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18 abril, 2024

Índia aumenta presença de defesa com entrega de mísseis BrahMos às Filipinas


*Financial Express, por Huma Siddiqui - 18/04/2024

Num movimento histórico para reforçar a sua posição no mercado global de defesa, a Índia deverá entregar mísseis de cruzeiro supersônicos BrahMos às Filipinas, marcando um marco significativo na cooperação bilateral em defesa. Este acordo de 374,96 milhões de dólares, assinado em janeiro de 2022, sublinha as ambições estratégicas da Índia como um exportador emergente de defesa.

Fontes da Direção Geral de Aviação Civil indicam que três Freightliners civis estão programados para partir para Manila hoje (18 de abril de 2024), acompanhados por um C-17 Globemaster da Força Aérea Indiana (IAF), ilustrando a estrutura logística de dupla utilização deste Operação. A participação do transporte civil e militar sublinha a importância estratégica e operacional da entrega.

A presença hoje do Embaixador das Filipinas em Nagpur para supervisionar o envio destaca ainda mais o peso diplomático desta iniciativa. Essa entrega utiliza um mix de meios de transporte, refletindo a magnitude logística da operação.

Estes desenvolvimentos ocorrem no momento em que as exportações de defesa da Índia atingiram um recorde de 21.083 milhões de rupias (aproximadamente 2,63 mil milhões de dólares) no ano financeiro de 2023-24, marcando um aumento de 32,5% em relação ao ano anterior. A implantação de mísseis BrahMos deverá fortalecer as capacidades de defesa marítima das Filipinas, especialmente na região estratégica do Mar da China Meridional, e ilustra um salto significativo na estratégia de exportação de defesa da Índia.

Implicações estratégicas e perspectivas futuras

A entrega dos mísseis BrahMos, os mísseis supersônicos mais rápidos do mundo desenvolvidos em conjunto com a Rússia, utilizando um C-17 da IAF adquirido dos Estados Unidos, simboliza uma parceria estratégica multifacetada. A utilização de um C-17 da IAF para esta operação não só destaca as capacidades logísticas imediatas, mas também a disponibilidade da Índia para fornecer apoio estratégico rápido, potencialmente em tempos de conflito.

Esta iniciativa é indicativa das proezas logísticas e militares da Índia e serve como elemento dissuasor, mostrando as capacidades de resposta da Índia aos intervenientes regionais. As implicações estratégicas destas entregas vão além da utilidade imediata da defesa, até à demonstração da crescente influência da Índia no mercado internacional de armas.

Contexto Histórico e Geopolítico

O contrato de US$ 374,96 milhões com a BrahMos Aerospace Private Limited representa a primeira exportação do míssil desenvolvido localmente pela Índia, uma joint venture entre a Organização de Pesquisa e Desenvolvimento de Defesa (DRDO) da Índia e a NPO Mashinostroyeniya da Rússia. O acordo inclui três baterias de mísseis e pacotes abrangentes de treinamento e apoio, aprimorando o Regimento de Defesa Costeira do Corpo de Fuzileiros Navais das Filipinas.

Este desenvolvimento é particularmente comovente dadas as disputas marítimas em curso no Mar das Filipinas Ocidental, onde as Filipinas têm enfrentado pressões marítimas da China. Espera-se que os mísseis BrahMos reforcem significativamente as capacidades navais das Filipinas, proporcionando um elemento de dissuasão credível na região.

Um salto estratégico e defensivo para a estabilidade regional
A integração destes mísseis no quadro de defesa das Filipinas representa um reforço significativo das suas capacidades militares. Esta implantação em todo o arquipélago filipino serve tanto como dissuasão estratégica como como força de reação rápida, reforçando a estabilidade nacional e regional.

Além disso, a entrega que envolve uma aeronave militar fabricada nos Estados Unidos reflete ainda mais a complexa interação das relações internacionais de defesa e sublinha a capacidade da Índia de navegar e alavancar estas parcerias de forma eficaz.

Panorama
À medida que as tensões na região Indo-Pacífico aumentam, o acordo sobre mísseis BrahMos deverá remodelar os alinhamentos de defesa, melhorando tanto a estatura da Índia como um parceiro chave na defesa como a postura defensiva das Filipinas contra ameaças regionais. Esta entrega não só simboliza uma transferência de armas, mas também reafirma o fortalecimento dos laços entre a Índia e as Filipinas, contribuindo para o objetivo mais amplo de manter a estabilidade num cenário geopolítico cada vez mais volátil.
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14 abril, 2024

A crise no Oriente Médio e a Indústria Brasileira de Defesa


*LRCA Defense Consulting - 14/04/2024

O ataque do Irã a Israel, a partir do seu território, inaugura uma nova fase nos conflitos do Oriente Médio e evidencia o quão próxima pode estar uma conflagração geral na região e, também, no mundo, bastando um pequeno erro de cálculo ou uma decisão equivocada de alguma das partes envolvidas. Tal situação é agravada pelo apoio ostensivo da Jordânia e velado (ou não) da Arábia Saudita - dois países árabes - nas ações contra os drones e mísseis iranianos.

