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20 fevereiro, 2026

Suprema Corte dos EUA derruba tarifas de Trump e pode resgatar empresas da Indústria Brasileira de Defesa

Decisão histórica por 6 votos a 3 invalida o uso da IEEPA e elimina sobretaxas de até 50% que ameaçaram a sobrevivência de gigantes nacionais como Embraer e Taurus Armas 


*LRCA Defense Consulting - 20/02/2026

A Suprema Corte dos Estados Unidos encerrou nesta sexta-feira (20) um dos capítulos mais turbulentos da história recente do comércio exterior brasileiro, ao derrubar por 6 votos a 3 o conjunto de tarifas impostas pelo presidente Donald Trump com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional de 1977 (IEEPA). A decisão representa um alívio imediato e de enorme magnitude para a indústria brasileira de defesa, que nos últimos meses chegou a encarar o espectro de uma desindustrialização acelerada.

Para empresas como a Taurus Armas e a Embraer, as duas mais duramente atingidas, a sentença da Corte representa não apenas o fim de uma sobretaxa extraordinária, mas o restabelecimento das condições que as tornaram competidoras globais. Com o mercado norte-americano respondendo por fatias superiores a 60% do faturamento de ambas as companhias, o período de vigência das tarifas equivaleu, nas palavras dos próprios executivos, a um embargo comercial velado.

"O presidente reivindica o poder de impor tarifas de valor, duração e alcance ilimitados. Ele não pode fazer isso." — Chief Justice John Roberts, relator da decisão

A decisão: o que a Suprema Corte julgou
O tribunal examinou o recurso do Departamento de Justiça contra decisão de instâncias inferiores que haviam concluído que Trump extrapolou sua autoridade presidencial ao usar a IEEPA para impor tarifas universais. A maioria de Roberts, formada por três juízes de tendência progressista e dois conservadores, Neil Gorsuch e Amy Coney Barrett, aplicou a chamada 'doutrina das questões importantes', que exige autorização explícita do Congresso para ações executivas de 'vasta importância econômica e política'.

A Corte foi clara ao afirmar que a Constituição reserva ao Congresso o poder de tributar, incluindo as tarifas aduaneiras, e que nenhuma delegação implícita poderia autorizar o Executivo a agir com tamanha latitude. A decisão invalida especificamente as tarifas impostas via IEEPA, incluindo as chamadas 'tarifas recíprocas' do Dia da Libertação (2 de abril de 2025), que variavam de 10% a 145%. Outras categorias tarifárias baseadas em fundamentos legais distintos permanecem vigentes, como as tarifas setoriais da Seção 232 sobre aço, alumínio e veículos.

Três juízes dissentiram: Clarence Thomas, Samuel Alito e Brett Kavanaugh. Kavanaugh, em seu voto vencido, alertou que eventual devolução dos valores já arrecadados, estimados em mais de US$ 175 bilhões, geraria um 'caos' administrativo para o Tesouro dos EUA. A questão do reembolso, deliberadamente deixada em aberto pela maioria, deverá ser objeto de disputas jurídicas separadas.

Taurus Armas: do abismo à retomada
Nenhuma outra empresa brasileira viveu com tanta dramaticidade os últimos meses. A Taurus Armas, maior fabricante de armas de fogo do país, exporta para os Estados Unidos mais de 80% de sua produção, o que a tornou a companhia nacional mais dependente daquele mercado em proporção ao faturamento. O anúncio das tarifas de 50% em julho de 2025, motivado por questões político-diplomáticas envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi recebido pelo CEO global da empresa, Salesio Nuhs, como 'inviabilidade total'.

A resposta da Taurus foi uma corrida contra o relógio: desde abril de 2025, quando o 'Dia da Libertação' impôs os primeiros 10%, a empresa passou a acumular estoques de produtos acabados nos EUA para até 90 dias de abastecimento. Com a elevação para 50%, a companhia anunciou em agosto a transferência parcial da linha de montagem da família G, sua principal linha de produtos, para a fábrica em Bainbridge, Geórgia, estado onde já opera há mais de quatro décadas.

"As exportações para os EUA representam 82,5% do faturamento da Taurus. Esta é a empresa gaúcha mais dependente do mercado americano." - Salesio Nuhs, CEO Global da Taurus

O custo humano da crise foi concreto: a perspectiva de relocação integral da produção para os EUA ameaçava até 15 mil empregos no Rio Grande do Sul, estado que já havia sofrido com as enchentes de 2024. A unidade de São Leopoldo, sede histórica da Taurus, teria seu futuro colocado em xeque. Estimativas apontavam que R$ 520 milhões em exportações da cidade estavam atrelados ao mercado americano, o equivalente a 4,7% do PIB municipal.

No comunicado divulgado nesta sexta-feira, a Taurus informou que recolheu aproximadamente US$ 18 milhões em tarifas durante o período de vigência das sobretaxas, valor que 'impactou significativamente o caixa e o resultado da Companhia'. A empresa aguarda as próximas decisões jurídicas sobre a possibilidade de reembolso desses montantes pelo governo americano.

Com a eliminação das tarifas, a Taurus retoma sua posição de única empresa não americana entre as maiores vendedoras de pistolas nos EUA, segmento no qual detém cerca de 30% do mercado na faixa de até US$ 350, competindo diretamente com Ruger e Smith & Wesson.

Embraer: a empresa que não pode ser substituída
A Embraer enfrentou o tarifaço em condições estruturalmente distintas da Taurus, mas igualmente adversas. A fabricante de aeronaves de São José dos Campos é a terceira maior produtora de aviões do mundo, atrás apenas de Airbus e Boeing, e tem nos EUA seu maior cliente: 45% das exportações de jatos comerciais e 70% dos jatos executivos destinam-se ao mercado norte-americano.

