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20 fevereiro, 2026

Suprema Corte dos EUA derruba tarifas de Trump e pode resgatar empresas da Indústria Brasileira de Defesa

Decisão histórica por 6 votos a 3 invalida o uso da IEEPA e elimina sobretaxas de até 50% que ameaçaram a sobrevivência de gigantes nacionais como Embraer e Taurus Armas 


*LRCA Defense Consulting - 20/02/2026

A Suprema Corte dos Estados Unidos encerrou nesta sexta-feira (20) um dos capítulos mais turbulentos da história recente do comércio exterior brasileiro, ao derrubar por 6 votos a 3 o conjunto de tarifas impostas pelo presidente Donald Trump com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional de 1977 (IEEPA). A decisão representa um alívio imediato e de enorme magnitude para a indústria brasileira de defesa, que nos últimos meses chegou a encarar o espectro de uma desindustrialização acelerada.

Para empresas como a Taurus Armas e a Embraer, as duas mais duramente atingidas, a sentença da Corte representa não apenas o fim de uma sobretaxa extraordinária, mas o restabelecimento das condições que as tornaram competidoras globais. Com o mercado norte-americano respondendo por fatias superiores a 60% do faturamento de ambas as companhias, o período de vigência das tarifas equivaleu, nas palavras dos próprios executivos, a um embargo comercial velado.

"O presidente reivindica o poder de impor tarifas de valor, duração e alcance ilimitados. Ele não pode fazer isso." — Chief Justice John Roberts, relator da decisão

A decisão: o que a Suprema Corte julgou
O tribunal examinou o recurso do Departamento de Justiça contra decisão de instâncias inferiores que haviam concluído que Trump extrapolou sua autoridade presidencial ao usar a IEEPA para impor tarifas universais. A maioria de Roberts, formada por três juízes de tendência progressista e dois conservadores, Neil Gorsuch e Amy Coney Barrett, aplicou a chamada 'doutrina das questões importantes', que exige autorização explícita do Congresso para ações executivas de 'vasta importância econômica e política'.

A Corte foi clara ao afirmar que a Constituição reserva ao Congresso o poder de tributar, incluindo as tarifas aduaneiras, e que nenhuma delegação implícita poderia autorizar o Executivo a agir com tamanha latitude. A decisão invalida especificamente as tarifas impostas via IEEPA, incluindo as chamadas 'tarifas recíprocas' do Dia da Libertação (2 de abril de 2025), que variavam de 10% a 145%. Outras categorias tarifárias baseadas em fundamentos legais distintos permanecem vigentes, como as tarifas setoriais da Seção 232 sobre aço, alumínio e veículos.

Três juízes dissentiram: Clarence Thomas, Samuel Alito e Brett Kavanaugh. Kavanaugh, em seu voto vencido, alertou que eventual devolução dos valores já arrecadados, estimados em mais de US$ 175 bilhões, geraria um 'caos' administrativo para o Tesouro dos EUA. A questão do reembolso, deliberadamente deixada em aberto pela maioria, deverá ser objeto de disputas jurídicas separadas.

Taurus Armas: do abismo à retomada
Nenhuma outra empresa brasileira viveu com tanta dramaticidade os últimos meses. A Taurus Armas, maior fabricante de armas de fogo do país, exporta para os Estados Unidos mais de 80% de sua produção, o que a tornou a companhia nacional mais dependente daquele mercado em proporção ao faturamento. O anúncio das tarifas de 50% em julho de 2025, motivado por questões político-diplomáticas envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi recebido pelo CEO global da empresa, Salesio Nuhs, como 'inviabilidade total'.

A resposta da Taurus foi uma corrida contra o relógio: desde abril de 2025, quando o 'Dia da Libertação' impôs os primeiros 10%, a empresa passou a acumular estoques de produtos acabados nos EUA para até 90 dias de abastecimento. Com a elevação para 50%, a companhia anunciou em agosto a transferência parcial da linha de montagem da família G, sua principal linha de produtos, para a fábrica em Bainbridge, Geórgia, estado onde já opera há mais de quatro décadas.

"As exportações para os EUA representam 82,5% do faturamento da Taurus. Esta é a empresa gaúcha mais dependente do mercado americano." - Salesio Nuhs, CEO Global da Taurus

O custo humano da crise foi concreto: a perspectiva de relocação integral da produção para os EUA ameaçava até 15 mil empregos no Rio Grande do Sul, estado que já havia sofrido com as enchentes de 2024. A unidade de São Leopoldo, sede histórica da Taurus, teria seu futuro colocado em xeque. Estimativas apontavam que R$ 520 milhões em exportações da cidade estavam atrelados ao mercado americano, o equivalente a 4,7% do PIB municipal.