Sem dúvida, esse fato deverá trazer consequências importantes para as empresas de defesa brasileiras que exportam seus produtos para a região ou que nela já produzem localmente, ou ainda que estão em vias de ali produzir, seja por estar participando de importantes licitações, seja por se encontrar em negociações para uma futura produção local.

É importante observar que, além da região do Oriente Médio em si, a Índia surge como uma potência bélica e econômica vizinha que tem grande interesse em manter livre a rota marítima para a Europa, tanto para escoar seus produtos como para receber outros que lhe são necessários. Além disso, o país já possui uma forte presença militar na área, com sua marinha de guerra patrulhando o Mar Vermelho e atuando ativamente contra os rebeldes Houthis, em uma clara demonstração de seu poderio naval, principalmente em oposição afirmativa à crescente influência da China no mar.

Em qualquer caso, o acirramento das tensões no Oriente Médio pode também estimular outros focos de tensão na região do Indo-Pacífico, principalmente o risco permanente de a China invadir Taiwan e o de a Coreia do Norte cumprir suas ameaças de guerra contra a Coreia do Sul e o Japão, passando por outros, como as questões de fronteira entre Índia e China, Índia e Paquistão, Paquistão e Irã etc.

Neste cenário, há algumas grandes empresas brasileiras que possuem fortes interesses em países dessas regiões, sendo Akaer, CBC, Embraer, Mac Jee, SIATT e Taurus Armas as principais.

A Akaer participa do programa HÜRJET, da Turkish Aerospace Industry (TAI), uma aeronave de treinamento avançado e ataque leve turca para dois ocupantes em configuração tandem. Capaz de operar em velocidades supersônicas e equipado com aviônicos modernos, foi projetado para atender a demanda por treinadores capazes de preparar pilotos para os desafios trazidos pelos novos caças de 5ª geração.

A CBC está com uma fábrica pronta na Índia, em joint venture com a SSS Defence, só aguardando as últimas licenças governamentais. Na Arábia Saudita, a empresa está próxima de firmar uma joint venture para estabelecer produção local.

A Embraer, após vencer a licitação da Coreia do Sul para fornecer aeronaves de transporte, está em vias de fornecer 33 aeronaves C-390 Millennium para a Arábia Saudita, podendo estabelecer uma joint venture para produção local, além de ter firmado acordos relativos à aviação comercial e militar. Na Índia, a gigante brasileira participa de uma megalicitação de 40 a 80 aeronaves de transporte, onde o C-390 é um dos favoritos, haja vista sua característica multimissão e demais vantagens frente aos concorrentes.

A Mac Jee é uma grande exportadora de bombas, foguetes e munição de artilharia para o Oriente Médio, possuindo ainda uma unidade fabril de explosivos militares na Arábia Saudita em vias de conclusão.

A SIATT, que teve 50% de seu capital adquirido pelo EDGE Group, dos Emirados Árabes Unidos, deverá ver um grande incremento na produção de mísseis antinavio MANSUP e MANSUP ER direcionados a países da região.

A Taurus Armas iniciou as atividades produtivas de sua fábrica na Índia no mês passado, já venceu uma primeira licitação de submetralhadoras para o Exército Indiano e está participando das etapas finais da maior licitação de armas leves do mundo, por meio da qual esse país irá adquirir 425 mil fuzis CQB para suas forças armadas. Na Arábia Saudita, a empresa está em vias de firmar uma joint venture para a produção local de armas leves (pistolas, submetralhadoras e fuzis) para equipar as Forças Armadas Sauditas.

O fato é que, com o acirramento das tensões, a Arábia Saudita e outros países do Oriente Médio, bem como a Índia, Filipinas, Indonésia e Malásia, no Indo-Pacífico, necessitarão agilizar medidas para fortalecer os seus meios bélicos e de segurança que estiverem deficientes, dada à nova urgência com que podem ser requisitados. 

O agravamento da situação no Oriente Médio traz também consequências para algumas das empresas que concorrem diretamente com as brasileiras e que estão (ou não) localizadas na região, haja vista que que o respectivo país-sede pode vir a necessitar de toda a sua produção, caso esteja diretamente envolvido em um conflito ou haja uma possibilidade real desse envolvimento no curto prazo. É o caso de Israel, por exemplo, que terá dificuldades para exportar armas e munições; inclusive, recentemente, precisou importar uma grande quantidade de fuzis dos EUA, apesar de possuir duas grandes empresas que os produzem.

