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18 maio, 2026

C-390: encerramento de inquérito remove obstáculo legal à venda de aviões da Embraer para a Lituânia, mas impasse político persiste


*LRCA Defense Consulting - 18/05/2026

A promotoria da Lituânia encerrou, nesta segunda-feira (19/5), a investigação preliminar sobre a aquisição de aviões militares de transporte Embraer C-390 Millennium, ao concluir que não há evidências de crime, abuso de poder ou irregularidade no processo licitatório. A decisão elimina o principal obstáculo jurídico à retomada do contrato com a fabricante brasileira, mas não resolve o impasse político que, desde janeiro, mantém a compra suspensa. 

O inquérito e seu encerramento
O Serviço de Investigações Especiais (STT) da Lituânia havia aberto o inquérito em agosto de 2025, após provocação do líder da oposição conservadora, Laurynas Kasčiūnas, e do presidente do Comitê Parlamentar de Segurança Nacional e Defesa, Giedrimas Jeglinskas. Os dois parlamentares pediam que se verificasse se as decisões do Ministério da Defesa para a compra de aeronaves no valor de aproximadamente 800 milhões de euros teriam violado a legislação de licitações ou configurado abuso de função.

Os políticos alegavam que o plano original previa a modernização dos aviões Spartan já em operação, não a aquisição de aeronaves novas. Questionavam ainda possíveis reuniões não declaradas da então ministra da Defesa, Dovilė Šakalienė, com representantes ou intermediários de fabricantes, e apontavam como suspeito o fato de os aviões pretendidos terem motores a jato, enquanto a maioria dos concorrentes no mercado usa motores turboélice.

A conclusão da promotoria, porém, foi taxativa: após ouvir testemunhos e analisar documentos do Exército lituano, do Ministério da Defesa e de outras instituições, não se verificou qualquer abuso de cargo, excesso de competência ou violação dos procedimentos de aquisição de equipamento militar. A investigação também não encontrou indícios de que algum participante do processo tivesse interesse pessoal na escolha da Embraer ou tivesse recebido benefício direto ou indireto relacionado à decisão final.

A ex-ministra fala em campanha de difamação
A ex-ministra Dovilė Šakalienė, que conduziu as negociações iniciais com a Embraer, comemorou a decisão, mas não poupou críticas aos responsáveis pelo inquérito. Em nota divulgada pela agência BNS, ela afirmou que o processo de compra foi integralmente transparente e legal, e declarou que a demora de um ano para chegar a essa conclusão oficial causou dano real à segurança nacional e à força aérea militar.

Šakalienė responsabilizou diretamente Kasčiūnas e Jeglinskas pelo que chamou de campanha injustificada de difamação, dizendo que políticos que se apresentam como patriotas acabaram prejudicando as próprias instituições que dizem defender.

Governo atual prioriza defesa antidrone
O atual ministro da Defesa, Robertas Kaunas, recusou-se a comentar a decisão da promotoria e deixou claro que sua prioridade não são os aviões de carga. Ao ser abordado por jornalistas, ele disse que o foco do governo é o fortalecimento da defesa aérea, especialmente contra drones, e não a aquisição de aeronaves de transporte. 

A postura do ministro reflete a decisão do Conselho de Defesa do Estado (VGT) de janeiro de 2026, que suspendeu a compra sem prazo definido para retomada. Àquela altura, o argumento central era o de que os recursos deveriam ser direcionados a capacidades mais urgentes diante do cenário de segurança na região do Báltico.

Kasčiūnas mantém oposição ao negócio
Mesmo com o inquérito encerrado sem indiciamento, o líder oposicionista Kasčiūnas não recuou. Em nota, ele reiterou sua posição de que a compra foi prejudicial aos interesses lituanos e que os recursos previstos, estimados por ele em 700 milhões de euros, devem ser redirecionados à defesa antidrone.

O que muda para a Embraer
Para a Embraer, o encerramento do inquérito é um sinal relevante. A investigação criava uma zona de incerteza jurídica que dificultava qualquer negociação formal, e sua conclusão favorável reabilita o processo licitatório nos seus próprios termos.

