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02 abril, 2024

Avibras: um ativo fundamental para a Austrália se contrapor à China no Indo-Pacífico


*LRCA Defense Consulting - 02/04/2024

A provável aquisição da Avibras pela australiana DefendTex, divulgada oficialmente por ambas as empresas em nota publicada hoje, não é apenas uma simples operação comercial, revestindo-se de uma natureza geopolítica tão estratégica que a torna fundamental para que a Austrália pule diversos estágios e possa desenvolver uma defesa eficaz, em termos de mísseis, contra a crescente e ameaçadora presença chinesa no Indo-Pacífico.

De maneira simplista, até alguns anos atrás, o expansionismo da Rússia e, principalmente, da China na região do Indo-Pacífico contava com um cinturão protetor formado pela Índia, pela Coreia do Sul e, em menor grau (na época), pelo Japão, além dos meios militares dos Estados Unidos presentes nesses países e em outras bases espalhadas pela região.

Hoje, com a guerra na Ucrânia, a Rússia está parcialmente contida pelo conflito em si, pelos países da OTAN e por outros que lhe são próximos. 

No entanto, a China está aumentando significativamente seu potencial militar, principalmente em meios aéreos, navais e de mísseis, possibilitando que possa atingir facilmente qualquer um dos três países citados ou as bases americanas na região do Indo-Pacífico.

Como será visto no estudo compilado abaixo, a Austrália, seguramente situada a uma distância bem maior da China e contando com uma grande extensão territorial, sentia-se protegida pelos acordos de defesa que tem com os EUA e Reino Unido, pouco investindo em sua indústria de defesa.

Em um curto espaço de tempo, a situação se modificou drasticamente, com a China se expandindo, militar e politicamente, para países insulares existentes entre ela e a Austrália, tornando este país cada vez mais vulnerável aos meios militares aéreos, navais e de mísseis chineses, incluindo agora os mísseis de médio alcance e a força aérea.

Frente ao problema e temendo não poder contar com uma efetiva proteção dos EUA e Reino Unido, a Austrália está empenhada em corrida frenética para dispor de seus próprios meios de defesa, incluindo submarinos nucleares, caças de última geração, mísseis e outros equipamentos militares avançados.

Avibras e DefendTex: uma solução estratégica para a Austrália
É dentro desse cenário que a aquisição da Avibras pela australiana DefendTex pode ser entendida, pois é uma empresa "pronta" que produz mísseis de cruzeiro e seu sistema lançador. A propósito, o alcance do AV-MTC 300 é de 300 Km apenas para exportação, pois pode ser configurado para muito mais.

Além disso, a Avibras desenvolveu também motores de foguetes, como o S50, que é o motor principal do Veículo Lançador de Microssatélites (VLM-1) brasileiro, o qual também pode ser reconfigurado para uma utilização em mísseis de médio e longo alcance. Isso sem contar uma excelente solução C4ISTAR (Comando, Controle, Comunicações, Computadores, Informação/Inteligência, Vigilância, Aquisição de Alvo e Reconhecimento) e outros projetos de ponta.

A DefendTex é uma pequena empresa de defesa australiana que possui apenas 60 funcionários diretos e 120 indiretos. Seu principal escopo produtivo está na fabricação de pequenos e eficientes drones militares (D40, D81 e DefendTex 155), veículos terrestres não tripulados (UGV), pequenos veículos marítimos não tripulados, coletes balísticos e gel de pimenta não letal, além de formulação e fabricação de pirotecnia, propelentes e HE (alto explosivo). 

Porém, é na tecnologia e na pesquisa que a DefendTex tem seu grande diferencial, o que a fez ser merecedora de grande incentivos do governo nos últimos anos.

Segundo sua própria definição "A DefendTex é reconhecida como uma das empresas de tecnologia de defesa mais inovadoras da Austrália, atendendo aos mercados globais de defesa. Suas principais capacidades são Pesquisa e Desenvolvimento, Engenharia, Fabricação, Testes e Avaliação e Comercialização para plataformas terrestres, marítimas e aeroespaciais. A DefendTex possui instalações de última geração para produzir tecnologia de armas líder mundial. Os serviços de engenharia e design continuam a ser um motor da evolução da empresa, juntamente com uma extensa equipe altamente adepta do desenvolvimento estruturado de produtos. Os recursos de design da DefendTex trouxeram vários produtos revolucionários ao mercado, transformando ideias em tecnologia sólida".

