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07 outubro, 2026

Marcos Degaut: Defesa, indústria e diplomacia sob uma mesma estratégia nacional

Marcos Degaut tornou-se um dos nomes relevantes para compreender as ideias de política externa e Defesa que circulam no entorno da candidatura de Flávio Bolsonaro. A trajetória do ex-secretário revela uma arquitetura estratégica baseada em autonomia tecnológica, transferência de tecnologia, previsibilidade orçamentária, fortalecimento da BID e integração entre Defesa, diplomacia, indústria e comércio exterior



*LRCA Defense Consulting - 07/10/2026

Marcos Degaut tornou-se um dos nomes relevantes para compreender as ideias de política externa e Defesa que circulam no entorno da candidatura de Flávio Bolsonaro. Aliado próximo de Eduardo Bolsonaro, o ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa participa do debate político atual, mas suas formulações sobre poder nacional são muito anteriores à campanha de 2026.

A análise de artigos, entrevistas, discursos e iniciativas de Degaut ao longo de quase uma década revela mais do que uma sucessão de posições conjunturais. Há uma consistência estrutural entre sua atuação na Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), sua passagem pela Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD), sua experiência posterior no setor privado de Defesa e seus textos recentes.

No centro dessa arquitetura aparecem conceitos recorrentes: autonomia tecnológica, transferência de tecnologia, previsibilidade orçamentária, Base Industrial de Defesa (BID) sustentável e exportadora, capacidade de dissuasão e uma política externa orientada pelo interesse nacional.

Defesa como instrumento de poder nacional 
Para Degaut, Defesa não pode ser tratada apenas como despesa pública nem como política isolada das demais dimensões do Estado. Ainda em 2020, quando comandava a SEPROD, defendia que Defesa, Segurança e BID deveriam integrar uma grande estratégia nacional e eram indissociáveis da política externa de um país que pretendesse possuir peso internacional.

Em textos recentes, o diagnóstico tornou-se mais abrangente. A competição estratégica contemporânea, em sua leitura, deslocou parte da vulnerabilidade nacional para áreas como semicondutores, comunicações, satélites, componentes eletrônicos, sistemas antiaéreos, armas inteligentes, cibernética, inteligência artificial, drones e sensores. A soberania, portanto, dependeria não apenas de território e efetivos militares, mas do domínio ou acesso seguro a tecnologias, cadeias produtivas e infraestrutura crítica.

No artigo “A Sétima República”, publicado em 6 de outubro, Degaut defende explicitamente Forças Armadas capazes de proteger o território e uma Defesa orientada pela dissuasão por negação, com Amazônia e Atlântico Sul como teatros prioritários.

O conceito procura tornar inviável ou excessivamente custoso ao adversário alcançar seus objetivos, o que remete a vigilância, consciência situacional, capacidade de reação e meios capazes de negar liberdade de ação em áreas vitais.

Uma linha que antecede a SEPROD 
A preocupação com programas estratégicos e autonomia já aparecia quando Degaut atuava na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, no governo Michel Temer.

Em setembro de 2017, durante visita à Corveta Jaceguai, foi registrado publicamente que ele vinha trabalhando ativamente para apoiar a construção das então Corvetas Classe Tamandaré, programa que posteriormente evoluiu para as Fragatas Classe Tamandaré.

Esse antecedente é relevante porque mostra que a preocupação com o fortalecimento material das Forças e com programas nacionais não nasceu de sua passagem pela SEPROD. Ela atravessa diferentes funções exercidas por Degaut e ajuda a explicar a continuidade entre sua atuação administrativa e suas formulações atuais.

Autonomia tecnológica como eixo central 
Poucos conceitos aparecem com tanta frequência em suas manifestações quanto autonomia tecnológica.

Em 2021, ao tratar de protocolos de inovação e tecnologia, Degaut afirmou que a criação de redes entre governo, academia e empresas deveria gerar produtos e serviços capazes de aumentar progressivamente a autonomia tecnológica brasileira e reduzir a dependência de produtos estrangeiros.