No entanto, o negócio continua suspenso por decisão política, não jurídica. A retomada das tratativas depende de uma mudança de prioridades do governo lituano atual, que até o momento não sinalizou disposição para revisar a suspensão. O contexto de segurança na região, com a Lituânia intensificando sua defesa contra ameaças de drones após um incidente recente no país, favorece o argumento dos críticos da compra, que insistem em redirecionar os recursos.

A notícia de hoje remove um obstáculo, mas não abre o caminho.

07 outubro, 2025

Embraer C-390: Secretário de Defesa holandês prevê, para breve, a entrada da Lituânia na união europeia em torno da aeronave


*LRCA Defense Consulting - 07/10/2025

Em um movimento considerado estratégico para a interoperabilidade das forças aéreas europeias, os Países Baixos, a Suécia e a Áustria oficializaram, nesta segunda-feira (6), a decisão de adquirir o avião de transporte multimissão Embraer C-390 Millennium. O anúncio foi feito durante uma cerimônia na Base Aérea de Ärna, em Uppsala (Suécia), com a presença de autoridades dos três países.

O Secretário de Estado da Defesa dos Países Baixos, Gijs Tuinman, em seu perfil no LinkedIn, descreveu o momento como “um marco” e destacou que a escolha do C-390 representa mais que uma solução prática. “É uma escolha inteligente. Fortalecemos nossa capacidade de operar lado a lado, com possibilidades de intercâmbio de pessoal, treinamentos conjuntos e manutenção integrada. Isso nos dá escala e eficiência que nenhum país poderia alcançar sozinho”, afirmou.

Segundo Tuinman, a cooperação não se limita ao campo operacional. A adoção conjunta do C-390 por mais países europeus abre oportunidades industriais para crescimento, geração de empregos e transferência tecnológica, construindo o que o secretário chamou de “um ecossistema de defesa europeu sustentável”.

O representante holandês agradeceu à Suécia pela confiança nos Países Baixos e reconheceu o trabalho das equipes do Commando Materieel en IT e da agência sueca FMV – Försvarets materielverk – pelo empenho e determinação no projeto.

Lituânia
Tuinman antecipou ainda que a Lituânia deverá aderir em breve ao programa europeu de aquisição do C-390. “Com cada parceiro que se junta, nossa resiliência aumenta. A maior missão desses aviões já começou antes mesmo do primeiro voo: eles nos aproximam de um futuro mais seguro. Sozinho você pode ir mais rápido, mas juntos podemos ir mais longe”, concluiu.

O C-390 Millennium, produzido pela Embraer no Brasil, é reconhecido por sua versatilidade, podendo realizar operações de transporte de tropas e cargas, reabastecimento em voo, apoio humanitário e missões médicas. Nos últimos anos, o modelo vem ganhando espaço no mercado europeu e se consolidando como alternativa moderna ao veterano Lockheed C-130 Hercules.

08 agosto, 2025

Embraer Defesa Europa assina MoUs estratégicos com parceiros lituanos para fortalecer a cooperação e inovação aeroespacial


*LRCA Defense Consulting - 08/08/2025

A Embraer, uma das líderes globais na indústria aeroespacial, assinou hoje vários Memorandos de Entendimento (MoUs, na sigla em inglês) com parceiros-chave lituanos, marcando um passo significativo em direção à cooperação de longo prazo em aeroespaço, defesa e inovação.

Os acordos foram assinados com oito proeminentes instituições e empresas lituanas, incluindo a Universidade de Tecnologia de Kaunas (KTU), a Universidade Técnica Gediminas de Vilnius (Vilnius Tech), Aktyvus Photonics, J&C Aero, Nordic Aircraft Systems, Brolis Defence, DAT e o Instituto Báltico de Tecnologia Avançada (BPTI).

