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31 janeiro, 2026

Star Air: a ponta de lança da Embraer na conquista do mercado indiano

Como a pequena companhia regional que desafia as estatísticas pode transformar o futuro da gigante brasileira de aviação


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LRCA Defense Consulting - 31/01/2026

Enquanto dezenas de companhias aéreas regionais indianas fracassaram nos últimos anos, uma operadora de apenas sete anos de vida não apenas sobreviveu, mas prosperou. A Star Air, maior operadora regional privada da Índia, está nos estágios finais de negociação para um pedido de até 40 a 50 jatos regionais Embraer, em um movimento que pode redefinir tanto o futuro da aviação regional indiana quanto a trajetória global da fabricante brasileira.

A história da Star Air é, em si mesma, uma anomalia no volátil mercado indiano. Fundada em 2019 pelo Grupo Sanjay Ghodawat com uma única aeronave Embraer usada, a companhia hoje opera 11 jatos da marca brasileira (quatro E175 e sete ERJ145) conectando 32 cidades através de 56 voos diários. Mais impressionante: durante a pandemia de COVID-19, enquanto concorrentes cortavam salários e devolviam aeronaves, a Star Air manteve todos os pagamentos em dia e garantiu a estabilidade de seus funcionários.

"Iniciamos nossas operações em janeiro de 2019 com uma única aeronave Embraer usada", relembra Shrenik Ghodawat, diretor-gerente da companhia. "Mesmo durante a pandemia, mantivemos os pagamentos a todos os arrendadores e garantimos a estabilidade de nossos funcionários. Essa disciplina financeira nos permitiu continuar crescendo quando outros enfrentavam incertezas severas."

O plano ambicioso
A companhia almeja atingir uma frota de 20 aeronaves até abril de 2028, marco que a qualificará para operações internacionais sob as regulamentações indianas. Mas a visão de longo prazo é ainda mais audaciosa: 50 aeronaves até 2030, incluindo helicópteros, num crescimento anual planejado de 8 a 10 unidades.

O financiamento para essa expansão já está parcialmente garantido. A Star Air completou a primeira fase de uma captação Série B de 350 crores de rúpias (aproximadamente US$ 42 milhões), recursos que serão direcionados não apenas para aquisição de aeronaves, mas também para desenvolvimento de infraestrutura própria de manutenção, reparo e treinamento de tripulações.

A companhia não está apenas crescendo em número de aeronaves. Em setembro de 2025, firmou um memorando de entendimento com a Hindustan Aeronautics Limited (HAL), empresa estatal indiana, para estabelecer uma unidade dedicada de MRO para aeronaves Embraer em Ozar, perto de Nashik. Esta instalação complementaria perfeitamente uma eventual linha de montagem da Embraer na Índia.

O combustível do crescimento: UDAN
Central para o sucesso da Star Air está o programa governamental UDAN (Ude Desh ka Aam Nagrik - "Deixe o Cidadão Comum Voar"), lançado em 2016 pelo primeiro-ministro Narendra Modi. Aproximadamente 65% dos 56 voos diários da Star Air operam sob o esquema UDAN, gerando entre 200 e 250 crores de rúpias (US$ 24-30 milhões) em subsídios anuais. A companhia já transportou quase 1,5 milhão de passageiros desde o início, sendo a única operadora regional a completar seis anos ininterruptos no programa.

O governo indiano recentemente ampliou seu compromisso com a conectividade regional. No Orçamento da União 2025-26, a ministra das Finanças Nirmala Sitharaman anunciou um esquema UDAN modificado que adicionará 120 novos destinos e transportará 40 milhões de passageiros adicionais na próxima década.

"O esquema UDAN transformou completamente a paisagem da aviação regional", explica o capitão Simranjit Singh Tiwana, CEO da Star Air. "Estamos conectando a 'Índia Real', cidades que nunca tiveram acesso regular ao transporte aéreo. Isso não é apenas sobre aviação; é sobre desenvolvimento econômico e inclusão social."

Por que a Star Air importa para a Embraer
Para a Embraer, o potencial pedido da Star Air representa muito mais que uma simples venda de aeronaves, significando a chave para entrar de forma significativa em um dos mercados de aviação de crescimento mais rápido do mundo.

A Índia, com sua população de 1,4 bilhão de habitantes e PIB crescendo entre 7,6% e 7,8% anualmente, é vista como o futuro da aviação global. Grandes companhias como IndiGo e Air India já fizeram pedidos massivos de jatos de corredor único da Airbus e Boeing (mais de 1.000 aeronaves combinadas), mas o segmento regional permanece relativamente inexplorado.

