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16 dezembro, 2025

Fábrica de chips da USP: um salto estratégico para a defesa nacional

PocketFab representa mais que inovação tecnológica — é questão de segurança e soberania militar do Brasil 


*LRCA Defense Consulting - 16/12/2025

Em meio à guerra tecnológica global por semicondutores, o Brasil deu um passo decisivo rumo à autonomia militar. O anúncio da PocketFab, primeira fábrica portátil de chips do mundo na Universidade de São Paulo, vai além de uma conquista acadêmica: representa uma virada estratégica para a indústria de defesa brasileira, há décadas dependente de tecnologia estrangeira para equipar suas Forças Armadas.

A iniciativa, desenvolvida pelo InovaUSP em parceria com a Fiesp e o Senai, chega em momento crítico. O Brasil importa entre 40 e 50 bilhões de dólares em tecnologia anualmente, enquanto suas exportações no setor representam apenas uma fração mínima desse montante. Para a defesa nacional, essa dependência externa é ainda mais grave: quase 100% dos sistemas militares brasileiros utilizam componentes controlados por outros países.

Vulnerabilidade militar brasileira
A dependência de semicondutores estrangeiros expõe uma fragilidade crítica nas Forças Armadas. Segundo especialistas em defesa, caso o Brasil perdesse o acesso a fornecedores norte-americanos e europeus, a capacidade operacional do país poderia entrar em colapso em apenas três anos.

Caças Gripen E, fragatas Tamandaré e submarinos Scorpène — pilares da defesa brasileira — dependem de componentes importados, desde sensores até sistemas de comunicação criptografada. Sem acesso a peças de reposição e atualizações tecnológicas, o país ficaria com sua capacidade de defesa comprometida.

A situação se agrava quando se analisa que mais de 20 mil componentes utilizados em armamentos dependem de semicondutores. Mísseis, drones, sistemas de navegação, radares, guerra eletrônica e comunicações seguras — todos exigem chips cada vez mais avançados. Na guerra moderna, semicondutores são multiplicadores de força tão essenciais quanto blindagem e munição.

Contexto geopolítico da guerra dos chips
A indústria de semicondutores nasceu no setor militar. Na década de 1950, o Exército dos EUA financiou o desenvolvimento dos primeiros chips de silício para sistemas de defesa, incluindo o programa espacial Apollo. Desde então, quem domina a fabricação de chips mantém vantagem militar decisiva.

A rivalidade entre Estados Unidos e China pela liderança tecnológica transformou semicondutores em armas geopolíticas. Washington impõe restrições à exportação de tecnologia de ponta para Pequim, enquanto a China investe dezenas de bilhões para alcançar autossuficiência. Taiwan, sede da TSMC, maior fabricante mundial de chips, tornou-se ponto crítico de tensão global, com possibilidade de conflito armado que paralisaria a economia mundial.

Para o Brasil, essa disputa representa tanto risco quanto oportunidade. O país foi colocado no centro da guerra tecnológica, com EUA e China disputando parcerias para produção de semicondutores em território nacional. A decisão brasileira de aproximação com a China para transferência de tecnologia em chips, 5G e inteligência artificial demonstra a urgência do tema.

Solução da PocketFab
Diferente das megafábricas tradicionais que custam bilhões de dólares, a PocketFab propõe modelo compacto, modular e sustentável. A tecnologia permite produção de semicondutores em menor escala, mas com aplicação estratégica para necessidades específicas da defesa nacional.

A fábrica não pretende competir com gigantes como TSMC ou Samsung na produção de chips de 3 nanômetros. O foco está em atender o mercado de semicondutores especializados — nicho que representa 46% do mercado global e inclui componentes essenciais para sistemas militares.

Essa estratégia se alinha com a realidade brasileira. O país não precisa fabricar os chips mais avançados do mercado civil, mas sim garantir fornecimento contínuo de componentes para sistemas de defesa, mesmo em cenários de restrição internacional.

Terras Raras e soberania tecnológica
A PocketFab ganha ainda mais relevância quando combinada à recente inauguração da planta piloto de terras raras do Instituto de Pesquisas Tecnológicas. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras — elementos essenciais para produção de semicondutores, ímãs permanentes, baterias e sistemas de propulsão.

