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29 agosto, 2026

O articulador: por que Bruno Dantas pode ser a peça que falta à Avibras Aeroco

Capital do grupo J&F, experiência de Sami Hassuani e capacidade de articulação de Dantas podem definir o próximo capítulo da fabricante, favorecendo a construção de uma plataforma brasileira de defesa e tecnologia com vocação internacional



*LRCA Defense Consulting - 29/08/2026

O ministro Bruno Dantas comunicou ao presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Vital do Rêgo, sua decisão de renunciar ao cargo, segundo informações divulgadas em 28 de agosto. A renúncia deve ser formalizada nos próximos dias. Dantas tem 48 anos e, pelo critério de idade, poderia permanecer na Corte até 2053.

Entre os destinos cogitados para sua passagem à iniciativa privada, a presidência da Avibras Aeroco, fabricante brasileira de mísseis e sistemas de artilharia, desponta como a alternativa mais comentada, embora ainda não haja confirmação unânime entre as fontes: a revista Veja, que revelou o movimento, afirma que ele deve assumir o comando da empresa, enquanto a Folhapress trata a Avibras como uma entre três frentes em negociação.

Uma saída anunciada 
A decisão de Dantas não chega de surpresa. Em junho de 2025, o ministro já havia negado publicamente qualquer intenção de deixar o TCU, atribuindo o boato a "maus gestores" insatisfeitos com sua atuação na Corte. Em maio de 2026, no entanto, a Folha revelou que Dantas negociava sua saída para o setor privado, tendo a Avibras, a CSN e um grupo de tecnologia do Oriente Médio como alternativas. Um escritório de advocacia com atuação no Brasil e nos Estados Unidos também entrou na lista mais recente de opções.

A confirmação da renúncia, em 28 de agosto, também tem efeito político imediato: a vaga de Dantas no TCU é uma indicação do Senado Federal, e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, já sinalizou interesse em indicar o senador Rodrigo Pacheco, preterido por Lula na disputa por uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF). Se a renúncia for oficializada a tempo, o Senado pode votar o substituto já no esforço concentrado de 31 de agosto a 4 de setembro.

O articulador, não o engenheiro 
Dantas não chegaria à Avibras Aeroco com currículo de executivo industrial. Formado em Direito, ingressou no TCU em 2014, indicado pelo Senado após atuar como consultor legislativo, e presidiu a Corte entre 2022 e 2024. Seu histórico mais relevante para o novo desafio talvez seja a criação e condução da SecexConsenso, mecanismo do TCU voltado à solução negociada de conflitos entre governo e empresas.

Esse perfil de articulação institucional, e não de domínio técnico de engenharia, seria o principal ativo que Dantas levaria à Avibras Aeroco, empresa que precisa simultaneamente recuperar capacidade industrial, executar contratos estratégicos com as Forças Armadas, ampliar exportações e reconstruir sua imagem após anos de crise. A empresa também precisará seguir dialogando de perto com o Ministério da Defesa, o Exército, a Marinha, a Aeronáutica e o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), além de estruturar financiamento para sustentar sua expansão.

Segundo apurou a Folha em maio, o projeto associado à eventual chegada de Dantas seria um turnaround rápido, com o objetivo de modernizar e internacionalizar a companhia, tendo como referência informal o processo que transformou a Embraer em player global a partir de sua privatização.

Uma Avibras Aeroco em novo patamar 
O momento da possível chegada de Dantas coincide com a reinvenção da própria empresa. A Avibras Aeroco nasceu formalmente em 30 de abril, incorporando ativos estratégicos da antiga Avibras Indústria Aeroespacial, que hoje comemora o fim de uma greve de 1.280 dias, uma das mais longas da história sindical brasileira, além de anos de dívidas trabalhistas e paralisação de fábricas.

A reestruturação teve como âncora um aporte de R$ 300 milhões do empresário Joesley Batista, do grupo J&F, via Fundo Brasil Crédito, com plano aprovado por 99,2% dos credores. A empresa já sinalizou ambição internacional: em 2024, a australiana DefendTex chegou a propor a aquisição da Avibras, movimento então interpretado como tentativa de capturar know-how brasileiro em mísseis para fazer frente à presença chinesa no Indo-Pacífico. O negócio não avançou, mas expôs o valor estratégico e geopolítico do ativo.

A eventual chegada de um articulador do perfil de Dantas, somada ao capital e à ambição já demonstrados pelo grupo J&F, sugere que os novos controladores podem estar planejando algo mais amplo do que a simples retomada da produção do sistema de foguetes ASTROS: a construção de uma plataforma brasileira de defesa e tecnologia com vocação internacional. 

Um precedente do setor: o caso Mac Jee
Apenas como uma hipótese prospectiva, um novo desenho societário para o caso da Avibras Aeroco não seria algo inédito na Base Industrial de Defesa brasileira. Em 2020, o Grupo Mac Jee, fabricante nacional de sistemas de defesa e aeroespacial, viveu transição semelhante: o fundador Simon Jeannot deixou o cargo de CEO da companhia para presidir um Conselho de Administração recém-criado, dedicado à decisão estratégica e à expansão internacional do grupo, hoje presente em mercados como Arábia Saudita, Estados Unidos e Europa. A gestão executiva passou a Alessandra Stefani, então diretora executiva e ex-CFO da empresa, que segue como CEO até hoje.

Um arranjo nos mesmos moldes é, em tese, imaginável para a Avibras Aeroco, ainda que não haja qualquer indicação pública nesse sentido até o fechamento desta reportagem: Sami Youssef Hassuani, que já elevou as exportações da companhia a até 80% da receita em sua gestão anterior, assumiria a presidência do Conselho de Administração para conduzir a expansão internacional, enquanto Dantas entraria como CEO, concentrado na articulação institucional, regulatória e de financiamento que marcou sua passagem pelo TCU. A hipótese permanece especulativa, mas ilustra um caminho já testado no setor para conciliar conhecimento técnico consolidado com a chegada de um novo articulador político-institucional.

Quarentena ou conflito de interesses? 
A renúncia de Dantas para assumir posto em empresa que teve, ao longo dos anos, contratos e processos sob análise do TCU já levanta a discussão sobre eventuais impedimentos legais. É preciso, no entanto, separar dois institutos jurídicos distintos.

A chamada "quarentena de três anos", prevista no art. 95, parágrafo único, inciso V, da Constituição Federal, aplicável aos ministros do TCU por equiparação aos do Superior Tribunal de Justiça (STJ), veda o exercício da advocacia perante o tribunal do qual o magistrado se afastou. A regra não impede, por si só, a ocupação de cargo executivo em empresa privada; o impedimento seria outro, se Dantas viesse a atuar como advogado da Avibras Aeroco perante o próprio TCU.

O risco jurídico mais concreto está em outro ponto: se Dantas relatou ou votou processos envolvendo a Avibras (seja a antiga Avibras Indústria Aeroespacial, seja a nova Aeroco), teve acesso a informações estratégicas sobre a empresa no exercício do cargo, ou poderá vir a representá-la em processos no TCU que ele próprio examinou. Também está em aberto se a Lei nº 12.813/2013, que trata de conflito de interesses no Poder Executivo federal, alcança ministros de um tribunal de contas, que tem regime constitucional próprio e não integra o Executivo. 

O que esse conjunto pode significar
Somados, os elementos levantados nesta apuração apontam para uma tensão central que vai definir o sucesso ou o fracasso da operação. De um lado, Dantas traz exatamente o que falta à Avibras Aeroco: capacidade de articulação com o Estado, crédito político para destravar financiamento e reconstruir confiança institucional, num momento em que a empresa ainda carrega a memória recente da greve de 1.280 dias e da recuperação judicial. De outro, afastar Hassuani da presidência executiva tem custo real: são mais de 40 anos de casa, relação já consolidada com o Exército, e foi sob sua gestão anterior que as exportações da companhia chegaram a 80% da receita, justamente a competência que um turnaround de internacionalização mais precisaria preservar, não afastar.

