos agentes e dos drones policiais e transmite vídeo em tempo real. Em áreas sem cobertura celular, a comunicação segue por satélite, por meio de kits de mochila (os “Mochilinks”). Os dados acumulados alimentam o Arkhe Data Analysis, que gera mapas de calor, históricos de modelos detectados e pontos recorrentes de decolagem, enquanto o módulo Arkhe Athena cuida da segurança cibernética de todo o conjunto.

“O desafio é identificar rapidamente o que é risco e reagir antes que o problema se torne um incidente”, resumiu Claudio Nascimento, gerente comercial da Atech. A solução foi apresentada ao público na LAAD Security Milipol Brazil 2026, realizada de 14 a 16 de abril, em São Paulo, com demonstrações ao vivo do fluxo completo, da detecção à resposta. Na ocasião, o diretor de Negócios de Defesa, Giacomo Staniscia, afirmou que o objetivo era mostrar como a empresa pode apoiar inclusive operações de busca e captura do operador. 


Um mercado aquecido, e ainda dependente de fornecedores estrangeiros 
As cinco frentes citadas por Persico não são hipotéticas. Drones já são usados para lançar drogas e celulares em presídios, sobrevoar multidões, transportar contrabando nas fronteiras e, no limite, carregar explosivos. Em 2025, o governo do Rio de Janeiro abriu pregão para comprar 80 sistemas antidrone, de quase R$ 27 milhões, destinados às polícias Civil e Militar e à administração penitenciária. Em junho de 2026, a Polícia Federal fechou contrato de R$ 21,7 milhões com a israelense D-Fend Solutions para seis sistemas (quatro fixos e dois móveis), dentro do esquema de segurança dos candidatos à Presidência da República nas eleições deste ano.

O dado revela, ao mesmo tempo, a demanda e o espaço ainda ocupado por tecnologia importada. É exatamente nesse ponto que a Atech aposta no argumento da soberania: ao manter internamente todo o ciclo de desenvolvimento, da concepção ao suporte, a empresa oferece às forças de segurança e às Forças Armadas um sistema cujos algoritmos, base de dados e atualizações permanecem sob controle nacional. Ainda assim, nem a postagem de Persico nem os documentos públicos da empresa informam contratos específicos, quantidades de sistemas entregues ou resultados de ensaios operacionais da solução, o que impede, por ora, medir o estágio comercial do produto.

Do solo ao ar: a ponte com o Super Tucano 
A integração entre a Atech e a controladora fica evidente no conceito antidrone do A-29 Super Tucano. Em novembro de 2025, a Embraer anunciou o SANT (Super Tucano Anti-Drone Tactics), conceito operacional que permite aos operadores atuais e futuros da aeronave interceptar drones com os sensores e armamentos já qualificados: a torre eletro-óptica com designador laser, as metralhadoras .50 nas asas e foguetes de 70 mm guiados a laser. Não se trata de uma nova versão do avião, mas de uma missão adicional.

A peça que fecha a cadeia sensor-atirador é justamente a rede terrestre da Atech. Segundo o material da empresa, quando o C-UAS terrestre é integrado a aeronaves de ataque leve como o A-29, as coordenadas dos alvos detectados pelos sensores no solo chegam à cabine pelo enlace de dados, ampliando o alcance e a eficácia da neutralização. Na prática, o grupo passa a oferecer um pacote completo, em que a subsidiária detecta e coordena, e o avião da Embraer engaja ameaças maiores, como os drones de ataque do tipo Shahed. 


O cérebro das Fragatas Classe Tamandaré 
Se no antidrone a Atech constrói mercado, no mar ela já ocupa uma das posições mais sensíveis da Defesa brasileira. No Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT), contratado em 2020 com o consórcio Águas Azuis, formado por TKMS, Embraer Defesa & Segurança e Atech, a empresa responde pelo desenvolvimento e integração do Sistema de Gerenciamento de Combate (CMS, na sigla em inglês), do enlace de dados táticos e das atividades de integração e testes do sistema de combate, em parceria com a alemã ATLAS ELEKTRONIK, subsidiária da TKMS. Também é responsável, com a L3Harris, pelo Sistema Integrado de Gerenciamento da Plataforma (IPMS).

