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11 setembro, 2026

Sistemas não tripulados na defesa e segurança pública brasileira: cenário, investimentos e perspectivas


*Luis Henrique Unterleider - via LinkedIn - 24/08/2026

CENÁRIO, INVESTIMENTOS E PERSPECTIVAS

O emprego de sistemas não tripulados deixou de ser uma discussão teórica para se tornar uma realidade operacional, não apenas no campo de batalha, mas nas ruas, nas fronteiras, nos rios e nas áreas acometidas por desastres naturais. A experiência ucraniana demonstrou de forma cabal que plataformas de baixo custo, descartáveis e altamente adaptáveis podem alterar a dinâmica da guerra. No Brasil, o que se observa é um momento decisivo em que Forças Armadas, órgãos de segurança pública e entidades civis avançam em iniciativas que, somadas, configuram um mercado em maturação acelerada.

DIMENSIONAMENTO DE MERCADO: OS NÚMEROS QUE IMPORTAM

Os números são expressivos em escala global e promissores em dimensão nacional. O mercado global de sistemas não tripulados foi avaliado em US$ 25,01 bilhões em 2025, com projeção de US$ 46,76 bilhões até 2030 (CAGR de 13%) segundo dados da Mordor Intelligence. Projeções mais agressivas apontam US$ 76,05 bilhões até 2035(Future Market Insights).

No segmento militar, o mercado global de drones militares deve saltar de US$ 22,49 bilhões em 2026 para US$ 52,31 bilhões até 2034 (Fortune Business Insights). Já as plataformas terrestres (UGVs) militares crescem de US$ 4,44 bilhões em 2026 para US$ 6,63 bilhões em 2030 (Research and Markets). O segmento de drones de combate a incêndios movimentou US$ 1,33 bilhão em 2025, com projeção de US$ 2,75 bilhões até 2034 (IMARC).

No segmento da segurança pública, o mercado global de drones foi avaliado em US$ 5,9 bilhões em 2025, com projeção de US$ 14,89 bilhões até 2034 (CAGR de 10,8%) segundo o Market Research Future. A pesquisa da Versaterm indica que 76% das agências de segurança pública já utilizam drones em algum grau.

No Brasil, o mercado de drones militares foi avaliado em US$ 207,7 milhões em 2026, com projeção de US$ 446,4 milhões até 2031 (CAGR de 16,5%), acima da média global (Markets and Markets). O mercado geral de plataformas voadoras (UAVs) no Brasil movimentou US$ 85,6 milhões em 2025, com projeção de US$ 157,9 milhões até 2030 (Markets and Markets). Já o mercado de drones de consumo e comercial deve alcançar US$ 3,12 bilhões até 2033 (Grand View Research). O mercado de drones agrícolas (fortemente utilizado com duplo propósito, também para vigilância e mapeamento) deve movimentar cerca de R$ 2 bilhões em 2026 (Xmobots).

O orçamento de defesa brasileiro foi de aproximadamente US$ 23,5 bilhões em 2025, com projeção de US$ 25,1 bilhões em 2026 e US$ 27,2 bilhões nos anos seguintes (Yahoo Finance). Em escala regional, o orçamento militar brasileiro de 2026 supera o somatório dos gastos de defesa de todos os demais países sul-americanos (Rio Times). O governo federal definiu a alocação de R$ 30 bilhões em investimentos estratégicos das Forças Armadas fora do teto fiscal, distribuídos em seis anos (Valor International). O Exército dobrará seu investimento anual para R$ 3 bilhões entre 2026 e 2031 (Times Brasil).

Para quem avalia oportunidade de negócio, está claro que existe disponibilidade de recursos, sendo direcionados para aquisição e desenvolvimento de sistemas não tripulados, com taxa de crescimento acima da média global e demanda reprimida em todos os níveis da administração pública.

FORÇAS ARMADAS: INICIATIVAS E CASOS DE SUCESSO

O marco normativo foi atualizado em novembro de 2025 com o Decreto 12.725/2025, que aprovou as novas versões da Política Nacional de Defesa (PND), Estratégia Nacional de Defesa (END) e do Livro Branco de Defesa Nacional (LBDN), reorientando prioridades para tecnologias avançadas, programas espaciais e capacidades autônomas (Carlton Fields).

EXÉRCITO BRASILEIRO: CTEx COMO VETOR CENTRAL

O Centro Tecnológico do Exército – CTEx, consolidou-se como o principal polo de desenvolvimento de sistemas não tripulados terrestres e aéreos do país. Os projetos em andamento incluem: 

• Unidroid (Ambipar/Ares): UGV com lançador duplo para o míssil anticarro. Versão autônoma em estudo com o SARC Remax 4 (12,7mm).

• SARC REMAX 3 (Ares): estação de armas remotamente controlada com câmeras diurna, termal, telêmetro laser e estabilização em dois eixos.

• SVTRP 1 e SVTRP 2: financiados por FINEP/FAPEB. O SVTRP 1 é transportável por dois militares, com braço robótico para manipulação de objetos. O SVTRP 2 integra sistemas optrônicos, disparo remoto de armamento e transporte autônomo de suprimentos em zona de conflito.

• Veículo detector de radiação: parceria CTEx/IDQBRN, UGV com Raspberry Pi 5 e transmissão de dados radiológicos por rádio.

• Enxames de drones com IA: primeiro demonstrador nacional de controle coordenado de múltiplos drones por IA, apresentado em março de 2026 (DefesaNet).

O Exército já opera drones Nauru (Xmobots) de curto e médio alcance e estuda a aquisição de unidades de longo alcance armadas. Testes de drones e sistemas não tripulados da Base Industrial de Defesa (BID) nacional ganham forte destaque na Operação Perseu e estão previstos para o final de 2026. 

Fontes: Infodefensa e Exército Brasileiro.

FORÇA AÉREA BRASILEIRA:

A FAB opera um Hermes 900 há 15 anos. Trata-se de um SARP de origem israelense (Elbit) baseado em Santa Maria (RS), com mais de 1.000 km de alcance e 8h de autonomia. Foi largamente empregado na Operação Taquari, durante as enchentes que acometeram o Rio Grande do Sul em 2024. Além disso, por meio do Projeto RQ-XBR sob a COPAC, a FAB busca desenvolver um SARP 100% nacional (Agência Marinha).

