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21 abril, 2026

Do Golfo Pérsico ao Atlântico Sul: como o EDGE Group transformou o Brasil em seu principal laboratório de defesa fora dos Emirados

 


*LRCA Defense Consulting - 21/04/2026

Em cinco dias de agenda intensa no Brasil, o CEO do EDGE Group, Hamad Al Amar, não teve uma tarde livre. Reuniões com o alto-escalão das Forças Armadas, visita aos fuzileiros navais no Rio de Janeiro, parada em São Paulo para a maior feira de defesa da América Latina e passagem pelas duas empresas nas quais o conglomerado emiradense é sócio, a SIATT, em São José dos Campos, e a Condor, em Nova Iguaçu. A agenda diz muito sobre o que o Brasil representa para o grupo: não um mercado periférico, mas o centro nervoso da sua expansão no hemisfério sul.

Fundado em 2019 pela fusão de mais de 25 empresas do setor de defesa dos Emirados Árabes Unidos, o EDGE Group é hoje um dos maiores conglomerados de defesa do mundo, com faturamento de US$ 5 bilhões em 2025. A história da sua presença no Brasil começa três anos antes de Al Amar já não conseguir deixar o país fora de suas viagens anuais.

A entrada pelo caminho do míssil
Em 2023, o EDGE adquiriu 50% da SIATT, sigla para Sistema de Armas para Aplicações Táticas e Tecnológicas, uma empresa paulista especializada na fabricação de mísseis antinavios que já carregava consigo um contrato relevante: o fornecimento do MANSUP à Marinha do Brasil. O acordo era o ponto de entrada que o grupo árabe buscava para firmar raízes na maior base industrial da América Latina.

O MANSUP - Míssil Antinavio de Superfície e Plataformas não é um projeto simples. Desenvolvido com participação de outras empresas brasileiras como Avibras e Omnisys, o míssil foi projetado para voar a altíssima velocidade rente à superfície do mar, a uma altitude tão baixa que dificulta sua detecção pelos radares dos navios-alvo, uma técnica conhecida como sea-skimming. Além disso, o sistema conta com um buscador ativo de radar resistente a interferências eletrônicas, capaz de identificar e rastrear o alvo de forma autônoma na fase final do voo.

A versão estendida, o MANSUP-ER, vai além, com maior alcance e capacidade para atuar tanto em missões de ataque em alto mar quanto na defesa costeira. Nesta semana, o EDGE confirmou que a produção das duas variantes está sendo acelerada, em estreita coordenação com os parceiros industriais brasileiros e as unidades operacionais da Marinha, um sinal de que o programa saiu da fase de desenvolvimento para uma etapa de amadurecimento industrial.

Três anos, dois polos industriais, US$ 3 bilhões
Desde a entrada na SIATT, o EDGE moveu-se rapidamente. Em 2024, tornava-se sócio majoritário da Condor Tecnologias Não Letais, fabricante fluminense cujos produtos - gases lacrimogêneos, munições de impacto, câmeras de dispersão - já chegam a mais de 80 países.

O volume total investido no Brasil desde então supera US$ 3 bilhões em aquisições e expansão da capacidade produtiva. A SIATT ganhou uma nova unidade industrial em Caçapava, no interior de São Paulo, e projeta para ainda este ano uma unidade de testes de explosivos em São José dos Campos. A Condor, por sua vez, anunciou a construção de uma nova fábrica paulista, em local a ser definido. Apenas as obras de ampliação somaram entre US$ 60 milhões e US$ 70 milhões.

O resultado financeiro desse movimento já aparece nos balanços: juntas, SIATT e Condor contribuíram com US$ 133 milhões para o faturamento global do grupo em 2025. A projeção é que a América Latina responda por US$ 624 milhões ao ano até 2029, e o Brasil é o coração desse plano.

"Os governos dos Emirados e do Brasil são muito alinhados. Há tantos outros investimentos emiradenses no Brasil. É um relacionamento de longo prazo", disse Al Amar em entrevista recente. "Mas o Brasil é a maior indústria da América Latina e é importante nos estabelecermos aqui. Para não falar sobre a quantidade de engenheiros e instituições de ensino que poderiam nos beneficiar."

