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28 outubro, 2026

A experiência portuguesa com o KC-390: Coronel Paulo Martins fala sobre a construção de uma comunidade europeia de mobilidade aérea

Com mais de 4.400 horas de voo acumuladas desde a introdução do KC-390 Millennium, a Força Aérea Portuguesa está a adquirir uma valiosa experiência operacional com a sua nova aeronave de transporte. Na Conferência Future Air Force 2026, em Praga, o Coronel Paulo “HULK” Martins apresentou um relato esclarecedor sobre a transição de Portugal para o KC-390 e explicou por que razão o desenvolvimento de uma comunidade multinacional de operadores poderá tornar-se um fator importante no reforço da mobilidade aérea militar europeia.


*ACE - Aerospace Central Europe, por Kateřina Urbanová - 28/10/2026

A introdução de uma nova aeronave militar é sempre um empreendimento significativo, especialmente quando envolve a substituição de uma plataforma que serviu por décadas e o estabelecimento de um ambiente operacional e de treinamento completamente novo. O desempenho, a carga útil e o alcance da aeronave estão naturalmente entre as primeiras características a atrair atenção, mas representam apenas parte de um quadro muito maior. Em última análise, o que importa é o quão bem uma força aérea consegue traduzir as capacidades de suas aeronaves em um desempenho operacional confiável e sustentável.

Essa foi uma das mensagens centrais transmitidas pelo Coronel Paulo “HULK” Martins, Chefe da Divisão de Operações da Força Aérea Portuguesa, durante a Conferência do Futuro da Força Aérea (FAFC), realizada em Praga de 20 a 22 de outubro de 2026. Sua apresentação, intitulada " Construindo uma Comunidade Multinacional KC-390: Interoperabilidade, Treinamento e Prontidão Operacional ", ofereceu uma perspectiva particularmente interessante sobre a experiência de Portugal com o Embraer KC-390 Millennium e as oportunidades que surgem com a introdução da mesma aeronave em outras nações europeias em suas frotas.

Em vez de se concentrar exclusivamente nas características técnicas do KC-390, Martins abordou o assunto de uma perspectiva operacional. Sua apresentação tratou dos desafios práticos da introdução de um novo tipo de aeronave, da importância do treinamento e da manutenção, e do crescente potencial de cooperação entre as forças aéreas nacionais que operam uma plataforma comum. Essa abordagem tornou a apresentação relevante muito além do próprio programa KC-390, abordando algumas das questões fundamentais que a aviação militar europeia enfrenta hoje.

Três anos de experiência operacional
Portugal tornou-se o primeiro operador a introduzir o KC-390 em serviço operacional em outubro de 2023. A aeronave representa um passo substancial na modernização das capacidades de transporte da Força Aérea Portuguesa, que historicamente dependiam de plataformas como o Lockheed Martin C-130H Hercules e o Airbus C-295M. A transição para uma aeronave de transporte militar a jato moderna trouxe novas capacidades, mas também exigiu o desenvolvimento gradual de um quadro operacional capaz de suportar a sua utilização eficaz.

Como Martins explicou em Praga, o programa progrediu através de uma série de marcos importantes. O primeiro KC-390 entrou em serviço em outubro de 2023, com o período inicial já incluindo capacidade de evacuação médica. A chegada da segunda aeronave em 2024 permitiu à Força Aérea Portuguesa expandir as suas atividades, incluindo missões de lançamento aéreo e logística. Durante 2025, a terceira aeronave juntou-se à frota, enquanto a introdução do Simulador de Missão de Voo Completo marcou outro passo importante no estabelecimento da infraestrutura de treino necessária para a nova plataforma.

O programa continuou a desenvolver-se em 2026 com a chegada de uma quarta aeronave e o aprofundamento dos trabalhos em capacidades de reabastecimento em voo e testes e avaliação operacional de guerra eletrónica. Em outubro de 2026, a Força Aérea Portuguesa reportou que a sua frota de KC-390 tinha acumulado mais de 4.400 horas de voo. Este número é significativo não só como indicador de utilização das aeronaves, mas também porque reflete três anos de experiência operacional, formação, desenvolvimento de capacidades e a expansão gradual das missões desempenhadas pela frota.

Para outras nações que se preparam para introduzir o KC-390, a experiência de Portugal oferece uma oportunidade de aprender com um operador que já percorreu várias etapas do processo de transição. O valor dessas lições reside não só na compreensão da aeronave, mas também no reconhecimento dos requisitos organizacionais, técnicos e operacionais associados à entrada em serviço de uma nova frota.

A prontidão operacional vai além da disponibilidade de aeronaves
Um dos pontos fortes da apresentação de Martins foi a sua ênfase na prontidão operacional como um sistema abrangente, e não como uma simples medida de disponibilidade de aeronaves. A Força Aérea Portuguesa identifica cinco componentes interligados que devem funcionar em conjunto: aeronaves, pessoal, formação, apoio logístico e procedimentos. Cada um contribui para a capacidade de gerar prontidão operacional, e as falhas em qualquer um deles podem afetar a eficácia de todo o sistema.