Por outro lado, o Brasil emerge como um país que possui uma indústria de defesa que, apesar de limitada na diversidade de produtos, é dotada de alta capacidade e tecnologia, qualidade de nível mundial e bom volume de produção (em alguns casos), com condições de suprir necessidades importantes das forças armadas do Oriente Médio, do Indo-Pacífico e de outras regiões que também venham a necessitar, especialmente no que diz respeito a armamento leve, explosivos, munições, bombas, foguetes (e seus lançadores), mísseis, drones, radares e aeronaves (transporte, AEW&C ou treinamento e ataque leve/ao solo). 

Além disso, o Brasil está suficientemente distante, possui razoável estabilidade política e, por enquanto, não está diretamente alinhado a nenhum dos lados envolvidos nos atuais conflitos.

Devido a esse somatório de fatores, esta Consultoria acredita que alguns países dessas regiões, particularmente Arábia Saudita e Índia, devam aligeirar decisões relativas a aquisições diretas, processos licitatórios e estabelecimento de joint ventures com foco em empresas brasileiras da área de defesa.

02 abril, 2024

Avibras: um ativo fundamental para a Austrália se contrapor à China no Indo-Pacífico


*LRCA Defense Consulting - 02/04/2024

A provável aquisição da Avibras pela australiana DefendTex, divulgada oficialmente por ambas as empresas em nota publicada hoje, não é apenas uma simples operação comercial, revestindo-se de uma natureza geopolítica tão estratégica que a torna fundamental para que a Austrália pule diversos estágios e possa desenvolver uma defesa eficaz, em termos de mísseis, contra a crescente e ameaçadora presença chinesa no Indo-Pacífico.

De maneira simplista, até alguns anos atrás, o expansionismo da Rússia e, principalmente, da China na região do Indo-Pacífico contava com um cinturão protetor formado pela Índia, pela Coreia do Sul e, em menor grau (na época), pelo Japão, além dos meios militares dos Estados Unidos presentes nesses países e em outras bases espalhadas pela região.

Hoje, com a guerra na Ucrânia, a Rússia está parcialmente contida pelo conflito em si, pelos países da OTAN e por outros que lhe são próximos. 

No entanto, a China está aumentando significativamente seu potencial militar, principalmente em meios aéreos, navais e de mísseis, possibilitando que possa atingir facilmente qualquer um dos três países citados ou as bases americanas na região do Indo-Pacífico.

Como será visto no estudo compilado abaixo, a Austrália, seguramente situada a uma distância bem maior da China e contando com uma grande extensão territorial, sentia-se protegida pelos acordos de defesa que tem com os EUA e Reino Unido, pouco investindo em sua indústria de defesa.

Em um curto espaço de tempo, a situação se modificou drasticamente, com a China se expandindo, militar e politicamente, para países insulares existentes entre ela e a Austrália, tornando este país cada vez mais vulnerável aos meios militares aéreos, navais e de mísseis chineses, incluindo agora os mísseis de médio alcance e a força aérea.

Frente ao problema e temendo não poder contar com uma efetiva proteção dos EUA e Reino Unido, a Austrália está empenhada em corrida frenética para dispor de seus próprios meios de defesa, incluindo submarinos nucleares, caças de última geração, mísseis e outros equipamentos militares avançados.

Avibras e DefendTex: uma solução estratégica para a Austrália
É dentro desse cenário que a aquisição da Avibras pela australiana DefendTex pode ser entendida, pois é uma empresa "pronta" que produz mísseis de cruzeiro e seu sistema lançador. A propósito, o alcance do AV-MTC 300 é de 300 Km apenas para exportação, pois pode ser configurado para muito mais.

Além disso, a Avibras desenvolveu também motores de foguetes, como o S50, que é o motor principal do Veículo Lançador de Microssatélites (VLM-1) brasileiro, o qual também pode ser reconfigurado para uma utilização em mísseis de médio e longo alcance. Isso sem contar uma excelente solução C4ISTAR (Comando, Controle, Comunicações, Computadores, Informação/Inteligência, Vigilância, Aquisição de Alvo e Reconhecimento) e outros projetos de ponta.

A DefendTex é uma pequena empresa de defesa australiana que possui apenas 60 funcionários diretos e 120 indiretos. Seu principal escopo produtivo está na fabricação de pequenos e eficientes drones militares (D40, D81 e DefendTex 155), veículos terrestres não tripulados (UGV), pequenos veículos marítimos não tripulados, coletes balísticos e gel de pimenta não letal, além de formulação e fabricação de pirotecnia, propelentes e HE (alto explosivo). 