LAAD 2026: a semana que virou vitrine
Se havia alguma dúvida sobre a escala das ambições do EDGE no Brasil, a LAAD Security & Milipol Brazil 2026, realizada de 14 a 16 de abril em São Paulo, desfez qualquer hesitação. Em três dias de evento, restrito a militares, forças policiais, autoridades e profissionais do setor, o grupo assinou ou formalizou pelo menos cinco acordos distintos com entidades brasileiras.

Com o Exército, ficou acertado um programa de avaliação dos fuzis de assalto e de precisão da marca CARACAL em condições operacionais reais. Os modelos CAR 816 (calibre 5,56mm, padrão NATO) e CSR50 (calibre 12,7mm) serão testados por unidades de forças especiais, num acordo que combina experimentação tática com troca de conhecimento técnico e logístico.


Com a Marinha, foram dois protocolos. O primeiro, um Memorando de Entendimento voltado à defesa cibernética, com foco no desenvolvimento de um futuro Centro de Excelência de ciberproteção naval, proteção de sistemas digitais embarcados e treinamento de pessoal especializado. A iniciativa se insere num contexto mais amplo: a crescente digitalização das frotas navais tornou os sistemas de comando, controle e comunicação em alvos tão vulneráveis quanto os cascos dos navios.

O segundo protocolo com a Marinha, conduzido por meio do Corpo de Fuzileiros Navais, trata da avaliação de viaturas táticas leves 4x4 com base na Infantry Squad Vehicle (ISV) já em serviço, incluindo configurações para emprego de munições de cruzeiro lentas (loitering munitions), postos de comando móveis e missões de evacuação médica em combate.

 

 

Com a Condor, também foram dois acordos. O primeiro, com os Fuzileiros Navais, prevê o desenvolvimento de uma granada fumígena de 76mm para veículos blindados, inteiramente fabricada no Brasil, reduzindo a dependência de importações num insumo considerado crítico para operações de blindados, especialmente para ocultação tática contra sensores térmicos e designadores laser inimigos. O segundo, com a Polícia Militar do Rio de Janeiro, formalizou o fornecimento de armas elétricas de duplo disparo, dentro de um pacote de aproximadamente R$ 5 milhões voltado à modernização do policiamento fluminense.

Com o grupo espanhol Indra, o EDGE e a SIATT assinaram um Memorando de Entendimento para o desenvolvimento e a produção conjunta de sistemas de radar de nova geração no Brasil, uma parceria tripartite que une a experiência da Indra em radar e guerra eletrônica, a capacidade industrial da empresa paulista e o alcance global do conglomerado árabe. Os dois grupos já colaboram desde 2023 em joint ventures em Abu Dhabi, e mais recentemente firmaram acordo para produção de munições inteligentes na Espanha. O Brasil seria o próximo passo dessa aliança e o primeiro no hemisfério ocidental.

 

Além das armas: o horizonte dos drones
Entre os planos que Al Amar carrega para o futuro próximo está uma frente ainda não formalizada em contratos, mas que já ocupa espaço nas conversas com os militares brasileiros: a produção de drones. O executivo identifica no Brasil uma demanda reprimida por capacidades de reconhecimento autônomo terrestre, aquático e aéreo que o EDGE já tem no portfólio, mas que ainda não transferiu para cá.

A lógica do grupo é expandir a fabricação de drones para além dos Emirados, usando hubs industriais em países parceiros. O Brasil, com sua engenharia qualificada, infraestrutura existente e proximidade com outros mercados sul-americanos, torna-se um candidato natural a sediar essa produção regional.

Não há ainda contrato assinado. Mas as conversas avançam e o padrão das últimas semanas, com acordos se empilhando a cada visita de Al Amar ao país, sugere que a formalização pode ser questão de tempo.