O CMS integra os 22 componentes do sistema de combate do navio: radares, sonar, guerra eletrônica, optrônicos, mísseis antiaéreos de lançamento vertical, torpedos e o canhão de 76 mm. O sistema compila os dados dos sensores, identifica e classifica múltiplas ameaças e sugere ao comando a melhor resposta tática. O IPMS, por sua vez, monitora e controla 68 sistemas de propulsão, energia, auxiliares e controle de avarias. Os laboratórios de integração e testes funcionam no escritório da Atech no Rio de Janeiro, inaugurado em outubro de 2021.

O ano de 2026 marcou a consolidação desse trabalho. Entre 9 e 13 de abril, a fragata Tamandaré (F200) passou pela certificação técnica e operacional de seus sistemas de combate na área marítima de Cabo Frio (RJ), incluindo o lançamento de torpedo que testou a integração entre sonar, sistema de lançamento e CMS. O navio foi incorporado à Esquadra em 24 de abril. No mesmo mês, a Atech e a Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha (DSAM) assinaram um Protocolo de Intenções voltado à evolução contínua do CMS ao longo da vida útil dos navios. O documento sinaliza a intenção de manter a parceria, mas não equivale, por si só, à contratação de novos desenvolvimentos. Em maio, a empresa inaugurou na Base Naval do Rio de Janeiro o Simulador Tático e o Centro de Suporte do Sistema de Combate (CSSC), instalado no Centro de Apoio a Sistemas Operativos (Casop), estrutura que permite configurar o sistema, validar atualizações de software e treinar as tripulações antes do embarque.

O programa soma R$ 12 bilhões no primeiro lote, inserido no Novo PAC, e prevê a entrega das quatro fragatas, construídas pela TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Itajaí (SC), até 2029. A Atech é também a receptora da transferência de tecnologia dos dois sistemas, o que dá à Marinha capacidade de manter e evoluir o “cérebro” dos navios sem depender exclusivamente de fornecedores europeus. A Força já manifestou intenção de contratar um segundo lote de quatro fragatas, com meta de elevar o conteúdo local de 32% para 42% e integrar o míssil antinavio nacional MANSUP-ER, o que tende a ampliar o papel da empresa. 

C4I, espaço aéreo e até o reator do submarino 
A competência em comando, controle, comunicações, computação e inteligência (C4I) é a origem da Atech. A empresa atua na evolução do Dacom (Defesa Aérea e Circulação Operacional Militar), o sistema central de comando e controle da defesa aeroespacial brasileira, e há mais de três décadas desenvolve, em parceria com o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e a Comissão de Implantação do Sistema de Controle do Espaço Aéreo (Ciscea), os sistemas que gerenciam o tráfego aéreo do País, como o Sigma e o Sagitario. 

Segundo a Embraer, as soluções da subsidiária apoiam a gestão de cerca de 22 milhões de quilômetros quadrados de espaço aéreo, área que inclui a porção oceânica sob responsabilidade brasileira. Em julho de 2024, durante o Farnborough International Airshow, a Atech fechou com o Decea dois contratos que somam US$ 17 milhões para modernizar esses sistemas, e o relatório da administração de 2025 registra mais quatro contratos com o órgão para desenvolver e modernizar sistemas de controle de tráfego aéreo. No Dacom, a empresa firmou no mesmo ano acordo de continuidade do Simulador de Operações Militares (SOpM).

