Pesquisar este portal

Mostrando postagens com marcador exportação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador exportação. Mostrar todas as postagens

07 outubro, 2026

Primeiro Gripen E produzido no Brasil voa e consolida Gavião Peixoto na cadeia global do caça

Marco comprova que a transferência de tecnologia avançou da capacitação para uma capacidade industrial efetiva; linha da Embraer poderá complementar a produção sueca e atender futuras encomendas nacionais e internacionais



*LRCA Defense Consulting - 07/10/2026

O primeiro F-39E Gripen produzido no Brasil pela Embraer realizou nesta quarta-feira, 7 de outubro, seu voo inaugural a partir do complexo industrial de Gavião Peixoto (SP). Mais do que uma etapa prevista no processo de fabricação, o voo representa a comprovação prática de que o País passou a dominar, em território nacional, capacidades de montagem final, integração de sistemas, ensaios em solo e preparação de uma aeronave de caça avançada para testes em voo.


A missão foi conduzida por um piloto de testes da Saab e teve como objetivo verificar o funcionamento dos principais sistemas e validar as características de voo da aeronave. Segundo Embraer e Saab, os resultados confirmaram o desempenho esperado e produziram os dados necessários para a continuidade da campanha de ensaios de produção e aceitação que antecede a entrega à Força Aérea Brasileira (FAB).

Apresentado oficialmente em 25 de março, o caça é o primeiro de 15 exemplares previstos para produção no Brasil dentro do programa atualmente contratado. Depois da conclusão dos testes e do processo de aceitação, deverá seguir para a Base Aérea de Anápolis (GO), onde se integrará ao 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), unidade que opera o Gripen E no País. 


Da transferência de tecnologia à capacidade comprovada 
O significado industrial do voo está diretamente ligado à arquitetura escolhida pela FAB para o Programa Gripen. O contrato assinado em 2014 não se limitou à compra de 36 aeronaves, sendo 28 Gripen E monopostos e oito Gripen F bipostos. Ele incorporou um amplo processo de transferência de tecnologia e cooperação industrial, com engenheiros, técnicos, pilotos de testes e especialistas brasileiros trabalhando junto às equipes suecas em desenvolvimento, engenharia, fabricação, integração, testes e manutenção.

Durante mais de uma década, esse processo criou infraestrutura, formou pessoal e inseriu empresas brasileiras na cadeia de fornecimento do programa. Em março, levantamento publicado pelo LRCA Defense Consulting apontou mais de 350 profissionais brasileiros treinados na Suécia, além da geração de mais de 2 mil empregos diretos e 10 mil indiretos relacionados ao programa. A Saab também ampliou em São Bernardo do Campo (SP) a fabricação de aeroestruturas do Gripen, incluindo a fuselagem traseira, cuja capacidade anual passou de oito para 16 unidades após a abertura de uma segunda linha.

O voo inaugural em Gavião Peixoto é particularmente relevante porque transforma conhecimento transferido em capacidade demonstrada. Montar uma aeronave não equivale, por si só, a dominar todo o ciclo industrial. Ao participar do planejamento e da execução do primeiro voo, além da integração e dos testes anteriores, a Embraer demonstra que a estrutura brasileira alcançou um estágio no qual pode entregar uma aeronave completa para a campanha de aceitação. 


Gavião Peixoto deixa de ser apenas uma linha brasileira 

A evolução mais importante, porém, está no papel reservado à unidade paulista para os próximos anos. Gavião Peixoto abriga a única linha de montagem final do Gripen fora da Suécia e, desde julho, passou a ser formalmente considerada por Saab e Embraer como parte da expansão da capacidade mundial de produção do caça.

Em 21 de julho, durante o Farnborough International Airshow, as duas empresas assinaram um Heads of Agreement (HoA) que estabelece as bases para a potencial produção de 20 Gripen adicionais no Brasil. O documento ainda não constitui o contrato definitivo, mas prevê que a Embraer assuma a montagem dessas aeronaves e que a linha brasileira complemente a de Linköping, na Suécia, para responder ao crescimento da demanda global. As empresas declararam a intenção de concluir o acordo correspondente ainda em 2026.

