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07 abril, 2026

O "Touro Bravo" digitalizado: como a Agrale Marruá se tornou o coração tecnológico do SISFRON

Viaturas 4x4 de fabricação gaúcha são transformadas em centros de inteligência móveis pela Embraer e pela Modirum | Gespi para vigiar os 16 mil quilômetros da fronteira brasileira



*LRCA Defense Consulting - 07/04/2026

Em meados de 2025, doze jipes militares saíram do Arsenal de Guerra de São Paulo em direção ao Pantanal e à fronteira oeste do Brasil. À primeira vista, pareciam viaturas táticas convencionais. Por dentro, eram outra coisa: centros de comando digitais sobre rodas, equipados com rádios criptografados, sistemas de dados e infraestrutura de comunicações capaz de conectar um soldado na selva ao quartel-general de uma brigada a centenas de quilômetros de distância.

Essas viaturas são a Agrale Marruá, o jipe 4x4 produzido em Caxias do Sul (RS) que, após mais de duas décadas de serviço nas Forças Armadas brasileiras, vive hoje sua mais ambiciosa transformação e está no centro de um dos maiores programas de defesa do país: o SISFRON.


O programa e a fronteira em risco
O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) é um programa estratégico do Exército Brasileiro cujo propósito é fortalecer a presença e a capacidade de monitoramento e de ação do Estado na faixa de fronteira terrestre, potencializando a atuação dos entes governamentais responsáveis pela área. Com fronteiras que tocam dez países e cobrem alguns dos territórios mais remotos e permeáveis do continente, como o Pantanal, a Amazônia e o Cerrado, o desafio logístico e tecnológico é imenso.

O SISFRON foi concebido não apenas como um "sistema de sensores", mas como uma arquitetura completa de comando, controle, comunicações, computação e inteligência (C4I), integrando radares, sistemas optrônicos, redes de dados e centros de operações militares.

É dentro dessa arquitetura que a Marruá encontrou novo propósito.

O "Touro Bravo" que virou laboratório tecnológico
Produzida desde 2004 pela Agrale em Caxias do Sul, a Marruá foi aprovada pelo Exército Brasileiro em 2005 e hoje é usada por forças armadas de pelo menos sete outros países, incluindo Argentina, Equador, Namíbia, Paraguai, Suriname e Emirados Árabes Unidos, com exportações recentes para Malásia e Uruguai. Seu nome reflete sua vocação: resistência em terrenos extremos.

No âmbito do SISFRON, o Exército recebeu novos Marruás dos modelos AM 23 (¾ tonelada) e AM 31 (1½ tonelada), entregues inicialmente no Arsenal de Guerra de São Paulo, onde receberam equipamentos modernos voltados para comunicações especializadas. A transformação é cirúrgica: o chassi gaúcho permanece; a inteligência embarcada é nova.


A Embraer como integradora: escala e profundidade
A grande responsável pela transformação industrial das Marruás no SISFRON é a Embraer Defesa & Segurança. Como integradora principal do Projeto de Sensoriamento e Apoio à Decisão 2 (SAD 2), a Embraer conta com subcontratadas como a RF COM Ltda, de São José dos Campos, responsável por converter viaturas de transporte não especializadas em Nós de Acesso e Postos de Comando, e a ITURRI Brasil, de Atibaia, encarregada dos Postos Rádio.

Segundo informações institucionais, a Embraer já superou a marca de 50 soluções veiculares entregues ao programa, incluindo viaturas de comunicações, centros móveis, postos de comando e outras plataformas especializadas.

Além das Marruás, a empresa entregou algo mais pesado. Os Centros de Comando e Controle (CC2) fornecidos pela Embraer integram rádios táticos de longo, médio e curto alcance, enlaces de dados, comunicações satelitais e redes IP que permitem voz, dados e vídeo com camadas de segurança compatíveis com os requisitos militares. Esses sistemas são instalados em caminhões 6x6, que funcionam como quartéis-generais digitais móveis posicionados nas regiões mais críticas da fronteira.

Ao todo, 15 unidades de CC2 deverão ser entregues nesta fase, compondo uma malha de centros móveis capazes de apoiar diretamente os comandos na região oeste, área crítica para o combate a crimes transnacionais, contrabando e tráfico de drogas.

