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01 junho, 2026

Brasil quer construir em Itaguaí os submarinos Scorpènes que a França vai vender à Argentina

Ministro Múcio voltou de Buenos Aires com a perspectiva de que o Complexo Naval de Itaguaí seja o estaleiro dos três submarinos encomendados pelo governo Milei; KC-390 também está na pauta, mas enfrenta obstáculo britânico


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LRCA Defense Consulting - 01/06/2026

O ministro da Defesa do Brasil, José Múcio Monteiro Filho, retornou da Argentina na semana passada com uma perspectiva estratégica que pode transformar o Complexo Naval de Itaguaí em peça central do rearmamento submarino da América do Sul: os três submarinos classe Scorpène que Buenos Aires pretende comprar da França devem ser construídos no Brasil. A revelação foi feita pelo próprio ministro em evento promovido pela Seta, em Brasília, na quarta-feira, 28 de maio.

A visita de Múcio à Argentina, no dia 26, foi a primeira de uma série de missões de diplomacia das Forças Armadas planejadas pelo ministro para promover a Base Industrial de Defesa (BID) brasileira nos países vizinhos. Na bagagem de volta, além da perspectiva sobre os submarinos, veio o interesse do homólogo argentino, tenente-general Carlos Alberto Presti, em analisar a compra do cargueiro militar KC-390, fabricado pela Embraer.

O modelo financeiro e o papel de Itaguaí
A operação tem uma lógica triangular: o Naval Group, empresa estatal francesa que detém 41% do capital do Complexo Naval de Itaguaí (sendo os demais 59% da Novonor) já é o parceiro industrial do Brasil no programa PROSUB desde 2008. Os quatro submarinos convencionais da classe Riachuelo, derivados do mesmo projeto Scorpène, foram todos construídos em Itaguaí. O quarto deles, o Almirante Karam (S43), foi lançado ao mar em novembro de 2025.

Segundo o Estadão, o Tesouro francês esteve em Buenos Aires antes da visita de Múcio e ofereceu aos argentinos um modelo de cofinanciamento franco-brasileiro. Esse modelo contemplaria a construção das embarcações no Brasil. O ministro foi direto ao resumir a operação: "O nosso submarino aqui é feito também pelo francês. Então, o submarino que ele vai comprar na França será feito aqui. O que é que nós queremos na indústria de defesa: o emprego, o imposto, o desenvolvimento tecnológico."

Para o Brasil, a equação é clara. O Complexo de Itaguaí está atualmente ocupado com a construção do Álvaro Alberto, o submarino de propulsão nuclear convencional previsto para entrar em operação em 2034, o que tornará o Brasil o primeiro país fora dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e da Índia a operar esse tipo de embarcação. Uma encomenda argentina criaria uma fila de trabalho para o estaleiro e diluiria custos fixos do programa.

 

A demanda argentina: urgência estratégica, restrição financeira
Do lado argentino, a necessidade é premente. Desde 2017, quando o ARA San Juan naufragou com 44 tripulantes, a Marinha argentina não tem nenhum submarino operativo. O ARA Salta é usado apenas para instrução em doca, e o ARA Santa Cruz tem o programa de reparos suspenso. "Desde a tragédia do ARA San Juan, a Argentina não tem capacidades submarinas reais", resume a análise publicada pelo portal especializado Zona Militar em março de 2026.

O presidente Javier Milei anunciou em novembro de 2025 que o país está em processo de aquisição de três submarinos Scorpène e quatro patrulheiros oceânicos (OPV) à França. A carta de intenções com o Naval Group foi assinada em novembro de 2024, sob o então ministro da Defesa Luis Petri. O valor estimado do contrato oscila entre 2 bilhões e 2,3 bilhões de dólares.

O principal obstáculo, porém, é o financiamento. A Argentina não pode pagar à vista e exige que os pagamentos sejam realizados contra entrega da primeira unidade, modelo que a França ainda analisa conceder. Segundo o portal Infobae, Laurent Mourre, diretor de vendas para a América Latina do Naval Group, reconheceu publicamente que a negociação está "parada" por falta de acordo financeiro. Em fevereiro de 2026, o governo argentino confirmou oficialmente que não houve avanços concretos nas negociações.

