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01 outubro, 2026

BRASSAT propõe salto da indústria espacial brasileira com constelação de uso civil e militar

Atas do CT-Espacial detalham estimativas de investimento e mostram que a proposta também busca preservar a capacidade industrial desenvolvida em projetos como o SatVHR. Visiona busca recursos do FNDCT para a primeira etapa



*LRCA Defense Consulting - 01/10/2026

A proposta de uma constelação brasileira de pequenos satélites ganhou novo impulso com a intenção da Visiona (joint venture entre a Embraer e a Telebras) de buscar recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) para sua primeira etapa. O BRASSAT pretende combinar observação da Terra e comunicação de dados em uma infraestrutura de uso civil e militar. Documentos do CT-Espacial mostram que sua relevância industrial já vinha sendo discutida antes do anúncio, com preocupação explícita sobre a continuidade das atividades do setor.

Segundo o Teletime, o presidente da Visiona, João Paulo Campos, apresentou a estratégia em 30 de setembro, durante o Congresso Latino Americano de Satélites, no Rio de Janeiro. A empresa, formada pela Embraer e pela Telebras, quer financiar o desenvolvimento tecnológico e uma constelação-piloto com o FNDCT, recorrendo posteriormente também a fundos ambientais. O executivo apontou o risco tecnológico como obstáculo à atração de parceiros.

Uma infraestrutura para observar e coletar dados 
A configuração divulgada prevê 44 satélites. Desse total, 24 seriam destinados à comunicação e à coleta de dados para aplicações de internet das coisas (IoT); 16 realizariam monitoramento sistemático, com cobertura do País a cada cinco dias e resolução de 2,5 metros; e quatro atenderiam à observação de áreas específicas em alta resolução.

A amplitude da proposta aparece também na documentação governamental. A Mensagem ao Congresso Nacional de 2026 menciona BRASSAT, CARPONIS e ESSENTIA entre as propostas lançadas em 2025 para monitoramento ambiental, observação da Terra e desenvolvimento de nanossatélites. A referência confirma a presença do BRASSAT na agenda institucional, mas não comprova contratação ou liberação de recursos para implantar a constelação.

O planejamento de 2025 previa R$ 422 milhões em duas fases 
A ata da 36ª reunião do Comitê Gestor do CT-Espacial, realizada em 8 de abril de 2025, registra uma apresentação da Agência Espacial Brasileira (AEB) com três etapas. A primeira, voltada à consolidação tecnológica, previa R$ 244 milhões em três anos. A segunda estimava R$ 178 milhões em dois anos. Para a fase operacional, a previsão era de R$ 100 milhões anuais.

As duas primeiras fases somavam, portanto, R$ 422 milhões. Esses valores correspondem ao planejamento apresentado em 2025, não a um orçamento atualizado ou a financiamento já aprovado. A mesma ata menciona 24 satélites de comunicação e 16 de monitoramento sistemático, sem explicitar os quatro de alta resolução informados agora. A diferença exige confirmação antes de vincular os custos antigos à configuração de 44 equipamentos.

Preservar a indústria entre uma missão e outra 
Na reunião seguinte, em 30 de abril de 2025, a Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB) alertou para o risco de interrupção dos projetos e de perda de continuidade industrial. A ata relaciona essa preocupação ao SatVHR, desenvolvido pela Visiona com apoio da Finep, e à possibilidade de dar sequência ao esforço por meio de uma constelação.

O documento registra a defesa de que BRASSAT e CBERS-5 avancem em paralelo, inclusive com recursos menores para o detalhamento inicial da proposta. Entre os encaminhamentos, aparece a preocupação com a desmobilização da capacidade instalada por falta de continuidade entre projetos.

Sob a perspectiva industrial, a questão é manter trabalho para equipes especializadas e fornecedores após a conclusão de cada desenvolvimento. Uma demanda continuada poderia permitir que o conhecimento acumulado fosse aplicado a novas unidades e aperfeiçoamentos. Esse é um benefício potencial do modelo de constelação, condicionado à contratação e à sustentação financeira do programa.