Essa combinação de capacidade de refino de matéria-prima crítica com fabricação de chips cria sinergia estratégica. O país pode controlar desde a extração mineral até o produto final, reduzindo vulnerabilidades na cadeia de suprimento.

Atualmente, a China domina 85% da produção global de terras raras refinadas. A capacidade brasileira de processar esses materiais localmente representa autonomia em momento de crescente fragmentação das cadeias produtivas globais.

Impacto na Base Industrial de Defesa
A Base Industrial de Defesa brasileira representa 3,58% do PIB e emprega 2,9 milhões de pessoas. Apesar do crescimento recente das exportações — que atingiram US$ 1,3 bilhão no primeiro semestre de 2024 —, o índice de autonomia tecnológica nas Forças Armadas é de apenas 42%.

A meta do governo federal é alcançar 55% até 2026 e 75% até 2033. Para isso, o Programa Nova Indústria Brasil prevê investimentos de R$ 112,9 bilhões no setor de defesa, com foco em radares, satélites, foguetes e sistemas autônomos.

A capacidade de fabricar semicondutores nacionalmente é peça-chave desse quebra-cabeça. Sem domínio sobre chips, o Brasil continuará dependente de fornecedores externos para equipar suas Forças Armadas, limitando a efetividade dos demais investimentos em defesa.

Estudo recente da Confederação Nacional da Indústria aponta que a nacionalização de apenas 30% dos produtos de defesa importados poderia gerar 226 mil empregos e arrecadação tributária de R$ 9,9 bilhões anuais.

Desafios e perspectivas
O Brasil enfrenta obstáculos significativos para consolidar indústria de semicondutores. A produção exige investimentos bilionários, mão de obra altamente qualificada, estabilidade regulatória e incentivos fiscais de longo prazo.

A Ceitec, empresa estatal de semicondutores, entrou em processo de liquidação em 2021 por falta de recursos, sendo revertido em 2023. Especialistas estimam que renovar a Ceitec custaria entre US$ 200 milhões e US$ 400 milhões — valores modestos comparados aos bilhões investidos por EUA, China e Europa.

O governo sancionou em setembro de 2024 o Programa Brasil Semicondutores, aperfeiçoando incentivos fiscais para o setor. Agora é necessário garantir continuidade orçamentária e previsibilidade de compras governamentais para viabilizar investimentos privados.

A integração da PocketFab com o ecossistema da Cidade Universitária da USP - onde pesquisa, formação de talentos e inovação convergem - cria ambiente propício para desenvolvimento de soluções nacionais. O programa de pós-graduação da Engenharia Elétrica da USP formou 3.500 mestres e doutores nos últimos anos, demonstrando capacidade técnica brasileira.

Uma questão de soberania
Em um mundo onde semicondutores definem estratégias militares e controlam a inovação tecnológica, o Brasil não pode permanecer dependente de importações. A PocketFab representa início concreto de caminho rumo à autonomia, conectando universidades, institutos de pesquisa e o setor produtivo.

O projeto vai além de substituir importações. Trata-se de garantir que as Forças Armadas brasileiras mantenham capacidade operacional independente de restrições geopolíticas, proteção de infraestruturas críticas e desenvolvimento de tecnologias de uso dual que impulsionem toda a economia.

Como destacou o Diretor do InovaUSP, o Brasil importa dezenas de bilhões em tecnologia enquanto exporta apenas fração mínima. A mudança desse quadro exige projetos estruturantes como a fábrica de chips da USP — ambiciosos, de longo prazo e com impacto real na competitividade e segurança nacional.

É assim que países avançam. É assim que se constrói soberania tecnológica e militar.

16 novembro, 2024

Com apoio da Finep, Tupy e IPT montarão planta para reciclar qualquer tipo de bateria elétrica

 


*LRCA Defense Consulting - 16/11/2024

Um projeto da Metalúrgica Tupy - multinacional brasileira do ramo da metalurgia sediada em Joinville, que tem 20.000 funcionários em todo o Brasil e até no exterior - em parceria com a USP – Universidade de São Paulo e o IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas, promete ampliar o uso de fontes renováveis de energia através do reúso de baterias e dos minerais utilizados na sua composição.