INDÚSTRIA NACIONAL: A BASE SENDO CONSTRUÍDA

Embora o Brasil ainda dependa significativamente de plataformas importadas para suas necessidades imediatas de sistemas não tripulados, a Base Industrial de Defesa (BID) nacional vem articulando, em ritmo acelerado, múltiplas iniciativas que incluem desde drones de reconhecimento até plataformas armadas, veículos terrestres não tripulados e sistemas anti-drone. 

As iniciativas a seguir representam uma parcela do ecossistema em construção, já que outras tantas encontram-se em estágios iniciais de desenvolvimento, sob financiamento público e parcerias público-privadas, e tendem a se multiplicar à medida que os editais de fomento e as demandas operacionais das Forças Armadas ganhem escala.

• Harpia (AdTech): Recebeu Autorização de Projeto da ANAC em abril de 2026, após quatro anos de desenvolvimento, com investimento superior a R$ 6,7 milhões (FIESC).

• Albatroz Vórtex (Stella/AERO Concepts): Drone de 4 metros de envergadura, 150 kg de carga útil, 24 horas de autonomia e motor a jato de fabricação nacional (A Tarde).

• Nauru 500C (XMobots): Adquirido pelo CENSIPAM para monitoramento da fronteira em Rondônia. Em janeiro de 2026, a empresa firmou acordo de cooperação técnica com a Marinha do Brasil e a Petrobras para adaptar drones da família Nauru a operações embarcadas em navios, com investimento de R$ 40 milhões (Tecnodefesa).

• Taurus Cyber Robotics: Apresenta proposta de modelos aéreos e terrestres, incluindo o TAS (Tactical Air Soldier), drone armado com fuzil T4, câmera 4K, designador laser e IA. Além disso, anuncia drones quadrúpedes e plataformas para operação de munições loitering/kamikaze (Infodefesa). 

• RADeCO: Drone quadrúpede para trabalhos de engenharia, remoção e manipulação de EOD (Neutralização de Artefatos Explosivos) e CBRN (Defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear).

• ARES Aeroespacial e Defesa: Desenvolve o sistema Anti-SARP (Antidrone), baseado no sistema de armas remotamente controlada (SARC) REMAX 4, apresentado na LAAD 2025. O projeto conta com financiamento da FINEP por meio de dois contratos de subvenção econômica somando aproximadamente R$ 30 milhões, destinados ao desenvolvimento de capacidades de detecção, identificação e neutralização de drones e munições vagantes (Valor Econômico).

• Ambipar Robotics: Entregou ao Exército Brasileiro, em maio de 2026, o primeiro robô de Neutralização de Artefatos Explosivos (EOD) inteiramente produzido no Brasil. O sistema foi destinado ao 6º Batalhão de Engenharia de Combate e será empregado na certificação de tropas brasileiras para missões de paz da ONU (LCRA). 

• Exército Brasileiro — Enxame de Drones com IA: O Exército apresentou, em março de 2026, projeto pioneiro e nacional para o controle de enxames de drones em operações militares, com financiamento da FINEP. O sistema emprega inteligência artificial para coordenação de múltiplas plataformas em missões de reconhecimento e ataque, com expectativa de produção futura por empresas da BID nacional (DefesaNet).

FINANCIAMENTO FINEP: ACELERAÇÃO DO FOMENTO PÚBLICO

O papel da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) tem sido central na construção dessa base industrial. Historicamente, a agência já investiu cerca de R$ 100 milhões em projetos iniciais de VANTs militares, remontando ao período 2013-2014, quando os primeiros drones militares nacionais começaram a ser desenvolvidos com recursos públicos e apoio do Ministério da Defesa.

Mais recentemente, o ritmo de fomento acelerou significativamente. Em fevereiro de 2026, a FINEP e o MCTI publicaram um chamamento de R$ 300 milhões em subvenção econômica para empresas da BID. Pouco depois, em maio de 2026, foi lançada a Carta Convite MCTI/FINEP/FNDCT Promoção da Autonomia Tecnológica na Área da Defesa, com até R$ 500 milhões em recursos não reembolsáveis destinados às Instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ministério da Defesa (ICTMDs), com aporte mínimo de R$ 25 milhões por proposta aprovada. O edital contempla sistemas de guiamento, controle e navegação aplicados a veículos não tripulados terrestres, aéreos e navais. Em conjunto, os dois editais somam R$ 800 milhões em recursos comprometidos com a defesa em menos de quatro meses, o maior aporte público unitário já destinado à BID em P&D com capital a fundo perdido.

Adicionalmente, a FINEP e o MCTI destinaram R$ 75 milhões a projetos aeroespaciais de defesa, incluindo iniciativas como o Veículo Lançador de Satélites (VLS) e sistemas correlatos.

Esses desenvolvimentos indicam que a Base Industrial de Defesa brasileira saiu de uma posição praticamente inativa nesse segmento para articular, em menos de dois anos, múltiplas iniciativas simultâneas: o primeiro robo EOD nacional, o primeiro drone armado com potencial de emprego, os primeiros testes de mísseis em drone brasileiro, o primeiro VANT de grande porte em prototipagem, e os primeiros conceitos de enxame com IA e sistemas anti-drone. O desafio agora é transformar protótipos, memorandos de intenção e autorizações regulatórias em sistemas certificados, produzidos em escala e integrados à doutrina das Forças Armadas. 

SEGURANÇA PÚBLICA E DEFESA CIVIL: O MERCADO QUE EMERGIU

O mercado brasileiro de sistemas não tripulados tem uma dimensão que muitas análises subestimam: a segurança pública e a proteção civil. É onde estão os volumes de aquisição mais significativos, com ciclos de compra mais curtos e demanda menos concentrada.

SENASP E A LIDERANÇA DA COORDENAÇÃO FEDERAL

A Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, exerce o papel de coordenadora do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e tem editado portarias estruturadoras, como a Portaria SENASP/MJSP nº 635/2025 e a Portaria SENASP/MJSP nº 648/2026, que definem padrões e diretrizes operacionais para os entes federativos (Biblioteca Digital MJ e DOU).

O Diopi (Divisão de Operações e Inteligência Policial) tem capacitado profissionais de segurança pública para operação de drones, com cursos voltados a investigações, patrulhamento ostensivo e operações.