Esse aspecto altera qualitativamente a posição brasileira no programa. A instalação criada inicialmente para atender parte da encomenda da FAB passa a ser tratada como elemento do sistema produtivo internacional do Gripen. O próprio comunicado divulgado após o voo inaugural afirma que o sucesso da missão valida Gavião Peixoto como parte integrante do sistema global de produção do caça.

Mercado internacional aumenta a importância da linha brasileira 

A expansão ocorre em um momento favorável ao Gripen E/F. Além das encomendas do Brasil e da Suécia, a Colômbia assinou em novembro de 2025 contrato de 3,1 bilhões de euros para 17 aeronaves, sendo 15 Gripen E e dois Gripen F, com entregas previstas até 2032. A Tailândia, que já opera o Gripen C/D, contratou quatro aeronaves da nova geração, três Gripen E e um Gripen F, em negócio de aproximadamente 5,3 bilhões de coroas suecas.

A Ucrânia acrescenta uma variável de grande dimensão. Em maio, Estocolmo e Kiev anunciaram passos para uma possível aquisição inicial de até 20 Gripen E/F pela Ucrânia, paralelamente à intenção sueca de doar até 16 Gripen C/D. A Saab ressalvou, entretanto, que a negociação dos novos Gripen ainda não representa uma encomenda contratada.

Esse crescimento potencial da carteira pressiona a capacidade produtiva da Saab e ajuda a explicar a decisão de estruturar dois polos de montagem. Informações divulgadas pela própria empresa e acompanhadas pelo LRCA indicam que aeronaves destinadas a clientes internacionais poderão ser produzidas no Brasil. Isso não significa que toda nova encomenda será automaticamente direcionada a Gavião Peixoto, mas torna a unidade brasileira uma alternativa industrial concreta para distribuir carga de produção e reduzir prazos de entrega. 


A Colômbia pode ser o primeiro teste da vocação exportadora 

A encomenda colombiana é especialmente relevante por razões geográficas, logísticas e industriais. O LRCA vem acompanhando desde 2025 a possibilidade de participação da Embraer na produção dos Gripen destinados à Força Aeroespacial Colombiana. Com o contrato já assinado, o tema deixou de ser apenas uma hipótese comercial sobre a escolha do caça e passou a depender da definição de como Saab e Embraer distribuirão efetivamente a fabricação dos exemplares colombianos.

A proximidade entre os dois países e a existência de uma linha já capacitada na América do Sul favorecem Gavião Peixoto, mas a participação brasileira em cada lote deve ser tratada com cautela até que os fabricantes divulguem o planejamento industrial definitivo. O fato objetivo é que Saab e Embraer passaram a apresentar a planta paulista como instrumento para atender também à demanda global. 

Um ativo estratégico para a Embraer e para a BID 

Para a Embraer, a maturidade alcançada no Gripen amplia um conjunto de competências que vai além da fabricação de uma aeronave específica. A empresa já domina projetos complexos de aviação comercial, executiva e militar, mas a produção e os ensaios de um caça supersônico moderno acrescentam experiência em integração de sistemas de missão, processos industriais de elevada segurança, testes de produção e interação com cadeias internacionais de defesa.

Para a Base Industrial de Defesa (BID), o ganho mais importante é a permanência dessas competências no País. Transferência de tecnologia só produz valor estratégico duradouro quando gera pessoal qualificado, instalações, processos, propriedade intelectual acessível nos termos acordados e capacidade de aplicar o conhecimento em novos ciclos industriais. O voo de 7 de outubro constitui uma evidência concreta de que uma parcela relevante desse objetivo foi atingida.

Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, classificou o primeiro voo como um marco histórico e afirmou que as competências desenvolvidas ao longo dos anos se converteram em capacidades industriais reais e comprovadas no Brasil. Marcus Wandt, chefe da área de negócios Aeronautics da Saab, destacou que a produção brasileira atingiu um novo nível de maturidade e cria uma base sólida para o futuro desenvolvimento do Gripen no País. 


O próximo passo 

A aeronave que voou nesta quarta-feira seguirá agora pela campanha de testes de produção e aceitação antes da entrega à FAB. Em paralelo, a atenção se volta para dois movimentos: a continuidade da fabricação dos demais Gripen previstos para a linha brasileira e a transformação do acordo de julho para 20 aeronaves adicionais em contratos definitivos.