O cenário é agravado por cortes orçamentários recentes. Em maio de 2026, o governo Milei editou a Decisão Administrativa 20/2026, que podou mais de 45 bilhões de pesos do orçamento de Defesa, desafio que, na avaliação de analistas argentinos consultados pelo jornal Ámbito, impacta o alistamento e adestramento das Forças Armadas.

Construir em Itaguaí ou na França: o debate que Buenos Aires precisa resolver
Há uma tensão interna na Argentina entre dois modelos de aquisição. O Ministério da Defesa argentino descartou a construção local, pois os estaleiros da Tandanor não têm infraestrutura adequada, embora a estratégia aponte para recuperar capacidades técnicas por meio de manutenção e reparos. A proposta que emerge da articulação franco-brasileira seria uma terceira via: construir em Itaguaí, aproveitando a infraestrutura já consolidada pelo programa PROSUB.

O contraste com o modelo brasileiro é frequentemente citado na imprensa especializada argentina. O Brasil investiu de forma estruturada desde 2008 em transferência de tecnologia e construção local, formando equipes e desenvolvendo uma potente indústria naval militar. A Argentina, por restrições fiscais e ausência de um projeto industrial de longo prazo, avalia agora uma rota mais curta, mas ainda indefinida.

Há também a questão dos prazos. Segundo análise do portal iProfesional, Buenos Aires quer que os submarinos comecem a ser entregues entre 2032 e 2036, janela que conflita com a agenda de comprometimentos já assumidos pelo Naval Group para outros clientes.

 

KC-390: interesse argentino esbarra em veto britânico
Além dos submarinos, Múcio apresentou a Presti o catálogo da BID brasileira, que inclui mais de 360 sistemas e produtos de 154 empresas. O KC-390 Millennium, da Embraer, foi destacado pelo ministro como carro-chefe da oferta. "Já vendemos 57 aviões pela Europa toda, e os vizinhos não têm", disse Múcio, acrescentando que o financiamento do BNDES facilita as negociações.

A ironia é que a Argentina já é parceira industrial do programa KC-390: a Fábrica Argentina de Aviões (FAdeA), de Córdoba, fabrica componentes estruturais da aeronave, como portas de trem de pouso, cone de cauda, carenagens, entre outros desde 2011. Mas a venda do avião à Força Aérea Argentina esbarra em um obstáculo de difícil solução: o KC-390 contém componentes críticos de fabricação britânica, incluindo sistemas fornecidos pela BAE Systems e pela Cobham Mission Systems.

Desde a Guerra das Malvinas, em 1982, o Reino Unido bloqueia a exportação de equipamentos militares com componentes britânicos para a Argentina. O impedimento alcança também o caça Gripen, da Saab. Analistas consultados pela Sputnik Brasil avaliaram que a missão de Múcio enfrentará "obstáculos substanciais" justamente nos produtos mais avançados da BID brasileira. A Embraer já descartou a viabilidade de substituir os componentes britânicos por alternativas sem a recertificação da aeronave, processo de custo e prazo proibitivos.

Cone Sul em disputa: EUA ampliam presença enquanto Brasil avança
A visita de Múcio ocorre em um contexto de crescente competição de influência no Cone Sul. O governo Milei vem aprofundando acordos estratégicos com Washington e com Israel, o que cria um cenário de múltiplas frentes de fornecimento para a modernização militar argentina. Analistas ouvidos pela imprensa brasileira avaliaram que o ministro chegou a Buenos Aires com uma "missão ingrata": os produtos mais emblemáticos da indústria de defesa brasileira estão bloqueados ou condicionados por restrições externas, enquanto a capacidade financeira argentina permanece limitada.

Mesmo assim, o horizonte de médio prazo oferece janelas concretas. O MANSUP, míssil antinavio desenvolvido pela SIATT com tecnologia 100% nacional, foi apresentado como alternativa às limitações da Argentina em ataque naval, e não tem componentes britânicos. Blindados VBTP-MR Guarani 6x6, drones, radares e a aeronave de patrulha E-99M também compõem o portfólio ofertado.