Porém, é na tecnologia e na pesquisa que a DefendTex tem seu grande diferencial, o que a fez ser merecedora de grande incentivos do governo nos últimos anos.

Segundo sua própria definição "A DefendTex é reconhecida como uma das empresas de tecnologia de defesa mais inovadoras da Austrália, atendendo aos mercados globais de defesa. Suas principais capacidades são Pesquisa e Desenvolvimento, Engenharia, Fabricação, Testes e Avaliação e Comercialização para plataformas terrestres, marítimas e aeroespaciais. A DefendTex possui instalações de última geração para produzir tecnologia de armas líder mundial. Os serviços de engenharia e design continuam a ser um motor da evolução da empresa, juntamente com uma extensa equipe altamente adepta do desenvolvimento estruturado de produtos. Os recursos de design da DefendTex trouxeram vários produtos revolucionários ao mercado, transformando ideias em tecnologia sólida".

Motor de Detonação Rotativo (RDE) em testes

Uma destas tecnologias de defesa, totalmente revolucionária, está sendo desenvolvida juntamente com a RMIT University, The University of Sydney e Universitat der Bundeswehr. Trata-se do primeiro Motor de Detonação Rotativo (RDE) totalmente fabricado por manufatura aditiva da Austrália. Um combustor RDE não apenas não contém partes móveis, mas também opera em uma forma de combustão com ganho de pressão que o diferencia dos motores de foguete tradicionais, com um aumento de eficiência associado de 10-20%. Se tudo continuar dando certo, o RDE permitirá à Austrália desempenhar um papel fundamental nesta nova tecnologia a nível internacional. Embora a tecnologia tenha o potencial de revolucionar a propulsão de foguetes (e mísseis), voo de alta velocidade e geração de energia terrestre, ainda pressupõe um longo caminho até estar operacional.

Em 2021, a DefendTex e seus parceiros receberam US$ 3 milhões em financiamento para produzir o primeiro foguete impulsionador impresso em 3D da Austrália. Travis Reddy, CEO da DefendTex afirmou: “A nova abordagem de fabricação aditiva permitirá redução de custos, de desperdício e maior capacidade de resposta para acesso ao espaço, permitindo a produção doméstica de propulsores de foguetes comerciais, o que se traduz em acesso ao espaço acessível para a indústria espacial emergente da Austrália. A DefendTex usará o financiamento para se juntar à indústria e parceiros de pesquisa para resolver a lacuna de capacidade da indústria espacial australiana, onde não há foguetes propulsores de fabricação nacional disponíveis comercialmente para lançamento na Austrália".

Pelo seu pequeno porte e aparente carência de recursos financeiros suficientes para adquirir a Avibras e fazer os aportes necessários, esta Consultoria acredita que a DefendTex tenha, em sua retaguarda, a sustentação de fundos de defesa governamentais (como o Australian Government Future Fund, um fundo soberano da Austrália) ou até mesmo um grade grupo privado australiano.

Por fim, de lamentar é o fato de o Brasil não ter encontrado uma solução nacional para uma de suas principais empresas de defesa. Assim, como ainda não foram divulgados os termos do acordo que está sendo costurado, resta torcer fervorosamente para que, pelo menos, o patrimônio científico, criado e desenvolvido pelos engenheiros e técnicos da Avibras ao longo de mais de 60 anos, permaneça na propriedade do País.


A Austrália e a região do Indo-Pacífico*

O ambiente de segurança no Indo-Pacífico tornou-se cada vez mais volátil devido à rivalidade entre grandes potências. A última Revisão Estratégica de Defesa da Austrália afirma que “a defesa da Austrália reside na segurança coletiva do Indo-Pacífico”. Camberra estará empenhada em sustentar e reforçar o seu papel no Indo-Pacífico, particularmente para equilibrar a China.

A Austrália, que faz fronteira a oeste com o Oceano Índico e a leste com o Oceano Pacífico, e está muito próxima dos membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) ao norte, pode ser descrita como um país central na região do Indo-Pacífico.

Desde 2012, a ideia do Indo-Pacífico tornou-se um ponto de referência para os governos australianos definirem os interesses da política externa e de segurança do país. Ao longo do período pós-guerra, a Austrália procurou satisfazer as suas necessidades de segurança convencionais principalmente através do seu pacto de defesa mútua com os Estados Unidos (EUA), do Tratado de Segurança da Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos (ANZUS) de 1951, bem como o acordo de partilha de informações de sinais 'Five Eyes' com os EUA, o Reino Unido (UK), o Canadá e a Nova Zelândia. Por sua vez, este último é sustentado pelo Acordo Reino Unido / Estados Unidos da América (UKUSA) de 1946. No entanto, em termos dos seus interesses comerciais, a Austrália tem olhado cada vez mais para os mercados da Ásia e proporcionalmente menos para os tradicionais aliados ocidentais.