A aeronave e seus sistemas de missão fornecem a base técnica, mas pessoal qualificado é essencial para disponibilizar essas capacidades. O treinamento garante que as tripulações, o pessoal de manutenção e os instrutores possuam as competências necessárias, enquanto o apoio logístico fornece a manutenção, o suporte logístico e os recursos necessários para a continuidade das operações. Igualmente importantes são os procedimentos que regem a preparação, a coordenação e a execução das missões, principalmente quando as operações envolvem outras organizações militares ou parceiros internacionais.

Isso pode parecer um princípio óbvio, mas é uma distinção importante em um ambiente onde as discussões sobre programas de aeronaves militares frequentemente se concentram em entregas, especificações técnicas e na introdução de novos equipamentos. Uma nova aeronave não representa automaticamente uma capacidade operacional totalmente desenvolvida. Essa capacidade deve ser estabelecida progressivamente, apoiada por pessoal, infraestrutura, experiência e processos confiáveis.

A transição de Portugal para o KC-390 ilustra precisamente este ponto. A introdução da aeronave foi acompanhada pelo desenvolvimento de programas de formação, qualificações de missão, competências de manutenção e procedimentos operacionais. Com a entrada em serviço de aeronaves adicionais, a Força Aérea Portuguesa pôde expandir a sua experiência e desenvolver progressivamente novas capacidades de missão. É esta combinação de aeronaves e sistemas de apoio que, em última análise, determina o valor do investimento.

Treinamento: a base para uma transição bem-sucedida
O treinamento foi, naturalmente, um dos temas centrais da apresentação de Martins, e é também uma área em que a experiência portuguesa pode ser particularmente valiosa para outros operadores europeus. O KC-390 exige uma abordagem estruturada para a preparação de diversos grupos de pessoal, cada um com suas próprias responsabilidades e requisitos de qualificação.

Para os pilotos, o percurso de formação inclui aulas teóricas, sistemas e procedimentos da aeronave, instrução em simulador, treinamento básico de voo e, posteriormente, qualificações operacionais mais avançadas. Os mestres de carga necessitam de instrução especializada em manuseio de carga, sistemas da aeronave e operações de rampa, enquanto o pessoal de manutenção deve obter as qualificações técnicas e a experiência prática adequadas para dar suporte à aeronave. O desenvolvimento de instrutores qualificados é outra parte essencial do processo, garantindo que os padrões de treinamento possam ser mantidos à medida que a frota e suas responsabilidades operacionais se expandem.

Um marco importante foi a introdução do Simulador de Missão de Voo Completo do KC-390 em 2025. O treinamento sintético proporciona a oportunidade de praticar procedimentos normais, cenários operacionais complexos e situações de emergência em um ambiente controlado, reduzindo a necessidade de reproduzir todos os requisitos de treinamento na própria aeronave. Ao mesmo tempo, o treinamento em simulador deve permanecer intimamente ligado às operações de voo reais e às tarefas operacionais que se espera que as tripulações executem.

Martins também apresentou o conceito de um Centro de Excelência para Treinamento do KC-390, que combina treinamento simulado e atividades reais em aeronaves dentro de uma estrutura de treinamento mais ampla. O conceito oferece uma base potencial para a cooperação entre operadores, permitindo que eles se beneficiem da infraestrutura existente, da experiência compartilhada e de métodos de treinamento cada vez mais harmonizados.

Essa cooperação torna-se particularmente relevante quando várias frotas nacionais relativamente pequenas operam o mesmo tipo de aeronave. Desenvolver e manter cada capacidade de treinamento especializado de forma independente pode exigir recursos consideráveis. Quando os requisitos operacionais e as regulamentações nacionais o permitem, a cooperação oferece oportunidades para usar esses recursos de forma mais eficiente, ao mesmo tempo que fortalece os padrões comuns e a interoperabilidade prática.

A abordagem portuguesa reconhece que a formação não é apenas uma etapa necessária antes do serviço operacional. É um processo contínuo que deve evoluir juntamente com a aeronave, os seus sistemas de missão e as exigências impostas às suas tripulações.

Aproveitando ao máximo uma aeronave multifuncional
O KC-390 Millennium foi desenvolvido como uma aeronave de transporte militar multifuncional moderna, capaz de desempenhar uma ampla gama de tarefas operacionais. Estas incluem transporte aéreo tático, transporte de pessoal e equipamento, operações de lançamento aéreo, evacuação médica, missões humanitárias e reabastecimento em voo. Sua versatilidade é uma das principais características da plataforma, mas a apresentação de Martins fez uma distinção importante entre possuir uma capacidade técnica e estar operacionalmente pronto para empregá-la.

Cada tipo de missão exige treinamento, qualificações, procedimentos e estruturas de apoio específicos. Uma força aérea pode operar uma aeronave tecnicamente capaz de realizar reabastecimento aéreo, por exemplo, mas isso não significa automaticamente que essa capacidade possa ser empregada em toda a gama de cenários operacionais potenciais. O mesmo princípio se aplica ao transporte tático, missões de lançamento aéreo e outras tarefas especializadas.

Martins, portanto, distinguiu entre qualificação e prontidão operacional. A qualificação demonstra que o pessoal ou as unidades atingiram padrões definidos, enquanto a prontidão operacional exige a capacidade mais ampla de executar uma missão de forma confiável, com as aeronaves, o pessoal, o apoio e os procedimentos necessários disponíveis.