A Modirum | Gespi e o nicho de alta tecnologia
Em paralelo à atuação da Embraer em escala industrial, a Modirum | Gespi tem emergido como um ator de nicho na modernização eletrônica de plataformas militares. A empresa adquiriu participação majoritária na Ocellott, uma Empresa Estratégica de Defesa (EED) brasileira reconhecida por sua excelência em engenharia eletrônica complexa, com o objetivo de consolidar capacidades críticas sob um único teto e acelerar a entrega de sistemas de defesa totalmente integrados.

O portfólio da Modirum | Gespi abrange sistemas de Comando & Controle, comunicações e energia, além de plataformas aéreas autônomas. A empresa promove a integração de inteligência artificial para processamento de imagens e sinais, bem como suporte a VANTs e sistemas autônomos, capacidades que se alinham diretamente à arquitetura C4I do SISFRON.

Recentemente, a empresa divulgou em seu perfil na rede social LinkedIn a entrega de um lote de viaturas Marruá modernizadas ao SISFRON, informação que, embora ainda não confirmada por fontes militares oficiais independentes, aponta para uma participação crescente da empresa no programa.


Complementaridade, não concorrência
A divisão de trabalho entre as duas empresas é menos uma disputa e mais uma complementaridade estrutural. Enquanto a Embraer opera como integradora sistêmica  responsável pela rede, pelo volume de viaturas e pela entrega de centros de comando de grande porte, a Modirum | Gespi se posiciona em modernizações de alta especificidade tecnológica, como a inserção de camadas de IA e eletrônica avançada em plataformas específicas.

Juntas, as soluções embarcadas permitem que uma única viatura atenda às demandas de comunicações táticas, estratégicas ou logísticas, conforme o contexto da missão, otimizando recursos, aumentando a mobilidade das tropas e garantindo maior eficiência operacional, especialmente em regiões desafiadoras como o Pantanal e as áreas de fronteira oeste.

O horizonte
O SISFRON continua em expansão. A Fase 2 do programa amplia a experiência da Fase 1, centrada no Mato Grosso do Sul, para novos setores da fronteira, com a entrega de dezenas de viaturas táticas de comunicações e múltiplos centros de comando. O programa integra o Novo PAC do governo federal, no eixo Inovação e Indústria da Defesa, o que garante continuidade de investimentos.

Para o "Touro Bravo" de Caxias do Sul, o futuro é digital. Cada novo lote entregue representa não apenas mais um veículo nas fronteiras, mas um nó a mais em uma rede de vigilância que o Brasil vem construindo, tijolo a tijolo ou, neste caso, viatura a viatura.

03 outubro, 2025

Novas viaturas Agrale Marruá AM-11 e ambulâncias AM-23 modernizam frota do Exército Uruguaio

 


*LRCA Defense Consulting - 03/10/2025

O Exército Nacional do Uruguai recebeu nesta semana o primeiro lote de modernas viaturas táticas Marruá AM-11 4x4 e ambulâncias AM-23, entregues pela fabricante brasileira Agrale, consolidando um importante avanço em seu plano de renovação e modernização de frota terrestre.

Detalhes da aquisição e entregas
Ao todo, a força terrestre uruguaia incorporará 84 viaturas Marruá AM-11 e cinco ambulâncias AM-23, com entregas que irão se estender gradualmente até o início de 2026. O primeiro embarque, composto por 15 viaturas táticas e as primeiras ambulâncias, desembarcou no país vindo diretamente da unidade fabril de Caxias do Sul (RS), reafirmando laços de cooperação industrial e militar entre Brasil e Uruguai.

Modernização e Aplicações Operacionais
A aquisição dessas novas viaturas integra o plano de modernização do parque motomecanizado do Exército, que busca aprimorar a capacidade operacional em diferentes cenários, desde missões de reconhecimento tático a apoio logístico e evacuação médica de campo. A Marruá AM-11, projetada especificamente para superar terrenos desafiadores do Cone Sul, traz robustez e flexibilidade às patrulhas, operações conjuntas e deslocamentos em áreas rurais e fronteiriças.