À medida que a China cresceu e se tornou mais assertiva, estabelecendo uma rivalidade estratégica com os EUA e os seus parceiros regionais, a Austrália começou a ter mais dificuldade em isolar os seus interesses comerciais das tensões geopolíticas regionais.

A recentemente forjada parceria de segurança e tecnologia “AUKUS” com os EUA e o Reino Unido reflete tanto o ritmo da mudança geopolítica no Indo-Pacífico como a centralidade duradoura dos EUA na estratégia de defesa da Austrália. Tendo inicialmente determinado que a falta de uma indústria nuclear civil nacional impedia a utilização de tecnologia de propulsão nuclear superior na frota submarina da Austrália, o atual governo reavaliou a sua estratégia de segurança e recalibrou os seus acordos de aquisição de defesa, com iniciativas e implicações diplomáticas potencialmente de longo alcance.

A Austrália considera-se a guardiã econômica e de segurança da região do Pacífico. Mas cada vez mais a China tem ambições de promover os seus interesses entre as nações insulares.

No início de janeiro, Nauru, uma pequena república do Pacífico, restabeleceu relações diplomáticas formais com a China depois de romper relações com Taiwan. O governo da Papua Nova Guiné, o vizinho mais próximo da Austrália, confirmou que está em conversações com a China sobre um potencial acordo de segurança e policiamento. Pequim assinou um pacto de segurança com as Ilhas Salomão, um arquipélago estrategicamente localizado a nordeste da Austrália, em 2021.

As atuais capacidades da Austrália no âmbito do modelo de “força equilibrada” são insuficientes para gerir ameaças maiores. Por esta razão, está ansiosa por prosseguir o desenvolvimento de mísseis e adquirir equipamento militar avançado. A revisão é um passo importante na avaliação das capacidades e no traçado de um rumo que conduza a Austrália a uma posição mais proeminente na arquitetura de segurança regional.

Pequim pode estar demasiado ocupada com objetivos mais amplos de autossuficiência , em áreas como o desenvolvimento de motores militares, para corresponder às capacidades dos EUA. A China goza de uma vantagem na produção de defesa, com a sua base industrial e cadeias de abastecimento regionais. Mas os controles de exportação e a estratégia coletiva aliada podem impedir a aquisição de tecnologias sensíveis e a montagem de equipamento militar de ponta num futuro próximo. Embora a consolidação do apoio logístico tenha aumentado as suas capacidades, o principal objetivo da China é o avanço na tecnologia de defesa, onde os Estados Unidos e os seus aliados têm atualmente uma vantagem.

O abrandamento econômico na China fez com que os seus jovens lutassem por emprego. Algumas análises concluem que a descida econômica de uma superpotência provoca repressões internas – e uma maior assertividade militar na sua vizinhança. A política chinesa pode ser motivada pela insegurança e desconfiança dos concorrentes no cenário mundial.

A postura da China pode ser agravada pela ameaça do aumento militar do Japão na Ásia Oriental e pelas suas consequências para o Estreito de Taiwan nos próximos anos. Num tal cenário, o reforço do poder militar da Austrália também pode ser percebido como uma ameaça hostil, convidando a reações adversas.

Em seu livro Caldeirão da Ásia , Robert Kaplan observa que a China vê o Mar da China Meridional como sua esfera de influência. Dadas as disputas territoriais na região, a China continua preocupada com a sua própria segurança. Aumentou o desenvolvimento militar para “projetar poder” no seu ecossistema de segurança imediato.

A maior preocupação para os países do Indo-Pacífico pode ser a utilização militar das características insulares recuperadas pela China no Mar da China Meridional. Estas instalações dão a Pequim uma vantagem militar indevida. Isto não é apenas preocupante para a Austrália devido à volátil relação bilateral, mas também preocupante para as Filipinas e a Indonésia, que são requerentes na disputa. As alegadas incursões em áreas disputadas por frotas pesqueiras chinesas, acompanhadas por navios militares, agravaram as tensões.

A exploração de bases estrangeiras pela China indica a projeção de poder militar fora dos seus territórios nacionais, incluindo o Sudeste Asiático. A possibilidade de uma base naval chinesa nas Ilhas Salomão abalou a Austrália e o Ocidente em 2022. A presença militar da China no Pacífico pode ser problemática por duas razões: permitirá atingir facilmente o território australiano e negará espaço marítimo à Austrália. Isto limita efetivamente o apoio militar dos Estados Unidos e do Japão em situações difíceis.