O setor aeronáutico foi, em parte, poupado do aumento para 50%; aviões, motores, peças e componentes de aviação foram excluídos do tarifaço em julho de 2025. Ainda assim, a alíquota de 10% mantida desde abril representou um impacto de US$ 65 milhões anuais nas contas da empresa. O CEO Francisco Gomes Neto declarou que o efeito poderia ser comparável ao da pandemia de Covid-19, que forçou cortes de 20% no quadro de funcionários em 2020.

Analistas do Bradesco BBI estimaram um impacto potencial de US$ 220 milhões no EBIT de 2025, equivalente a 35% do lucro operacional projetado para o ano. O JPMorgan calculou um risco de redução de 13% na receita da fabricante. Em resposta, a Embraer anunciou investimentos de US$ 500 milhões nos EUA nos próximos cinco anos, nas instalações de Melbourne (Flórida) e Dallas (Texas), como estratégia para reduzir a exposição tarifária e reforçar argumentos junto ao governo Trump.

"Fazer um novo avião para o segmento regional nos EUA não é algo que acontece rapidamente. Demora anos. O E175 é insubstituível enquanto a cláusula de escopo existir." — Francisco Gomes Neto, CEO da Embraer

A posição singular da Embraer no mercado americano de aviação regional foi, paradoxalmente, seu maior trunfo nas negociações. O jato E175 detém 88% de participação nos voos regionais dos EUA e é o único autorizado a operar em aeroportos de menor porte por força de regulamentação específica. Com quase 1.000 aeronaves em operação no país e quase 3.000 empregos diretos em solo americano, a empresa sustentou que seu saldo comercial com os EUA até 2030 seria positivo em US$ 8 bilhões em favor dos americanos, argumento que embasou pressão junto à administração Trump para isenções setoriais.

A decisão da Suprema Corte, ao eliminar a tarifa base de 10% incidente desde abril, reforça as perspectivas de a Embraer retornar ao regime de tarifa zero para o setor aeronáutico global, política vigente por décadas antes do governo Trump.

O contexto mais amplo: Brasil no epicentro do tarifaço
O Brasil foi um dos países mais afetados pelo tarifaço de Trump, por razões que mesclavam motivações econômicas e geopolíticas. O país foi submetido a uma alíquota base de 10% no Dia da Libertação e, em julho de 2025, sofreu uma tarifa adicional de 40%, elevando o total para 50%, sob a justificativa, incomum no direito comercial internacional, de que o Brasil estaria tratando injustamente o ex-presidente Jair Bolsonaro em processos judiciais domésticos.

O resultado foi devastador para o comércio bilateral: as exportações brasileiras para os EUA recuaram 6,6% em 2025, somando US$ 37,7 bilhões, ante US$ 40,4 bilhões em 2024. No sentido oposto, as importações de produtos americanos cresceram 11,3%, aprofundando o déficit comercial do Brasil com seu principal parceiro fora do bloco regional.

Setores inteiros sentiram o impacto. As exportações de aeronaves e aparelhos espaciais têm 61,7% de dependência do mercado americano; as de armas e munições, 61,3%. A indústria gaúcha, concentrada nesses dois segmentos, foi particularmente vulnerável. Estimativas do governo federal apontavam que US$ 8,9 bilhões em exportações brasileiras permaneciam sujeitos às tarifas mesmo após as isenções parciais obtidas no segundo semestre de 2025.

Perspectivas: o que vem a seguir
A decisão da Suprema Corte não encerra definitivamente a questão tarifária. A administração Trump já sinalizou que buscará alternativas legais para reinstituir parte das tarifas, notadamente via Seção 232 (segurança nacional) e mecanismos de retaliação contra práticas comerciais supostamente desleais. Nenhum desses instrumentos oferece a flexibilidade e agilidade da IEEPA, o que limita o espaço de manobra do Executivo americano no curto prazo.

Para a indústria brasileira de defesa, os próximos meses serão de consolidação e reposicionamento. A Taurus precisará avaliar a extensão dos investimentos já realizados para transferência de produção para os EUA, linhas que podem ser agora parcialmente revertidas, e monitorar de perto qualquer nova legislação tarifária em Washington. A Embraer, por sua vez, tem a oportunidade de retomar as negociações por tarifa zero sem a pressão de um embargo em vigor, o que fortalece sua posição.

A questão do reembolso das tarifas já pagas é outro ponto central. O Tesouro dos EUA arrecadou mais de US$ 175 bilhões via IEEPA. Empresas como a Taurus, que pagou US$ 18 milhões, aguardam orientação judicial sobre como e se esses valores serão devolvidos. A perspectiva de reembolso representa potencial incremento de caixa relevante para companhias que tiveram seus resultados duramente comprimidos ao longo do período.

Para o Brasil como nação exportadora, a decisão restaura a previsibilidade institucional e reequilibra, ao menos parcialmente, a relação comercial com os EUA. O saldo de longo prazo desta crise, porém, revelou uma vulnerabilidade estrutural: a excessiva concentração de exportações em um único mercado. A diversificação de destinos, um imperativo estratégico identificado por analistas ao longo de toda a crise, permanece como agenda inadiável para as empresas do setor de defesa e para a política industrial brasileira.

