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25 janeiro, 2026

Exército e CENSIPAN criam instituto de pesquisas na Amazônia

Acordo firmado em Brasília visa fortalecer ciência e tecnologia aplicadas à defesa e sustentabilidade da região amazônica  


*LRCA Defense Consulting - 25/01/2026

O Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAN) e o Instituto Militar de Engenharia (IME) assinaram nesta sexta-feira um acordo de cooperação para implantar o Instituto de Pesquisas do Exército na Amazônia (IPEAM) na unidade do CENSIPAN em Manaus. A cerimônia, realizada na sede do CENSIPAN em Brasília, marca um avanço estratégico na integração entre pesquisa militar e proteção ambiental na região.

Descentralização da pesquisa militar
Durante o evento, o ministro da Defesa, José Mucio Monteiro, destacou a necessidade de descentralizar instituições de ensino e pesquisa militar para além do eixo sudeste do país. Ele mencionou iniciativas semelhantes, como o novo campus do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em Fortaleza e o Campus Integrado de Manufatura e Tecnologia (CIMATEC) em Salvador.

O comandante do Exército, General Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, enfatizou que os desafios impostos pela dimensão continental da Amazônia, sua riqueza ambiental e relevância estratégica demandam soluções baseadas em conhecimento científico e tecnologias avançadas.

Áreas de atuação
O acordo prevê cooperação nas áreas de sensoriamento remoto, modelagem ambiental, ciência de dados, engenharia e tecnologias de defesa. As instituições realizarão intercâmbio técnico, compartilharão dados e desenvolverão projetos conjuntos voltados à proteção e ao desenvolvimento sustentável da Amazônia Legal.

A parceria também contempla a integração de pesquisadores e engenheiros do IME em atividades do CENSIPAN, além da realização de estudos, cursos e oficinas para geração de soluções tecnológicas aplicáveis à região.

Objetivos estratégicos
Entre os resultados esperados estão a integração operacional entre as instituições, o compartilhamento de infraestrutura e apoio técnico-científico, e a criação de um ambiente de experimentação tecnológica. O acordo visa desenvolver capacidades em monitoramento ambiental, sustentabilidade e inovação aplicadas aos desafios amazônicos.

A iniciativa reforça o compromisso das Forças Armadas com a pesquisa científica voltada à defesa nacional e à preservação ambiental, utilizando as capacidades do Censipam em processamento de dados e sistemas integrados.

Participaram da solenidade o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Marcos Amaro, o senador Eduardo Braga (AM), autoridades militares e civis ligadas à defesa e à ciência na Amazônia.

03 novembro, 2024

O grafeno chega ao mercado

Corpos de prova aditivados com grafeno em ensaio de corrosão - Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

*Revista Pesquisa FAPESP, por Frances Jones - 30/10/2024

O grafeno, agora transformado em produto, está entre nós. Vinte anos depois de ter sido isolado pela primeira vez, o nanomaterial formado por átomos de carbono já pode ser encontrado em artigos à venda no país. Também figura em uma série de inovações tecnológicas em fase avançada de testes. Em um mercado ainda em formação, importadoras ou companhias locais o vendem para ser usado como matéria-prima ou já inserido em soluções desenhadas para produtos diversos, indo de aditivos para tintas e embalagens plásticas a lubrificantes. Principalmente em torno de instituições de ciência e tecnologia, surgem ecossistemas de inovação, fomentando a produção e novas aplicações para o grafeno. Grandes empresas do país nas áreas de petróleo e gás e de mineração testam em campo dispositivos com o cristal bidimensional para usá-los em seu processo produtivo.

Em São Paulo, um dos principais centros de pesquisa e desenvolvimento do material orientado para demandas de mercado é o Instituto Mackenzie de Pesquisas em Grafeno e Nanotecnologias (MackGraphe). A unidade iniciou suas atividades em 2013 no campus de São Paulo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, com apoio da FAPESP. Um dos idealizadores do MackGraphe, o físico Eunezio Antonio Thoroh de Souza fundou em 2018 uma startup, a DreamTech Nanotechnology, com o objetivo de converter o conhecimento científico do grafeno em tecnologias aplicáveis ao dia a dia. A iniciativa teve a parceria da multinacional chinesa DT Nanotech, responsável pela produção do grafeno comercializado (ver Pesquisa FAPESP nos 284 e 291). Com a distribuidora local MCassab, a startup vem introduzindo o uso do grafeno e de outros materiais bidimensionais no mercado brasileiro. Agora, sua intenção é produzir grafeno em território nacional.

“Estamos em processo de implantação de uma fábrica em Araras, no interior de São Paulo, com capacidade para produzir 200 toneladas de grafeno por ano”, informa Thoroh. “As projeções de crescimento de demanda por grafeno justificam a implantação da nossa fábrica local, que terá como sócios executivos da DT Nanotech. Nossa expectativa é iniciar a fabricação até o final de 2025.” A empresa adotará a tecnologia de produção baseada no método de esfoliação mecânica líquida e irá focar em produtos como tintas anticorrosivas, compósitos, tintas asfálticas, lubrificantes e materiais de construção.

Também em São Paulo, a Gerdau Graphene, uma startup da Gerdau Next, braço de novos negócios da produtora de aço Gerdau, já colocou no mercado sete produtos incorporando o nanomaterial e prevê o lançamento de pelo menos outros três ainda neste ano. No portfólio da empresa, criada em 2021, há aditivos com grafeno para serem usados na produção de filmes poliméricos, matrizes cimentícias, tintas e revestimentos.

