Pesquisar este portal

Mostrando postagens com marcador SENAI. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador SENAI. Mostrar todas as postagens

01 outubro, 2026

BRASSAT propõe salto da indústria espacial brasileira com constelação de uso civil e militar

Atas do CT-Espacial detalham estimativas de investimento e mostram que a proposta também busca preservar a capacidade industrial desenvolvida em projetos como o SatVHR. Visiona busca recursos do FNDCT para a primeira etapa



*LRCA Defense Consulting - 01/10/2026

A proposta de uma constelação brasileira de pequenos satélites ganhou novo impulso com a intenção da Visiona (joint venture entre a Embraer e a Telebras) de buscar recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) para sua primeira etapa. O BRASSAT pretende combinar observação da Terra e comunicação de dados em uma infraestrutura de uso civil e militar. Documentos do CT-Espacial mostram que sua relevância industrial já vinha sendo discutida antes do anúncio, com preocupação explícita sobre a continuidade das atividades do setor.

Segundo o Teletime, o presidente da Visiona, João Paulo Campos, apresentou a estratégia em 30 de setembro, durante o Congresso Latino Americano de Satélites, no Rio de Janeiro. A empresa, formada pela Embraer e pela Telebras, quer financiar o desenvolvimento tecnológico e uma constelação-piloto com o FNDCT, recorrendo posteriormente também a fundos ambientais. O executivo apontou o risco tecnológico como obstáculo à atração de parceiros.

Uma infraestrutura para observar e coletar dados 
A configuração divulgada prevê 44 satélites. Desse total, 24 seriam destinados à comunicação e à coleta de dados para aplicações de internet das coisas (IoT); 16 realizariam monitoramento sistemático, com cobertura do País a cada cinco dias e resolução de 2,5 metros; e quatro atenderiam à observação de áreas específicas em alta resolução.

A amplitude da proposta aparece também na documentação governamental. A Mensagem ao Congresso Nacional de 2026 menciona BRASSAT, CARPONIS e ESSENTIA entre as propostas lançadas em 2025 para monitoramento ambiental, observação da Terra e desenvolvimento de nanossatélites. A referência confirma a presença do BRASSAT na agenda institucional, mas não comprova contratação ou liberação de recursos para implantar a constelação.

O planejamento de 2025 previa R$ 422 milhões em duas fases 
A ata da 36ª reunião do Comitê Gestor do CT-Espacial, realizada em 8 de abril de 2025, registra uma apresentação da Agência Espacial Brasileira (AEB) com três etapas. A primeira, voltada à consolidação tecnológica, previa R$ 244 milhões em três anos. A segunda estimava R$ 178 milhões em dois anos. Para a fase operacional, a previsão era de R$ 100 milhões anuais.

As duas primeiras fases somavam, portanto, R$ 422 milhões. Esses valores correspondem ao planejamento apresentado em 2025, não a um orçamento atualizado ou a financiamento já aprovado. A mesma ata menciona 24 satélites de comunicação e 16 de monitoramento sistemático, sem explicitar os quatro de alta resolução informados agora. A diferença exige confirmação antes de vincular os custos antigos à configuração de 44 equipamentos.

Preservar a indústria entre uma missão e outra 
Na reunião seguinte, em 30 de abril de 2025, a Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB) alertou para o risco de interrupção dos projetos e de perda de continuidade industrial. A ata relaciona essa preocupação ao SatVHR, desenvolvido pela Visiona com apoio da Finep, e à possibilidade de dar sequência ao esforço por meio de uma constelação.

O documento registra a defesa de que BRASSAT e CBERS-5 avancem em paralelo, inclusive com recursos menores para o detalhamento inicial da proposta. Entre os encaminhamentos, aparece a preocupação com a desmobilização da capacidade instalada por falta de continuidade entre projetos.