Se a hipótese inspirada no precedente da Mac Jee se confirmar, ou algo equivalente a ela, a saída de Hassuani da presidência não precisaria significar perda, mas realocação: ele seguiria à frente da expansão internacional que já provou saber conduzir, agora com o capital e a ambição já demonstrados pelo grupo J&F como respaldo. Somado à experiência institucional de Dantas, o conjunto sugere menos uma disputa de poder interna e mais uma tentativa de reproduzir, tardiamente, o roteiro que transformou a Embraer em player global após sua privatização: separar quem sabe operar tecnicamente e vender no mundo de quem sabe negociar com o Estado e captar capital, colocando as duas frentes para trabalhar em paralelo.

O risco, no entanto, é simples de nomear. Esse tipo de arranjo só funciona se as duas frentes permanecerem complementares; se a chegada de Dantas significar, na prática, esvaziamento da influência de Hassuani em vez de realocação de seu papel, a Avibras Aeroco corre o risco de perder o capital de confiança técnica e militar que ele levou décadas para construir, sem garantir, em troca, que a experiência internacional que teoricamente seria preservada de fato se converta em resultado. 

Feito com equilíbrio, o conjunto de movimentos pode elevar a Avibras Aeroco de fabricante recuperada da crise a uma verdadeira plataforma brasileira de defesa e tecnologia com vocação internacional; feito sem essa cautela, corre o risco de repetir o erro de trocar continuidade técnica por articulação política sem garantir que as duas coexistam.

O que ainda está em aberto 
Além da confirmação oficial do destino de Dantas, resta o acompanhamento sobre o futuro de Sami Youssef Hassuani, hoje à frente da Avibras Aeroco, caso o ex-ministro assuma a presidência. 

28 agosto, 2026

Taurus confirma virada estratégica e amplia core: de armas leves para veículos não tripulados

Em entrevista exclusiva ao LRCA, o CEO Global Salesio Nuhs detalha portfólio de doze sistemas, nova governança e estratégia de financiamento, mas mantém sob sigilo contratual o nome do parceiro tecnológico do projeto e uma negociação internacional em curso



*LRCA Defense Consulting - 28/08/2026

A Taurus Armas está promovendo a mudança mais significativa de seu posicionamento estratégico desde a migração de armas curtas para armas coletivas: a incorporação de sistemas aéreos e terrestres não tripulados ao núcleo do negócio, ao lado das armas leves que sustentam a companhia há 87 anos. O movimento foi anunciado publicamente durante o COP International 2026, realizado em São Paulo entre 11 e 13 de agosto, e detalhado em entrevista exclusiva concedida pelo CEO Global da empresa, Salesio Nuhs, ao LRCA.

“Não estamos apresentando novos produtos. Estamos apresentando uma nova Taurus”, resumiu Nuhs durante sua participação no evento, ao lado de Gelson Cardoso, gerente de inovação da companhia. A frase sintetiza um processo que começou de forma discreta no fim de 2024 e ganhou corpo ao longo de 2026, com demonstrações ao comando do Exército Brasileiro, articulação com o Corpo de Fuzileiros Navais e negociações de financiamento com órgãos federais de fomento. 

UAV de ataque (drone lançador de munição)

UAV kamikase (drone suicida)

UAV ISR (drone de inteligência, vigilância e reconhecimento)

Um portfólio de doze sistemas, ainda sem nome oficial 
Material institucional obtido pela reportagem, usado pela companhia em apresentação ao Exército Brasileiro, detalha um ecossistema de doze plataformas: sete sistemas aéreos (UAV ISR, UAV Kamikaze, UAV de Ataque, UAV TAS, UAV Cargo e VTOL, além do Cyber Swarm, tecnologia de enxame) e cinco terrestres (UGV EOD, UGV ISR, UGV TAGS, UGV Cargo e UGV Cleaner), somados a sistemas complementares como o Cyber Launcher, hub móvel de lançamento de drones, o Cyber DiB, drone em caixa autônoma, e o Tars K9, quadrúpede modular.

O material trazia o nome “Taurus Cyber Robotics” associado ao conjunto, mas Nuhs esclareceu ao LRCA que essa denominação não é oficial. “A divisão de sistemas não tripulados ainda está em processo de estruturação e, portanto, ainda não possui uma denominação definitiva. O nome Taurus Cyber Robotics, utilizado anteriormente, foi apenas um título empregado em uma apresentação interna realizada para o Exército Brasileiro e não corresponde à denominação formal da nova divisão”, afirmou o CEO. 

VTOL (drone de asa fixa multipropósito)

UAV Cargo (drone de logística)


Cyber Swarm (enxame de drones de reconhecimento e ataque)

Do ‘soldado voador’ ao TAS disparando munição real 

A origem do projeto remonta a dezembro de 2024, quando Nuhs revelou, durante o Taurus Investor Day, em São Paulo, que a companhia estudava, com uma fabricante italiana de drones, o conceito de um “soldado voador” armado com uma submetralhadora ultraleve em desenvolvimento. Ao longo de 2025, o conceito evoluiu para o TAS (Tactical Air Soldier), quadricóptero configurável com o fuzil Taurus T4 5,56mm, a pistola-metralhadora Taurus RPC de 9mm ou lançador de granadas de 40mm, apresentado na LAAD Defence & Security 2025 e reapresentado no World Defense Show 2026, em Riade.

Em maio de 2026, no 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre, em Brasília, o TAS disparou munições reais contra alvos. O comando do Exército também assistiu, segundo o release do COP International, à demonstração de uma configuração para lançamento de munição de morteiro de 120mm. Segundo Nuhs, o TAS não foi um desvio de rota, mas uma antecipação deliberada. “O que fizemos foi antecipar especificamente esse desenvolvimento para demonstrar, na prática, nossa capacidade tecnológica e assumir o protagonismo de sermos o primeiro fabricante de armas a integrar uma arma a um drone, controlar seu voo e realizar com sucesso o disparo e o acerto do alvo”, disse. 

TAS dispara munições reais contra alvos no 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre

O que a Taurus mantém internamente, e o que terceiriza 

Questionado sobre a origem da tecnologia, já que drones aéreos e terrestres são áreas historicamente alheias ao core da companhia, Nuhs afirmou que a estratégia não é desenvolver cada componente do zero. “O mercado já possui componentes amplamente consolidados e validados em áreas como baterias, sensores, sistemas de comunicação e parte da eletrônica embarcada. O foco da Taurus está nas tecnologias que realmente agregam diferencial competitivo, capacidade operacional e soberania tecnológica”, disse, citando como prioridades internas as camadas de integração, software de missão, autonomia, inteligência artificial aplicada, comando e controle e integração de armamentos.

Sobre a capacidade de levar os doze sistemas à produção seriada, o CEO foi categórico: “Não dependemos de parceiros para viabilizar a produção seriada dos sistemas. Os parceiros complementam nossa capacidade, fornecendo tecnologias e hardware especializados, enquanto a Taurus mantém o domínio da engenharia do produto, da integração dos sistemas, da industrialização, dos testes, da certificação e do suporte ao ciclo de vida”. 

UGV ISR (drone de inteligência, vigilância e reconhecimento)

UGV TAGS (drone para apoio de fogo armado)

UGV Cleaner (drone de crearance & desminagem)

UGV EOD (drone de intervenção e manipulação)

Nova governança para dois negócios distintos 
A companhia já promoveu uma reorganização de sua Diretoria para acomodar a nova frente de negócio. Jean Castilhos foi promovido a Diretor de Engenharia, Armas, Munições e Acessórios, com a missão de preservar foco e continuidade no core tradicional da companhia. Leonardo Sesti, que já dirigia o Centro Integrado de Tecnologia e Engenharia (CITE), permanece no cargo, mas passa a atuar de forma mais voltada aos veículos não tripulados. Segundo a empresa, a mudança não exigiu aprovação do Conselho de Administração, por se tratar de decisão de alçada executiva.

