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13 fevereiro, 2026

Com visita presidencial, acordo Embraer-Adani ganha palco em Nova Délhi e prepara terreno para ofensiva do C‑390

Anúncios sobre linha de montagem de jatos regionais devem ser detalhados durante encontro bilateral de 21 de fevereiro, reforçando ofensiva da Embraer no mercado indiano 
 
 
 
*LRCA Defense Consulting - 13/02/2026

O acordo entre a Adani Defence & Aerospace e a Embraer para criação de um ecossistema de aviação regional na Índia deve ganhar novo patamar de visibilidade política durante a visita do presidente brasileiro ao país asiático, prevista para 18 a 22 de fevereiro. Com anúncios focados na agenda civil, a parceria também reforça, em paralelo, a ofensiva da fabricante brasileira no dossiê de defesa indiano, especialmente no programa Medium Transport Aircraft (MTA) com o C-390 Millennium.
Visita do presidente brasileiro: palco para a agenda industrial
O Ministério das Relações Exteriores da Índia confirmou oficialmente, nesta quinta-feira (12), que o presidente brasileiro estará no país entre 18 e 22 de fevereiro, com reuniões bilaterais com o primeiro-ministro Narendra Modi programadas para o dia 21. O presidente será acompanhado por 14 ministros e um expressivo grupo de CEOs, refletindo o forte viés econômico e estratégico da visita.
Além das reuniões bilaterais, o presidente participará da 2ª Cúpula de Impacto da IA (AI Impact Summit), que ocorrerá entre 19 e 20 de fevereiro em Nova Délhi, com a presença de nove primeiros-ministros, sete presidentes e dois vice-presidentes de diversos países. A agenda oficial destaca comércio, investimentos, tecnologia e defesa, em linha com o esforço de Brasil e Índia para aprofundar a cooperação Sul-Sul e reduzir dependência de Estados Unidos e China.
Segundo reportagem do portal indiano Business Today, publicada nesta quinta-feira (12), a visita deve servir de vitrine para anúncios "maiores" sobre o acordo Adani-Embraer, com foco em detalhar investimentos, cronograma e contornos industriais da parceria. O ministro da Aviação Civil da Índia, K. Ram Mohan Naidu, já antecipou que, na presença do presidente brasileiro e do PM indiano, haverá decisão sobre "como e quando isso vai se desenrolar", sugerindo a apresentação de um roteiro mais concreto do projeto.
O que já se sabe sobre o acordo Adani–Embraer
Em 27 de janeiro, Embraer e Adani Defence & Aerospace assinaram um memorando de entendimento (MoU) para criar um "ecossistema integrado de aeronaves de transporte regional" na Índia. O acordo prevê uma linha de montagem final (FAL) de jatos regionais, além de estrutura de cadeia de suprimentos, serviços pós-venda e treinamento, inserindo o projeto diretamente nas políticas Make in India e Aatmanirbhar Bharat (Índia Autossuficiente).
Até agora, não foram divulgados oficialmente o modelo exato a ser produzido (a imprensa cita recorrentemente a família E-Jets E2), o local da fábrica ou o volume total de investimentos. Jeet Adani, diretor da Adani Defence & Aerospace, afirmou que múltiplos locais estão sendo avaliados para abrigar a linha de montagem, incluindo Gujarat e Andhra Pradesh, com expectativa de que todos os detalhes sejam finalizados "nos próximos meses".
Fontes indianas e internacionais descrevem a iniciativa como a primeira FAL de aeronaves comerciais de maior porte no país, com ambição declarada de atender tanto o mercado doméstico quanto exportações regionais. Na avaliação de analistas de mercado, o projeto mira um potencial de pelo menos 500 jatos regionais em 20 anos, combinando a demanda interna indiana com a de países vizinhos.
Arjan Meijer, presidente e CEO da Embraer Commercial Aviation, enfatizou que "a Índia é um mercado fundamental para a Embraer, e esta parceria combina nossa expertise aeroespacial com as fortes capacidades industriais da Adani". Ele acrescentou que juntos avaliarão "as soluções mais viáveis, avançadas e eficientes para apoiar as ambições da Índia em aeronaves de transporte regional".
