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17 outubro, 2026

Super Tucano pode preservar meios de alto desempenho na defesa em camadas contra drones

Vocação do A-29 contra alvos lentos ganha relevância diante de ataques numerosos, enquanto vetores a jato como o Geran-5 exigem respostas de outra categoria



*LRCA Defense Consulting - 17/10/2026 - 08h15

O avanço dos drones de ataque a jato torna mais importante definir o lugar de cada sistema na defesa aérea. Para o A-29 Super Tucano, a oportunidade está sobretudo no combate a drones mais lentos, dentro de uma arquitetura em camadas capaz de distribuir as ameaças entre diferentes meios. Se validada nas condições previstas de emprego, essa capacidade poderá reduzir a necessidade de mobilizar caças de alto desempenho e consumir mísseis mais caros contra alvos que não exigem esses recursos.

Essa é a lógica que sustenta o conceito antidrone desenvolvido pela Embraer. A chegada de vetores como o russo Geran-5, cujo desempenho se aproxima do de um míssil de cruzeiro, delimita o campo de atuação do turboélice. O valor do Super Tucano deve ser medido pela contribuição que pode oferecer ao conjunto da defesa, especialmente diante da repetição de ataques com armas relativamente baratas.

Os drones lentos continuam sendo um problema militar 

O menor custo relativo de muitos drones a hélice favorece sua aquisição e emprego em quantidade. A velocidade reduzida não elimina a capacidade de causar danos: uma arma que alcança uma subestação, um depósito ou uma instalação industrial pode produzir efeitos muito superiores ao seu preço. Além disso, alvos numerosos impõem trabalho aos sensores, aos centros de comando e às unidades responsáveis pelos engajamentos.

A evolução tecnológica tampouco exige que todas as armas anteriores desapareçam. Para o atacante, permanece plausível combinar vetores de diferentes custos e desempenhos, explorando as dificuldades que cada categoria impõe. Trata-se de uma lógica operacional, não de uma previsão de que os drones a pistão conservarão determinada participação na produção russa.

Esse cuidado é importante porque os modelos a jato também estão sendo empregados em grande quantidade. A IEEE Spectrum, em reportagem de 30 de setembro, citou estimativa de cerca de US$ 80 mil para um Geran a jato, aproximadamente o dobro do valor atribuído aos antecessores a hélice. Os números são estimativas de fonte secundária, não preços contratuais comprovados para cada versão. A publicação também registrou forte expansão dos lançamentos desses modelos durante o verão europeu.

Portanto, o argumento em favor do A-29 não depende de supor que os drones rápidos serão raros. Depende da existência de uma parcela relevante de ameaças compatíveis com suas capacidades, para a qual possa oferecer uma resposta eficaz e economicamente sustentável.

Uma camada aérea móvel contra alvos compatíveis 
Em novembro de 2025, a Embraer anunciou a ampliação das capacidades do Super Tucano para combater sistemas aéreos não tripulados. O conceito combina enlaces de dados para receber informações iniciais sobre o alvo, sensores eletro-ópticos e infravermelhos, metralhadoras .50 e foguetes guiados a laser. A proposta é aproveitar a plataforma existente e integrar os recursos necessários à nova missão.

Em 4 de março de 2026, a fabricante anunciou parceria com a Valkyrie Aero para incorporar o Gunslinger, sistema com inteligência artificial voltado ao apoio à decisão tática. A Embraer destaca a autonomia, a agilidade e a possibilidade de acompanhar com segurança a velocidade de determinados drones de ataque, criando condições favoráveis ao emprego do armamento. São atributos apresentados pela fabricante, cuja eficácia precisa ser medida na configuração e nos cenários de operação correspondentes.

Nesse arranjo, o A-29 atuaria conectado à vigilância e ao comando da defesa. A indicação externa de alvos reduziria a necessidade de procurar sozinho pequenos objetos em grandes áreas, enquanto os sensores embarcados contribuiriam para a identificação e o acompanhamento. Sua mobilidade permitiria reforçar setores ameaçados e criar oportunidades de engajamento antes da chegada dos drones aos pontos protegidos.