O executivo da Embraer, Raul Villaron, chefe da região Ásia-Pacífico, deixou claro o tamanho da oportunidade: "A Índia apresenta uma vasta oportunidade para jatos regionais no segmento de 80 a 150 assentos. Se conseguirmos fechar pedidos de cerca de 200 aeronaves, fará forte sentido empresarial localizar de forma mais agressiva, incluindo estabelecer uma linha de montagem final e expandir nossa base de fornecedores aqui".

A Embraer estima que a Índia necessitará de pelo menos 500 aeronaves neste segmento nos próximos 20 anos, impulsionadas pelas necessidades crescentes de conectividade além das rotas metropolitanas.

A parceria estratégica com o Grupo Adani
Em 27 de janeiro de 2026, a Embraer e o Adani Group oficializaram um Memorando de Entendimento que estabelece as bases para o desenvolvimento de um ecossistema integrado de aeronaves de transporte regional na Índia. O acordo prevê a colaboração em múltiplas frentes do setor aeroespacial, incluindo manufatura de aeronaves, desenvolvimento de cadeia de suprimentos, serviços de pós-venda (MRO) e treinamento de pilotos.

O elemento central da parceria é o estabelecimento de uma linha de montagem final (FAL) para jatos regionais da Embraer em solo indiano, com aumento gradual do conteúdo local.

"Vamos estabelecer uma linha de montagem, seguida por um aumento faseado na indianização para avançar o programa de Aeronaves de Transporte Regional (RTA) da Índia", explicou Arjan Meijer, presidente e CEO da Embraer Commercial Aviation.

Jeet Adani, Diretor da Adani Defence & Aerospace, enfatizou: "A aviação regional é a espinha dorsal da expansão econômica. Com iniciativas como o UDAN transformando a conectividade aérea nas cidades Tier 2 e Tier 3, a necessidade de um ecossistema de aviação regional indígena tornou-se crítica".

Convergência perfeita
A Star Air é a encarnação do que a Embraer e a Adani pretendem alcançar. A companhia foi pioneira na operação do Embraer E175 na Índia, oferecendo uma cabine mais confortável que os turboélices tradicionalmente usados em rotas regionais, com configuração de 12 assentos na classe executiva e 64 na econômica.

Os E175 da Embraer, com autonomia de até 3.700 km e capacidade para 76-88 passageiros dependendo da configuração, são ideais para rotas regionais indianas. São suficientemente grandes para serem economicamente viáveis mesmo em mercados de densidade moderada, mas não tão grandes que exijam altas taxas de ocupação para lucratividade.

A escolha de aeronaves também é estratégica quando comparada às alternativas. Aeronaves maiores como o Airbus A320 (180 assentos) ou mesmo o A220-100 (125 assentos) podem ser grandes demais para muitos mercados regionais indianos inicialmente. Por outro lado, os turboélices ATR 72 (78 assentos) têm menor alcance e velocidade, limitando sua utilidade em rotas mais longas.

Contexto competitivo
A Star Air não está sozinha na corrida pela expansão regional, mas está à frente de seus concorrentes. A Alliance Air, agora de propriedade do governo indiano, é a segunda maior operadora regional. A SpiceJet, apesar de suas dificuldades financeiras, ainda opera alguns turboélices Q400 da Bombardier. Novos entrantes como Fly91 e IndiaOneAir estão tentando estabelecer nichos no mercado regional, mas nenhuma dessas possui a escala, experiência operacional ou saúde financeira da Star Air.

A IndiGo representa tanto uma oportunidade quanto uma ameaça potencial. Com seus 45 ATR 72-600 servindo 65 destinos domésticos, a gigante de baixo custo domina o segmento regional. Seu possível pedido de 100 aeronaves regionais poderia tornar difícil para operadoras menores competirem.

Contudo, o mercado indiano é suficientemente grande para múltiplos players. Com mais de 400 aeroportos subutilizados e centenas de pares de cidades sem serviço aéreo regular, há espaço para crescimento significativo de várias companhias.

A dupla estratégia da Embraer na Índia
A estratégia da Embraer na Índia não se limita à aviação comercial. Em 2024, a empresa firmou parceria com o Grupo Mahindra para avaliar conjuntamente a oportunidade de participar do programa de Aeronave de Transporte Médio (MTA) da Força Aérea Indiana com o C-390 Millennium.

