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22 maio, 2026

Embraer e indústria aeroespacial grega firmam MoU e pavimentam caminho para o C-390 em Atenas

Acordo com a Hellenic Aerospace Industry prevê capacidade de MRO na Grécia e autonomia operacional para a Força Aérea Helênica; país está na reta final para adquirir até seis unidades do cargueiro multimissão

 

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LRCA Defense Consulting - 22/05/2026

A Embraer formalizou nesta sexta-feira, 22 de maio, um Memorando de Entendimento (MoU) com a Hellenic Aerospace Industry (HAI), a principal organização industrial da Grécia nos setores aeroespacial e de defesa. O documento foi assinado por Fabio Caparica, vice-presidente de Contratos da Embraer Defesa e Segurança, e por Alexandros Diakopoulos, presidente executivo da HAI, e estabelece as bases para o desenvolvimento de capacidades locais de Manutenção, Reparo e Revisão (MRO) para a futura frota de aeronaves C-390 Millennium da Força Aérea Helênica (HAF), conforme os termos literais do comunicado da empresa.

O acordo chega em momento de alta relevância estratégica. Informações do portal de defesa grego OnAlert indicam que a decisão sobre a compra das primeiras três aeronaves pode ser formalizada nos próximos meses, com possibilidade de expansão para seis unidades em uma segunda fase. O ministro da Defesa grego, Nikos Dendias, visitou a Base Aérea de Beja, em Portugal, em maio de 2026, e declarou publicamente o interesse de Atenas no cargueiro brasileiro.

Industrialização como pilar do negócio
O MoU vai além da declaração de intenções comerciais. O texto descreve como objetivo dotar a Força Aérea Helênica da autonomia operacional e de suporte necessária para gerenciar sua futura frota, ao mesmo tempo que aprimora as capacidades da indústria nacional. Na prática, isso significa transferência de tecnologia e edificação de infraestrutura de manutenção em solo grego, sob gestão da HAI.

Com sede em Tanagra, a HAI tem meio século de experiência em manutenção, reparo e modernização de aeronaves militares e civis, além de desenvolvimento de veículos aéreos não tripulados e participação em programas aeroespaciais internacionais. "A HAI destaca-se naturalmente como o parceiro ideal para nós na Grécia", afirmou Caparica, ao justificar a escolha do parceiro local.

Para Diakopoulos, o acordo transcende a dimensão comercial. "O desenvolvimento de capacidades de manutenção e suporte para o C-390 na Grécia não só atende às necessidades operacionais da Força Aérea Helênica, como também constrói uma base industrial de valor duradouro para o nosso país", declarou o executivo.

Douglas Lobo, vice-presidente de Suporte ao Cliente e Vendas Pós-Venda da Embraer Serviços e Suporte, destacou que o memorando "permitirá que a Embraer fortaleça ainda mais sua presença na Grécia e reforce seu relacionamento de longa data com o país", e anunciou planos de expansão das capacidades de MRO locais com compartilhamento de expertise em suporte.

Uma relação que antecede o C-390
A parceria Embraer-Grécia não começa do zero. Em dezembro de 2023, a empresa brasileira assinou com a Força Aérea Helênica um contrato de serviços e suporte integrado para uma aeronave ERJ-135LR e quatro ERJ-145 AEW&C (aeronave de alerta antecipado e controle aéreo), cobrindo peças de reposição, reparos, pool de componentes, manutenção e serviços técnicos. Os jatos da família ERJ-135/145 operam na Grécia desde janeiro de 2000, o que confere à relação bilateral mais de duas décadas de histórico operacional. O MoU desta sexta-feira é, portanto, um aprofundamento de parceria já consolidada.

A frota que precisa ser renovada
O principal catalisador do programa é a situação da frota de C-130H da Força Aérea Helênica. No início de 2025, apenas quatro das nove aeronaves do tipo disponíveis no inventário grego se encontravam operacionais. A Grécia avaliou a compra de C-130J usados da Itália e fez pedido formal ao governo americano por C-130J-30 novos em dezembro de 2025, mas a balança da avaliação técnica e econômica pende progressivamente para o lado da Embraer.