Com a J&C Aero, a parceria visa o desenvolvimento de soluções integradas de interiores de cabine para (mas não se limitando a!) a aeronave de transporte militar C-390 Millennium. Essa colaboração ocorre em um momento crucial, após a decisão da Lituânia de adquirir o C-390. A contribuição potencial da J&C Aero para o suporte da plataforma inclui engenharia de interiores de cabine, design e modernização, manutenção e gerenciamento de aeronavegabilidade, produção de componentes e logística de peças de reposição.

“Essas parcerias refletem o compromisso da Embraer em fomentar a inovação e fortalecer as capacidades industriais e de defesa globais por meio da cooperação estratégica. O crescente ecossistema aeroespacial e a expertise tecnológica da Lituânia a tornam um ambiente ideal para a visão de longo prazo da Embraer na Europa”, afirma Fabio Caparica, vice-presidente de Contratos da Embraer Defesa & Segurança.

Os MoUs abrangem uma ampla gama de áreas de alto valor, incluindo:

- Manutenção, reparo e revisão (MRO, em inglês);

- Engenharia e inovação;

- Desenvolvimento tecnológico;

- Gestão da cadeia de suprimentos

A cerimônia de hoje segue a decisão da Lituânia ao selecionar, em junho de 2025, a aeronave de transporte militar de última geração C-390 Millennium da Embraer para aprimorar suas capacidades de defesa e interoperabilidade. Essa seleção se alinha com aliados europeus e da OTAN — incluindo Portugal, Eslováquia, Hungria, Holanda, Áustria, República Tcheca e Suécia — que também selecionaram essa aeronave de nova geração para modernizar suas forças aéreas.

Desde a entrada em operação com a Força Aérea Brasileira em 2019, com a Força Aérea Portuguesa em 2023 e, mais recentemente, com a Força Aérea Húngara em 2024, o C-390 comprovou sua capacidade, confiabilidade e desempenho. A frota atual em operação demonstrou uma taxa de capacidade de missão de 93% e taxas de conclusão de missão acima de 99%, demonstrando produtividade excepcional na categoria.

O C-390 pode transportar mais carga útil (26 toneladas) em comparação com outras aeronaves de transporte militar de médio porte e voa mais rápido (470 nós) e mais longe, sendo capaz de realizar uma ampla gama de missões, como transporte e lançamento de cargas e tropas, evacuação médica, busca e salvamento, combate a incêndios e missões humanitárias, operando em pistas temporárias ou não pavimentadas, como terra batida, solo e cascalho.

A aeronave configurada com equipamento de reabastecimento ar-ar, com a designação KC-390, já provou sua capacidade de reabastecimento aéreo tanto como avião-tanque quanto como receptor, neste caso recebendo combustível de outro KC-390 usando pods instalados sob as asas. 

01 agosto, 2025

Embraer desenvolve forte parceria industrial com a Lituânia, ao mesmo tempo em que fortalece sua presença na Europa


*LRCA Defense Consulting - 01/08/2025

A Embraer, empresa aeroespacial líder, está trabalhando com a indústria lituana para estabelecer uma cooperação de longo prazo nos setores aeroespacial e de defesa. Esta parceria ocorre após a decisão da Lituânia de selecionar a aeronave de transporte militar C-390 Millennium em junho de 2025. 

Nas últimas semanas, uma delegação de especialistas da Embraer viajou pela Lituânia para se reunir com parceiros industriais locais e visitar diversas instalações. Sua expertise abrange diversas áreas-chave, incluindo Manutenção, Reparo e Revisão (MRO), Engenharia, Inovação, Desenvolvimento Tecnológico e Gestão da Cadeia de Suprimentos. 

“Nos reunimos com diversas organizações industriais lituanas e observamos sua expertise e capacidade”, disse Bosco da Costa Junior, Presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança. “Contribuiremos para a capacidade de defesa da Lituânia com a aeronave C-390 Millennium e também apoiaremos o desenvolvimento industrial e tecnológico do país.” 