Dados-chave da decisão e seus impactos 

Suprema Corte dos EUA — Decisão de 20/02/2026

  ▸  Placar: 6 votos a 3 contra as tarifas da IEEPA

  ▸  Relator: Chief Justice John Roberts

  ▸  Fundamento: doutrina das questões importantes; poder tributário reservado ao Congresso

  ▸  Tarifas INVALIDADAS: recíprocas do Dia da Libertação (10% a 145%) e adicionais específicas por país

  ▸  Tarifas MANTIDAS: Seção 232 sobre aço, alumínio, automóveis e cobre

  ▸  Tarifas já arrecadadas via IEEPA: mais de US$ 175 bilhões (reembolso em aberto)

Taurus Armas

  ▸  Dependência do mercado americano: 82,5% do faturamento

  ▸  Tarifas recolhidas durante vigência das sobretaxas: ~US$ 18 milhões

  ▸  Empregos em risco no RS em cenário de relocação integral: até 15.000

  ▸  Market share no segmento de pistolas até US$ 350 nos EUA: ~30%

  ▸  Fábrica americana: atualmente em Bainbridge, Geórgia — em operação há 43 anos no país

Embraer

  ▸  Participação dos EUA na receita: mais de 50% (operações + exportações diretas)

  ▸  Custo estimado da tarifa de 10%: US$ 65 milhões/ano

  ▸  Impacto potencial no EBIT 2025 com tarifa de 50%: US$ 220 milhões (~35% do total)

  ▸  Market share E175 em voos regionais nos EUA: 88%

  ▸  Empregos em solo americano: ~3.000 diretos; 13.000 incluindo cadeia fornecedora

  ▸  Investimento anunciado nos EUA: US$ 500 milhões em 5 anos

27 junho, 2022

Taurus pode ter aumento de demanda e manter a lucratividade dos últimos anos?


*LRCA Defense Consulting - 27/06/2022

Alguns analistas têm questionado a capacidade de a Taurus Armas aumentar a demanda por seus produtos e, assim, manter a alta lucratividade que tem obtido nos últimos anos. Tais análises se baseiam na possibilidade de o Presidente Biden impor medidas restritivas às armas, na queda do número NICS (intenções de compra) nos EUA (para onde a empresa destina quase 80% de suas produtos), na performance apenas razoável de suas concorrentes americanas Smith & Wesson e Ruger, assim como também na capacidade de o restante do mercado internacional absorver uma suposta queda nos EUA.

Com relação à possibilidade de o Presidente Biden e o Partido Democrata conseguirem aprovar leis mais rígidas que restrinjam de forma significativa o direito constitucional de os americanos de bem portarem armas, a matéria publicada ontem por esta editoria esclarece o problema: "Empresas de armas, munições e esportes ao ar livre têm forte alta após decisão da Suprema Corte dos EUA".

Os demais itens serão tratados a seguir.

Performance da Taurus é superior à das concorrentes americanas
Nos Estados Unidos, a Taurus é vista como uma legítima empresa americana, já que tem fábrica no país há 40 anos, é a quarta marca de armas mais vendida e a primeira mais importada lá, com esse país absorvendo cerca de 80% das vendas atuais da unidade brasileira.

Além de continuar firme em terras americanas, onde está mantendo seu nível de vendas e performando melhor que a concorrência, a empresa teve um aumento de 80% na quantidade de armas vendidas para o resto do mundo (desconsiderando-se o Brasil e os EUA).

A nova fábrica na Georgia seguiu, no decorrer desses últimos 12 meses, o seu processo de ramp up com sucesso maior que o previsto. Com capacidade instalada original estimada em 800 mil unidades/ano, a unidade produziu 216 mil armas no 1T22, volume 23,5% superior ao apurado no 1T21, totalizando 909 mil unidades produzidas nos últimos 12 meses. O complexo industrial tem ainda de cerca de 60% de sua área disponível, com espaço para ampliação da capacidade a partir de novos investimentos.

Taurus USA

A produção de armas da unidade brasileira no 1T22 foi de 358 mil unidades, o que representou um aumento de 13,0% em relação ao registrado no mesmo período do ano anterior. A produção média diária no 1T22 foi de 9,0 mil armas/dia, considerando as unidades industriais do Brasil e dos EUA, volume 15,4% superior ao registrado no mesmo período do ano de 2021.

Em termos de vendas totais, foram 517 mil unidades de armas vendidas pela Taurus no 1T22, volume 3,8% superior ao registrado no 1T21. O fato é importante, pois em 2021, o mercado americano ainda estava sob o efeito da alta demanda "fora da curva".

Além de ter o menor custo de produção do mundo e um dos mais eficientes sistemas de vendas e de distribuição, a Taurus está apresentando uma performance superior às suas principais concorrentes, tanto em vendas - já que passou a se constituir na maior vendedora de armas leves do mundo em 2021, como em suas margens, haja vista que sua margem EBITDA é igual ou até superior à margem bruta de muitas delas.

A multinacional gaúcha está hoje focada em manter o forte desempenho operacional que tem apresentado em seus balanços nos últimos anos. Assim, para se adequar ao perfil de mercado atual, a empresa está ampliando a produção de revólveres, arma que se constitui em um produto clássico no qual é líder de produção no mundo. Diferente do segmento de pistolas, cuja demanda aumentou muito nos últimos dois anos e agora começa a se estabilizar, o revólver conta com um mercado mais estável, especialmente nos Estados Unidos.

Por ter previsto esse movimento ainda quando o mercado americano de armas estava superaquecido, a Taurus investiu forte em novas máquinas e no treinamento/formação de recursos humanos envolvidos com o projeto chamado internamente de "Excelência Revólver", automatizando operações, racionalizando processos, diminuindo custos e otimizando seu sistema de vendas.

Tal estratégia se mostrou um grande sucesso e já está fazendo diferença nos resultados da empresa, haja vista que as margens da Linha Revólver, que eram cerca da metade das demais armas, agora estão praticamente iguais. Com isso, a companhia ganha em lucratividade.