Com apoio da Finep da ordem de R$ 11.3 milhões em recursos FNDCT de subvenção econômica, além de recursos próprios da empresa, o projeto prevê o desenvolvimento de uma planta de demonstração para certificação, em segunda vida, e reciclagem de baterias de íons de lítio. A planta piloto utilizará uma tecnologia desenvolvida dentro da USP, a hidrometalurgia.

Iniciativa formidável por todos os ângulos
Amplamente usadas em dispositivos eletrônicos, como celulares e notebooks, as baterias de lítio-íon se tornarão ainda mais importantes nos próximos anos. Elas estão presentes nos veículos elétricos e híbridos— que têm participação crescente na malha rodoviária brasileira e devem ganhar espaço na frota global, pela necessidade de descarbonização da economia. São também componente fundamental nos sistemas de energia solar e eólica.

Porém, quando utilizadas em produtos voltados à mobilidade, as baterias de íons lítio necessitam de um rendimento elevado. Por isso, a longo prazo, precisam ser substituídas. E para fabricá-las são necessários minerais críticos, tais como lítio, cobalto, grafite, entre outros, cujas reservas e fabricação são dominadas por poucos países.

Uma alternativa, ambiental e economicamente mais desejável, é a reutilização das baterias (em segunda vida) e também o reaproveitamento dos minerais de baterias já utilizadas.

É isso o que a planta possibilitará: testar em escala a viabilidade técnica e ambiental da reciclagem de baterias e recuperação de materiais valiosos (e estratégicos), como lítio, cobalto, níquel, que são componentes fundamentais nas células das baterias.

Além de reduzir os custos econômicos e ambientais, tanto a certificação em segunda vida, como a reciclagem de minerais aumentam a viabilidade dos projetos de geração de energia solar e eólica, assim como viabilizam os postos de carregamento rápido de veículos elétricos.

Anderson Correia, Presidente do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas, declarou que o IPT foi procurado pela Tupy e decidiu instalar essa planta dentro do Instituto, afirmando que "a ideia é que qualquer tipo de bateria elétrica (de automóvel, celular, etc) seja reciclada. Isso ajuda a reduzir o volume de descarte no meio ambiente. Além de ser benéfica ao meio ambiente, a iniciativa pode se tornar um grande negócio. Imagine quantas baterias serão descartadas em todo o mundo nos próximos anos".

26 julho, 2023

USP e Embraer fortalecem parceria em pesquisa e formação profissional


*Jornal da USP, por Erika Yamamoto - 24/07/2023

Com o propósito de fortalecer relações e identificar novas oportunidades de parceria, o reitor Carlos Gilberto Carlotti Junior visitou a unidade da Embraer em Gavião Peixoto, interior paulista, voltada para a produção de aeronaves militares e de componentes para aeronaves civis, além da realização de ensaios em voo.

“Construir parcerias com o setor produtivo integra a proposta da nossa gestão de aproximar a Universidade das empresas, do governo e da sociedade, para gerar melhorias que tenham impacto na vida das pessoas. E ter uma parceria com a Embraer, uma das maiores empresas do Brasil, é exatamente o que esperamos. Podem contar conosco para o que for necessário”, explicou Carlotti.

Durante a visita, além de reuniões para discutir novas oportunidades, a comitiva da USP pode conhecer a pista de 5 km do aeroporto de Gavião Peixoto, considerada a maior do hemisfério sul; a Torre de Controle; o simulador do KC-390; e os hangares da linha de montagem de Defesa e de Ensaios de Voo.

O vice-presidente e engenheiro-chefe da Embraer, Henrique Langenegger, ressaltou que “a Embraer existe porque o Estado investiu em sua criação, e temos a responsabilidade de manter esse investimento vivo. Nosso objetivo não é o lucro. O lucro é uma condição necessária para a empresa ser operante, mas nosso propósito é gerar benefícios para a sociedade, formando profissionais qualificados, desenvolvendo tecnologia”.