Esfoliação de grafite com fita adesiva (à esq.) e solução com grafeno manipulada por pesquisador da UFMG - Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP | Bárbara Cal

“O grafeno é hoje uma realidade comercial”, destaca a química Valdirene Peressinotto, diretora-executiva e de Inovação da Gerdau Graphene. “O nanomaterial confere ganho de propriedades aos materiais em que é incorporado, tornando-os mais resistentes e duráveis”, afirma a pesquisadora. “Nossos aditivos já são fabricados em escala industrial, na casa de toneladas ou milhares de litros. Não se trata mais de algo experimental, restrito a estudos em laboratórios.”

Um Nobel para o grafeno
O primeiro estudo teórico sobre as propriedades elétricas do grafeno é de 1947, mas a história do material no campo da física experimental é bem mais recente. Remonta ao início do século, mais precisamente 2004, quando os físicos Andre Geim – um dos sócios da DreamTech Nanotechnology e da DT Nanotech – e Konstantin Novoselov isolaram na Universidade de Manchester, na Inglaterra, uma única folha de átomos de carbono a partir da esfoliação de uma placa de grafite com uma fita adesiva. Também conhecido por grafita, a grafite é um mineral extraído de jazidas.

Os dois pesquisadores depositaram aquela finíssima camada plana de átomos em um substrato que facilitava a visualização em um microscópio óptico, construíram um pequeno dispositivo e fizeram medições elétricas e magnéticas do material bidimensional. Apesar de ter a existência prevista décadas antes, os cientistas de modo geral achavam que tal material não teria estabilidade suficiente para se manter cristalizado em apenas uma camada. Pelo trabalho, Geim e Novoselov receberam o Nobel de Física em 2010.

Com os átomos organizados em forma de treliça hexagonal, como favos de mel, em um mesmo plano, o grafeno é um material extremamente leve, bastante transparente, flexível e impermeável (ver infográfico abaixo). Tem boa condutividade elétrica e térmica e alta resistência mecânica. Suas propriedades eletrônicas e magnéticas peculiares deram origem a novas áreas da física, como a valetrônica, o estudo das alterações do comportamento dos elétrons do grafeno, e a twistrônica, a investigação dos efeitos produzidos pelo ato de girar uma das folhas de um sistema constituído por duas ou mais camadas de grafeno ou de outros materiais com apenas duas dimensões.

Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP

O grafeno também abriu o caminho para a física dos sistemas bidimensionais e para o estudo de outros materiais formados por camadas atômicas (layered materials), como a grafite. Assim, a descoberta de Geim e Novoselov teve forte impacto na pesquisa fundamental no campo da ciência dos materiais.

Mercado em expansão
As características singulares do grafeno e dos materiais feitos com ele trouxeram consigo a promessa de ampla aplicação tecnológica em diversos campos da indústria. A consultoria de mercado Fortune Business Insights calcula que o mercado global do material valia US$ 432,7 milhões no ano passado. Até 2032, a estimativa é de que chegue a US$ 5,2 bilhões, um crescimento projetado espantoso em menos de 10 anos.

As aplicações do grafeno e seus derivados se multiplicam no mundo. Ele é empregado na fabricação de eletrônicos, materiais compósitos e baterias. O segmento de nanoplaquetas ou nanoplacas de grafeno (NPG), constituídas por várias camadas de grafeno, foi responsável pela maior parcela do mercado em 2023, segundo a Fortune Business Insights. As indústrias eletroeletrônica, aeroespacial, automotiva, de defesa e de energia encabeçam o consumo do nanomaterial, de acordo com o relatório. A região da Ásia-Pacífico respondeu por 34,4% do mercado, a maior do globo.

“O grafeno tem propriedades que fazem com que ele possa ser utilizado em uma vasta gama de aplicações. Do meu centro de pesquisa já saíram seis companhias e ainda temos outras cinco para desovar”, diz o físico teórico brasileiro Antonio Hélio de Castro Neto, diretor do Centro para Materiais Avançados 2D e do Centro de Pesquisa em Grafeno da Universidade Nacional de Singapura (NUS), um dos principais polos globais de pesquisa sobre grafeno. O físico Novoselov, laureado com o Nobel, integra o quadro de pesquisadores da NUS.

Recipientes com diferentes tipos de grafite e do nanomaterial - Eugênio Sávio

Entre as spin-offs geradas na universidade, destacam-se a NanoMolar, especializada no desenvolvimento de sensores médicos, e a UrbaX, com foco no setor de artigos para a construção civil. Mais de 200 patentes associadas ao grafeno e suas aplicações, resultantes de estudos feitos na NUS, já foram registradas, informa Castro Neto, que fez graduação em física na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e há mais de três décadas está fora do Brasil.

Apesar da demanda crescente em diversas áreas, ainda há desafios a serem superados para que o grafeno se estabeleça de modo mais intenso comercialmente. Um artigo publicado no início do ano por cientistas alemães no periódico 2D Materials indica que boa parte dos fabricantes permanece em um estágio comercial inicial, tendo que enfrentar o duplo desafio de consolidar sua base de consumidores e de garantir o financiamento para escalar a produção. Também há nichos que crescem sem visibilidade pública em razão dos termos de sigilo impostos pelos clientes, que preferem não dar publicidade aos experimentos com grafeno para não chamar a atenção da concorrência e manter o segredo da fórmula na produção.

“O tamanho relativamente pequeno [do mercado] caminha com a perspectiva de forte evolução nos próximos anos, com taxas de crescimento previstas entre 20% e 50% por ano. […] O grafeno não consegue converter imediatamente todas as suas promessas iniciais para um sucesso de mercado estrondoso. A difusão dessa nova classe de materiais bidimensionais leva tempo”, escreveram os autores do artigo na 2D Materials. O estudo foi realizado no âmbito da Graphene Flagship, iniciativa europeia que reúne 118 parceiros industriais e acadêmicos.