Essa distinção é particularmente importante no contexto de operações multinacionais. Mesmo quando os países participantes operam aeronaves idênticas, as diferenças nos procedimentos nacionais, nos padrões de treinamento e nas qualificações operacionais podem influenciar o grau de cooperação entre eles. Consequentemente, o desenvolvimento de procedimentos comuns ou compatíveis pode ser tão valioso quanto a padronização técnica das próprias aeronaves.

Para a crescente comunidade do KC-390, o desafio será transformar a versatilidade da aeronave em uma vantagem operacional prática, tanto em nível nacional quanto por meio da cooperação com outros usuários.

Reabastecimento aéreo e o desenvolvimento de novas capacidades
Uma das áreas em que Portugal tem continuado a desenvolver as capacidades do seu KC-390 é o reabastecimento aéreo. A capacidade da aeronave para realizar missões de reabastecimento em voo acrescenta uma dimensão importante ao seu papel operacional, particularmente para as forças aéreas que procuram maior flexibilidade nas suas frotas de transporte.

Durante sua apresentação, Martins descreveu as atividades em andamento envolvendo configurações de reabastecimento em voo com cestos de reabastecimento em alta e baixa velocidade, bem como o desenvolvimento de autorizações para aeronaves receptoras. Essas atividades exigem uma coordenação cuidadosa, visto que o reabastecimento aéreo envolve mais do que a compatibilidade física da aeronave e do equipamento. Características de voo, limitações operacionais, procedimentos, requisitos de segurança e qualificações da tripulação devem ser considerados antes que uma aeronave receptora possa ser autorizada para determinadas operações.

A abordagem de Portugal inclui a cooperação com parceiros interessados ​​para desenvolver autorizações de receptores dentro de âmbitos e limitações operacionais definidos. Este é mais um exemplo de uma área em que a colaboração internacional pode ser benéfica, especialmente à medida que mais forças aéreas europeias introduzem o KC-390.

O desenvolvimento de procedimentos compatíveis e a troca de experiências podem contribuir para futuras operações multinacionais, embora cada força aérea deva continuar a cumprir seus próprios requisitos operacionais e de certificação. Trata-se, portanto, de um processo que depende de uma avaliação técnica criteriosa, testes práticos e desenvolvimento progressivo de capacidades, e não simplesmente da introdução de equipamentos adicionais.

A importância mais ampla reside no fato de que a comunidade KC-390 tem o potencial de desenvolver cooperação em diversas áreas de missão. A aviação de transporte continua sendo sua base, mas o reabastecimento aéreo e outras capacidades especializadas oferecem oportunidades adicionais para fortalecer a flexibilidade operacional das forças aéreas participantes.

Exercícios Internacionais e Testes Operacionais
A experiência operacional não pode ser desenvolvida apenas por meio de infraestrutura de treinamento. A participação em exercícios multinacionais proporciona uma oportunidade essencial para testar procedimentos, desenvolver competências táticas e adquirir experiência operando ao lado de outras organizações militares.

Martins destacou diversas atividades internacionais nas quais o programa português KC-390 esteve envolvido, incluindo a CRUZEX no Brasil, o NATO Tiger Meet, o Curso do Programa Europeu de Transporte Aéreo Tático, o Falcon Leap na Holanda e atividades realizadas nos Estados Unidos.

Essas atividades expõem as tripulações e o pessoal de apoio a diferentes ambientes operacionais, requisitos de missão e procedimentos multinacionais. Também proporcionam oportunidades para testes e avaliações operacionais, operações com paraquedas e o desenvolvimento progressivo da compatibilidade com outras aeronaves e sistemas.

Para a mobilidade aérea militar, esses exercícios têm particular importância. Aeronaves de transporte operam frequentemente em apoio a missões conjuntas ou multinacionais mais amplas, onde a coordenação com outras unidades pode ser crucial para o sucesso. A experiência adquirida por meio de exercícios ajuda a identificar diferenças de procedimento, aprimorar a comunicação e estabelecer as relações de trabalho necessárias para uma cooperação eficaz.

Uma plataforma de aeronave comum pode certamente simplificar alguns aspectos desse processo, mas não elimina a necessidade de treinamento prático. A interoperabilidade deve ser demonstrada e mantida por meio da experiência, principalmente quando as nações participantes têm históricos e requisitos operacionais diferentes.

A crescente participação de Portugal em atividades internacionais é, portanto, relevante não só para o desenvolvimento da sua própria frota, mas também para a comunidade mais ampla de operadores do KC-390, que poderão beneficiar destas lições nos próximos anos.

Construindo uma comunidade europeia para o KC-390
O desenvolvimento de uma comunidade multinacional de KC-390 foi o tema central da apresentação de Martins e talvez a sua dimensão estratégica mais interessante. Com o aumento do número de operadores europeus, Portugal vislumbra oportunidades para estabelecer uma cooperação mais estreita em áreas onde as forças aéreas nacionais enfrentam desafios e requisitos comparáveis.

Segundo a apresentação, Portugal já coopera com os Países Baixos, a Hungria e a Áustria em atividades relacionadas com o treino, estando ainda em discussão outros acordos. A cooperação com a Suécia na área da guerra eletrónica demonstra também que o âmbito destas relações se estende para além da introdução inicial das aeronaves.