Sob a perspectiva industrial, a questão é manter trabalho para equipes especializadas e fornecedores após a conclusão de cada desenvolvimento. Uma demanda continuada poderia permitir que o conhecimento acumulado fosse aplicado a novas unidades e aperfeiçoamentos. Esse é um benefício potencial do modelo de constelação, condicionado à contratação e à sustentação financeira do programa.

O SatVHR oferece uma base tecnológica em desenvolvimento 
Um avanço concreto ocorreu em maio de 2026, quando a Visiona anunciou a conclusão dos testes de vibração do modelo estrutural e térmico do Satélite de Pequeno Porte de Altíssima Resolução (SatVHR), no Laboratório de Integração e Testes do INPE. O ensaio verificou a resistência da estrutura às condições de lançamento; não significou que o satélite estivesse pronto para operar em órbita.

Segundo a empresa, o projeto foi contratado pela Finep em 2023, com previsão de R$ 219 milhões em subvenção econômica do FNDCT. Participam do desenvolvimento Equatorial Sistemas, Fibraforte, Kryptus, OPTO Space & Defense e Orbital Engenharia, além de outras empresas e instituições científicas. O aporte pertence ao SatVHR e não deve ser confundido com recursos assegurados ao BRASSAT.

O LRCA já acompanhou essa trajetória, incluindo o encerramento da missão do VCUB1, em fevereiro de 2025, e os testes do SatVHR, em maio de 2026. Essa sequência permite contextualizar a proposta de constelação como uma possibilidade de continuidade das competências desenvolvidas. A composição definitiva do BRASSAT e o papel de cada plataforma, entretanto, ainda precisam ser detalhados.

A contribuição do SENAI e dos sensores ambientais 
A vertente de coleta de dados também possui antecedentes próprios. Na Hannover Messe 2026, a apresentação do SESI/SENAI associou o Catarina-A2 ao BRASSAT. O nanossatélite é desenvolvido pelo Instituto SENAI de Inovação em Sistemas Embarcados, em Santa Catarina, em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a AEB.

Sua função é receber informações de plataformas ambientais em solo, armazená-las temporariamente e retransmiti-las às estações terrestres. Entre as aplicações indicadas estão previsão meteorológica, acompanhamento de desastres naturais, gestão de recursos hídricos e planejamento agrícola. Essa vertente ajuda a explicar por que a proposta reúne observação por imagens e comunicação de dados de sensores.

Da proposta à operação continuada 
O próximo passo decisivo será converter o apoio institucional em compromissos de execução. Permanecem sem confirmação, nas fontes públicas consultadas, o contrato de implantação do BRASSAT, a liberação de recursos para sua primeira fase e um calendário firme de lançamentos.

Para avaliar o alcance efetivo da iniciativa, também será necessário conhecer a composição da constelação-piloto, a governança da operação, as condições de acesso aos dados e o financiamento da reposição dos satélites. São essas definições que permitirão dimensionar a contribuição do BRASSAT à autonomia brasileira e à continuidade de sua indústria espacial.

15 maio, 2026

Satélite brasileiro passa em teste crítico e avança rumo à soberania espacial do país

SatVHR supera simulação de lançamento no LIT do INPE e consolida o maior projeto de subvenção da história da Finep, em momento em que o Brasil debate sua dependência de satélites estrangeiros 

 

*LRCA Defense Consulting - 15/05/2026

O Satélite de Pequeno Porte de Altíssima Resolução, batizado de SatVHR, passou com folga por um dos testes mais rigorosos de seu desenvolvimento: a simulação das vibrações extremas que ocorrem durante o lançamento de um foguete. A notícia, divulgada pela Visiona Tecnologia Espacial na última terça-feira, representa um passo decisivo para que o Brasil coloque, pela primeira vez, em órbita um satélite óptico de observação da Terra de altíssima resolução integralmente projetado em solo nacional.