Para o Brasil, o resultado mais concreto e de maior alcance estratégico da missão de Múcio pode ser justamente o que ainda está em negociação trilateral: se os Scorpènes argentinos forem de fato construídos em Itaguaí, o Complexo Naval passará a operar como estaleiro regional, com os empregos, os impostos e o desenvolvimento tecnológico que o ministro fez questão de enumerar.

10 dezembro, 2025

Marinhas do Brasil e da Índia firmam acordo histórico para manutenção de submarinos Scorpène

Imagem meramente ilustrativa

*LRCA Defense Consulting - 10/12/2025

Em um marco para a cooperação naval Sul-Sul, a Marinha do Brasil (MB) assinou ontem, 9 de dezembro, um Memorando de Entendimento (MoU) tripartite com a Marinha da Índia e o estaleiro estatal indiano Mazagon Dock Shipbuilders Limited (MDL). O acordo foca na troca de informações sobre manutenção de submarinos da classe Scorpène e outras embarcações, visando aprimorar o suporte ao ciclo de vida dessas plataformas estratégicas.​

A cerimônia ocorreu durante a visita oficial do Almirante Dinesh K. Tripathi, Chefe do Estado-Maior da Marinha indiana (CNS), ao Brasil, entre 9 e 12 de dezembro. Tripathi reuniu-se com autoridades brasileiras, incluindo o Ministro da Defesa José Múcio Monteiro Filho, o Chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas Almirante Renato Rodrigues de Aguiar Freire e o Comandante da MB Almirante Marcos Sampaio Olsen. Os signatários foram o Almirante Tripathi, o Almirante Olsen e o Capitão Jagmohan, presidente da MDL.​

Pilar estratégico da parceria bilateral
O MoU alinha-se aos cinco pilares da cooperação Índia-Brasil para a próxima década, com defesa e segurança em destaque, conforme acordos da visita do Primeiro-Ministro Narendra Modi ao Brasil e reuniões como a de outubro de 2025 entre o Ministro Rajnath Singh e o Vice-Presidente Geraldo Alckmin. Inclui compartilhamento de práticas de manutenção, logística, treinamento e inovação em reparos, além de avanços em P&D, serviços hidrográficos e conscientização marítima no Atlântico Sul e Oceano Índico.​

Tanto o Brasil quanto a Índia operam submarinos Scorpène – o Brasil em seu programa PROSUB e a Índia no Projeto 75 pela MDL –, o que potencializa sinergias operacionais e interoperabilidade em exercícios conjuntos, cibersegurança e compartilhamento de dados classificados.​

Impactos para a defesa regional
Essa iniciativa fortalece a prontidão naval de ambas as nações e abre portas para colaborações futuras, como uma possível visita de Estado do Presidente brasileiro à Índia em 2026. Analistas veem o acordo como um contrapeso estratégico em regiões de crescente tensão marítima, promovendo autonomia tecnológica sem dependência de fornecedores tradicionais.

05 outubro, 2025

Embraer, mísseis e submarinos: em visita oficial, Brasil aposta em nova era de colaboração com a Índia

Imagem meramente ilustrativa


*LRCA Defense Consulting - 05/10/2025

O Ministro da Defesa do Brasil, José Múcio Monteiro Filho, realizará uma visita oficial à Índia entre 15 e 17 de outubro de 2025, integrando a comitiva liderada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin. A missão marca um passo significativo na ampliação da cooperação em defesa entre os dois países e ocorre em preparação para a visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, prevista para 2026.

Durante a viagem, a delegação — que inclui ministros e executivos dos setores de defesa, aeroespacial, energia e tecnologia — buscará impulsionar parcerias industriais e promover a integração entre empresas brasileiras e indianas sob o marco da política “Make in India”. A presença de Múcio Monteiro reforça o peso que a pauta de defesa assumirá nas conversações bilaterais.