USV 120 (embarcação de superfície não tripulada) do EDGE Group (imagem ilustrativa)

Produção de drones aquáticos de reconhecimento e combate no Brasil até setembro
O Grupo EDGE vai iniciar ainda este ano a produção local de drones aquáticos para reconhecimento e drones armados no Brasil. A informação foi confirmada, em entrevista ao Estadão, pelo diretor-geral e CEO da empresa, Hamad al Marar, que destacou o país como aliado estratégico na área industrial e de engenharia.

“Quando nós falamos em tecnologia, é muito importante compreender que a gente fornece soluções e não produtos. Como sabemos, não há uma solução única para diferentes países. A geografia e as diferentes ameaças têm um papel muito importante”, afirmou Al Marar. Ele citou as principais demandas brasileiras: combate à imigração e pesca ilegais, tráfico de drogas, crime organizado, terrorismo e a necessidade de fortalecer a Marinha para proteger a extensa fronteira e a Amazônia.

A EDGE já possui em seu portfólio UAVs (sistemas de aeronaves não tripuladas), drones terrestres e drones marítimos, além de tecnologia capaz de transformar qualquer embarcação em não tripulada, respeitando as leis e regulações internacionais. “Temos uma grande variedade de drones para reconhecimento e drones armados. Nós estamos nos preparando para produzir esses drones no Brasil tanto com contrato assinado, sob encomenda, bem como sem contrato”, disse o executivo.

Segundo Al Marar, a produção começará antes do final de 2026, com expectativa de já estar em andamento até setembro. “Não há razão para a gente não fazer isso”, ressaltou. Ele descartou a necessidade de grandes investimentos ou licenças internacionais dos Estados Unidos ou de outros países: “Todo mundo tem o direito de se proteger incondicionalmente. Esse foi o argumento que levou à criação do Edge”.

 
USV 120 - vídeo

A montagem será feita pela parceira brasileira SIATT, com partes e componentes produzidos pela indústria nacional já estabelecida. A EDGE já investiu na SIATT e mantém parceria também com a Condor. “Nós preferimos pensar em investidores privados, em empresas produzindo para a gente em parceria”, explicou o CEO. O objetivo é integrar a indústria brasileira à cadeia de suprimentos tanto para o mercado local quanto para exportação aos Emirados e para o restante da América Latina.

Al Marar enfatizou que a estratégia da empresa não é “vir aqui apenas para ganhar, explorar”. “Queremos avançar juntos e não à custa dos outros. Nós estamos compromissados com a indústria brasileira e, acima de tudo, acreditamos fortemente nos talentos de engenharia que vocês têm”, declarou. “No Brasil não falta nada. Escolhemos o parceiro certo".

A iniciativa é vista pela EDGE como um salto para o setor de drones no país, que já demonstra capacidade para produzir aviões de passageiros e agora pode avançar em sensores, câmeras, radares e componentes eletrônicos, gerando oportunidades para engenheiros brasileiros em escala internacional. 

O que o Brasil ganha nessa equação
A relação com o EDGE não é de mão única. Do ponto de vista brasileiro, o interesse é claro: capital estrangeiro, transferência de tecnologia e um empurrão na capacidade industrial do setor de defesa, historicamente dependente de importações e cronicamente subfinanciado.

A Condor, por exemplo, ganhou com o grupo árabe como sócio majoritário um canal para exportar seus produtos não letais a bem mais de 85 países para os quais exportava. A SIATT, que até 2023 operava basicamente com um único grande contrato, o MANSUP com a Marinha, passou a integrar uma cadeia industrial global, com perspectivas de produção para os Emirados, Angola e outros mercados.

O desenvolvimento da granada fumígena nacional pelos Fuzileiros Navais e pela Condor ilustra bem essa dinâmica: ao internalizar a capacidade de fabricação de um componente antes importado, o Brasil reduz custos logísticos, garante autonomia no abastecimento e abre uma possível frente exportadora no mercado de defesa regional.

A criação de um eventual polo de radares, se o acordo com a Indra evoluir, representaria um salto qualitativo ainda maior, introduzindo no país uma competência tecnológica sensível que hoje depende quase inteiramente de fornecedores europeus ou norte-americanos.