O contrato original de 2014 permanece como a base do programa brasileiro. O comunicado de 7 de outubro informa que dez aeronaves foram entregues à FAB até o momento, embora divulgações oficiais anteriores tenham apresentado contagens diferentes em determinados estágios do programa. Por essa razão, o número mais recente divulgado pelas empresas é o mais prudente para retratar a situação atual.

Se a expansão prevista for confirmada e Gavião Peixoto receber também aeronaves destinadas ao mercado externo, o primeiro voo realizado em 7 de outubro poderá ser lembrado como o momento em que a transferência de tecnologia do Programa Gripen ultrapassou definitivamente a condição de compensação industrial e passou a sustentar uma atividade brasileira permanente dentro de um programa mundial de aeronaves de combate.

08 abril, 2026

Embraer e ALADA firmam acordo para abrir canal G2G em mercados de defesa

Memorando assinado na FIDAE pode ampliar acesso da fabricante brasileira a países que exigem negociação direta entre governos, mas impacto real depende da operacionalização do modelo

 

*LRCA Defense Consulting - 08/04/2026

Em meio à maior feira aeroespacial da América Latina, a Embraer e a ALADA – Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil SA assinaram um Memorando de Entendimento (MoU) para explorar oportunidades conjuntas no mercado de defesa e segurança. O foco é específico: contratos do tipo governo a governo, os chamados G2G, modalidade em que o Estado brasileiro atua como interlocutor direto na negociação com países compradores.

O acordo chega num momento em que a Embraer busca ampliar sua presença em mercados estratégicos na América Latina e na África, e a ALADA — designada recentemente pelo Ministério da Defesa como entidade autorizada a conduzir aquisições G2G — tenta se firmar como braço operacional da Base Industrial de Defesa brasileira no exterior.

Um canal que ainda não existia
Até agora, países que adotam o modelo G2G como condição para comprar equipamentos militares encontravam um obstáculo estrutural ao negociar com o Brasil: a Embraer, empresa de capital aberto e natureza essencialmente privada, não se encaixava facilmente num formato de contrato entre estados soberanos. A ALADA foi criada justamente para preencher esse vácuo.

"A exportação G2G é um modelo de negócio inédito no Brasil, no qual a ALADA desempenha um papel estratégico e decisivo, abrindo novas oportunidades de mercado para produtos, serviços e projetos aeroespaciais", afirmou Sergio Roberto de Almeida, presidente da entidade, durante a cerimônia de assinatura.

Para a Embraer Defesa, o benefício mais imediato é o acesso a mercados que antes exigiam uma intermediação estatal que o Brasil simplesmente não oferecia de forma estruturada. "A assinatura deste memorando permitirá que países que necessitam de contratos entre governos acessem uma nova opção de negociação para a aquisição de produtos e soluções da Embraer", disse Fabio Caparica, vice-presidente de Contratos da divisão de Defesa e Segurança.

Os produtos em foco são os carros-chefe da linha militar da companhia: o KC-390 Millennium, cargueiro tático considerado o mais moderno de sua categoria, e o A-29 Super Tucano, líder global em missões de ataque leve e treinamento tático avançado.

Credibilidade institucional como diferencial competitivo
Além de abrir um canal inédito, o modelo G2G oferece à Embraer um argumento menos óbvio, mas igualmente relevante: credibilidade política junto a clientes que tradicionalmente desconfiam de fornecedores puramente comerciais em contratos de defesa.

Em muitos países africanos e latino-americanos, a decisão de compra de equipamentos militares envolve não apenas especificações técnicas, mas também a percepção de que o fornecedor tem respaldo de seu próprio Estado. Ao transitar por uma entidade oficial como a ALADA, o KC-390 e o Super Tucano deixam de ser apenas produtos de uma empresa privada brasileira e passam a carregar, ao menos formalmente, o endosso institucional do governo federal.

O Secretário de Produtos de Defesa, Heraldo Luiz Rodrigues, reforçou essa leitura: "Operações como esta conferem credibilidade institucional às negociações, beneficiando a Base Industrial de Defesa e ampliando o acesso a novos mercados internacionais."