Contra alvos lentos, a capacidade de voar em velocidades compatíveis com o acompanhamento constitui uma vantagem potencial. Uma aeronave reutilizável também pode realizar sucessivos engajamentos, dentro dos limites de munição, combustível e tempo de missão. O resultado esperado seria aliviar a carga sobre outras camadas e preservar meios de maior desempenho para as ameaças que efetivamente os exigem.

O Geran-5 estabelece um limite importante 
Segundo a ficha da inteligência militar ucraniana disponível no portal War & Sanctions, o Geran-5 tem velocidade de cruzeiro entre 450 e 600 km/h, alcance de 950 km, ogiva de 90 kg e peso máximo de decolagem de 850 kg. A fonte pertence a uma das partes do conflito, e esses dados devem ser entendidos como sua avaliação técnica, não como resultado de ensaios independentes.

Com propulsão a jato, navegação guiada e emprego de ataque sem retorno, o Geran-5 pode ser descrito funcionalmente como uma arma próxima a um míssil de cruzeiro de baixo custo. A denominação não decorre apenas da aparência ou da velocidade, nem implica equivalência com mísseis mais sofisticados em precisão, alcance ou resistência às contramedidas.

A FAB informa velocidade máxima nivelada de 590 km/h para o A-29. Tomados como referência, esses números não oferecem vantagem de velocidade ao Super Tucano para perseguir um Geran-5 voando a 600 km/h. Contra um alvo situado na parte inferior da faixa publicada, pode existir vantagem, mas sua utilidade depende da altitude, da configuração da aeronave, da distância inicial e do tempo restante para o engajamento.

Uma geometria favorável e armamento adequado podem permitir interceptações sem perseguição prolongada. Essa possibilidade teórica, entretanto, não fundamenta a escolha do A-29 como resposta principal ao Geran-5. O planejamento deve atribuir vetores dessa categoria a sistemas com desempenho e capacidade de engajamento demonstrados para enfrentá-los.

Também seria impreciso tratar todos os drones a jato como equivalentes. O estudo de Kateryna Bondar e Nicole Errera, publicado pelo CSIS em setembro, descreve diferenças entre os Geran-3, Geran-4 e Geran-5, inclusive em estrutura e aerodinâmica. A seleção do defensor precisa considerar cada ameaça e suas condições de emprego, em vez de se apoiar somente no tipo de motor. 


Defesa em camadas significa integração e divisão de tarefas 

A política de defesa aérea e antimísseis integrada da OTAN, aprovada em fevereiro de 2025, estabelece a combinação de plataformas aéreas e sistemas de superfície com diferentes alcances e altitudes. Também enfatiza vigilância, comando e controle, interoperabilidade e medidas de proteção passiva. O princípio é criar respostas complementares, com redundância e possibilidade de enfrentar simultaneamente ameaças distintas.

Aplicada à discussão brasileira, essa lógica permite considerar o A-29 como uma camada aérea móvel contra drones lentos adequados ao seu sistema de armas. Canhões, mísseis de curto alcance, drones interceptadores e guerra eletrônica podem oferecer outras respostas, conforme suas capacidades e limitações. Caças e sistemas antiaéreos de maior desempenho preservariam a responsabilidade pelas ameaças que demandem seus recursos.

As camadas não precisam formar círculos rígidos, nem cada alvo deve pertencer exclusivamente a um único defensor. O comando precisa poder distribuir os engajamentos conforme a urgência, a probabilidade de sucesso, a disponibilidade de meios e a importância do objetivo ameaçado. A coordenação também deve impedir que a defesa terrestre coloque em risco aeronaves amigas e o tráfego civil.