O mercado, não só no Brasil, mas no mundo todo, segundo Peressinotto, está em fase de abertura e de consolidação. A diretora da Gerdau Graphene investiga nanomateriais de carbono, como o grafeno, desde 2004, quando ainda trabalhava como pesquisadora no Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), em Belo Horizonte, com um grupo ligado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Grafeno em pó (atrás) e composto aditivado à base de termoplástico e do nanomaterial; preparo de pasta de cimento com material contendo grafeno (à dir.) - Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

O primeiro caso de sucesso da startup que dirige hoje beneficiou a própria Gerdau. Deu-se após um teste industrial executado com o fornecedor de filmes poliméricos usados para empacotar pregos, vendidos pela siderúrgica gaúcha. “Reduzimos a espessura da embalagem em 25%, aumentamos a resistência ao furo e ao rasgo em 30% e diminuímos as perdas do processo em mais de 40%”, ressalta Peressinotto. Com a incorporação do aditivo na linha de empacotamento dos pregos, a Gerdau pôde economizar cerca de 72 toneladas de plástico ao longo de um ano.

A Gerdau Graphene, que desenvolve seus produtos em parceria com o Centro de Inovação em Engenharia de Grafeno (Geic), ligado à Universidade de Manchester, compra o grafeno usado em seus aditivos de produtores do Brasil, do Canadá, dos Estados Unidos, da Inglaterra, da Espanha, da Austrália, entre outros países. A importação, explica Peressinotto, é necessária porque o país ainda não tem quem produza o insumo nos formatos exigidos pela companhia, na quantidade suficiente e com o custo competitivo.

No Brasil, o novo material tem sido usado principalmente em aplicações que exploram suas propriedades mecânicas. “As grandes aplicações do grafeno no país ainda são em tintas, elastômeros [polímeros com propriedades elásticas], compósitos, embalagens e cimento. São usos ligados a materiais mais pesados, incluindo os da construção civil e os do setor automotivo”, afirma o físico Luiz Gustavo Cançado, da UFMG. Ex-coordenador do Projeto MGgrafeno, criado em 2016, o pesquisador e sua equipe desenvolveram um processo-piloto de produção em ampla escala do material e testaram mais de 20 aplicações.

“O grafeno é muito resistente mecanicamente. É preciso imprimir muita força para que ele se rompa. Ao misturá-lo com polímeros, borrachas, cimento ou cerâmicas, ocorre uma melhoria geral das propriedades mecânicas do material resultante”, sustenta o físico Marcos Pimenta, também professor da UFMG. “Mas não é fácil desenvolver e produzir esse material.”

Laboratório da Gerdau Graphene voltado a criar soluções com grafeno para construção civil - Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

Pioneiro nos estudos de nanomateriais de carbono no país, Pimenta criou e dirigiu por 10 anos o Centro de Tecnologia em Nanomateriais e Grafeno (CTNano) da UFMG, onde hoje, em um espaço de 3 mil metros quadrados, cerca de 100 pessoas trabalham em 10 laboratórios para desenvolver soluções e tecnologias sob demanda. “No começo, eram principalmente projetos para duas empresas. Hoje temos várias iniciativas em andamento com companhias de diferentes setores”, conta o pesquisador.

De acordo com o físico Rodrigo Gribel Lacerda, atual coordenador-geral do CTNano, que se tornou uma unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), o centro firmou até agora parcerias com 15 empresas. Entre os projetos mais avançados está um nanossensor feito com nanotubos de carbono (camadas de grafeno enroladas em forma de cilindro) para monitorar a concentração de dióxido de carbono no gás natural extraído dos poços de petróleo do pré-sal.

“Estamos na fase de homologação do dispositivo, criado em parceria com a Petrobras. Falta realizar os testes em ambiente real para virar um produto comercial”, ressalta Lacerda. Também nessa etapa de desenvolvimento há outro sensor de deformação para maquinários usados na atividade mineradora. Em um terceiro projeto, o objetivo é empregar o grafeno como filtro para purificação da água.

O Rio Grande do Sul sedia uma das primeiras fábricas de grafeno em operação no país. Fruto de um projeto da Universidade de Caxias do Sul (UCS), a UCSGraphene, em Caxias do Sul, está em operação desde março de 2020. A unidade, vinculada à Embrapii, utiliza a rota de esfoliação em fase líquida para desenvolvimento e produção do grafeno e de outros materiais ricos em carbono. Sua capacidade de produção supera 1 tonelada por ano.

Chip com nanossensor de grafeno para detecção de gases, feito na UFMG - Bárbara Cal

“Além de desenvolver grafeno a partir da grafite e de outras fontes de carbono, nós nos dedicamos à criação de soluções tecnológicas contendo o nanomaterial e seus derivados, e a rotas produtivas focadas em outras nanoestruturas à base de carbono, como óxido de grafeno e grafenos modificados”, conta o engenheiro de materiais Diego Piazza, coordenador da UCSGraphene, que atua em parceria com outras empresas e institutos de ciência e tecnologia.

“Entre os diversos desenvolvimentos tecnológicos e estudos do uso do grafeno e derivados realizados por nossa equipe, está a sua utilização em materiais compósitos [polímeros, cerâmicas e metais], equipamentos de proteção, lubrificantes, tintas e revestimento, sistemas de filtração, medicina regenerativa e peças técnicas”, diz Piazza, que também é professor na UCS. “Várias de nossas soluções já estão sendo comercializadas nos setores de moda, mobilidade, logística, entre outros.”

Na capital mineira, outra instalação com condições de produção industrial prepara-se para lançar uma oferta pública de tecnologias. O CDTN abriga uma planta construída no âmbito do Projeto MGgrafeno, da UFMG, em parceria com a estatal Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge), com capacidade para fabricar cerca de 1 tonelada por ano. “Com o edital, pretendemos transferir a tecnologia que criamos para interessados em produzir grafeno para exploração comercial e industrial”, diz Cançado, da UFMG. A ideia é de que o parceiro privado utilize as instalações do CDTN.