Em 2022, além dinamizar ainda mais o esforço de vendas nos EUA e em outros países de alto potencial, o foco da empresa é realizar o lançamento de produtos que tragam ainda melhores margens, visando atingir ou reforçar nichos específicos de mercado, contando também com tecnologias de ponta, como a inserção de grafeno e, inclusive, com o chamado "revólver mais barato do mundo".

O "novo normal" do mercado americano não é tão normal assim
Nos EUA, a intenção de compras de armas medida pelo número NICS ajustado de maio deste ano foi a 3º maior da história para o mês, o que mostra que a demanda por armas de fogo é constante e sustentada, embora abaixo dos totais de pico de 2020 e 2021, anos totalmente atípicos.

O número de maio (ajustado), continuou a sequência de mais de 1 milhão de verificações de antecedentes para a venda de uma arma de fogo ao longo de 34 meses, demonstrando que os consumidores americanos continuam buscando esse produto em níveis elevados. Com essa longa sequência de meses nesse patamar, analistas americanos do setor acreditam que ele tenha passado a se constituir no "novo normal" para o mercado de armas de fogo dos EUA.

No 1T22, mesmo com o NICS variando em -23,8%, as vendas da Taurus nesse país se mantiveram praticamente no mesmo nível do 1T21. Como 2021 foi um período atípico, caracterizado por uma demanda "fora da curva", a performance do empresa no 1T22 evidenciou e caracterizou uma maior presença da marca brasileira/americana no maior mercado consumidor de armas leves, contrariando as oscilações verificadas no NICS e, também, a baixa performance de suas concorrentes locais.

Outro fator relevante a considerar foi que, em 2021, 8,5 milhões de americanos adquiriram sua primeira arma e a tendência é que estes mostrem comportamento semelhante aos demais consumidores locais, ou seja, que continuem comprando mais armas depois da primeira. Além disso, as intenções de compra de 2022 já são 26% maiores do que os dois anos pré-pandemia. Para tais consumidores, o custo mais acessível das "armas de entrada" da Taurus, como a pistola G2c e o revólver 856, são a opção mais interessante.

Armas longas
No maior mercado do mundo para armas leves (pistolas, revólveres, submetralhadoras e fuzis), as armas longas (fuzis, carabinas e rifles) representam cerca de 40% do total, tornando-se um atrativo para qualquer grande empresa mundial do setor.

Até o ano de 2020, a Taurus não manifestava a intenção de entrar nesse mercado, haja vista que produzia apenas um modelo de fuzil e este ainda não estava consolidado internacionalmente. Além disso, todas as grandes empresas americanas do setor, além de centenas de outras pequenas, fabricam uma versão do AR-15/M4.

Com o reconhecimento internacional de seus fuzis obtido nos últimos dois anos, com o desenvolvimento de várias versões do T4 (em tamanhos de cano e calibres), do recente T10 no calibre 7,62 x 51mm e de um rifle de ferrolho (bolt action), a empresa redefiniu sua estratégia e, pelo visto, partirá para o ataque nos EUA. Segundo CEO Global, Salesio Nuhs, a empresa pretende concretizar esse novo e importante passo tendo, como carros-chefes iniciais, o novo rifle de ferrolho e as carabinas lever action (ação por alavanca), sendo que estas já têm uma fatia de mercado de cerca de 4% nos EUA com as carabinas Puma.

As altas margens da empresa, devidas a um custo de produção significativamente menor, permitem que possa ser bastante agressiva, tanto em licitações para o mercado de Law Enforcement (órgãos de segurança americanos), onde ainda não está presente, como para a venda de grandes lotes ao mercado civil.

A propósito, a fábrica de armas longas merecerá uma ampliação própria, haja vista a nova estratégia nos EUA e, também, à possibilidade de vir a fornecer fuzis para o imenso mercado asiático.

Fuzil T4 .300 MLOCK

Ásia, África e Oriente Médio ampliam a diversificação geográfica das vendas
Em mais uma antecipação à normalização da demanda nos EUA (mesmo que em patamares muito mais altos ao período pré-pandemia), a multinacional brasileira continua ampliando a diversificação geográfica de suas vendas, conquistando novos mercados e passando a ter posição de proeminência em outros com grande potencial e/ou com expressivo crescimento.

Dentro dessa estratégia, a Ásia assume importância capital para a empresa, haja vista que alguns de seus países estão entre os que mais crescem no mundo. Além disso, é a região que possui o maior adensamento populacional do planeta e onde os mercados civil, militar, policial, paramilitar e de segurança privada estão entre os mais promissores, haja vista que, via de regra, dispõem de armamentos de muitas origens e, em vários casos, parcialmente obsoletos.

Com esse foco, a empresa já tem uma fábrica na Índia, que deve iniciar suas operações em 2022, contando ainda com a perspectiva paralela de vencer a licitação fast track (regime de urgência) para fornecer em torno de 94 mil fuzis T4 5.56mm ao Exército Indiano, além da possibilidade de concorrer com êxito em uma licitação maior de 350 mil fuzis T4 para essa Força Armada. Há ainda licitações menores em curso, envolvendo forças paramilitares e policiais interessadas em armamentos da Taurus.

A "vizinha" República das Filipinas é outro dos países asiáticos onde a empresa brasileira tem sucesso, já tendo vendido quase 30 mil pistolas TS9 para a Polícia Nacional e mais de 13 mil fuzis T4 para o Exército do país.

Ainda na Ásia, a empresa está direcionando seus esforços atuais de vendas para dois outros países muito promissores e que poderão anunciar novidades ainda em 2022: a  República Popular do Bangladesh (um antigo cliente) e o Nepal, também vizinhos da Índia, o que facilitaria futuros negócios.