Nesse contexto, a visita do presidente brasileiro oferece a oportunidade de "politizar positivamente" o anúncio, isto é, dar selo de alto nível a um projeto industrial que ainda está em fase de arquitetura, reforçando o compromisso bilateral entre Brasil e Índia.
O elo com o dossiê de defesa: C-390 e MTA
Paralelamente à agenda civil com a Adani, a Embraer vem aprofundando sua presença no setor de defesa indiano, especialmente com o C-390 Millennium ofertado ao programa Medium Transport Aircraft (MTA) da Força Aérea Indiana (IAF). A empresa mantém uma cooperação estruturada com o grupo Mahindra, por meio de um acordo estratégico assinado em fevereiro de 2024 e aprofundado em outubro de 2025 para promover o C-390 no MTA.
A proposta inclui linha de montagem, MRO (Manutenção, Reparo e Revisão) e centro de treinamento na Índia, posicionando o país como hub regional da plataforma. Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defense & Security, afirmou que "este acordo é mais do que um negócio aeroespacial; reflete nosso compromisso com a Aatmanirbhar Bharat e a crescente amizade entre Brasil e Índia".
Informações de comunicados oficiais e reportagens especializadas indicam que a Embraer oferece à Índia algo que vai além de 60-80 aeronaves: um ecossistema de produção e suporte que transformaria o país no maior operador global do C-390 e polo exportador para Ásia-Pacífico. Essa visão se encaixa na narrativa de Atmanirbhar Bharat e na trajetória já traçada com o C-295 da Airbus, reforçando a expectativa de que o MTA também venha com forte exigência de conteúdo local e transferência de tecnologia.
O C-390 já foi selecionado pelas forças aéreas do Brasil, Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, Coreia do Sul, República Tcheca, Suécia, Eslováquia, Lituânia e um cliente não divulgado. O programa MTA da Índia visa substituir as antigas aeronaves Antonov An-32 e possivelmente os Ilyushin Il-76, com a IAF avaliando aeronaves na faixa de capacidade de carga de 18-30 toneladas.
Como as agendas civil e militar se alimentam
A narrativa que se desenha em Nova Délhi e Brasília é a de um "pacote Embraer Índia", em que o anúncio civil com a Adani funciona como prova de conceito de manufatura e integração de alto valor agregado no país. Para o governo indiano, uma FAL de jatos regionais ajuda a demonstrar, para o público doméstico, que Make in India não se limita à montagem de aeronaves de transporte militar, mas abrange também o segmento comercial, sempre com o mote de empregos, exportações e transferência de tecnologia.
Embora o MoU com a Adani seja, formalmente, voltado à aviação regional civil, o fato central é que a Embraer passa a ter, ao mesmo tempo, um parceiro industrial indiano robusto no civil (Adani) e um parceiro consolidado no militar (Mahindra). Na prática, isso cria uma constelação de cooperação Brasil-Índia em torno da Embraer, com capacidade de combinar cadeias de suprimentos, engenharia e capacidade política para sustentar projetos de longo prazo em ambos os domínios.
Essa base industrial pode ser mobilizada politicamente como argumento adicional em favor de decisões futuras no campo da defesa, incluindo o MTA. Se a Embraer conseguir mostrar, ao lado da Adani, resultados tangíveis na cadeia de fornecedores e na geração de conteúdo local em aviação regional, reforça a percepção de que a empresa é capaz de replicar esse modelo em plataformas como o C-390.
Do lado brasileiro, o encadeamento também é evidente: consolidar uma FAL de jatos regionais em um mercado em expansão garante escala, dilui custos e aumenta a resiliência da cadeia de suprimentos, um ativo importante para qualquer eventual contrato militar de grande porte que envolva módulos, componentes ou submontagens produzidos na Índia.
 