A criação de um Programa Nacional de Drones foi aprovada para debate na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado em agosto de 2026, com audiência pública reunindo ANAC, Aeronáutica, governo e empresas (Rádio Senado). Esse é um sinal claro de que o tema migrou do campo técnico para o campo político-legislativo, isso significa, do ponto de vista comercial, que regras de mercado e incentivos estão sendo estruturadas.

POLÍCIAS MILITARES E CIVIS: A FRENTE TÁTICA

As Polícias Militares e Polícias Civis estaduais constituem o maior bloco de demanda potencial por sistemas não tripulados no segmento de segurança pública. Inúmeras iniciativas estão em curso em diversas regiões da federação, como por exemplo:

• Mato Grosso do Sul: a Sejusp investiu mais de R$ 1 milhão em drones para ampliar monitoramento, patrulhamento e operações táticas (Campo Grande News).

• Rio de Janeiro: o estado vai investir R$ 27 milhões em sistema antidrones para segurança pública, com equipamentos que detectam, rastreiam e neutralizam drones usados em ações criminosas (G1)

• Polícia Militar do Pará (PMPA): utiliza drones no monitoramento de áreas remotas, combate a crimes ambientais e apoio tático a abordagens (Revista Tópicos).

• Ponta Grossa (PR): investiu R$ 47,5 milhões em segurança, incluindo leitura de placas e rostos com drones pela Guarda Municipal (aRede).

GUARDAS MUNICIPAIS: O SEGMENTO QUE MAIS CRESCE

As guardas municipais tornaram-se, em 2025, a segunda maior força de segurança pública do Brasil em efetivo, com 107.457 integrantes, superando as Polícias Civis (Valor Econômico). São mais de 1.300 municípios com guardas ativas, constituindo um mercado fragmentado mas com enorme potencial de volume.

A cidade de Curitiba, no Paraná, destaca-se pela criação da Patrulha de Drones Aéreos da Guarda Municipal, com 32 equipamentos em operação e 80 guardas habilitados como pilotos. Investimento de R$ 500 mil, financiado por emendas parlamentares (Diário do Sudoeste).

Já em São Paulo, a Guarda Civil Metropolitana utiliza drones para monitorar eventos públicos, identificar atividades suspeitas e apoio tático (ITARC). Ainda no Estado de São Paulo, a prefeitura da cidade de Diadema adquiriu um drone de R$ 365 mil (sob investigação do MP por ausência de licitação) para lançar gás lacrimogêneo em bailes funk, caso que, independente da controvérsia jurídica, ilustra a velocidade com que municípios de médio porte estão adotando a tecnologia (G1).

Para um fornecedor ou integrador, o mercado de guardas municipais é particularmente atrativo: ciclo de decisão mais rápido, financiamento por emendas parlamentares (que dispensam parte da complexidade de editais tradicionais) e necessidade crescente de soluções turnkey com capacitação inclusa.

CORPOS DE BOMBEIROS: DO COMBATE A INCÊNDIOS AO SALVAMENTO

Os Corpos de Bombeiros Militares estaduais utilizam drones desde 2018 em incêndios florestais, buscas e monitoramento de áreas de risco (ANABOM). O mercado global de drones de combate a incêndios cresce a CAGR de 8,17% e deve alcançar US$ 2,75 bilhões até 2034 (IMARC), com segmento autônomo crescendo a 19% ao ano (Strategic Market Research).

No Brasil, podemos destacar algumas iniciativas, dentre as diversas existentes:

• CBMERJ (Rio de Janeiro): incorporou drones com câmeras de alta resolução e sensores para a temporada 2025/2026 (A Tribuna).

• Bombeiros de Goiás: utilizam drone de alta tecnologia em buscas e combate a incêndios (R7).

• Defesa Civil de Erechim (RS): opera drones com geoprocessamento e integrou missão humanitária enviada à Venezuela em 2026 para avaliação de danos estruturais após terremotos (Prefeitura de Erechim).

• Dois Vizinhos (PR): Bombeiros e Defesa Civil utilizam drones no combate à dengue, mapeando focos do Aedes aegypti em áreas de difícil acesso (Prefeitura de Dois Vizinhos).

• O Governo do Estado do Paraná, por meio da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros Militar do Paraná (CBMPR), iniciou processo de aquisição de até 26 robôs de combate a incêndios fabricados pela empresa alemã EmiControls, em contrato avaliado em R$ 85,5 milhões, representando a maior aquisição de robôs de combate a incêndios já realizada por um estado brasileiro (Tribuna PR).

DEFESA CIVIL: O VETOR DE DUPLO PROPÓSITO

A Defesa Civil brasileira, coordenada nacionalmente pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil e operada nos estados e municípios, tem sido uma das maiores beneficiárias da tecnologia de drones. O emprego do Harpia no Acre durante as cheias do Rio Acre é talvez o caso mais emblemático de uso de um sistema originalmente concebido para defesa em missão de proteção civil (FIESC). O Hermes 900 da FAB na Operação Taquari, durante as enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em 2024 é outro exemplo prático desta adoção.

Esse padrão se repete: plataformas desenvolvidas para defesa sendo empregadas em desastres naturais tem implicação comercial direta: viabiliza aquisições com dupla justificativa orçamentária, abrindo fontes de recurso que vão além dos orçamentos específicos de defesa ou segurança.

O LADO DA AMEAÇA: DRONES EM MÃOS CRIMINOSAS

Não se pode discutir o mercado de sistemas não tripulados para segurança pública sem reconhecer que a criminalidade organizada também opera drones. O Comando Vermelho adquiriu drones com capacidade de transporte, descoberto pela polícia em maio de 2026 (O Globo). Durante operação policial no Complexo do Alemão ocorrida em Outubro de 2025, drones do CV sobrevoaram policiais e lançaram granadas (A Gazeta).

Isso cria uma demanda urgente e não discricionária por sistemas antidrones, um mercado global avaliado em US$ 7,1 bilhões em 2025 com projeção de US$ 31,6 bilhões até 2032 (Stratview Research). O investimento do Rio de Janeiro de R$ 27 milhões em antidrones representa o primeiro investimento estadual significativo nesse segmento.

MARCO REGULATÓRIO: O QUE ESTÁ EM JOGO

O PL 3.611/2021, em tramitação no Senado, cria regras para uso de drones por órgãos de segurança pública (Senado). A proposta proíbe acoplamento de armas e automação total nos equipamentos de segurança pública, com votação prevista para 2026.