O SatVHR oferece uma base tecnológica em desenvolvimento 
Um avanço concreto ocorreu em maio de 2026, quando a Visiona anunciou a conclusão dos testes de vibração do modelo estrutural e térmico do Satélite de Pequeno Porte de Altíssima Resolução (SatVHR), no Laboratório de Integração e Testes do INPE. O ensaio verificou a resistência da estrutura às condições de lançamento; não significou que o satélite estivesse pronto para operar em órbita.

Segundo a empresa, o projeto foi contratado pela Finep em 2023, com previsão de R$ 219 milhões em subvenção econômica do FNDCT. Participam do desenvolvimento Equatorial Sistemas, Fibraforte, Kryptus, OPTO Space & Defense e Orbital Engenharia, além de outras empresas e instituições científicas. O aporte pertence ao SatVHR e não deve ser confundido com recursos assegurados ao BRASSAT.

O LRCA já acompanhou essa trajetória, incluindo o encerramento da missão do VCUB1, em fevereiro de 2025, e os testes do SatVHR, em maio de 2026. Essa sequência permite contextualizar a proposta de constelação como uma possibilidade de continuidade das competências desenvolvidas. A composição definitiva do BRASSAT e o papel de cada plataforma, entretanto, ainda precisam ser detalhados.

A contribuição do SENAI e dos sensores ambientais 
A vertente de coleta de dados também possui antecedentes próprios. Na Hannover Messe 2026, a apresentação do SESI/SENAI associou o Catarina-A2 ao BRASSAT. O nanossatélite é desenvolvido pelo Instituto SENAI de Inovação em Sistemas Embarcados, em Santa Catarina, em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a AEB.

Sua função é receber informações de plataformas ambientais em solo, armazená-las temporariamente e retransmiti-las às estações terrestres. Entre as aplicações indicadas estão previsão meteorológica, acompanhamento de desastres naturais, gestão de recursos hídricos e planejamento agrícola. Essa vertente ajuda a explicar por que a proposta reúne observação por imagens e comunicação de dados de sensores.

Da proposta à operação continuada 
O próximo passo decisivo será converter o apoio institucional em compromissos de execução. Permanecem sem confirmação, nas fontes públicas consultadas, o contrato de implantação do BRASSAT, a liberação de recursos para sua primeira fase e um calendário firme de lançamentos.

Para avaliar o alcance efetivo da iniciativa, também será necessário conhecer a composição da constelação-piloto, a governança da operação, as condições de acesso aos dados e o financiamento da reposição dos satélites. São essas definições que permitirão dimensionar a contribuição do BRASSAT à autonomia brasileira e à continuidade de sua indústria espacial.

29 setembro, 2026

Telebras coordenará rede com tripla redundância para transmitir a Copa Feminina de 2027

Contrato de R$ 230,5 milhões prevê circuitos de alta capacidade, participação de outras operadoras e infraestrutura pronta em maio de 2027

Imagem meramente ilustrativa

*LRCA Defense Consulting - 29/09/2026

A Telebras será responsável por uma rede de telecomunicações que deverá conectar os oito estádios da Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027 a um centro de transmissão no Rio de Janeiro. O contrato com o Ministério das Comunicações (MCom), divulgado em 29 de setembro, tem valor estimado de R$ 230,5 milhões e prevê uma solução com trajetos independentes, redundância e participação obrigatória de outra operadora em parte das conexões.

O termo de referência consultado pela LRCA detalha exigências que ajudam a dimensionar a operação. Além de transportar áudio, vídeo, sincronismo e dados, a Telebras deverá coordenar a implantação, os testes, a manutenção e o suporte durante o evento. Os requisitos descrevem o que deve ser entregue, sem comprovar que a rede já esteja instalada.