Esses desenvolvimentos são particularmente relevantes porque as forças aéreas europeias frequentemente operam frotas de transporte relativamente pequenas sob acordos nacionais distintos, mesmo quando utilizam aeronaves semelhantes. Um grupo crescente de operadores do KC-390 cria oportunidades para a troca de experiências operacionais, a coordenação de atividades de treinamento selecionadas, o desenvolvimento de procedimentos compatíveis e, potencialmente, a redução da duplicação desnecessária na infraestrutura de apoio.

As vantagens não se limitam à eficiência. A experiência adquirida por um operador em uma determinada área de missão pode ser útil para outros que se preparam para introduzir a mesma capacidade. Lições aprendidas com treinamento, manutenção, testes operacionais e exercícios multinacionais podem contribuir para o desenvolvimento de procedimentos mais consolidados em toda a comunidade.

Ao mesmo tempo, a abordagem de Martins reconhece a importância das responsabilidades nacionais e dos requisitos operacionais. A cooperação entre operadores não implica que todas as forças aéreas participantes devam adotar procedimentos idênticos ou desenvolver exatamente as mesmas capacidades. Os requisitos nacionais, os recursos disponíveis e as prioridades operacionais continuarão a influenciar a forma como as frotas individuais são empregadas.

O objetivo, portanto, não é criar uma única organização multinacional responsável pelas operações do KC-390, mas sim desenvolver uma comunidade na qual a cooperação fortaleça as capacidades de seus membros. Trata-se de uma abordagem prática baseada em interesses compartilhados, experiências comuns e nas oportunidades criadas pela operação do mesmo tipo de aeronave.

Da aeronave comum à capacidade coletiva
A importância dessa cooperação torna-se mais evidente quando analisada no contexto mais amplo da aviação de defesa europeia. Vários países estão modernizando suas frotas de transporte, ao mesmo tempo que enfrentam demandas crescentes por prontidão operacional, capacidade de implantação e interoperabilidade.

A aquisição de um tipo de aeronave comum pode fornecer uma base técnica útil, mas os verdadeiros benefícios da cooperação multinacional desenvolvem-se ao longo do tempo. Treinamento compartilhado, procedimentos compatíveis, exercícios práticos e a troca de experiências operacionais contribuem para tornar as capacidades nacionais mais eficazes quando empregadas em conjunto.

A apresentação de Martins descreveu essa progressão da padronização da plataforma em direção à prontidão coletiva. A aeronave em si representa apenas o ponto de partida. O desenvolvimento subsequente de treinamento, procedimentos operacionais e entendimento mútuo determina a eficácia da cooperação entre os operadores.

Isso é particularmente relevante para a mobilidade aérea europeia, onde aeronaves de transporte são necessárias para apoiar operações que frequentemente se estendem além das fronteiras nacionais. Seja transportando equipamentos militares, apoiando deslocamentos, realizando evacuações médicas ou participando de missões humanitárias, a capacidade de cooperar eficazmente com parceiros internacionais representa uma vantagem operacional substancial.

A crescente comunidade do KC-390 tem, portanto, a oportunidade de construir interoperabilidade desde um estágio inicial, em vez de tentar estabelecê-la somente depois que as capacidades nacionais tiverem amadurecido de forma independente.

A experiência de Portugal coloca o país numa posição vantajosa neste processo. Tendo introduzido a aeronave em 2023 e acumulado mais de 4.400 horas de voo até outubro de 2026, a Força Aérea Portuguesa pode contribuir com lições práticas da sua transição, atividades de formação e desenvolvimento contínuo das capacidades de missão.

Para outros operadores, o acesso a essa experiência pode contribuir para um planejamento mais eficaz e reduzir algumas das incertezas associadas à introdução de um novo tipo de aeronave.

Uma perspectiva interessante sobre o futuro da mobilidade aérea europeia

O que tornou a contribuição do Coronel Martins na FAFC 2026 particularmente valiosa foi a combinação de experiência operacional prática e uma visão realista para a cooperação futura. A apresentação não tentou retratar a aquisição de uma aeronave moderna como a solução para todos os desafios da mobilidade aérea militar. Em vez disso, demonstrou o quanto de trabalho é necessário após a chegada da primeira aeronave e a importância da organização de apoio para o sucesso de todo o programa.

A experiência da Força Aérea Portuguesa com o KC-390 ainda está em desenvolvimento. Novas capacidades de missão estão sendo introduzidas, a experiência operacional continua a acumular-se e a cooperação com outros operadores europeus está gradualmente a ganhar forma. Estes são processos que requerem tempo, recursos e um compromisso contínuo, mas que também oferecem oportunidades que vão além das necessidades nacionais de Portugal.

Para a aviação militar europeia, o surgimento de uma comunidade construída em torno de uma aeronave de transporte comum é um desenvolvimento encorajador. Proporciona uma oportunidade para fortalecer a interoperabilidade por meio da cooperação prática e para fazer melhor uso da experiência e dos recursos disponíveis nas nações participantes.

A concretização plena desse potencial dependerá da disposição de cada operador em continuar trabalhando em conjunto, compartilhar lições relevantes e desenvolver abordagens comuns que proporcionem um benefício operacional real.