Motor de Detonação Rotativo (RDE) em testes

Uma destas tecnologias de defesa, totalmente revolucionária, está sendo desenvolvida juntamente com a RMIT University, The University of Sydney e Universitat der Bundeswehr. Trata-se do primeiro Motor de Detonação Rotativo (RDE) totalmente fabricado por manufatura aditiva da Austrália. Um combustor RDE não apenas não contém partes móveis, mas também opera em uma forma de combustão com ganho de pressão que o diferencia dos motores de foguete tradicionais, com um aumento de eficiência associado de 10-20%. Se tudo continuar dando certo, o RDE permitirá à Austrália desempenhar um papel fundamental nesta nova tecnologia a nível internacional. Embora a tecnologia tenha o potencial de revolucionar a propulsão de foguetes (e mísseis), voo de alta velocidade e geração de energia terrestre, ainda pressupõe um longo caminho até estar operacional.

Em 2021, a DefendTex e seus parceiros receberam US$ 3 milhões em financiamento para produzir o primeiro foguete impulsionador impresso em 3D da Austrália. Travis Reddy, CEO da DefendTex afirmou: “A nova abordagem de fabricação aditiva permitirá redução de custos, de desperdício e maior capacidade de resposta para acesso ao espaço, permitindo a produção doméstica de propulsores de foguetes comerciais, o que se traduz em acesso ao espaço acessível para a indústria espacial emergente da Austrália. A DefendTex usará o financiamento para se juntar à indústria e parceiros de pesquisa para resolver a lacuna de capacidade da indústria espacial australiana, onde não há foguetes propulsores de fabricação nacional disponíveis comercialmente para lançamento na Austrália".

Pelo seu pequeno porte e aparente carência de recursos financeiros suficientes para adquirir a Avibras e fazer os aportes necessários, esta Consultoria acredita que a DefendTex tenha, em sua retaguarda, a sustentação de fundos de defesa governamentais (como o Australian Government Future Fund, um fundo soberano da Austrália) ou até mesmo um grade grupo privado australiano.

Por fim, de lamentar é o fato de o Brasil não ter encontrado uma solução nacional para uma de suas principais empresas de defesa. Assim, como ainda não foram divulgados os termos do acordo que está sendo costurado, resta torcer fervorosamente para que, pelo menos, o patrimônio científico, criado e desenvolvido pelos engenheiros e técnicos da Avibras ao longo de mais de 60 anos, permaneça na propriedade do País.


A Austrália e a região do Indo-Pacífico*

O ambiente de segurança no Indo-Pacífico tornou-se cada vez mais volátil devido à rivalidade entre grandes potências. A última Revisão Estratégica de Defesa da Austrália afirma que “a defesa da Austrália reside na segurança coletiva do Indo-Pacífico”. Camberra estará empenhada em sustentar e reforçar o seu papel no Indo-Pacífico, particularmente para equilibrar a China.

A Austrália, que faz fronteira a oeste com o Oceano Índico e a leste com o Oceano Pacífico, e está muito próxima dos membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) ao norte, pode ser descrita como um país central na região do Indo-Pacífico.

Desde 2012, a ideia do Indo-Pacífico tornou-se um ponto de referência para os governos australianos definirem os interesses da política externa e de segurança do país. Ao longo do período pós-guerra, a Austrália procurou satisfazer as suas necessidades de segurança convencionais principalmente através do seu pacto de defesa mútua com os Estados Unidos (EUA), do Tratado de Segurança da Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos (ANZUS) de 1951, bem como o acordo de partilha de informações de sinais 'Five Eyes' com os EUA, o Reino Unido (UK), o Canadá e a Nova Zelândia. Por sua vez, este último é sustentado pelo Acordo Reino Unido / Estados Unidos da América (UKUSA) de 1946. No entanto, em termos dos seus interesses comerciais, a Austrália tem olhado cada vez mais para os mercados da Ásia e proporcionalmente menos para os tradicionais aliados ocidentais.

À medida que a China cresceu e se tornou mais assertiva, estabelecendo uma rivalidade estratégica com os EUA e os seus parceiros regionais, a Austrália começou a ter mais dificuldade em isolar os seus interesses comerciais das tensões geopolíticas regionais.