Desde o início dos anos 2000, a Embraer Defesa e Segurança tem ampliado sua presença na Europa por meio de investimentos estratégicos em empresas de defesa, da instalação de unidades industriais e da expansão de sua rede de fornecedores. Notavelmente, mais de 40% da cadeia de suprimentos do C-390 é proveniente de parceiros europeus. 

Recentemente, a Embraer lançou diversos projetos importantes de cooperação industrial com Portugal, Holanda, Áustria, República Tcheca e Suécia. A criação da Embraer Defesa Europa, com sede em Lisboa, Portugal, demonstra ainda mais o compromisso contínuo da empresa com a colaboração com a UE e a OTAN. Isso inclui planos para estabelecer Centros de Treinamento C-390 e aprofundar relacionamentos com instituições de defesa em toda a região. 

As discussões sobre cooperação industrial entre a Lituânia e a Embraer refletem os objetivos estratégicos delineados pelo Ministério da Defesa da Lituânia e pelo Ministério da Economia e Inovação, visando construir uma base industrial de defesa resiliente e preparada para o futuro, bem como cooperação com instituições de ensino e pesquisa. 

O C-390 Millennium é uma aeronave de última geração projetada para operar em ambientes austeros e sob condições exigentes, oferecendo velocidade superior, capacidade de carga útil e flexibilidade de missão. 

A sua escolha alinha a Lituânia com um número crescente de aliados europeus e da OTAN, incluindo Portugal, Eslováquia, Hungria, Holanda, Áustria, República Checa e Suécia, que também escolheram o C-390 para modernizar as suas forças aéreas. Ao adotar o C-390 Millennium, a Lituânia aumentará significativamente as suas capacidades operacionais, com a garantia adicional de que todas as necessidades operacionais e o suporte vitalício da aeronave poderão ser fornecidos inteiramente na Europa. 

Desde que entrou em operação em 2019, o C-390 Millennium comprovou sua capacidade, confiabilidade e desempenho. A frota atual em operação demonstrou uma taxa de capacidade de missão de 93% e taxas de conclusão de missão acima de 99%. 

O C-390 é capaz de realizar uma ampla gama de missões, como transporte e lançamento de carga e tropas, evacuação médica, busca e salvamento, combate a incêndios e missões humanitárias, operando em pistas temporárias ou não pavimentadas, como terra compactada, solo e cascalho. A aeronave configurada com equipamento de reabastecimento ar-ar, com a designação KC-390, já comprovou sua capacidade de reabastecimento aéreo tanto como avião-tanque quanto como receptor, neste caso, recebendo combustível de outro KC-390 por meio de pods instalados sob as asas. 

18 junho, 2025

Lituânia escolhe o Embraer C-390 Millennium para fortalecer sua prontidão militar

Lituânia deverá adquirir três unidades do C-390

*LRCA Defense Consulting - 18/06/2025

O Ministério da Defesa Nacional da Lituânia anunciou que o C-390 Millennium da Embraer foi escolhido como a aeronave de transporte militar de próxima geração do país.

Esta decisão marca um passo significativo para o aprimoramento da prontidão operacional e da interoperabilidade da Lituânia com os países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e abre caminho para o processo de aquisição de acordo com os procedimentos e a legislação nacionais.

“Estudamos cuidadosamente os diversos tipos de aeronaves de transporte militar disponíveis no mercado e nossa avaliação demonstrou claramente que o C-390 Millennium é a plataforma mais adequada para atender às nossas necessidades operacionais militares nacionais. Portanto, a Lituânia escolheu a Embraer para futuras negociações e espera finalizar o contrato de aquisição nos próximos meses”, disse Loreta Maskaliovienė, Vice-Ministra da Defesa Nacional da Lituânia.

“Estamos honrados por termos sido selecionados pelas autoridades lituanas. Esta seleção reflete o compromisso da Embraer com o fortalecimento das capacidades de defesa na Europa. Nesse sentido, o C-390, com sua versatilidade, desempenho e interoperabilidade com a OTAN, é a plataforma ideal — prontamente disponível para realizar as missões mais exigentes”, disse Bosco Da Costa Junior, Presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança.