No comunicado divulgado nesta sexta-feira, a Taurus informou que recolheu aproximadamente US$ 18 milhões em tarifas durante o período de vigência das sobretaxas, valor que 'impactou significativamente o caixa e o resultado da Companhia'. A empresa aguarda as próximas decisões jurídicas sobre a possibilidade de reembolso desses montantes pelo governo americano.

Com a eliminação das tarifas, a Taurus retoma sua posição de única empresa não americana entre as maiores vendedoras de pistolas nos EUA, segmento no qual detém cerca de 30% do mercado na faixa de até US$ 350, competindo diretamente com Ruger e Smith & Wesson.

Embraer: a empresa que não pode ser substituída
A Embraer enfrentou o tarifaço em condições estruturalmente distintas da Taurus, mas igualmente adversas. A fabricante de aeronaves de São José dos Campos é a terceira maior produtora de aviões do mundo, atrás apenas de Airbus e Boeing, e tem nos EUA seu maior cliente: 45% das exportações de jatos comerciais e 70% dos jatos executivos destinam-se ao mercado norte-americano.

O setor aeronáutico foi, em parte, poupado do aumento para 50%; aviões, motores, peças e componentes de aviação foram excluídos do tarifaço em julho de 2025. Ainda assim, a alíquota de 10% mantida desde abril representou um impacto de US$ 65 milhões anuais nas contas da empresa. O CEO Francisco Gomes Neto declarou que o efeito poderia ser comparável ao da pandemia de Covid-19, que forçou cortes de 20% no quadro de funcionários em 2020.

Analistas do Bradesco BBI estimaram um impacto potencial de US$ 220 milhões no EBIT de 2025, equivalente a 35% do lucro operacional projetado para o ano. O JPMorgan calculou um risco de redução de 13% na receita da fabricante. Em resposta, a Embraer anunciou investimentos de US$ 500 milhões nos EUA nos próximos cinco anos, nas instalações de Melbourne (Flórida) e Dallas (Texas), como estratégia para reduzir a exposição tarifária e reforçar argumentos junto ao governo Trump.

"Fazer um novo avião para o segmento regional nos EUA não é algo que acontece rapidamente. Demora anos. O E175 é insubstituível enquanto a cláusula de escopo existir." — Francisco Gomes Neto, CEO da Embraer

A posição singular da Embraer no mercado americano de aviação regional foi, paradoxalmente, seu maior trunfo nas negociações. O jato E175 detém 88% de participação nos voos regionais dos EUA e é o único autorizado a operar em aeroportos de menor porte por força de regulamentação específica. Com quase 1.000 aeronaves em operação no país e quase 3.000 empregos diretos em solo americano, a empresa sustentou que seu saldo comercial com os EUA até 2030 seria positivo em US$ 8 bilhões em favor dos americanos, argumento que embasou pressão junto à administração Trump para isenções setoriais.

A decisão da Suprema Corte, ao eliminar a tarifa base de 10% incidente desde abril, reforça as perspectivas de a Embraer retornar ao regime de tarifa zero para o setor aeronáutico global, política vigente por décadas antes do governo Trump.

O contexto mais amplo: Brasil no epicentro do tarifaço
O Brasil foi um dos países mais afetados pelo tarifaço de Trump, por razões que mesclavam motivações econômicas e geopolíticas. O país foi submetido a uma alíquota base de 10% no Dia da Libertação e, em julho de 2025, sofreu uma tarifa adicional de 40%, elevando o total para 50%, sob a justificativa, incomum no direito comercial internacional, de que o Brasil estaria tratando injustamente o ex-presidente Jair Bolsonaro em processos judiciais domésticos.

O resultado foi devastador para o comércio bilateral: as exportações brasileiras para os EUA recuaram 6,6% em 2025, somando US$ 37,7 bilhões, ante US$ 40,4 bilhões em 2024. No sentido oposto, as importações de produtos americanos cresceram 11,3%, aprofundando o déficit comercial do Brasil com seu principal parceiro fora do bloco regional.

Setores inteiros sentiram o impacto. As exportações de aeronaves e aparelhos espaciais têm 61,7% de dependência do mercado americano; as de armas e munições, 61,3%. A indústria gaúcha, concentrada nesses dois segmentos, foi particularmente vulnerável. Estimativas do governo federal apontavam que US$ 8,9 bilhões em exportações brasileiras permaneciam sujeitos às tarifas mesmo após as isenções parciais obtidas no segundo semestre de 2025.

Perspectivas: o que vem a seguir
A decisão da Suprema Corte não encerra definitivamente a questão tarifária. A administração Trump já sinalizou que buscará alternativas legais para reinstituir parte das tarifas, notadamente via Seção 232 (segurança nacional) e mecanismos de retaliação contra práticas comerciais supostamente desleais. Nenhum desses instrumentos oferece a flexibilidade e agilidade da IEEPA, o que limita o espaço de manobra do Executivo americano no curto prazo.