*Fontes:

- A visão estratégica da Austrália sobre o Indo-Pacífico - Think Tank Parlamento Europeu
- Austrália e a nova arquitetura de segurança do Indo-Pacífico - East Asia Forum
- Austrália desconfia das ambições de segurança da China no Pacífico - Voa News
 

09 abril, 2023

Embraer busca ampliar presença na Índia e na China

A empresa brasileira estabeleceu uma meta ambiciosa de produzir e entregar quase 100 aviões anualmente com até 150 assentos até 2025, representando um aumento significativo de 75% em relação às entregas do ano anterior.


*Financial Express - 08/04/2023

A Embraer, maior fornecedora mundial de aeronaves não ocidentais e importante participante da indústria de aviação civil do Brasil, está tomando medidas ousadas para fortalecer sua posição no mercado de jatos de passageiros de fuselagem estreita em rápida expansão na China e na Índia.

A empresa brasileira estabeleceu uma meta ambiciosa de produzir e entregar quase 100 aviões anualmente com até 150 assentos até 2025, representando um aumento significativo de 75% em relação às entregas do ano anterior.

A estratégia de expansão da Embraer ocorre em um momento crucial, já que as tensões entre a China e os Estados Unidos resultaram em restrições às exportações de aeronaves americanas para Pequim. Espera-se que a recente dissociação entre os dois rivais econômicos tenha um impacto adicional no comércio de aviação, com a China sendo tradicionalmente o maior comprador de jatos da Boeing.

A Embraer aproveitou esta oportunidade garantindo as entregas de seu mais novo jato comercial da série E2, o E190-E2, para a China após obter a certificação de tipo das autoridades chinesas. A empresa também está ativamente envolvida em negociações com a Índia para fornecer jatos de passageiros para as companhias aéreas indianas até 2024, visando estrategicamente o mercado de aviação que mais cresce no mundo.

Além disso, a Embraer está explorando ativamente oportunidades de fornecer aviões de guerra para a Índia e, potencialmente, estabelecer uma fábrica em parceria com uma empresa local. A Índia expressou grande interesse em colaborar com fabricantes internacionais de aeronaves para produzir pequenos aviões no mercado interno, já que muitos aeroportos do Esquema Regional de Conectividade da aviação civil do país não estão equipados para lidar com aeronaves de fuselagem estreita de grandes players como Airbus e Boeing.

A pesquisa de mercado indica uma forte demanda por aeronaves de passageiros com 150 assentos ou menos na região da Ásia-Pacífico, incluindo China e Índia. A Embraer vê potencial de vendas significativo no mercado da Ásia-Pacífico e pretende capturar uma parte substancial das estimadas 8.500 unidades globalmente, com pelo menos 2.200 delas esperadas para a região.

Com foco estratégico na China e na Índia, a Embraer está se posicionando como um player importante no crescente mercado de aviação da Ásia. Aproveitando sua experiência e capacidade, a empresa está determinada a atender à crescente demanda por aeronaves comerciais na região e reduzir a dependência de fabricantes de aeronaves tradicionais. À medida que o cenário da aviação global evolui, os movimentos ousados ​​da Embraer na China e na Índia estão prestes a moldar a dinâmica do setor e estabelecer a empresa como uma concorrente formidável no competitivo mercado asiático.

 

23 março, 2023

Taurus poderá fechar importante negócio na Arábia Saudita e Emirados


*LRCA Defense Consulting - 23/03/2023

Durante as lives com a SaraInvest e com a Eleven Financial Research realizadas ontem (22), o CEO Global da Taurus Armas S.A., Salesio Nuhs, informou que, durante a recente Feira em Abu Dhabi (IDEX 2023), surgiram boas perspectivas de crescimento no mercado da Arábia Saudita e Emirados, deixando implícito que a empresa está próxima de fechar um importante negócio nessa região.

CBC Taurus Arabia Holding, LLC
Em 30 de dezembro de 2021, a Taurus Armas S.A. celebrou contrato para constituição de joint venture com sua coligada Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), como parte das estratégias de internacionalização de suas operações visando fomentar negócios e oportunidades na Arábia Saudita.

Com o nome de Companhia Brasileira de Cartuchos Taurus Arabia Holding, LLC., a  joint venture tem como principal objetivo possibilitar a busca e antevisão mais eficiente de oportunidades de negócios neste mercado relevante, especialmente considerando os planos do governo do país para estabelecer uma base industrial de defesa local, no âmbito da estratégia denominada “Visão 2030”.