A universidade detém, com o CDTN, a cotitularidade da propriedade intelectual gerada no projeto, relacionada à rota desenvolvida para a produção de grafeno, baseada na esfoliação em fase líquida da grafite. O pesquisador explica que um dos grandes desafios para expandir as aplicações e o uso do material comercialmente é conseguir fabricá-lo em grande escala por um processo reprodutível.

Biossensor com o nanomaterial para exame de glicemia, criado pela NanoMolar, de Singapura - NanoMolar

Outra dificuldade é estabelecer normas para produção, controle de qualidade e segurança do insumo. Por fim, é necessário ter informações confiáveis sobre o material, que garantam que se trata realmente de grafeno e não de outra forma alotrópica do carbono, como grafite. Alótropos são substâncias simples formadas pelo mesmo elemento químico, com variação do número de átomos ou de sua estrutura cristalina.

A demanda por controlar a qualidade do grafeno que circula no país, seja ele nacional ou importado, chegou ao Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). Desde o ano passado, a entidade trabalha no desenvolvimento de um selo de conformidade por meio de um programa de certificação para o grafeno, programa conhecido informalmente como PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) do grafeno. A previsão é de que ambos sejam lançados em meados de 2025.

“Quando o grafeno superou o estágio da pesquisa acadêmica e virou um produto comercial, o Inmetro percebeu que devia criar métodos de medição [para verificar o número de camadas de grafeno e a pureza do material contido no produto] e elaborar um conteúdo de referência para orientar a realização de testes visando a conformidade do material a determinadas normas de ensaio. Com a ABNT [Associação Brasileira de Normas Técnicas], elaboramos as normas para identificar e classificar esse nanomaterial”, relata a química Joyce Rodrigues de Araújo, responsável pelo Laboratório de Fenômenos de Superfície e Filmes Finos (Lafes) da Divisão de Metrologia de Materiais e Superfícies do Inmetro. Ela ganhou em 2024 o prêmio 25 Mulheres na Ciência, promovido pela empresa 3M, pelo trabalho no desenvolvimento de um biografeno, produzido a partir do processamento de biomassas, como casca de arroz e bagaço de cana-de-açúcar.

Araújo explica que raramente o que se tem em produtos comerciais é a monocamada de grafeno, como a produzida na Universidade de Manchester em 2004. “O grafeno engloba uma família de compostos que diferem entre si pelo número de camadas que os constitui e o formato com os quais se apresentam”, afirma a pesquisadora. Inclui, por exemplo, o grafeno original, de uma só camada, o de múltiplas camadas e as nanoplacas de grafeno (ver infográfico abaixo).

Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP

“Nosso trabalho no Inmetro é definir a família, o modelo, se é grafeno em pó ou em suspensão líquida. Também estabelecemos as técnicas de ensaio que serão utilizadas pelos laboratórios que vão ser acreditados para certificar o material”, pondera a pesquisadora.

Em meio às dúvidas sobre o que pode ser chamado de grafeno, a Organização Internacional de Normalização (ISO) publicou normas sobre o tema, que foram traduzidas para o português. Elas indicam que se considera grafeno um material de carbono com até 10 camadas atômicas –ou seja, até 10 folhas de átomos de carbono empilhadas uma sobre a outra. Quando há duas camadas, chama-se bicamada de grafeno. Entre três e 10 camadas, fala-se em grafeno de poucas camadas. “Acima de 10, ainda não há um consenso sobre a nomenclatura a ser adotada. No momento, utiliza-se a definição de nanoplacas de grafeno, desde que o material tenha pelo menos uma dimensão na nanoescala, até 100 nm [nanômetros]”, explica Araújo.

“Há uma grande discussão sobre até onde é grafeno. Quando se passa de uma para duas camadas e de duas para três, a estrutura eletrônica do material muda muito. Com mais de 10 camadas fica mais parecido com grafite. A monocamada, o grafeno original, entretanto, nem sempre é o mais interessante para as aplicações tecnológicas”, ressalta Cançado. “Pode acontecer que o de mais camadas se adéque melhor à finalidade desejada. É possível afirmar que, para a maioria das aplicações atuais, o grafeno de pouquíssimas camadas, entre uma e três, não é o mais indicado.”

O método de produção do material, explica Cançado, interfere no tipo de grafeno que se obtém, e cada um deles tem propriedades diferentes, que podem ser adequadas aos diferentes usos. Além disso, por vezes outros materiais bidimensionais são incluídos na família dos materiais relacionados ao grafeno. A esfoliação mecânica foi o primeiro método usado para isolar o grafeno, mas ele também pode ser obtido a partir da deposição química em fase vapor (CVD) ou esfoliação em fase líquida (ver infográfico abaixo).

Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP

O preço do nanomaterial, afirmam os especialistas, varia muito no mercado global. Segundo Thoroh, da DreamTech Nanotechnology, o quilo do grafeno monocamada com alta pureza pode custar US$ 2 mil. “Já os grafenos com poucas camadas que comercializamos custam aproximadamente US$ 300 a US$ 350 o quilograma”, diz.

O Brasil tem tradição e contribuições expressivas no trabalho de caracterização do material. Pesquisadores do país vêm desenvolvendo o campo científico dos nanomateriais de carbono desde a década de 1990. Em artigo publicado em 2019 no Brazilian Journal of Physics, Pimenta e colegas descrevem o papel da colaboração entre grupos brasileiros e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, para o estabelecimento dessa ciência no país.

A física norte-americana Mildred Dresselhaus (1930-2017), então professora emérita do MIT e considerada a “rainha da ciência do carbono”, visitou o Brasil 12 vezes entre 2001 e 2013. “Antes mesmo do estudo pioneiro com grafeno de Novoselov e Geim em 2004, os cientistas brasileiros deram contribuições importantes para a ciência da grafite e os sistemas grafíticos”, afirmam os autores no artigo.