O que é o SatVHR e por que o teste importa
O SatVHR foi concebido para capturar imagens detalhadas de grandes áreas do território com resolução sub-métrica de 0,75 metro. Em linguagem prática, isso significa que, a partir do espaço, o satélite conseguirá distinguir objetos com menos de um metro de tamanho na superfície terrestre. Essa capacidade abre portas para aplicações que vão da defesa e da vigilância de fronteiras ao monitoramento ambiental da Amazônia, passando pelo ordenamento territorial, a proteção de terras indígenas e o suporte ao agronegócio.

O teste superado agora, chamado de teste de vibração, submete o modelo estrutural e térmico do satélite a cargas mecânicas ainda mais severas do que as previstas no lançamento real. O procedimento foi realizado no Laboratório de Integração e Testes (LIT) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em São José dos Campos, considerado o principal laboratório espacial da América Latina.

"O objetivo aqui é simples: ter certeza de que o satélite vai resistir ao momento mais crítico da missão, a decolagem, sem sofrer danos ou deformações que comprometam seu funcionamento. É um teste muito duro em que submetemos o satélite a cargas ainda mais severas do que as que ele enfrentará no lançamento", afirmou Himilcon Carvalho, diretor de Tecnologia Espacial da Visiona.

A preocupação tem razão de ser: mesmo pequenas deformações estruturais podem desalinhar sensores de orientação e o sistema óptico da câmera, comprometendo de forma irreversível a missão. Com o teste concluído com sucesso e boa margem de segurança, a equipe ganhou a confiança necessária para avançar às próximas etapas do projeto.

"O satélite SatVHR requer extrema precisão para funcionar. O sucesso neste teste tão crítico nos dá confiança de que estamos na direção certa", disse João Paulo Rodrigues Campos, presidente e CEO da Visiona.

Um projeto de envergadura nacional
O SatVHR é muito mais do que um produto de uma única empresa. O projeto é liderado pela Visiona, joint-venture entre a Embraer Defesa & Segurança e a Telebras, criada em 2012 para atender aos objetivos do Programa Espacial Brasileiro. O desenvolvimento reúne um consórcio amplo: as empresas Equatorial Sistemas, Fibraforte, Kryptus, OPTO Space & Defense e Orbital Engenharia participam como coexecutoras, ao lado de instituições de pesquisa como o próprio INPE, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), o Instituto SENAI de Inovação, a AEL Sistemas e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O contrato foi assinado em maio de 2023 com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e prevê investimento total de R$ 219 milhões em subvenção econômica do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Trata-se do maior projeto de subvenção econômica já concedido pela Finep em sua história. O resultado esperado é também inédito: o SatVHR deverá ser o satélite com maior índice de conteúdo nacional já desenvolvido no país.

O reconhecimento externo já veio. Em março de 2026, a Visiona recebeu, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, o Prêmio Finep de Inovação 2025, na categoria Tecnologias de Interesse para a Soberania e a Defesa Nacionais. A cerimônia contou com a presença da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, e do presidente da Finep, Luiz Antônio Elias.

Uma trajetória de aprendizado acumulado
O SatVHR não nasce do zero. Ele é o ponto de chegada de uma trajetória de acúmulo tecnológico que a Visiona vem construindo nos últimos anos. Em 2017, a empresa foi responsável pelo Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC-1), voltado a comunicações militares e banda larga. Em abril de 2023, lançou o VCUB1, o primeiro nanossatélite de observação da Terra e coleta de dados desenvolvido por uma empresa privada brasileira.

O VCUB1 operou por quase dois anos em órbita e encerrou sua missão em fevereiro de 2025, ao reentrar na atmosfera conforme planejado. O satélite serviu como banco de testes para tecnologias de navegação, gestão de bordo e comunicação que não podiam ser verificadas integralmente em laboratório. Segundo o diretor de Tecnologia da Visiona, Himilcon Carvalho, essas soluções agora migrarão para o SatVHR.

O Brasil espacial: potencial imenso, investimento modesto, dependência externa
A importância do SatVHR precisa ser lida em um contexto mais amplo: o Brasil é uma das maiores economias do planeta, ocupa posição singular na geopolítica por seu tamanho continental, sua biodiversidade e seus recursos naturais, mas permanece entre os países do G20 que menos investem no setor espacial.

Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que, em 2023, o Brasil destinou apenas US$ 47 milhões em recursos públicos ao setor espacial, o equivalente a 0,002% do PIB. O valor coloca o país à frente apenas do México entre as 20 maiores economias do mundo e é cerca de 30 vezes menor do que a média do grupo. Para comparação, os Estados Unidos investiram US$ 73,2 bilhões (0,264% do PIB) no mesmo ano; a China, entre US$ 14 e 18 bilhões; Índia e Rússia, entre US$ 1,5 e 2,5 bilhões.

Atualmente o Brasil opera apenas 24 satélites entre os mais de 13 mil em órbita ao redor da Terra. A dependência de infraestrutura estrangeira é concreta: um levantamento do Programa Espacial Brasileiro (PEB) aponta que só o Poder Executivo federal demanda, anualmente, R$ 860 milhões em serviços espaciais contratados de terceiros. Entre 2013 e 2023, o orçamento da Agência Espacial Brasileira (AEB) foi reduzido em 68%.

"A indústria espacial brasileira pode ser protagonista global, assim como a respeitada indústria aeronáutica. Atualmente dependemos de satélites estrangeiros para atender a necessidades básicas da sociedade brasileira. Temos que mitigar essa vulnerabilidade que ameaça nossa soberania", alerta Julio Shidara, presidente da Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB).

Soberania como prioridade de Estado
Diante desse diagnóstico, iniciativas como o SatVHR ganham significado estratégico que vai além da engenharia. Dominar a produção de satélites de observação em alta resolução significa, na prática, reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros para dados sobre o próprio território nacional, em áreas sensíveis que incluem defesa, monitoramento ambiental, controle de fronteiras e gestão de recursos naturais.

Analistas do setor apontam que a experiência acumulada em projetos nacionais como o SatVHR cria um ecossistema industrial e científico que transcende o equipamento em si. Ela forma engenheiros especializados, fortalece fornecedores locais, gera propriedade intelectual e cria base para projetos futuros, inclusive comerciais.

O governo federal, por sua vez, incluiu o setor aeroespacial na Nova Indústria Brasil (NIB), política industrial lançada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI). A missão 6 da NIB prevê aportes de cerca de R$ 113 bilhões para ampliar o domínio brasileiro em radares, satélites e foguetes, com meta de alcançar até 55% de domínio das tecnologias críticas de defesa até 2026 e 75% até 2033.

Em paralelo, o Microlançador Brasileiro (MLBR) está em desenvolvimento com investimento de R$ 189 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em parceria com a Agência Espacial Brasileira (AEB). Com cerca de 12 metros de altura e capacidade para transportar satélites de até 40 quilos, o foguete visa dar ao Brasil autonomia de lançamento orbital a partir de Alcântara (MA), cuja localização próxima à linha do Equador representa vantagem competitiva rara no mercado espacial global. Os primeiros lançamentos estão previstos para 2027.

Próximos passos do SatVHR
Com o teste de vibração concluído, o SatVHR avança para as etapas subsequentes de qualificação. O modelo estrutural e térmico, que foi o objeto dos testes atuais, dará lugar ao modelo de voo, que incorporará todos os sistemas funcionais do satélite. O projeto foi contratado para entrega até o fim de 2026, o que coloca o lançamento como possibilidade concreta ainda dentro do calendário original.

Para o Brasil, colocar em órbita um satélite de altíssima resolução de concepção inteiramente nacional representaria um marco comparável, guardadas as proporções, ao que significou a aviação regional para a Embraer nas décadas de 1980 e 1990. Seria a prova de que o país tem capacidade de desenvolver tecnologia espacial de ponta, não apenas de operar e consumir o que outros produzem.

O teste concluído no LIT do INPE, por menor que pareça ao grande público, é um tijolo nessa construção. E cada tijolo conta.