Como atividade principal, a nova empresa está apta a administrar subsidiárias e holdings, conceder empréstimos, garantias e financiamentos a coligadas, além de deter direitos de propriedade industrial.

Em 30 de agosto de 2022, a CBC integralizou capital na CBC Taurus Arábia Holding, LLC. na proporção de 51% do capital social, representado por 10.965 ações com valor nominal de SAR1,00 com o respectivo valor integralizado de SAR1,1 milhão (R$1,6 milhão de riais sauditas na data do pagamento; cerca de US$ 432 mil).

Na mesma data, a Taurus Armas integralizou capital na CBC Taurus Arábia Holding, LLC. na proporção de 49% do capital social, representado por 10.535 ações com valor nominal de SAR1,00 com o respectivo valor integralizado de SAR1,1 milhão (R$1,5 milhão na data do pagamento; cerca de US$ 405 mil).

Como a CBC Taurus Arabia Holding, LLC é considerada uma joint venture, seus resultados líquidos passaram a ser reconhecidos pela Taurus pelo método de equivalência patrimonial na proporção de 49%, conforme CPC 19 (R2)/IFRS.

Visão 2030 - o grande plano saudita de 15 anos
O Plano Visão 2030, anunciado pelo governo saudita em 2015, mudou economicamente a Arábia Saudita nos últimos anos e é esperado que continue mudando.

Até 2015, o petróleo respondia por cerca de 75% das receitas orçamentárias, 40% do PIB e 90% das receitas das exportações. O "vício do ouro negro" acostumou os sauditas a comprar tudo o que precisavam, pois sempre houve dinheiro farto e era muito mais barato importar do que produzir localmente.

No entanto, o atual governo vislumbrou que o país não poderia manter a dependência da renda petroleira e o enorme gasto público diante de um cenário de grandes mudanças que estão acontecendo no mercado energético internacional (variações enormes nos preços do petróleo, surgimento de fontes alternativas não poluentes e política mundial contra o uso de combustíveis fósseis) e de tendências demográficas que indicam aumento significativo no número de sauditas em idade produtiva até 2030.

A ascensão do príncipe Mohamed Bin Salman (conhecido como MbS) no cenário político saudita e o declínio dos preços do petróleo em 2014 incentivaram o desenvolvimento do plano como meio de abandonar ou, pelo menos, diminuir grandemente essa dependência e diversificar a atividade econômica, abrindo amplamente as portas para o envolvimento de um setor privado ativo e facilitando a entrada dos investimentos estrangeiros no país. Assim, um dos pilares do Visão 2030 é justamente transformar a Arábia Saudita em um centro de investimentos globais.

Segundo análises, a elevação de produtividade por meio da reforma econômica permitirá ao país duplicar seu PIB e criar até 6 milhões de novos empregos até 2030. Com as reformas, Riad pretende elevar sua renda não petroleira, de US$ 43,6 bilhões em 2015 para US$ 267 bilhões em 2030.

Área de Defesa no Plano Visão 2030 ("Make in Arabia")
A Arábia Saudita é um dos principais compradores de armas do mundo. Foi o maior importador de armamento entre 2010 e 2014, com 5% das aquisições mundiais. O país possui as forças armadas mais poderosas do Golfo Pérsico, com cerca de 478 mil combatentes na ativa (de um total de 688 mil integrantes), compreendendo o exército, a força aérea e a marinha de guerra, além de unidades de defesa antiaérea, brigadas da Guarda Nacional e paramilitares.  

O país gasta 25% do seu orçamento, ou pelo menos US$ 88 bilhões, com suas forças armadas. Em 2019, operou o terceiro maior orçamento militar do mundo, caindo para o nono lugar em 2020, efeito colateral da queda brutal nos preços do petróleo durante a pandemia.

O príncipe Salman, que também é ministro da Defesa, anunciou que o país buscará desenvolver sua própria indústria bélica como parte do plano de reformas.O primeiro passo nesse sentido foi associar a assinatura de contratos no exterior ao desenvolvimento da indústria local.

"A partir de agora, o Ministério de Defesa, assim como outros órgãos militares e de segurança, só fecharão contratos com provedores estrangeiros se estes estiverem vinculados à indústria local", disse Salman. "Vamos reestruturar vários de nossos contratos militares para atá-los à indústria saudita."

Em fevereiro de 2021, o governador da GAMI - Autoridade Geral para Indústrias Militares saudita, Ahmed bin Abdulaziz Al-Ohali, afirmou que o país iria investir mais de US$ 20 bilhões em sua indústria de defesa local pelos próximos 10 anos. O objetivo é desenvolver e fabricar mais armas e sistemas militares domesticamente, com o objetivo de gastar 50% do orçamento militar localmente até 2030.

