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domingo, julho 31, 2022

O fuzil brasileiro Taurus T4 tem chances de vencer a megalicitação do Exército Indiano?

No dia 03/12/2021, o Tenente-General Andres Centino, Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas das Filipinas (AFP) presidiu a cerimônia militar de entrega dos recém-adquiridos fuzis de assalto Taurus T4 5,56mm para os militares do 99º Batalhão de Infantaria do Exército das Filipinas (99IB - Batalhão Patriótico), sediado no Forte Magsaysay, em Nueva Ecija.

*LRCA Defense Consulting - 31/07/2022

O Ministério da Defesa da Índia divulgou, em comunicado datado de 26 de julho, que concordou com o plano de licitar aproximadamente 400 mil carabinas/fuzis CQB (apropriados para o combate à curta distância), haja vista que daria um grande impulso à indústria de fabricação de armas pequenas na Índia e aumentaria a atmanirbharta (autossuficiência) nesse tipo de armamento. O comunicado acrescentou que a Aceitação da Necessidade (AoN) foi dada a este projeto para combater o “atual paradigma complexo de guerra convencional e híbrida e contraterrorismo nas fronteiras”. Um AoN é o primeiro passo em qualquer processo de aquisição de defesa. Esta licitação passou a incluir a anterior, de cerca de 94 mil fuzis, que foi descontinuada.

Resta apenas definir se a aquisição será através da categoria Buy Indian (Compra da Índia) ou através da opção Indigenously Designed, Developed and Manufactured (Projetado, Desenvolvido e Fabricado na Índia - IDDM), sendo muito provável, segundo fontes idianas, que seja por meio da categoria Buy Indian, pois significará que várias empresas estrangeiras que têm ou terão joint ventures com empresas indianas estarão participando, enquanto a IDMM teria apenas três, com apenas uma privada.

Para lançar mais luzes sobre a participação da brasileira Taurus Armas com seu fuzil T4 na licitação, bem como sobre suas chances de se tornar a vencedora ou uma delas, esta editoria traz alguns fatos que, provavelmente, poderão influenciar o desenrolar do certame.

O caso das Filipinas
A República das Filipinas é um dos países asiáticos onde a empresa brasileira Taurus Armas tem um grande sucesso, já tendo vendido quase 30 mil pistolas TS9 para a Polícia Nacional e mais de 13 mil fuzis T4 para o Exército do país.

O fuzil T4 foi o escolhido para dotar o Exército das Filipinas após ter vencido duas históricas licitações internacionais onde concorreu com armas fabricadas por grandes empresas mundiais do setor, vencendo inclusive o famoso fuzil da americana SIG Sauer. São históricas porque foi a primeira vez que o Exército Filipino adquiriu um fuzil fabricado fora dos Estados Unidos para o seu exército; também foi a primeira venda do fuzil T4 para o exército regular de um país.

Como comprovaram as licitações do exigente mercado militar e de segurança filipino, a Taurus tem no fuzil T4 uma arma moderna, versátil e de altíssima qualidade, confiabilidade e resistência, além de apresentar a melhor relação custo/benefício do mercado, sendo perfeitamente adequada às necessidades e exigências do Exército Indiano, haja vista ainda que suas diversas versões permitem que seja empregado como fuzil de assalto ou como fuzil/carabina CQB.

No vídeo abaixo, o canal filipino PrimeCheck apresenta o fuzil Taurus T4 em uso pelo Exército das Filipinas, comentando sobre os motivos da aquisição, a história da licitação, bem como a venda de mais de 20 mil pistolas Taurus TS9 à Polícia Nacional das Filipinas.


Fatores paralelos a considerar
Para além dos quesitos técnicos e financeiros, que são fundamentais num primeiro momento do certame, há também outros fatores importantes a considerar, pois podem ser decisivos no desenrolar das negociações.

O primeiro deles é o pioneirismo da Taurus e da CBC, sendo parceiras de primeira hora do Primeiro-ministro indiano Narendra Modi em seu Programa Make in India, fato concretizado por meio das duas primeiras joint ventures (JV) firmadas dentro desse programa, com a Jindal Defence & Aerospace e com a SSS Defence, respectivamente.

Junto a este fato, está o de que Grupo CBC/Taurus passará a fabricar armas e munições na Índia, criando um ecossistema logístico facilitador completo para o Exército Indiano e para as demais forças militares, paramilitares e de segurança do país.

A poderosa parceria com o Jindal Group, maior fabricante de aço da Índia e um dos dez maiores do mundo, também é um fator muito positivo, pois fornece a segurança política e os respaldos financeiro e de infraestrutura  necessários para as operações da JV da Taurus nesse país.

A demonstração para o Exército Indiano em Fev 22, realizada na Escola de Infantaria Mhow, foi um grande sucesso. Foram empregados 15 fuzis T4 automáticos em diferentes variações, como modelos de 14,5”, 11,5” e 7,5” de cano, guarda-mãos de alumínio quad-rail e M-Lok, diferentes miras e carregadores metálicos e de polímero. No final, os militares indianos que os utilizaram mostraram um alto grau de satisfação com o armamento e ainda destacaram os atributos técnicos, intercambialidade, modularidade e adaptabilidade dos modelos T4 para os diferentes cenários e necessidades das forças indianas. 