Em 2023, já no EDGE Group, sintetizou a ideia de maneira direta: não existe autonomia estratégica sem autonomia tecnológica.

A formulação ajuda a organizar todo o restante de seu pensamento. Um país que dependa integralmente de terceiros para sensores, componentes, munições, sistemas de comando, satélites, comunicações ou armamentos sofisticados pode conservar soberania jurídica, mas terá sua liberdade de decisão limitada em uma crise.

Transferência de tecnologia: comprar não basta 
A consequência prática desse raciocínio é a importância atribuída à transferência de tecnologia.

Para Degaut, a aquisição de equipamentos no exterior não deveria ser analisada apenas pelo desempenho do produto ou pelo preço da compra. O valor estratégico aumenta quando a operação permite absorver conhecimento, formar pessoal, internalizar competências, produzir componentes, realizar manutenção e evoluir sistemas no Brasil.

Isso não significa que toda tecnologia sensível esteja disponível para transferência, nem que acordos de offset produzam automaticamente autonomia. A questão central é negociar compras e parcerias de modo que parte relevante do conhecimento permaneça no País.

Sob essa lógica, transferência de tecnologia deixa de ser contrapartida acessória e passa a integrar o cálculo estratégico da aquisição.

Essa orientação também ajuda a interpretar sua atuação posterior no EDGE Group e a aproximação com empresas brasileiras. Parcerias internacionais são vistas como instrumentos úteis quando agregam tecnologia, capacidade produtiva, acesso a mercados e desenvolvimento conjunto, e não apenas capital.

Previsibilidade orçamentária: condição para planejar 
Outro pilar é a previsibilidade orçamentária.

Degaut tem sustentado que a indústria de Defesa não consegue executar planejamento estratégico consistente se não souber se haverá continuidade de recursos para programas que atravessam muitos anos. Em entrevista de 2023, afirmou que a imprevisibilidade afeta desenvolvimento de projetos e produtos, contratação de pessoal e participação em licitações internacionais.

O problema é particularmente sensível porque grandes projetos militares possuem longos ciclos de maturação, contratos complexos, pagamentos distribuídos por vários exercícios e, frequentemente, compromissos em moeda estrangeira, compensações industriais e transferência de tecnologia.

Cortes abruptos podem elevar custos, retardar cronogramas, provocar perda de equipes especializadas e enfraquecer a confiança de fornecedores e parceiros.

A ênfase, portanto, não está apenas em gastar mais. Está em permitir que Forças Armadas e indústria saibam, dentro de horizontes plurianuais razoáveis, quais recursos estarão disponíveis.

A discussão sobre mecanismos capazes de oferecer essa estabilidade financeira é estratégica, mas eventuais modelos ainda em formulação não podem ser tratados como política definida enquanto não forem apresentados publicamente.

A BID como instrumento militar, econômico e tecnológico 
Na visão de Degaut, a BID ultrapassa a função de abastecer as Forças Armadas. Ela produz empregos qualificados, inovação, renda, exportações, divisas e tecnologias de uso dual.

Durante sua gestão na SEPROD, procurou aproximar Ministério da Defesa, BNDES, indústria, academia e instrumentos de promoção comercial.

Em artigo de 2021 republicado pelo LRCA Defense Consulting, destacou novas formas de financiamento e garantias, aperfeiçoamento da Tríplice Hélice, envolvendo Estado, academia e iniciativa privada, e busca de maior isonomia normativa e tributária para a indústria nacional. Também sustentou que exportar é crucial para preservar a capacidade de fornecer produtos, serviços e tecnologia de ponta.

A lógica econômica é objetiva: a demanda interna brasileira, sujeita a restrições fiscais e oscilações, não oferece escala contínua para todos os segmentos industriais de Defesa.

Exportações permitem diluir custos, sustentar linhas produtivas, conservar equipes especializadas e financiar novos ciclos de inovação.

Financiamento e garantias completam a equação 
A previsibilidade das encomendas domésticas, contudo, não resolve sozinha o problema.