Uma parceria com olho no mapa
Há uma dimensão geopolítica que ajuda a entender por que essa relação se consolidou com tanta rapidez. Os Emirados Árabes Unidos vêm ampliando sua presença econômica na América do Sul de forma sistemática: investimentos em infraestrutura, agricultura, energia e, agora, defesa. O Brasil, por sua vez, tem buscado diversificar seus fornecedores e parceiros estratégicos, reduzindo dependências históricas de potências ocidentais em setores sensíveis.

Nesse quadro, o EDGE Group funciona como um vetor duplo: ao mesmo tempo em que aprofunda a presença emiradense no tecido industrial brasileiro, oferece ao Brasil acesso a tecnologias e mercados que estariam fora de alcance por caminhos tradicionais.

A agenda de Al Amar em abril de 2026, com reuniões diárias com generais e almirantes, visitas a fábricas e cerimônias de assinatura, não é a de um visitante que veio firmar negócios pontuais. É a de alguém que já conhece o endereço e sabe que vai voltar.

"Estão entregando nossas armas para os árabes": o debate que esquenta as redes sociais
Nem todos aplaudem. À medida que os acordos do EDGE com as Forças Armadas brasileiras se multiplicam, cresce também a temperatura do debate nas redes sociais, e o tom, em muitos casos, é de alarme. "O Brasil está abrindo mão da sua soberania industrial de defesa para um grupo estrangeiro", resume uma das críticas mais recorrentes em fóruns militares e perfis ligados ao setor. Para quem faz essa leitura, a presença do EDGE não é parceria: é desnacionalização com assinatura de memorando.

O argumento tem raízes em um ponto concreto da legislação brasileira. A Lei nº 12.598/2012, que regula as chamadas Empresas Estratégicas de Defesa (EED), exige, entre outros critérios, que o controle acionário dessas companhias seja majoritariamente nacional. A SIATT e a Condor eram EEDs. Com o EDGE como sócio majoritário da Condor (51%) e detentor de metade da SIATT, com cláusula para avançar até 51%, a compatibilidade com esse status jurídico é uma questão que especialistas em direito da defesa acompanham com atenção. Qualquer perda da certificação poderia, em tese, impedir as empresas de acessar determinadas linhas de financiamento público, licitações restritas e programas do Ministério da Defesa.

Há ainda uma camada de desconfiança política no debate. O fato de o ex-Secretário de Produtos de Defesa do governo brasileiro anterior ter assumido a presidência da operação latino-americana do EDGE (03/2023 a 07/2024), mesmo que com um intervalo de 
sete meses após deixar o cargo público, alimentou questionamentos sobre a fronteira entre interesse público e privado na aproximação com o grupo emiradense, ainda que todos os procedimentos legais tenham sido observados. A participação do grupo no programa Muralha Paulista, a vitrine de segurança pública do governo do estado de São Paulo, com tecnologias de monitoramento e vigilância, adicionou outra camada ao debate: que tipo de dados serão geridos por uma empresa cujo capital é, em última análise, uma estatal de um governo estrangeiro?

Essas são questões importantes e se prestam a controvérsias. Mas o debate nas redes sociais frequentemente ignora um contexto fundamental: o estado de penúria crônica da Base Industrial de Defesa brasileira.

O Brasil investe cerca de 1,2% do PIB em defesa, índice considerado baixo mesmo para padrões regionais, e muito distante dos patamares de países que operam suas próprias indústrias militares de ponta. O resultado é visível: as Forças Armadas brasileiras operam com equipamentos defasados em várias frentes, e empresas como SIATT e Condor sobreviviam, até 2023, à margem da escassez orçamentária, desenvolvendo tecnologia competitiva com recursos mínimos, uma resiliência admirável, mas insustentável como estratégia de longo prazo.