O KC-390 Millennium é, sem dúvida, um importante programa de modernização para Portugal e para a sua crescente base de clientes internacionais. No entanto, a perspetiva apresentada pelo Coronel Paulo Martins em Praga sugeriu que a sua importância a longo prazo para a mobilidade aérea europeia poderá ser determinada tanto pelas relações que se desenvolverem entre os seus operadores como pelas capacidades da própria aeronave.

Para uma comunidade de aviação militar cada vez mais focada em prontidão, sustentabilidade e cooperação, essa é uma mensagem que vale a pena levar da Conferência do Futuro da Força Aérea deste ano. 

17 fevereiro, 2026

Europa busca soluções contra ameaça de drones: Super Tucano brasileiro desponta como alternativa viável

Comissão Europeia lança plano abrangente enquanto Polônia avalia aeronave brasileira para missões anti-drone 


*LRCA Defense Consulting - 17/02/2026 

A União Europeia apresentou na última semana um plano estratégico para enfrentar a crescente ameaça de drones hostis, em meio a um contexto marcado por violações do espaço aéreo, perturbações em aeroportos e riscos para infraestruturas críticas. A iniciativa, descrita pela Comissão Europeia como um modelo ambicioso de cooperação entre Estados-membros, surge paralelamente ao interesse de países como a Polônia em soluções práticas e economicamente viáveis, incluindo a possível aquisição do A-29N Super Tucano brasileiro.

Um plano de quatro pilares
O plano da Comissão Europeia assenta em quatro prioridades fundamentais: reforçar a preparação tecnológica e industrial; melhorar a detecção através de Inteligência Artificial e redes 5G; coordenar respostas com sistemas anti-drone e equipes de intervenção rápida; e fortalecer a prontidão de defesa com maior inovação e cooperação industrial.

Além da vertente de segurança, Bruxelas pretende impulsionar um mercado europeu competitivo de drones, promovendo inovação, crescimento e criação de emprego. O executivo comunitário iniciará agora discussões com os Estados-membros, a indústria e o Parlamento Europeu para concretizar as medidas propostas.

Embora o documento da Comissão não especifique detalhes sobre aquisição de aeronaves tripuladas para missões anti-drone, a lacuna está sendo preenchida por iniciativas nacionais que buscam complementar os sistemas tradicionais de defesa aérea.

Polônia na linha de frente da ameaça
A Polônia, que relatou a invasão de cerca de 20 drones russos em seu espaço aéreo em setembro de 2025, tornando-se um dos países mais expostos à ameaça, está avaliando soluções práticas para enfrentar o problema. O Major-General Ireneusz Nowak, Comandante de Grupo da Força Aérea Polonesa, confirmou ao portal especializado Defence24 que o país testará o A-29N Super Tucano no início de 2026.

"Com certeza iremos testar o Super Tucano e examiná-lo mais de perto no início de 2026", afirmou Nowak, acrescentando que a Força Aérea está considerando o uso de plataformas aéreas para combater alvos lentos e de baixa altitude, como drones kamikazes iranianos Shahed 136 e Geran-2, amplamente utilizados no conflito ucraniano.

Em meados de janeiro de 2026, uma delegação militar polonesa liderada pelo mesmo Major-General Ireneusz Nowak visitou as instalações da Embraer em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo. Durante a visita, pilotos poloneses realizaram voos de familiarização com o A-29, avaliando especificamente suas capacidades contra drones do tipo Shahed, os mesmos UAVs de ataque que a Rússia tem empregado massivamente contra a Ucrânia. 

A Polônia não está sozinha nesta busca. Países como Romênia, Estônia, Alemanha e Dinamarca também reforçaram medidas legais e militares para lidar com drones russos, incluindo autorizações para abatimento em tempos de paz e investimentos em novos sistemas de detecção e neutralização.

Super Tucano: uma solução brasileira para um problema europeu
O A-29 Super Tucano, aeronave de ataque leve desenvolvida pela Embraer, surge como uma alternativa economicamente viável para o dilema europeu. A lógica é simples: usar mísseis Patriot, que custam milhões de dólares por disparo, ou empregar caças F-16 e F-35 contra drones que custam poucos milhares de dólares cria um desequilíbrio financeiro insustentável.

Em novembro de 2025, a Embraer anunciou uma versão adaptada do Super Tucano especificamente para combate a Sistemas Aéreos Não Tripulados (SANTs). Equipada com sensores eletro-ópticos e infravermelhos, enlaces de dados para designação de alvos e armamentos como foguetes guiados a laser e metralhadoras calibre .50, a aeronave pode identificar e neutralizar drones com precisão.

No entanto, esta Consultoria acredita que, até meados de 2026, a Embraer deva anunciar novidades significativas nas capacidades anti-drone do Super Tucano. 

"Continuamos a expandir as capacidades do A-29 para cumprir com as missões mais recentes enfrentadas por muitas nações ao redor do mundo", declarou João Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança. "Os desafios contínuos na guerra moderna e os conflitos recentes em todo o mundo demonstraram a necessidade urgente de soluções para combater SANTs."

Vantagens operacionais e econômicas
O Super Tucano apresenta características que o tornam particularmente adequado para missões anti-drone na Europa. Com autonomia de até 8,4 horas de voo, pode realizar patrulhas prolongadas sobre vastas áreas. Sua capacidade de operar a partir de pistas curtas e não pavimentadas, com pouco apoio logístico, é considerada relevante em cenários de defesa territorial distribuída.