Três circuitos por estádio 
Cada estádio deverá ser atendido por três circuitos independentes, identificados como azul, vermelho e verde, com percursos geograficamente distintos e sem pontos críticos comuns. Cada circuito terá duas vias redundantes, com capacidade mínima de 50 gigabits por segundo (Gbps) por via. A arquitetura busca reduzir o risco de que uma falha comprometa simultaneamente os caminhos disponíveis para a transmissão.

A rede conectará os estádios Mineirão, Mané Garrincha, Castelão, Beira-Rio, Arena Pernambuco, Maracanã, Fonte Nova e Arena Corinthians ao centro de transmissão previsto no Píer Mauá. Um estúdio em Copacabana contará com os mesmos requisitos de tripla abordagem e redundância. O centro também será interligado a dois pontos de presença internacionais, a serem indicados pela FIFA/HBS na região metropolitana do Rio.

Os acessos gerenciados à internet deverão ser fisicamente separados da rede de contribuição audiovisual, com segregação de cabos, rotas, equipamentos e operação. O documento proíbe até mesmo o compartilhamento do cabo óptico utilizado pelos circuitos que transportarão os sinais das transmissões.

Outra operadora terá participação obrigatória 
A diversidade de fornecedores integra as exigências técnicas. Pelo menos um dos três circuitos de cada estádio e do estúdio de TV deverá ser fornecido por uma operadora de telecomunicações distinta da Telebras. A condição procura evitar que todos os caminhos dependam exclusivamente de um único prestador.

O termo permite a contratação de terceiros para fornecer capacidade de rede, circuitos, obras civis, lançamento de cabos e outros serviços complementares, mediante autorização prévia da Administração. A Telebras, porém, manterá a responsabilidade integral pelo desempenho e pela entrega da solução. A documentação examinada não identifica quais operadoras participarão. 

Imagem meramente ilustrativa

Testes e operação concentram metade do valor 
O valor de R$ 230.525.371,93 está distribuído em cinco etapas. O planejamento técnico representa 2%, cerca de R$ 4,61 milhões; a implantação, 40%, aproximadamente R$ 92,21 milhões; os testes e o comissionamento, 20%, cerca de R$ 46,11 milhões; a operação assistida e o período crítico, 30%, aproximadamente R$ 69,16 milhões; e a desmobilização e documentação final, 8%, cerca de R$ 18,44 milhões.

Assim, metade do montante está vinculada às etapas de testes e operação. Elas incluem validação de desempenho e redundância, monitoramento contínuo, manutenção, suporte e tratamento de incidentes. Os pagamentos dependerão dos serviços efetivamente executados, medidos e aceitos pela Administração.

Segundo o termo de referência, a pesquisa de preços produziu uma estimativa de R$ 236,13 milhões. A proposta da Telebras ficou aproximadamente R$ 5,61 milhões abaixo, uma diferença de 2,38%. Essa comparação registra a posição da proposta em relação à referência do MCom; por si só, não comprova economia efetiva na execução.

Rede pronta antes da abertura 
O cronograma prevê uma prova de conceito no primeiro trimestre de 2027. A infraestrutura deverá estar implantada, testada e pronta para serviço até 15 de maio, antes do jogo de abertura, em 24 de junho. A operação plena deverá ser mantida até 25 de julho, com permanência do serviço até o dia 26 e posterior desmobilização segura.

A vigência prevista é de 12 meses. Embora haja possibilidade de prorrogação pelo período necessário à conclusão do escopo, o termo ressalva que isso não altera automaticamente as datas críticas de entrega. Atrasos injustificados poderão resultar em ajustes de pagamento e sanções.

A contratação direta foi formalizada pela Dispensa de Licitação nº 90011/2026. Conforme o termo de referência, o fundamento inclui o artigo 75, inciso IX, da Lei nº 14.133/2021 e o artigo 27 da Lei nº 15.421/2026, que prevê a contratação da Telebras para os serviços necessários ao evento.