Para a indústria brasileira de defesa, os próximos meses serão de consolidação e reposicionamento. A Taurus precisará avaliar a extensão dos investimentos já realizados para transferência de produção para os EUA, linhas que podem ser agora parcialmente revertidas, e monitorar de perto qualquer nova legislação tarifária em Washington. A Embraer, por sua vez, tem a oportunidade de retomar as negociações por tarifa zero sem a pressão de um embargo em vigor, o que fortalece sua posição.

A questão do reembolso das tarifas já pagas é outro ponto central. O Tesouro dos EUA arrecadou mais de US$ 175 bilhões via IEEPA. Empresas como a Taurus, que pagou US$ 18 milhões, aguardam orientação judicial sobre como e se esses valores serão devolvidos. A perspectiva de reembolso representa potencial incremento de caixa relevante para companhias que tiveram seus resultados duramente comprimidos ao longo do período.

Para o Brasil como nação exportadora, a decisão restaura a previsibilidade institucional e reequilibra, ao menos parcialmente, a relação comercial com os EUA. O saldo de longo prazo desta crise, porém, revelou uma vulnerabilidade estrutural: a excessiva concentração de exportações em um único mercado. A diversificação de destinos, um imperativo estratégico identificado por analistas ao longo de toda a crise, permanece como agenda inadiável para as empresas do setor de defesa e para a política industrial brasileira.

Dados-chave da decisão e seus impactos 

Suprema Corte dos EUA — Decisão de 20/02/2026

    Placar: 6 votos a 3 contra as tarifas da IEEPA

    Relator: Chief Justice John Roberts

    Fundamento: doutrina das questões importantes; poder tributário reservado ao Congresso

    Tarifas INVALIDADAS: recíprocas do Dia da Libertação (10% a 145%) e adicionais específicas por país

    Tarifas MANTIDAS: Seção 232 sobre aço, alumínio, automóveis e cobre

    Tarifas já arrecadadas via IEEPA: mais de US$ 175 bilhões (reembolso em aberto)

Taurus Armas

    Dependência do mercado americano: 82,5% do faturamento

    Tarifas recolhidas durante vigência das sobretaxas: ~US$ 18 milhões

    Empregos em risco no RS em cenário de relocação integral: até 15.000

    Market share no segmento de pistolas até US$ 350 nos EUA: ~30%

    Fábrica americana: atualmente em Bainbridge, Geórgia — em operação há 43 anos no país

Embraer

    Participação dos EUA na receita: mais de 50% (operações + exportações diretas)

    Custo estimado da tarifa de 10%: US$ 65 milhões/ano

    Impacto potencial no EBIT 2025 com tarifa de 50%: US$ 220 milhões (~35% do total)

    Market share E175 em voos regionais nos EUA: 88%

    Empregos em solo americano: ~3.000 diretos; 13.000 incluindo cadeia fornecedora

    Investimento anunciado nos EUA: US$ 500 milhões em 5 anos

04 janeiro, 2026

Venezuela pós-Maduro pode abrir mercado bilionário para indústria de defesa brasileira

Transição política no país vizinho reacende esperanças de retomada de parcerias militares interrompidas há quase duas décadas



*LRCA Defense Consulting - 04/01/2026

A saída de Nicolás Maduro do poder na Venezuela e a possível ascensão de um governo alinhado ao Ocidente colocou em pauta uma questão estratégica para o Brasil: a retomada de negócios na área de defesa com o país vizinho. Depois de quase 20 anos de dependência de fornecedores russos e chineses, Caracas poderia se transformar em um mercado promissor para a indústria brasileira, que registrou exportações recordes em 2025.

A Venezuela possui uma das maiores forças armadas da América do Sul, equipada majoritariamente com material bélico russo, incluindo caças Su-30, sistemas antiaéreos S-300 e fuzis AK-103. Um eventual governo pró-ocidental teria motivações políticas e operacionais para diversificar seus fornecedores, abrindo espaço para empresas brasileiras como a Embraer, IVECO, SIATT, Atech e desenvolvedoras de sistemas de vigilância.

Um mercado perdido que pode ressurgir
A relação entre Brasil e Venezuela no setor de defesa já foi promissora. Nos anos 1990 e início dos 2000, a Venezuela adquiriu aeronaves brasileiras, incluindo o caça AMX-T desenvolvido pela Embraer em parceria com a italiana Aermacchi. Negociações avançadas para a compra do A-29 Super Tucano estavam em curso quando Hugo Chávez assumiu o poder e reorientou radicalmente a política externa venezuelana.