O programa MTA da Força Aérea Indiana busca substituir a frota obsoleta de aeronaves Antonov An-32, com uma demanda inicial de 40 a 80 aeronaves, o que poderia representar um contrato de US$ 5 a US$ 8 bilhões.

Se a Embraer vencer tanto o contrato militar quanto consolidar sua posição no mercado comercial regional através da Star Air e da parceria Adani, a empresa brasileira poderia facilmente ultrapassar a marca de 200 aeronaves necessárias para justificar uma linha de montagem local, conforme indicado por Raul Villaron.

Impacto financeiro projetado
Se ambas as iniciativas  (a parceria Adani para jatos comerciais e a parceria Mahindra para o C-390) forem bem-sucedidas, o impacto nos próximos 10-15 anos poderia gerar entre US$ 15 e US$ 20 bilhões em receita adicional cumulativa.

Analistas estimam potencial de valorização de 40-60% do valor de mercado da Embraer se a execução for bem-sucedida. A estratégia também ofereceria diversificação de receita, reduzindo a dependência de mercados norte-americano e europeu de 75% para cerca de 50%.

Desafios e riscos
Apesar do otimismo, o caminho à frente não é isento de desafios. A aviação regional na Índia tem sido historicamente um mercado difícil. SpiceJet, GoFirst (antiga GoAir), TruJet e várias outras operadoras tentaram e falharam em estabelecer operações regionais sustentáveis.

Os desafios são múltiplos: infraestrutura aeroportuária limitada em cidades menores, baixa demanda inicial em rotas inexploradas, custos operacionais relativamente altos para mercados de baixo rendimento, e dependência crítica de subsídios governamentais.

Para a Embraer, produzir aeronaves fora do Brasil envolve riscos. A complexidade operacional de gerenciar produção em múltiplos países é substancial. Acordos de produção local invariavelmente envolvem transferência de know-how, o que pode criar concorrentes futuros.

Para o Brasil, há preocupações sobre possível desindustrialização e perda de empregos qualificados. O governo brasileiro, através da Golden Share que detém na Embraer, tem poder de veto em decisões estratégicas e precisará garantir que design e desenvolvimento permaneçam no Brasil.


O papel crucial da Star Air
É aqui que a Star Air se torna verdadeiramente crucial para a Embraer. A companhia indiana já demonstrou exatamente o que a Embraer precisa provar: que o modelo de aviação regional com jatos Embraer é não apenas viável, mas lucrativo na Índia.

A Star Air é a prova de conceito viva. Nos últimos seis anos, demonstrou:

  • Resiliência financeira: manteve operações lucrativas mesmo durante a pandemia;
  • Eficiência operacional: alcançou taxas de despachabilidade superiores a 99,5% com aeronaves Embraer;
  • Crescimento sustentável: expandiu de 1 para 11 aeronaves mantendo disciplina financeira;
  • Aproveitamento de subsídios: maximizou benefícios do programa UDAN sem dependência exclusiva;
  • Satisfação do cliente: ofereceu experiência superior aos turboélices tradicionais.

A Star Air estabeleceu uma meta de receita de ₹1.100 crores para o ano fiscal de 2026, representando um crescimento de aproximadamente 70% em relação aos ₹650 crores reportados no ano fiscal de 2025. Este crescimento robusto demonstra que o modelo funciona.

"Não estamos com pressa de crescer de forma insustentável", enfatiza Shrenik Ghodawat. "Vimos o que aconteceu com operadoras que expandiram rápido demais. Nosso crescimento será medido, financeiramente sólido e focado em criar valor de longo prazo."

Implicações geopolíticas
A potencial parceria também tem ramificações geopolíticas interessantes. O Brasil, como membro dos BRICS junto com a Índia, tem buscado ativamente aprofundar laços econômicos bilaterais. A aviação poderia ser um setor catalisador.

Já há precedentes de cooperação: a Força Aérea Indiana opera cinco jatos VIP Embraer e três aeronaves de alerta precoce EMB 145 AEW "Netra". O governo indiano também possui aeronaves Embraer em serviço. Esta familiaridade técnica existente reduz barreiras para expansão comercial.

Além disso, o Brasil sinalizou disposição para comprar equipamento militar indiano em acordos de reciprocidade, uma dinâmica que nem Estados Unidos nem Europa ofereceriam com a mesma abertura.