Especificações técnicas das viaturas
A Marruá AM-11 se destaca por sua tração integral 4x4 permanente, motor diesel de 150 cv, torque de 360 Nm, velocidade máxima de 122 km/h e alcance operacional de quase 800 quilômetros por abastecimento. A cabine comporta até cinco tripulantes com espaço para armamento leve, consolidando a plataforma como solução eficaz para diferentes tarefas táticas e logísticas.

Já a ambulância AM-23 foi especialmente adaptada para o atendimento pré-hospitalar e transporte de feridos sob condições adversas, fortalecendo a capacidade de resposta médica do Exército Nacional em campo de batalha ou situações de emergência civil.

Impacto para a Defesa Nacional
Com a entrada dessas viaturas, o Exército Nacional do Uruguai dá um passo decisivo na superação de antigas limitações logísticas e operacionais, alinhando-se a padrões regionais de mobilidade militar e reforçando sua prontidão para missões de defesa, apoio humanitário e cooperação internacional. Além disso, reforça o intercâmbio tecnológico e industrial com o setor de defesa do Brasil, consolidando parcerias estratégicas no Mercosul.

Essa renovação da frota representa avanço significativo não apenas em termos de poder militar, mas também de capacidade de salvar vidas por meio das novas ambulâncias, sublinhando um compromisso permanente com a modernização e a eficiência do Exército Nacional uruguaio.

23 maio, 2025

Veículo de Telecomunicações da FAB realiza primeiro embarque no Embraer KC-390


*LRCA Defense Consulting - 23/05/2025

Um marco importante foi alcançado recentemente pela Força Aérea Brasileira (FAB) com o primeiro embarque, em uma aeronave KC-390 Millennium, do veículo de telecomunicações do Primeiro Esquadrão do Primeiro Grupo de Comunicações e Controle (1º/1º GCC) - Esquadrão Profeta -, realizado no dia 19/05.

A ação aconteceu em apoio ao Exercício COMAO/AIRLIFT, que acontecerá no período 26/05 a 06/06, na Base Aérea de Anápolis (GO). O COMAO (do inglês Composite Air Operations), conhecido como Missão Aérea Composta na doutrina da FAB, visa integrar e aumentar a interoperabilidade entre as diversas aviações e unidades participantes.

O veículo, que é conhecido como Marruá, oferece agilidade e pronta resposta em cenários de combate e desastres ambientais. Dotada de meios suficientes para transmitir e amplificar sinais de rádio e enlace satelital, é um veículo autossuficiente e versátil que desempenha um papel fundamental na comunicação em situações críticas. Sua mobilidade e alcance permitem que as Forças Armadas mantenham a comunicação em áreas remotas ou em situações de emergência.

O Comandante do 1º/1º GCC, Major Aviador Gabriel Brandello de Oliveira Haguenauer Moura, destacou a importância da atuação do Esquadrão Profeta em apoio à operação da FAB. “O embarque da Marruá no KC-390 demonstra a capacidade da Força Aérea de integrar seus meios aéreos e terrestres para garantir a eficácia das operações.A combinação da Marruá com o KC-390 oferece uma solução logística e operacional avançada, permitindo que as Forças Armadas respondam rapidamente a situações de crise”, afirmou.

A importância desse feito está na capacidade de projetar força e garantir a comunicação em qualquer lugar e momento, potencializando o emprego do Poder Aeroespacial. A Marruá é um exemplo da inovação e da capacidade tecnológica da FAB, que busca constantemente melhorar suas operações e serviços. (Com informações da Agência Força Aérea)

Veículo militar Marruá de telecomunicações
O veículo militar Agrale Marruá de telecomunicações é uma variante do utilitário 4x4 Agrale Marruá, desenvolvido pela empresa brasileira Agrale S.A., adaptada para missões militares específicas de telecomunicações, comando e controle (C3 ou C4I - Comunicação, Comando, Controle e Inteligência). Baseado no projeto do jipe militar EE-12 da Engesa, o Agrale Marruá é conhecido por sua robustez, versatilidade e capacidade de operar em terrenos extremos.

Enquanto o Agrale Marruá militar padrão é usado para transporte de tropas, cargas e patrulhas, o Marruá de telecomunicações é especializado no suporte às redes de comunicação, sendo essencial para a mobilidade dos sistemas de comando e controle em campo.