Cooperação estratégica e contexto global
A visita ocorre em meio à crescente competição geopolítica e ao fortalecimento de iniciativas de autonomia tecnológica no Sul Global. Índia e Brasil vêm intensificando a cooperação em plataformas multilaterais como o BRICS, o IBAS e o G20, com o objetivo de desenvolver novas cadeias de valor para a indústria de defesa, reduzindo dependências externas em setores sensíveis.

Programa KC-390 Millennium e MTA
Um dos principais temas da agenda será o programa de transporte aéreo militar. A Embraer propôs o KC-390 Millennium à Força Aérea Indiana no âmbito do programa Medium Transport Aircraft (MTA), respondendo à RFI emitida por Nova Délhi com uma oferta que pode chegar a até 80 aeronaves.

Para fortalecer sua posição, a Embraer abriu uma subsidiária em AeroCity, Nova Délhi, voltada à engenharia, suprimentos e projetos conjuntos. Além disso, mantém um memorando de entendimento com a Mahindra Defence Systems, assinado em 2024, para produção local do modelo. Caso se concretize, o contrato poderá se tornar o maior da história recente da empresa fora do Brasil.

Intercâmbio tecnológico e sistemas de mísseis
O Brasil estuda a aquisição do sistema de mísseis superfície-ar Akash, desenvolvido pela DRDO indiana, para seu programa de modernização da artilharia antiaérea de média e alta altitude. Apesar de constrangimentos orçamentários, o projeto continua sob análise técnica ativa, segundo autoridades militares brasileiras.

Ambos os governos indicam que as avaliações sobre o Akash e o KC-390 seguem de forma independente, demonstrando uma abordagem pragmática e voltada à diversificação de fornecedores estratégicos.

Parcerias industriais e joint ventures
Segundo a imprensa indiana, a comitiva brasileira incluirá representantes de empresas como Embraer, Avibras, Taurus Armas, CBC, Atech, Ares, Mac Jee, IMBEL, Helibras, EMGEPRON e outras. Companhias como Taurus e CBC já possuem acordos de joint venture com a Jindal Defence e SSS Defence, respectivamente, nas áreas de armamento leve e munições.

O Brasil também demonstra interesse em equipamentos indianos, como os helicópteros de ataque Prachand e Rudra, e sistemas de vigilância aérea baseados no E-145, integrados ao projeto NETRA da Força Aérea Indiana.

Novo impulso na diplomacia de defesa
Como parte de um esforço de institucionalização das relações militares, o Brasil decidiu designar adidos aéreos e navais para sua embaixada em Nova Délhi, ampliando a representação que até então contava apenas com um oficial do Exército. Essa medida permitirá um diálogo técnico mais dinâmico e sustentado sobre cooperação operacional e transferência de tecnologia.

Intensificação dos intercâmbios militares desde 2023
A visita de Múcio sucede uma série de encontros bilaterais recentes, incluindo as visitas do Comandante do Exército (2023), do Vice-Chefe do Exército e do Vice-Chefe da Marinha (2023), bem como as missões oficiais do Almirante Marcos Sampaio Olsen em 2024 e do Comandante da Força Aérea, Tenente-Brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno, que observou o exercício Tarang Shakti em Jodhpur.

Expansão da cooperação naval
Há também expectativa de ampliar o diálogo em áreas navais, especialmente em operações submarinas e conscientização do domínio marítimo. O Brasil e a Índia operam submarinos da classe Scorpène, o que os integra ao mesmo grupo de operadores e abre espaço para treinamentos conjuntos e intercâmbio técnico voltado à guerra submarina.

Próximos marcos na relação bilateral serão concretizados em fevereiro de 2026
A missão de outubro antecipa a cúpula Modi–Lula, planejada para fevereiro de 2026, quando deverão ser anunciadas iniciativas de codesenvolvimento e coprodução industrial em defesa.

Com ambições alinhadas — modernizar suas forças armadas e fortalecer as exportações — Brasil e Índia caminham para consolidar uma nova fase de cooperação Sul-Sul, baseada em soberania tecnológica, integração industrial e autonomia estratégica compartilhada.

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