Impacto no desenvolvimento regional
Além das implicações comerciais, o plano de expansão da Star Air no desenvolvimento regional da Índia poderia ser transformador. Muitas cidades de segunda e terceira categorias na Índia têm populações de centenas de milhares ou milhões, mas conectividade aérea limitada ou inexistente.

Cidades como Gondia, Jharsuguda, Jagdalpur, Hubli, Belagavi e dezenas de outras agora têm serviço aéreo regular pela primeira vez. Isso não apenas economiza horas de viagem para residentes, mas catalisa desenvolvimento econômico ao facilitar turismo, investimento empresarial e comércio.

"Quando você conecta uma cidade remotamente via aérea, vários efeitos em cascata acontecem", explica um economista especializado em infraestrutura de transporte. "Investimentos industriais aumentam, turismo decola, jovens profissionais podem retornar às suas cidades natais, serviços médicos e educacionais melhoram. É desenvolvimento econômico em sua essência."

Momento decisivo
O potencial pedido de até 50 aeronaves Embraer pela Star Air, combinado com a parceria Embraer-Adani para linha de montagem local, representa um momento decisivo não apenas para a companhia indiana, mas para a aviação regional indiana como um todo e para o futuro global da Embraer.

Se bem-sucedido, poderia:

  • Estabelecer a Star Air como player dominante em aviação regional indiana;
  • Trazer a Embraer para o mercado indiano de forma significativa;
  • Catalisar o estabelecimento de uma linha de montagem e cadeia de suprimentos aeroespacial local;
  • Demonstrar a viabilidade do modelo de aviação regional subsidiada a longo prazo;
  • Estimular desenvolvimento econômico em centenas de cidades de segunda e terceira categorias;
  • Transformar a Embraer de exportadora brasileira em verdadeira multinacional com capacidade produtiva distribuída.

Os próximos 12 a 18 meses serão cruciais. A formalização do pedido, os termos de financiamento, o avanço das discussões sobre a linha de montagem e a execução inicial do plano de expansão determinarão se esta ambição se torna realidade.

Por enquanto, os sinais são encorajadores. A Star Air demonstrou resiliência e disciplina raras. A Embraer está comprometida com o mercado indiano. O governo continua apoiando conectividade regional através do programa UDAN expandido. E a demanda subjacente está lá, esperando para ser desbloqueada.


Navegador pioneiro
A rota das Índias foi o que transformou Portugal em império global no século XVI. Quinhentos anos depois, pode ser o caminho que consolidará a Embraer como um dos pilares da aviação global do século XXI, com a Star Air desempenhando o papel de navegador pioneiro nessa jornada.

Como observou o capitão Tiwana: "Estamos construindo algo especial aqui, não apenas uma companhia aérea, mas uma ponte conectando a Índia Real ao resto do país e ao mundo. E estamos apenas começando."

Para a Embraer, a Star Air não é apenas um cliente. É a prova viva de que seu modelo funciona na Índia. É o catalisador que pode desbloquear um mercado de 500 aeronaves. É a ponta de lança que pode abrir caminho para uma transformação estratégica fundamental da empresa brasileira.

E para a aviação regional indiana, a Star Air representa a esperança de que conectividade aérea de qualidade para todos os cidadãos (ideia que sintetiza a visão do programa UDAN) não é apenas um sonho, mas uma realidade tangível e sustentável.

A jornada está apenas começando, mas os ventos parecem favoráveis...

30 janeiro, 2026

Polônia assina contrato de €3,4 bilhões para sistema anti-drone e avalia Super Tucano como complemento aéreo

Varsóvia formaliza maior programa europeu de defesa contra UAVs e estuda integrar aeronave brasileira em arquitetura multicamada 

 
 
*LRCA Defense Consulting - 30/01/2026

A Polônia deu um passo decisivo para consolidar-se como referência europeia em defesa contra drones ao assinar, nesta sexta-feira (30), o contrato para desenvolvimento do sistema SAN, descrito pelo primeiro-ministro Donald Tusk como uma capacidade "sem paralelo" no continente. O acordo, estimado em 15 bilhões de zlotys (aproximadamente €3,4 bilhões), foi formalizado em Kobyłka, nos arredores de Varsóvia, na presença de Tusk e do ministro da Defesa Władysław Kosiniak-Kamysz.
 
O programa SAN ficará a cargo de um consórcio liderado pelo grupo estatal de defesa PGZ, em parceria com a empresa privada polonesa APS e a norueguesa Kongsberg. O prazo de execução é de dois anos, período no qual serão construídas 18 baterias antidrone e mais de 700 veículos especializados.
 