“Cada negócio passa a contar com liderança e responsabilidades claramente definidas, evitando dispersão de foco”, justificou Nuhs, que também rebateu, de forma direta, a leitura de que a expansão para sistemas não tripulados representaria um salto maior do que a capacidade da companhia. “Evoluímos das armas individuais, como revólveres e pistolas, para as armas coletivas, incluindo fuzis e metralhadoras, e agora avançamos para sistemas não tripulados. É uma ampliação progressiva das nossas competências dentro do mesmo ambiente de defesa e segurança, e não uma diversificação para um setor sem relação com aquilo que já fazemos”, afirmou.

Financiamento sob demanda, sem valores fechados 
A Taurus evita, por ora, divulgar o investimento total previsto para a nova área. Segundo a empresa, o planejamento estratégico prevê que o desenvolvimento da nova área seja realizado de forma gradual e financeiramente disciplinada, com utilização prioritária de instrumentos públicos de fomento à inovação, incluindo editais de subvenção econômica da Finep, nos quais parte dos investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação pode ser suportada por recursos não reembolsáveis. A companhia também mantém tratativas com o BNDES e poderá realizar aportes próprios dentro do orçamento vigente, preservando sua geração de caixa e sem comprometer os investimentos e a operação do negócio tradicional.

A empresa evitou, também, comentar como a aquisição em curso da fabricante turca de armas coletivas Mertsav Savunma se concilia, no fluxo de caixa, com os investimentos em sistemas não tripulados, informando apenas que ambos os projetos seguem o mesmo princípio de disciplina financeira e que valores não serão antecipados antes da conclusão da due diligence

Cyber Laucher (drone lançador de múltiplos UAVs)

UGV Cargo (resgate e logística)


Cyber Dib (drone em caixa autônoma)

Parceiro do TAS e negociação internacional seguem em sigilo

Nem todas as perguntas enviadas pelo LRCA foram respondidas em detalhe. A Taurus confirmou que existe cláusula contratual que impede a divulgação do nome do fabricante brasileiro de drones do agronegócio, parceiro no desenvolvimento do TAS. A empresa também confirmou que negocia uma primeira aquisição internacional de um sistema de menor escala, mencionada no release do COP International, mas não revelou país, cliente ou sistema envolvido, alegando compromissos de confidencialidade.

Questionada diretamente se avalia comprar, licenciar tecnologia ou formar uma joint venture com alguma empresa de drones para viabilizar o portfólio de doze sistemas, a Taurus respondeu que a possibilidade não está descartada, embora não haja negociação em curso nesse sentido no momento.

Protocolo com o CFN segue em vigor, em paralelo ao Exército 
Um ponto que parecia contraditório entre a cobertura anterior do LRCA e a fala do CEO foi esclarecido ao longo das perguntas enviadas pela reportagem. Em maio de 2026, o LRCA havia noticiado que o Corpo de Fuzileiros Navais assinara protocolo de intenções com a Taurus para o desenvolvimento de um drone armado destinado a tropas anfíbias. Nuhs, por sua vez, havia dito que o desdobramento do projeto para a Marinha viria “em uma etapa seguinte” à validação com o Exército. Questionada sobre a aparente contradição, a empresa esclareceu que o protocolo com o CFN segue vigente e está sendo tratado de forma concomitante ao trabalho já em curso com o Exército, e não apenas em etapa posterior.
TARS K9 (Taurus Robotic Soldier K9)


O contexto: uma Base Industrial de Defesa em ebulição 
A movimentação da Taurus ocorre em meio a um adensamento acelerado do segmento de sistemas não tripulados na Base Industrial de Defesa brasileira. Em maio de 2026, o Exército recebeu o primeiro robô EOD inteiramente produzido no País, fabricado pela Ambipar Robotics, de Jacareí (SP). No campo aéreo, a XMobots avança com a versão armada do Nauru 1000C, equipado com mísseis Enforcer Air desenvolvidos com a MBDA, além do conceito de enxame do Nauru 100D. O Estado-Maior do Exército mantém, ainda, consulta pública aberta para a aquisição de Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas de categoria 3 (SARP 3), sinalizando que o emprego de aeronaves armadas deve deixar de ser exceção nas Forças Armadas brasileiras nos próximos anos.

O que ainda falta esclarecer 
A Taurus chega ao fim desta apuração com um discurso consistente sobre governança, disciplina financeira e divisão de competências entre o que desenvolve internamente e o que terceiriza. Ao mesmo tempo, mantém sob sigilo contratual informações que normalmente pesam na avaliação de risco de um projeto dessa envergadura: o nome do parceiro tecnológico central do TAS, os termos da negociação internacional em andamento e o valor total a ser investido na nova frente de negócio ao longo dos próximos anos. A empresa também não estabeleceu, até o momento, um teto de investimento ou um percentual de receita que sirva de limite para o projeto, condicionando o ritmo de expansão à disponibilidade de recursos de fomento e à evolução dos requisitos operacionais definidos junto às Forças Armadas. 


Uma aposta alinhada à guerra do futuro 

O momento escolhido pela Taurus para essa virada não é aleatório. Conflitos recentes, da Ucrânia ao Oriente Médio, consolidaram os sistemas não tripulados como elemento decisivo do campo de batalha contemporâneo, capazes de neutralizar blindados, artilharia e ativos de alto valor a um custo muito inferior ao das plataformas que substituem. Diante dessa mudança de paradigma, fabricantes tradicionais de armamento em todo o mundo enfrentam a mesma escolha: adaptar-se à lógica dos sistemas autônomos e integrados, ou correr o risco de ver seu portfólio tradicional perder relevância estratégica diante de forças mais bem equipadas para o combate não tripulado.

Ao decidir alterar seu próprio core de negócio, incorporando robótica e inteligência artificial à sua base histórica em armas leves e coletivas, a Taurus se posiciona no lado ofensivo dessa transformação, e não no reativo. É uma postura de inovação pouco comum entre fabricantes tradicionais, que tendem a proteger o negócio consolidado até que a disrupção se torne inevitável. Se a companhia conseguir sustentar essa transição com a mesma disciplina de governança e capital que hoje descreve em discurso, o resultado pode ser uma Taurus estrategicamente mais relevante do que jamais foi como fabricante apenas de armas leves: uma das poucas empresas de defesa mundiais capazes de entregar, sob uma mesma marca, todo o espectro que vai do revólver ao sistema autônomo integrado.

Essa aposta também carrega um fator que não pode ser desprezado na avaliação de risco: o histórico do próprio executivo à frente da decisão. Salesio Nuhs assumiu o comando global da Taurus em 2018, quando a companhia enfrentava dificuldades financeiras severas e chegou a ser cotada como candidata a uma recuperação judicial. Em pouco mais de meia década, sob sua gestão, a empresa se reergueu a ponto de se tornar a maior vendedora de armas leves do mundo em volume, em um turnaround considerado "de livro" no setor. Se as mesmas características de liderança, iniciativa e capacidade de execução que sustentaram essa recuperação se repetirem na nova frente de sistemas não tripulados, as chances de que o movimento atual também dê certo são, no mínimo, consideráveis.

O tamanho dessa aposta, porém, é proporcional ao risco de execução. O sucesso deste novo turnaround dependerá menos do portfólio já demonstrado, e mais da capacidade da empresa de transformar protótipos e demonstrações em contratos recorrentes, sem comprometer o caixa nem a rentabilidade do negócio tradicional que ainda sustenta a companhia. É essa equação, entre ousadia estratégica e disciplina de execução, que definirá se a Taurus estará indo além do que suas capacidades permitem ou se, realmente, liderará a próxima geração da indústria de defesa brasileira.