Degaut também tem chamado atenção para financiamento e garantias às exportações. Produtos de Defesa disputam mercados nos quais Estados estrangeiros frequentemente apoiam suas empresas com crédito, seguro, garantias soberanas e instrumentos diplomáticos.

Sem mecanismos competitivos, uma empresa brasileira pode possuir um bom produto e ainda assim perder uma concorrência porque o comprador recebeu condições financeiras melhores de outro país.

Daí a tentativa, durante a SEPROD, de aproximar a BID de instituições como o BNDES e fortalecer instrumentos de promoção comercial. 


Capital estrangeiro e autonomia não são necessariamente opostos 
A experiência posterior de Degaut no EDGE Group acrescenta uma nuance importante.

Sua concepção de autonomia não implica fechamento ao capital estrangeiro. Investimentos e parcerias internacionais podem fortalecer a soberania quando aumentam domínio tecnológico, produção local, qualificação de pessoal e capacidade exportadora.

O critério relevante, nessa perspectiva, não seria simplesmente a nacionalidade do investidor, mas o resultado estratégico da parceria: quanto conhecimento é absorvido, quais competências permanecem no Brasil e se a operação reduz ou amplia dependências críticas.

Política externa: diplomacia como instrumento de poder
A mesma arquitetura aparece em suas formulações sobre política externa.

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo em 1º de outubro, Degaut defendeu um Itamaraty mais forte, estratégico e valorizado, capaz de converter diplomacia em influência, mercados, investimentos, tecnologia, segurança e prosperidade.

No texto, contestou a caracterização de suas ideias como uma suposta “Reforma Rubio”. Afirmou que nunca discutiu projeto com esse nome nem defendeu transplantar ao Brasil a reforma do Departamento de Estado norte-americano.

Também registrou que suas reflexões não constituíam programa fechado nem proposta oficial de governo. A distinção é importante para qualquer tentativa de antecipar políticas futuras: existem ideias em debate, mas nem todas podem ser apresentadas como decisões da campanha.

O conteúdo defendido publicamente por Degaut inclui fortalecimento da capacidade de formulação e antecipação do Itamaraty, maior centralidade para diplomacia econômica, comércio, investimentos, tecnologia e Defesa, simplificação administrativa e critérios mais objetivos de mérito e desempenho na carreira.

Estados Unidos, China e interesse nacional 

Suas manifestações recentes apontam para maior aproximação estratégica com os Estados Unidos, mas não necessariamente para ruptura econômica com a China.

O fio condutor é o interesse nacional: relações internacionais deveriam ser avaliadas pela capacidade de gerar segurança, tecnologia, mercados, investimentos e liberdade de ação.

Esse pragmatismo também aparece na discussão sobre minerais críticos, energia, inteligência artificial e infraestrutura. Recursos naturais, isoladamente, não produzem poder. Eles precisam ser transformados em capacidade industrial, conhecimento, tecnologia e instrumentos de negociação internacional.

A nova guerra tecnológica 
A atenção dada a drones, inteligência artificial, sensores, espaço, defesa cibernética, comunicações e sistemas antiaéreos mostra que a visão de Degaut não está limitada aos grandes programas tradicionais.

As guerras recentes demonstraram que plataformas sofisticadas convivem com sistemas baratos, produção em massa, software, guerra eletrônica e ciclos tecnológicos extremamente rápidos.

Para o Brasil, o desafio seria combinar programas de longo prazo com capacidade de inovação acelerada, aproximando Forças Armadas, empresas, universidades e centros de pesquisa.

Nesse ambiente, autonomia não significa produzir absolutamente tudo, mas identificar tecnologias cuja dependência externa pode comprometer a liberdade de ação e desenvolver capacidade nacional ou parcerias confiáveis para dominá-las. 

