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08 outubro, 2026

Turbomachine aciona geradora de gases do TG-200 com etanol e avança na propulsão híbrida nacional

Primeiro funcionamento do equipamento marca nova etapa de projeto apoiado pela FINEP, desenvolvido para gerar 130 kW de eletricidade e atender futuras aeronaves híbridas, especialmente VANTs


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LRCA Defense Consulting - 08/10/2026

A Turbomachine anunciou nesta quarta-feira, 7 de outubro de 2026, o primeiro acionamento da geradora de gases do turbogerador aeronáutico TG-200 utilizando etanol. O ensaio ocorreu às 14h20, segundo comunicado da empresa. O resultado representa uma etapa inicial do desenvolvimento de um equipamento nacional destinado a fornecer energia elétrica para sistemas de propulsão híbrida, mas não significa que o conjunto completo já esteja operacional ou validado para uso aeronáutico.


O projeto foi selecionado na chamada Mais Inovação Brasil – Aviação Sustentável, da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), com subvenção econômica de R$ 8.962.020,00. O LRCA já havia noticiado sua aprovação em novembro de 2024. A passagem do projeto para ensaios de funcionamento constitui, agora, o principal fato novo.

Como funciona o TG-200 
Diferentemente de uma turbina destinada a produzir diretamente empuxo, o TG-200 foi concebido para transformar a energia do combustível em eletricidade. Sua arquitetura prevê uma geradora de gases, uma turbina livre de potência e um gerador elétrico compacto de alta rotação, com controle eletrônico. A potência contínua prevista é de 130 kW elétricos; documentos do projeto também mencionam até 200 HP de potência elétrica de pico, equivalentes a aproximadamente 149 kW.

Em uma aeronave híbrido-elétrica, a eletricidade produzida pode alimentar motores de propulsão e, conforme a arquitetura adotada, interagir com sistemas de armazenamento de energia. O objetivo é enfrentar limitações de autonomia e carga útil das aeronaves exclusivamente elétricas. Contudo, sem informações públicas sobre massa, consumo, eficiência e regime de funcionamento do conjunto, ainda não é possível quantificar as vantagens do TG-200 em uma aplicação específica.

ITA participa da solução de um desafio crítico 
O desenvolvimento conta com a participação do Laboratório de Plasmas e Processos do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (LPP-ITA). Segundo a Fundação Casimiro Montenegro Filho, responsável pela gestão administrativa e financeira do projeto, o laboratório desenvolve um ignitor com substrato de tungstênio e revestimento de nitreto de silício depositado por plasma. A iniciativa procura melhorar a resistência do componente à corrosão e às condições de alta temperatura e pressão associadas à operação com etanol.

A FCMF descreve um programa de desenvolvimento de 36 meses, estruturado em três frentes: geradora de gases, integração da turbina livre ao gerador e desenvolvimento de um gerador sem escovas de alta rotação controlado eletronicamente. O primeiro acionamento anunciado pela Turbomachine confirma um avanço na primeira dessas frentes, sem comprovar, por si só, o desempenho integrado das demais.

Possibilidades para a aviação civil e militar 
A proposta tem interesse potencial para veículos aéreos não tripulados de vigilância, reconhecimento e logística, além de outras plataformas que empreguem propulsão elétrica distribuída. No campo militar, um sistema nacional desse tipo poderia ampliar alternativas de integração e reduzir dependências externas em determinadas aplicações. Essas possibilidades, porém, são perspectivas tecnológicas, não encomendas ou programas de integração já confirmados.

A utilização do etanol também aproveita uma cadeia de produção consolidada no Brasil. Seu eventual benefício ambiental dependerá do consumo real do equipamento, da origem do combustível e da comparação do ciclo de vida com alternativas convencionais. A alegação de ineditismo mundial associada ao projeto em divulgações anteriores ainda exigiria verificação comparativa independente.

Próximas etapas 
O marco de 7 de outubro não esclarece a duração do ensaio, a rotação atingida, a potência elétrica produzida ou o cronograma para testes do turbogerador completo. A comprovação desses parâmetros, seguida de ensaios de durabilidade, integração e segurança, será decisiva para avaliar a maturidade do TG-200 e suas perspectivas comerciais.