Sob pressão dos Estados Unidos, que impuseram restrições à venda de equipamentos com componentes americanos para Venezuela, e alinhado ideologicamente à Rússia, Chávez pivotou completamente seus contratos militares. Moscou se tornou o principal fornecedor de Caracas, em negócios que ultrapassaram US$ 10 bilhões ao longo de duas décadas.

"A Venezuela tinha uma relação comercial estabelecida com o Brasil na área de defesa. O Super Tucano era uma plataforma ideal para as necessidades venezuelanas, mas a geopolítica impediu que o negócio avançasse", explica um analista de defesa.

Agora, com a possibilidade de um governo pró-ocidental em Caracas, esse cenário pode se inverter. 

Oportunidades concretas no horizonte
Especialistas identificam três áreas principais onde a indústria brasileira poderia se beneficiar de uma mudança de regime na Venezuela:

- Modernização da frota aérea: surge como a oportunidade mais evidente. Os caças Su-30MK2 venezuelanos, adquiridos nos anos 2000, enfrentam desafios crescentes de manutenção devido a sanções internacionais que dificultam o acesso a peças de reposição. Um novo governo poderia buscar alternativas mais acessíveis e politicamente viáveis.

Para substituir os jatos supersônicos russos, uma opção tecnicamente viável seria o caça sueco Saab Gripen E, que a Embraer já fabrica sob licença no Brasil. O Gripen E é um caça multifuncional de quarta geração plus, com capacidades avançadas de combate ar-ar e ar-solo, aviônica de última geração e custos operacionais significativamente menores que plataformas russas ou americanas.

A presença da linha de montagem da Embraer em Gavião Peixoto (SP) representa uma vantagem estratégica. Além de reduzir custos logísticos pela proximidade geográfica, a fabricação regional facilitaria programas de manutenção, transferência de tecnologia e treinamento de pessoal venezuelano. O Gripen já despertou interesse de outros países sul-americanos, e uma eventual venda para a Venezuela poderia consolidar uma plataforma comum na região, facilitando exercícios conjuntos e padronização operacional.

Para missões de contrainsurgência, patrulhamento de fronteiras e treinamento avançado, o A-29 Super Tucano da Embraer aparece como candidato natural complementar. A aeronave turboélice, já operada por mais de 20 países no mundo, tem reputação consolidada na América Latina, onde está presente no Brasil, Chile, Colômbia, Equador, República Dominicana, Paraguai, Uruguai, Honduras e Panamá (contrato recente), demonstrando a penetração da indústria brasileira na região.. Com custo de operação significativamente menor que jatos supersônicos e capacidade comprovada em ambientes desafiadores, o Super Tucano poderia atender às necessidades venezuelanas de vigilância e controle territorial em uma força aérea modernizada e diversificada.

Ainda na aviação militar, o cargueiro tático C-390 Millennium da Embraer surge como alternativa para substituir os antigos transportes russos da Venezuela. A aeronave, que já opera na Força Aérea Brasileira e foi adquirida por Portugal, Hungria, Holanda, Áustria e República Tcheca, oferece capacidade de transporte estratégico com tecnologia ocidental, facilitando interoperabilidade com outras forças aéreas da região e apoio logístico mais acessível que as plataformas russas.

- Manutenção e suporte técnico representam outra frente promissora. Mesmo que a Venezuela mantenha parte do inventário russo a curto prazo, a necessidade de serviços de manutenção, treinamento de pessoal e modernização de sistemas legados abre espaço para empresas brasileiras que têm desenvolvido capacidades em toda a cadeia de suporte militar.

A base industrial de defesa brasileira viveu uma expansão notável nos últimos anos, com exportações atingindo níveis recordes em 2025. Essa infraestrutura poderia ser aproveitada para criar programas de cooperação técnica-militar com a Venezuela, seguindo modelos já estabelecidos com outros vizinhos sul-americanos.

- Armamentos e sistemas de defesa configuram um segmento adicional de oportunidades. A SIATT, empresa brasileira em parceria com o grupo emiratense EDGE, desenvolve mísseis anti-carro e anti-navio que poderiam substituir sistemas russos envelhecidos. Esses armamentos representam capacidade crítica para forças terrestres e navais, áreas em que a Venezuela também necessitará modernização caso opte por diversificar seus fornecedores.

- Integração de sistemas de comando e controle emerge como necessidade estratégica em qualquer processo de modernização militar. A Atech, subsidiária da Embraer especializada em soluções C4ISR (Comando, Controle, Comunicações, Computadores, Inteligência, Vigilância e Reconhecimento), poderia fornecer a arquitetura necessária para integrar diferentes plataformas e sensores em uma rede de defesa coesa e compatível com padrões ocidentais. Essa integração seria fundamental para que forças armadas venezuelanas operassem eficientemente com equipamentos de múltiplas origens.