A estrutura da fábrica de armas da Jindal Taurus foi concluída na cidade de Hisar. No momento, está sendo finalizada a questão burocrática da formação da empresa junto ao governo indiano. Após o pronunciamento positivo do governo e a conclusão da burocracia necessária à formação final da nova empresa, a unidade de São Leopoldo já poderá começar a enviar os kits a serem montados na Índia.

Fábrica da Jindal Taurus na Índia


Outras questões de cunho político, econômico e geopolítico
Além desses fatores, poderão também pesar no negócio outras questões de cunho político, econômico e geopolítico:
- a futura necessidade do gigante asiático de dispor de grandes fontes de matérias primas para abastecer suas indústrias, e de produtos agropecuários para alimentar sua imensa e crescente população (em breve, a maior do mundo), itens onde o Brasil é farto;
- a ambição geopolítica da Índia de firmar sua presença nas Américas, tendo o Brasil como centro irradiador;
- Índia e Brasil fazem parte do BRICS, um agrupamento de países de economias emergentes, juntamente com Rússia, China e África do Sul, havendo grande interesse do bloco em potencializá-lo;
- a afinidade ideológica e os interesses comerciais mútuos entre o Primeiro-ministro Narendra Modi e o Presidente Jair Bolsonaro;
- um dos mais fortes concorrentes é o fuzil Galil Ace, da PLR Systems Pvt Ltd, uma joint venture do indiano Adani Group e da Israel Weapon Industries (IWI). Porém, ele teria dificuldades de ser exportado para diversos países, especialmente os muçulmanos, e a intenção manifesta do país, dentro do Programa Make in India, é suprir o mercado interno e, também, exportar o armamento, gerando divisas para a Índia;
- outra empresa que poderia ser forte concorrente, já que é totalmente indiana, é a SSS Defense, com a qual a CBC tem JV (mas só para a produção de munições, não para armas); porém a sua carabina M72 ainda não foi adquirida nacional ou internacionalmente por nenhuma força armada ou de segurança, além de a empresa não possuir porte para fabricar uma grande quantidade de armas a curto/médio prazo;
- correndo por fora, mas já sem tanta relevância, há ainda o fato (noticiado pela imprensa indiana em 2021) de o governo desse país asiático ter manifestado interesse em firmar uma parceria com a Embraer, visando o grande incremento planejado para a malha aeroviária do país. 

Chances reais
O fornecimento de fuzis e pistolas para as forças armadas e policiais das Filipinas e a joint venture com a indiana Jindal Defence estabelecem um cenário promissor para a Taurus Armas, pois credenciam a empresa junto à "vizinha" Índia, o maior e mais inexplorado mercado mundial para armamentos leves.

A vitoriosa demonstração do fuzil T4 na Escola de Infantaria Mhow foi a vitrine que a Taurus necessitava junto ao Exército Indiano, haja vista que essa Escola e seus Oficiais são os mais conceituados do país no que se refere às questões táticas e técnicas referentes à Infantaria.

Os fatores paralelos e as questões de cunho político, econômico e geopolítico, todos acima citados, poderão ter um peso decisivo nas negociações.

Ao fim e ao cabo, a resposta à pergunta-título desta matéria é "sim", a Taurus Armas tem chances reais de se credenciar na primeira parte (técnica) da licitação e se tornar L1 (melhor lance) ou L2 (segundo melhor lance) na fase seguinte (preço), haja vista que há a possibilidade (ainda não oficializada) de a empresa L1 receber 60% da encomenda (240 mil fuzis), enquanto que a L2 receberia 40% (160 mil fuzis).

Outras oportunidades de mais de 100 mil armas
É relevante ressaltar que, em nota à imprensa distribuída na semana que passou, a Taurus divulgou que, adicionalmente às tratativas em curso para a licitação de mais de 400 mil fuzis pelas Forças Armadas, sua equipe comercial que esteve na Índia identificou outros projetos específicos para aquisição de armamento que representam oportunidades estratégicas para o fornecimento de produtos dedicados às necessidades de forças paramilitares e de segurança (gerenciamento de fronteiras, operações especiais, segurança urbana e institucional, etc.).

Tais necessidades e oportunidades foram levantadas por meio de rodadas da equipe com as principais forças policiais estaduais e paramilitares de várias regiões do país que estão sob comando do Ministério de Assuntos Internos (MHA na sigla em inglês).

A demanda inicial desses contratos e oportunidades identificadas somam uma significativa quantidade de curto/médio prazo de mais de 100.000 armas, com destaque para pistolas 9mm, submetralhadoras e fuzis. Esse número ainda pode aumentar na medida em que o governo indiano libere verbas para as compras estaduais.

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