Sediada em Jacareí (SP), no entorno do polo aeroespacial de São José dos Campos, a Turbomachine já desenvolve motores a turbina para diferentes aplicações. O TG-200 amplia essa experiência para um segmento no qual a geração embarcada de eletricidade pode ganhar relevância, especialmente em aeronaves não tripuladas. O primeiro funcionamento com etanol é, portanto, um avanço concreto, embora ainda distante de demonstrar um produto pronto para operação.

01 setembro, 2026

ITA e OpenAI: o que o acordo realmente prevê, segundo documentos oficiais

Caráter estratégico do ITA e seu vínculo com a Força Aérea Brasileira torna improvável que o acordo previsse, ou sequer admitisse, repasse de dados institucionais


*LRCA Defense Consulting - 01/09/2026

A OpenAI, empresa americana responsável pelo ChatGPT, anunciou, em 18 de agosto de 2026, durante evento em São Paulo, o início de suas operações comerciais no Brasil. O anúncio incluiu quatro iniciativas e parcerias institucionais: com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), com a Prefeitura de São Paulo, por meio da Prodam, com a plataforma de capacitação jurídica ENTER e com o programa Estímulo, voltado a pequenos empreendedores.

O acordo com o ITA, uma das principais escolas de engenharia ligadas às Forças Armadas no País, chamou atenção de setores que acompanham temas de defesa e soberania tecnológica. Nas redes sociais, circulou a leitura de que a instituição teria fechado uma parceria para compartilhar dados com a OpenAI, e de que o acordo levantaria suspeitas quanto à entrega de informações sensíveis à soberania nacional a uma empresa dos Estados Unidos.

O que dizem os documentos e anúncios oficiais 
Segundo o anúncio publicado pela própria OpenAI e confirmado por veículos como CNN Brasil, Poder360, IT Forum e Consecti, os termos tornados públicos descrevem a concessão de acesso e créditos pela OpenAI ao ITA: a empresa fornecerá contas do ChatGPT Edu a estudantes, docentes e funcionários do ITA, além de créditos para o uso de recursos avançados, como modelos de raciocínio e o Codex, ferramenta de programação da companhia. O objetivo declarado é ampliar o acesso a ferramentas de inteligência artificial no ensino, na pesquisa e no desenvolvimento tecnológico da instituição.

Em nenhuma das fontes oficiais consultadas, incluindo o anúncio da OpenAI e a cobertura jornalística sobre o evento de lançamento, foi localizada menção a cláusulas de compartilhamento de dados institucionais, de pesquisa ou de projetos do ITA com a empresa americana. O modelo descrito é equivalente ao adotado pela OpenAI em outras universidades, como Oxford, Wharton, Arizona State e Columbia. A iniciativa também se insere na estratégia maior da empresa de ampliar a utilização de suas ferramentas no ambiente universitário e acadêmico.

A política da OpenAI para contas institucionais do tipo Edu e Enterprise, disponível na central de ajuda da empresa, afirma que os dados dessas organizações não são utilizados para treinar os modelos por padrão, e que as informações são protegidas por criptografia em trânsito e em repouso. Isso, contudo, não significa que a empresa jamais processe os dados: o tratamento ocorre de acordo com as condições do serviço, as configurações da organização e as respectivas políticas de privacidade. 

Por que o tema gera desconfiança 
O caráter estratégico do ITA, ligado à formação de engenheiros para a indústria aeroespacial e de defesa, explica por que qualquer parceria da instituição com uma empresa estrangeira de tecnologia tende a ser observada com atenção redobrada. A chegada da OpenAI ao País ocorre, ainda, em um momento de disputa comercial entre grandes empresas de inteligência artificial por espaço no mercado brasileiro, o que amplia o escrutínio sobre os termos de cada acordo firmado com instituições públicas ou estratégicas.

Ainda assim, a distinção entre fornecer acesso a uma ferramenta e repassar dados institucionais é relevante para a análise do caso. Um risco operacional distinto, e esse sim mencionado por especialistas em segurança da informação de forma genérica, é o de usuários inserirem, no uso cotidiano de ferramentas de inteligência artificial, informações sensíveis em suas próprias consultas, independentemente da existência de qualquer cláusula contratual de repasse de dados. Esse risco, no entanto, decorre do comportamento do usuário e não caracteriza, por si só, um acordo institucional de transferência de informações como o descrito nas redes sociais.