O portfólio vai além. A empresa é a principal fornecedora dos sistemas de instrumentação e controle do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (Labgene), protótipo em terra da planta de propulsão do submarino convencionalmente armado com propulsão nuclear Álvaro Alberto, e concluiu em 2025 os testes desses sistemas. Também desenvolveu o sistema de missão N-TDMS dos helicópteros AH-15B Super Cougar da Marinha, participa dos simuladores do caça Gripen e integra, há cinco anos consecutivos, o exercício Locked Shields, o maior treinamento de ciberdefesa do mundo, organizado pelo centro de excelência da OTAN em Tallinn.

No exterior, a Atech fornece sistemas de gestão de fluxo de tráfego aéreo à Índia e sistemas de vigilância aérea e terrestre a programas de defesa no Norte da África. Em setembro de 2025, assinou contrato com a sul-africana ATNS para modernizar o gerenciamento de fluxo de tráfego aéreo no Aeroporto Internacional O.R. Tambo, em Joanesburgo, com conclusão prevista para o terceiro trimestre de 2027. Em junho de 2025, abriu em Lisboa seu primeiro escritório fora do Brasil, ao lado da Embraer Defense Europe. Em junho deste ano, firmou parceria com o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP (ICMC/USP) para usar inteligência artificial na previsão de trajetórias de aeronaves em quatro dimensões. A experiência em tráfego aéreo também serve a outra empresa do grupo: em 2023, a Eve Air Mobility informou que a Atech apoiou o desenvolvimento de seu software de gestão de tráfego aéreo urbano, voltado aos futuros “carros voadores”. 


Por que a Atech importa para a Embraer 
A empresa nasceu em dezembro de 2009, da cisão parcial da Fundação Atech, herdeira de um programa de absorção de tecnologia de controle de tráfego aéreo da Força Aérea Brasileira iniciado na década de 1980. A Embraer Defesa & Segurança comprou 50% do capital em abril de 2011 e assumiu o controle total em 2013. Credenciada como Empresa Estratégica de Defesa (EED) pelo Ministério da Defesa, a Atech mantém unidades em São Paulo, Rio de Janeiro, São José dos Campos e Brasília.

Para o grupo, a subsidiária cumpre ao menos três funções. A primeira é transformar a Embraer de fabricante de plataformas em fornecedora de soluções integradas: o avião, o radar, o centro de comando e o software que une tudo. A segunda é financeira, pois os contratos de suporte e atualização de sistemas de missão e de tráfego aéreo geram receitas recorrentes que suavizam os ciclos longos das encomendas de aeronaves. A terceira é a credibilidade internacional: o sistema brasileiro de gestão de tráfego aéreo é reconhecido pela Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), e a presença em programas como o Labgene e as fragatas atesta capacidade de lidar com sistemas de missão crítica.

Os números confirmam o peso da operação. Segundo as demonstrações financeiras de 2025, a Atech, controlada integralmente pela Embraer Defesa e Segurança Participações, registrou receita líquida de R$ 344,6 milhões, alta de cerca de 27% sobre os R$ 271,3 milhões de 2024. O lucro líquido somou R$ 70,6 milhões, pouco abaixo dos R$ 73,9 milhões do ano anterior. O relatório da administração aponta ainda crescimento de 75% nas vendas e de 25% na carteira de pedidos (backlog), indicadores que se referem a negócios fechados e não devem ser confundidos com a receita reconhecida no exercício. Um detalhe chama a atenção: o documento não menciona a linha antidrone entre os destaques do ano, o que indica que o C-UAS, embora promissor, ainda não tem peso relevante no faturamento. 


A estratégia ganhou novo instrumento em 28 de abril, quando a Atech assinou memorando de entendimento com a ALADA, estatal designada pelo Ministério da Defesa para conduzir exportações no modelo governo a governo (G2G). O acordo pode facilitar a venda de sistemas de C4I e antidrone a governos estrangeiros, em sintonia com as negociações que a própria Embraer conduz para o KC-390 e o Super Tucano.