Custo por neutralização e proteção das tripulações 
A vantagem econômica do Super Tucano precisa ser demonstrada pelo custo da missão e pelos resultados alcançados. Combustível, manutenção, sensores, treinamento, munições e disponibilidade da frota entram nessa conta. Uma metralhadora utiliza munição de menor preço unitário que muitos mísseis, mas isso não garante que seja a opção mais eficaz ou segura em qualquer situação.

Da mesma forma, disparar um míssil caro contra um drone barato pode ser justificável para impedir a destruição de uma instalação essencial. A defesa em camadas busca ampliar as opções disponíveis e sustentar a resposta ao longo do tempo, evitando a dependência sistemática dos recursos mais escassos.

A presença de tripulantes acrescenta uma exigência. O CSIS descreve adaptações de Gerans com armamentos antiaéreos, entre eles mísseis R-60 e Verba. Isso não significa que todos os drones possuam tais recursos, mas recomenda incorporar a possibilidade à avaliação de risco. Baixa velocidade do alvo não é sinônimo de ausência de ameaça à aeronave interceptadora.

O que precisa ser validado no Brasil 

A experiência brasileira já oferece um alerta sobre a importância de ensaios representativos. Em artigo publicado no EBlog em fevereiro de 2026, o general André Dias e o primeiro-tenente Vítor Siqueira Wollmann relataram dificuldades no emprego do Gepard 1A2 contra aeromodelos predominantemente de isopor na Operação Punhos de Aço 2025. A baixa assinatura dos alvos levou as guarnições ao acompanhamento manual pelo periscópio. O episódio diz respeito àqueles alvos e condições, não demonstra incapacidade geral do Gepard contra drones.

Para o A-29, a avaliação deve abranger toda a sequência de detecção, identificação, acompanhamento e neutralização, incluindo integração com sensores externos, operação noturna e desempenho sob interferência. Também importa conhecer quantos engajamentos podem ser realizados por missão, a disponibilidade necessária para manter a cobertura e as restrições ao emprego das armas sobre áreas habitadas.

Em setembro, o LRCA registrou que a Embraer trabalhava com um país não divulgado em uma demonstração com drones reais, destinada a aperfeiçoar o conceito operacional e a interface homem-máquina. A prova de conceito representa um avanço, mas não equivale à comprovação de eficácia contra qualquer drone nem à certificação de toda a solução.

Para o País, a oportunidade é avaliar essa capacidade em conjunto com as demais camadas e com as prioridades de proteção. O Super Tucano pode contribuir para enfrentar a quantidade de ameaças lentas, enquanto meios de maior desempenho respondem aos vetores mais exigentes. Sua relevância antidrone está justamente nessa missão delimitada: oferecer ao sistema de defesa mais uma opção sustentável, liberando recursos que precisam estar disponíveis para outros alvos.

21 setembro, 2026

Ucrânia retoma projeto para receber 24 A-29 Super Tucano com possível apoio de Portugal

Iniciativa apresentada ao ministro da Defesa ucraniano busca empregar a aeronave brasileira contra ataques russos, mas enfrenta obstáculos políticos, jurídicos, industriais e operacionais


*LRCA Defense Consulting - 21 de setembro de 2026

A Ucrânia voltou a colocar o A-29 Super Tucano no centro de seus planos de defesa aérea. O ex-presidente e atual deputado Petro Poroshenko afirmou que trabalha para viabilizar o fornecimento de 24 aeronaves fabricadas pela Embraer, destinadas à proteção da infraestrutura crítica contra os ataques russos com aeronaves não tripuladas e mísseis de cruzeiro. A iniciativa retoma uma aproximação iniciada em 2019, mas agora apresenta quantidade, missão e uma possível fórmula política: a participação de um país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) que mantém contratos de defesa com o Brasil.