Por outro lado, desde o final de 2021, a estratégia de exportações envolvendo a indústria de defesa brasileira passou a ter alguns novos países em foco, como Malásia, Filipinas e Indonésia, no sudeste asiático. A região vive um clima de forte tensão com a expansão militar promovida por Pequim na região marítima ao sul da China. Outro foco de interesse é o norte da África, especialmente o Egito e a Tunísia.

Em maio de 2020, a Taurus Armas realizou a venda de 1 mil fuzis modelo T4 e 200 submetralhadoras para as forças de segurança do Senegal (Gendarmerie Nationale Sénégalaise). A entidade já utilizava as pistolas Taurus e passou a contar também com o Fuzil T4 e com a submetralhadora SMT no calibre 9mm.

Em meados de 2021, o fuzil T4 calibre 5,56mm e a submetralhadora SMT9 calibre 9mm foram aprovados na dura bateria de testes a que foram submetidos pela Malaysian Royal Police (Polícia Real da Malásia). Os testes abordaram: precisão, intercambialidade, areia, lama, imersão em água, queda e funcionalidade. Segundo a Taurus, "o sucesso obtido nessa etapa abre caminho para negociações relevantes do fuzil T4 e da submetralhadora SMT9 com a força policial do país, em uma ação que está em linha com plano estratégico da companhia de expandir sua penetração na região asiática".

Em julho de 2021, a empresa vendeu 4 mil pistolas TS9 calibre 9mm para a Polícia Nacional e Força de Segurança do Líbano. A ISF possui um efetivo de mais de 40 mil policiais. A Taurus foi escolhida para o fornecimento do armamento em licitação internacional aberta, em meio a importantes concorrentes mundiais.

Em setembro de 2021, a Taurus Armas realizou uma venda de armamentos para um país da África Subsaariana, cujo nome não pode ser divulgado por questões de contrato, ampliando a atuação da companhia no mercado dessa região. A nova aquisição pela Força Policial desse país contempla 3.650 unidades do fuzil T4 calibre 5,56 e 3.500 pistolas 9mm PT 92. Em junho de 2021, a Taurus havia realizado a venda de outras 1.850 unidades do fuzil T4 calibre 5,56 e 550 unidades da pistola 9mm PT92 para as Forças Armadas deste mesmo país. Em consequência, o total de armas vendidas para esse país da África Subsaariana é de 5.500 fuzis T4 e de 4.050 pistolas PT92.

Atualmente, o fuzil Taurus T4 participa de uma licitação no Egito, para a venda de 2.000 unidades dessa arma. 

Novos lançamentos para ocupar nichos no mercado internacional
Além desse esforço em outros países para aumentar a diversificação de suas vendas, a Taurus está preparando o lançamento de uma nova gama de fuzis em vários calibres e tamanhos de cano, de uma submetralhadora compacta e de um rifle de ferrolho para ocupar importantes nichos mercadológicos mundiais, como foi o caso do fuzil T4 .300 MLOCK e como será, ainda em 2022, do fuzil T4 em 7,62x39mm, do fuzil T10 em 7,62x51mm e da carabina CTT9c Executive Grade (remove a coronha e vira uma pistola), além de uma nova e atrativa gama de revólveres em diversos modelos e/ou calibres.

É importante ressaltar que o foco da empresa, nos EUA e no resto do mundo, é o mercado de armas civis, pois é neste que obtém as melhores margens, sendo o motivo primordial de a fábrica indiana começar sua fase operacional produzindo esse tipo de armas. As licitações, como toda a venda por atacado, causam uma diminuição das margens, que é compensada, no entanto, pelos altos volumes envolvidos.

Pistola TS9 e fuzil T4

Uma equipe ímpar
A grande equipe que vem transformando a história da Taurus Armas desde 2018, sob a liderança do CEO Global Salesio Nuhs, caracteriza-se pela competência, pelo dinamismo e, principalmente, pela visão de futuro que possui, haja vista que empreendeu um verdadeiro turnaround "de livro" na empresa, levando-a de uma situação difícil à posição de maior vendedora mundial de armamento leve em 2021. E isso não seria conseguido se seus produtos não evidenciassem qualidade e tecnologia.

Servindo-se das informações coletadas e analisadas por um robusto sistema de inteligência de mercado e do Centro Integrado de Tecnologia e Engenharia Brasil / Estados Unidos (CITE), o staff diretivo tem conseguido antecipar fatos e tendências, indo ao encontro dos desejos/necessidades dos clientes e realizando/executando planejamentos de curto, médio e longo prazos para se adequar às muitas variáveis do mercado e à visão de futuro da empresa.

Além de uma mentalidade de alta produtividade, tecnologia, economia de custos e primorosa qualidade, presente hoje desde o CEO até o funcionário mais simples, é de se ressaltar ainda o dinamismo das equipes de vendas nacional e internacional, trabalhando dia e noite na conquista de novos clientes e na manutenção dos atuais.

Rumo ao futuro
O sucesso crescente do fuzil T4 e da Pistola TS9 entre forças armadas e policiais mundiais - especialmente da Ásia, da África e do Oriente Médio (onde há outras boas possibilidades de vendas) - pode fazer com que a Taurus tenha que replanejar sua estratégia de produção da armas, pelo menos enquanto a ampliação na unidade brasileira e a fábrica da Índia não estiverem plenamente operacionais, haja vista que eventuais pedidos de grandes proporções terão que ter o suporte fabril necessário. Neste cenário, é possível que a empresa já possa estar estudando uma solução mais próxima, seja por meio de uma aquisição estratégica, seja pela formação de uma nova joint venture internacional.