Complementando a modernização tecnológica, sistemas criptográficos da Kryptus garantiriam comunicações seguras e soberania informacional. A empresa brasileira, referência em criptografia e segurança cibernética, poderia fornecer soluções para proteger as comunicações militares venezuelanas, substituindo sistemas russos que um novo governo provavelmente consideraria vulneráveis ou politicamente indesejáveis.

- Segurança de fronteiras constitui uma área de interesse mútuo. Brasil e Venezuela compartilham 2.199 quilômetros de fronteira, uma região complexa marcada por contrabando, mineração ilegal e presença de grupos armados. Sistemas de vigilância, drones de reconhecimento e veículos blindados para patrulhamento — áreas em que empresas brasileiras têm experiência — poderiam fazer parte de iniciativas conjuntas de segurança fronteiriça.

A IVECO, que produz a família de blindados Guarani para o Exército brasileiro, poderia encontrar um mercado receptivo para veículos de transporte de tropas e patrulhamento adaptados às condições amazônicas. A Akaer, empresa de São José dos Campos especializada em engenharia aeroespacial e defesa, também oferece soluções relevantes como a modernização do blindado Cascavel NG, sistemas de visão noturna e drones como o Albatross, além de participar da produção do C-390 Millennium e desenvolver tecnologias para satélites.

No segmento de veículos aéreos não tripulados, o Brasil dispõe de capacidades industriais avançadas. A XMobots, líder em drones na América Latina com sede em São Carlos, desenvolve sistemas como o Nauru 1000C (já adquirido pelo Exército Brasileiro) e o Nauru 500C ISR, drones VTOL com autonomia de até 28 horas utilizados para vigilância de fronteiras. A empresa também lançou recentemente o Nauru 100D, um drone tático militar com capacidade de ataque de precisão. A Stella Tecnologia, de Duque de Caxias, é pioneira em VANTs de classe MALE (Medium-Altitude Long-Endurance) no Brasil, tendo desenvolvido o Atobá, maior drone do hemisfério Sul, com 11 metros de envergadura e 24 horas de autonomia, além do Albatroz, projetado para operações embarcadas. Recentemente, a Stella firmou parceria estratégica com o grupo francês Thales para desenvolvimento conjunto de sistemas de vigilância e defesa embarcados em UAVs.

A Mac Jee, grupo brasileiro da Base Industrial de Defesa sediado em São José dos Campos, completa o portfólio com munições aéreas guiadas (família BGB), o sistema de lançamento de foguetes Armadillo e o kit DAGGER de orientação de munição aérea com inteligência artificial, capaz de atingir alvos a mais de 120 km com alta precisão. A empresa possui fábricas em São José dos Campos e Paraibuna, com capacidade de produção de materiais energéticos e carregamento de munições.

Obstáculos no caminho
Apesar das oportunidades teóricas, diversos fatores podem limitar ou adiar esse potencial de negócios.

O primeiro e mais evidente é a devastadora situação econômica venezuelana. Anos de crise econômica, hiperinflação e colapso da produção petrolífera deixaram o país sem recursos significativos para investimentos militares. Mesmo com um novo governo, a prioridade será reconstrução econômica, infraestrutura básica e serviços sociais, e não a aquisição de equipamentos de defesa.

A eventual administração temporária dos Estados Unidos na Venezuela, focada em estabilização política e recuperação do setor petrolífero, tende a adiar qualquer discussão sobre modernização militar. Washington tem interesses próprios e poderia pressionar por contratos com fabricantes americanos quando chegar o momento de reequipar as forças armadas venezuelanas.

Há também a questão diplomática delicada. O Brasil condenou publicamente a intervenção americana na Venezuela, defendendo soluções negociadas e o princípio da não-intervenção. Essa posição, embora coerente com a tradição diplomática brasileira, pode complicar as relações com um eventual governo venezuelano instalado sob auspícios americanos.

"O Brasil manteve uma posição de relativa neutralidade durante a crise venezuelana, o que pode ser uma vantagem em termos de credibilidade regional, mas também pode ser vista como falta de alinhamento claro pelos novos dirigentes em Caracas", pondera um diplomata brasileiro que acompanha a questão.

Além disso, a indústria de defesa brasileira enfrentaria competição acirrada de players tradicionais. Estados Unidos e Europa têm décadas de experiência em acordos de defesa atrelados a pacotes de financiamento, assistência técnica e alinhamento político. O Brasil teria que competir não apenas em qualidade e preço, mas em capacidade de oferecer condições comerciais atrativas.

Visão de longo prazo
Analistas concordam que, mesmo diante dos obstáculos, uma Venezuela estável e integrada ao sistema ocidental poderia, em médio e longo prazos, trazer benefícios para toda a indústria de defesa sul-americana.