À frente da empresa está um executivo formado dentro do grupo. Engenheiro mecânico pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com MBAs pela FIA-USP e pela Fundação Getulio Vargas (FGV), Rodrigo Persico acumula mais de duas décadas na Embraer, onde atuou em engenharia de produto no Brasil e no exterior e, a partir de março de 2020, ocupou a vice-presidência de Inteligência de Mercado da unidade de Defesa & Segurança, antes de suceder Edson Mallaco na presidência da Atech.

O que vem pela frente 
A demanda por proteção antidrone deve continuar crescendo, impulsionada pelas lições da Ucrânia e do Oriente Médio, pela proteção de grandes eventos e pela escalada do uso criminoso dessas aeronaves no País. O posicionamento da Atech, porém, tem limites que convém observar. Sensores de radiofrequência dependem de que o drone emita sinais. Aeronaves totalmente autônomas, que voam sem enlace de rádio, ou os drones FPV guiados por fibra óptica, cada vez mais comuns no front ucraniano, não deixam rastro no espectro. Contra esse tipo de ameaça, a detecção depende de radares e câmeras, e a neutralização exige meios cinéticos (hard kill), que a empresa não fabrica e precisaria integrar por meio de parceiros.
No entanto, sua grande capacidade de integração representa um passo importante em direção a esse objetivo.

É justamente nessa capacidade de integração que reside a principal vantagem da subsidiária. Como camada de comando e controle, o Arkhe pode, em tese, agregar sensores e armas de diferentes fabricantes, inclusive os de uma eventual defesa antiaérea em camadas do Exército e da Força Aérea. Se essa vocação de integradora se confirmar também no antidrone, como já ocorre nas fragatas e no controle do espaço aéreo, a Atech tende a deixar de ser a parte menos visível do Grupo Embraer para se tornar uma das mais estratégicas.

18 abril, 2026

Atech, da Embraer, e Marinha do Brasil aprofundam parceria no "cérebro" das Fragatas Classe Tamandaré

Protocolo de Intenções reforça papel da empresa do Grupo Embraer no desenvolvimento contínuo do Sistema de Gerenciamento de Combate em momento histórico para o Poder Naval brasileiro 


*LRCA Defense Consulting - 18/04/2026

O acordo chega em um momento de máxima relevância estratégica. A Atech, empresa do Grupo Embraer especializada em engenharia e integração de sistemas de defesa, e a Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha do Brasil (DSAM) firmaram um Protocolo de Intenções voltado à evolução e ao aprimoramento contínuo do Sistema de Gerenciamento de Combate (CMS) das Fragatas Classe Tamandaré (FCT). O acordo consolida uma parceria que já estava no coração tecnológico do mais moderno programa naval do país.

A assinatura ocorre enquanto a Fragata "Tamandaré" (F200), primeiro navio da classe, vive seus dias mais decisivos antes da incorporação oficial à Esquadra. Entre os dias 9 e 13 de abril de 2026, a Marinha do Brasil conduziu a certificação técnica e operacional dos sistemas de combate da F200 na área marítima de Cabo Frio, onde o navio demonstrou a maturidade de seus sensores, a eficácia dos armamentos e a capacidade de conduzir operações. A cerimônia de Mostra de Armamento, que marcará a incorporação oficial, está prevista para o dia 24 de abril.

O "cérebro" do navio
No centro de todo esse arsenal tecnológico está o CMS, e é exatamente aí que a Atech desempenha papel insubstituível. A empresa, especializada em engenharia e integração de sistemas, é responsável pelo desenvolvimento e integração do Sistema de Gerenciamento de Combate, do Enlace de Dados Táticos e pelas atividades de Integração e Testes do sistema de combate, em parceria com a Atlas Elektronik, subsidiária da TKMS, e também pelo Sistema Integrado de Gerenciamento da Plataforma (IPMS), em parceria com a L3Harris.

O CMS das fragatas, resultado da parceria entre a Atech e a Atlas Elektronik, é responsável pela integração dos 22 componentes do Sistema de Combate dos navios, para a manutenção da consciência situacional e o emprego eficiente do armamento. Já o IPMS permite o monitoramento e controle de 68 sistemas integrados, segundo módulos de propulsão, geração e distribuição de energia, sistemas auxiliares e controle de avarias.