27 agosto, 2026

DCT conhece capacidades de propulsão e sistemas inteligentes da Avibras Aeroco

Chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército visitou a planta da empresa em Jacareí (SP) nesta quarta-feira (26/08), em mais uma etapa da aproximação entre a Força Terrestre e a indústria nacional de defesa



*LRCA Defense Consulting - 27/08/2026

A Avibras Aeroco recebeu, nesta quarta-feira (26/08), em sua unidade fabril em Jacareí (SP), a visita do chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT) do Exército Brasileiro, general de Exército Hertz Pires do Nascimento. A comitiva reuniu ainda o general de Divisão Erb Lyra Leal, chefe do Gabinete de Planejamento e Gestão do DCT, e o general de Brigada Douglas Corbari Corrêa, chefe do Núcleo do Parque Tecnológico de Defesa e Segurança em Campinas.

Durante a visita, os oficiais conheceram diferentes áreas da empresa, com destaque para as competências de engenharia, a capacidade industrial e a certificação de produtos. A apresentação incluiu, em particular, os processos ligados à propulsão e à integração de sistemas inteligentes de defesa de última geração, áreas em que a Avibras Aeroco concentra parte de seu portfólio tecnológico.

O DCT é o órgão de direção setorial do Comando do Exército responsável por entregar as soluções científico-tecnológicas necessárias à implementação de capacidades da Força, conforme as políticas, os planejamentos e as diretrizes estratégicas estabelecidas pela instituição.

Em nota, a Avibras Aeroco classificou a visita como um reforço à conexão entre a indústria de Defesa e as instituições responsáveis pelo desenvolvimento tecnológico e pela geração de capacidades estratégicas para o País, contribuindo, segundo a empresa, para o fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID) e para a soberania nacional.

A agenda desta quarta-feira integra uma sequência de visitas institucionais recebidas pela Avibras Aeroco ao longo de 2026, período de retomada de suas operações industriais em Jacareí. Em 1º de julho, a fábrica recebeu o comandante do Exército, general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva; em 24 de julho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve nas instalações, acompanhado do vice-presidente Geraldo Alckmin; e em 18 de agosto, a direção do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), chefiada pelo tenente-brigadeiro do Ar Mauro Bellintani, também visitou a planta para tratar de projetos de defesa e espaço.

A Avibras Aeroco foi constituída em outubro de 2025, no âmbito do processo de recuperação judicial da antiga Avibras Indústria Aeroespacial, e herdou o parque fabril, os contratos e o portfólio tecnológico da companhia histórica, entre eles o sistema de artilharia Astros e o míssil tático de cruzeiro MTC-300. A retomada da produção na unidade de Jacareí ocorreu em maio de 2026.

O general Douglas Corbari Corrêa, um dos integrantes da comitiva, também chefia a iniciativa do Exército para a criação de um parque tecnológico de defesa e segurança em Campinas (SP), projeto que prevê laboratórios, centros de pesquisa e espaços voltados a startups, em parceria com o governo paulista e a prefeitura da cidade.

SIATT liga a produção de mísseis e foguetes em Caçapava e avança na consolidação da base industrial de defesa

Primeira fase da planta, com 6.200 m² de área construída, reforça a Base Industrial de Defesa e amplia a capacidade da empresa em mísseis, foguetes guiados e motores-foguete para os setores de Defesa e Espaço



*LRCA Defense Consulting - 27/08/2026

A SIATT iniciou, nesta quarta-feira (26), a operação da Fase 1 de sua nova unidade industrial em Caçapava, no interior de São Paulo. A cerimônia reuniu autoridades civis e militares, executivos do Grupo EDGE e da própria empresa, marcando uma nova etapa da expansão que o conglomerado dos Emirados Árabes Unidos vem promovendo na Base Industrial de Defesa (BID) brasileira.

Com 6.200 m² de área construída nesta primeira fase, a nova planta amplia a capacidade da SIATT para desenvolver, fabricar, integrar, testar e qualificar sistemas de defesa considerados de alta complexidade, entre eles mísseis, foguetes guiados, motores-foguete e outros sistemas propulsivos destinados também a aplicações espaciais. Segundo a empresa, a unidade foi concebida para apoiar programas estratégicos brasileiros e para permitir ampliações sucessivas, conforme a evolução das demandas do País e do mercado internacional.

A mesa da cerimônia reuniu o Ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luis Fernandes; o Vice-Governador de São Paulo, Felicio Ramuth; o Presidente do Conselho de Administração da SIATT, Azhaury Cunha Filho; o Presidente do Cluster de Mísseis e Armamentos do Grupo EDGE, Saif Al Dahbashi; o Prefeito de Caçapava, Yan Lopes de Almeida; o Comandante-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais, Almirante de Esquadra Carlos Chagas Viana Braga; o Chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército, General Hertz Pires do Nascimento; e o Diretor-Presidente da SIATT, Rogerio Salvador.

"Um país que pretende decidir sobre o próprio futuro precisa também decidir as suas escolhas, e essa liberdade se sustenta não apenas em meios militares, mas também em ciência, engenharia e uma indústria capaz de transformar conhecimento em soluções concretas", disse o Diretor-Presidente da SIATT durante a cerimônia.

Já o Presidente do Conselho de Administração da empresa, Azhaury Cunha Filho, associou a nova planta à sede da SIATT em São José dos Campos, inaugurada no ano passado. "Existe uma diferença fundamental entre dominar uma tecnologia e possuir a capacidade industrial de produzi-la de forma recorrente, confiável e em escala. A nossa sede em São José dos Campos e esta planta de Caçapava representam justamente essa transição. Estamos transformando conhecimento acumulado durante muitos anos em uma capacidade industrial permanente", afirmou. 


Continuidade de um ciclo de investimentos
A entrada em operação da Fase 1 não é um evento isolado. A unidade de Caçapava já vinha sendo construída desde pelo menos 2025, quando a SIATT apresentou o projeto durante a LAAD, e passou a concentrar, ao longo deste ano, entregas relevantes para as Forças Armadas: em maio, a empresa entregou ao Exército Brasileiro, em Formosa (GO), o primeiro lote de produção em série do míssil MAX 1.2 AC, fabricado justamente na planta paulista, que responde tanto pela fabricação dos motores quanto pela montagem final dos sistemas.

A fábrica também está associada ao programa MANSUP, míssil antinavio de superfície da SIATT, que recebeu encomenda de US$ 350 milhões dos próprios Emirados Árabes Unidos; a demanda ajudou a viabilizar, em escala, um programa que, sem parceiro externo, teria mais dificuldade de sair do papel. A SIATT é ainda a integradora do SisGAAz, programa estratégico de vigilância e monitoramento do litoral brasileiro.

Fortalecimento da Base Industrial de Defesa 
Para a SIATT, a ampliação da planta de Caçapava se insere em um movimento mais amplo de consolidação da BID e de busca do País por maior soberania e autonomia tecnológica em setores estratégicos. Ao ampliar o domínio de tecnologias críticas e reforçar a estrutura fabril, a empresa afirma buscar reduzir dependências externas e aumentar a capacidade nacional de produzir sistemas essenciais à Defesa Nacional, além de abrir caminho para novas parcerias com empresas, instituições de ciência e tecnologia e organizações nacionais e internacionais.

O caso da SIATT também ilustra a estratégia do Grupo EDGE no Brasil desde que se tornou acionista e parceiro estratégico da empresa, em 2023. O conglomerado dos Emirados Árabes Unidos já expandiu a fábrica da Condor, em São Paulo, e assumiu papel de destaque na tentativa de solução para a crise da Akaer, movimento que partiu do próprio Ministério da Defesa. O histórico do grupo no País sugere disposição de investir em capacidade produtiva local, e não apenas de absorver tecnologia já desenvolvida no Brasil. 