Características
A versão de telecomunicações, como o Agrale Marruá AM20 VCC (Viatura de Comando e Controle), é projetada para suportar operações de comunicação militar avançada. Suas principais características incluem:

- Finalidade: transporte de equipamentos de comunicação, antenas, sistemas de transmissão e recepção de dados, voz e, em alguns casos, imagens.

- Equipamentos: pode incluir rádios HF, VHF, UHF, sistemas de satélite, enlaces de micro-ondas e sistemas de comando e controle.

- Configuração: geralmente possui estrutura adaptada, como baús rígidos ou módulos, onde são instalados os equipamentos de comunicação.

- Shelter de comunicação: equipado com um módulo (ex.: MTO TKV-1 da Truckvan) que abriga sistemas de rádio, transmissão de dados, voz e, em alguns casos, equipamentos de guerra eletrônica (como na variante AM20 GE/MAGE).

- Sistemas C4I: integra tecnologias para coordenar operações táticas e estratégicas, permitindo comunicação segura e criptografada entre unidades terrestres, aéreas e navais, como demonstrado na Operação Íris (2024).

- Equipamentos avançados: pode incluir sistemas de guerra eletrônica, suportes para armamentos (metralhadoras 7,62 mm ou 12,7 mm) e integração com tecnologias como o Link-BR2 para comunicação em tempo real.

- Proteção: alguns modelos possuem proteção balística leve e sistemas de blindagem modular, dependendo da missão.

- Mobilidade: tração 4x4, capacidade de carga de até 750 kg, suspensão reforçada e habilidade para atravessar terrenos difíceis, incluindo submersão em até 60 cm de água.

- Autonomia: motor MWM 4.07 TCAE de 140 cv, com autonomia de até 600 km, ideal para operações prolongadas. É capaz de operar por longos períodos em áreas remotas, contando com geradores de energia, baterias auxiliares e, em alguns modelos, painéis solares.


Uso nas Forças Armadas
O Marruá de telecomunicações é utilizado principalmente por:
- Unidades de Comunicações e Guerra Eletrônica, como as Companhias de Comando e Controle, para gerenciar comunicações em operações multidomínio.

- Missões operacionais: empregado em exercícios como a Operação Íris, onde integrou comunicações com caças F-39 Gripen, aeronaves E-99M e unidades navais.

- Missões internacionais: utilizado em operações de paz, como na MINUSTAH (Haiti, 2008), com 19 unidades AM20 VTNE.

- Modernizações: recentemente, 18 unidades foram enviadas à Embraer para adaptações em veículos de comunicações especializadas, com upgrades realizados por empresas como Iturri e Rfcom.

Importância Estratégica
O Marruá de telecomunicações é essencial para a interoperabilidade das Forças Armadas, garantindo comunicação confiável em cenários de combate ou apoio logístico.

Atua como Posto de Comunicações Móvel, servindo para manter a comunicação entre unidades táticas no campo de batalha e com centros de comando, além de integrar sistemas de C2 (Comando e Controle), fundamentais nas operações modernas. Pode também fazer parte de redes de guerra eletrônica, operações cibernéticas e apoio à inteligência.

Desde sua adoção em 2005, após testes no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), ele tem sido um pilar para operações modernas, com exportações para países como Argentina e Equador. Sua capacidade de integrar tecnologias avançadas, como sistemas de guerra eletrônica e redes seguras, o torna vital para a doutrina militar brasileira.

11 julho, 2024

Embraer Defesa e Segurança transformará viaturas Agrale Marruá para uso em Projeto de Sensoriamento do EB


*LRCA Defense Consulting - 11/07/2024

O Programa Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras - SISFRON, integrante do PAC do Governo Federal, adquiriu 109 Viaturas de Transporte Não Especializadas Marruá da empresa gaúcha Agrale S.A., que estão armazenadas na Companhia de Suprimento do Batalhão de Suprimento e no Arsenal de Guerra de São Paulo. Estas viaturas serão entregues à Embraer Defesa & Segurança para transformação, atendendo cronograma contratual firmado entre o Comando de Comunicações e Guerra Eletrônica do Exército e a empresa.