A identidade desse país não foi divulgada. As informações disponíveis, contudo, apontam principalmente para Portugal, primeiro cliente do A-29N configurado segundo requisitos da OTAN, sede da OGMA e principal plataforma industrial europeia da Embraer Defesa & Segurança. Essa hipótese é consistente, mas ainda não foi confirmada pelos governos envolvidos nem pela fabricante brasileira.

Poroshenko participa de reunião no estande da Embraer durante a MSPO 2026, na Polônia. Foto: European Solidarity/assessoria de Petro Poroshenko

Do encontro na Polônia à apresentação ao governo ucraniano
Segundo a agência Interfax-Ukraine, Poroshenko apresentou o projeto durante uma reunião da bancada do European Solidarity com o ministro da Defesa da Ucrânia, Yevhen Khmara. Ele declarou que, durante a exposição MSPO 2026, realizada na Polônia entre 8 e 11 de setembro, manteve negociações com representantes da Embraer e foi definida uma solução baseada em 24 Super Tucano.

Poroshenko afirmou que as aeronaves seriam utilizadas contra os Geran russos, inclusive as versões com propulsão a jato, e contra o míssil de cruzeiro de baixo custo S8000 Banderol. Também informou que foram encaminhadas ao Ministério da Defesa propostas de empresas britânicas, estonianas, lituanas e portuguesas para sistemas de armas superfície-ar e ar-ar com alcance de até 30 quilômetros.

As fotografias do encontro foram divulgadas pela assessoria do próprio político e pelo European Solidarity. Uma delas mostra a reunião no estande da Embraer, com material de divulgação do C-390 Millennium ao fundo. Em outra, Poroshenko aparece segurando uma maquete do A-29 diante da identificação da fabricante brasileira. As imagens foram posteriormente reproduzidas pela imprensa ucraniana e pelo portal Aeroin.

Apesar da linguagem adotada por Poroshenko, ainda não há evidência pública de contrato de compra e venda, fonte de financiamento, autorização brasileira de exportação ou cronograma industrial. O que existe é uma iniciativa político-industrial apresentada ao Ministério da Defesa ucraniano, acompanhada de entendimentos preliminares com a Embraer.

Petro Poroshenko com uma maquete do A-29 Super Tucano no estande da Embraer na MSPO 2026. Foto: European Solidarity/assessoria de Petro Poroshenko

Portugal surge como o intermediário mais provável
A referência a “um dos países da OTAN que possui contratos relevantes com o Brasil” permite considerar diferentes clientes europeus do C-390, como Hungria, Países Baixos, República Tcheca e Suécia. Nenhum deles, porém, reúne tantos elementos quanto Portugal.

Em dezembro de 2024, o governo português contratou 12 A-29N Super Tucano, tornando-se o cliente lançador da variante adaptada aos requisitos da OTAN. Portugal também abriga a OGMA, empresa controlada pela Embraer em parceria com o Estado português e apontada como futura base de montagem, suporte e expansão comercial do A-29N no mercado europeu.

Além disso, Poroshenko incluiu empresas portuguesas entre as fornecedoras consultadas para o pacote de armamentos. Portugal poderia atuar como Estado contratante, articulador político dentro da OTAN, centro de treinamento e manutenção ou participante de um mecanismo europeu de aquisição e posterior transferência à Ucrânia.

O número de 24 aeronaves também chama atenção. Ele corresponde ao dobro da encomenda portuguesa de 12 A-29N e pode indicar dois lotes, a ampliação do contrato existente ou uma nova operação estruturada a partir da infraestrutura portuguesa. Por enquanto, essa relação numérica constitui apenas uma hipótese.

A expectativa declarada por Poroshenko de receber todas as aeronaves até o fim de 2026 parece especialmente ambiciosa. Mesmo que existam células disponíveis, seria necessário integrar armamentos e sensores, formar pilotos, preparar equipes de manutenção, estabelecer estoques de peças e construir uma arquitetura de comando e controle. É possível que o prazo se refira à assinatura do acordo ou ao início das entregas, e não à disponibilidade operacional das 24 aeronaves.