“Trabalho com isso desde 1999, antes que meus antigos compatriotas fizessem a extração do grafeno”, conta o físico experimental russo Yakov Kopelevich, do Instituto de Física da Unicamp e autor de artigos com centenas de citações sobre o tema, entre eles um publicado em abril de 2003 na Physical Review Letters sobre o comportamento da grafite no limite quântico.

Ilustração mostra vários materiais bidimensionais, entre eles o grafeno, empilhados - Jing Li (School of Chemistry, Beihang University, China)

Castro Neto, da NUS, afirma que o seu primeiro artigo sobre grafeno foi rejeitado em todos os periódicos aos quais foi submetido com a explicação de que “não existe tal coisa como o grafeno”. “Por muito tempo, ninguém acreditava na existência de materiais bidimensionais, pois não se achava que eles seriam estáveis o suficiente para se manter”, lembra o pesquisador.

Em 99% dos materiais, diz o professor da NUS, os elétrons se propagam dentro do material como uma partícula livre, que tem massa e inércia. “No grafeno, em razão de a rede cristalina ser hexagonal, os elétrons se propagam com velocidade como se fossem objetos sem massa. Do ponto de vista teórico, isso era interessante. Um novo tipo de partícula se propagando no material.” Em 2009, o pesquisador brasileiro publicou na Reviews of Modern Physics um estudo detalhando as propriedades eletrônicas do grafeno.

Além de abrir a área das investigações de materiais com apenas duas dimensões, o grafeno também inaugurou a chamada twistrônica. Em 2018, pesquisadores do MIT descobriram um “ângulo mágico” no grafeno, ao desalinhar em exatamente 1,1 grau duas folhas do material (ver Pesquisa FAPESP nº 302). Com esse desalinhamento, o grafeno vira um supercondutor. Isso, contudo, precisa ocorrer em temperaturas extremamente baixas, o que acaba por dificultar sua aplicação prática. Na UFMG, os pesquisadores investigam outros ângulos de rotação, de até 30 graus. Um artigo do grupo da universidade mineira com esse tema foi capa da revista Nature em 2021.

Em 2024, a mesma equipe, coordenada por Cançado, da UFMG, e pelo físico Ado Jório, da mesma universidade, publicou um artigo de capa da revista Carbon sobre o estudo dos defeitos do grafeno usando a técnica de espectroscopia de Raman. O paper, que descreve a história da pesquisa para o aprimoramento da metrologia de nanomateriais, indica que o Brasil é referência na área, segundo publicação da Sociedade Brasileira de Física. O controle das propriedades do grafeno é crucial para a fabricação de dispositivos e para o processamento de informações, concluíram os autores do estudo.


03 outubro, 2024

Governo propõe criação da Alada, a empresa aeroespacial brasileira


*LRCA Defense Consulting - 03/10/2024

O  presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta quinta-feira, 3 de outubro, o Projeto de Lei (PL) de criação da Alada, uma empresa pública aeroespacial. O objetivo é explorar economicamente a infraestrutura e navegação aeroespaciais e as atividades relacionadas ao desenvolvimento de projetos e equipamentos aeroespaciais.

Subsidiária da NAV Brasil, também ficará responsável pela realização de projetos e atividades de apoio ao controle do espaço aéreo.

Conforme o Ministério da Defesa, o PL de criação da Alada, enviado nesta quinta-feira ao Congresso Nacional, atende a diversos imperativos de segurança nacional ao apoiar o desenvolvimento científico, a pesquisa, a capacitação científica e tecnológica e a inovação; ao contribuir para a segurança do país, em particular do espaço aéreo; e ao promover o desenvolvimento econômico e social em prol do bem-estar da sociedade.

Em linha com a Estratégia Nacional de Defesa, busca a autossuficiência do Brasil em materiais aeronáuticos, espaciais e bélicos. E poderá minimizar a forte dependência de fornecedores estrangeiros, especialmente para materiais que envolvem tecnologias sensíveis e que sofrem restrições para a exportação, por critérios políticos dos governos dos seus fabricantes.

29 julho, 2023

No 2º Fórum ESG da Indústria Gaúcha, Taurus alinha conhecimentos e fortalece cultura na empresa


*LRCA Defense Consulting - 29/07/2023

A Taurus, Empresa Estratégia de Defesa, participou do 2º Fórum ESG da Indústria Gaúcha, realizado no Centro de Convenções da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS), em Porto Alegre, em uma ação conjunta com o SEBRAE-RS, SESI-RS e o Conselho de Meio Ambiente (Codema), nesta quarta-feira (26.jul.2023).

O evento promove o debate sobre as temáticas ESG (sigla em inglês para “ambiental, social e governança corporativa”), visando o fortalecimento dos setores produtivos industriais gaúchos, com painéis e palestras focados em boas práticas de governança, sociais e ambientais, e potencial de proporcionar maior perenidade e saúde para as organizações no longo prazo.

Estiveram presentes no evento Patricia Schacker dos Anjos, coordenadora de ESG da Taurus, e Marielen Cozer Ribas, analista de ESG da empresa. A participação no fórum agrega mais conhecimento e contribui para a continuidade das ações da Taurus de comprometimento na área.

“Atualmente, a Taurus conta com uma equipe multidisciplinar envolvida na construção da política ESG da companhia, focada em aprimorar o sistema de gestão dos indicadores ESG e na avaliação das metas relevantes ao negócio, empenhada para fortalecer ainda mais a cultura ESG na empresa. O Fórum ESG da Indústria Gaúcha traz ainda mais alinhamento entre as empresas e a certeza de que estamos no caminho certo”, afirma o CEO Global da Taurus, Salesio Nuhs.