Empregos e próximas fases 
A implantação da Unidade Caçapava está estruturada em diferentes fases; as Fases 2 e 3 preveem novas ampliações da infraestrutura e aumentos sucessivos da capacidade de produção. Quando concluído, o projeto deverá gerar 640 empregos, sendo 160 diretos e 480 indiretos, além de consolidar um ecossistema regional formado por empresas, universidades, centros de pesquisa e instituições de engenharia e tecnologia.

Segundo a SIATT, à medida que essas etapas avançarem, a empresa poderá atender a um número maior de programas estratégicos do Brasil e buscar novas oportunidades no mercado internacional, em alinhamento com as políticas de Estado e com as diretrizes brasileiras para a exportação de produtos e tecnologias de Defesa.

Sobre a SIATT 

A SIATT é uma EED (Empresa Estratégica de Defesa) sediada em São José dos Campos, com parque industrial que inclui a subsidiária de Caçapava. Especializada em armamentos inteligentes, a empresa fornece sistemas de Defesa baseados em mísseis e é a integradora do SisGAAz. Desde 2023, o Grupo EDGE, dos Emirados Árabes Unidos, é acionista e parceiro estratégico da empresa.

Taurus e Exército Brasileiro firmam parceria histórica e ampliam cooperação para desenvolvimento de capacidades de Defesa

Memorando de entendimento prevê avaliação técnica e doutrinária de armamentos e abre caminho para negociação de sistema de drones da fabricante gaúcha



*LRCA Defense Consulting - 27/08/2026

A Taurus Armas S.A. e o Exército Brasileiro assinaram, nesta quarta-feira (26), um memorando de entendimento (MoU) para ampliar a cooperação entre a fabricante gaúcha de armamentos e a Força Terrestre. Como primeira ação do acordo, a empresa repassou 55 armas de sua linha militar à instituição, sem ônus para a Força, entre eles o fuzil T10, em calibre .308 Winchester; a submetralhadora RPC, em 9mm; e a pistola TX9, também em 9mm.

O documento foi firmado pelo CEO Global da Taurus, Salesio Nuhs, e pelo Chefe do Estado-Maior do Exército, general de Exército Francisco Humberto Montenegro Júnior. Também participou da assinatura o diretor da divisão militar e de vendas internacionais da Taurus, Henrique Gomes.

Segundo o Exército, os armamentos repassados serão usados em experimentações doutrinárias e em avaliações técnicas e operacionais conduzidas pela própria Força, com o objetivo de que, em curto prazo, possam ser adquiridos por pelotões de forças especiais por meio da Base Industrial de Defesa (BID) nacional. “Agradeço, em nome da instituição, a doação dessas armas, para que a gente possa fazer uma experimentação doutrinária e, no curto prazo, comprar (...) particularmente os armamentos utilizados pelas nossas tropas de operações especiais”, afirmou o general Montenegro Júnior, segundo relato do site especializado The Gun Trade.

Um compromisso que vai além de vender armamento 
O memorando estabelece uma nova etapa de cooperação entre a experiência operacional do Exército e a capacidade de engenharia, tecnologia e produção da Taurus, prevendo experimentações doutrinárias, avaliações técnicas, operacionais e logísticas de materiais de emprego militar, intercâmbio de conhecimento e identificação de novas oportunidades de desenvolvimento conjunto, segundo nota da empresa.

Na prática, a experimentação doutrinária é a etapa em que o Exército avalia equipamentos, técnicas e procedimentos em situações reais de emprego, subsidiando decisões sobre sua eventual adoção pela Força. Para o CEO Global da Taurus, Salesio Nuhs, a iniciativa representa uma evolução no papel da companhia junto à Defesa Nacional: “O nosso compromisso vai muito além de vender armamento, pois queremos participar ativamente do ciclo de vida e do desenvolvimento tecnológico das Forças Armadas”, afirmou o executivo, em nota.

Segundo Nuhs, a aproximação entre o conhecimento operacional das Forças Armadas e a capacidade de engenharia da indústria brasileira é estratégica para o desenvolvimento de novas soluções e capacidades para o País, num movimento que a empresa descreve como transformador para o setor.

Para a Taurus, essa aproximação também contribui para a preservação do conhecimento tecnológico no País, o fortalecimento das cadeias produtivas nacionais e a ampliação da autonomia tecnológica brasileira. “Desenvolver tecnologia no Brasil e colocar nossa capacidade industrial a serviço do Exército é contribuir diretamente para a soberania e a independência do nosso País”, destaca Nuhs.

A iniciativa amplia a integração da Taurus com a BID e reforça a aproximação entre as Forças Armadas e a indústria nacional, criando um ambiente de avaliação de soluções, intercâmbio de conhecimento e identificação de novas possibilidades de desenvolvimento alinhadas às necessidades de Defesa e Segurança do Brasil. 


A maior aproximação desde a era das PT-92
Pelo alcance da cooperação e pelo simbolismo da doação, o acordo pode ser lido como a aproximação institucional mais relevante entre a Taurus e o Exército Brasileiro desde o fornecimento das pistolas PT-92 à Força, a partir de 1983, quando a empresa se firmou como fornecedora de armas curtas para as Forças Armadas. No entanto, diferentemente daquele fornecimento, o MoU agora assinado projeta um relacionamento de longo prazo, baseado em testes conjuntos, troca de dados operacionais e potencial padronização futura de armamentos.

A movimentação também ocorre num momento de reposicionamento da Taurus junto às demais Forças. Em fevereiro deste ano, a companhia já havia firmado protocolo de intenções com o Corpo de Fuzileiros Navais, com apoio do BNDES, para o desenvolvimento conjunto de armas leves e coletivas nos calibres 5,56mm, 7,62mm e .50, testadas ao longo do primeiro semestre na Operação Furnas. Em abril, o Exército já havia padronizado a pistola nacional GC MD1, da IMBEL, decisão que ocorreu poucos meses depois do lançamento comercial da TX9 pela própria Taurus.

De olho no mercado de drones 
A aproximação com o Exército também é vista, no setor, como parte de uma estratégia mais ampla da Taurus para viabilizar a venda de sua futura família de sistemas não tripulados aéreos e terrestres integrados por inteligência artificial, hoje reunida sob a iniciativa denominada inicialmente como Taurus Cyber Robotics. Entre os produtos já apresentados à Força está o chamado Soldado Voador (TAS), drone equipado com fuzil, que a empresa considera pronto para comercialização.

A LRCA apurou anteriormente que a Taurus vem estruturando uma nova divisão de sistemas não tripulados, com um projeto submetido ao programa Mais Inovação Brasil, da Finep, além de mudanças internas de comando para tocar a frente de robótica e drones. O próprio CEO Global da companhia já esclareceu que “Taurus Cyber Robotics” é, por ora, um nome de apresentação institucional usado junto ao Exército, e não uma divisão formalmente constituída.

Contexto: o Estado como catalisador da indústria de Defesa 
O acordo se soma a um movimento mais amplo de aproximação entre as Forças Armadas e a indústria nacional de Defesa, impulsionado pela Lei Complementar aprovada pelo Congresso Nacional em 2025, que autoriza investimentos de até R$ 30 bilhões em projetos estratégicos do Ministério da Defesa ao longo de seis anos. Fabricantes como Embraer, IMBEL e XMobots têm ampliado, no mesmo período, seus próprios memorandos e protocolos de cooperação com o Comando do Exército, num esforço declarado de reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros e reforçar a soberania tecnológica do País.

Com 86 anos de história, sede em São Leopoldo (RS) e unidades produtivas nos Estados Unidos e na Índia, a Taurus (classificada como Empresa Estratégica de Defesa) é a maior vendedora de armas leves do mundo e exporta para mais de 100 países. Nem a empresa nem o Exército divulgaram o valor de mercado da doação ou o prazo de vigência do memorando de entendimento.