Assim, nessa sensível área, onde quase tudo era importado, principalmente dos Estados Unidos, o foco dos sauditas passou a ser o desenvolvimento da sua indústria de defesa, com a produção de armamentos, equipamentos e aeronaves militares, para atingir a autossuficiência na área e aumentar as exportações para os seus parceiros regionais, haja vista que a presença de indústrias estrangeiras permite a obtenção de know-how e a transferência de tecnologia para a economia local.

Nesse campo, o Plano Visão 2030 muito se assemelha às iniciativas Make in India (Fazer na Índia) e Atma Nirbhar Bharat (Índia Autossuficiente), ambas do governo da Índia.

Localização estratégica reúne Arábia Saudita, Índia e Filipinas na importante e promissora região do Oriente Médio e  Indo-Pacífico

Taurus na Arábia Saudita
Historicamente, as exportações respondem por quase 80% do faturamento da Taurus Armas. A empresa exporta para mais de 100 países, é a líder mundial na fabricação de revólveres e uma das maiores produtoras de pistolas do mundo, além de ser a primeira marca mais importada e quarta mais vendida no exigente mercado norte americano, o maior do mundo para armamento leve.

Nos últimos dois anos, a Taurus ganhou participação no mercado norte-americano e se firmou como a empresa líder mundial no setor em termos de volume de vendas, lucro bruto (e sua margem), Ebitda (e sua margem) e, também, destacou-se finalizando o ano de 2022 com um caixa recorde em sua história.



Trecho da live com a SaraInvest


Em virtude do sucesso que suas armas táticas (pistolas, carabinas, submetralhadoras e fuzis destinados aos mercados militar e de segurança) estão alcançando no Brasil e no mundo, a Taurus está lançando a plataforma de pistolas GX4 com grafeno, as pistolas TS9 e TS9c também com grafeno e uma nova gama de fuzis em vários calibres e tamanhos de cano, bem como uma inovadora submetralhadora compacta.

Além do revolucionário grafeno, a empresa brasileira está investindo fortemente em outras tecnologias inovadoras, como nióbio (na qual também é pioneira no mundo), DLC e polímero de fibras longas, tudo com a finalidade de tornar suas armas mais resistentes, duráveis e leves, deixando-as também praticamente imunes à corrosão.

Com isso, a Taurus pretende ocupar importantes nichos mercadológicos mundiais, pois pode oferecer um portfólio completo, adequado, tecnológico e com custo/benefício imbatível, capaz de atender as mais diversas necessidades das forças armadas e de segurança do planeta, além dos civis aficionados por esses tipos de armamento.

HE Khalid A. Al-Falih, Ministro do Investimento da Arábia Saudita, visita o estando da CBC & Taurus durante a 1ª edição do World Defense Show em Mar/22 em Riyadh, na Arábia Saudita

O CEO Global da Taurus, Salesio Nuhs, tem sido categórico ao afirmar, nas diversas lives e entrevistas de que participa, que o planejamento de cinco anos da Taurus visa torná-la a maior, melhor, mais sólida e mais rentável empresa de armamento leve do mundo. Para tanto - além de estar modernizando e ampliando em 50% sua fábrica no Brasil, expandindo a produção na unidade americana e se preparando para produzir na Índia - a multinacional brasileira está avançando a passos largos no mercado internacional, visando, principalmente, países com expressivo crescimento.

Assim, a empresa pratica a estratégica diversificação geográfica de suas vendas e passa a ter uma posição de proeminência em mercados com grande potencial, onde seu diferencial é oferecer soluções completas e de alta tecnologia. Portanto, Sul e Sudeste Asiático, África e Oriente Médio passaram a receber os esforços da área internacional da empresa, haja vista que são as regiões que melhor se enquadram em sua estratégia global.

1ª edição do World Defense Show - Mar/22 em Riyadh, Saudi Arabia

Dentro desse cenário, é possível entender a joint venture com o poderoso grupo Jindal na Índia (mercado capitalista com o maior potencial mundial de vendas de armas), bem como as duas vitórias históricas para o fornecimento do fuzil T4 para o Exército das Filipinas e de mais de 30 mil pistolas TS9 para a Polícia Nacional deste país, além de outras importantes vendas para 40 países, estas somente no 4T22.

Por fim, as considerações acima possibilitam entender também o estabelecimento de uma subsidiária na Arábia Saudita e o interesse da Taurus na região, haja vista que o mais rico, poderoso e estratégico país do Oriente Médio passou a desenvolver uma política industrial de defesa bastante similar à da Índia e em consonância com o planejamento estratégico da empresa.

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