Pioneirismo
A Taurus é pioneira na área de segurança e defesa no mundo a adotar a pauta ESG e a divulgar um Relatório de Sustentabilidade, visando trazer impactos positivos para a sociedade, para o meio ambiente e para os negócios.

A empresa criou em 2022 um setor específico voltado ao assunto que atua no mapeamento de oportunidades e melhorias, bem como um Comitê ESG, constituído pela diretoria executiva e gestores de áreas estratégicas.

Responsabilidade social comunitária
A Taurus, porém, já vinha adotando uma postura ESG em diversas ações, como as realizadas durante a pandemia da Covid-19, em que passou a produzir as face-shields (escudo facial para proteger contra o contágio pelo coronavírus), em parceria com o Exército Brasileiro, e realizou a distribuição para todo o Brasil. Também foi responsável por duplicar a capacidade de UTIs na cidade de São Leopoldo (RS) com respiradores e bombas de infusão.

Capacitação e desenvolvimento contínuo das pessoas
Além disso, a Taurus está comprometida na capacitação e desenvolvimento contínuo das pessoas, com o intuito de contribuir efetivamente para o crescimento pessoal e profissional de seus colaboradores, e em ter um papel ativo no desenvolvimento e uso de tecnologia, construindo um ambiente de colaboração entre a equipe, a empresa e a sociedade. Assim, tem como pilares para a consolidação do conceito ESG: o desenvolvimento de pessoas; investimento em tecnologia e inovação; e ambiente colaborativo.

Neste contexto, conta com o Programa Taurus de Educação Continuada, que inclui uma plataforma de treinamento para qualificação profissional de toda sua operação, além de incentivos aos colaboradores para se qualificarem nos cursos de graduação, mestrado e doutorado em renomadas instituições de ensino.

Inclusão
A empresa também promove a inclusão de pessoas com deficiência no ambiente de trabalho, por meio do projeto Taurus do Bem, possibilitando o desenvolvimento pessoal e profissional por meio de capacitações técnicas. A primeira turma se formou em dezembro de 2022, com 11 alunos, e três deles efetivados pela empresa. Além disso, promove cursos em Libras com mais de 60 colaboradores, como forma melhorar a comunicação com pessoas surdas.

Pesquisa & desenvolvimento
Fator chave na estratégia da Taurus, a Companhia se dedica fortemente à pesquisa & desenvolvimento, reforçando a diferenciação de seus processos de produção e de seus produtos a partir do uso de tecnologia, novos materiais e da crescente eficiência industrial, fornecendo produtos e serviços alinhados às práticas ESG.

Os projetos na área de tecnologia e inovação são fomentados pelo Centro Integrado de Tecnologia e Engenharia Brasil Estados Unidos (CITE) da Taurus, que conta com mais de 200 engenheiros voltados à pesquisa e ao desenvolvimento de novos produtos, tecnologias e processos, que visam também a redução de emissões de gases poluentes, o consumo de energia elétrica, água, entre outros.

Sustentabilidade
Em relação à sustentabilidade e mitigação dos impactos ambientais, a Taurus realiza o mapeamento das emissões de gases de efeito estufa e projeto para redução desses impactos; tratamento da totalidade dos efluentes gerados no processo; aplica a logística reversa em grande parte de suas embalagens de produtos químicos; monitora e faz a gestão de resíduos para melhor aproveitamento e destinação, tanto para reuso interno, quanto para a reciclagem, coprocessamento, rerrefino e compostagem, o que representou, em 2022, 94,76% de desvio de aterros na destinação de seus resíduos.

Atualmente, a Taurus conta com dois protocolos globais utilizados para mensurar as práticas ESG, o Global Reporting Initiative (GRI) e o Conselho de Padrões Contábeis de Sustentabilidade (SASB). 

26 julho, 2023

USP e Embraer fortalecem parceria em pesquisa e formação profissional


*Jornal da USP, por Erika Yamamoto - 24/07/2023

Com o propósito de fortalecer relações e identificar novas oportunidades de parceria, o reitor Carlos Gilberto Carlotti Junior visitou a unidade da Embraer em Gavião Peixoto, interior paulista, voltada para a produção de aeronaves militares e de componentes para aeronaves civis, além da realização de ensaios em voo.

“Construir parcerias com o setor produtivo integra a proposta da nossa gestão de aproximar a Universidade das empresas, do governo e da sociedade, para gerar melhorias que tenham impacto na vida das pessoas. E ter uma parceria com a Embraer, uma das maiores empresas do Brasil, é exatamente o que esperamos. Podem contar conosco para o que for necessário”, explicou Carlotti.

Durante a visita, além de reuniões para discutir novas oportunidades, a comitiva da USP pode conhecer a pista de 5 km do aeroporto de Gavião Peixoto, considerada a maior do hemisfério sul; a Torre de Controle; o simulador do KC-390; e os hangares da linha de montagem de Defesa e de Ensaios de Voo.

O vice-presidente e engenheiro-chefe da Embraer, Henrique Langenegger, ressaltou que “a Embraer existe porque o Estado investiu em sua criação, e temos a responsabilidade de manter esse investimento vivo. Nosso objetivo não é o lucro. O lucro é uma condição necessária para a empresa ser operante, mas nosso propósito é gerar benefícios para a sociedade, formando profissionais qualificados, desenvolvendo tecnologia”.

Participaram da visita o diretor da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), Fernando Martini Catalano; o presidente da Agência USP de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional (Aucani), Sergio Persival Baroncin Proença; o vice-diretor da EESC, Antonio Nelson Rodrigues da Silva; o coordenador do curso de Engenharia Aeronáutica da EESC, Glauco Augusto de Paula Caurin; o diretor de Operações de Gavião Peixoto, Rodrigo Guimarães Cristofi; o gerente de Planejamento de Engenharia, Jorge Bittencourt; o gerente de Engenharia de Ensaio em Voo, Jens Geiger Wentz; o engenheiro de Desenvolvimento Tecnológico, Luciano Pedrote; e o supervisor de Simulação de Sistemas, Luis Carlos de Castro Santos, que também é professor do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP.