Na semana de 01 a 04 de julho de 2024, a 2ª Região Militar e o Arsenal de Guerra de São Paulo apoiaram a entrega de 18 viaturas, cumprindo três etapas do cronograma.

Essas viaturas serão transformadas em Viaturas Especializadas de Comunicações pelas empresas Iturri Brasil e RF COM Sistemas Ltda., subcontratadas da Embraer Defesa & Segurança, sendo então destinadas ao Projeto de Sensoriamento e Apoio à Decisão 2 do Sistema de Comando e Controle do Comando Militar do Oeste. 

*Com informações do CPEx.

19 fevereiro, 2021

Agrale supera crise e foca nichos e parcerias para se fortalecer


*Estradão - 17/02/2021

Por onde anda a Agrale? Essa pergunta surgiu na redação do Estradão recentemente. A empresa de Caxias do Sul (RS), é a única montadora nacional de caminhões e chassis de ônibus. E praticamente desapareceu do ranking de vendas de caminhões da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Mas se mantém ativa no mercado com fornecimento pontual de produtos.

Para sobreviver, a Agrale aposta em nichos de mercado. Assim, vem ganhando destaque com a venda de chassis de micro-ônibus fora de estrada para o Programa Caminho da Escola.

Inclusive, a perspectiva de crescimento para 2021 está lastreada no programa do governo federal. Enquanto isso, o jipe Marruá, focado no Exército Brasileiro e vendido, também, para setores como mineração. Além disso, atende a área de manutenção de energia elétrica. Dessa forma, fortalece a empresa em negócios segmentados.

Nesse sentido, a Agrale passou a focar nichos principalmente quando viu suas vendas de caminhões despencarem, em 2014. Até então, esse era esse o segmento mais forte para a empresa. “Vimos nosso faturamento que, até então era de R$ 1,1 bilhão, cair dois terços disso”, diz Hugo Zattera (foto acima), presidente da Agrale.

Fábrica fará caminhões da FNM

Em entrevista exclusiva ao Estradão, o executivo fala sobre a queda de participação no mercado de caminhões. E também sobre o bom desempenho da empresa no setor de ônibus.

Da mesma forma, ele diz que as parcerias têm sido importantes para equilibrar a receita. A mais recente foi estabelecida com a FNM, marca que fez sucesso no País nos anos 1980.

E conta que a companhia está voltando a produzir caminhões. Os modelos são elétricos da FNM e a produção será na fábrica da Agrale. Confira a íntegra da entrevista:

Crise e superação

Como a Agrale vem superando os altos e baixos no setor de caminhões que ocorrem desde 2014?
A crise de 2014 atingiu o nosso principal segmento de atuação. Tínhamos uma situação relativamente confortável, que foi se deteriorando. E, para a Agrale e outras montadoras, a participação de mercado caiu em dois terços.

As consequências, como a dificuldade de caixa, apareceram e, desde então, estamos tentando sobreviver. A Agrale é uma empresa nacional. Assim, não pode contar com aporte internacional de uma matriz. Somos nós por nós mesmos.

A Agrale chegou a faturar R$1,1 bilhão por ano até 2013. Hoje, estamos faturando dois terços disso.

E como a empresa conseguiu se manter desde então?
Tomamos as medidas clássicas de redução de investimentos e adequação do quadro de funcionários. Assim como a concentração da atividade em linhas de produtos que proporcionam resultados imediatos. Isso porque temos limitação de capital de giro.

A Agrale também passou a oferecer sua linha de produção a outras marcas
Estamos oferecendo nossa capacidade industrial, que é muito grande, para complementar as atividades e a receita. Temos feito isso, sim. Mas vale lembrar que isso não é novidade.

Por duas décadas, os caminhões da Navistar International foram feitos em nossa fábrica de Caxias do Sul. Por algum tempo, também montagem os caminhões da Foton.

Atualmente, estamos usinando motores da Mercedes-Benz e produzindo virabrequins para outros clientes. Mais recentemente, assinamos um contrato para a produção de caminhões elétricos da FNM em nossa planta.

Estamos montando o modelo e apoiando a área de engenharia. Esse é um segmento com forte tendência para crescer.