O custo operacional é outro fator decisivo. Enquanto uma hora de voo com um F-16 custa cerca de US$ 22.000 e um F-35 ultrapassa US$ 44.000, o Super Tucano opera por apenas US$ 1.000 a US$ 1.500 por hora. O custo de aquisição, estimado entre US$ 15 a 18 milhões por unidade (incluindo armamento e suporte logístico), é apenas uma fração do valor de um caça supersônico.

Portugal como porta de entrada europeia
A estratégia da Embraer para o mercado europeu passa por Portugal, que se tornou, em dezembro de 2025, o primeiro operador europeu do Super Tucano ao receber os pioneiros A-29N, versão adaptada aos requisitos e padrões da OTAN. O país assinou com a Embraer uma carta de interesse para avaliar a instalação de uma linha de montagem final do avião em território português.

A OGMA, empresa controlada majoritariamente pela Embraer em Portugal, ou mesmo a nova unidade em Beja, podem se tornar o centro de montagem do Super Tucano para o mercado europeu. 

A fabricante brasileira firmou acordos de cooperação com o Grupo Polonês de Armamentos (PGZ), estimando que as parcerias podem gerar até US$ 3 bilhões para a economia polonesa em uma década.

Um histórico comprovado em combate
Com mais de 600.000 horas de voo acumuladas e operação em 22 forças aéreas ao redor do mundo, o Super Tucano tem histórico operacional real. Países como Colômbia, Afeganistão e Nigéria utilizaram o modelo em combates diretos contra grupos insurgentes, provando sua eficácia em condições adversas.

O reconhecimento pelo Comitê de Catalogação da OTAN, que incluiu o Super Tucano no Sistema de Catalogação da aliança e em sua lista de "projetos de relevância", facilita a troca de informações técnicas entre países membros e pode abrir portas para futuras compras.

Múltiplas plataformas em avaliação
A Polônia não se limita ao Super Tucano. O Major-General Nowak revelou que o país também está considerando adaptar helicópteros de transporte M-28 Bryza e até os 96 helicópteros Apache AH-64E recentemente adquiridos para missões anti-drone. "Quando surge uma ameaça de grande escala, todos os recursos disponíveis devem ser levados em conta", afirmou o comandante.

A avaliação incluirá uma revisão das opções de armamento tanto para helicópteros quanto para plataformas de asa fixa contra UAVs, em um processo que se encontra em fase de avaliação técnica e operacional, sem anúncio oficial de aquisição ou cronograma definido.

Acredita-se ser bastante provável que a decisão polonesa aguarde a divulgação, pela Embraer, das novas características anti-drone do Super Tucano, o que deverá ocorrer até meados deste ano. 

Guerra híbrida e o futuro da defesa europeia
A intensificação do uso de drones de baixo custo pela Rússia, tanto em ataques diretos quanto em ações de provocação e teste de resposta dos países da OTAN, transformou a ameaça de drones em uma questão central de segurança europeia. O episódio polonês de setembro de 2025 levou Varsóvia a acionar o Artigo 4º do Tratado da OTAN, que determina consultas em caso de ameaça à segurança coletiva.

Com mais de 600.000 horas de voo acumuladas e operação em 22 forças aéreas, o Super Tucano tenta se reposicionar não apenas como uma aeronave de treinamento ou contrainsurgência, mas como uma peça complementar da defesa aérea europeia em um cenário de guerra híbrida.

Desafios e perspectivas
A potencial avaliação do A-29N em 2026 na Polônia é vista como um passo pragmático para entender, em condições reais, até que ponto uma aeronave turboélice de ataque leve pode desempenhar o papel de "caçador de drones" no ambiente operacional europeu. Além do desempenho contra alvos aéreos de movimento lento, os testes permitirão analisar integração com radares, centros de comando e controle, regras de engajamento e custos operacionais.

Qualquer decisão sobre aquisição dependerá da conclusão das avaliações técnicas, operacionais e orçamentárias conduzidas pelas autoridades polonesas, que também podem ser fundamentais para embasar uma decisão da União Europeia sobre a aeronave. Até o momento, o Ministério da Defesa da Polônia não confirmou a abertura de negociações formais para a compra do A-29N Super Tucano.

O que está claro é que a Europa enfrenta uma nova realidade de segurança, na qual a ameaça não vem apenas de caças supersônicos e mísseis de cruzeiro, mas também de enxames de drones baratos e numerosos. Neste contexto, soluções como a versão NATO do Super Tucano brasileiro podem oferecer a combinação de eficácia operacional e viabilidade econômica que os países europeus buscam desesperadamente.

28 dezembro, 2025

Da defensiva à vanguarda: como a Ucrânia pode se tornar o escudo aéreo da Europa

Taxa de interceptação de 97% em ataque russo demonstra capacidade que poucos países da OTAN possuem 

*LRCA Defense Consulting - 28/12/2025

A data de 23 de dezembro de 2025 pode marcar um ponto de inflexão não apenas para a defesa aérea ucraniana, mas para toda a arquitetura de segurança europeia. Naquele dia, pilotos ucranianos de F-16 interceptaram 34 dos 35 mísseis de cruzeiro lançados pela Rússia em um ataque maciço que mobilizou 673 armas aéreas, incluindo 635 drones e 38 mísseis de diversos tipos.