26 agosto, 2026

Marambaia sedia novo ensaio de tiro do míssil de cruzeiro brasileiro

Exercício na Restinga da Marambaia cumpre integralmente os objetivos previstos e mantém o cronograma de certificação do Míssil Tático de Cruzeiro, da Avibras Aeroco, sistema que deve integrar o portfólio do ASTROS



*LRCA Defense Consulting - 26/08/2026

Nesta quarta-feira (26/08), o Exército Brasileiro (EB) e a Avibras Aeroco realizaram, com sucesso, um novo ensaio de tiro do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC) no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), instalado na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro. O exercício, que reuniu equipes das duas instituições, cumpriu integralmente os objetivos estabelecidos para esta etapa e representa mais um avanço no processo de certificação da arma.

O resultado reforça a capacidade tecnológica e operacional do País no desenvolvimento de sistemas de defesa de alta complexidade e aproxima o MTC da fase final de qualificação, etapa considerada estratégica para dotar o Exército de uma capacidade de ataque de precisão a longas distâncias, hoje concentrada em poucos países no mundo.

Também conhecido como AV-TM 300 e apelidado internamente de “Matador”, o MTC integra o portfólio de munições inteligentes do Sistema de Artilharia ASTROS e tem alcance declarado de até 300 quilômetros (para exportação, pois o interno pode ser significativamente maior). O projeto, cujo desenvolvimento remonta ao início dos anos 2000, avançou nos últimos meses dentro do programa estratégico ASTROS-FOGOS, criado pelo Exército em março deste ano para reunir artilharia de foguetes, mísseis de cruzeiro e defesa antiaérea contra drones em uma única plataforma multidomínio, com investimento previsto de R$ 3,4 bilhões entre 2026 e 2031. 


Participaram do ensaio o general de brigada João Paulo Zago, chefe do CAEx; o general de brigada R1 Marcelo Gurgel do Amaral Silva, gerente do Programa Estratégico FOGOS; e o general de brigada R1 Moisés da Paixão Junior, gerente do Subprograma Artilharia de Campanha. A atividade também contou com a participação do Escritório de Projetos do Exército (EPEx), da Diretoria de Fabricação (DF), do Instituto Militar de Engenharia (IME) e do Centro Tecnológico do Exército (CTEx), em conjunto com equipes técnicas da Avibras Aeroco.

A Avibras Aeroco assumiu o portfólio tecnológico da antiga Avibras Indústria Aeroespacial após a reestruturação da empresa, concluída no início deste ano sob nova gestão privada. O MTC é apontado pela companhia como o programa mais estratégico em desenvolvimento, ao lado do futuro Míssil Tático Balístico, e é tratado pelo Exército como prioritário dentro do plano de modernização da defesa nacional.

Grupo EDGE se associa ao Exército para criar centro de ciberdefesa no Brasil

Parceria tripartite entre governo, indústria e academia é a primeira do tipo na América Latina e amplia a presença dos Emirados Árabes Unidos na base industrial de defesa brasileira



*LRCA Defense Consulting - 26/08/2026

O EDGE Group, conglomerado de tecnologia avançada e defesa dos Emirados Árabes Unidos, e o Exército Brasileiro anunciaram nesta quarta-feira (26) a criação de um Centro de Excelência (COE - do inglês Centre of Excellence) em Defesa Cibernética. Pelo lado brasileiro, o acordo é conduzido pelo Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber), órgão operacional conjunto que integra militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

Segundo comunicado conjunto das duas instituições, a nova estrutura será a primeira da América Latina a operar sob um modelo tripartite, reunindo governo, indústria e academia. EDGE Group e ComDCiber farão aportes diretos na iniciativa, o que, de acordo com as partes, deve reforçar a solidez operacional, a independência institucional e a continuidade do projeto no longo prazo. O local onde o centro funcionará ainda não foi definido, assim como a estrutura de governança e o volume dos investimentos.

O COE deverá prestar serviços a todas as Forças Armadas brasileiras e a instituições federais, entre eles capacitação, desenvolvimento e certificação profissional; resposta a incidentes cibernéticos e perícia digital; consultoria estratégica em segurança cibernética; pesquisa e desenvolvimento de doutrina e capacidades de defesa cibernética; planejamento e execução de exercícios nacionais e regionais; e desenvolvimento de soluções e capacidades avançadas nessa área.

Como referência internacional, o EDGE cita o Cooperative Cyber Defence Centre of Excellence, ligado à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O objetivo declarado pelas partes é posicionar o Brasil como polo regional de cibersegurança soberana e ampliar a integração do País à comunidade internacional de defesa cibernética.

O executivo-chefe do EDGE Group, Hamad Al Marar, afirmou que a resiliência cibernética exige colaboração de longo prazo entre governos, indústria e academia e que essa convicção orienta a parceria. Segundo ele, o grupo pretende combinar tecnologia avançada, experiência operacional e conhecimento compartilhado para construir capacidade duradoura e ajudar a posicionar o Brasil como centro de excelência em cibersegurança na América Latina.

A parceria é mais um passo do avanço do EDGE Group na base industrial de defesa (BID) brasileira. Nos últimos anos, o conglomerado, controlado pelo governo de Abu Dhabi, adquiriu 50% da SIATT, fabricante de mísseis; 51% da Condor, especializada em tecnologias não letais; e acertou a compra de 100% da Akaer, de São José dos Campos, negócio que ainda depende de aprovação regulatória. O grupo também mantém memorando de entendimento com a Marinha do Brasil para o desenvolvimento de um futuro centro de excelência em ciberproteção naval, além de acordo com o Exército para avaliação operacional de fuzis da marca CARACAL.

No caso do novo centro de ciberdefesa, porém, não há aquisição de uma empresa brasileira: o EDGE Group ingressa como sócio fundador de uma instituição criada em conjunto com o próprio Exército, que participa diretamente do projeto. Essa configuração diferencia o negócio de outras aquisições do grupo no País e reacende o debate sobre a presença de capital estrangeiro, ligado a outro governo, em estruturas estratégicas para a proteção de redes e dados das Forças Armadas e de instituições federais brasileiras.

O anúncio ocorre poucos dias depois de outro movimento relevante no setor: os irmãos Joesley e Wesley Batista, por meio da Globe Investimentos, acertaram a compra de 100% da Avibras, fabricante dos foguetes Astros e do míssil MTC-300, mantendo o controle da companhia em mãos nacionais. Os dois negócios ilustram caminhos distintos para financiar a indústria brasileira de defesa: capital nacional, no caso da Avibras, e participação estrangeira, nas aquisições e parcerias do EDGE Group. 


A expansão do capital estrangeiro no setor ocorre em um cenário de restrições orçamentárias para investimentos em tecnologia militar no Brasil. O orçamento de Defesa soma R$ 142,9 bilhões em 2026, mas 75,5% desse montante são destinados a despesas com pessoal, o que reduz a parcela de recursos disponível para investimentos tecnológicos e encomendas à indústria nacional. O movimento também acompanha o crescimento dos gastos militares no mundo: em 2025, as despesas militares globais somaram US$ 2,887 trilhões, recorde histórico segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri).

A criação do COE se soma a outras iniciativas do ComDCiber para ampliar as capacidades cibernéticas do País. Em 2026, o antigo Programa de Defesa Cibernética foi renomeado para “IA e Defesa Cibernética”, incorporando formalmente a inteligência artificial ao escopo de suas atribuições. O comando também coordena o Exercício Guardião Cibernético 2026, previsto para o período de 21 a 25 de setembro, com sede em Brasília e hubs regionais em seis capitais, reunindo cerca de 240 organizações entre Forças Armadas, órgãos governamentais, agências reguladoras, instituições de ensino e operadores de setores estratégicos.