Situação até o fechamento desta matéria
Até o momento, não foi localizado, nos canais oficiais consultados do ITA, da Aeronáutica ou do Ministério da Defesa, documento contratual público que permita conhecer eventuais cláusulas adicionais do acordo além das informações divulgadas pela OpenAI. Também não foi localizada manifestação pública específica dessas instituições que detalhe o teor jurídico e operacional da parceria.

Isso não permite concluir, contudo, que não existam outras cláusulas contratuais. Significa apenas que, até o fechamento desta matéria, elas não foram tornadas públicas ou não foram localizadas nas fontes oficiais consultadas.

Diante do caráter estratégico do ITA e de seu vínculo direto com a Força Aérea Brasileira, seria de se esperar que a instituição não admitisse, em um acordo dessa natureza, cláusula que previsse, ou sequer deixasse em aberto, a possibilidade de transferência de dados institucionais, de pesquisa ou de projetos estratégicos a uma empresa estrangeira. Nas informações públicas disponíveis, não há qualquer indício de que esse tenha sido o objeto da parceria com a OpenAI. O que está documentado é a disponibilização de contas do ChatGPT Edu e de créditos para recursos avançados, incluindo modelos de raciocínio e o Codex.

15 maio, 2026

Satélite brasileiro passa em teste crítico e avança rumo à soberania espacial do país

SatVHR supera simulação de lançamento no LIT do INPE e consolida o maior projeto de subvenção da história da Finep, em momento em que o Brasil debate sua dependência de satélites estrangeiros 

 

*LRCA Defense Consulting - 15/05/2026

O Satélite de Pequeno Porte de Altíssima Resolução, batizado de SatVHR, passou com folga por um dos testes mais rigorosos de seu desenvolvimento: a simulação das vibrações extremas que ocorrem durante o lançamento de um foguete. A notícia, divulgada pela Visiona Tecnologia Espacial na última terça-feira, representa um passo decisivo para que o Brasil coloque, pela primeira vez, em órbita um satélite óptico de observação da Terra de altíssima resolução integralmente projetado em solo nacional.

O que é o SatVHR e por que o teste importa
O SatVHR foi concebido para capturar imagens detalhadas de grandes áreas do território com resolução sub-métrica de 0,75 metro. Em linguagem prática, isso significa que, a partir do espaço, o satélite conseguirá distinguir objetos com menos de um metro de tamanho na superfície terrestre. Essa capacidade abre portas para aplicações que vão da defesa e da vigilância de fronteiras ao monitoramento ambiental da Amazônia, passando pelo ordenamento territorial, a proteção de terras indígenas e o suporte ao agronegócio.

O teste superado agora, chamado de teste de vibração, submete o modelo estrutural e térmico do satélite a cargas mecânicas ainda mais severas do que as previstas no lançamento real. O procedimento foi realizado no Laboratório de Integração e Testes (LIT) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em São José dos Campos, considerado o principal laboratório espacial da América Latina.

"O objetivo aqui é simples: ter certeza de que o satélite vai resistir ao momento mais crítico da missão, a decolagem, sem sofrer danos ou deformações que comprometam seu funcionamento. É um teste muito duro em que submetemos o satélite a cargas ainda mais severas do que as que ele enfrentará no lançamento", afirmou Himilcon Carvalho, diretor de Tecnologia Espacial da Visiona.

A preocupação tem razão de ser: mesmo pequenas deformações estruturais podem desalinhar sensores de orientação e o sistema óptico da câmera, comprometendo de forma irreversível a missão. Com o teste concluído com sucesso e boa margem de segurança, a equipe ganhou a confiança necessária para avançar às próximas etapas do projeto.

"O satélite SatVHR requer extrema precisão para funcionar. O sucesso neste teste tão crítico nos dá confiança de que estamos na direção certa", disse João Paulo Rodrigues Campos, presidente e CEO da Visiona.

Um projeto de envergadura nacional
O SatVHR é muito mais do que um produto de uma única empresa. O projeto é liderado pela Visiona, joint-venture entre a Embraer Defesa & Segurança e a Telebras, criada em 2012 para atender aos objetivos do Programa Espacial Brasileiro. O desenvolvimento reúne um consórcio amplo: as empresas Equatorial Sistemas, Fibraforte, Kryptus, OPTO Space & Defense e Orbital Engenharia participam como coexecutoras, ao lado de instituições de pesquisa como o próprio INPE, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), o Instituto SENAI de Inovação, a AEL Sistemas e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O contrato foi assinado em maio de 2023 com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e prevê investimento total de R$ 219 milhões em subvenção econômica do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Trata-se do maior projeto de subvenção econômica já concedido pela Finep em sua história. O resultado esperado é também inédito: o SatVHR deverá ser o satélite com maior índice de conteúdo nacional já desenvolvido no país.