Na prática, o CMS funciona como o sistema nervoso central do navio de guerra. O sistema possui capacidade de identificar e classificar múltiplas ameaças simultaneamente, compilar dados de diferentes sensores: radar AESA, sonares e sistemas optrônicos, e apoiar a tomada de decisão do comandante com maior rapidez e precisão.

Os testes de abril comprovaram essa integração em condições reais de combate. O lançamento do torpedo permitiu verificar procedimentos operacionais, protocolos de segurança e a integração entre sonar, sistema de lançamento e o próprio CMS. Esse sistema é responsável por processar dados de sensores, identificar e classificar ameaças e indicar a melhor resposta tática em tempo real.

Um programa nacional, construído com tecnologia brasileira
O novo Protocolo de Intenções não surge do nada; é a continuação natural de uma trajetória de colaboração profunda. A Atech, empresa do Grupo Embraer, foi selecionada como fornecedora do CMS e do IPMS no âmbito do consórcio Águas Azuis, composto por TKMS, Embraer Defesa e Segurança e Atech, que venceu a licitação do Programa Fragatas Classe Tamandaré.

O programa nasceu de uma necessidade histórica de renovação. O objetivo é substituir meios navais veteranos, como as fragatas da Classe Niterói e as corvetas Classe Inhaúma, que se aproximam do fim da vida útil. Com investimento de R$ 12 bilhões via Novo PAC e quatro navios contratados inicialmente, as quatro Fragatas da Classe Tamandaré serão entregues à Marinha do Brasil até 2029.

A dimensão tecnológica do acordo vai além da operação imediata. A Atech participa, em conjunto com a Marinha do Brasil, do processo de transferência de tecnologia desses sistemas, atividade de grande importância que permitirá dispor dos conhecimentos e ferramentas necessários para operar e manter os sistemas das fragatas no futuro. Trata-se, portanto, de soberania tecnológica: o Brasil não apenas opera o equipamento, mas passa a deter o conhecimento para mantê-lo e aprimorá-lo.
 

Amazônia Azul: o contexto estratégico
O acordo entre Atech e DSAM insere-se num cenário de crescente valorização do poder naval brasileiro. As Fragatas Classe Tamandaré são consideradas estratégicas para as atividades de controle e monitoramento da área marítima sob jurisdição brasileira, conhecida como Amazônia Azul, que abrange mais de 5,7 milhões de quilômetros quadrados.

A Fragata "Tamandaré" incorpora tecnologia de ponta, contando com radares de vigilância aérea e de superfície, sonar de casco, além de sistemas eletro-ópticos e infravermelhos. Sua arquitetura é compatível com padrões da OTAN, o que permite interoperabilidade com outras forças.

O programa também estimula a indústria nacional. O PFCT envolve cerca de 2.000 empresas nacionais ao longo de sua cadeia produtiva. E a ambição cresce: a Marinha do Brasil já anunciou a intenção de contratar um segundo lote de mais quatro fragatas. Para esse segundo lote, a meta é elevar o índice de conteúdo local de 32% para 42%, e as novas unidades deverão sair de fábrica com o míssil antinavio brasileiro MANSUP-ER integrado, com alcance estendido para 250 quilômetros.

O que o novo protocolo significa
Com o novo Protocolo de Intenções entre Atech e DSAM, o que está em jogo é a garantia de que o CMS das fragatas não será estático. Pelo contrário: o acordo pavimenta a evolução contínua do sistema ao longo de toda a vida útil dos navios, permitindo que a Marinha incorpore novas ameaças, novos sensores e novos armamentos à medida que o cenário estratégico se transforme.