Uma arquitetura de poder nacional 
Quando reunidas, as posições de Degaut formam uma cadeia coerente: previsibilidade orçamentária permite planejamento; planejamento sustenta programas e indústria; transferência de tecnologia e pesquisa ampliam autonomia tecnológica; autonomia tecnológica fortalece a BID; uma BID robusta aumenta a capacidade militar e exportadora; capacidade militar gera dissuasão; e dissuasão oferece maior liberdade de ação à política externa.

É essa conexão que diferencia sua abordagem de uma discussão restrita ao orçamento das Forças Armadas.

Defesa, indústria, tecnologia, comércio exterior, diplomacia, energia e recursos estratégicos aparecem como componentes de um mesmo sistema de poder nacional.

O que pode ser inferido 
Caso essas ideias tenham influência efetiva sobre um eventual governo Flávio Bolsonaro, é razoável inferir uma pressão por maior previsibilidade dos recursos destinados aos programas estratégicos, fortalecimento da BID, mecanismos de financiamento e garantias às exportações, maior exigência de transferência de tecnologia em parcerias internacionais e prioridade para áreas tecnológicas consideradas críticas.

Também seria coerente com esse pensamento uma maior integração entre Defesa e política externa, atenção especial à Amazônia e ao Atlântico Sul e aproximação estratégica com parceiros capazes de oferecer tecnologia, investimentos e acesso a mercados.

Essas são, entretanto, inferências construídas a partir de posições públicas e de uma trajetória administrativa. Não equivalem a compromissos formalmente assumidos pela candidatura.

Permanecem abertas questões decisivas: qual será o nível de recursos destinado à Defesa, quais programas terão prioridade, como serão financiados, quais tecnologias serão consideradas críticas e quais mecanismos serão usados para assegurar continuidade orçamentária.

Consistência estrutural
A principal conclusão da pesquisa é que o pensamento de Marcos Degaut apresenta forte consistência estrutural.

O apoio a programas navais quando estava na SAE, a defesa de autonomia tecnológica e fortalecimento da BID na SEPROD, a ênfase posterior em parcerias industriais e transferência de conhecimento e suas formulações atuais sobre Defesa e política externa pertencem a uma mesma arquitetura intelectual.

Mais do que saber qual cargo Degaut poderia ocupar em um eventual governo, o interesse público está em compreender essa arquitetura.

Se suas ideias efetivamente influenciarem políticas a partir de 2027, a mudança mais relevante poderá não estar em um programa isolado ou em uma aquisição específica, mas na tentativa de integrar instrumentos que o Brasil historicamente administra de maneira fragmentada: orçamento, tecnologia, indústria, Defesa, comércio exterior e diplomacia.

25 fevereiro, 2023

Apoio do Itamaraty a produtos de defesa brasileiros é quase inexistente, diz ex-secretário Degaut


*Sputnik Brasil - 24/02/2023

Embargo da Alemanha à venda de veículos blindados brasileiros colocam a indústria de armamentos de volta à ordem do dia. A Sputnik Brasil conversou com o ex-secretário de Produtos de Defesa, Marcos Degaut, e especialistas de ponta para saber como o conflito na Ucrânia e o governo Lula impactam a indústria de defesa brasileira em 2023.

Nesta quinta-feira (23), a Alemanha confirmou o embargo à venda de veículos blindados brasileiros para as Filipinas, por possuírem peças de fabricação alemã em sua composição.

O contrato previa a venda de 28 viaturas blindadas VBTP-MSR 6X6 Guarani ao Exército de Manila. De propriedade intelectual do Exército Brasileiro, os Guaranis são produzidos pela empresa IDV, localizada na cidade mineira de Sete Lagoas.

A notícia coloca em evidência a capacidade exportadora da Base Industrial de Defesa brasileira (BID). Mesmo sendo um país pacífico internacionalmente, o Brasil produz uma ampla gama de equipamentos militares, que vão desde facas até aeronaves de ponta, como o KC-390 da Embraer.

"A base industrial brasileira tem vocação exportadora", disse o ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa do Brasil, Marcos Degaut, à Sputnik Brasil. "Cerca de 75% a 80% dos produtos de defesas fabricados no Brasil se destinam ao exterior, fazendo com que o setor se converta em um importante gerador de divisas, empregos de alta qualificação e renda."