Para a indústria, a definição desse marco é crítica. Se o armamento for liberado (mesmo que condicionado), abre-se um mercado de kits de armamento para drones de segurança pública, segmento em que a Taurus já está posicionada com o TAS. Se for mantida a proibição, o mercado se concentra em ISR (vigilância, inteligência, reconhecimento) e contra medidas.

DESAFIOS ESTRUTURAIS E LACUNAS

Fragmentação entre defesa e segurança pública: As Forças Armadas desenvolvem iniciativas sob o Ministério da Defesa; as polícias e guardas respondem ao MJSP via SENASP; e a Defesa Civil opera em estrutura paralela. Não há um programa nacional integrado de sistemas não tripulados que contemple defesa e segurança pública simultaneamente.

Descentralização federal: Estados e municípios compram isoladamente, sem escala de compra, sem interoperabilidade e sem padronização técnica. O resultado é ineficiência: Estados e Municípios comprando isoladamente em lotes pequenos, pagando mais por menos.

Dependência tecnológica externa: Subsistemas críticos (motores, sensores de alto desempenho, data links seguros, processamento de bordo, dentre outros) ainda são importados. 

Escala industrial insuficiente: A BID tem empresas competentes (Xmobots, AdTech, Taurus, Ares, Ambipar, Mac Jee/AeroID), mas a produção ainda é tímida em volume. Sem contratos plurianuais e demanda agregada, a indústria não investe em capacitação industrial nem atinge custos competitivos para exportação.

Capacidade de contramedidas: A deficiência mais crítica. O mercado global de contramedidas cresce a taxas aceleradas, e o Brasil está começando agora (R$ 27 milhões no Rio é uma gota no oceano comparado à escala da ameaça).

PERSPECTIVAS E OPORTUNIDADES

Para investidores, indústrias e estrategistas que avaliam o setor de sistemas não tripulados no Brasil, é possível identificar as principais frentes de oportunidade com horizontes temporais e perfis de risco-retorno distintos. O que as une é um denominador comum: a demanda não é especulativa, é estrutural, ancorada em deficiências operacionais reais das Forças Armadas e dos órgãos de segurança pública, e sustentada por fluxos de financiamento que já estão sendo liberados.

CURTO PRAZO: 

CONTRAMEDIDAS E SISTEMAS ANTI-DRONE PARA SEGURANÇA PÚBLICA

A proliferação de drones civis e militares cria demanda não discricionária e imediata por capacidades de detecção, identificação e neutralização. Estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Pará constituem os mercados prioritários. O volume de emendas parlamentares destinadas à segurança pública cresceu 96% entre 2022 e 2024, passando de R$ 346 milhões para R$ 672 milhões, segundo a Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara dos Deputados. 

DRONES ISR PARA GUARDAS MUNICIPAIS

As guardas municipais brasileiras, representam a segunda maior força de segurança pública do país. Contudo, apenas uma fração dos municípios já adotou tecnologia de drones. Salvador implantou drones em 2025, Curitiba adquiriu 32 aeronaves em 2026 com 80 agentes habilitados e municípios do Litoral Norte de SP acessaram emendas parlamentares para o mesmo fim. O gap entre a base instalada e o universo endereçável é significativo. Cada adoção municipal envolve tipicamente aquisição de múltiplas aeronaves, treinamento certificado de operadores, integração com centros de comando e contratos de manutenção recorrente, configurando um ciclo de investimento contínuo. O PL 3.611/2021, em tramitação no Senado, deverá estabelecer o marco regulatório que estrutura o mercado, reduzindo incerteza jurídica e acelerando a curva de adoção.

CAPACITAÇÃO E TREINAMENTO INTEGRADO

A Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) e os estados estão demandando ativamente a formação de operadores de drones para segurança pública. Curitiba habilitou 80 agentes como case inicial, mas a escala nacional exigirá centenas de turmas. O modelo de negócio mais competitivo não é o da venda isolada de equipamento, mas o do pacote integrado: curso certificado + aeronave + software de gestão + suporte técnico recorrente. Fornecedores que entregarem essa solução turnkey terão vantagem e receita via contratos de serviço plurianuais.

MÉDIO PRAZO: 

UGVS PARA BOMBEIROS E DEFESA CIVIL

Plataformas terrestres não tripuladas para manipulação de artefatos explosivos, reconhecimento em áreas contaminadas e combate a incêndios em zonas de difícil acesso representam uma categoria com demanda comprovada e oferta incipiente. A Ambipar Robotics entregou ao Exército, em maio de 2026, o primeiro robô EOD fabricado no Brasil. A Taurus anuncia veículos terrestres e quadrúpedes para armamento de médio e pesado calibre. A transição do protótipo para produção em série, especialmente para corpos de bombeiros militares e coordenadorias estaduais de defesa civil, depende de editais de aquisição que tendem a se multiplicar à medida que os sistemas ganham certificação operacional.

DRONES DE ASA FIXA DE LONGO ALCANCE PARA VIGILÂNCIA DE FRONTEIRA

O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) do Exército Brasileiro está em expansão contínua, com o Nauru (XMobots) já adquirido pelo CENSIPAM para monitoramento da fronteira em Rondônia. A Consulta Pública do Estado-Maior do Exército para o SARP 3 confirma a intenção de migrar de plataformas exclusivamente de monitoramento para sistemas com capacidade de emprego de força. 

LONGO PRAZO:

DRONES 100% NACIONAIS DE COMBATE

A Comissão de Aquisições da Aeronáutica (COPAC) está mapeando a Base Industrial de Defesa para identificar capacidades nacionais em sistemas não tripulados de combate. O edital MCTI/FINEP de R$ 500 milhões contempla expressamente sistemas de guiamento, controle e navegação aplicados a veículos não tripulados. Empresas que se posicionarem agora no ecossistema de fornecedores terão vantagem quando os programas de aquisição avançarem, convertendo capacidade técnica em contratos de fornecimento de longo prazo. 

ENXAMES DE DRONES COM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

O Exército Brasileiro apresentou em março de 2026 um demonstrador nacional pioneiro de controle de enxames de drones com IA, financiado pela FINEP, para coordenação de múltiplas plataformas em missões de reconhecimento e ataque. A transição de protótipo para capacidade operacional cria demanda por três camadas tecnológicas: software de coordenação descentralizada, redes de comunicação mesh resilientes e IA de bordo para processamento em tempo real. Estas são competências com alto valor agregado, baixa commoditização e barreiras de entrada significativas, características que tornam o segmento atrativo para investimento em P&D e propriedade intelectual.