Para concluir e responder à pergunta-título desta matéria, tomou-se por ainda base as seguintes considerações:
- o crescimento histórico do mercado americano de armas leves nos últimos 20 anos (7%, segundo a Taurus) e a tendência de seu prosseguimento para os próximos anos, mas agora em um "novo patamar normal";
- a conquista constante de um maior market share nos EUA, como tem ocorrido anualmente desde 2018;
- a visão de futuro da atual administração, que se caracteriza por antecipar movimentos do mercado e aproveitá-los a seu favor; e
- as enormes possibilidades que se abrem na Índia, principalmente, mas também no restante da Ásia e na África.

Portanto, com base nessas e nas demais considerações, esta Consultoria acredita que a produção de 15.000 armas/dia por volta de 2025 possa se tornar real e necessária, sendo viabilizada pela já planejada ampliação/modernização dos parques fabris da Taurus no Brasil, nos EUA e na Índia, concretizando assim um crescimento da demanda por seus produtos e mantendo o alto índice de lucratividade que a tem caracterizado.

26 junho, 2022

Empresas de armas, munições e esportes ao ar livre têm forte alta após decisão da Suprema Corte dos EUA

 

*LRCA Defense Consulting - 26/06/2022

Após a Suprema Corte dos Estados Unidos ter derrubado uma lei de controle de armas do Estado de Nova York, as empresas fabricantes de armas leves americanas registraram fortes altas na quinta e na sexta-feira passadas. 

A Suprema Corte decidiu que a lei do Estado de Nova York - que proíbia as pessoas de obter uma permissão para portar uma arma publicamente (de maneira velada/oculta), a menos que demonstrassem uma necessidade especial - violou a Segunda e a Décima Quarta Emenda da Constituição dos EUA, que dá a "cidadãos comuns e cumpridores da lei" o direito de portar armas publicamente. 

Essa foi a mais importante decisão desse tribunal sobre direitos relativos às armas em mais de uma década, sinalizando um resultado favorável para o setor em outras contendas que visem limitar o direito constitucional de o cidadão de bem americano portar armas.

As ações da Smith & Wesson Brands Inc. subiram mais de 25% nesses dois dias, enquanto as da Sturm Ruger & Co. apresentaram ganhos de 7,1%. Vale registrar que as ações da Sturm Ruger haviam caído 12,3% nos últimos três meses e as ações da Smith & Wesson haviam declinado 13,1%, enquanto o S&P 500 SPX caiu 14,9%.

No caso da S&W, a empresa também acabara de divulgar lucro no quarto trimestre fiscal, embora a receita tivesse caído 44% devido à moderação da demanda por armas de fogo em comparação com um aumento nas vendas de armas um ano atrás, causado por fatores "fora da curva", como eleições, pandemia e distúrbios civis.

Outras ações ligadas ao setor de armas leves, como as de munições e esportes ao ar livre (outdoor), também apresentaram expressivas altas: American: 13%; Vista Outdoor: 5,3%; Clarus Corp.: 6,8%; AMMO Inc.: 5,5%; Sportman's: 4,5%; Big 5: 6%.

Lei Bipartisan Safer Communities Act
Essa lei, aprovada ainda na sexta-feira pelo Congresso, é praticamente inócua no que diz respeito ao controle ou restrições de armas, haja vista que apenas fecha uma brecha de anos em uma legislação sobre violência doméstica – apelidada de “brecha do namorado” – que impede indivíduos que foram condenados por crimes de violência doméstica contra cônjuges, parceiros com quem compartilharam filhos ou parceiros com quem coabitaram, de ter armas. Estatutos antigos não incluíam parceiros íntimos que não podiam não viverem juntos, serem casados ​​ou terem filhos.

O projeto também inclui US$ 750 milhões para ajudar os estados a implementar e executar programas de intervenção em crises. O dinheiro pode ser usado para implementar e gerenciar programas de “bandeira vermelha” – que por meio de ordens judiciais podem impedir temporariamente que indivíduos em crise acessem armas de fogo – e para outros programas de intervenção em crises, como tribunais de saúde mental, tribunais de drogas e tribunais de veteranos.

No final das contas, trata-se mais de um "efeito cosmético" de natureza político-social, do que algo decisivo, sendo apenas uma resposta bipartidária ao clamor de parte da população americana (especialmente dos democratas) em face dos diversos episódios de tiroteios que aconteceram recentemente.

Assim, Biden e os democratas "mostram" que estão cumprindo suas promessas de campanha, enquanto os republicanos "evidenciam" que estão colaborando para "solucionar" os problemas ligados aos tiroteios, sendo que, na verdade, os direitos garantidos pela 2ª e pela 14ª Emenda à Constituição continuam intocáveis.

Para efeitos práticos, o que conta mesmo é a decisão histórica da Suprema Corte ratificando os direitos de os americanos portarem armas.



23 junho, 2022

EUA: Suprema Corte derruba lei de NY que restringe porte oculto de armas

Sumprema Corte dos EUA - Imagens de Drew Angerer/Getty

*NPR, por Nina Totenberg - 23/06/2022

A Suprema Corte dos EUA, em uma decisão de cunho ideológico, decidiu, por 6 votos a 3, que as restrições de Nova York ao porte oculto de armas de fogo em público violam a Segunda Emenda. A decisão, escrita pelo juiz Clarence Thomas, invalida a exigência do estado de que as pessoas mostrem "justa causa" para obter licenças de porte público.

Escrevendo para a maioria conservadora, o juiz Thomas disse: "O exercício de outros direitos constitucionais não exige que os indivíduos demonstrem aos funcionários do governo alguma necessidade especial. O direito da Segunda Emenda de portar armas em público para autodefesa não é diferente. - a exigência de causa viola a Décima Quarta Emenda ao impedir que cidadãos cumpridores da lei com necessidades comuns de autodefesa exerçam seu direito de manter e portar armas em público."