Degaut, que também ocupou o cargo de secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, lembra que as exportações são um pilar da Política Nacional da Base Industrial de Defesa publicada em agosto de 2022.


"Neste cenário, merecem relevo os sucessivos recordes de exportações do último triênio", relatou Degaut. "Em 2021, não obstante aos efeitos da pandemia, alcançou-se a cifra recorde de US$ 1,7 bilhão [cerca de R$ 8,7 bilhões], representando acréscimo de 87,2% em relação a 2018."

Segundo Degaut, os principais destinos das exportações brasileiras são o Oriente Médio e a América Latina. O ex-secretário defendeu sua gestão, notando que "conseguimos aumentar significativamente nossa presença em outros mercados relevantes, mas nos quais não tínhamos capacidade de penetração, como o Sudeste Asiático e a África Subsaariana".

"Dentre alguns dos principais produtos, destacam-se sistemas de artilharia por saturação de área, sistemas de criptografia e de proteção das comunicações, material não letal para controle de distúrbios, [...] mísseis e foguetes guiados, aeronaves, sistemas de controle de tráfego aéreo", elencou Degaut. "Aliás, somos o maior fornecedor de munições da OTAN."


Apesar do crescimento das exportações, existem diversos obstáculos à contínua expansão da BID. Degaut pediu maior atenção do governo na prospecção de novos mercados para os produtos brasileiros e não poupou críticas à atuação do Ministério das Relações Exteriores.

"De maneira absolutamente anacrônica, produtos de defesa ainda são vistos com muita desconfiança e reticências no Itamaraty, fazendo com que o apoio daquela Casa seja tímido, quando não francamente inexistente", declarou Degaut.

Segundo ele, "é importante lembrar que a mera presença de embaixadores brasileiros em feiras de produtos de defesa mundo afora apenas para cortar a fita inaugural do Pavilhão do Brasil [organizado pelo Ministério da Defesa e pelo setor privado, com auxílio da APEX] nesses eventos ou o oferecimento de um jantar de boas-vindas às delegações brasileiras nessas ocasiões estão longe de configurar atividades de promoção comercial".

Made in Brasil
O caso do embargo alemão à venda de Guaranis brasileiros também coloca em pauta a necessidade de garantir maior índice de conteúdo nacional nos produtos de defesa brasileiros. Para Degaut, no entanto, esse esforço envolve financiamento, políticas públicas e cooperação internacional.

"Não se trata de aumentar conteúdo nacional ou diminuir componentes importados por meio de uma 'canetada' presidencial ou ministerial. A história recente do Brasil demonstra que isso não funciona, o que foi bastante evidente durante o governo Dilma Rousseff", disse o ex-secretário do Ministério da Defesa. "É necessária a alocação de recursos financeiros para fomentar e viabilizar projetos de pesquisa de interesse da Defesa, para o desenvolvimento endógeno de alta tecnologia."

O analista militar e consultor Pedro Paulo Resende acredita que as Forças Armadas brasileiras devem capitanear as compras dos produtos nacionais, e lembra que a dificuldade em garantir investimentos consistentes já prejudicaram importantes projetos da BID.

"Um dos principais obstáculos é a falta de encomendas internas, precisamos ter mais", disse Resende à Sputnik Brasil. "Produtos que foram vencedores no passado entraram em obsolescência, como é o caso do A-29 Super Tucano. O Tucano original T27, um avião de treinamento que poderia ser substituído por uma nova família de treinadores, é outro que ficou pra trás e precisa ser retomado com urgência."


O analista ainda cita a necessidade de modernizar os sistemas de lançamento de foguetes Astros da Avibras, que devem atender à crescente demanda dos clientes por sistemas de mísseis guiados.

"Isso é uma deficiência que tem que ser suprida no sistema, mas depende de encomendas das Forças Armadas brasileiras", acredita Resende.