O C-390 Millennium é uma aeronave de última geração projetada para operar em ambientes austeros e sob condições exigentes, oferecendo velocidade, capacidade de carga útil e flexibilidade de missão superiores.

Sua seleção alinha a Lituânia a um número crescente de aliados europeus e da OTAN, incluindo Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, República Tcheca, Suécia e Eslováquia, que também escolheram o C-390 para modernizar suas forças aéreas. Ao adotar o C-390 Millennium, a Lituânia aumentará significativamente suas capacidades operacionais, beneficiando-se do ecossistema e das sinergias presentes na Europa em termos de suporte e treinamento.

Esta decisão estratégica, que abre caminho para a aquisição de três C-390, marca um passo significativo para aumentar a prontidão operacional e a interoperabilidade da Lituânia com outros membros da OTAN. O acordo incluirá cooperação industrial que proporcionará oportunidades para capacidades de MRO, coprodução de peças e parcerias com institutos de conhecimento.

Desde que entrou em operação na Força Aérea Brasileira em 2019, na Força Aérea Portuguesa em 2023 e, mais recentemente, na Força Aérea Húngara em 2024, o C-390 Millennium comprovou sua capacidade, confiabilidade e desempenho. A frota atual em operação demonstrou uma taxa de capacidade de missão de 93% e taxas de conclusão de missão acima de 99%.

O C-390 Millennium pode transportar mais carga útil (26 toneladas) em comparação com outras aeronaves de transporte militar de médio porte e voa mais rápido (470 nós) e por distâncias maiores, sendo capaz de realizar uma ampla gama de missões, como transporte e lançamento de carga e tropas, evacuação médica, busca e salvamento, combate a incêndios e missões humanitárias, operando em pistas temporárias ou não pavimentadas, como terra compactada, solo e cascalho. A aeronave pode ser configurada com equipamento de reabastecimento ar-ar, com a designação C-390, já comprovou sua capacidade de reabastecimento aéreo tanto como avião-tanque quanto como receptor, neste caso recebendo combustível de outro C-390 através de pods instalados sob as asas. 

06 outubro, 2021

Ministério da Defesa da Lituânia recomenda sua população a abandonar celulares chineses


*DCiber - 06/10/2021

O Ministério de Defesa da Lituânia publicou no final de setembro um relatório recomendando aos seus cidadãos que deixem de usar alguns tipos de celulares chineses. Dias depois, sem especificar os motivos, a Alemanha abriu uma investigação sobre os celulares Xiaomi, que no último trimestre se tornou pela primeira vez a marca mais vendida na Europa. As duas decisões foram noticiadas com destaque e puseram a tecnologia chinesa novamente na mira. Mas o desafio vai muito além: afeta todo o ecossistema Android e tem a ver com os aplicativos que vêm pré-instalados em qualquer celular e cujas atualizações, que ninguém controla nem vigia, podem representar um risco para os usuários.

A denúncia que mais chamou a atenção do relatório lituano foi uma lista de 449 palavras em caracteres chineses que o dispositivo podia encontrar e bloquear. Muitas tinham conotações políticas sobre a China: “Tibete livre”, “Movimento democrático 89″, ”Viva Taiwan livre” ou sobre os uigures. Mas também havia termos como nazistas e nomes de grupos terroristas islâmicos. Dias depois, em 27 de setembro, o ministério lituano de Defesa publicou um apêndice com novas palavras, algumas já diretamente em inglês ou espanhol. Nessa lista, a maioria está relacionada a sexo: pornô, pornôs, porn, anal impaler, handjob, underage, hooker, hot video, clitoris, vaginas, fucker – mas também Dalai Lama, marxista e extremismo.