O A-29 diante das diferentes gerações do Geran
A Embraer vem desenvolvendo uma configuração do A-29 para missões contra aeronaves não tripuladas. A solução combina as metralhadoras internas calibre .50, foguetes guiados a laser APKWS, sensores eletro-ópticos, enlaces de dados e integração com radares e sistemas terrestres de comando e controle. A fabricante também realiza uma prova de conceito com um país não identificado, empregando A-29 e alvos reais para aperfeiçoar o conceito operacional e a interface homem-máquina.

Na Ucrânia, entretanto, a expressão “caçador de Shahed” já não descreve uma única ameaça. A família russa Geran evoluiu de uma munição lenta, movida por motor a pistão, para vetores a jato que se aproximam do desempenho de mísseis de cruzeiro.

Modelo

Propulsão

Velocidade aproximada

Avaliação diante do A-29

Geran-2

Motor a pistão

Cerca de 180 km/h

Alvo adequado, com ampla margem de velocidade para detecção, acompanhamento e ataque.

Geran-3

Turbojato

Geralmente abaixo de 400 km/h

Interceptação plausível, desde que apoiada por alerta e vetoração.

Geran-4

Turbojato

300 a 400 km/h em cruzeiro e até 500 km/h

Possível, mas com margem reduzida e forte dependência da geometria da interceptação.

Geran-5

Turbojato

Até aproximadamente 600 km/h

Inadequado para perseguição pela retaguarda; engajamento dependeria de posicionamento antecipado e armas guiadas.

A velocidade máxima do A-29 fica próxima de 590 km/h, valor obtido em condições ideais e que não pode ser mantido em qualquer altitude ou configuração de armamentos. Contra o Geran-2, a aeronave dispõe de vantagem confortável. Contra o Geran-3, ainda conserva margem útil. Diante do Geran-4, capaz de atingir aproximadamente 500 km/h, o sucesso passa a depender de alerta antecipado, altitude, posição e rota prevista do alvo.

O Geran-5, estimado em até 600 km/h, encontra-se no limite ou além do desempenho do Super Tucano. O A-29 não conseguiria alcançá-lo em uma perseguição pela retaguarda. Poderia, contudo, realizar uma interceptação frontal ou transversal se fosse posicionado com antecedência por uma rede de sensores e empregasse armamento guiado com alcance suficiente.

Assim, o A-29 não deve ser apresentado como solução universal. Seu emprego parece especialmente racional contra Geran-2, outros vetores lentos e parte das ameaças a jato. Contra Geran-4 e Geran-5, seria apenas um componente de uma defesa em camadas, ao lado de radares, aeronaves de alerta, sistemas terrestres, guerra eletrônica e aeronaves não tripuladas interceptoras.

A legislação brasileira não impõe uma proibição automática
A possível participação de um país da OTAN também procura contornar a posição política brasileira diante da guerra. Desde 2022, o governo do País tem evitado autorizar fornecimentos militares que possam ser interpretados como participação direta no conflito. Essa postura já atingiu munições, helicópteros de origem russa desativados e a solicitação ucraniana de até 450 viaturas blindadas Guarani, inclusive em versões de evacuação médica.

Não existe, porém, uma norma pública vigente que proíba automaticamente a venda de produtos de defesa a qualquer país envolvido em conflito. O instrumento central é o Decreto nº 9.607, de 12 de dezembro de 2018, que instituiu a Política Nacional de Exportação e Importação de Produtos de Defesa, a PNEI-PRODE.

O decreto determina que as autoridades considerem os objetivos da política externa do País, os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, eventuais embargos do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o risco de emprego em genocídio, crimes contra a humanidade ou crimes de guerra, a possibilidade de violações de direitos humanos e do direito internacional dos conflitos armados, além do risco de desvio.