O reconhecimento externo já veio. Em março de 2026, a Visiona recebeu, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, o Prêmio Finep de Inovação 2025, na categoria Tecnologias de Interesse para a Soberania e a Defesa Nacionais. A cerimônia contou com a presença da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, e do presidente da Finep, Luiz Antônio Elias.

Uma trajetória de aprendizado acumulado
O SatVHR não nasce do zero. Ele é o ponto de chegada de uma trajetória de acúmulo tecnológico que a Visiona vem construindo nos últimos anos. Em 2017, a empresa foi responsável pelo Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC-1), voltado a comunicações militares e banda larga. Em abril de 2023, lançou o VCUB1, o primeiro nanossatélite de observação da Terra e coleta de dados desenvolvido por uma empresa privada brasileira.

O VCUB1 operou por quase dois anos em órbita e encerrou sua missão em fevereiro de 2025, ao reentrar na atmosfera conforme planejado. O satélite serviu como banco de testes para tecnologias de navegação, gestão de bordo e comunicação que não podiam ser verificadas integralmente em laboratório. Segundo o diretor de Tecnologia da Visiona, Himilcon Carvalho, essas soluções agora migrarão para o SatVHR.

O Brasil espacial: potencial imenso, investimento modesto, dependência externa
A importância do SatVHR precisa ser lida em um contexto mais amplo: o Brasil é uma das maiores economias do planeta, ocupa posição singular na geopolítica por seu tamanho continental, sua biodiversidade e seus recursos naturais, mas permanece entre os países do G20 que menos investem no setor espacial.

Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que, em 2023, o Brasil destinou apenas US$ 47 milhões em recursos públicos ao setor espacial, o equivalente a 0,002% do PIB. O valor coloca o país à frente apenas do México entre as 20 maiores economias do mundo e é cerca de 30 vezes menor do que a média do grupo. Para comparação, os Estados Unidos investiram US$ 73,2 bilhões (0,264% do PIB) no mesmo ano; a China, entre US$ 14 e 18 bilhões; Índia e Rússia, entre US$ 1,5 e 2,5 bilhões.

Atualmente o Brasil opera apenas 24 satélites entre os mais de 13 mil em órbita ao redor da Terra. A dependência de infraestrutura estrangeira é concreta: um levantamento do Programa Espacial Brasileiro (PEB) aponta que só o Poder Executivo federal demanda, anualmente, R$ 860 milhões em serviços espaciais contratados de terceiros. Entre 2013 e 2023, o orçamento da Agência Espacial Brasileira (AEB) foi reduzido em 68%.

"A indústria espacial brasileira pode ser protagonista global, assim como a respeitada indústria aeronáutica. Atualmente dependemos de satélites estrangeiros para atender a necessidades básicas da sociedade brasileira. Temos que mitigar essa vulnerabilidade que ameaça nossa soberania", alerta Julio Shidara, presidente da Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB).

Soberania como prioridade de Estado
Diante desse diagnóstico, iniciativas como o SatVHR ganham significado estratégico que vai além da engenharia. Dominar a produção de satélites de observação em alta resolução significa, na prática, reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros para dados sobre o próprio território nacional, em áreas sensíveis que incluem defesa, monitoramento ambiental, controle de fronteiras e gestão de recursos naturais.

Analistas do setor apontam que a experiência acumulada em projetos nacionais como o SatVHR cria um ecossistema industrial e científico que transcende o equipamento em si. Ela forma engenheiros especializados, fortalece fornecedores locais, gera propriedade intelectual e cria base para projetos futuros, inclusive comerciais.

O governo federal, por sua vez, incluiu o setor aeroespacial na Nova Indústria Brasil (NIB), política industrial lançada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI). A missão 6 da NIB prevê aportes de cerca de R$ 113 bilhões para ampliar o domínio brasileiro em radares, satélites e foguetes, com meta de alcançar até 55% de domínio das tecnologias críticas de defesa até 2026 e 75% até 2033.