"A SIATT era uma empresa pequena, com poucas pessoas. Conseguiu administrar projetos enormes com orçamentos pequenos. Vimos então potencial não só de crescer no Brasil, mas em exportações", disse Rodrigo Torres, brasileiro que ocupa o cargo de CFO do grupo, em entrevista à época das aquisições. A percepção do EDGE não foi a de uma empresa frágil para ser absorvida, mas de uma capacidade técnica represada por falta de escala, exatamente o que o capital emiradense se propõe a liberar.

Do ponto de vista prático, a pergunta relevante não é se o EDGE é brasileiro, pois evidentemente não é, mas se sua presença fortalece ou enfraquece a capacidade industrial do país no setor. E aí a evidência disponível aponta, pelo menos por ora, mais para o primeiro cenário. 

A nova fábrica da SIATT em Caçapava emprega engenheiros brasileiros e produz tecnologia no Brasil. A encomenda de US$ 350 milhões em mísseis MANSUP feita pelos próprios Emirados Árabes injetou demanda real num programa que, sem parceiro externo, teria dificuldade de sair do papel em escala. A Condor, que vendia para 85 países com estrutura enxuta, passou a ter acesso a uma rede comercial global que nenhuma empresa brasileira de defesa possui sozinha.

Para especialistas que acompanham o setor, a presença do EDGE pode gerar empregos de alta qualificação, atrair engenheiros brasileiros e fomentar a inovação na indústria de defesa, além de criar uma plataforma exportadora que poderia ampliar o perfil internacional do Brasil, hoje mais associado a commodities agrícolas e minerais do que a sistemas militares de ponta. Por outro lado, os riscos de dependência tecnológica e de perda de autonomia em áreas estratégicas são igualmente reconhecidos: a transferência de controle acionário para uma empresa estrangeira pode, em determinado cenário político, comprometer a capacidade brasileira de definir sozinha os rumos da sua indústria militar.

O dilema, em síntese, é clássico: aceitar capital e tecnologia externos com os riscos de dependência que isso acarreta, ou preservar o controle nacional sobre uma indústria que, sem investimento, definha por conta própria. A Embraer, frequentemente citada como modelo, passou por dilema semelhante nas décadas de 1990 e 2000, quando a privatização e a abertura ao capital estrangeiro foram tanto criticadas quanto celebradas. Hoje, é a maior fabricante de aeronaves comerciais de médio porte do mundo. O próprio CEO da operação brasileira do EDGE tem essa referência em mente: a SIATT, diz ele, pode ser "a nova Embraer" da indústria de defesa.

Mas a comparação tem limites. A Embraer nunca foi comprada por uma estatal estrangeira; passou por um processo de capitalização que manteve controle nacional por longos anos. O EDGE, como estatal dos Emirados, responde em última instância ao governo de Abu Dhabi, uma distinção que os críticos da parceria têm razão em ressaltar, ainda que nem sempre o façam com a precisão necessária.

O ponto de equilíbrio, se houver, passa pela resposta a uma questão que o Brasil ainda não respondeu de forma satisfatória: quanto está disposto a investir na sua própria indústria de defesa? Enquanto essa resposta não chegar, a presença do EDGE Group funciona, ao mesmo tempo, como solução e como sintoma. 

20 abril, 2026

Exército Brasileiro adota drone chinês para uso militar, enquanto o mundo ocidental já acendeu o alerta vermelho

Portaria de 2026 padroniza o DJI Matrice 300 RTK como VANT oficial da Força Terrestre, enquanto EUA e aliados banem a fabricante por riscos de espionagem. Brasil desenvolve alternativas nacionais, mas caminho ainda é longo 

DJI Matrice 300 RTK

*LRCA Defense Consulting - 20/04/2026

No início de abril de 2026, o Exército Brasileiro deu um passo que passaria quase despercebido pelo grande público, mas que carrega peso estratégico considerável: por meio da Portaria nº 2.660/2026, o Comando do Exército formalizou a adoção do DJI Matrice 300 RTK, drone fabricado pela empresa chinesa DJI, sediada em Shenzhen, como veículo aéreo não tripulado (VANT) de uso padrão da Força Terrestre. A decisão, que transforma o aparelho em item oficial de inventário militar com doutrina, logística e cadeia de suprimentos padronizadas, vem exatamente quando o Ocidente acelera o movimento oposto: banir a mesma empresa de seus arsenais e redes governamentais por suspeita de espionagem a serviço de Pequim.