Mudança de foco

Como ocorreu a mudança, de fabricante de caminhões, para outras linhas de produtos?
Por ser uma empresa brasileira, a Agrale sofre limitações. Ou seja, ficou difícil expandir nossas atividades no meio automotivo, que requer volumes de capital muito altos.

Eu não consigo vender um produto e dizer ao cliente que ele pode começar a pagar na próxima Copa do Mundo. Então, decidimos que, para sobreviver, teríamos de atuar em nichos. Assim, passamos a focar segmentos específicos que têm volumes menores e não interessam aos grandes competidores.

Dentro desse conceito, a Agrale decidiu, no começo dos anos 2000, desenvolver uma linha de utilitários para o uso das Foças Armadas. Assim também, seriam produtos robustos para uso civil. Em outras palavras, essa é a origem da linha Marruá.

Criamos uma família inteira e já vendemos milhares de unidades para as Forças Armadas no Brasil e outros países. São modelos muito específicos, que têm de passar por avaliações severas do Exército.

Esse é um nicho importante. O foco inicial era fornecer para as Forças Armadas. Contudo, surgiu uma demanda importante de setores como o de mineração e manutenção de redes de energia elétrica, por exemplo.

Aposta em nichos

Atualmente o foco da Agrale são os nichos de mercado?
Sim. Na área de ônibus, por exemplo, desenvolvemos, a pedido do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), um chassi para o fora-de-estrada. Assim, há alguns anos esse produto atende o Programa Caminho da Escola. Essa tem sido uma área de atuação que vem rendendo um bom retorno.

Somos líderes na fabricação de micro-ônibus no Brasil. Nesse sentido, começamos a atuar no segmento quando o mercado inteiro no Brasil não passava de 800 unidades por ano. Agora, fazemos volumes significativos.

Quando começou a queda na produção de caminhões e o que houve desde então?
Tivemos de reduzir o volume de produção. Mas não por falta de demanda. A demanda existe, mas nós ainda estamos com dificuldade para recuperar o capital de giro necessário para fabricar e oferecer mais produtos.

A maior parte do faturamento vem de onde?
Os chassis de ônibus e a linha Marruá representam 75% do volume de produção. O restante vem tratores, que também não têm grande volume, assim como os caminhões. A empresa, que começou como fabricante de pequenos tratores, agora tem como principal negócio o setor automotivo.

Já produzimos motocicletas em uma fábrica em Manaus. Chegamos a fazer mais de 100 mil unidades. Mas, até por causa da distância e do acordo que tínhamos com um parceiro do exterior, passamos a focar tratores e outros veículos.

Perspectivas

Com a alta na demanda por caminhões, a Agrale projeta crescer no segmento?
Com tudo o que tem havido, a recuperação ainda é lenta. Isso porque a indústria enfrenta a falta de componentes. Está faltando aço, está faltando plástico…

E como a Agrale vem enfrentando esse cenário?
Interrompendo a produção e não completando o produto. É preciso considerar duas coisas. Uma é que a cadeia de fornecedores sofreu demais. Muitas empresas desapareceram.

A outra é que houve uma drástica redução na capacidade. Há também a questão dos aumentos absurdos nos preço de algumas matérias-primas. O resultado é que muitas vezes não é possível terminar o produto. Isso ocorre com a Agrale, inclusive.

Mercado de ônibus

Quais são as expectativas da Agrale para 2021? Em breve deve sair a licitação do Programa Caminho da Escola…
Estávamos otimistas, mas, agora, ficamos um pouco mais reticentes. Devemos registrar algum crescimento em relação ao ano passado. Contudo, a pandemia prejudicou muito o setor de transporte de passageiros e também o de turismo.

O transporte de carga seguramente vai crescer. Nossa projeção é modesta. Não pela demanda total, mas por causa da capacidade de atendimento. Devemos registrar algo ao redor de 10%, talvez 12% de alta na produção.

Portanto, estamos supondo que o Programa Caminho da Escola será mantido nos padrões atuais e mais robusto. E isso deve sustentar a área de transporte de passageiros. Também temos boas expectativas em relação à linha Marruá. 


Em 2020, a Agrale produziu pouco mais de 2 mil chassis de ônibus? E do Marruá, foram quantas unidades?
O número não foi significativo porque as Forças Armadas não compraram. Para o exterior, não chegamos a fazer 100 unidades.