Em discordância, o juiz Stephen Breyer, escrevendo para os liberais da corte, disse: "Ao aplicar essa abordagem à lei de Nova York, a Corte falha em identificar e analisar corretamente os fatos históricos relevantes relativos ao transporte público de armas de fogo. Pode o Tribunal concluir que a lei de Nova York não é "consistente com a tradição histórica da nação de regulamentação de armas de fogo".

Em uma opinião concordante, o juiz conservador Samuel Alito disse que as restrições de Nova York não conseguiram impedir o tiroteio em massa em Buffalo.

"[Como] a dissidência explica o fato de que um dos tiroteios em massa perto do topo de sua lista ocorreu em Buffalo?" ele escreveu. "A lei de Nova York em questão neste caso obviamente não impediu esse perpetrador."

Juízes Brett Kavanaugh escreveu uma opinião concorrente separada. A opinião do juiz Kavanaugh delineou o que a decisão do tribunal faz e não faz.

"A decisão do Tribunal não proíbe os Estados de impor requisitos de licenciamento para o porte de uma arma para autodefesa. Em particular, a decisão do Tribunal não afeta os regimes de licenciamento existentes - conhecidos como regimes de "emissão" - que são empregados em 43 Estados ", escreveu ele no parecer em que se juntou ao presidente da Justiça John Roberts.

"A decisão do Tribunal aborda apenas os regimes de licenciamento discricionários incomuns, conhecidos como regimes 'pode emitir', que são empregados por seis Estados, incluindo Nova York."

Essas jurisdições incluem Califórnia, Havaí, Maryland, Massachusetts, Nova Jersey e Washington, DC. Cerca de 80 milhões de pessoas vivem nesses estados. De fato, somente Nova York, Califórnia e Nova Jersey representam um quinto da população dos EUA. De fato, só no condado de Los Angeles, que tem uma população de mais de 10 milhões de pessoas, as estimativas são de que cerca de 800.000 pessoas agora obterão licenças de transporte, em oposição a menos de 500 hoje.

Ao mesmo tempo, 25 estados atualmente permitem que as pessoas carreguem armas sem qualquer permissão. A maioria dessas leis foi promulgada na última década e algumas foram aprovadas nos últimos dois anos, incluindo leis em Ohio e Geórgia.

Kavanaugh escreveu que o "regime de emissão de exceções de Nova York é constitucionalmente problemático porque concede discrição aberta aos funcionários de licenciamento e autoriza licenças apenas para os candidatos que podem mostrar alguma necessidade especial além da autodefesa".

E acrescentou: "No futuro... os 43 Estados que empregam regimes objetivos de licenciamento de porte de armas para autodefesa podem continuar a fazê-lo. Da mesma forma, os seis Estados, incluindo Nova York, potencialmente afetados pela decisão de hoje podem continuar exigir licenças para porte de armas curtas para autodefesa, desde que esses Estados empreguem requisitos objetivos de licenciamento como os usados ​​pelos 43 Estados."

Primeira grande decisão do tribunal sobre armas desde 2008
A decisão foi a primeira grande decisão do tribunal sobre armas desde 2008, quando os juízes declararam pela primeira vez que o direito de portar armas da Segunda Emenda garante aos indivíduos o direito de manter uma arma em casa para autodefesa. Ele vem contra o pano de fundo de tiroteios em massa em Buffalo e Uvalde, Texas, e tentativas do Congresso de encontrar um acordo sobre a legislação que poderia impedir tais ataques.

Reação democrata
A reação [democrata] à decisão foi rápida.

O presidente Biden disse estar "profundamente decepcionado" com a decisão, que disse "contradizer tanto o bom senso quanto a Constituição". Biden disse que continuará buscando ações executivas para combater a violência armada e pediu aos estados que continuem a aprovar e aplicar leis para proteger contra a violência armada.

A governadora de Nova York, Kathy Hochul, chamou a decisão de "chocante, absolutamente chocante".

13 novembro, 2021

Em julgamento sobre controle de armas em New York, Suprema Corte poderá ter decisão histórica nos EUA

Esse é um dos casos mais importantes para a questão da liberdade e do direito à defesa do cidadão americano. Se tiver sucesso, abrirá um grande precedente nacional, podendo derrubar leis semelhantes de controle de armas na Califórnia e em outros estados americanos. O fato poderá gerar novo aumento de demanda por armas e munições.


*Politico - 03/11/2021

A Suprema Corte dos EUA parece inclinada a eliminar uma série de medidas de controle de armas que exigem que os proprietários de armas de fogo mostrem uma necessidade particular e incomum de obter uma licença para porte de arma fora de casa.

Durante as discussões na quarta-feira sobre as rígidas leis de armas do estado de Nova York, a maioria conservadora da Suprema Corte sinalizou que é provável que decida que o direito constitucional de manter e portar armas impede os estados de insistir que os indivíduos mostrem “causa adequada” antes de serem licenciados para portar uma arma de fogo para autodefesa.

Os juízes nomeados pelos republicanos argumentaram que tais regras tratam os direitos da Segunda Emenda como inferiores a outros direitos constitucionais, como liberdade de expressão e liberdade de reunião.

O juiz Brett Kavanaugh disse que estava preocupado com o fato de o sistema de Nova York permitir que as autoridades aceitem ou rejeitem um pedido de licença. “Não é assim que fazemos os direitos constitucionais”, disse Kavanaugh.

O presidente do tribunal John Roberts expressou reservas semelhantes.

“Você não precisa dizer quando está procurando uma licença para falar em uma esquina e que seu discurso é particularmente importante”, disse Roberts. “A ideia de que você precisa de uma licença para exercer o direito, eu acho, é incomum no contexto da Declaração de Direitos.”

Demonstrators rally outside the U.S. Supreme Court in support of gun rights.