O que é o Matrice 300 RTK
Lançado em 2020, o DJI Matrice 300 RTK é o topo de linha industrial da DJI. Com até 55 minutos de autonomia de voo, alcance de transmissão de 15 km e posicionamento RTK de precisão centimétrica, o equipamento foi projetado para missões exigentes de inspeção, mapeamento e segurança pública. O drone suporta cargas úteis de até 2,7 kg, opera entre -20°C e +50°C e conta com sistema de detecção de obstáculos em seis direções. Para uso militar, a configuração mais comum inclui o payload Zenmuse H20T, que combina câmera com zoom óptico de 20x, sensor térmico, telêmetro laser e câmera para baixa luminosidade, recursos que permitem identificação de alvos noturnos e apoio à artilharia.

O Exército já utilizava o modelo desde pelo menos 2022, quando adquiriu quatro unidades para experimentação doutrinária pela Aviação do Exército, ao lado de 30 unidades do DJI Mavic 2 Enterprise, com o objetivo inicial de aprimorar técnicas de inteligência, reconhecimento, vigilância e aquisição de alvos (IRVA). A portaria de 2026 representa a transição da fase experimental para a incorporação definitiva. A padronização reforça a modernização da Aviação do Exército, integrando tecnologias COTS, sigla para Commercial Off-The-Shelf, ou seja, soluções comerciais prontas para uso, enquanto o país desenvolve capacidades autônomas de fabricação de VANTs. Modelos semelhantes da linha Matrice já são empregados por polícias militares, bombeiros e pela própria Força Aérea Brasileira, que adquiriu o Matrice 30T para vigilância de bases em 2026.

O outro lado: espionagem, banimentos e a Lei de Inteligência da China
Enquanto o Brasil abraça o equipamento, diversos países tratam o mesmo drone com crescente desconfiança, 
como Estados Unidos, Austrália, Índia e Japão. Os EUA alertaram repetidamente que drones fabricados na China podem apresentar riscos de espionagem e dar a Pequim acesso irrestrito aos dados de seus usuários.

O temor tem raiz legal: a Lei Nacional de Inteligência da China, de 2017, obriga empresas e cidadãos chineses a cooperar com os serviços de segurança do país quando solicitados, mesmo que operem fora do país. Isso significa que, legalmente, Pequim pode exigir que fabricantes entreguem dados coletados no exterior ou forneçam acesso a tecnologias estratégicas instaladas em seus produtos sem que os clientes, ou mesmo os países onde operam, tenham qualquer poder de veto.

A DJI, por sua vez, nega as acusações. A empresa afirma que o compartilhamento de registros de voo ou imagens é uma escolha puramente do cliente, não uma configuração padrão, e que oferece um "Modo de dados local" para operações sem acesso não autorizado. Desde 2017, seus drones passaram por auditorias de segurança de terceiros. A companhia argumenta que as restrições têm mais a ver com disputa geopolítica e competição de mercado do que com riscos reais.

Mas alguns países não se convenceram. A escalada regulatória chegou ao ápice em dezembro passado. Em 23 de dezembro de 2025, a Comissão Federal de Comunicações dos EUA (FCC) adicionou todos os novos drones estrangeiros e seus componentes críticos à sua "Lista Coberta" de riscos à segurança nacional. Sem autorização da FCC, um drone não pode ser legalmente importado, comercializado ou vendido nos Estados Unidos. Na prática, isso congela o acesso da DJI e de qualquer fabricante estrangeira ao maior mercado de drones do planeta para novos modelos. O Departamento de Defesa americano também identificou a DJI como uma "empresa militar chinesa", e em outubro de 2025 um tribunal dos EUA manteve essa classificação.