Na lista de palavras em chinês aparecem também nomes como o do extinto grupo separatista basco ETA, da organização esquerdista chilena Frente Patriótica Manuel Rodríguez e do artista dissidente chinês Ai Weiwei. Ao todo, são 1.376 termos. A lista no fundo é pouco sofisticada, mas serviria para encontrar alguém que busca informações politicamente suspeitas sobre a China ou que consome pornografia. O primeiro tipo claramente pode interessar a uma empresa chinesa que precisa seguir diretrizes de seu Governo. Já a restrição à pornografia pode ter conotações políticas ou servir para possíveis chantagens.

O relatório lituano cita poucas provas, mas aponta que esta lista encontrada em dispositivos Xiaomi aparentemente serve para filtrar conteúdo: “Acredita-se que esta função permita a um aparelho Xiaomi realizar uma análise do conteúdo multimídia que entra no telefone do alvo, e depois procurar palavras-chaves baseadas nesta lista enviada para o servidor”, diz o relatório. Uma vez feito isto, o dispositivo pode filtrar conteúdos para que o usuário não os veja. A Lituânia admite que essa função foi “desativada” na União Europeia.

A magnitude real do problema
Há, entretanto, uma frase no relatório original que descreve melhor a real magnitude do problema: “É importante salientar que esta função é ativada remotamente pelo fabricante”. Os aplicativos pré-instalados em celulares Android constituem um dos campos mais opacos do setor, com provas científicas conclusivas a respeito. Os pesquisadores que analisaram este fenômeno no Android não veem nada de surpreendente que um fabricante chinês possa ativar um programa à distância ou modificar sua função graças a uma atualização, sem que o usuário note. Na verdade, seria facílimo fazer isso.

“Em muitos celulares há um software pré-instalado que foi desenvolvido por várias organizações com a capacidade de baixar algo de forma silenciosa, de espionagem a trojans”, diz Narseo Vallina, pesquisador principal da Imdea Networks e coautor de uma investigação pioneira e premiada sobre aplicativos pré-instalados em celulares Android. “Se algum agente da cadeia de suprimentos for comprometido, ou facilitar o acesso a agentes maliciosos, nossos aparelhos poderiam ser afetados”, acrescenta.

O relatório lituano, com sua lista bizarra, pode chamar a atenção em meio à selva dos programas pré-instalados, onde diversas empresas do setor põem a mão, sem que ninguém tenha a responsabilidade individual. Tampouco há uma polícia dos smartphones para vigiá-los. O fabricante, muitas vezes, cede ou permite a instalação de aplicativos que em princípio fazem algo necessário ou razoável, mas que ninguém controla, vigia nem verifica na origem nem em suas futuras atualizações. O celular que compramos pode acabar colhendo dados ou fazendo coisas diferentes meses depois da aquisição, como demonstra a mudança na lista de palavras não permitidas da Xiaomi. Por exemplo, o celular de uma pessoa, chinesa ou estrangeira, que use seu celular Xiaomi para se posicionar publicamente a favor dos uigures ou da independência do Tibete pode de repente começar a enviar dados ou baixar informações sem que o usuário saiba.

“O conceito de ‘instalado de fábrica’ não existe a partir do momento em que as atualizações ocorrem continuamente, desde o momento em que você liga o telefone pela primeira vez”, diz Juan Tapiador, catedrático da Universidade Carlos III de Madri e coautor da investigação com Vallina. “É possível também segmentar os usuários e fazer instalações particulares para grupos deles. Por exemplo, por modelo de aparelho ou por localização geográfica, o que complica ainda mais poder falar sobre o que vem instalado de fábrica num mesmo modelo de aparelho.”

Atualizamos quando queremos
Tapiador e Vallina publicaram neste ano um novo artigo sobre a facilidade com que aplicativos pré-instalados que são básicos para o funcionamento do celular podem ser atualizados, tendo sua função inicial alterada ou adaptada para um novo objetivo: “Quando fizemos o trabalho com os aplicativos pré-instalados, não sabíamos quais estavam lá desde o momento em que o usuário comprou o telefone e quais aterrissaram mais tarde”, observa Tapiador. “No caso das atualizações, são aplicativos do sistema que, por sua própria natureza, têm privilégios muito elevados. A maioria desses privilégios é necessária para que possam funcionar bem, mas também é fácil que haja abusos. Não é algo que se possa resolver simplesmente em nível técnico; uma maior transparência no processo ajudaria a aumentar a confiança e facilitaria a identificação dos abusos”, acrescenta.