Contratações complementares e legado
Em uma frente distinta, a Telebras anunciou o Pregão Eletrônico/SRP nº 35/2026, com abertura prevista para 2 de outubro. O objeto abrange vistorias, projetos e implantação ou expansão de infraestrutura, mencionando expressamente a Copa Feminina. Como também contempla outras demandas da estatal, seu eventual valor não pode ser tratado automaticamente como despesa adicional do torneio.

O alcance do legado permanente ainda exige esclarecimentos. O escopo prevê desativação, retirada ou regularização de equipamentos e documentação final. Assim, não é possível afirmar que todo o valor contratado será convertido em infraestrutura incorporada ao País. Será necessário conhecer quais ativos permanecerão em operação, sua destinação e as condições de aproveitamento após a competição. 
 
Telebras e as comunicações estratégicas do País
A Telecomunicações Brasileiras S.A. (Telebras) é uma sociedade de economia mista de capital aberto vinculada ao Ministério das Comunicações. Atua no fornecimento de conectividade à administração pública, no apoio a provedores regionais e na execução de políticas de inclusão digital. Sua infraestrutura reúne mais de 30 mil quilômetros de rede de fibra óptica e serviços por meio do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC), que amplia o alcance das conexões em território brasileiro.

A companhia também é credenciada pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED), condição formalizada pela Portaria GM-MD nº 2.526, de 6 de junho de 2025, publicada em 11 de junho daquele ano. O credenciamento insere a Telebras entre as empresas reconhecidas por sua relevância para a segurança e a defesa nacionais, em consonância com sua atuação nas comunicações estratégicas do Estado e na soberania das telecomunicações do País. 

15 maio, 2026

Satélite brasileiro passa em teste crítico e avança rumo à soberania espacial do país

SatVHR supera simulação de lançamento no LIT do INPE e consolida o maior projeto de subvenção da história da Finep, em momento em que o Brasil debate sua dependência de satélites estrangeiros 

 

*LRCA Defense Consulting - 15/05/2026

O Satélite de Pequeno Porte de Altíssima Resolução, batizado de SatVHR, passou com folga por um dos testes mais rigorosos de seu desenvolvimento: a simulação das vibrações extremas que ocorrem durante o lançamento de um foguete. A notícia, divulgada pela Visiona Tecnologia Espacial na última terça-feira, representa um passo decisivo para que o Brasil coloque, pela primeira vez, em órbita um satélite óptico de observação da Terra de altíssima resolução integralmente projetado em solo nacional.

O que é o SatVHR e por que o teste importa
O SatVHR foi concebido para capturar imagens detalhadas de grandes áreas do território com resolução sub-métrica de 0,75 metro. Em linguagem prática, isso significa que, a partir do espaço, o satélite conseguirá distinguir objetos com menos de um metro de tamanho na superfície terrestre. Essa capacidade abre portas para aplicações que vão da defesa e da vigilância de fronteiras ao monitoramento ambiental da Amazônia, passando pelo ordenamento territorial, a proteção de terras indígenas e o suporte ao agronegócio.

O teste superado agora, chamado de teste de vibração, submete o modelo estrutural e térmico do satélite a cargas mecânicas ainda mais severas do que as previstas no lançamento real. O procedimento foi realizado no Laboratório de Integração e Testes (LIT) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em São José dos Campos, considerado o principal laboratório espacial da América Latina.

"O objetivo aqui é simples: ter certeza de que o satélite vai resistir ao momento mais crítico da missão, a decolagem, sem sofrer danos ou deformações que comprometam seu funcionamento. É um teste muito duro em que submetemos o satélite a cargas ainda mais severas do que as que ele enfrentará no lançamento", afirmou Himilcon Carvalho, diretor de Tecnologia Espacial da Visiona.

A preocupação tem razão de ser: mesmo pequenas deformações estruturais podem desalinhar sensores de orientação e o sistema óptico da câmera, comprometendo de forma irreversível a missão. Com o teste concluído com sucesso e boa margem de segurança, a equipe ganhou a confiança necessária para avançar às próximas etapas do projeto.