A taxa de interceptação de 97% surpreendeu analistas militares e reacendeu um debate que ganha urgência crescente em Bruxelas e capitais europeias: a Ucrânia, depois de quase três anos absorvendo a experiência de combate mais intensa desde a Segunda Guerra Mundial, está desenvolvendo capacidades de defesa aérea que a maioria dos países da OTAN não possui.

A batalha que mudou a narrativa
O Coronel Yurii Ihnat, chefe de comunicações da Força Aérea ucraniana, confirmou que os F-16 desempenharam papel fundamental na interceptação dos mísseis de cruzeiro. O ataque russo tinha como alvos principais a infraestrutura energética nas regiões ocidentais da Ucrânia, e visava causar apagões em massa durante o inverno.

O que torna esse resultado particularmente significativo é a complexidade do cenário: além dos F-16, participaram da defesa caças Mirage-2000, MiG-29, Su-27, drones interceptadores e grupos móveis de fogo. A coordenação entre sistemas antigos soviéticos e plataformas ocidentais modernas demonstra um nível de integração operacional que poucos países conseguem alcançar mesmo em tempos de paz.

Tecnologia e experiência: a combinação letal
A capacidade demonstrada pelos pilotos ucranianos não surgiu do vácuo. Imagens recentes revelaram que os F-16 ucranianos estão equipados com pods de direcionamento Sniper, que incluem câmeras de luz diurna e infravermelho, além de designador a laser.

Esta tecnologia permite que os pilotos detectem mísseis de cruzeiro e drones usando câmeras ou radar, e então os "iluminem" com o laser para guiar armamentos. Mais importante, os pods Sniper são sensores passivos que não emitem radiação, permitindo que o F-16 opere "silencioso" sem revelar sua localização.

O armamento também evoluiu. Os F-16 ucranianos agora utilizam o Sistema Avançado de Arma de Precisão Letal (APKWS), um foguete guiado a laser de 15 kg com alcance de até 11 km. Com custo de apenas US$ 35 mil por unidade, o APKWS é uma das poucas munições anti-drone no inventário ucraniano mais barata que seu alvo, em comparação com os US$ 500 mil de um míssil AIM-9.

O contexto europeu: um continente despreparado
A performance ucraniana expõe uma vulnerabilidade crítica: a Europa não está preparada para defender seus próprios céus contra ameaças em massa. Segundo estimativas do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), até o final de 2023, a Ucrânia possuía aproximadamente 564 plataformas antiaéreas em serviço. Para comparação, todos os países europeus combinados têm apenas cerca de 1.600 plataformas.

A desproporção é ainda mais gritante quando se considera a extensão territorial e populacional da Europa comparada à Ucrânia. A realidade é que a demanda ocidental por sistemas de defesa aérea era historicamente baixa, e a produção industrial não acompanhou as novas ameaças.

Esta lacuna tornou-se dolorosamente evidente em setembro de 2025, quando enxames de drones russos Gerbera violaram o espaço aéreo polonês. A assimetria de custos enfrentada pelos aliados ao interceptar a frota de drones Gerbera sobre a Polônia deixou clara a necessidade de adquirir sistemas mais econômicos, como o caça leve turboélice Embraer A-29N Super Tucano em sua nova configuração anti-drone. Usar caças e mísseis ar-ar caros para derrubar drones é operacionalmente possível, mas economicamente insustentável.

Operação Eastern Sentry e a resposta da OTAN
A resposta da OTAN não tardou. A Operação Eastern Sentry, lançada ao longo do flanco oriental da aliança, visa fortalecer ainda mais a postura de proteção de todos os aliados. A Dinamarca contribuiu com dois F-16 e uma fragata antiaérea, a França com três Rafales, e a Alemanha com quatro Eurofighters.

Paralelamente, está em desenvolvimento a Linha de Dissuasão do Flanco Oriental (EFDL, na sigla em inglês), uma iniciativa que busca desenvolver sistemas padronizados baseados em dados, lançadores comuns e coordenação baseada em nuvem. O conceito prevê a implantação de milhares de drones comerciais, sensores em rede e postos de comando digital que podem detectar e atacar em profundidade.

O paradoxo estratégico
Enquanto a Europa corre para construir suas defesas, a Ucrânia já possui pilotos com centenas de horas de combate real, testando táticas contra a força aérea russa e seu sistema integrado de defesa aérea. F-16s fornecidos à Ucrânia como parte da ajuda militar ocidental agora voam aproximadamente 80% das missões de combate da Força Aérea ucraniana.

Esta experiência é inestimável. Fornecer F-16s à Ucrânia apresenta à OTAN e aos Estados Unidos uma oportunidade única de coletar inteligência sobre a potência de aeronaves e armas aliadas contra equipamentos e táticas russas e iranianas. A guerra na Ucrânia tornou-se, involuntariamente, o maior laboratório de guerra moderna desde 1945.

A afirmação de Stan Zemlyanyy: visão ou realidade?
Quando Stan Zemlyanyy postou no LinkedIn que "nesse ritmo, a Ucrânia pode em breve estar ajudando a proteger o céu da Europa, em vez de a Europa proteger o da Ucrânia", muitos podem ter interpretado como bravata. Os fatos, contudo, sustentam a afirmação.