A exportação dos produtos constantes da Lista de Produtos de Defesa depende de anuência do Ministério da Defesa, ouvido o Ministério das Relações Exteriores. A existência de uma guerra, isoladamente, não produz veto automático. No caso ucraniano, não há embargo do Conselho de Segurança da ONU, e Kyiv invoca o direito de legítima defesa reconhecido pelo artigo 51 da Carta das Nações Unidas.

Uma eventual negativa brasileira seria, portanto, uma decisão política e administrativa amparada pelo sistema de controle de exportações, e não consequência inevitável de uma proibição legal absoluta.

Portugal não eliminaria completamente a necessidade de anuência brasileira
A contratação por Portugal ou a montagem das aeronaves na OGMA reduziria a exposição política de uma venda direta entre Brasil e Ucrânia. Ainda assim, a operação provavelmente dependeria de cláusulas de usuário final, autorização para reexportação, licenças relativas a componentes brasileiros e estrangeiros e anuência para o fornecimento continuado de peças, suporte técnico, treinamento e atualizações.

A linha norte-americana do A-29, mantida pela Embraer em parceria com a Sierra Nevada Corporation, constitui outra alternativa teórica. Ela foi criada para atender clientes dos Estados Unidos e operações pelo sistema Foreign Military Sales. Entretanto, a aeronave continua sujeita a direitos industriais, componentes e cadeias de suprimento que podem exigir entendimentos adicionais com o Brasil.

Uma iniciativa mais avançada do que as anteriores
O interesse ucraniano pelo Super Tucano remonta a 2019, quando uma delegação da Força Aérea visitou a Embraer e o então comandante da força, general Serhiy Drozdov, avaliou a aeronave. No mesmo ano, Volodymyr Zelensky manifestou ao então presidente Jair Bolsonaro interesse no A-29 e no C-390. Entre 2019 e 2020, o Super Tucano foi examinado principalmente como possível substituto dos treinadores L-39.

Em junho de 2023, o presidente da Embraer Defesa & Segurança, Bosco da Costa Junior, declarou que já não existiam conversações abertas com a Ucrânia, apesar do interesse demonstrado anteriormente. O quadro agora mudou. O A-29 recebeu uma missão operacional concreta contra ataques de longo alcance, a variante A-29N entrou no mercado europeu e Portugal se tornou cliente e parceiro industrial do programa.

A proposta anunciada por Poroshenko permanece distante de uma venda concluída. Faltam confirmação da Embraer, manifestação do governo português, anuência brasileira, financiamento e um cronograma compatível com a produção e a preparação operacional. Mesmo assim, a combinação entre 24 aeronaves, a reunião na MSPO, a apresentação ao ministro da Defesa e a busca de um patrocinador da OTAN coloca o projeto em estágio político mais definido do que as tentativas anteriores.

O que está em jogo
Para a Ucrânia, o A-29 poderia liberar caças mais caros para missões de maior complexidade e reduzir o consumo de mísseis antiaéreos de alto valor contra alvos relativamente baratos. Para a Embraer, uma operação bem-sucedida abriria a possibilidade de validar o Super Tucano em uma das missões mais demandadas da guerra moderna e ampliar sua presença dentro da OTAN.

O resultado dependerá, porém, de uma definição realista da ameaça. O Super Tucano pode oferecer uma resposta econômica e persistente contra Geran-2 e outros vetores lentos, além de enfrentar parte dos modelos a jato quando inserido em uma rede integrada. Não substitui caças, mísseis antiaéreos ou aeronaves não tripuladas interceptoras diante dos Geran mais rápidos.

A iniciativa de Poroshenko deve ser acompanhada justamente porque reúne três discussões que avançam simultaneamente: a adaptação do A-29 para a missão antidrones, a transformação de Portugal em polo europeu do programa e a possibilidade de a indústria brasileira participar da defesa ucraniana por meio de uma arquitetura multinacional. Se essas três linhas convergirem, o projeto poderá se tornar uma das operações mais relevantes da Embraer Defesa & Segurança na Europa.

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