A vantagem brasileira é multidimensional. O KC-390 é mais veloz (870 km/h contra 660 km/h do turbopropulsor americano), carrega mais carga (26 toneladas contra 21 toneladas) e tem seus motores turbofan IAE V2500 amplamente difundidos na aviação comercial, o que simplifica e barateia a manutenção. Na avaliação do Estado-Maior da Aeronáutica grego, o custo de ciclo de vida e a disponibilidade operacional projetada do C-390 superam as da plataforma americana.

Reabastecimento, autodefesa e medevac: uma aeronave de múltiplos papéis
A Força Aérea Helênica não busca uma simples reposição de capacidade de transporte. O KC-390 grego deverá ser adquirido com sistema de autodefesa, capacidade de reabastecimento aéreo e equipamento de evacuação aeromédica, transformando-o em multiplicador de poder para o conjunto das Forças Armadas do país.

O reabastecimento aéreo é o aspecto mais estratégico do programa. A Grécia historicamente não dispõe dessa capacidade e a aeronave, configurada com sistema de cesta (basket), permitirá apoiar, em uma primeira fase, os caças Rafale da frota helênica, com a perspectiva de uma haste rígida (boom) para outros tipos em um segundo momento. A dimensão da evacuação aeromédica também é sensível para um país com centenas de ilhas habitadas, onde a capacidade assume caráter tanto militar quanto humanitário.

Portugal como modelo e porta de entrada
A cooperação com Portugal é citada pelas duas partes como elemento estruturante do programa. Lisboa é o primeiro país europeu e o primeiro membro da Otan a operar o KC-390. Em setembro de 2025, aditivou o contrato original para incluir uma sexta aeronave e dez novas opções de compra transferíveis a nações parceiras, mecanismo que pode viabilizar a aquisição grega via governo a governo. A Base Aérea nº 11 de Beja, com toda a frota portuguesa e seu simulador de voo completo, é a vitrine europeia da plataforma.

O quarto KC-390 entregue a Portugal, em janeiro de 2026, foi o primeiro da frota lusitana equipado com kit de reabastecimento aéreo completo. A infraestrutura de Beja tem recebido uma sequência de visitantes militares de alto nível: o ministro da Defesa da Eslováquia (março de 2026), o ministro Dendias (maio de 2026) e o general Ziya Cemal Kadıoglu, comandante da Força Aérea da Turquia (também em maio de 2026), este buscando referências para a futura modernização de sua própria frota de C-130, igualmente envelhecida.

Um clube de 12 países e crescendo
Até maio de 2026, o KC-390 havia sido selecionado por 12 países: Brasil (19 unidades), Portugal (6), Hungria, Áustria, Republica Tcheca, Suécia, Países Baixos, Lituânia, Eslováquia, Coreia do Sul, Uzbequistão e Emirados Árabes Unidos. O pedido dos Emirados, anunciado em maio de 2026 e totalizando 20 aeronaves (10 firmes e 10 opções), marcou a estreia do programa no Oriente Médio. A frota brasileira acumulou mais de 14.000 horas de voo com taxa de disponibilidade superior a 99%, números frequentemente citados em apresentações a clientes potenciais.

Para a Embraer, o MoU com a HAI reforça a estratégia de longo prazo de expandir sua presença no mercado europeu. A adesão da Grécia consolidaria mais um avanço no processo de substituição dos veteranos C-130 no Velho Continente. O governo grego sinalizou investimentos da ordem de 28 bilhões de euros em defesa ate 2036, após longo período de restrições decorrente da crise financeira iniciada em 2009.
MBRAER E HAI: OS NÚMEROS DO ACORDO


Acordo firmado

MoU Embraer / Hellenic Aerospace Industry (HAI)

Data

22 de maio de 2026

Signatários

Fabio Caparica (Embraer) e Alexandros Diakopoulos (HAI)

Objeto

MRO e suporte ao C-390 Millennium na Grécia

Aeronaves previstas

3 (fase 1) + ate 3 adicionais (fase 2)

Relação Embraer-Grécia

Desde janeiro de 2000 (ERJ-135/145)

Países operadores do KC-390

12 (ate maio de 2026)

Capacidade de carga KC-390

26 t (C-130J: 21 t)

Velocidade KC-390

870 km/h (C-130J: 660 km/h)

Investimento grego em defesa

EUR 28 bilhões previstos ate 2036

 

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