A recentemente forjada parceria de segurança e tecnologia “AUKUS” com os EUA e o Reino Unido reflete tanto o ritmo da mudança geopolítica no Indo-Pacífico como a centralidade duradoura dos EUA na estratégia de defesa da Austrália. Tendo inicialmente determinado que a falta de uma indústria nuclear civil nacional impedia a utilização de tecnologia de propulsão nuclear superior na frota submarina da Austrália, o atual governo reavaliou a sua estratégia de segurança e recalibrou os seus acordos de aquisição de defesa, com iniciativas e implicações diplomáticas potencialmente de longo alcance.

A Austrália considera-se a guardiã econômica e de segurança da região do Pacífico. Mas cada vez mais a China tem ambições de promover os seus interesses entre as nações insulares.

No início de janeiro, Nauru, uma pequena república do Pacífico, restabeleceu relações diplomáticas formais com a China depois de romper relações com Taiwan. O governo da Papua Nova Guiné, o vizinho mais próximo da Austrália, confirmou que está em conversações com a China sobre um potencial acordo de segurança e policiamento. Pequim assinou um pacto de segurança com as Ilhas Salomão, um arquipélago estrategicamente localizado a nordeste da Austrália, em 2021.

As atuais capacidades da Austrália no âmbito do modelo de “força equilibrada” são insuficientes para gerir ameaças maiores. Por esta razão, está ansiosa por prosseguir o desenvolvimento de mísseis e adquirir equipamento militar avançado. A revisão é um passo importante na avaliação das capacidades e no traçado de um rumo que conduza a Austrália a uma posição mais proeminente na arquitetura de segurança regional.

Pequim pode estar demasiado ocupada com objetivos mais amplos de autossuficiência , em áreas como o desenvolvimento de motores militares, para corresponder às capacidades dos EUA. A China goza de uma vantagem na produção de defesa, com a sua base industrial e cadeias de abastecimento regionais. Mas os controles de exportação e a estratégia coletiva aliada podem impedir a aquisição de tecnologias sensíveis e a montagem de equipamento militar de ponta num futuro próximo. Embora a consolidação do apoio logístico tenha aumentado as suas capacidades, o principal objetivo da China é o avanço na tecnologia de defesa, onde os Estados Unidos e os seus aliados têm atualmente uma vantagem.

O abrandamento econômico na China fez com que os seus jovens lutassem por emprego. Algumas análises concluem que a descida econômica de uma superpotência provoca repressões internas – e uma maior assertividade militar na sua vizinhança. A política chinesa pode ser motivada pela insegurança e desconfiança dos concorrentes no cenário mundial.

A postura da China pode ser agravada pela ameaça do aumento militar do Japão na Ásia Oriental e pelas suas consequências para o Estreito de Taiwan nos próximos anos. Num tal cenário, o reforço do poder militar da Austrália também pode ser percebido como uma ameaça hostil, convidando a reações adversas.

Em seu livro Caldeirão da Ásia , Robert Kaplan observa que a China vê o Mar da China Meridional como sua esfera de influência. Dadas as disputas territoriais na região, a China continua preocupada com a sua própria segurança. Aumentou o desenvolvimento militar para “projetar poder” no seu ecossistema de segurança imediato.

A maior preocupação para os países do Indo-Pacífico pode ser a utilização militar das características insulares recuperadas pela China no Mar da China Meridional. Estas instalações dão a Pequim uma vantagem militar indevida. Isto não é apenas preocupante para a Austrália devido à volátil relação bilateral, mas também preocupante para as Filipinas e a Indonésia, que são requerentes na disputa. As alegadas incursões em áreas disputadas por frotas pesqueiras chinesas, acompanhadas por navios militares, agravaram as tensões.

A exploração de bases estrangeiras pela China indica a projeção de poder militar fora dos seus territórios nacionais, incluindo o Sudeste Asiático. A possibilidade de uma base naval chinesa nas Ilhas Salomão abalou a Austrália e o Ocidente em 2022. A presença militar da China no Pacífico pode ser problemática por duas razões: permitirá atingir facilmente o território australiano e negará espaço marítimo à Austrália. Isto limita efetivamente o apoio militar dos Estados Unidos e do Japão em situações difíceis.

*Fontes:

- A visão estratégica da Austrália sobre o Indo-Pacífico - Think Tank Parlamento Europeu
- Austrália e a nova arquitetura de segurança do Indo-Pacífico - East Asia Forum
- Austrália desconfia das ambições de segurança da China no Pacífico - Voa News
 

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