ROBÓTICA QUADRÚPEDE (UGVs LEGGED)

A Taurus e a RADeCO já dispõem de plataformas quadrúpedes. A demanda para essas plataformas é real e multisetorial: EOD e CBRN pelo Exército e Defesa Civil, patrulhamento de instalações críticas (infraestrutura energética, portuária, aeroportuária) e apoio a operações de Forças Especiais. A convergência entre armamento e a maturação de plataformas robóticas nacionais sugere que a integração arma-plataforma será o próximo vetor de produtos dentro de um horizonte de 3 a 5 anos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Brasil está diante de uma janela de oportunidade que não vai permanecer aberta por muito tempo. Os recursos existem: R$ 30 bilhões fora do teto fiscal para defesa, orçamento de segurança pública estadual em expansão, guardas municipais com efetivo superior ao das polícias civis e demanda crescente por tecnologia. O marco normativo está sendo definido agora, no Senado e na ANAC. A Base Industrial de Defesa tem empresas competentes e ágeis, mas precisa de contratos plurianuais e demanda agregada para escalar.

O que fará a diferença entre um Brasil protagonista e um Brasil importador será a velocidade de execução e a capacidade de integrar iniciativas que hoje operam de forma separada: defesa de um lado, segurança pública de outro, proteção civil em terceiro. Quem conseguir estruturar uma oferta que atenda simultaneamente esses três mercados, com tecnologia nacional, preço competitivo e modelo de negócio escalável, estará posicionado em um mercado de R$ 2 bilhões (drones militares), R$ 800 milhões (UAVs gerais) e mais R$ 2 bilhões (drones comerciais/agrícolas de duplo propósito) crescendo a dois dígitos ao ano, com demanda reprimida em todo o território nacional.

Não é uma questão de se o Brasil vai investir massivamente em sistemas não tripulados. É uma questão de quando, com quem e em que escala. Para os que estão prontos, o momento é agora. 

 

*Luis Henrique Unterleider é executivo sênior com mais de 25 anos de liderança estratégica internacional em consultoria, desenvolvimento de negócios globais e otimização operacional. Com experiência consolidada em governança de conselho e decisão orientada por dados, atua nos setores de defesa, FMCG, manufatura e indústria química, com histórico comprovado de criação sustentável de valor em mercados globais complexos. 

25 agosto, 2026

Da Mertsav ao KC-390: o que um Conselho Estratégico pode destravar entre Brasil e Turquia

De metralhadoras pesadas e drones a mísseis e caças, blindados, motores turbojato e aviões de transporte, as indústrias dos dois países já convergem em pelo menos cinco frentes; um acordo governo a governo tende a transformar negociações em curso em contratos fechados



*LRCA Defense Consulting - 25/08/2026

O telefonema entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, em 24 de agosto, e o consequente acordo para a criação de um Conselho Estratégico em nível de vice-presidentes, não nasce de uma relação incipiente. Nasce de um relacionamento que já amadureceu, item por item, ao longo de mais de vinte anos, e que nos últimos dois se acelerou de forma expressiva. Antes de se perguntar o que um acordo mais amplo entre os dois países pode gerar, vale medir o que já existe: e o que já existe é consideravelmente mais denso do que a maior parte da cobertura sobre o telefonema deixou entrever.

Um ponto de partida antigo 
A presença turca no mercado brasileiro de defesa não começou em 2026, nem em 2022. Já em 2021, a CBC lançava no Brasil, sob a marca CBC by ATA, os rifles de ferrolho Turqua, fabricados pela turca ATA Arms, um sinal discreto, mas precoce, de que a indústria turca de armas leves já enxergava o mercado brasileiro como destino natural. O que hoje se apresenta como novidade, drones, blindados, mísseis, é na verdade a maturação de um relacionamento comercial que já tinha raízes.

O Acordo de Cooperação na Indústria de Defesa entre os dois países foi assinado simultaneamente em Ancara e Brasília em 25 de março de 2022. Levou quatro anos para virar lei: o Senado brasileiro aprovou o texto (PDL 262/2024) em setembro de 2025, e a Comissão de Relações Exteriores da Grande Assembleia Nacional da Turquia (TBMM) fez o mesmo em abril de 2026, na mesma semana em que seu vice-ministro das Relações Exteriores, Mehmet Kemal Bozay, declarou perante a comissão que a parceria já "ultrapassou o estágio de intenções". Em novembro de 2024, o Ministério da Defesa já havia promovido, por meio do Departamento de Produtos de Defesa (Seprod), um Diálogo da Indústria de Defesa (DID) Brasil-Turquia que reuniu 14 empresas turcas e 13 brasileiras, uma iniciativa que remonta a conversas iniciadas em 2019.

Ou seja: quando os dois presidentes conversaram por telefone em agosto de 2026, eles não estavam abrindo uma porta. Estavam formalizando, no mais alto nível político, uma aproximação que a indústria e as Forças Armadas dos dois países já vinham construindo havia anos, quase sempre longe dos holofotes.

Cinco frentes já em movimento 
Aeronáutica
A Embraer e a Turkish Aerospace (TUSAŞ) assinaram, na LAAD de abril de 2025, um Memorando de Entendimento para avaliar a produção sob licença, na Turquia, dos jatos comerciais E190-E2 e E195-E2, com o vice-presidente Geraldo Alckmin presente à cerimônia. Meses depois, a paulista Akaer, parceira estrutural da TUSAŞ desde 2021 no caça-treinador HÜRJET (responsável pela fuselagem traseira e empenagens), recebeu em sua sede, em São José dos Campos, o vice-presidente executivo e o consultor de operações internacionais da TUSAŞ, além de manter, desde 2025, um memorando com a Aselsan para sistemas de defesa. 

Do lado dos aviões de transporte, o interesse é recíproco e crescente: o comandante da Força Aérea da Turquia visitou pessoalmente o KC-390 em operação em Portugal, em maio de 2026, num momento em que a frota turca de C-130 sofre pressão após a perda de uma aeronave, com toda a tripulação, na Geórgia, em novembro de 2025, e que a Grécia (rival e vizinha) sinaliza a compra do C-390.


