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12 fevereiro, 2022

A Taurus e a longa busca da Índia por carabinas CQB


*LRCA Defense Consulting - 12/02/2022

A presente matéria complementa a publicada ontem com o título "Taurus envia equipe à Índia para demonstrar o fuzil T4 para as Forças Armadas", procurando mostrar, da forma mais sintética possível, a necessidade de a Índia dispor de armas leves modernas, tecnológicas e padronizadas com muita urgência, haja vista os problemas de fronteira e de insurgência que tem.

Acessoriamente, a matéria também reaviva questões de cunho geopolítico que se situam para além dos fatores técnicos e financeiros que normalmente norteariam um licitação de armamento e que poderão pesar a favor da empresa brasileira.

A longa busca da Índia por carabinas CQB
A busca de décadas do Exército Indiano por carabinas para combate a curta distância (CQB), essenciais para as operações de contra-insurgência, persiste em um momento em que elas podem ser críticas para combater um possível aumento na insurgência da Caxemira, com o advento dos quadros do Talibã do Afeganistão.

Fontes militares e de segurança em Nova Délhi temem que os recentes sucessos do Taleban na captura de vastas faixas de território em todo o Afeganistão, após a retirada dos militares dos EUA do país devastado pela guerra, possam impactar negativamente a insurgência da Caxemira nos próximos meses, colocando em grande risco a região, especialmente a Índia.

Consequentemente, oficiais de alto escalão do Exército indiano e oficiais de segurança preveem a chegada de combatentes do Talibã na Caxemira, no que poderia ser uma repetição de eventos cataclísmicos que atingiram o estado por anos, a partir de meados da década de 90.

Notícias recentes da mídia, citando fontes de segurança, também anteciparam que combatentes mercenários talibãs, ao lado de outros grupos islâmicos, seriam “desviados” para a Caxemira pela diretoria de inteligência interserviços do Paquistão, se os laços normalmente incendiários de Nova Délhi com Islamabad se deteriorassem ainda mais.

Portanto, oficiais superiores do Exército Indiano disseram que era imperativo que a força estivesse 'adequadamente' equipada em antecipação a tal eventualidade, o que incluiria, principalmente, a introdução de carabinas CQB para as missões de contrainsurgência que se seguiriam.

“Para a maioria dos militares e forças de segurança implantados em manobras de contrainsurgência, as carabinas são essencialmente sua principal arma de escolha”, diz o major-general AP Singh (aposentado), que serviu com os Rashtriya Rifles, ou RR, no auge da militância da Caxemira até 2000. "Sua leveza, canos mais curtos, menor ricochete e manobrabilidade geral, diz ele, tornam as carabinas versáteis quando empregadas em espaços confinados e para missões de busca e destruição".

Rashtriya Rifles é uma instituição como a nossa Força Nacional, mas na Índia é um ramo do Exército sob a autoridade do Ministério da Defesa. É uma força de contrainsurgência composta por soldados delegados de outras unidades do Exército. A força está atualmente implantada no território da União de Jammu e Caxemira, bem como no território da União de Ladakh.

Além das preocupações com o Paquistão e com o Afeganistão, o Exército da Índia tem extrema urgência para substituir os obsoletos fuzis de assalto e fuzis/carabinas CQB em uso pelas tropas que guarnecem as fronteiras com a China na chamada Linha de Controle Real (LAC), onde as tropas dos dois países estão posicionadas a curta distância e até mesmo já travaram sangrentos combates corpo a corpo recentemente.

O conflito da Caxemira envolve Índia, Paquistão, China e, agora, o Afeganistão


O significado das carabinas CQB

Atualmente, o Exército Indiano usa fuzis de assalto modificados como substitutos para as carabinas, que muitos soldados de infantaria e da Rashtriya Rifles dizem ter eficiência reduzida em tiroteios a curta distância, de acordo com o general Singh. Disparadas a uma distância relativamente curta, as carabinas são até capazes de penetrar em armaduras e capacetes de proteção e também são a arma preferida para tripulações de tanques (blindados).

No entanto, por enquanto, o Exército Indiano tem pouca escolha a não ser continuar empregando essas alternativas, pois repetidas tentativas do Ministério da Defesa (MoD) de adquirir carabinas CQB 5,56x45mm ao longo de quase duas décadas falharam.