16 dezembro, 2025

Fábrica de chips da USP: um salto estratégico para a defesa nacional

PocketFab representa mais que inovação tecnológica — é questão de segurança e soberania militar do Brasil 


*LRCA Defense Consulting - 16/12/2025

Em meio à guerra tecnológica global por semicondutores, o Brasil deu um passo decisivo rumo à autonomia militar. O anúncio da PocketFab, primeira fábrica portátil de chips do mundo na Universidade de São Paulo, vai além de uma conquista acadêmica: representa uma virada estratégica para a indústria de defesa brasileira, há décadas dependente de tecnologia estrangeira para equipar suas Forças Armadas.

A iniciativa, desenvolvida pelo InovaUSP em parceria com a Fiesp e o Senai, chega em momento crítico. O Brasil importa entre 40 e 50 bilhões de dólares em tecnologia anualmente, enquanto suas exportações no setor representam apenas uma fração mínima desse montante. Para a defesa nacional, essa dependência externa é ainda mais grave: quase 100% dos sistemas militares brasileiros utilizam componentes controlados por outros países.

Vulnerabilidade militar brasileira
A dependência de semicondutores estrangeiros expõe uma fragilidade crítica nas Forças Armadas. Segundo especialistas em defesa, caso o Brasil perdesse o acesso a fornecedores norte-americanos e europeus, a capacidade operacional do país poderia entrar em colapso em apenas três anos.

Caças Gripen E, fragatas Tamandaré e submarinos Scorpène — pilares da defesa brasileira — dependem de componentes importados, desde sensores até sistemas de comunicação criptografada. Sem acesso a peças de reposição e atualizações tecnológicas, o país ficaria com sua capacidade de defesa comprometida.

A situação se agrava quando se analisa que mais de 20 mil componentes utilizados em armamentos dependem de semicondutores. Mísseis, drones, sistemas de navegação, radares, guerra eletrônica e comunicações seguras — todos exigem chips cada vez mais avançados. Na guerra moderna, semicondutores são multiplicadores de força tão essenciais quanto blindagem e munição.

Contexto geopolítico da guerra dos chips
A indústria de semicondutores nasceu no setor militar. Na década de 1950, o Exército dos EUA financiou o desenvolvimento dos primeiros chips de silício para sistemas de defesa, incluindo o programa espacial Apollo. Desde então, quem domina a fabricação de chips mantém vantagem militar decisiva.

A rivalidade entre Estados Unidos e China pela liderança tecnológica transformou semicondutores em armas geopolíticas. Washington impõe restrições à exportação de tecnologia de ponta para Pequim, enquanto a China investe dezenas de bilhões para alcançar autossuficiência. Taiwan, sede da TSMC, maior fabricante mundial de chips, tornou-se ponto crítico de tensão global, com possibilidade de conflito armado que paralisaria a economia mundial.

Para o Brasil, essa disputa representa tanto risco quanto oportunidade. O país foi colocado no centro da guerra tecnológica, com EUA e China disputando parcerias para produção de semicondutores em território nacional. A decisão brasileira de aproximação com a China para transferência de tecnologia em chips, 5G e inteligência artificial demonstra a urgência do tema.

Solução da PocketFab
Diferente das megafábricas tradicionais que custam bilhões de dólares, a PocketFab propõe modelo compacto, modular e sustentável. A tecnologia permite produção de semicondutores em menor escala, mas com aplicação estratégica para necessidades específicas da defesa nacional.

A fábrica não pretende competir com gigantes como TSMC ou Samsung na produção de chips de 3 nanômetros. O foco está em atender o mercado de semicondutores especializados — nicho que representa 46% do mercado global e inclui componentes essenciais para sistemas militares.

Essa estratégia se alinha com a realidade brasileira. O país não precisa fabricar os chips mais avançados do mercado civil, mas sim garantir fornecimento contínuo de componentes para sistemas de defesa, mesmo em cenários de restrição internacional.