A expectativa de crescimento da Agrale está totalmente lastreada no Programa Caminho da Escola?
Estará lastreada principalmente no Programa Caminho da Escola. Seja para a Agrale, a Volare ou a Marcopolo, para as quais oferecemos os chassis e que participam das licitações do governo.

Futuro para caminhões

Quais são os planos da Agrale para crescer no setor de caminhões?
Pretendemos retomar devagar à medida que se haja recursos para ampliar a produção.

Desistir jamais?
É a luta que temos, mas esse é o nosso normal. Se você analisar, estamos aí há quase 60 anos trabalhando sozinhos. E ninguém aqui vai arrumar a mala para ir embora. Não dá para ir embora porque moramos aqui…

Também temos fábrica na Argentina, em Buenos Aires. E a nossa posição no transporte público argentino é interessante. Aliás, somos o segundo maior fabricante de chassi de ônibus na Argentina. Metade da frota de ônibus de lá é Agrale. Nós fazemos centenas de chassis para aquele mercado, mas, ainda assim, bem menos que para o Brasil.

Combustíveis alternativos

Como a Agrale está se preparando para a nova etapa do Proconve que deve entrar em vigor em 2022?
A Agrale está se mexendo, mas é insano incorporar o Proconve 8 em 2022. Isso porque os testes são muito longos e, com a pandemia, os funcionários do governo responsáveis por parte do processo ficaram afastados por um bom tempo. Além disso, os engenheiros não podiam trabalhar.

Portanto, considero um absurdo manter o cronograma atual. Ou seja: como é que vamos fazer programas de desenvolvimento e testes de campo? Não dá. Basta olhar a lista de testes necessários para implementar o Euro 6 para concluir que isso é impossível.

A Agrale compra motores de quais empresas?
Os motores são da Cummins e atendem a nova legislação. Mas o fato é que não os fornecedores não conseguem concluir todos os testes. É uma coisa insana. Aliás, no Brasil somos obcecados por esse assunto, mas não temos regras para tirar os milhares de caminhões com mais de 20 anos de idade das ruas.

Esse veículos poluem muito. O ideal seria resolver a questão dos modelos velhos que, juntos são um desastre do ponto de vista ambiental. O Brasil ainda está importando diesel S-10 porque forçamos a antecipação do Euro 5. Não é racional.

A Agrale continuará a focar a linha de caminhões leves?
Definimos ficar somente nos leves. A área de pesados requer outro foco. No caso dos leves, o revendedor está fica em áreas urbanas e, normalmente, esses modelos são comprados para distribuição nas cidades. Os pesados requerem uma estrutura gigantesca. São dois mundos distintos.

Ônibus a gás

O desenvolvimento do comércio eletrônico criou novas oportunidades de negócio?
A gente cai sempre no mesmo problema, que é o capital de giro limitado. Eu gostaria de poder ser mais competitivo e oferecer mais produtos. É um mercado importante.

A Agrale tem projetos na área de combustíveis alternativos?
Uma empresa que atua em nichos, como a Agrale, tem de ser ligeira e inovadora. Portanto, a tomada de decisão deve ser rápida. Há tempos trabalhamos com energias alternativas e soluções inovadoras. No início dos anos 2000, desenvolvemos um ônibus a gás. Concluímos os testes de ônibus a gás para a cidade de Buenos Aires.

No Brasil, essa tecnologia foi bem recebida há algumas décadas. Muita gente instalou o sistema em automóveis. Mas a Agrale só conseguiu vender uma unidade de ônibus a gás no País. Por outro lado, forma mais de 400 para Lima, no Peru, onde esse tipo de ônibus é bem comum.

Creio que o setor de gás vai se fortalecer no Brasil. Até porque o monopólio da Petrobrás está acabando. Com isso, deve haver redução nos preços.

A Agrale está pronta para essa nova realidade?
A Agrale domina todo o processo. Estamos apoiando a FNM porque o segmento de propulsores alternativos apresenta forte tendência de crescimento. Estou preocupado em preservar o presente, buscar soluções e contribuir sempre com inovações. Aliás, fomos a primeira empresa do setor a validar o uso de biodiesel em um trator no Brasil.

 

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