As alternativas ocidentais existem, mas custam caro
O espaço deixado pela DJI no Ocidente não está vazio. A chamada "Blue UAS Cleared List", gerida pela Unidade de Inovação de Defesa dos EUA, inclui drones verificados como seguros para uso federal. Os fabricantes atualmente aprovados incluem Skydio, Parrot, Autel (modelos enterprise) e algumas plataformas fabricadas nos EUA.

A francesa Parrot lidera o segmento europeu voltado à defesa. A empresa lançou o ANAFI UKR, desenvolvido com base nas experiências de guerra eletrônica na Ucrânia, capaz de operar em ambientes sem GPS e sob forte interferência de sinal, em modo totalmente offline, sem necessidade de conexão à nuvem. O modelo já foi integrado por instituições da OTAN e de países europeus.

A americana Skydio aposta em inteligência artificial. O Skydio X10D, variante de defesa do X10, é totalmente compatível com a legislação NDAA e consta da Blue UAS Cleared List, equipado com câmeras de alta resolução e sensores térmicos. Contudo, há uma limitação prática: a Skydio saiu do mercado consumidor em agosto de 2023 e hoje vende exclusivamente para clientes governamentais e enterprise, com preços a partir de vários milhares de dólares.

Representantes dos EUA e da Europa reconhecem o desejo de migrar de fornecedores chineses, mas alertam que levará tempo para construir cadeias de suprimento independentes que consigam fabricar as peças a preços competitivos. Em outras palavras: os ocidentais têm alternativas técnicas, mas ainda sem a combinação de desempenho e preço que a DJI oferece.

DJI Matrice 300 RTK

Brasil: o paradoxo entre dependência e soberania tecnológica emergente
A decisão de adotar o DJI M300 ocorre num momento ambíguo para o país. De um lado, a conveniência operacional e o custo acessível da solução chinesa. De outro, um movimento crescente e concreto de desenvolvimento de VANTs nacionais, embora nenhum deles preencha, ainda, exatamente o nicho ocupado pelo drone chinês.

O exemplo mais robusto de produção nacional é o Nauru 1000C, da paulista XMobots, empresa fundada em 2007, em São Carlos, e considerada a principal fabricante de drones militares da América Latina. O Nauru 1000C é um VTOL (Vertical Take-Off and Landing) híbrido, com propulsão elétrica para decolagem e pouso e motor a combustão para voo de cruzeiro, alcance de 60 km e autonomia de 10 horas. O drone já estreou em missões oficiais do Exército, tendo participado da Operação Perseu, fase final de instrução de 7.800 militares no Comando Militar do Sudoeste. Uma versão armada está em desenvolvimento, com integração ao míssil europeu ENFORCER Air, capaz de atingir alvos a até 8 km de distância.

A família Nauru conta ainda com o 500C ISR, plataforma de porte intermediário que merece destaque à parte. Com 1,86 m de comprimento, 3,64 m de envergadura e peso máximo de decolagem de 25 kg, o Nauru 500C possui autonomia de 4 horas e alcance de até 60 km, sendo certificado pela ANAC para operações BVLOS (além da linha de visada visual) acima de 400 pés. Primeiro drone brasileiro autorizado para voos noturnos, o sistema embarca inteligência artificial capaz de reconhecer veículos e pessoas tanto de dia quanto à noite, e utiliza tinta de baixa detecção visual e sistema de propulsão de baixa audibilidade para missões de inteligência. A Marinha do Brasil já o incorporou para operações de busca e salvamento em alto-mar, e o sistema também é usado pelo Censipam no combate ao garimpo ilegal em terras Yanomami.

A XMobots lançou ainda o Nauru 100D, uma variante menor e mais ágil, concebida para missões táticas de reconhecimento e aquisição de alvos em ambiente urbano e de combate próximo, com sistema de IA embarcada e operação discreta.