Participaram da visita o diretor da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), Fernando Martini Catalano; o presidente da Agência USP de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional (Aucani), Sergio Persival Baroncin Proença; o vice-diretor da EESC, Antonio Nelson Rodrigues da Silva; o coordenador do curso de Engenharia Aeronáutica da EESC, Glauco Augusto de Paula Caurin; o diretor de Operações de Gavião Peixoto, Rodrigo Guimarães Cristofi; o gerente de Planejamento de Engenharia, Jorge Bittencourt; o gerente de Engenharia de Ensaio em Voo, Jens Geiger Wentz; o engenheiro de Desenvolvimento Tecnológico, Luciano Pedrote; e o supervisor de Simulação de Sistemas, Luis Carlos de Castro Santos, que também é professor do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP.

Ampliando a parceria

Há anos a Embraer e a Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) trabalham em iniciativas conjuntas, especialmente relacionadas ao curso de Engenharia Aeronáutica. Além de palestras e aulas pontuais ministradas por profissionais da Embraer, a empresa tem participação ativa na Semana da Engenharia Aeronáutica, organizada anualmente pela EESC; mantém um programa de mentoria, em que estudantes da EESC e engenheiros da Embraer trabalham em pares por dois meses; e um programa de atração de talentos, em que alunos de destaque são selecionados para participar de treinamentos e estágios.

A proposta agora é intensificar essa colaboração, estendendo as oportunidades também para outras Unidades da USP, especialmente a Escola Politécnica e a Escola de Engenharia de Lorena. “Esperamos que um fortalecimento da parceria entre a Embraer e a USP possa melhorar ainda mais a capacidade técnica de ambas as instituições, captando novos talentos e aumentando a motivação e a retenção de nossos talentos, assim como o impacto da pesquisa produzida”, explicou o engenheiro de Propulsão da Embraer e organizador da visita, Gustavo Trapp.

O diretor da EESC, Fernando Martini Catalano, lembrou que “a aproximação com a Embraer também tem um impacto positivo na formação do corpo docente da USP, com a experiência de profissionais que atuam no mercado e que trazem uma visão além da academia”.

Entre as principais possibilidades de colaboração que foram discutidas no encontro estão a realização de pesquisas em temas de interesse comum, o oferecimento de cursos de extensão voltados especialmente para engenheiros da Embraer e a criação de um programa de mestrado profissional em Engenharia Aeronáutica.

Com mais de 8 mil aeronaves entregues, a Embraer é a terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo e é líder no segmento de até 130 assentos. Criada em 1969, a empresa revolucionou a tecnologia brasileira e atualmente possui cerca de 18 mil funcionários e unidades industriais, escritórios e centros de distribuição de peças e serviços nas Américas, África, Ásia e Europa.

05 maio, 2023

Embraer e Finep assinam acordo para desenvolvimento de plataformas demonstradoras de novas tecnologias aeronáuticas


*LRCA Defense Consulting - 05/05/2023

A Embraer e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) assinaram hoje um acordo para o desenvolvimento de plataformas demonstradoras de novas tecnologias aeronáuticas.

A oficialização da aplicação do recurso público voltado para compartilhar com as empresas os custos e riscos inerentes às pesquisas e desenvolvimentos de baixo e médio nível de maturidade tecnológica ocorreu durante cerimônia de comemoração dos 30 anos da Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB), em São José dos Campos, interior de São Paulo. A solenidade contou com a presença da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos e do vice-governador do Estado de São Paulo, Felício Ramuth e demais autoridades.

O projeto de inovação, que utiliza recursos não reembolsáveis, de subvenção econômica, do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) é avaliado em mais de R$ 180 milhões e terá o aporte de R$ 120 milhões da Finep ao longo dos próximos três anos. Os recursos complementares virão como contrapartida da empresa proponente, a Embraer, bem como de cinco coexecutores: Alltec, Equatorial, Eleb, Motora e TecCer. No contrato é previsto o desenvolvimento de bancadas de teste em solo (RIGs), softwares e uma aeronave modular remotamente operada para realização de ensaios em condição real de voo, com o objetivo de elevar o nível de maturidade destas novas tecnologias.

“Estamos muito felizes em dar continuidade à nossa longeva parceria com a Finep e poder contribuir com o avanço de tecnologias e transbordamento dos conhecimentos para outros setores da economia brasileira, avançar na agenda de descarbonização do planeta e gerar benefícios socioeconômicos ao Brasil, por meio da inovação, ciência e tecnologia”, disse Henrique Langenegger, Engenheiro-Chefe da Embraer.

