Pesquisar este portal

06 novembro, 2026

Embraer oferece à Índia a primeira linha do C-390 fora do Brasil e mira 500 aviões na Ásia

Em entrevista ao Hindustan Times, o CEO da Embraer Defesa & Segurança afirma que a empresa não pretende apenas vender 60 aeronaves; prazo para as propostas da concorrência indiana, estimada em US$ 10 bilhões, deve terminar em 13 de janeiro



*LRCA Defense Consulting - 06/11/2026 -  08h20

A Embraer pretende transformar a concorrência da Força Aérea Indiana (IAF) para 60 aeronaves de transporte militar médio (MTA) em ponto de partida para um polo de produção e exportação do C-390 Millennium na Ásia. Em entrevista publicada nesta sexta-feira (6) pelo jornal Hindustan Times, Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, afirmou que a empresa e o grupo Mahindra estudam instalar em Nagpur, no estado de Maharashtra, a primeira linha de montagem final do C-390 fora do Brasil, caso vençam a disputa.

“Não estamos aqui apenas para vender 60 aviões e voltar para o Brasil”, disse o executivo. Segundo ele, a Ásia concentra de 40% a 45% do mercado potencial para aeronaves dessa categoria, o que representaria demanda de cerca de 500 unidades nos próximos 20 anos. Trata-se de estimativa da própria Embraer, e não de encomendas firmes.

Prazo em janeiro e produção obrigatória na Índia 
De acordo com fontes ouvidas pelo jornal indiano, as propostas deverão ser entregues até 13 de janeiro de 2027. A data ainda não foi divulgada oficialmente pelo Ministério da Defesa da Índia.

O pedido de propostas (RFP) foi emitido em 12 de agosto e envolve contrato estimado em ₹1 lakh crore, cerca de US$ 10 bilhões. O programa prevê 60 aeronaves, com cláusula de opção para unidades adicionais, destinadas a substituir os An-32 de origem soviética e, possivelmente, parte dos Il-76.

As 12 primeiras aeronaves seriam entregues prontas, e as 48 restantes, fabricadas na Índia. Segundo o Hindustan Times, o vencedor terá de instalar uma linha de produção no país asiático. As mesmas fontes indicam conteúdo local mínimo de 40% e execução contratual em até 11 anos. Na abertura do processo, o portal ThePrint informou que o índice de nacionalização subiria de forma faseada até 60%, enquanto outros veículos indianos mencionaram 60% desde o início. A redação final dessas exigências só poderá ser confirmada com acesso à íntegra da documentação.

A IAF busca uma aeronave com capacidade de carga entre 18 e 30 toneladas, apta a transportar veículos como o carro de combate leve indiano Zorawar, de 25 toneladas. O C-390 leva até 26 toneladas e foi projetado para operar em pistas temporárias ou não pavimentadas.

Cinco grupos indianos na disputa 
A RFP foi enviada a cinco empresas indianas, que deverão concorrer associadas a fabricantes estrangeiros: Mahindra Group, Tata Advanced Systems, Adani Defence & Aerospace, Hindustan Aeronautics Limited (HAL) e Reliance Defence. A Mahindra apresenta o C-390 com a Embraer, parceria iniciada com um memorando de entendimento em fevereiro de 2024 e ampliada por um acordo de cooperação estratégica em outubro de 2025. A Tata concorre com a Lockheed Martin, que oferece o C-130J Super Hercules.

A Lockheed Martin parte com a vantagem de quem já está dentro: a IAF opera 12 C-130J. A HAL, segundo o ThePrint, retomou a parceria com a Rússia, enquanto Adani e Reliance não tiveram parceiros divulgados. O Airbus A400M chegou a ser citado entre os candidatos, mas, com capacidade em torno de 37 toneladas, supera a faixa de peso especificada. Há ainda um cruzamento de interesses: aliada da Mahindra no setor militar, a Embraer mantém parceria com o grupo Adani na aviação civil.

O ecossistema planejado para Nagpur 
Em 1º de outubro, Embraer e Mahindra anunciaram ter identificado Nagpur como local para a futura linha de montagem final, condicionando o projeto à seleção do C-390 e à encomenda da IAF. O governo de Maharashtra já destinou o terreno. Na entrevista, Bosco detalhou o escopo pretendido: hangar, linha de montagem altamente automatizada, instalações de manutenção, reparo e revisão (MRO), fabricação local de estruturas, aviônicos, componentes e peças de reposição, além de integração de sistemas e desenvolvimento de fornecedores.

A intenção de fazer da Índia um polo regional do C-390 acompanha a parceria desde 2024, e os planos de MRO foram anunciados em fevereiro de 2026. A novidade, agora, é a dimensão atribuída ao mercado asiático que a empresa pretende atender a partir do território indiano. Atualmente, o C-390 é montado apenas em Gavião Peixoto (SP), unidade que deverá alcançar capacidade de cerca de 10 aeronaves por ano até 2030. Nagpur já abriga a Dassault Reliance Aerospace, joint venture que anunciou uma linha de montagem do jato executivo Falcon 2000.

Apoio diplomático e o efeito Grécia 
A candidatura conta com respaldo do governo brasileiro, que voltou a defender o C-390 à margem da 18ª Cúpula do Brics, realizada em Nova Délhi em setembro.

No campo comercial, a Grécia assinou em 2 de novembro contrato para três KC-390, a versão com capacidade de reabastecimento em voo, com opção para mais três, por meio de acordo governamental com Portugal. O negócio, de pouco menos de 590 milhões de euros antes de impostos, faz da Grécia o sétimo país europeu a escolher a aeronave; a primeira entrega está prevista para 2027. O modelo adotado por Atenas dialoga com a exigência indiana: a Hellenic Aerospace Industry (HAI) deverá responder pela manutenção e pelo suporte de longo prazo da frota.

Em análise publicada nesta sexta-feira, o portal Defence.in avaliou que a ampliação da base de usuários reforça a percepção de maturidade do programa, mas que a industrialização local continuará decisiva para a competitividade da proposta da Embraer e da Mahindra.

O que ainda falta definir 
Após a entrega das propostas, o processo prevê avaliação técnica, ensaios das aeronaves e negociação comercial antes da escolha final. Permanecem em aberto a metodologia de aferição do conteúdo nacional, a eventual progressão dos percentuais e a distribuição das entregas ao longo dos 11 anos.

Para a Embraer, uma vitória permitiria vincular a demanda indiana à expansão internacional de sua cadeia produtiva. Para a Índia, a escolha deverá conciliar desempenho operacional, custo, autonomia industrial e capacidade de sustentar a frota por décadas. Até a decisão de Nova Délhi, a fábrica de Nagpur e as vendas regionais projetadas continuam sendo possibilidades.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário será submetido ao Administrador. Não serão publicados comentários ofensivos ou que visem desabonar a imagem das empresas (críticas destrutivas).

Postagem em destaque