A posição da Atech como "Casa de Sistemas" do Grupo Embraer para a Defesa coloca a empresa num papel raro no setor, o de integradora nacional capaz de costurar tecnologias de diferentes origens numa plataforma coerente e sob controle soberano brasileiro. Numa era em que conflitos modernos exigem redes de sensores cada vez mais complexas e decisões cada vez mais rápidas, ter esse elo tecnológico firmemente nas mãos de uma empresa nacional não é detalhe: é doutrina e soberania.

16 fevereiro, 2026

Fragata Tamandaré recebe certificação da DNV e marca estreia operacional da “Embraer naval”

Primeiro navio da Classe Tamandaré obtém aval da DNV e está pronto para operação, consolidando o maior projeto de construção naval de defesa já desenvolvido no país


*LRCA Defense Consulting - 16/02/2026 

Em um marco histórico para a indústria de defesa brasileira, a Fragata "Tamandaré" (F200), primeira unidade da Classe Tamandaré da Marinha do Brasil, recebeu nesta semana a certificação estatutária emitida pela Det Norske Veritas (DNV), uma das mais respeitadas sociedades classificadoras do mundo. A certificação oficializa a mudança de status da embarcação de "em construção" para "em operação", abrindo caminho para sua plena integração à Esquadra Brasileira.

A certificação representa muito mais do que um passo burocrático no processo de aceitação do navio. Trata-se do reconhecimento internacional de que o Brasil conseguiu conceber, construir e colocar em serviço uma escolta de última geração, cumprindo rigorosos padrões de segurança, desempenho e proteção ambiental estabelecidos por convenções como SOLAS (Convenção Internacional para a Salvaguarda da Vida Humana no Mar) e MARPOL (Convenção Internacional para a Prevenção da Poluição por Navios).

"A certificação da DNV é um reconhecimento objetivo da maturidade técnica da Fragata Tamandaré e do trabalho rigoroso realizado ao longo de todo o processo de construção e comissionamento", afirmou Fernando Queiroz, CEO do Consórcio Águas Azuis, em comunicado oficial. "Esse avanço posiciona o navio em um novo patamar operacional, dentro dos mais altos referenciais internacionais".

A "Embraer dos mares": tecnologia aeronáutica navega para o oceano
Mais do que um avanço para a Esquadra, a Fragata Tamandaré consolida-se como vitrine tecnológica da indústria de defesa brasileira, em especial da Embraer Defesa & Segurança e da Atech. A fragata representa, literalmente, a expressão naval da capacidade tecnológica desenvolvida pela Embraer ao longo de mais de cinco décadas de experiência em sistemas aeronáuticos complexos.

Integrante do Consórcio Águas Azuis, ao lado da alemã thyssenkrupp Marine Systems (TKMS), a Embraer leva para o mar sua expertise acumulada em integração de plataformas complexas, sistemas embarcados e engenharia de missão. Se nas alturas a empresa consolidou o Brasil como potência aeronáutica regional, agora transporta essa mesma filosofia de integração de sistemas e inovação tecnológica para as águas da chamada "Amazônia Azul".

A Atech, subsidiária do Grupo Embraer especializada em engenharia e integração de sistemas, desempenha papel ainda mais central no projeto. A empresa é responsável pelo desenvolvimento e fornecimento de dois dos sistemas mais críticos da fragata: o Sistema de Gerenciamento de Combate (CMS – Combat Management System) e o Sistema Integrado de Gerenciamento da Plataforma (IPMS – Integrated Platform Management System).

O CMS, derivado do Atlas ANCS e desenvolvido em parceria com a Atlas Elektronik (subsidiária da TKMS), é o "cérebro" que integra sensores, armamentos e sistemas de comunicação do navio, permitindo que a tripulação processe informações táticas e tome decisões de combate em frações de segundo. Já o IPMS, baseado no sistema da L3Harris e desenvolvido em cooperação com a empresa canadense, monitora e controla 68 sistemas integrados da plataforma, incluindo propulsão, geração e distribuição de energia, sistemas auxiliares e controle de avarias.