Escondidos na floresta, tanques ocidentais viram peso morto na Ucrânia

Reportagem do New York Times revela crise entre o general afastado do comando ucraniano e os blindados de 10 milhões de dólares parados diante do avanço dos drones baratos; o dilema chega também ao debate brasileiro sobre blindagem e sistemas autônomos. 



*LRCA Defense Consulting - 26/08/2026

Numa floresta na região de Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, um grupo de tanques Leopard 2 de fabricação alemã permanece escondido sob redes de camuflagem, com as torres viradas para trás, na chamada posição de viagem. Alguns aguardam reparos; outros, cobertos de teia de aranha, ficam de prontidão para um combate que as ordens já não chegam a determinar. A cena, registrada pelo fotógrafo Brendan Hoffman e descrita em reportagem publicada pelo New York Times em 25 de agosto, resume o destino de uma das armas mais disputadas pela Ucrânia desde o início da guerra: os blindados ocidentais, hoje reduzidos a reboque de emergência e a alvo de debate estratégico dentro do próprio comando militar ucraniano.

A 33ª Brigada Mecanizada Separada, batizada em parte para operar esses veículos, hoje trava sua rotina longe deles. No posto de comando da unidade, telas mostram imagens ao vivo de drones bombardeiros, um drone terrestre avançando por uma trilha lamacenta e drones de vigilância sobre uma casa em chamas. Tanques, segundo a reportagem, não aparecem em nenhuma delas.

Da glória à floresta 
A Ucrânia pediu tanques ocidentais quase imediatamente após a invasão russa em fevereiro de 2022, quando pareciam essenciais para romper as linhas inimigas. O pedido só foi atendido em janeiro de 2023, depois de meses de negociações e de pressão pública sobre Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos. Berlim cedeu os Leopard 2; Washington, os Abrams; e a Suécia, os Strv 122, versão reforçada do próprio Leopard 2A5.

A 33ª Brigada foi formada, em parte, para receber esses veículos, mas, quando os Leopard finalmente entraram em combate na primavera seguinte, os drones baratos já infligiam perdas pesadas e conseguiam atingir os pontos mais vulneráveis dos blindados. Um relatório do Congressional Research Service (CRS), órgão de pesquisa do Congresso americano, mostra que o problema já se manifestava meses antes, durante a contraofensiva ucraniana de 2023: as novas unidades treinadas pelo Ocidente enfrentaram dificuldade real para executar operações de armas combinadas e para romper os extensos campos minados russos. Em julho daquele ano, o então chefe do Estado-Maior Conjunto americano, general Mark Milley, chegou a admitir publicamente que expulsar militarmente as forças russas seria “muito, muito difícil” naquele ano.

Do lado russo, tropas passaram a cobrir seus próprios tanques com telas e gaiolas antidrone, solução inicialmente ridicularizada por parecer improvisada. Segundo um chefe de manutenção da 33ª, identificado apenas pelo codinome Energetyk, os russos foram motivo de piada no início, mas estavam no caminho certo; a Ucrânia acabou seguindo pelo mesmo caminho, somando blindagem reativa (painéis externos que detonam ao serem atingidos) às gaiolas de proteção. Ainda assim, os dois lados praticamente abandonaram o emprego de blindados pesados em operações ofensivas. 

Imagem meramente ilustrativa renderizada por IA

Rotina sem combate 
A 33ª mantém exercícios de tiro real a cada duas semanas, aproximadamente, para não perder o preparo técnico das tripulações. Num desses treinos, entre campos de girassol, um tanque disparou contra alvos distantes enquanto soldados aguardavam à sombra, comendo sementes e dividindo um refrigerante.

No dia a dia, porém, os Leopard raramente saem da floresta onde ficam guardados. Um dos veículos, atingido por um drone na torre, aguarda reparo ao lado de outro cujo motor foi trocado depois que o tanque pegou fogo ao passar sobre uma mina. Segundo Energetyk, os danos mais recentes não vieram do combate, mas das chamadas evacuações: as vezes em que o tanque reboca equipamento avariado, funcionando, na prática, como um trator extraordinariamente caro. Mesmo essas saídas só ocorrem em dias de mau tempo, quando chuva, vento e baixa visibilidade reduzem o número de drones em operação.

Um piloto de drones ucraniano entrevistado pela agência Reuters em fevereiro resumiu essa nova realidade: “a velocidade humana não se compara à de um drone FPV”, disse Andriy Meskov, ferido meses antes por um drone que ricocheteou em seu capacete.

Motoristas e artilheiros da 33ª descrevem sentimentos contraditórios sobre a nova rotina. Um deles, identificado como Golden, prefere que os tanques permaneçam fora de combate depois de ter sobrevivido a um incêndio dentro de um veículo. Outro, o motorista Mechan, compara dirigir um Leopard a dirigir um carro de luxo alemão, mas hoje pratica, à noite, a pilotagem de drones terrestres; ele reconhece que a era dos tanques, tal como a conheceu, parece ter chegado ao fim. Já Korzhyk, recruta incorporado à brigada em 2025, nunca sequer tocou num tanque: seu trabalho diário é consertar drones terrestres numa oficina escura. 

O general que perdeu o cargo 
O episódio que dá à reportagem seu contorno mais político envolve o afastamento do general Oleksandr Syrskyi, até o mês passado o principal comandante das Forças Armadas ucranianas. Segundo o New York Times, a saída de Syrskyi decorreu de um embate interno sobre estratégia de guerra, tendo como pano de fundo justamente a pergunta sobre o que fazer com os blindados ocidentais. “Praticamente não estamos fazendo uso de veículos blindados”, disse Syrskyi recentemente, segundo a reportagem, acrescentando que a situação levanta a pergunta sobre como neutralizar essa vantagem dos drones e devolver alguma vida útil aos blindados.

Enquanto o alto comando debate uma resposta doutrinária, unidades como a 33ª não esperam a solução vir de cima. Segundo o comandante Morpheus, a exigência que ele mesmo impõe ao batalhão é a de que as tripulações aprendam algo novo constantemente; hoje, metade dos efetivos sob seu comando já se retreinou como operador de drones. Para ele, um eventual retorno dos tanques ao combate dependeria de um avanço tecnológico significativo. 

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A superioridade aérea que não basta mais
Essa premissa de superioridade tecnológica esteve historicamente ligada a outra: a de que o emprego maciço de blindados dependia de superioridade aérea, entendida como a combinação entre liberdade em relação à aviação inimiga e a consequente liberdade de manobra no solo. Foi assim na Normandia em 1944, quando o domínio aliado dos céus permitiu que colunas blindadas avançassem sem temer a Luftwaffe, e foi assim, de forma explícita, na doutrina americana AirLand Battle, de 1982, que integrava deliberadamente o poder aéreo à manobra blindada em massa para compensar a superioridade numérica do Pacto de Varsóvia na Europa.

Com os drones, esse conceito parece ter se partido em duas camadas. Analistas ocidentais vêm chamando a faixa mais baixa do espaço aéreo, entre o solo e a altitude onde operam caças e bombardeiros tradicionais, de litoral aéreo (do inglês “air littoral”). A tese é que uma força pode conquistar a chamada superioridade nos céus (“blue skies”) contra a aviação inimiga e, ainda assim, ver seus blindados impedidos de avançar, porque a faixa mais baixa permanece saturada de drones baratos demais e numerosos demais para justificar o emprego de armamento ar-ar convencional contra eles. Um artigo publicado pela revista Foreign Policy chega a afirmar que essa dinâmica tornou “as antigas doutrinas ocidentais de superioridade aérea amplamente obsoletas”.