Blindados
O programa "Nova Família de Veículos Blindados sobre Lagartas", que prevê 65 carros de combate e 78 veículos de combate de infantaria, afunilou-se a quatro finalistas, entre eles o Tulpar, da turca Otokar. Em outubro de 2025, o comandante do Exército Brasileiro, general Tomás Paiva, visitou a fábrica da Otokar em Sakarya; em abril de 2026, foi a vez do chefe do Estado-Maior, general Montenegro Junior, repetir a visita durante a LAAD 2026. A Otokar já sinalizou abertura para transferência de tecnologia e produção local, e a comunalidade entre a torre HITFACT MkII do Tulpar e a do Centauro II, já em uso no Brasil, é um argumento técnico a favor do blindado turco. 


Armas leves e coletivas
A Taurus negocia, desde a LAAD de abril de 2025, a aquisição do controle acionário da turca Mertsav Savunma Sistemleri, fabricante de metralhadoras leves e pesadas. Mesmo antes de a operação ser formalizada, a Taurus já venceu, via Estados Unidos, uma licitação para fornecer 300 metralhadoras Mertsav MMG762 ao Exército Brasileiro, e a Marinha assinou, em fevereiro de 2026, um protocolo com a Taurus para o desenvolvimento de sistemas de armas coletivas baseados justamente nos modelos turcos. Em abril de 2026, armas da Mertsav já eram apresentadas ao lado de produtos Taurus, sob o mesmo rótulo comercial, em evento institucional para as Forças Armadas. 


Mísseis
O míssil antinavio MANSUP-ER, da brasileira SIATT, ganhou alcance superior a 200 km (ante 70 km da versão original) graças ao motor turbojato KTJ-3200, da turca Kale Jet Engines, primeira exportação desse motor para fora da Turquia. O arranjo é trilateral, com o Grupo EDGE, dos Emirados Árabes Unidos, financiando e trazendo a Repkon, também turca, para a fabricação do corpo estrutural do míssil. 


Drones e defesa antiaérea
O drone Bayraktar TB2, da Baykar, é elegível ao edital brasileiro de VANTs armados, e o comandante do Exército já visitou a fábrica da empresa em 2025. O modelo mais recente, o TB3, é um dos itens hoje discutidos para eventual produção local destinada ao Sisfron, o sistema de monitoramento de fronteiras.

O que muda com um acordo mais amplo 
Se essa é a fotografia do presente, a pergunta relevante é o que um Conselho Estratégico em nível de vice-presidentes, com mandato para elaborar um roteiro bilateral, pode destravar em cada uma dessas frentes nos próximos anos.

No caso dos blindados, o efeito mais provável é político, não técnico. A decisão sobre o Tulpar já deveria seguir critérios de desempenho, custo e transferência de tecnologia; um guarda-chuva governo a governo tende a funcionar como acelerador de cronograma e como garantia de continuidade caso o programa avance por mais de um ciclo eleitoral, hipótese nada trivial em um contrato bilionário que atravessa gestões.

No caso da Mertsav, o acordo mais amplo dificilmente muda a lógica comercial da operação, que é da Taurus, mas pode acelerar aprovações regulatórias dos dois lados, sobretudo as que dependem de autorizações de exportação de tecnologia sensível de armas coletivas. Uma Taurus Turquia operando como quarta unidade produtiva do grupo, ao lado de Brasil, Estados Unidos e Índia, é um desfecho que já está desenhado; o que falta é o ritmo burocrático acompanhar o ritmo comercial.

O item mais promissor, e também o mais urgente do ponto de vista turco, é o aeronáutico. A Turquia precisa substituir uma frota de C-130 envelhecida e agora sob suspeita, depois do acidente fatal de novembro de 2025; comprou, como solução-ponte, C-130J usados da Royal Air Force, mas essa é uma resposta de curto prazo. O KC-390 já conquistou doze países, incluindo, em maio de 2026, os Emirados Árabes Unidos, sua estreia no Oriente Médio; um pedido turco, ainda que modesto no primeiro lote, teria peso simbólico desproporcional ao tamanho do contrato, pois colocaria o cargueiro brasileiro operando ao lado de aliados da OTAN na fronteira do Mediterrâneo Oriental, região de alta tensão geopolítica. Um acordo governo a governo, no molde do que já se pratica com a exportação de armas Mertsav, tende a ser o instrumento mais rápido para viabilizar essa venda, já que reduz a exposição de ambos os lados a processos de licitação aberta. 


Há ainda uma camada mais especulativa, mas que a imprensa turca já verbaliza havia meses: uma eventual participação brasileira, via Embraer ou Akaer, no desenvolvimento do caça de quinta geração KAAN, cujo primeiro protótipo voou em 2026. Nenhuma das duas empresas confirmou esse desdobramento, e é prudente tratá-lo como hipótese, não como fato; mas a lógica industrial da parceria, com a Akaer já dentro da estrutura do HÜRJET e da relação com a Aselsan, aponta nessa direção, e um Conselho Estratégico é exatamente o tipo de mecanismo político que costuma anteceder decisões desse porte.

No campo dos mísseis, o modelo trilateral do MANSUP-ER (Brasil integrando, Emirados financiando, Turquia fornecendo propulsão e componentes estruturais) já demonstrou funcionar. É razoável esperar que esse arranjo sirva de referência para outros programas, sobretudo em defesa antiaérea de curto alcance e sistemas contra drones, área em que a experiência turca, testada nos conflitos do Cáucaso e do Oriente Médio, é reconhecida internacionalmente.

Uma complementaridade, não uma dependência 
O argumento que sustenta essa aproximação não é apenas comercial. A Turquia lidera em drones, motores a jato e caças leves; o Brasil se destaca em aeronaves de transporte, jatos regionais e engenharia aeroespacial. Nenhum dos dois países está entregando ao outro uma dependência estratégica; ambos preenchem lacunas específicas nas cadeias industriais um do outro, o que é uma condição bem mais saudável, do ponto de vista de soberania, do que a relação clássica entre fornecedor único e comprador cativo.

Para o Brasil, gastando algo como US$ 25 bilhões anuais em defesa, a Turquia representa uma fonte de tecnologia livre de restrições ITAR e BAFTA, o que facilita exportações futuras de produtos que incorporem componentes turcos. Para a Turquia, cujo setor de defesa busca mercados além da OTAN, o País é um cliente de peso e uma porta de entrada para toda a América Latina, região onde a Otokar já negocia com a Colômbia e o KC-390 desperta interesse além das fronteiras brasileiras.