Isto não ocorre só em celulares chineses, mas praticamente em todos. “É difícil saber quão difundido está em geral”, diz Juan Caballero, pesquisador do Imdea Software e coautor de um artigo sobre mercados de aplicativos citado no relatório lituano. “Encontramos muitos problemas de privacidade, mas é difícil generalizar para grandes fabricantes de celulares, como Huawei e Xiaomi. Mas há empresas menores que tiveram muitos problemas. Viu-se que claramente era algo sistêmico”, acrescenta.

Um aparelho barato pode ter mais programa pré-instalados porque os fabricantes esperam continuar ganhando dinheiro vendendo os dados de uso dos seus clientes. “Muitos usuários acham que compram o telefone e pronto, mas não é assim”, diz Caballero. “A relação vai além. Para uma parte dos fabricantes, o negócio continua com seus dados, com acordos com terceiros, normalmente no âmbito da publicidade. Os fornecedores chineses e indianos atacam o mercado de baixíssimo custo, com margens minúsculas. Isso afeta sobretudo celulares desses países com aparelhos mais baratos. Não é a única razão, mas é fundamental”, acrescenta.

Por que não é um escândalo enorme
Por que todo este suposto mercado de dados não é mais conhecido e transparente? É uma pergunta complexa. Todos os usuários no fundo precisam do seu Android, sem ter que pensar a todo o momento que podem estar sendo vigiados ou espionados. É o grande gargalo da privacidade: em princípio, poucos têm algo a temer, diz-se. Até que, um dia, alguém pode querer saber detalhes da sua vida porque você cruzou alguma desconhecida linha vermelha.

“Há muitos aspectos sociais, regulatórios e econômicos que podem influir no impacto relativo que este tipo de descoberta pode ter”, diz Vallina. “Por um lado, por exemplo, a forma como o Regulamento Geral de Proteção de Dados define as responsabilidades de cada país no cumprimento da norma deposita essa responsabilidade em países com interesses econômicos contrapostos”, diz.

Embora em nível regulatório o assunto desperte logicamente mais interesse, continua sendo um panorama muito complexo, repleto de interesses contrapostos. “Se falarmos de agentes reguladores é um pouco diferente. Estes sim levam a sério, mas há muitos fornecedores, com muitos modelos e com acordos com entidades terceiras que é de onde vêm muitos problemas”, diz Caballero.

No relatório lituano são citados também problemas observados na loja de aplicativos da Huawei. Quando um usuário não encontra o aplicativo que busca, é mandado a outro mercado, quase sem controle algum. “A Huawei te redireciona para terceiros quando não tem um determinado aplicativo na sua loja. Em nosso último artigo mostramos que nesses mercados de terceiros a probabilidade de você baixar um malware (programa malicioso) ou um programa que potencialmente não quer (PUP, na sigla em inglês) é cinco vezes mais altas do que se baixar da Play Store. Com essa política, a Huawei rebaixa sua segurança e muitos usuários não têm consciência disso”, acrescenta.

Resposta da Xiaomi
Após a publicação deste artigo, a Xiaomi escreveu a EL PAÍS para esclarecer que a empresa “cumpre integralmente todos os requisitos do Regulamento de Proteção de Dados” da União Europeia e que seus dispositivos “não restringem ou filtram as comunicações de ou para nossos usuários “. Este jornal perguntou à Xiaomi se eles confirmavam que essas afirmações se estendiam totalmente ao software de terceiros que inclui seus dispositivos de fábrica. Outra porta-voz da empresa na Espanha respondeu que eles não tinham nada a dizer sobre o assunto, assim como o resto do setor. O conteúdo deste artigo sobre a responsabilidade final dos aplicativos pré-instalados no ecossistema Android, portanto, permanece obscuro.

Fonte: El País

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