A Ucrânia possui:

  • Pilotos com experiência de combate real contra ameaças russas modernas
  • Capacidade comprovada de integrar sistemas ocidentais e soviéticos
  • Doutrina operacional testada em batalha para defesa aérea em camadas
  • Taxa de interceptação superior a 90% em múltiplas operações
  • Experiência em operar sob intensa guerra eletrônica

Compare isso com a maioria dos países europeus, cujos pilotos voam principalmente missões de treinamento e patrulha em tempo de paz. Países do flanco oriental com maior potencial continuarão a desenvolver capacidades de ataque de longo alcance como meio de punição convencional, mas a capacidade defensiva continua deficiente.

 

O Centro Europeu de Treinamento F-16
Reconhecendo esta realidade, a Romênia adquiriu 18 F-16 holandeses por apenas um euro cada para dedicá-los ao Centro Europeu de Treinamento F-16 (EFTC). A importância do EFTC só aumenta à medida que Holanda, Dinamarca e Noruega aposentam completamente seus F-16, enquanto Bélgica está em processo de fazê-lo.

O EFTC oferece agora uma capacidade única na Europa, fornecendo um programa completo de treinamento para pilotos de F-16, bem como uma estrutura na qual instrutores e pilotos de diferentes países da OTAN - incluindo a Ucrânia - podem treinar juntos, segundo os mesmos padrões.

Desafios e limitações
Apesar dos sucessos, a situação ucraniana permanece precária. As forças aéreas enfatizaram que mísseis para sistemas de defesa aérea e mísseis ar-ar fornecidos por parceiros não estão chegando nas quantidades necessárias. A escassez de munições é citada repetidamente por pilotos, liderança militar e pelo presidente Zelenskyy.

Além disso, a Ucrânia ainda opera com número limitado de F-16 - cerca de 50 dos 87 prometidos - e sofreu perdas, incluindo pelo menos quatro aeronaves destruídas ou abatidas desde agosto de 2024. A Ucrânia não pode se dar ao luxo de usar seus F-16 como consumíveis.

Implicações para a defesa europeia
A questão central não é se a Ucrânia pode ajudar a proteger os céus europeus, mas quando e sob quais condições. A União Europeia e a OTAN estão desenvolvendo múltiplas iniciativas:

  • Muro europeu de drones: proposto pela presidente da Comissão von der Leyen durante seu discurso de 2025 sobre o Estado da União, busca integrar defesas antidrones ao longo da fronteira oriental.
  • Vigilância do flanco oriental: reforçaria as fronteiras orientais da UE contra ameaças híbridas, cibernéticas, marítimas e convencionais da Rússia e Belarus através da integração de defesa aérea, guerra eletrônica, vigilância e sistemas de segurança marítima.
  • Escudo aéreo europeu: visa criar uma defesa antimísseis integrada continental.
  • Na composição da vigilância e do muro é que seriam inseridas as aeronaves Embraer A-29N Super Tucano, aptas a realizar patrulha aérea de longa duração e, se for necessário, atuar contra drones russos. 

O fator experiência
O que diferencia a proposta ucraniana de uma mera especulação é a experiência operacional. Nenhuma força aérea da OTAN enfrentou combate aéreo de alta intensidade nas últimas décadas. Os pilotos da OTAN são altamente treinados, mas carecem da experiência que apenas o combate real proporciona.

Até o momento na guerra, a Ucrânia abateu mais de 100 aeronaves russas, e a Rússia abateu pelo menos 75 aeronaves ucranianas. Este intercâmbio manteve ambos os lados cautelosos, mas forneceu aos ucranianos conhecimento tático inestimável sobre como operar contra sistemas russos modernos.

O caminho à frente
A transição da Ucrânia de país que recebe proteção para país que fornece proteção não acontecerá da noite para o dia. Requer:

  1. Continuidade do fornecimento de F-16 e munições: sem armas suficientes, mesmo os pilotos mais experientes são ineficazes.
  2. Integração institucional com estruturas de comando da OTAN: a experiência ucraniana precisa ser formalizada e integrada nos sistemas de defesa coletiva.
  3. Sustentação da base industrial: manutenção e suporte logístico são tão críticos quanto as aeronaves em si.
  4. Transferência de conhecimento: a OTAN deveria incorporar pilotos de caça às unidades da Força Aérea ucraniana para auxiliar em debriefings, aprendizado e planejamento de missões.

Um novo paradigma de segurança
A afirmação de Stan Zemlyanyy, longe de ser exagero nacionalista, reflete uma realidade emergente que a Europa precisa confrontar. Após quase três anos de guerra de alta intensidade, a Ucrânia desenvolveu capacidades e expertise em defesa aérea que a maioria dos países europeus simplesmente não possui.

A questão para os formuladores de políticas europeus não é se devem aceitar ajuda ucraniana, mas como institucionalizar e integrar essa experiência antes que seja tarde demais. Com a Rússia demonstrando disposição crescente para testar as defesas da OTAN através de violações de espaço aéreo e guerra híbrida, o tempo para decisões estratégicas está se esgotando.

Como demonstrou o ataque de 23 de dezembro, quando se trata de defender os céus contra mísseis e drones em massa, a Ucrânia pode não estar apenas à altura do desafio - pode estar liderando o caminho.

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