Comissão da Câmara aprova regras enquanto indústria nacional já desenvolve tecnologia de ponta
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| Taurus TAS (Tactical Air Soldier) |
*LRCA Defense Consulting - 04/01/2026
O Brasil dá passos importantes para se adequar a uma realidade que já se desenha nos campos de batalha modernos e nas operações de segurança ao redor do mundo: o uso de drones armados. Enquanto a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados aprovou recentemente um projeto que regulamenta o emprego dessas aeronaves não tripuladas, a indústria brasileira já apresenta ao mercado soluções tecnológicas inovadoras para atender essa demanda.
O marco regulatório em construção
Em 15 de dezembro de 2025, a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa
Nacional aprovou o substitutivo ao Projeto de Lei Complementar 36/25, que
estabelece regras claras para o uso de drones em operações de segurança pública
e defesa nacional. A proposta, relatada pelo deputado André Fernandes (PL-CE),
representa uma resposta direta ao crescente uso dessas tecnologias pelo crime
organizado.
O parlamentar destacou em seu relatório que organizações criminosas já utilizam drones como plataformas de ataque com explosivos, criando uma assimetria perigosa entre a capacidade tecnológica do crime e os recursos disponíveis para o Estado. O recente confronto no Rio de Janeiro, onde facções empregaram esses equipamentos causando pânico e mortes, ilustra a urgência da questão.
Regras rígidas e garantias
O texto aprovado estabelece critérios rigorosos para o emprego de drones
armados. A autorização para uso de armamento letal ou menos letal será
considerada medida excepcional, permitida apenas em situações de legítima
defesa ou para neutralizar criminosos em flagrante delito. O disparo deverá
seguir o princípio da subsidiariedade, sendo utilizado apenas quando armas não
letais se mostrarem ineficazes, e dependerá, em regra, de ordem de superior
hierárquico.
As aplicações autorizadas são amplas e estratégicas: patrulhamento ostensivo, policiamento de fronteiras, portos e aeroportos, combate ao tráfico de drogas e armas, monitoramento de presídios, perseguições policiais e cumprimento de mandados. Para proteger a privacidade dos cidadãos, a captação de imagens no interior de domicílios exigirá mandado judicial específico.
Uma proibição importante está no uso de sistemas totalmente autônomos. Todo drone de segurança deverá ter um piloto remoto responsável ou supervisor humano capaz de intervir nas decisões, impedindo que algoritmos e inteligência artificial tomem decisões letais sem controle humano.
A tecnologia nacional: Taurus TAS
Paralelamente ao avanço legislativo, a indústria brasileira já demonstra
capacidade de produzir equipamentos de alto nível tecnológico. Durante a LAAD
Defence & Security 2025, realizada em abril no Rio de Janeiro, a fabricante
de armas Taurus apresentou o que considera um projeto inédito no cenário
mundial: o Taurus TAS (Tactical Air Soldier).
O drone quadricóptero, fabricado em São Leopoldo (RS), foi desenvolvido em parceria com uma empresa brasileira de tecnologia especializada no setor de drones agrícolas. Segundo fontes do mercado, trata-se da SkyDrones, empresa gaúcha pioneira no desenvolvimento de aeronaves não tripuladas na América Latina desde 2008, reconhecida por suas soluções customizadas e certificada como Empresa Estratégica pelo Ministério da Defesa.
O Taurus TAS é equipado com um sofisticado sistema de controle de fogo que conecta armamentos à aeronave. Na versão apresentada, o drone porta o fuzil T4 da Taurus, mas pode ser adaptado para receber submetralhadoras e até metralhadoras leves. O equipamento conta com câmera 4K estabilizada em três eixos, sensor de distância para navegação precisa, apontador laser e inteligência artificial embarcada para identificação de alvos.
Segundo a Taurus, o sistema tem capacidade de realizar reconhecimento facial a até 1 km de distância, voando a 100 metros de altura sem ser notado. A empresa afirma que, em determinadas situações, o TAS poderá substituir helicópteros em operações táticas, reduzindo riscos para equipes em solo e no ar, além de minimizar danos materiais.
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| Taurus TAS (Tactical Air Soldier) |
O papel da SkyDrones
A SkyDrones, fundada há mais de 16 anos, construiu sua reputação
desenvolvendo drones para os setores agrícola e industrial, com destaque para a
linha Pelicano de drones de pulverização. A empresa possui histórico de
parcerias internacionais e é reconhecida pela ANAC como contribuinte
fundamental para a construção da regulamentação do setor no Brasil.