Terras Raras e soberania tecnológica
A PocketFab ganha ainda mais relevância quando combinada à recente inauguração da planta piloto de terras raras do Instituto de Pesquisas Tecnológicas. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras — elementos essenciais para produção de semicondutores, ímãs permanentes, baterias e sistemas de propulsão.

Essa combinação de capacidade de refino de matéria-prima crítica com fabricação de chips cria sinergia estratégica. O país pode controlar desde a extração mineral até o produto final, reduzindo vulnerabilidades na cadeia de suprimento.

Atualmente, a China domina 85% da produção global de terras raras refinadas. A capacidade brasileira de processar esses materiais localmente representa autonomia em momento de crescente fragmentação das cadeias produtivas globais.

Impacto na Base Industrial de Defesa
A Base Industrial de Defesa brasileira representa 3,58% do PIB e emprega 2,9 milhões de pessoas. Apesar do crescimento recente das exportações — que atingiram US$ 1,3 bilhão no primeiro semestre de 2024 —, o índice de autonomia tecnológica nas Forças Armadas é de apenas 42%.

A meta do governo federal é alcançar 55% até 2026 e 75% até 2033. Para isso, o Programa Nova Indústria Brasil prevê investimentos de R$ 112,9 bilhões no setor de defesa, com foco em radares, satélites, foguetes e sistemas autônomos.

A capacidade de fabricar semicondutores nacionalmente é peça-chave desse quebra-cabeça. Sem domínio sobre chips, o Brasil continuará dependente de fornecedores externos para equipar suas Forças Armadas, limitando a efetividade dos demais investimentos em defesa.

Estudo recente da Confederação Nacional da Indústria aponta que a nacionalização de apenas 30% dos produtos de defesa importados poderia gerar 226 mil empregos e arrecadação tributária de R$ 9,9 bilhões anuais.

Desafios e perspectivas
O Brasil enfrenta obstáculos significativos para consolidar indústria de semicondutores. A produção exige investimentos bilionários, mão de obra altamente qualificada, estabilidade regulatória e incentivos fiscais de longo prazo.

A Ceitec, empresa estatal de semicondutores, entrou em processo de liquidação em 2021 por falta de recursos, sendo revertido em 2023. Especialistas estimam que renovar a Ceitec custaria entre US$ 200 milhões e US$ 400 milhões — valores modestos comparados aos bilhões investidos por EUA, China e Europa.

O governo sancionou em setembro de 2024 o Programa Brasil Semicondutores, aperfeiçoando incentivos fiscais para o setor. Agora é necessário garantir continuidade orçamentária e previsibilidade de compras governamentais para viabilizar investimentos privados.

A integração da PocketFab com o ecossistema da Cidade Universitária da USP - onde pesquisa, formação de talentos e inovação convergem - cria ambiente propício para desenvolvimento de soluções nacionais. O programa de pós-graduação da Engenharia Elétrica da USP formou 3.500 mestres e doutores nos últimos anos, demonstrando capacidade técnica brasileira.

Uma questão de soberania
Em um mundo onde semicondutores definem estratégias militares e controlam a inovação tecnológica, o Brasil não pode permanecer dependente de importações. A PocketFab representa início concreto de caminho rumo à autonomia, conectando universidades, institutos de pesquisa e o setor produtivo.

O projeto vai além de substituir importações. Trata-se de garantir que as Forças Armadas brasileiras mantenham capacidade operacional independente de restrições geopolíticas, proteção de infraestruturas críticas e desenvolvimento de tecnologias de uso dual que impulsionem toda a economia.

Como destacou o Diretor do InovaUSP, o Brasil importa dezenas de bilhões em tecnologia enquanto exporta apenas fração mínima. A mudança desse quadro exige projetos estruturantes como a fábrica de chips da USP — ambiciosos, de longo prazo e com impacto real na competitividade e segurança nacional.

É assim que países avançam. É assim que se constrói soberania tecnológica e militar.

Postagem em destaque