“O projeto com a Embraer estabelece um tipo de arranjo, entre os executores, que oferece grande potencial de inovação, e é um modelo a ser seguido em várias áreas para solucionar encomendas tecnológicas lideradas por empresas âncora, e que envolvam parcerias com empresas de vários portes e ICTs”, afirmou o diretor de Inovação da Finep, Elias Ramos de Souza.

Para compor o projeto serão contratados Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs), como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), o Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e a Escola de Engenharia de São Carlos, que pertence à Universidade de São Paulo (USP), fortalecendo ainda mais a relação entre Governo, Academia e Indústria – a tríplice hélice que impulsiona o desenvolvimento socioeconômico.

A concessão de subvenção econômica para a inovação nas empresas é um instrumento de política de governo amplamente utilizado em países desenvolvidos e operado de acordo com as normas da Organização Mundial do Comércio (OMC). O objetivo é promover um significativo aumento das atividades de inovação e o incremento da competitividade das empresas e da economia do país.  

20 agosto, 2022

Indústria 4.0: WEG apoia o Laboratório da USP "Fábrica do Futuro"


*LRCA Defense Consulting - 19/08/2022

 MVISIA e a PPI Multitask, empresas adquiridas pela WEG em 2020, para acelerar o desenvolvimento de tecnologias voltadas à Indústria 4.0, são hoje apoiadoras fundamentais da Fábrica do Futuro, laboratório de Inovação da USP dedicado à manufatura próxima da realidade para pesquisa, ensino e demonstração de conceitos da Indústria 4.0.

O espaço acaba de ser o primeiro laboratório da América Latina a integrar a International Association of Learning Factories (IALF), principal rede acadêmica internacional de laboratórios conhecidos como Fábricas de Aprendizagem (Learning Factories), que possuem ênfase na formação de pessoal altamente qualificado para atuar na Indústria 4.0.

A nova parceria permitirá que o laboratório da USP integre grupos de trabalho conjuntos na rede internacional, incrementando o intercâmbio de melhores práticas de ensino e o desenvolvimento de novas tecnologias para a digitalização da manufatura. O laboratório da USP conta com o apoio de entidades e empresas parceiras como a WEG, que incentivam a geração de conhecimento e disponibilizam equipamentos para a testagem de protótipos e projetos que ajudam a transformar os conhecimentos adquiridos em novas soluções.

“Ao apoiar projetos de pesquisa estamos não só contribuindo para a formação de estudantes universitários, mas também fortalecendo toda uma cadeia tecnológica que só se mantem com a participação de profissionais bem qualificados, estudos bem elaborados e resultados comprovados. Foi assim que nasceu a MVISIA e é assim que desejamos que outros projetos conquistem seu espaço no mercado”, explica Carlos Bastos Grillo, Diretor de Negócios Digitais da WEG.

A Fábrica do Futuro é um ambiente integrado de compartilhamento de ideias e pesquisas que ajudam nos desafios encontrados no dia a dia da jornada 4.0. A parceria entre a empresa e a universidade também possibilita a ampliação do uso das soluções WEG, como o PC-Factory MES da PPI-Multitask, que está integrado ao sistema de visão da MVISIA, disponibilizado para as pesquisas dos estudantes.

“O apoio da WEG por meio da MVISIA e da PPI-Multitask tem sido fundamental desde o início da implantação da Fábrica do Futuro na USP. Nesse tipo de laboratório, a parceria universidade-empresa é fundamental para que os futuros profissionais possam ter acesso aos recursos tecnológicos mais atualizados e possam realizar Pesquisa e Desenvolvimento sobre problemas reais da indústria”, comenta o Prof. Eduardo Zancul da Escola Politécnica da USP, coordenador da iniciativa.

A importante parceria entre empresa e universidade
A MVISIA é um exemplo de aplicação do conhecimento científico aliado a empreendedorismo. Até chegar ao modelo de negócio ideal, o grupo teve um longo processo de prototipagem. Ela nasceu em 2012, no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (CIETEC), incubadora da USP, como uma startup voltada para o desenvolvimento de tecnologias associadas à Visão Computacional e Inteligência Artificial. Em 2020, a MVISIA foi adquirida pela WEG, multinacional brasileira referência em automação industrial.