O Sistema SAN: defesa terrestre integrada
O SAN representa uma abordagem multicamadas para neutralizar ameaças de veículos aéreos não tripulados (UAVs), combinando sensores avançados, comando e controle dedicado e uma gama diversificada de "efetores", termo militar para sistemas de neutralização.
 
A arquitetura do sistema integra:
 
Camada de sensores: radares ativos, sensores passivos e sistemas optrônicos trabalham em conjunto para detectar, rastrear e identificar drones em diferentes condições climáticas e de visibilidade.
 
Efetores cinéticos: canhões automáticos de 35mm, 30mm e 12,7mm com munição programável, mísseis de curto alcance e drones interceptadores (contra-drones) compõem o arsenal de resposta física.
 
Efetores não cinéticos: sistemas de guerra eletrônica e jamming permitem neutralizar drones por meio de interferência em suas comunicações e navegação, oferecendo opções de resposta graduada.
 
Comando e controle: uma rede integrada de C2 permite coordenação em tempo real entre as baterias, otimizando a alocação de recursos e a resposta a ameaças múltiplas.
 
Um "andar" na defesa aérea em camadas
Autoridades polonesas enfatizam que o SAN não é uma solução isolada, mas um componente essencial de uma arquitetura de defesa aérea estratificada. O sistema complementa:
 
Wisła (Patriot): focado em ameaças de média e alta altitude, incluindo aeronaves tripuladas e mísseis balísticos.
 
Narew (CAMM): cobertura de média altitude contra aeronaves e drones maiores.
 
Pilica/Pilica+: defesa de curtíssimo alcance contra ameaças de baixa altitude.
 
O SAN preenche especificamente a lacuna crítica entre esses sistemas, oferecendo resposta eficiente contra drones comerciais modificados, UAVs táticos e enxames de drones, ameaças que têm se multiplicado nos campos de batalha modernos, especialmente após a invasão russa da Ucrânia.
 
"O objetivo é enfrentar drones baratos e em massa com soluções de baixo custo e alta cadência de tiro", explicou Kosiniak-Kamysz, destacando a ineficiência de utilizar mísseis caros ou caças supersônicos para interceptar alvos de baixo valor unitário.
 
A dimensão aérea: entra o Embraer A-29 Super Tucano
Enquanto o SAN representa a solução terrestre, a Polônia avalia paralelamente adicionar uma camada aérea à sua defesa anti-drone, e é aqui que entra o brasileiro Embraer A-29 Super Tucano.
 
Em meados de janeiro de 2026, uma delegação militar polonesa liderada pelo Major-General Ireneusz Nowak visitou as instalações da Embraer em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo. Durante a visita, pilotos poloneses realizaram voos de familiarização com o A-29, avaliando especificamente suas capacidades contra drones do tipo Shahed, os mesmos UAVs de ataque que a Rússia tem empregado massivamente contra a Ucrânia.
 
"Definitivamente testaremos o Super Tucano e o examinaremos mais de perto", confirmou o General Nowak, sinalizando interesse concreto na plataforma brasileira.
 
 
Por que o Super Tucano?
A aeronave de ataque leve turboélice apresenta características ideais para missões de caça a drones:
 
Custo operacional: voar um A-29 custa uma fração do que representa operar um caça a jato — crucial para missões de patrulha contínua sobre áreas extensas.
 
Velocidade compatível: enquanto caças supersônicos têm dificuldade em voar lentamente o suficiente para engajar drones subsônicos (como o Shahed, que voa a aproximadamente 185 km/h), o Super Tucano opera confortavelmente nessa faixa de velocidade.
 
Sensores embarcados: o A-29 pode ser equipado com pods de sensores eletrônicos e optrônicos que permitem detectar e rastrear drones a distâncias seguras.
 
Armamento flexível: a aeronave pode empregar desde metralhadoras e canhões até foguetes e mísseis guiados, oferecendo opções para diferentes cenários de engajamento.
 
Autonomia: com capacidade de voar por horas em missões de patrulha, o Super Tucano pode manter presença aérea persistente sobre áreas vulneráveis.
 
A Embraer formalizou recentemente a expansão oficial do portfólio de missões do A-29 para incluir explicitamente operações contra-drone (C-UAS), aproveitando sistemas e capacidades já existentes na plataforma, o que facilita sua integração em arquiteturas de defesa como a que a Polônia está desenvolvendo.
 