O Exército Indiano precisa dessas carabinas desde o final da década de 1990 para substituir também suas submetralhadoras de 9mm 1A1/2 - versões locais das armas L2A3 Sterling que remontam à Segunda Guerra Mundial. Estas eram licenciadas pela Ordnance Factory Board (OFB), mas sua fabricação foi interrompida há muito tempo.

O Ministério da Defesa (PIB) também admitiu que a safra de armas pessoais do Exército indiano, como carabinas, rifles de assalto e metralhadoras leves, tem sido motivo de preocupação há mais de uma década. “O governo está ciente da necessidade de modernizar as armas básicas de combate para os soldados e, portanto, concedeu a máxima prioridade a esses casos”, declarou o Gabinete de Imprensa em março de 2018, em total oposição à realidade na época. “Essas armas são um componente essencial do equipamento de combate de um soldado e (as novas) darão um grande impulso à capacidade de combate das tropas”, afirmou o PIB.

Licitação de fuzis CQB - para além de fatores técnicos e financeiros
Conforme a matéria publicada ontem, há a oportunidade de venda imediata e direta de 93.895 fuzis calibre 5,56x45 por meio de um processo chamado Fast Track Procedure (FTP - procedimento rápido). Além dessa oportunidade específica, a Índia tem uma demanda de outros 365.000 fuzis no calibre 5,56x45 para os próximos 5 anos, a serem adquiridos através do Programa Make in India.

Assim, são duas megalicitações que serão disputadas pela Taurus Armas com seu fuzil T4, que será apresentado em algumas versões, conforme as necessidades do Exército Indiano.

Como comprovou a licitação para o Exército Filipino, vencida recentemente pelo fuzil T4, a Taurus tem nele uma arma moderna, de altíssima qualidade e com a melhor relação custo/benefício do mercado, sendo perfeitamente adequada às necessidades e exigências do Exército Indiano, haja vista que suas diversas versões permitem que seja empregado como fuzil de assalto ou como fuzil/carabina CQB.

O Fuzil T4 foi testado, aprovado e adquirido pelo Exército das Filipinas, após provas consideradas das mais exigentes do mundo. Esta aquisição totalizou 13.530 fuzis, sendo a primeira vez que o Exército Filipino adquiriu fuzis de um país diferente dos Estados Unidos. Após a entrega, ocorreu também a estreia do Fuzil T4 na dotação regular de um exército mundial.


Para além dos quesitos técnicos e financeiros, que são fundamentais num primeiro momento do certame, há também outros fatores importantes a considerar, pois podem ser decisivos no desenrolar das negociações.

O primeiro deles é o pioneirismo da Taurus e da CBC, sendo parceiras de primeira hora do Primeiro-ministro indiano Narendra Modi em seu Programa Make in India, concretizado por meio das primeiras joint ventures (JV) firmadas dentro desse programa, com a Jindal Defence & Aerospace e com a SSS Defence, respectivamente.

Junto a este fato, está o de que Grupo CBC/Taurus passará a fabricar armas e munições na Índia, criando um ecossistema logístico facilitador completo para o Exército Indiano e para as demais forças militares, paramilitares e de segurança do país.

A poderosa parceria com o Jindal Group, maior fabricante de aço da Índia e um dos dez maiores do mundo, também é um fator muito positivo, pois fornece a segurança política e os respaldos financeiro e de infraestrutura  necessários para as operações da JV da Taurus nesse país.

Além desses fatores, poderão também pesar no negócio:
- a afinidade ideológica e os interesses comerciais mútuos entre o Primeiro-ministro Narendra Modi e o Presidente Jair Bolsonaro;
- a futura necessidade do gigante asiático de dispor de grandes fontes de matérias primas para abastecer suas indústrias, e de produtos agropecuários para alimentar sua imensa e crescente população, itens onde o Brasil é farto;
- a ambição geopolítica da Índia de firmar sua presença nas Américas, tendo o Brasil como centro irradiador.

Correndo por fora, e hoje já com menor possibilidade, há ainda o fato (noticiado pela imprensa indiana em 2021) de o governo desse país asiático ter manifestado interesse em firmar uma parceria com a Embraer, visando sua divisão de jatos comerciais que havia sido vendida à Boeing e que teve o negócio desfeito por esta.

*Com informações do The Wire e LRCA Defense Consulting


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