O Brasil historicamente exerceu protagonismo em iniciativas de cooperação militar regional. Uma Venezuela normalizada poderia se reintegrar a esses mecanismos, fortalecendo cadeias produtivas e possibilitando projetos conjuntos de desenvolvimento tecnológico.

"No curto prazo, o impacto será limitado pela realidade econômica venezuelana. Mas se olharmos para um horizonte de cinco a dez anos, com recuperação econômica do país, estamos falando de um mercado potencial significativo para produtos de defesa compatíveis com as capacidades brasileiras", avalia um executivo do setor.

A questão transcende aspectos puramente comerciais. Para o Brasil, fortalecer laços de defesa com vizinhos faz parte de uma estratégia mais ampla de protagonismo regional e desenvolvimento de capacidades tecnológicas próprias. A Venezuela, com suas forças armadas numerosas e necessidades evidentes de modernização, poderia ser peça importante nesse tabuleiro.

Por enquanto, resta aguardar. A transição política na Venezuela ainda é incerta, a situação econômica permanece crítica e as prioridades imediatas estão distantes da compra de equipamentos militares. Mas para a indústria de defesa brasileira, que demonstrou resiliência e capacidade de crescimento mesmo em tempos adversos, a possibilidade de reconquistar um mercado perdido há duas décadas representa uma esperança concreta, ainda que distante, no horizonte estratégico regional.

17 maio, 2025

Oportunidades para a Base Industrial de Defesa brasileira

Instabilidade geopolítica abre oportunidades de mercado e de integração com cadeias produtivas da Europa.


*Portal FGV, por Guilherme R. Garcia Marques - 14/05/2025

A política externa errática de Donald Trump, com toda a incerteza e instabilidade geradas, prometem deixar marcas profundas. Na Europa, o recado foi enfático: não dá mais para depender integralmente dos Estados Unidos em temas sensíveis como defesa e segurança. A resposta veio na forma de um plano de 800 bilhões de euros em investimentos visando reestruturar as capacidades militares do continente.

Em meio a este novo contexto, emerge uma oportunidade singular para o Brasil, especialmente para a sua Base Industrial de Defesa – setor historicamente relegado no debate econômico, mas com potencial significativo de geração de valor, emprego qualificado e inovação tecnológica.

Nos bastidores dessa mudança, o que está em jogo é mais do que a compra e venda de armamentos. O mundo passa por uma profunda reorganização das cadeias produtivas. Não se trata de apregoar um pretenso fim da globalização, mas sim de enxergar sua remodelagem: países estão redesenhando suas redes de produção privilegiando alianças confiáveis e políticas industriais orientadas por objetivos de segurança – ainda que isso signifique pagar mais caro.

Nesse novo mapa, o Brasil tem o que oferecer. A Embraer, com seu cargueiro KC-390, amplamente reconhecido por sua inovação e eficiência operacional, tem alcançado expressivos resultados a nível de comercialização, sendo encomendado por países como Portugal, Áustria, Hungria, Holanda, República Tcheca, Coreia do Sul e, mais recentemente, Suécia – com outras oportunidades de negócios se apresentando no radar. A Akaer, outra emblemática representante do setor aeroespacial brasileiro, vem se consolidando no fornecimento de componentes de engenharia avançada junto a importantes programas europeus de defesa, a exemplo do caça sueco Gripen, do Airbus A400M e, mais recentemente, do LUS-222, aeronave regional leve para uso dual desenvolvida pela empresa portuguesa EEA Aircraft and Maintenance. Paralelamente, integra também outros projetos de aviação civil, reforçando suas capacidades tecnológicas e produtivas enquanto agrega valor e expertise ao setor aeroespacial nacional.

Importante destacar que a integração junto às cadeias globais de produção é um vetor fundamental para a nossa indústria aeronáutica, com níveis de importação de bens intermediários e serviços equivalendo a 60% do total de exportações realizadas.

Outras empresas da Base Industrial de Defesa que se destacam são a Taurus e a CBC, tradicionais no ramo de armas leves (e no caso da CBC, também de munições). Ambas possuem atuação global e firmaram importantes acordos estratégicos na Europa, despontando como mais um exemplo da capacidade de inserção de produtos brasileiros em exigentes mercados externos.

Temos, portanto, produtos e competências internacionalmente reconhecidos. E uma janela rara de oportunidades para potencializá-los.  

A materialização dessas oportunidades em resultados concretos não se realizará por mera espontaneidade. É preciso criar condições para que nossas empresas ampliem suas exportações, inovem e conquistem novos mercados. Linhas de crédito competitivas, financiamentos à exportação, apoio à certificação de produtos, simplificação de processos burocráticos, maior segurança jurídica e o combate à entraves logísticos e tributários são medidas tão elementares quanto urgentes. Fundamental também é implementar, junto a estes instrumentos de fomento, robustos mecanismos de monitoramento e avaliação de resultados em termos de curva de aprendizagem e ganhos de produtividade no nível das empresas, prevenindo, assim, a incorrência de erros de política industrial tão comuns no Brasil.