Ampliando a parceria

Há anos a Embraer e a Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) trabalham em iniciativas conjuntas, especialmente relacionadas ao curso de Engenharia Aeronáutica. Além de palestras e aulas pontuais ministradas por profissionais da Embraer, a empresa tem participação ativa na Semana da Engenharia Aeronáutica, organizada anualmente pela EESC; mantém um programa de mentoria, em que estudantes da EESC e engenheiros da Embraer trabalham em pares por dois meses; e um programa de atração de talentos, em que alunos de destaque são selecionados para participar de treinamentos e estágios.

A proposta agora é intensificar essa colaboração, estendendo as oportunidades também para outras Unidades da USP, especialmente a Escola Politécnica e a Escola de Engenharia de Lorena. “Esperamos que um fortalecimento da parceria entre a Embraer e a USP possa melhorar ainda mais a capacidade técnica de ambas as instituições, captando novos talentos e aumentando a motivação e a retenção de nossos talentos, assim como o impacto da pesquisa produzida”, explicou o engenheiro de Propulsão da Embraer e organizador da visita, Gustavo Trapp.

O diretor da EESC, Fernando Martini Catalano, lembrou que “a aproximação com a Embraer também tem um impacto positivo na formação do corpo docente da USP, com a experiência de profissionais que atuam no mercado e que trazem uma visão além da academia”.

Entre as principais possibilidades de colaboração que foram discutidas no encontro estão a realização de pesquisas em temas de interesse comum, o oferecimento de cursos de extensão voltados especialmente para engenheiros da Embraer e a criação de um programa de mestrado profissional em Engenharia Aeronáutica.

Com mais de 8 mil aeronaves entregues, a Embraer é a terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo e é líder no segmento de até 130 assentos. Criada em 1969, a empresa revolucionou a tecnologia brasileira e atualmente possui cerca de 18 mil funcionários e unidades industriais, escritórios e centros de distribuição de peças e serviços nas Américas, África, Ásia e Europa.

11 setembro, 2022

EUA: maior pesquisa de todos os tempos com proprietários de armas descobre que o uso defensivo de armas de fogo é comum

Os resultados também confirmam que os carregadores de “armas de assalto” e de “grande capacidade” são amplamente utilizados para fins lícitos.


*Reason - 09/09/2022

A maior e mais abrangente pesquisa de proprietários de armas americanas já realizada sugere que eles usam armas de fogo em autodefesa cerca de 1,7 milhão de vezes por ano. Também confirma que fuzis e carregadores estilo AR-15 com mais de 10 cartuchos, alvos frequentes da legislação de controle de armas, são de uso comum para fins legais, o que a Suprema Corte disse ser o teste para armas cobertas pela Segunda Emenda.

A pesquisa online, realizada pela Centiment em fevereiro e março de 2021, foi baseada em uma amostra representativa de cerca de 54.000 adultos, 16.708 dos quais eram proprietários de armas. O economista político da Universidade de Georgetown, William English, que encomendou a pesquisa como parte de um projeto de livro, apresenta suas principais descobertas em um artigo recente disponível na Rede de Pesquisa em Ciências Sociais.

A taxa geral de posse de armas por adultos estimada pela pesquisa, 32%, é consistente com pesquisas recentes da Gallup e do Pew Research Center. Assim como a descoberta de que a taxa varia entre grupos raciais e étnicos: foi de cerca de 25% entre os afro-americanos, 28% entre os hispânicos, 19% entre os asiáticos e 34% entre os brancos. Os homens representavam cerca de 58% dos proprietários de armas.

Por causa da amostra excepcionalmente grande, a pesquisa foi capaz de produzir estimativas específicas do estado que são mais confiáveis ​​do que as estimativas anteriores. As taxas de posse de armas variaram de cerca de 16% em Massachusetts e Havaí a mais de 50% em Idaho e West Virginia.

Os resultados da pesquisa indicam que os americanos possuem cerca de 415 milhões de armas de fogo, incluindo 171 milhões de armas curtas (revólveres e pistolas), 146 milhões de fuzis e 98 milhões de espingardas. Cerca de 30 por cento dos entrevistados relataram que já possuíam AR-15 ou fuzis semelhantes, que são classificados como "armas de assalto" sob várias leis estaduais e em uma proposta de proibição federal. Essa legislação também geralmente impõe um limite na capacidade do carregador, normalmente 10 rodadas. Quase metade dos entrevistados (48%) disse que já possuía carregadores que podem conter mais de 10 rodadas.

Esses resultados sublinham os desafios práticos que os legisladores enfrentam quando tentam eliminar o que chamam de "armas de assalto" ou carregadores de "grande capacidade". A pesquisa sugere que até 44 milhões de fuzis estilo AR-15 e até 542 milhões de carregadores com capacidades superiores a 10 tiros já estão em circulação.

Essas são estimativas de limite superior, uma vez que as pessoas que relataram ter possuído tais fuzis  ou carregadores podem tê-los vendido posteriormente. Mas mesmo permitindo uma contagem dupla, esses números sugerem quão irrealista é supor que as proibições terão um impacto significativo no uso criminoso dos produtos visados. Ao mesmo tempo, a propriedade generalizada desses produtos por americanos cumpridores da lei torna as proibições vulneráveis ​​a desafios constitucionais.