O risco a monitorar é o inverso do entusiasmo: acordos governo a governo tendem a acelerar processos que já estão tecnicamente maduros, mas raramente resolvem, por si só, gargalos orçamentários. O programa de blindados do Exército convive com restrições fiscais conhecidas, e a decisão sobre o Tulpar deverá refletir isso independentemente do que for costurado entre os vice-presidentes.

06 abril, 2026

Brasil e Turquia: a aliança industrial de defesa que está redesenhando o mapa geopolítico do Sul Global

Da ratificação legislativa aos contratos concretos, a parceria bilateral entre Brasília e Ancara avança a passos largos e pode transformar a indústria de defesa dos dois países por décadas, com implicações diretas na Embraer, Akaer, SIATT e Taurus 

Imagem meramente ilustrativa

*LRCA Defense Consulting - 06/04/2026

Havia quatro anos que o documento aguardava. Assinado simultaneamente em Ancara e Brasília em 25 de março de 2022, o Acordo de Cooperação na Indústria de Defesa entre Brasil e Turquia percorreu um longo caminho burocrático antes de ganhar força de lei. O Senado Federal brasileiro aprovou o projeto (PDL 262/2024) em setembro de 2025. Agora, nos primeiros dias de abril de 2026, o acordo cruzou o último obstáculo: a Comissão de Relações Exteriores da Grande Assembleia Nacional da Turquia (TBMM) aprovou o texto por unanimidade, encaminhando-o ao plenário para votação final.

O vice-ministro das Relações Exteriores turco, Mehmet Kemal Bozay, foi além do protocolo diplomático durante a sessão. Segundo a transcrição oficial da comissão, ele afirmou que a parceria já "ultrapassou o estágio de intenções", citando projetos em andamento com a Embraer, a Akaer Engenharia e programas conjuntos de drones como o ANKA e o AKSUNGUR. Em outras palavras: mesmo antes da ratificação formal, o acordo já havia gerado realidade industrial.

Embraer e TUSAŞ: quando o jato comercial aponta para o cargueiro e o caça
O símbolo mais visível da cooperação foi selado em abril de 2025, durante a LAAD Defence & Security, no Rio de Janeiro. A Turkish Aerospace (TUSAŞ) e a Embraer assinaram um Memorando de Entendimento para explorar a colaboração industrial, incluindo a potencial produção dos jatos comerciais E2 da Embraer, especificamente o E190-E2 e o E195-E2, na Turquia. O vice-presidente brasileiro Geraldo Alckmin acompanhou pessoalmente a cerimônia de assinatura.

Mas analistas do setor rapidamente perceberam que o acordo vai muito além de jatos regionais. O Ministro da Defesa do Brasil, José Mucio, disse à Reuters que a Embraer está negociando a venda da aeronave de transporte militar KC-390 para a Turquia, Polônia e Finlândia. O KC-390, que compete diretamente com o lendário C-130 Hercules da Lockheed Martin, já foi selecionado por oito países europeus, a maioria deles membros da OTAN, entre 2019 e 2025, somando cerca de 29 aeronaves encomendadas ou planejadas.

Há ainda uma terceira camada, mais ambiciosa: especialistas cogitam a possível participação brasileira no desenvolvimento do caça de 5ª geração KAAN, projeto estratégico da TUSAŞ. O primeiro protótipo do KAAN está previsto para voar entre maio e junho de 2026, com outros dois protótipos em construção. Nenhuma das empresas confirmou oficialmente esse desdobramento, mas a lógica industrial da parceria aponta nessa direção.

O motor que fez história: Kale e SIATT
Um dos marcos mais concretos da cooperação bilateral aconteceu de forma quase silenciosa, mas com enorme peso estratégico. Durante a LAAD 2025, a empresa Kale Jet Engines confirmou o contrato de exportação inaugural do motor turbojato KTJ-3200 para atender a demanda da brasileira SIATT e seu míssil antinavio MANSUP-ER. Foi a primeira exportação desse motor fora da Turquia.

O significado é duplo. Para a Turquia, representa a consolidação de sua indústria de propulsão no mercado internacional. Para o Brasil, resolve um gargalo crítico: o CEO da SIATT, Rogério Salvador, afirmou durante a LAAD 2025 que a indústria brasileira de turbinas não teria disponível e "pronto para uso" o motor pretendido pela empresa.

O MANSUP-ER, graças ao uso do motor turbojato, terá um alcance superior a 200 km, um salto significativo em relação aos 70 km do MANSUP original, que usa propulsão a foguete. O míssil é um projeto conjunto Brasil-Emirados Árabes Unidos e já foi adquirido pelas marinhas dos dois países. A SIATT já iniciou a integração do KTJ-3200 no MANSUP-ER, com múltiplos motores a serem entregues para testes de voo.


Akaer: a engenharia brasileira no coração dos programas turcos
Menos conhecida do grande público, a empresa paulista Akaer Engenharia, sediada em São José dos Campos, representa um caso raro de integração profunda em programas estratégicos estrangeiros. Desde 2023, a empresa participa do programa HÜRJET, o treinador avançado e avião de combate leve em desenvolvimento pela TUSAŞ, sendo responsável pelo projeto estrutural, cálculos e instalação de sistemas da fuselagem traseira e empenagens.

A parceria é a demonstração prática de que o Brasil não é apenas um comprador de tecnologia turca, mas também um fornecedor de competências de alto nível. A relação foi incrementada ainda mais em 2025, com um MoU entre a Akaer e a Aselsan, empresa turca líder em eletrônica de defesa, para o desenvolvimento conjunto de soluções na área.


 

Taurus mira a Turquia e um mercado de US$ 74 bilhões
A movimentação mais recente, e também a de maior repercussão no mercado financeiro, envolve a Taurus Armas. Em 2 de abril de 2026, a empresa apresentou uma proposta não vinculante para adquirir o controle acionário da Mertsav Savunma Sistemleri, companhia turca especializada no desenvolvimento e na fabricação de sistemas de armas de médio calibre.