Governo Lula e Produtos de Defesa
Já nas suas primeiras semanas, o governo Lula enfrentou alguns atritos com setores militares. A troca precoce no Comando do Exército poderia anunciar uma reticência por parte do petista em investir na base industrial de defesa.

No entanto, o professor da UNICAMP e pesquisador da área de indústria aeroespacial e de defesa, Marcos José Barbieri Ferreira, não acredita que o governo Lula terá dificuldades ideológicas em apostar na BID.

"Não acredito nisso, aliás os sinais apontam para o contrário", disse Ferreira à Sputnik Brasil. "A primeira reunião que Lula teve com setores da defesa incluiu não só os comandantes militares e o ministro Alckmin, mas também o presidente da FIESP, justamente para atender a demandas das Forças Armadas na área de defesa", disse Ferreira.

Para o pesquisador, a nova política econômica do governo busca a retomada do crescimento e a reindustrialização nacional, o que favorece os investimentos na BID.


"No mundo inteiro, a relação entre Estado e empresas de defesa é uma relação simbiótica. Um auxiliando o outro. Se não tiver apoio do Estado, não tem indústria de defesa", disse Ferreira.

De acordo com Marcos Degaut, "a BID representa, atualmente, 4,8% do PIB nacional e gera cerca de três milhões de empregos, diretos e indiretos", o que favorece o setor como propulsor do crescimento econômico.

"O novo governo prometeu aumentar os recursos para investimentos das Forças Armadas. Isso é uma iniciativa extremamente bem-vinda e muito necessária. Vamos esperar que a promessa seja cumprida", disse Degaut. "Investimentos significam recursos não apenas para aquisição de produtos, mas também para o desenvolvimento de novas tecnologias, de forma a superar situações de dependência tecnológica de produtos estrangeiros."

Ferreira faz uma ressalva ao otimismo, lembrando que "o contexto internacional agora é muito mais complicado do que era nos governos Lula anteriores".

Conflito ucraniano e BID brasileira
O conflito ucraniano e aumento de tensões entre potências como EUA, Rússia e China geram aumento total nos gastos militares o que, teoricamente, favoreceria o aumento das exportações de produtos de defesa brasileiros.

"Estamos em um contexto de disputa hegemônica, que se concretizou em um conflito de facto entre Ocidente, OTAN e Rússia, que está ocorrendo na Ucrânia", ponderou Ferreira. "Isso está gerando um aumento nos gastos militares totais, que precisa estar aliado a investimentos em novas tecnologias."

Os especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil divergem quanto aos impactos do conflito ucraniano na indústria brasileira.

Para Pedro Paulo Resende, o envolvimento de uma ampla gama de países no conflito ucraniano pode dificultar as exportações nacionais.

"Por enquanto [o conflito na Ucrânia] serviu como um obstáculo", acredita Resende. "O Brasil não fornece para países em guerra, e houve várias tentativas de governos ocidentais de burlar esse embargo para repassar [produtos de defesa] para a Ucrânia. Obviamente o Brasil não aceitou. Então [o conflito] restringiu as nossas exportações."

Degaut acredita que o Brasil deve transformar essa crise geopolítica em oportunidade para desenvolver sua indústria de defesa, que pode funcionar como um pilar para o desenvolvimento do país.

"Baseada na constatação de que não se pode ser pacífico sem ser forte, a permanente capacitação da indústria nacional deve figurar como um dos pilares centrais das políticas e estratégias nacionais de defesa do Brasil", disse Degaut. "Em Defesa, não há espaço para improviso."

Nesta quinta-feira (23), a Alemanha embargou a venda brasileira às Filipinas de veículos blindados Guarani que contêm componentes de fabricação alemã. Os veículos brasileiros Guarani já foram exportados para países como o Líbano e vendas para Argentina e Malásia estão em negociação. Em 2021, as exportações de produtos de defesa brasileiros atingiram US$ 1,7 bilhão (cerca de R$ 8,7 bilhões), recorde histórico para o setor.

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