Dois terços dos entrevistados que relataram possuir fuzis estilo AR-15 disseram que os usaram para tiro ao alvo recreativo, enquanto metade mencionou caça e um terço mencionou tiro competitivo. Sessenta e dois por cento disseram que usavam esses fuzis para defesa doméstica e 35 por cento citaram a defesa fora de casa. No entanto, os políticos que querem proibir esses fuzis insistem que eles não servem para nada além de assassinato em massa.

Donos de carregadores de "grande capacidade" também citaram uma variedade de usos legais. O tiro ao alvo recreativo (64%) foi o mais comum, seguido por defesa em casa (62%), caça (47%), defesa fora de casa (42%) e tiro competitivo (27%).

Políticos que defendem um limite de 10 tiros argumentam que ninguém, exceto criminosos e policiais, realmente precisa de um pente maior. No entanto, os entrevistados descreveram várias situações, com base em suas experiências pessoais, em que "seria útil, para fins defensivos, ter uma arma de fogo com capacidade de carregador superior a 10 tiros". Estes variaram de assaltos e invasões de casas por vários agressores a encontros com animais selvagens.

Talvez esses proprietários de armas estivessem errados ao pensar que a capacidade de disparar mais de 10 rodadas sem recarregar seria importante nessas situações. Mas, a julgar pelas respostas que English cita, eles tinham razões convincentes para acreditar nisso. Proibições de carregadores de "grande capacidade" rotineiramente isentam policiais da ativa e aposentados, com base na teoria de que eles são especialmente propensos a enfrentar ameaças (como vários assaltantes) que podem exigir mais de 10 rodadas. É forçar a credulidade sugerir que os cidadãos comuns nunca enfrentam tais ameaças, e esta pesquisa fornece mais motivos para duvidar dessa suposição.

Trinta e um por cento (31%) dos proprietários de armas disseram ter usado uma arma de fogo para se defender ou defender sua propriedade, muitas vezes em várias ocasiões. Como em pesquisas anteriores , a grande maioria desses incidentes (82%) não envolveu o disparo de uma arma, muito menos ferir ou matar um agressor. Em mais de quatro quintos dos casos, os entrevistados relataram que brandir ou mencionar uma arma de fogo foi suficiente para eliminar a ameaça.

Essa realidade ajuda a explicar a grande divergência nas estimativas de uso de armas defensivas. Os autorrelatos de proprietários de armas podem não ser totalmente confiáveis, pois podem ser exagerados, equivocados ou desonestos. Mas limitar a análise a casos em que um agressor foi ferido ou morto, ou a incidentes que foram cobertos por jornais ou relatados à polícia, tende a ignorar encontros muito mais comuns com resultados menos dramáticos.

Cerca de metade dos usos defensivos de armas identificados pela pesquisa envolveram mais de um agressor. Quatro quintos ocorreram dentro da casa do dono da arma ou em sua propriedade, enquanto 9% aconteceram em local público e 3% aconteceram no trabalho. As armas de fogo mais utilizadas foram armas curtas (66 por cento), seguidas por espingardas (21 por cento) e fuzis (13 por cento).

Com base no número de incidentes relatados por proprietários de armas, English estima que "as armas são usadas defensivamente por proprietários de armas de fogo em aproximadamente 1,67 milhão de incidentes por ano". Esse número não inclui casos em que as pessoas se defenderam com armas de outros, o que pode ajudar a explicar por que o número de English é menor do que uma estimativa anterior dos criminologistas Gary Kleck e Marc Gertz da Universidade Estadual da Flórida. Com base em uma pesquisa telefônica de 1993 com uma amostra substancialmente menor, Kleck e Gertz estimam o número anual em mais de 2 milhões.

Embora menos de um em cada 10 dos usos de armas defensivos identificados pela pesquisa de English tenham ocorrido em locais públicos, a maioria dos entrevistados (56%) disse que carregava armas curtas para autodefesa. Mais de um terço (35%) disse que o fazia “às vezes”, “frequentemente” ou “sempre ou quase sempre”. Aproximadamente a mesma porcentagem relatou que desejava portar armas curtas em circunstâncias em que as regras locais o proibissem.

Na época da pesquisa, a capacidade de portar armas curtas em público variava amplamente entre as jurisdições. Alguns estados tinham leis altamente restritivas que davam às autoridades locais ampla liberdade para rejeitar pedidos de permissão de porte, uma política que a Suprema Corte recentemente considerou inconstitucional. Mesmo depois dessa decisão, alguns estados planejam impor requisitos de licenciamento e/ou restrições de localização que dificultam o porte de armas curtas para autodefesa. Dependendo de sua perspectiva, os resultados desta pesquisa demonstram a sabedoria ou a injustiça dessa estratégia.

A pesquisa de English também perguntou sobre incidentes em que os entrevistados acreditavam que a presença visível de uma arma havia neutralizado uma ameaça potencialmente violenta. Ele diz que essa categoria incluiria, por exemplo, "uma situação em que um cliente combativo se acalmou ao perceber que o dono da loja estava com uma arma no quadril, ou uma situação em que um invasor saiu cooperativamente de uma propriedade quando questionado por um proprietário de terras que tinha um fuzil pendurado no ombro, ou uma situação em que um amigo apareceu com uma arma de fogo para ajudar a [desarmar] uma situação perigosa".

Quase um terço dos proprietários de armas relataram tais incidentes, e alguns disseram que os testemunharam mais de uma vez. English diz que os resultados implicam "aproximadamente 1,5 milhão de incidentes por ano em que a presença de uma arma de fogo dissuadiu o crime". Essa estimativa, é claro, depende das impressões subjetivas dos entrevistados, por isso é provavelmente menos confiável do que a estimativa de usos defensivos explícitos, que por si só está aberta às perguntas usuais sobre a precisão das interpretações e lembranças dos entrevistados. Mas, mesmo com a medida apropriada de sal, os resultados sugerem que estudos concorrentes podem subestimar grosseiramente o valor defensivo das armas.

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