Outro ponto essencial: a política externa. Precisamos de uma postura mais afirmativa na promoção de nossas capacidades industriais de defesa. Neste aspecto, o estabelecimento do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia – cada vez mais visto como necessário diante do atual cenário de incerteza – pode se converter em uma chance de ouro para o aprofundamento de parcerias industriais, transferências de tecnologia e integração produtiva. A Europa busca hoje parceiros confiáveis, capazes de se integrarem a uma lógica de segurança coletiva. O Brasil, com sua expertise e pragmatismo, pode desempenhar esse papel, diversificando mercados e fornecedores.

Neste mundo em transição, segurança e economia andam de mãos dadas. Em vez de tratar a defesa como tema restrito às áreas militares, é hora de encará-la como vetor de desenvolvimento nacional, inovação e inserção internacional.

A nova ordem internacional favorecerá quem compreender essa lógica. A janela de oportunidade está aberta e o Brasil não pode se dar ao luxo de desperdiçá-la. 

*Guilherme R. Garcia Marques é professor, pesquisador e consultor da Fundação Getulio Vargas. Doutor pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) na linha de pesquisa de "Gestão de Defesa: Políticas Públicas, Economia e Indústria.

16 dezembro, 2024

Indústria da Defesa: série documental da BandNews Docs mostra bastidores e potencial no desenvolvimento de novas tecnologias


*LRCA Defense Consulting - 16/12/2024

Com exportações recordes de R$ 8,4 bilhões até julho de 2024, o Brasil consolida sua posição no mercado global de produtos de defesa.

O BandNews Docs realizou duas excelentes reportagens sobre o assunto,  explorando, na primeira, os bastidores de uma indústria que representa 4,8% do PIB nacional e emprega quase 3 milhões de pessoas.

No segundo episódio da série documental sobre a Indústria da Defesa é mostrado que o setor muitas vezes é relacionado somente à guerras e confrontos com outros países, mas a reportagem do Docs evidencia como podemos usufruir dessa indústria para impactar positivamente no desenvolvimento de novas tecnologias.   

Confira abaixo as duas reportagens. Caso use VPN, desligue ou configure para o Brasil.


 


30 janeiro, 2024

Brasil: a ambiciosa meta de produzir 50% da tecnologia de defesa na nova política industrial

Aeronave Embraer C-390 (© Marcelo Camargo/Agência Brasil)
 

*Sputnik Brasil, por Lucas Morais - 30/01/2024

Com o objetivo de reverter o processo de desindustrialização no Brasil, fenômeno iniciado na década de 1980 e que se intensificou nos últimos anos, o governo federal lançou na última semana a nova política industrial. Até 2026, serão investidos R$ 300 bilhões, e um dos pilares para a retomada do crescimento do setor é a indústria de defesa.

Em um movimento que não se via no país há pelo menos meio século, o Exército brasileiro enviou em dezembro do ano passado quase 30 veículos blindados para a fronteira com a Venezuela, em Roraima, por conta das tensões com a Guiana.

Qual é o objetivo da defesa do Brasil?
Para além das questões que envolvem os dois países vizinhos, o coronel Oscar Medeiros Filho, que foi coordenador de pesquisas do Centro de Estudos Estratégicos do Exército (CEEEx) e atualmente é professor de relações internacionais do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), classificou à Sputnik Brasil a situação como um "exemplo" de mobilização das capacidades militares para defender a integridade territorial do país.

"Esse tipo de debate não é muito comum no Brasil, mas à medida que ele vai sendo colocado, vamos tomando conhecimento da importância do tema para qualquer Estado nacional soberano. O quadro internacional é multipolar, em que o uso da força como instrumento da política internacional tem se mostrado cada vez mais como uma tendência. Eu acredito que esse é um tema que talvez venha a fazer mais parte do debate nacional. A comunidade brasileira nunca se preocupou muito sobre como estamos capacitados para enfrentar essas demandas", argumenta o especialista.

É justamente o fortalecimento da indústria nacional de defesa um dos seis principais objetivos do governo federal, que lançou na última semana o plano Nova Indústria Brasil. Ao todo, o programa vai contar com R$ 300 bilhões até 2026 em financiamentos disponibilizados em linhas de crédito geridas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

Setor que se torna também um aliado para reverter a desindustrialização no país, o Palácio do Planalto estabeleceu uma ambiciosa meta a ser alcançada até 2033: obter autonomia na produção de 50% das tecnologias críticas para a defesa.