 

O que o acordo ainda não garante
Apesar do simbolismo do momento — a assinatura numa das principais vitrines da aviação mundial —, analistas do setor alertam que um MoU é, por definição, uma declaração de intenções, não um contrato. O impacto real sobre as receitas e o portfólio de exportações da Embraer só se materializará se a ALADA conseguir conduzir operações G2G concretas até o fechamento de negócios efetivos.

E há riscos no caminho. O principal deles é burocrático: se a ALADA introduzir etapas adicionais de aprovação ministerial sem contrapartida em agilidade ou financiamento soberano, pode acabar funcionando como mais uma camada de processo num setor onde velocidade de negociação frequentemente é fator decisivo. A Embraer já opera com suporte do Ministério das Relações Exteriores, do Ministério da Defesa e da Força Aérea Brasileira; a ALADA precisará demonstrar que agrega valor distinto a esse ecossistema já existente.

Outro ponto de atenção é o modelo de divisão de riscos. Se a entidade estatal atuar apenas como "assinante" dos contratos enquanto a Embraer continua absorvendo a maior parte dos riscos financeiros e operacionais, o ganho será mais simbólico do que estratégico.

Um teste para o modelo brasileiro de exportação de defesa
O que o acordo sinaliza, acima de tudo, é que o Brasil está tentando construir uma arquitetura de exportação de defesa mais sofisticada — e usando a Embraer, sua maior e mais competitiva indústria do setor, como banco de ensaio para esse modelo.

Concorrentes como Estados Unidos, França e Itália já operam há décadas com estruturas G2G consolidadas, que combinam financiamento governamental, garantias políticas e suporte logístico de longo prazo. O acordo Embraer-ALADA é uma primeira resposta estruturada do Brasil a essa realidade.

Se a ALADA conseguir viabilizar contratos com parceiros africanos e latino-americanos que hoje compram de Boeing, Lockheed ou Leonardo por falta de um canal governamental brasileiro adequado, o MoU terá cumprido seu propósito. Se não, ficará como mais um protocolo de intenções bem-intencionado, assinado sob os holofotes de uma feira internacional.

O mercado — e os ministérios de defesa de Nairóbi a Bogotá — estarão de olho.

08 novembro, 2025

Brasil avança para fortalecer exportações militares com nova modalidade Governo-a-Governo


*LRCA Defense Consulting - 08/11/2025

O Ministério da Defesa deve implementar em breve a modalidade de negócios do tipo C2G (Government-to-Government, ou Governo-a-Governo), destinada a apoiar a venda externa de soluções e tecnologias militares desenvolvidas pela Base Industrial de Defesa (BID) brasileira. O novo modelo visa facilitar negociações diretas entre governos, ampliando a presença da indústria nacional no mercado internacional.

Atualmente, a BID responde por um ativo que chegou a ultrapassar US$ 2 bilhões em autorizações de exportação somente neste ano, comercializando produtos para cerca de 140 países em todos os continentes. Entre os itens exportados estão aeronaves, embarcações, sistemas de comunicação segura, radares e armamentos de alta tecnologia, destacando-se produtos como o avião KC-390 e o A-29 Super Tucano. O setor gera quase 3 milhões de empregos diretos e indiretos e representa 3,58% do Produto Interno Bruto do Brasil.

O modelo C2G busca eliminar entraves burocráticos e jurídicos, permitindo que o governo brasileiro atue como garantidor e facilitador dessas operações, com maior supervisão, transparência e segurança nas transações. Países como Estados Unidos e França já utilizam com sucesso essa modalidade para fortalecer suas exportações de defesa. Para o Brasil, essa iniciativa é estratégica para consolidar a indústria nacional, ampliar exportações e aumentar a autonomia tecnológica.

Empresas da base industrial de defesa, públicas e privadas, têm participado de diálogos com o Ministério para alinhar a implementação da modalidade, que depende também de um memorando de entendimento para oficializar as operações. Esta é uma aposta do governo brasileiro para transformar o setor de defesa em vetor de desenvolvimento tecnológico, econômico e estratégico para o País.

Postagem em destaque