A lógica estratégica por trás da operação é direta. A Mertsav possui três unidades de produção em Istambul e na Área Industrial de Defesa de Kırıkkale, além de um portfólio que inclui metralhadoras leves nos calibres 5,56 mm e 7,62 mm, metralhadoras pesadas calibre .50 BMG e outros armamentos. Trata-se exatamente do segmento de produtos que a Taurus precisa incorporar para ampliar sua atuação no mercado militar e, inclusive, atender compromissos já assumidos com o Corpo de Fuzileiros Navais brasileiro.

Ao adquirir a Mertsav, a Taurus encurtaria em vários anos o desenvolvimento dessa linha de armamentos e daria um salto de capacidade no segmento militar. Como esta Consultoria já observou anteriormente, a operação teria um significado inédito: seria a primeira vez que uma empresa brasileira absorveria tecnologia estrangeira de ponta no campo das armas coletivas com o objetivo explícito de nacionalizar sua produção e, posteriormente, exportá-la.

Mais do que uma aquisição corporativa, a operação representaria uma mudança de identidade para a Taurus. A empresa deixaria de ser apenas a maior vendedora mundial de armas leves para se transformar em um fabricante completo de sistemas militares, com produtos que abrangeriam desde o calibre .22 LR até o .50 BMG.

Para a própria Mertsav, a transação também mudaria radicalmente sua posição no mercado. Deixaria de ser uma empresa turca pouco conhecida internacionalmente para se tornar a fornecedora da tecnologia que equipará duas Forças Armadas brasileiras. Isso porque, por meio de uma licitação internacional vencida pela Taurus, a empresa fornecerá 300 metralhadoras pesadas calibre .50 ao Exército Brasileiro.

Se a aquisição for concluída, a Taurus passará a contar com unidades produtivas no Brasil, nos Estados Unidos, na Índia e na Turquia, tornando-se uma das poucas fabricantes de armamentos do hemisfério sul com presença efetivamente global.

A geopolítica por trás dos contratos
O que está sendo construído entre Brasília e Ancara não é apenas uma série de acordos comerciais. É uma reconfiguração estratégica que responde a um momento de fragmentação global.

A cooperação Brasil-Turquia reflete o esforço brasileiro de diversificar suas parcerias internacionais, reduzindo dependências históricas e buscando inovação em setores estratégicos da defesa. Do lado turco, a lógica é simétrica: a indústria de defesa do país busca ampliar mercados além da OTAN, e o Brasil, com cerca de US$ 25 bilhões gastos anualmente em defesa, representa um cliente estratégico de primeira ordem.

A Turquia foi bem-sucedida na fabricação de drones e se tornou um exportador influente, com papel importante em conflitos como o de Nagorno-Karabakh, projetando sua indústria de defesa para o cenário mundial. O Brasil, por sua vez, já aparece entre os novos atores que ganharam espaço no mercado europeu de defesa, ao lado de Coreia do Sul e Turquia, segundo relatório da Fondation pour la Recherche Stratégique.

A complementaridade é quase perfeita: a Turquia lidera em drones, motores a jato e caças leves; o Brasil se destaca em aeronaves de transporte, jatos regionais e engenharia aeroespacial. O acordo de 2022, ao proteger propriedade intelectual e permitir transferência de tecnologia, cria o arcabouço legal para explorar exatamente essa sinergia.

O que vem a seguir
Com a ratificação turca iminente no plenário da TBMM, espera-se uma aceleração dos projetos em curso. Fontes diplomáticas indicam novas rodadas de negociação e visitas técnicas ainda em 2026. O primeiro voo do MANSUP-ER está previsto para meados deste ano. A Taurus aguarda conclusão da due diligence com a Mertsav. E a TUSAŞ promete pelo menos duas novidades relevantes na feira SAHA 2026.

A parceria que começou como um protocolo de intenções assinado em 2022 tornou-se, em quatro anos, um eixo concreto da política industrial de defesa de dois países que querem ser protagonistas, e não coadjuvantes. na ordem global que se redesenha.

10 dezembro, 2025

Marinhas do Brasil e da Índia firmam acordo histórico para manutenção de submarinos Scorpène

Imagem meramente ilustrativa

*LRCA Defense Consulting - 10/12/2025

Em um marco para a cooperação naval Sul-Sul, a Marinha do Brasil (MB) assinou ontem, 9 de dezembro, um Memorando de Entendimento (MoU) tripartite com a Marinha da Índia e o estaleiro estatal indiano Mazagon Dock Shipbuilders Limited (MDL). O acordo foca na troca de informações sobre manutenção de submarinos da classe Scorpène e outras embarcações, visando aprimorar o suporte ao ciclo de vida dessas plataformas estratégicas.​

A cerimônia ocorreu durante a visita oficial do Almirante Dinesh K. Tripathi, Chefe do Estado-Maior da Marinha indiana (CNS), ao Brasil, entre 9 e 12 de dezembro. Tripathi reuniu-se com autoridades brasileiras, incluindo o Ministro da Defesa José Múcio Monteiro Filho, o Chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas Almirante Renato Rodrigues de Aguiar Freire e o Comandante da MB Almirante Marcos Sampaio Olsen. Os signatários foram o Almirante Tripathi, o Almirante Olsen e o Capitão Jagmohan, presidente da MDL.​

Pilar estratégico da parceria bilateral
O MoU alinha-se aos cinco pilares da cooperação Índia-Brasil para a próxima década, com defesa e segurança em destaque, conforme acordos da visita do Primeiro-Ministro Narendra Modi ao Brasil e reuniões como a de outubro de 2025 entre o Ministro Rajnath Singh e o Vice-Presidente Geraldo Alckmin. Inclui compartilhamento de práticas de manutenção, logística, treinamento e inovação em reparos, além de avanços em P&D, serviços hidrográficos e conscientização marítima no Atlântico Sul e Oceano Índico.​

Tanto o Brasil quanto a Índia operam submarinos Scorpène – o Brasil em seu programa PROSUB e a Índia no Projeto 75 pela MDL –, o que potencializa sinergias operacionais e interoperabilidade em exercícios conjuntos, cibersegurança e compartilhamento de dados classificados.​

Impactos para a defesa regional
Essa iniciativa fortalece a prontidão naval de ambas as nações e abre portas para colaborações futuras, como uma possível visita de Estado do Presidente brasileiro à Índia em 2026. Analistas veem o acordo como um contrapeso estratégico em regiões de crescente tensão marítima, promovendo autonomia tecnológica sem dependência de fornecedores tradicionais.

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