Expectativas para anúncios durante a visita
Até o momento, as fontes abertas apontam mais para detalhamento do projeto Adani-Embraer do que para a assinatura de contratos fechados. É plausível esperar, durante a visita, anúncios como:
• Indicação de localização (ou lista restrita) para a FAL;
• Definição de fases do projeto (cronograma de instalação, início de produção, metas de conteúdo local);
• Eventuais instrumentos adicionais de cooperação governamental (MoUs intergovernamentais, facilitação regulatória, linhas de crédito ou apoio de bancos de desenvolvimento).
O ministro Ram Mohan Naidu afirmou em janeiro que o cronograma para a colaboração Embraer-Adani Aerospace será decidido durante a visita do presidente brasileiro, quando ele se reunir com o primeiro-ministro Modi, expressando expectativa de "bom progresso no campo de manufatura nos próximos dois anos".
No dossiê de defesa, a tendência é que a visita reforce o discurso político sobre cooperação industrial, mas sem, necessariamente, decisões imediatas sobre o MTA. Ainda assim, cada passo na consolidação da presença industrial da Embraer na Índia - seja com Adani no civil, seja com Mahindra no C-390 - aumenta o peso da fabricante brasileira na mesa quando o RFP (Request for Proposal) do MTA estiver efetivamente na rua e as propostas forem avaliadas sob a ótica de conteúdo local e parceria estratégica.
Contexto bilateral e momentum político
As relações Brasil-Índia vêm ganhando momentum nos últimos meses. Em outubro de 2025, o vice-presidente brasileiro Geraldo Alckmin, que também comanda a pasta de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, visitou a Índia junto com o ministro da Defesa, José Mucio Monteiro. Durante essa visita, foram realizadas conversas com o ministro da Defesa indiano, Rajnath Singh, sobre cooperação em defesa e questões de soberania, além de discussões sobre a possível expansão do Acordo de Comércio Preferencial Mercosul-Índia, em vigor desde 2009.
O engajamento político se intensificou ainda mais em 2026. Em 23 de janeiro, o presidente brasileiro e o primeiro-ministro Modi realizaram uma ligação telefônica na qual ambos os líderes reiteraram seu apoio a reformas abrangentes das Nações Unidas, incluindo mudanças no Conselho de Segurança, uma questão há muito defendida por ambos os países.
A Índia emergiu como o décimo maior destino de exportação do Brasil no ano passado, com exportações totalizando US$ 6,9 bilhões, e ficou em sexto lugar entre as fontes de importação, com US$ 8,4 bilhões. Embora isso tenha resultado em um déficit comercial de US$ 1,5 bilhão para o Brasil, os volumes de comércio bilateral registraram forte crescimento, com as exportações subindo 30,2% e as importações aumentando 21,9% em 2025.
Esta será a sexta visita do presidente brasileiro à Índia. Ele visitou pela primeira vez em 2004 como Convidado de Honra para as celebrações do Dia da República e esteve por último no país para a Cúpula do G20 em setembro de 2023. O primeiro-ministro Modi, por sua vez, esteve em Brasília em uma Visita de Estado em julho de 2025, marcando a primeira visita de Estado de um primeiro-ministro indiano em 57 anos. Ambos os líderes também se encontraram em Joanesburgo durante o G20 em novembro de 2025.
Presença da Embraer na Índia
A Embraer já tem uma presença significativa na Índia, com aproximadamente 50 aeronaves em operação em 11 modelos diferentes nos segmentos de aviação comercial, defesa e aviação executiva:
Força Aérea Indiana: opera aeronaves Embraer como o Legacy 600 e a plataforma 'Netra' AEW&C baseada no ERJ-145;
Star Air: companhia aérea regional com sede em Kolhapur opera uma frota de 13 aeronaves E175 e ERJ-145 para serviços comerciais;
Governo indiano: cinco jatos VIP Embraer em operação.
Em outubro de 2025, a Embraer inaugurou seu escritório nacional em Aerocity, Nova Délhi, consolidando sua estratégia de expansão no mercado indiano que abrange defesa, aviação civil e tecnologias emergentes.
Perspectivas
O que se desenha é uma estratégia de longo prazo da Embraer para a Índia, que vai além de contratos pontuais. A combinação de parceiros industriais robustos (Adani no civil, Mahindra no militar), presença institucional consolidada (escritório em Nova Délhi) e alinhamento com as políticas governamentais indianas (Make in India, Aatmanirbhar Bharat) cria as condições para que a empresa brasileira se torne um player relevante no ecossistema aeroespacial indiano.
A visita do presidente brasileiro funciona como catalisador político desse processo, conferindo legitimidade de alto nível às iniciativas em andamento e sinalizando o compromisso dos governos brasileiro e indiano com a parceria estratégica no setor aeroespacial. Ao mesmo tempo, o fortalecimento do vetor C-390 no MTA, se bem-sucedido, alimenta a imagem de competência tecnológica e confiabilidade da Embraer, retroalimentando as chances da família E-Jets E2 na concorrência comercial com Airbus e Boeing em mercados emergentes.
Os próximos dias, especialmente as reuniões bilaterais de 21 de fevereiro, serão decisivos para entender até que ponto essa visão compartilhada entre Brasil e Índia se traduzirá em compromissos concretos, sejam eles cronogramas, investimentos ou marcos regulatórios que pavimentem o caminho para a consolidação da Embraer como parceiro industrial estratégico da Índia nas próximas décadas.

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