Grande parte da sessão do tribunal de quase duas horas na quarta-feira parecia mais uma lição de história do que um típico argumento legal. Os que contestaram a lei de Nova York argumentaram que ela está fora de sintonia com a forma como outros estados vêem a Segunda Emenda, enquanto os defensores da abordagem de Nova York apontaram para uma longa tradição de muitos estados que impõem uma variedade de limites ao porte de armas em público.

Os juízes liberais disseram que os oponentes do controle de armas estavam pedindo a invalidação de uma série de leis que datam da história americana, até mesmo da era colonial e da Inglaterra.

“O que me parece é que a história e a tradição do porte de armas é que os estados recebem muita deferência sobre isso”, disse a ministra Sonia Sotomayor. “Não sei como superei toda essa história.”

O juiz Stephen Breyer disse que as reivindicações históricas concorrentes demonstraram as deficiências de recorrer à história para interpretar as proteções constitucionais.

“Este é um caso maravilhoso de mostrar os dois lados. Não tenho certeza de como lidar com a história”, disse Breyer.

E a juíza Elana Kagan admitiu que muitos estados permitiam a posse de armas sem qualquer permissão, mas ela observou que esses estados muitas vezes proibiam o porte velado e favoreciam a exibição aberta.

“Se você olhar para a história, você acaba com um conjunto de regras completamente diferente daquelas que você está sugerindo. … É um exemplo, eu acho, da dificuldade de olhar para a história”, disse Kagan a Paul Clement, advogado de dois proprietários de armas do estado de Nova York que estão processando a lei daquele estado.

Clement reconheceu que alguns costumes em torno das armas "mudaram", mas disse que isso não significa que os juízes devam ignorar o fato de que porte de armas em público era legal na maioria dos estados durante a maior parte da história dos Estados Unidos. “Você não pode jogar tudo fora”, disse ele.

O caso argumentado na quarta-feira explora uma questão não resolvida pela Suprema Corte em sua decisão de 2008, Distrito de Columbia v. Heller, uma decisão 5-4 que encontrou o direito constitucional para indivíduos de manter uma arma em casa.

O desafio à lei de Nova York levou os juízes também a debater se o reconhecimento do direito de porte de arma em público desencadearia uma enxurrada de processos sobre os esforços para restringir a posse de armas em lugares específicos que vão desde prédios do governo a universidades e bares.

Clement disse que o direito deveria abranger lugares “tipicamente abertos ao público em geral”, mas Roberts perguntou se isso significava que alguém poderia ou não levar uma arma para um jogo de futebol. Clement ofereceu uma resposta evasiva, dizendo: “Você provavelmente faria isso sozinho e buscaria os análogos históricos”.

Isso fez com que Kagan aparecesse. “Como é que sai do caixa? O que isso significa?" disse ela, perguntando se o campus de uma universidade geralmente era público ou não.

A juíza Amy Coney Barrett perguntou a Clement se seu teste exigiria que o estado permitisse armas na Times Square na véspera de Ano Novo, já que geralmente é aberto ao público, embora o acesso tenda a ser mais controlado naquela noite.

Clement disse que veria isso como o tipo de restrição de tempo, lugar e maneira que os tribunais já permitem para atividades da Primeira Emenda, como protestos ou comícios.

O juiz Samuel Alito ofereceu alguns argumentos únicos contra a lei de Nova York, sugerindo que ela estava enraizada no racismo contra os imigrantes irlandeses e italianos que chegaram ao estado há cerca de um século. Ele também argumentou que o estatuto é efetivamente elitista porque é mais difícil para os cidadãos comuns obter uma licença de porte oculto.

“Existe o direito à legítima defesa para celebridades, juízes estaduais e policiais aposentados, mas não para o tipo de pessoa comum que sente necessidade real de portar uma arma para se proteger”, disse Alito.

A procuradora-geral de Nova York, Barbara Underwood, reconheceu que licenças para porte de arma para caça ou tiro ao alvo estão amplamente disponíveis em Nova York, enquanto as de autodefesa são mais difíceis de obter, especialmente nas partes mais urbanas do estado. Ela alertou que permitir que qualquer pessoa que trabalhasse em Manhattan até tarde da noite carregue uma arma significaria inundar os metrôs da cidade com armas, levantando o que ela chamou de “o espectro particular de muitas pessoas armadas em um espaço fechado”.

Enquanto alguns juízes reconheceram que a maioria dos direitos constitucionais não são vistos como aplicados de forma diferente em uma parte do país e em outra, outros pareciam ver razões válidas para distinguir no contexto dos direitos sobre armas entre áreas urbanas e rurais.

“Parece completamente intuitivo que deveria haver diferentes regimes de armas em Nova York e em Wyoming ... mas é uma coisa difícil de combinar com nossa noção de direitos constitucionais em geral”, disse Kagan. “Nunca sonharíamos realmente em fazer isso para a Primeira Emenda.”

Um advogado que representa o governo Biden, o procurador-geral adjunto Brian Fletcher, encorajou os juízes a adotar tal abordagem quando se trata de armas, dada a longa tolerância do país em relação a uma ampla variedade de regulamentações sobre armas. “A Segunda Emenda tem uma história e tradição distintas”, disse Fletcher.

Talvez a linha mais colorida nos argumentos de quarta-feira tenha vindo de Clemente, que parecia parafrasear um famoso trecho de diálogo da cena do jantar em "When Harry Met Sally", conforme ele disse que seus clientes querem o regime de licenciamento que muitos outros estados têm, onde os candidatos a armas são considerados presumidamente elegíveis a portar uma arma para legítima defesa, a menos que haja uma base para negar uma licença.

“O ponto principal deste caso é: gostaríamos do que eles estão tendo”, disse Clement.

A decisão sobre o caso é esperada para o final de junho ou início de julho de 2022.

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