Em paralelo, o Microlançador Brasileiro (MLBR) está em desenvolvimento com investimento de R$ 189 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em parceria com a Agência Espacial Brasileira (AEB). Com cerca de 12 metros de altura e capacidade para transportar satélites de até 40 quilos, o foguete visa dar ao Brasil autonomia de lançamento orbital a partir de Alcântara (MA), cuja localização próxima à linha do Equador representa vantagem competitiva rara no mercado espacial global. Os primeiros lançamentos estão previstos para 2027.

Próximos passos do SatVHR
Com o teste de vibração concluído, o SatVHR avança para as etapas subsequentes de qualificação. O modelo estrutural e térmico, que foi o objeto dos testes atuais, dará lugar ao modelo de voo, que incorporará todos os sistemas funcionais do satélite. O projeto foi contratado para entrega até o fim de 2026, o que coloca o lançamento como possibilidade concreta ainda dentro do calendário original.

Para o Brasil, colocar em órbita um satélite de altíssima resolução de concepção inteiramente nacional representaria um marco comparável, guardadas as proporções, ao que significou a aviação regional para a Embraer nas décadas de 1980 e 1990. Seria a prova de que o país tem capacidade de desenvolver tecnologia espacial de ponta, não apenas de operar e consumir o que outros produzem.

O teste concluído no LIT do INPE, por menor que pareça ao grande público, é um tijolo nessa construção. E cada tijolo conta.

25 fevereiro, 2026

ITA e Mac Jee firmam parceria para desenvolver foguete hipersônico que levará o Brasil ao seleto clube das potências aeroespaciais

Acordo formalizado em 11 de fevereiro prevê colaboração em aerodinâmica, aeroelasticidade e otimização de trajetória do RATO-14X,  foguete acelerador que deverá transportar o veículo hipersônico 14-X a mais de Mach 8 até a estratosfera, com lançamento previsto para o final de 2027 no Centro Espacial de Alcântara 


*LRCA Defense Consulting - 25/02/2026

No dia 11 de fevereiro de 2026, o gabinete da Reitoria do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, foi palco de um acontecimento que pode marcar um ponto de inflexão na história aeroespacial brasileira. A empresa Mac Jee e o ITA assinaram um Acordo de Parceria voltado ao desenvolvimento do RATO-14X (Rocket Assisted Take-Off), o foguete acelerador que deverá ser o impulso inicial do veículo hipersônico 14-X rumo à estratosfera.

A cerimônia reuniu a CEO da Mac Jee, Alessandra Stefani, o corpo diretivo da empresa, o Magnífico Reitor Prof. Dr. Antonio Guilherme de Arruda Lorenzi, e os professores Gil Annes, Vinicius Malatesta e Ronaldo Cruz. O acordo concentra os esforços conjuntos nas áreas de aerodinâmica, aeroelasticidade e otimização de trajetória, disciplinas críticas para que o foguete cumpra sua missão com precisão e segurança.

Concepção artística do 14-X em órbita

O que é o RATO-14X e por que ele é tão importante
O veículo hipersônico 14-X, desenvolvido no âmbito do Projeto PropHiper pelo Instituto de Estudos Avançados (IEAv), utiliza um motor do tipo scramjet, propulsor que necessita de velocidades extremamente altas para ser acionado. O grande desafio técnico é justamente levar o veículo a essas condições antes de soltá-lo em voo autônomo.

O RATO-14X foi concebido como a solução para esse problema. O foguete deverá transportar o 14-X a uma altitude entre 30 e 40 quilômetros, atingindo velocidades em torno de Mach 8, aproximadamente 8.500 km/h. Nesse ponto, o scramjet é acionado e o veículo hipersônico segue sua trajetória de forma autônoma. A versão anterior do projeto utilizava o foguete VSB-30, que foi suficiente para os testes de 2021, mas não suporta a configuração atual, mais pesada, do 14-X SP.

Em dezembro de 2021, o demonstrador 14-X S atingiu velocidade próxima a Mach 6 durante a Operação Cruzeiro, realizada no Centro Espacial de Alcântara, validando pela primeira vez as condições de partida e combustão do motor em ambiente real de voo. Com isso, o Brasil ingressou no seleto grupo de países capazes de testar tecnologia hipersônica aspirada em condições operacionais.