O modelo das startups voltadas à inovação e empreendedorismo ganhou força nos últimos anos. Assim como outras universidades brasileiras, a USP tem um ótimo desempenho na geração de conhecimento e iniciativas empreendedoras que são criadas e desenvolvidas por estudantes que tiveram acesso a ensino de qualidade.

18 março, 2021

Avião silencioso: pesquisadores brasileiros reduzem ruído gerado por aeronaves

Pesquisadores do campus de São Carlos da USP, em parceria com a Embraer, reduziram cerca de 20% do ruído emitido pelas aeronaves, possibilitando a produção de aviões que estão entre os mais silenciosos do mundo. A pesquisa gerou três patentes internacionais.


Jato da linha E195-E2 fabricado pela Embraer - Foto: Embraer/Divulgação

*Assessoria de Comunicação da Escola de Engenharia de São Carlos - 17/03/2021

Com alterações aparentemente simples na estrutura de aviões gigantes, pesquisadores da USP, em São Carlos (interior de São Paulo), conseguiram reduzir cerca de 20% do ruído emitido pelas aeronaves, possibilitando a produção de aviões que estão entre os mais silenciosos do mundo. É a solução de um problema que atinge todo o setor da aviação. Cientistas do Departamento de Engenharia Aeronáutica (SAA) da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) sugeriram modificações na geometria da asa de um jato similar ao E195-E2, o maior já desenvolvido pela Embraer no Brasil, que permitiram à aeronave passar pelos testes aeroacústicos com 10 decibéis abaixo do limite permitido. As mudanças podem ser implementadas tanto em aviões que já estão em operação como em projetos de novas aeronaves que serão fabricadas. Os resultados obtidos no trabalho geraram três patentes internacionais.  

As alterações foram propostas na parte frontal da asa, nos chamados slates – abas móveis que ajudam a sustentar o avião –, e na região traseira, na ponta dos flaps, que também auxiliam na sustentação da aeronave, principalmente nas etapas de decolagem e aterrissagem.

“Nos ensaios, nós propusemos alterações no modelo da asa original para que, no momento em que o flap é acionado, uma espécie de borda fique exposta, resultando na redução de seis decibéis do ruído gerado. Também foram propostas modificações na geometria dos slates, reduzindo ainda mais o ruído emitido”, explica o professor e coordenador do estudo, Fernando Catalano, do SAA.

As soluções são baratas, de fácil aplicação e ainda deixam o nível de som externo bem abaixo dos futuros limites planejados pela Organização da Aviação Civil Internacional (OACI). As novidades são fruto do projeto Aeronave Silenciosa, o terceiro maior programa de estudos em aeroacústica do mundo, realizado em parceria com a Embraer. Recentemente, a empresa entregou o primeiro E195-E2 para a companhia aérea KLM, da Holanda, que é líder global em sustentabilidade no setor.

Túnel de Vento - Foto: Laboratório de Aerodinâmica da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP

Para comprovar a redução de ruídos, os pesquisadores da USP fizeram uma série de testes no Túnel de Vento do Laboratório de Aerodinâmica da EESC e na pista de pouso da Embraer, em Gavião Peixoto. O túnel conta com ventiladores que produzem ventos de até 180 quilômetros por hora (km/h) e microfones ultrassensíveis que apontam qual a origem do barulho. “Colocamos as peças dos aviões na câmara de ensaio e fizemos várias alterações até encontrarmos a geometria ideal para as asas”, explica o docente. Outros testes ainda foram realizados por alunos da USP e técnicos da Embraer na Nasa, a agência espacial norte-americana, que também trabalha para diminuir o ruído dos veículos aéreos. Além disso, ensaios em túneis de vento de grande porte na Holanda e Alemanha foram realizados para a consolidação das propostas.