"O satélite SatVHR requer extrema precisão para funcionar. O sucesso neste teste tão crítico nos dá confiança de que estamos na direção certa", disse João Paulo Rodrigues Campos, presidente e CEO da Visiona.

Um projeto de envergadura nacional
O SatVHR é muito mais do que um produto de uma única empresa. O projeto é liderado pela Visiona, joint-venture entre a Embraer Defesa & Segurança e a Telebras, criada em 2012 para atender aos objetivos do Programa Espacial Brasileiro. O desenvolvimento reúne um consórcio amplo: as empresas Equatorial Sistemas, Fibraforte, Kryptus, OPTO Space & Defense e Orbital Engenharia participam como coexecutoras, ao lado de instituições de pesquisa como o próprio INPE, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), o Instituto SENAI de Inovação, a AEL Sistemas e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O contrato foi assinado em maio de 2023 com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e prevê investimento total de R$ 219 milhões em subvenção econômica do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Trata-se do maior projeto de subvenção econômica já concedido pela Finep em sua história. O resultado esperado é também inédito: o SatVHR deverá ser o satélite com maior índice de conteúdo nacional já desenvolvido no país.

O reconhecimento externo já veio. Em março de 2026, a Visiona recebeu, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, o Prêmio Finep de Inovação 2025, na categoria Tecnologias de Interesse para a Soberania e a Defesa Nacionais. A cerimônia contou com a presença da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, e do presidente da Finep, Luiz Antônio Elias.

Uma trajetória de aprendizado acumulado
O SatVHR não nasce do zero. Ele é o ponto de chegada de uma trajetória de acúmulo tecnológico que a Visiona vem construindo nos últimos anos. Em 2017, a empresa foi responsável pelo Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC-1), voltado a comunicações militares e banda larga. Em abril de 2023, lançou o VCUB1, o primeiro nanossatélite de observação da Terra e coleta de dados desenvolvido por uma empresa privada brasileira.

O VCUB1 operou por quase dois anos em órbita e encerrou sua missão em fevereiro de 2025, ao reentrar na atmosfera conforme planejado. O satélite serviu como banco de testes para tecnologias de navegação, gestão de bordo e comunicação que não podiam ser verificadas integralmente em laboratório. Segundo o diretor de Tecnologia da Visiona, Himilcon Carvalho, essas soluções agora migrarão para o SatVHR.

O Brasil espacial: potencial imenso, investimento modesto, dependência externa
A importância do SatVHR precisa ser lida em um contexto mais amplo: o Brasil é uma das maiores economias do planeta, ocupa posição singular na geopolítica por seu tamanho continental, sua biodiversidade e seus recursos naturais, mas permanece entre os países do G20 que menos investem no setor espacial.

Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que, em 2023, o Brasil destinou apenas US$ 47 milhões em recursos públicos ao setor espacial, o equivalente a 0,002% do PIB. O valor coloca o país à frente apenas do México entre as 20 maiores economias do mundo e é cerca de 30 vezes menor do que a média do grupo. Para comparação, os Estados Unidos investiram US$ 73,2 bilhões (0,264% do PIB) no mesmo ano; a China, entre US$ 14 e 18 bilhões; Índia e Rússia, entre US$ 1,5 e 2,5 bilhões.

Atualmente o Brasil opera apenas 24 satélites entre os mais de 13 mil em órbita ao redor da Terra. A dependência de infraestrutura estrangeira é concreta: um levantamento do Programa Espacial Brasileiro (PEB) aponta que só o Poder Executivo federal demanda, anualmente, R$ 860 milhões em serviços espaciais contratados de terceiros. Entre 2013 e 2023, o orçamento da Agência Espacial Brasileira (AEB) foi reduzido em 68%.

"A indústria espacial brasileira pode ser protagonista global, assim como a respeitada indústria aeronáutica. Atualmente dependemos de satélites estrangeiros para atender a necessidades básicas da sociedade brasileira. Temos que mitigar essa vulnerabilidade que ameaça nossa soberania", alerta Julio Shidara, presidente da Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB).