"Temos pouco menos de dez anos para alcançar esse objetivo que, em termos de tecnologia no mercado de defesa, pode mudar muito. E é importante que a gente caminhe em algumas, como as ligadas a sistemas de propulsão, sensoriamento remoto, inteligência artificial, veículos autônomos, que devem avançar nos próximos anos. Mas o fato é que novas demandas irão surgir, o que torna essa meta, de fato, ainda mais ambiciosa", explica o coronel.

Como funciona o sistema de defesa do Brasil?
No Brasil, a estratégia de defesa é baseada principalmente nos preceitos do direito internacional: a prevalência da resolução de disputas e conflitos por meio da diplomacia, inclusive envolvendo as Forças Armadas. Segundo o coronel Oscar Medeiros Filho, um grande marco para o setor ocorreu em 2008, quando foi introduzida uma política de longo prazo.
"Com isso, a relação com a indústria [de defesa] passa a ser algo essencial. É essa tríplice hélice, que são as demandas das Forças Armadas, do setor produtivo — já que o Brasil tem um parque considerável na área de defesa —, e também o setor acadêmico, com a capacidade de produzir conhecimento de tecnologia", resume.

E alavancar a produção nacional de tecnologia de defesa vem, para o especialista, renovar essa importante política.

"Nesse sentido, qualquer tipo de esforço no planejamento estratégico de longo prazo é muito bem-vindo […]. O Brasil tem esse potencial, basta ver a capacidade industrial brasileira, as ilhas de excelência que nós temos em universidades de ponta. Como toda meta, também é uma aspiração política", pontua.

Qual é o poder militar do Brasil no mundo?
No ano passado, o ranking divulgado pela Global Firepower sobre os exércitos mais poderosos do mundo deixou o Brasil em 12º lugar, uma queda de duas posições em relação aos levantamentos anteriores. Para o coronel Oscar Medeiros Filho, um dos aspectos mais importantes sobre o poder militar é depender cada vez menos de tecnologias de outros países, o que o plano do governo para a indústria brasileira busca atacar.

"O cerceamento tecnológico é uma realidade, especialmente entre grandes potências e potências regionais. E o Brasil possui a estatura geopolítica, naturalmente, de uma potência. Ou seja, não há saída para um país que quer realmente ter autonomia estratégica se não buscar desenvolver a sua capacidade na tecnologia de defesa. E eu acho que é isso que o Brasil tem mostrado, essa busca de uma soberania da sua produção industrial, especialmente a partir de 2008", conta.

Conforme o especialista, outra característica da política externa brasileira é ampliar o leque de parceiros no setor bélico.

"A história do Brasil mostra o quão difícil é depender da tecnologia entre as suas parcerias estratégicas. O tabuleiro internacional traz, hoje, outra preocupação, que é o risco geopolítico das parcerias. O Brasil não tem inimigos internacionais, nem pretende, e eu acho que essa postura de equidistância em relação às grandes potências me parece a melhor das estratégias", conclui.

Qual é o papel do setor de defesa na economia do Brasil?
Considerado o maior exportador de produtos de defesa da América do Sul, a indústria nacional do setor representou quase 5% do produto interno bruto (PIB) do Brasil no ano passado, com a geração de mais de 2,9 milhões de empregos.

O ex-coordenador do CEEEx acrescenta, ainda, que o país conta com expoentes mundiais, como a Embraer, considerada uma das 100 maiores empresas de defesa do mundo.

"Temos em São Paulo todo aquele parque industrial; somos um dos maiores produtores, por exemplo, de grafeno. Eu estive na Mackenzie, agora no final do ano passado também, vendo o potencial que temos utilizando as folhas planas de átomos de carbono com resistência e condutividades espetaculares [importantes para o desenvolvimento tecnológico]. Por isso, encontrar quais são as demandas e investir a partir de uma aproximação dos setores produtivo e da academia."

Já a especialista em segurança e teoria das relações internacionais e professora da Universidade Abu Dhabi, Isabela Gama, defende que o setor de defesa do Brasil precisa de reformas e modernização. "Nós produzimos material bélico de tecnologia médio-avançada, que já conseguimos, inclusive, vender para outros países, mas ainda assim bastante infante, perto da indústria bélica de outros Estados. Eu acredito que, para atingir essa meta que o governo do presidente Lula impôs, na verdade, nós vamos precisar de ajuda externa, especialmente de investimentos privados", diz.

Para Gama, os países do BRICS podem ser importantes parceiros estratégicos do Brasil para esse momento. "Há uma questão de se tornar mais independente em termos de defesa, vendo situações como da Ucrânia, que não tem como se defender, a não ser pedindo ajuda de outros estados. Mas, até o momento, o Brasil não tem ameaças significativas à sua existência", finaliza.

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