Uma parceria construída ao longo de anos
O acordo assinado em fevereiro de 2026 não surgiu do nada. É o resultado de uma aproximação progressiva entre a Mac Jee e as instituições de pesquisa vinculadas ao Comando da Aeronáutica. Em outubro de 2024, o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) realizou o evento de lançamento oficial do Projeto RATO-14X, com a participação do IEAv, do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e do próprio ITA. O então Diretor-Geral do DCTA, Tenente-Brigadeiro do Ar Maurício Augusto Silveira de Medeiros, destacou na ocasião a importância do modelo de Tríplice Hélice (governo, indústria e academia) para o avanço tecnológico.

Em dezembro de 2025, um novo passo foi dado com a formalização de parceria estratégica entre o IEAv e a Mac Jee, publicada no Diário Oficial da União. Com vigência de 36 meses, esse acordo prevê a atuação conjunta de cerca de 40 engenheiros e cientistas focados nas simulações e análises aerotermodinâmicas mais complexas do projeto, aproveitando a infraestrutura laboratorial de referência regional do IEAv.

A colaboração com o ITA, agora formalizada, complementa esse ecossistema ao trazer o rigor científico e a excelência acadêmica da instituição para temas específicos que demandam pesquisa de ponta: como o veículo se comporta aerodinamicamente em voo hipersônico, quais as implicações estruturais das forças aeroelásticas sobre a estrutura do foguete e como otimizar sua trajetória para garantir o desempenho máximo. 

Academia e indústria: formando a próxima geração
A integração entre o ITA e a Mac Jee vai além dos laboratórios. Em abril de 2025, as duas instituições, em conjunto com o CNPq, lançaram cinco bolsas de pesquisa — duas de doutorado e três de mestrado — vinculadas ao Programa MAI/DAI (Mestrado e Doutorado Acadêmico para Inovação). As bolsas contemplam temas diretamente relacionados ao RATO-14X, como caracterização de efeitos aeroelásticos, otimização de trajetória, estratégias de separação de veículos hipersônicos e guiamento autônomo sem uso de GNSS.

Os estudantes selecionados são alocados no ITA, com visitas periódicas à Mac Jee e participação ativa nos projetos da empresa, uma ponte direta entre a formação acadêmica e os desafios reais de engenharia aeroespacial de fronteira. A iniciativa também inclui pesquisas ligadas ao Projeto Dagger, outro veículo em desenvolvimento pela empresa.

 
Vídeo da assinatura da parceria ITA e Mac Jee

Mac Jee: de distribuidora a protagonista hipersônica
Fundada em 2007, a Mac Jee começou suas operações distribuindo componentes militares importados. Ao longo de quase duas décadas, transformou-se em uma das principais empresas da Base Industrial de Defesa brasileira. Nos últimos quatro anos, investiu R$ 120 milhões na construção de duas fábricas, em São José dos Campos e Paraibuna, tornando-se a empresa com maior capacidade de produção e armazenamento de materiais energéticos do Hemisfério.

O RATO-14X foi conquistado por meio de edital da FINEP, com apoio do DCTA/FAB e do FNDCT. O projeto é também financiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Mais de 500 profissionais estarão envolvidos em suas diversas fases, desde a engenharia de sistemas até o lançamento do foguete, previsto para o final de 2027 em Alcântara, no Maranhão.

Soberania tecnológica em pauta
O contexto geopolítico confere urgência ao projeto. Tecnologias hipersônicas (sistemas capazes de superar Mach 5 com trajetórias manobráveis) já estão em operação em larga escala nos Estados Unidos, China e Rússia. O Ministério da Defesa brasileiro definiu propulsão hipersônica como uma das 24 áreas críticas para a autonomia nacional.

Além das aplicações militares, o domínio do scramjet abre portas para o desenvolvimento de lançadores espaciais mais eficientes e econômicos, colocando o Brasil na vanguarda do acesso comercial ao espaço. O projeto prevê quatro fases, culminando no 14-XWP: um veículo hipersônico autônomo, totalmente controlável, com propulsão hipersônica ativa. Se bem-sucedido, o Brasil se juntará a Estados Unidos, China, Rússia, França, Japão e Austrália no grupo de nações com domínio pleno sobre essa tecnologia estratégica.

A parceria recém-assinada entre o ITA e a Mac Jee representa, portanto, muito mais do que um acordo acadêmico. É um elo numa cadeia cuidadosamente construída de colaborações entre governo, universidade e indústria, a chamada Tríplice Hélice, com o objetivo de garantir ao Brasil um lugar de protagonismo na era hipersônica que já chegou.

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