Para viabilizar esse trabalho, a Atech inaugurou em outubro de 2021 um escritório de 3 mil metros quadrados no Rio de Janeiro, equipado com laboratórios de integração e testes (LIT), instalações para simulação de sistemas (LBTF – Land Based Test Facility) e ambientes de treinamento com ferramentas do tipo Computer Based Training System (CBTS). Nesses laboratórios, os sistemas da fragata foram testados exaustivamente antes de serem embarcados, em um processo que envolveu estreita colaboração entre equipes da Atech, da Marinha e dos demais parceiros do consórcio.

 

O Consórcio Águas Azuis: parceria estratégica para soberania tecnológica
O Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT) é executado pela Sociedade de Propósito Específico (SPE) Águas Azuis, formada por três players com papéis complementares:

thyssenkrupp Marine Systems (TKMS): líder do consórcio, fornece a tecnologia naval da comprovada plataforma MEKO, já utilizada em mais de 80 embarcações em operação em marinhas de 15 países, incluindo Portugal, Grécia, Austrália, Argentina e Argélia. A TKMS adaptou o design MEKO A-100 para as necessidades específicas da Marinha brasileira e gerencia a construção no estaleiro TKMS Brasil Sul, em Itajaí (SC).

Embraer Defesa & Segurança: responsável pela integração de sensores e armamentos ao sistema de combate, trazendo ao programa seus mais de 55 anos de experiência em soluções de tecnologia de sistemas e suporte em serviço. A empresa aplica à plataforma naval a mesma metodologia de integração de sistemas complexos que a tornou referência mundial na aviação.

Atech: desenvolve e fornece os sistemas CMS e IPMS, além de realizar as atividades de integração e testes dos sistemas de combate e da plataforma. A empresa consolida sua posição como fornecedora estratégica de sistemas críticos para a Defesa Nacional.

O contrato, assinado em março de 2020, tem valor de R$ 9,1 bilhões (posteriormente atualizado para aproximadamente R$ 13,8 bilhões com a incorporação de sistemas e equipamentos adicionais) e prevê não apenas a construção das quatro fragatas, mas também robusta transferência de tecnologia em engenharia naval para fabricação de navios militares e sistemas de gerenciamento de combate e plataforma, além de apoio logístico durante o ciclo de vida das embarcações.

Um navio para proteger a "Amazônia Azul"
A Fragata Tamandaré é um navio de escolta multimissão de aproximadamente 3.500 toneladas, com 107,2 metros de comprimento, 15,95 metros de boca e capacidade de atingir 25 nós (cerca de 47 km/h). Projetada para operar em todos os ambientes de guerra – superfície, aéreo e submarino – a embarcação incorpora armamentos e sensores de última geração.

Entre seus sistemas de combate, destacam-se mísseis de defesa aérea Sea Ceptor com lançamento vertical, mísseis antinavio MANSUP, torpedos antissubmarinos, canhão principal OTO Melara de 76mm e sistema de armas de proximidade (CIWS) SeaSnake de 30mm. Para detecção e rastreamento, o navio conta com radar AESA (Active Electronically Scanned Array) Hensoldt TRS-4D, sonares e sistemas eletrônicos de última geração.

A fragata possui ainda convoo e hangar para operação de helicóptero embarcado, ampliando significativamente seu raio de ação e capacidade de detecção. Sua autonomia de 5.500 milhas náuticas permite operações prolongadas sem necessidade de reabastecimento.

A missão principal das Fragatas Classe Tamandaré é proteger os 5,7 milhões de quilômetros quadrados da "Amazônia Azul", nome dado à área marítima sob jurisdição brasileira, que inclui águas territoriais, zona econômica exclusiva e plataforma continental. Além da defesa territorial, os navios realizarão operações de busca e salvamento, combate à pirataria e pesca ilegal, monitoramento de poluição e participação em missões de paz e ajuda humanitária internacionais.