Com experiência comprovada em desenvolvimento de sistemas OEM (fabricante de equipamento original), a SkyDrones já realizou projetos customizados embarcando diversos tipos de cargas úteis em seus drones. Uma das parcerias mais notáveis é com a Radaz, empresa paulista de tecnologia de sensoriamento remoto. O drone Pelicano R3 da SkyDrones serve como plataforma para o radar SAR (Synthetic Aperture Radar) RD350 da Radaz, um equipamento revolucionário que pesa apenas 5 kg e é o único no mundo a operar simultaneamente em três bandas de frequência (C, L e P).
Este sistema integrado já conquistou o mercado internacional, sendo exportado para países como Alemanha, Emirados Árabes Unidos, Suécia, Finlândia (Serviço Geológico da Finlândia) e Reino Unido. Na Alemanha, o Centro de Geociências Alemão (GFZ) adquiriu o sistema em 2022 e o utiliza em pesquisas avançadas, incluindo o monitoramento de vulcões ativos na Islândia. Nos Emirados Árabes, a tecnologia detecta vazamentos em redes de dutos de água, enquanto na Suécia institutos de pesquisa aplicam o radar em estudos de florestas industriais, gerando imagens 3D de raízes de árvores e formações rochosas subterrâneas.
Em 2025, o equipamento ganhou também uma nova versão em formato POD SAR para aeronaves do tipo VTOL, apresentada pela Radaz e Helisul Engenharia no evento ENAVSEG 2025, em Florianópolis, voltado à aviação de segurança pública.
A capacidade do radar de penetrar até 120 metros no subsolo, combinada com a versatilidade da plataforma aérea Pelicano, criou uma solução que coloca a tecnologia brasileira na vanguarda mundial do sensoriamento remoto.
A parceria com a Taurus para o desenvolvimento do drone armado TAS representa uma evolução natural e dual dessas capacidades tecnológicas, aplicando conhecimento consolidado no mercado civil ao desenvolvimento de soluções para defesa e segurança pública.
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| Drone Pelicano com radar RD350 da Radaz operando em condições extremas de neve e -9 °C na Finlândia |
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Drone Pelicano R3 da SkyDrones como plataforma para o radar SAR RD350 da Radaz |
Desafios e perspectivas
Apesar do avanço tecnológico demonstrado pela indústria nacional, o uso de
drones armados ainda enfrenta desafios regulatórios. A Taurus informou estar em
contato com o DECEA (Departamento de Controle do Espaço Aéreo) e a ANAC para
definir as normas específicas que deverão ser seguidas, já que não existe
legislação que trate do uso de armamentos acoplados a veículos aéreos não
tripulados.
Especialistas em segurança pública, como o doutor em Políticas Públicas Eduardo Pazinato, alertam que a adoção dessa tecnologia deve ser feita com extrema cautela, considerando os riscos éticos, operacionais e sociais envolvidos.
O projeto de lei ainda precisa ser analisado pela Comissão de Constituição e Justiça e Cidadania (CCJ) antes de seguir para votação no Plenário da Câmara e, posteriormente, no Senado. Enquanto isso, as Forças Armadas e governos estaduais já negociam a possível adoção do sistema Taurus TAS, que está em fase de demonstração.
Contexto internacional
A movimentação brasileira acompanha uma tendência global. O conflito na
Ucrânia demonstrou o papel crucial dos drones em operações militares modernas,
desde pequenos equipamentos com granadas até sistemas mais sofisticados com
capacidade de ataque. Países ao redor do mundo têm investido pesadamente nessa
tecnologia, e o Brasil busca não ficar para trás.
A Taurus, inclusive, planeja expandir sua atuação no mercado militar, com negociações para aquisição da empresa turca Mertsav, líder em armas de defesa, o que poderia acelerar significativamente o desenvolvimento de sua linha militar, incluindo a produção de metralhadoras e outros armamentos pesados.
Momento decisivo
O Brasil se encontra em um momento decisivo para definir como integrará drones
armados às suas forças de segurança e defesa. A combinação de um marco
regulatório robusto, que prioriza garantias jurídicas e direitos fundamentais,
com a capacidade tecnológica demonstrada pela indústria nacional, posiciona o
país para enfrentar os desafios de segurança do século XXI.
O debate nos próximos meses será fundamental para definir os contornos éticos, operacionais e legais dessa nova ferramenta, equilibrando eficácia operacional com proteção de direitos e segurança da população.