Arquitetura integrada: terrestre + aérea
A visão estratégica polonesa aponta para uma defesa anti-drone verdadeiramente abrangente, onde SAN e Super Tucano desempenhariam papéis complementares:
 
Defesa territorial (SAN): proteção de pontos críticos — bases militares, infraestrutura energética, centros urbanos — com resposta rápida e automatizada contra drones que penetrem o espaço aéreo protegido.
 
Caça aérea (A-29): interceptação de drones em profundidade, antes que atinjam áreas protegidas, atuando como "hunters" que patrulham rotas conhecidas de aproximação ou respondem a alertas de detecção precoce.
 
Integração C2: ambos os sistemas operariam sob comando e controle unificado, compartilhando dados de sensores e coordenando respostas, por exemplo, o SAN poderia direcionar o A-29 para interceptar alvos além de seu alcance, enquanto a aeronave poderia fornecer reconhecimento aéreo para as baterias terrestres.
 
Contexto estratégico
O investimento polonês em defesa anti-drone não é acidental. Como nação fronteiriça da OTAN no flanco oriental, a Polônia tem registrado múltiplas violações de seu espaço aéreo por drones, alguns confirmadamente russos, outros de origem incerta.
 
Um incidente em setembro de 2025, descrito por Tusk como "nosso pesadelo", evidenciou "quão inadequados" são sistemas convencionais de defesa aérea para lidar com pequenos drones. A tentativa de abater UAVs com caças supersônicos ou mísseis antiaéreos de alto custo provou-se tanto economicamente insustentável quanto operacionalmente ineficaz.
 
O conflito na Ucrânia tem demonstrado diariamente como drones baratos podem saturar defesas sofisticadas, causar danos desproporcionais ao seu custo e drenar arsenais de interceptadores caros. A resposta polonesa (sistemas terrestres dedicados combinados com plataformas aéreas de baixo custo) reflete lições aprendidas desse conflito.
 
Investimento tota  e cronograma
O ministro Kosiniak-Kamysz revelou que o programa SAN faz parte de um investimento total polonês em defesa aérea que alcança aproximadamente 250 bilhões de zlotys (cerca de 57 bilhões de euros), incluindo os programas Wisła, Narew e outros sistemas. 
 
O SAN especificamente deve entrar em operação inicial dentro de dois anos, embora a capacidade plena das 18 baterias provavelmente seja alcançada de forma gradual.
 
Quanto ao Super Tucano, não há ainda decisão formal de aquisição. A visita de janeiro representa a fase de avaliação técnica, que deve ser seguida por análises operacionais e negociações contratuais, caso a Polônia decida prosseguir. Fontes do setor de defesa estimam que uma eventual aquisição envolveria entre 12 e 24 aeronaves, suficientes para manter cobertura aérea sobre as áreas mais sensíveis do território polonês.
 
 
Implicações para a OTAN
O desenvolvimento polonês é observado com atenção por outros membros da Aliança Atlântica. Países bálticos, Romênia e mesmo nações da Europa Ocidental enfrentam desafios semelhantes de drones, seja por violações do espaço aéreo, seja por preparação para cenários de conflito.
 
Um sistema SAN bem-sucedido poderia tornar-se referência para outros aliados, potencialmente com vendas de exportação pela indústria polonesa. Da mesma forma, a validação operacional do Super Tucano em missões C-UAS na Europa poderia abrir mercado significativo para a Embraer em um continente que até recentemente não considerava aeronaves turboélice para funções de combate.
 
Mudança de paradigma na defesa aérea
A Polônia está construindo uma das mais abrangentes capacidades anti-drone da Europa, combinando inovação tecnológica, lições dos conflitos modernos e pragmatismo estratégico. O sistema SAN representa a fundação terrestre dessa capacidade, enquanto o possível Super Tucano adicionaria mobilidade e alcance aéreo.
 
Mais que sistemas isolados, SAN e A-29 exemplificam uma mudança de paradigma na defesa aérea: reconhecer que ameaças assimétricas de baixo custo exigem respostas igualmente criativas, onde efetividade e sustentabilidade econômica pesam tanto quanto sofisticação tecnológica.
 
Para o Brasil e a Embraer, o interesse polonês valida o reposicionamento estratégico do Super Tucano como plataforma C-UAS, potencialmente abrindo mercados em uma Europa que desperta para novas ameaças e busca soluções além dos caças supersônicos convencionais. 

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