Impactos econômicos e estratégicos
O PFCT foi incluído no Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC) no eixo de inovação para a indústria, e também integra a Missão nº 6 "Tecnologias de Interesse para a Soberania e Defesa Nacional" da iniciativa Nova Indústria Brasil (NIB), refletindo seu caráter estratégico para o desenvolvimento nacional.

A construção das fragatas mobiliza cerca de 2.000 profissionais diretamente nas obras, com reflexo de aproximadamente 6.000 postos de trabalho indiretos e cerca de 15.000 empregos induzidos, totalizando 23.000 oportunidades geradas. O programa envolve uma extensa cadeia de fornecedores nacionais, com aproximadamente 2.000 empresas brasileiras participando do processo produtivo, contribuindo para o fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID) do país.

Lançada ao mar em agosto de 2024, a Fragata Tamandaré passou por rigorosos testes de aceitação no mar ao longo de 2025. Durante as navegações pela costa catarinense, foram avaliados sistemas de propulsão, geração de energia, automação, quadros elétricos e sistemas de alarme e segurança sob diversas condições de carga, mar e vento. A tripulação de 112 militares vem sendo capacitada para operar a embarcação desde o início do programa.

 

O futuro da Esquadra Brasileira
Com a certificação da F200, o foco agora se desloca para a plena incorporação operacional da primeira unidade, com a aceitação militar completa prevista para os próximos meses, e a continuidade das obras das demais fragatas da classe:

  • Jerônimo de Albuquerque (F201): segunda fragata, lançada em agosto de 2025, já com estrutura montada e em fase de equipagem. Previsão de entrega em 2027.

  • Cunha Moreira (F202): terceira unidade, em estágio intermediário de construção.

  • Mariz e Barros (F203): quarta fragata, em fase inicial de montagem. Entrega prevista para 2029.

As entregas graduais entre 2025 e 2029 permitirão à Marinha substituir progressivamente as antigas fragatas da Classe Niterói, adquiridas do Reino Unido na década de 1970 e que já passaram por múltiplos processos de modernização, mas que estão tecnologicamente superadas e próximas ao fim de sua vida útil operacional.

Projeção internacional e soberania tecnológica
Simbolicamente, a chegada da Tamandaré ao status de navio "em operação" sinaliza ao mercado internacional e aos parceiros estratégicos que o Brasil consolidou capacidade de conceber, construir e operar escoltas de última geração, integrando tecnologia nacional em sistemas críticos de missão e combate.

Para a Embraer e a Atech, a fragata funciona como vitrine tecnológica em potenciais futuras exportações e cooperações internacionais na área naval. "Essa parceria valida os esforços para expandir nosso portfólio de defesa e segurança além do segmento aeronáutico", destacou Jackson Schneider, então CEO da Embraer Defesa & Segurança, quando da assinatura do contrato em 2020.

Para a Marinha do Brasil, a Fragata Tamandaré representa o início concreto de uma nova geração de escoltas, mais capazes, flexíveis e alinhadas às demandas de um ambiente marítimo cada vez mais complexo e contestado. Para o país, é a materialização de décadas de investimento em capacitação tecnológica e industrial, provando que o Brasil pode ser protagonista não apenas como usuário, mas como desenvolvedor e potencial exportador de tecnologias de defesa de alta complexidade.

A "Embraer naval" acaba de fazer sua estreia nos mares brasileiros. E o oceano, assim como o céu, agora tem sotaque brasileiro.


Sobre o Programa Fragatas Classe Tamandaré:

  • Valor: R$ 13,8 bilhões
  • Quatro fragatas previstas (F200 a F203)
  • Construção: TKMS Estaleiro Brasil Sul, Itajaí (SC)
  • Gestão: EMGEPRON (Empresa Gerencial de Projetos Navais)
  • Execução: Consórcio Águas Azuis (TKMS + Embraer + Atech)
  • Entregas: 2025 a 2029
  • Empregos gerados: 23.000 (diretos, indiretos e induzidos)
  • Fornecedores nacionais: aproximadamente 2.000 empresas

 


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