A gaúcha SkyDrones Tecnologia Aviônica, de Porto Alegre, é outro ator relevante. Fundada em 2008 e reconhecida como Empresa Estratégica de Defesa pelo Ministério da Defesa desde 2018, a empresa tem longa tradição em desenvolvimento de plataformas multirrole, da pulverização agrícola à vigilância. Seus drones garantem armazenamento de dados no Brasil, sem transmissão para servidores estrangeiros, o que a empresa destaca como vantagem direta sobre concorrentes asiáticos. A SkyDrones desenvolve plataformas personalizadas para clientes de segurança e defesa, como a integração de radares SAR (Synthetic Aperture Radar) em seus drones, e já exportou tecnologia para países como Finlândia e Emirados Árabes Unidos.

No segmento estratégico de maior porte, a Stella Tecnologia, de Duque de Caxias (RJ), desenvolveu o Atobá, o maior drone já produzido na América Latina, com 11 metros de envergadura e até 28 horas de autonomia. Em parceria com a FAB e a AERO Concepts, a Stella também é responsável pelo Albatroz Vortex, drone tático com turbina 100% nacional, que realizou seu primeiro voo em dezembro de 2025 na Base Aérea de Santa Cruz. A empresa também entrou para o seleto clube dos desenvolvedores de drones kamikaze guiados por fibra óptica, tecnologia imune a interferências de guerra eletrônica.

Por que nenhum deles substitui o Matrice 300 RTK?
Apesar desse ecossistema em expansão, há um vazio claro: nenhum produto nacional ocupa hoje, com maturidade operacional e custo competitivo, o nicho exato do Matrice 300 RTK. O drone chinês pertence a uma categoria específica: multirrotor elétrico compacto, de decolagem e pouso vertical sem infraestrutura, com altíssima versatilidade de payload e operação por um único operador em campo. Essa combinação o torna ideal para reconhecimento tático de curto alcance, vigilância urbana e apoio imediato a tropas.

O Nauru 1000C, por exemplo, é uma plataforma poderosa, mas de outra categoria: pesa até 150 kg, exige logística mais complexa de transporte e preparo, e é otimizado para missões longas de fronteira e ISR de longa distância, não para o apoio tático imediato e ágil que o Matrice oferece. O Nauru 100D é mais próximo do nicho tático, mas ainda está em fase inicial de adoção e maturação operacional. A SkyDrones, por sua vez, tem competência consolidada em plataformas de asa fixa, de asa rotativa e integração de sensores, mas sem um multirrotor de reconhecimento com as especificações e certificação militar equivalentes ao M300.

Em síntese: o Exército usa o que tem disponível e funciona, enquanto a indústria nacional amadurece para um salto que, por ora, ainda está em construção.

O dilema em aberto
O Senado brasileiro aprovou ao final de 2025 um novo aporte de R$ 30 bilhões, a ser distribuído ao longo de seis anos para projetos estratégicos de Defesa, incluindo drones Hermes 450/900, blindados Guarani e o sistema ASTROS. O movimento é claro: reduzir a dependência externa e fortalecer a Base Industrial de Defesa. A tendência é diminuir gradualmente o uso de plataformas estrangeiras e padronizar mais sistemas nacionais, especialmente à medida que modelos como o Nauru 100D e futuros multirrotores ganhem escala de produção, certificação militar plena e custo competitivo. Tecnologia aeroespacial não se constrói da noite para o dia, mas o movimento está acelerando em 2025 e 2026.

A padronização do DJI Matrice 300 RTK pelo Exército Brasileiro, portanto, não é uma decisão técnica menor. É, acima de tudo, uma escolha geopolítica implícita, feita no contexto em que o mundo debate, com urgência crescente, os riscos de confiar infraestrutura de inteligência a equipamentos vinculados a um Estado com interesses estratégicos definidos e que, por vezes, usa expedientes não convencionais para atingi-los.

O Brasil caminha, ao mesmo tempo, em duas direções: incorpora tecnologia chinesa de ponta pelo custo-benefício inegável e pela ausência de alternativas nacionais maduras no curto prazo; e investe, de forma concreta, no desenvolvimento de uma Base Industrial de Defesa capaz de romper essa dependência no futuro.

O debate que os generais americanos encerram com banimentos, os brasileiros ainda precisam ter, abertamente e com toda a sua complexidade.

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