Apesar das aeronaves terem se tornado mais silenciosas com o passar dos anos em todo o mundo, milhões de pessoas que moram ao redor de aeroportos ainda sofrem com o barulho provocado pelos aviões. No Brasil, os principais atingidos são os vizinhos do aeroporto de Congonhas, na capital paulista. De acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o ruído aeronáutico excessivo pode causar efeitos adversos sobre a população. O ruído intenso é capaz de provocar problemas de saúde, como o aumento dos batimentos cardíacos e pressão sanguínea, desencadeando complicações cardiovasculares. A perturbação do sono também é outro agravante, que pode aumentar as chances do aparecimento de distúrbios de saúde mental, como depressão e ansiedade. Até mesmo o desenvolvimento cognitivo de crianças pode ser comprometido.

Pessoas que moram ao redor de aeroportos ainda sofrem com o barulho provocado pelos aviões. No Brasil, os principais atingidos são os vizinhos do aeroporto de Congonhas, na capital paulista - Foto: Infraero


Redução do ruído
O professor Fernando Catalano explica que as principais fontes de ruído, causado pelo atrito da aeronave com o ar, são as asas e o trem de pouso, já que com o avanço da tecnologia os motores se tornaram mais silenciosos. “Os ruídos provocados pela estrutura da aeronave ficaram em evidência. Durante o voo, o ruído é mais emitido no momento da decolagem e do pouso. É aquele barulho que a gente ouve quando o avião está se aproximando, principalmente no momento da descida”, descreve. A Anac defende um equilíbrio cuidadoso entre a proteção dos moradores e o reconhecimento das contribuições econômicas e sociais da aviação, mas afirma que as áreas mais afetadas pelo som não deveriam ser ocupadas por residências, escolas e hospitais.

Para poder voar, as aeronaves precisam atender a diversos critérios de segurança, dentre eles, a emissão de ruídos também é avaliada. “O avião passa em cima de pequenos e potentes microfones que medem a quantidade de ruído emitido em decibéis”, esclarece o docente da EESC, que representa o Brasil em uma comissão de especialistas internacionais que produzem novas tecnologias para o setor de aviação. Ao redor dos aeroportos existe uma área de controle de intensidade do som. Neste perímetro, as empresas responsáveis por aeronaves que ultrapassam o limite permitido de 60 decibéis podem ser penalizadas.

Com o passar dos anos, essa regulamentação foi ficando cada vez mais rígida e diminuindo o nível de ruído permitido. No entanto, segundo Catalano, ainda falta fiscalização no Brasil. Na Europa e Estados Unidos, principalmente, existem legislações bastante severas. Dessa forma, a Embraer tem investido, por exemplo, em ciência e tecnologia para diminuir o ruído de seus aviões, além de aplicar recursos na capacitação de profissionais. Os estudos do projeto, que foi criado em 2010 e está sendo concluído neste ano, foram financiados pela própria Embraer, pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Durante a última década, mais de 150 pesquisadores brasileiros estiveram envolvidos no desenvolvimento das inovações tecnológicas.

De acordo com o professor da USP, os processos de engenharia avançaram muito com base nas pesquisas realizadas em São Carlos. Agora, antes mesmo de um avião nascer conceitualmente, essa tecnologia é considerada como prioritária.

 “Até então, essa área de pesquisa no Brasil estava bem atrasada em relação aos estudos desenvolvidos no exterior, principalmente em países da Europa e nos Estados Unidos. Diante dos esforços empenhados na produção desse longo trabalho, o Brasil se tornou referência no assunto e espero que os engenheiros aeronáuticos possam estar cada vez mais preocupados com a acústica dos aviões”, conclui Catalano.

O antigo “Sucatão” da Força Aérea Brasileira (FAB), avião presidencial aposentado em 2013 –  Foto: FAB

"Sucatão" dos presidentes
No Brasil, até avião presidencial já foi proibido de pousar em vários aeroportos ao redor do mundo por não atender a normas de ruídos. O antigo KC-137 da Força Aérea Brasileira (FAB), mais conhecido como “Sucatão”, serviu a todos os presidentes eleitos após a redemocratização até Luiz Inácio Lula da Silva. Com muitas reclamações e caras manutenções, o avião foi aposentado em 2013. Em 2014, a aeronave fez jus ao apelido e virou sucata depois de ser vendida em um leilão on-line. “Dava pra saber que o avião estava chegando muito antes dele aparecer”, brinca o professor Fernando Catalano.

Mais informações: e-mail eesc.jornalista@usp.br, na Assessoria de Comunicação da EESC

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