Soberania como prioridade de Estado
Diante desse diagnóstico, iniciativas como o SatVHR ganham significado estratégico que vai além da engenharia. Dominar a produção de satélites de observação em alta resolução significa, na prática, reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros para dados sobre o próprio território nacional, em áreas sensíveis que incluem defesa, monitoramento ambiental, controle de fronteiras e gestão de recursos naturais.

Analistas do setor apontam que a experiência acumulada em projetos nacionais como o SatVHR cria um ecossistema industrial e científico que transcende o equipamento em si. Ela forma engenheiros especializados, fortalece fornecedores locais, gera propriedade intelectual e cria base para projetos futuros, inclusive comerciais.

O governo federal, por sua vez, incluiu o setor aeroespacial na Nova Indústria Brasil (NIB), política industrial lançada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI). A missão 6 da NIB prevê aportes de cerca de R$ 113 bilhões para ampliar o domínio brasileiro em radares, satélites e foguetes, com meta de alcançar até 55% de domínio das tecnologias críticas de defesa até 2026 e 75% até 2033.

Em paralelo, o Microlançador Brasileiro (MLBR) está em desenvolvimento com investimento de R$ 189 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em parceria com a Agência Espacial Brasileira (AEB). Com cerca de 12 metros de altura e capacidade para transportar satélites de até 40 quilos, o foguete visa dar ao Brasil autonomia de lançamento orbital a partir de Alcântara (MA), cuja localização próxima à linha do Equador representa vantagem competitiva rara no mercado espacial global. Os primeiros lançamentos estão previstos para 2027.

Próximos passos do SatVHR
Com o teste de vibração concluído, o SatVHR avança para as etapas subsequentes de qualificação. O modelo estrutural e térmico, que foi o objeto dos testes atuais, dará lugar ao modelo de voo, que incorporará todos os sistemas funcionais do satélite. O projeto foi contratado para entrega até o fim de 2026, o que coloca o lançamento como possibilidade concreta ainda dentro do calendário original.

Para o Brasil, colocar em órbita um satélite de altíssima resolução de concepção inteiramente nacional representaria um marco comparável, guardadas as proporções, ao que significou a aviação regional para a Embraer nas décadas de 1980 e 1990. Seria a prova de que o país tem capacidade de desenvolver tecnologia espacial de ponta, não apenas de operar e consumir o que outros produzem.

O teste concluído no LIT do INPE, por menor que pareça ao grande público, é um tijolo nessa construção. E cada tijolo conta.

25 novembro, 2025

Defesa mobiliza Telebras para proteger controle aéreo na crise da Oi

 



*LRCA Defense Consulting - 25/11/2025

A crise financeira da Oi, que se aproxima da insolvência e possível liquidação judicial, está gerando um impacto grave no controle do tráfego aéreo brasileiro. Como parte das medidas emergenciais para garantir a continuidade dos serviços essenciais, o Ministério da Defesa convocou a Telebras para blindar o sistema de controle aéreo, criando uma camada de proteção pública em meio à transição dos serviços da Oi para a Claro.

A Oi, que atendia três das cinco regiões do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta), enfrenta um cenário de insolvência próximo, com dívidas superiores a R$ 15 bilhões ainda pendentes. Reconhecendo o risco de colapso na conectividade que sustenta a segurança do espaço aéreo civil e militar, a Justiça do Rio autorizou uma transição emergencial para a Claro, atual vencedora de licitação, que vem assumindo os links críticos.

Entretanto, para aumentar a resiliência do sistema e evitar a dependência exclusiva de operadoras privadas em crise ou numa cadeia concentrada, a Defesa busca fortalecer a participação da Telebras. O papel da empresa estatal será garantir redundância e controle estratégico dos enlaces vitais, utilizando sua rede de fibra óptica, satélites e contratos governamentais para atuar como uma linha de defesa que assegure a estabilidade e segurança das operações aéreas.

Essa decisão reforça a importância da infraestrutura crítica estatal em setores estratégicos, mostrando preocupação em mitigar riscos operacionais que podem comprometer a segurança do tráfego aéreo nacional. A integração entre Telebras, Força Aérea Brasileira, Anatel e a Justiça constitui um esforço conjunto para blindar um serviço público fundamental, evitando apagões e garantindo o controle do espaço aéreo mesmo em um momento de crise empresarial severa. 

12 novembro, 2025

Satélites brasileiros vão fiscalizar recuperação ambiental em SP: tecnologia Visiona impulsiona inovação na Cetesb

 

*LRCA Defense Consulting - 12/11/2025

O Estado de São Paulo avança na gestão ambiental ao incorporar tecnologia espacial para monitorar áreas degradadas, como detalhado no acordo firmado entre a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), Visiona Tecnologia Espacial e Florestar São Paulo, oficializado em novembro de 2025 durante o Summit Agenda SP + Verde. A iniciativa representa um salto qualitativo na fiscalização da recuperação ambiental, potencializando transparência, precisão e velocidade nas análises de pequenas, médias e grandes áreas em processo de restauração.​

Acordo inédito: satélites a serviço da recuperação ambiental
A Cetesb, órgão referência na gestão ambiental paulista, anunciou que passará a utilizar imagens de satélite para fiscalizar e acompanhar o progresso dos Termos de Compromisso de Recuperação Ambiental (TCRAs), acordos que envolvem replantio e restauração de vegetação nativa firmados com empreendedores. Tradicionalmente, esse acompanhamento exigia visitas manuais de técnicos, registros fotográficos e relatórios presenciais, dificultando o monitoramento de mais de 15 mil hectares em diferentes estágios de recuperação, distribuídos por todo o estado.​

Tecnologia nacional para sustentabilidade
O acordo inclui o desenvolvimento de uma plataforma digital integrada, capaz de cruzar imagens de satélite em alta resolução com bancos de dados ambientais já utilizados pela Cetesb, permitindo diagnósticos e análises em tempo real sobre o estágio de regeneração das áreas monitoradas. A Visiona Tecnologia Espacial, joint-venture brasileira controlada pela Embraer e pela Telebras, será responsável pelo desenvolvimento da solução. Segundo o diretor-presidente da Visiona, João Paulo Campos, a iniciativa reforça a soberania tecnológica nacional e ilustra como a integração público-privada pode transformar inovação em governança concreta, ampliando transparência e eficiência nas políticas de recuperação ambiental.​

Cooperação técnica e setorial
O projeto recebe aporte de R$ 1,2 milhão via Fapesp, no âmbito do PIPE (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas), abrangendo mapeamento, diagnóstico inicial e monitoramento evolutivo da vegetação replantada. A Florestar São Paulo, associação representativa do setor de florestas plantadas, contribui com dados técnicos, fortalecendo a cadeia produtiva e a articulação institucional entre empresários do setor e o poder público.​

Impactos na governança e restauração
A proposta é que, além do acompanhamento digital contínuo, o sistema emita alertas automáticos sobre alterações significativas nos termos de compromisso, ampliando o alcance e a efetividade das ações fiscalizatórias da Cetesb. Para o diretor-presidente da Cetesb, Thomaz Toledo, o uso da tecnologia representa uma aplicação direta da ciência na preservação ambiental: “É a ciência e a inovação tecnológica a serviço da recuperação da natureza”.​

Empresas envolvidas: visão estratégica

  • Visiona: Especialista em sistemas de satélite e integração espacial, responsável por projetos como o SGDC1 e o VCUB1, pioneiro brasileiro em nanossatélites de observação.​
  • Florestar São Paulo: Articulação do setor de florestas plantadas, dedicada à representação institucional da cadeia florestal.​ 
  • Cetesb: Órgão estadual de referência no controle, monitoramento e licenciamento ambiental.​
  • Embraer e Telebras: Controladoras da Visiona, ambas reconhecidas pela liderança em tecnologia aeroespacial e telecomunicações.

 

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