Nem todos os analistas aceitam o conceito como uma ruptura doutrinária. A revista Air and Space Forces Magazine, publicação ligada à força aérea americana, argumenta que a faixa baixa do espaço aéreo já era historicamente disputada por artilharia antiaérea e mísseis portáteis, e que rebatizá-la de litoral aéreo não cria um domínio novo, apenas dá nome chamativo a um problema antigo. Para essa corrente, “drones e mísseis de cruzeiro não redefiniram a superioridade aérea”; eles se tornariam necessários justamente porque nenhum dos lados da guerra da Ucrânia conseguiu, de fato, obter superioridade aérea plena no sentido clássico. 

De um modo ou de outro, o efeito prático sobre os blindados ocidentais na Ucrânia é o mesmo: caças e bombardeiros podem voar livres em média e alta altitude sem que isso devolva aos tanques a liberdade de manobra que a doutrina do século 20 lhes prometia.


Questão de tripulação, não de conceito 

A experiência ucraniana sugere que a resposta talvez não esteja no fim do tanque como conceito, mas no fim do tanque tripulado como se conhece hoje. É a aposta do próprio Morpheus, que se disse convencido de que os blindados ainda têm futuro, mas ressalvou que esse futuro provavelmente será não tripulado. O comandante de companhia identificado como Fin alimenta expectativa parecida: para ele, sistemas equipados com inteligência artificial poderiam um dia criar cúpulas de proteção ou interceptores de drones próprios, devolvendo aos blindados algum grau de sobrevivência.

Essa hipótese já ecoa, em outro contexto, na literatura militar ocidental. Um artigo publicado na edição de julho e agosto de 2025 do Military Review, revista profissional do Exército americano editada pela Army University Press, discute como sistemas de proteção ativa, inteligência artificial e veículos autônomos poderiam devolver a uma força tecnologicamente superior aquilo que o texto chama de overmatch, uma vantagem operacional decisiva sobre qualquer adversário. O artigo não trata do caso ucraniano especificamente, mas descreve um raciocínio semelhante: a sobrevivência de uma plataforma blindada pode depender menos da espessura de sua blindagem e mais da capacidade de detectar, decidir e reagir antes do adversário, com ou sem tripulação a bordo.

Essa mudança de eixo toca também numa premissa histórica da indústria de defesa ocidental: a de que a superioridade tecnológica de uma plataforma sofisticada e cara compensaria sua produção em pequena escala. Durante décadas, essa lógica orientou o desenvolvimento de tanques como o Leopard, o Abrams e o Strv 122, veículos concebidos para operar sob superioridade aérea e cobertura eletrônica plena da OTAN. A guerra da Ucrânia introduz uma variável nova a essa equação: talvez a vantagem tecnológica não esteja mais concentrada na plataforma, e sim migrando para a rede de sensores, drones e dados que a cerca. 

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O que isso significa para o Brasil 
Esse debate não é só ucraniano ou americano. Programas de blindados, sensores, guerra eletrônica, defesa antidrone, munições inteligentes e sistemas autônomos ocupam também a agenda dos militares e da indústria de defesa brasileira, e a experiência ucraniana tende a pesar sobre as próximas escolhas doutrinárias das Forças Armadas no País,  especialmente do Exército. 
 
A pergunta que atormenta o alto comando ucraniano, sobre como proteger uma plataforma blindada num campo de batalha saturado de sensores efetores baratos, é, em essência, a mesma que qualquer força blindada precisará responder daqui em diante, inclusive a brasileira, à medida que doutrina, aquisição e emprego de blindados forem reavaliados à luz da guerra na Europa.

De volta à floresta na região de Kharkiv, Energetyk segue trocando motores de tanques que talvez nunca mais disparem em combate. Entre os pinheiros, o silêncio interrompido apenas pelo canto dos pássaros contrasta com o rugido que essas máquinas ainda prometem entregar, um dia, aos comandantes ucranianos.

25 agosto, 2026

Da Mertsav ao KC-390: o que um Conselho Estratégico pode destravar entre Brasil e Turquia

De metralhadoras pesadas e drones a mísseis e caças, blindados, motores turbojato e aviões de transporte, as indústrias dos dois países já convergem em pelo menos cinco frentes; um acordo governo a governo tende a transformar negociações em curso em contratos fechados



*LRCA Defense Consulting - 25/08/2026

O telefonema entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, em 24 de agosto, e o consequente acordo para a criação de um Conselho Estratégico em nível de vice-presidentes, não nasce de uma relação incipiente. Nasce de um relacionamento que já amadureceu, item por item, ao longo de mais de vinte anos, e que nos últimos dois se acelerou de forma expressiva. Antes de se perguntar o que um acordo mais amplo entre os dois países pode gerar, vale medir o que já existe: e o que já existe é consideravelmente mais denso do que a maior parte da cobertura sobre o telefonema deixou entrever.

Um ponto de partida antigo 
A presença turca no mercado brasileiro de defesa não começou em 2026, nem em 2022. Já em 2021, a CBC lançava no Brasil, sob a marca CBC by ATA, os rifles de ferrolho Turqua, fabricados pela turca ATA Arms, um sinal discreto, mas precoce, de que a indústria turca de armas leves já enxergava o mercado brasileiro como destino natural. O que hoje se apresenta como novidade, drones, blindados, mísseis, é na verdade a maturação de um relacionamento comercial que já tinha raízes.

O Acordo de Cooperação na Indústria de Defesa entre os dois países foi assinado simultaneamente em Ancara e Brasília em 25 de março de 2022. Levou quatro anos para virar lei: o Senado brasileiro aprovou o texto (PDL 262/2024) em setembro de 2025, e a Comissão de Relações Exteriores da Grande Assembleia Nacional da Turquia (TBMM) fez o mesmo em abril de 2026, na mesma semana em que seu vice-ministro das Relações Exteriores, Mehmet Kemal Bozay, declarou perante a comissão que a parceria já "ultrapassou o estágio de intenções". Em novembro de 2024, o Ministério da Defesa já havia promovido, por meio do Departamento de Produtos de Defesa (Seprod), um Diálogo da Indústria de Defesa (DID) Brasil-Turquia que reuniu 14 empresas turcas e 13 brasileiras, uma iniciativa que remonta a conversas iniciadas em 2019.

Ou seja: quando os dois presidentes conversaram por telefone em agosto de 2026, eles não estavam abrindo uma porta. Estavam formalizando, no mais alto nível político, uma aproximação que a indústria e as Forças Armadas dos dois países já vinham construindo havia anos, quase sempre longe dos holofotes.

Cinco frentes já em movimento 
Aeronáutica
A Embraer e a Turkish Aerospace (TUSAŞ) assinaram, na LAAD de abril de 2025, um Memorando de Entendimento para avaliar a produção sob licença, na Turquia, dos jatos comerciais E190-E2 e E195-E2, com o vice-presidente Geraldo Alckmin presente à cerimônia. Meses depois, a paulista Akaer, parceira estrutural da TUSAŞ desde 2021 no caça-treinador HÜRJET (responsável pela fuselagem traseira e empenagens), recebeu em sua sede, em São José dos Campos, o vice-presidente executivo e o consultor de operações internacionais da TUSAŞ, além de manter, desde 2025, um memorando com a Aselsan para sistemas de defesa. 

Do lado dos aviões de transporte, o interesse é recíproco e crescente: o comandante da Força Aérea da Turquia visitou pessoalmente o KC-390 em operação em Portugal, em maio de 2026, num momento em que a frota turca de C-130 sofre pressão após a perda de uma aeronave, com toda a tripulação, na Geórgia, em novembro de 2025, e que a Grécia (rival e vizinha) sinaliza a compra do C-390.


Blindados
O programa "Nova Família de Veículos Blindados sobre Lagartas", que prevê 65 carros de combate e 78 veículos de combate de infantaria, afunilou-se a quatro finalistas, entre eles o Tulpar, da turca Otokar. Em outubro de 2025, o comandante do Exército Brasileiro, general Tomás Paiva, visitou a fábrica da Otokar em Sakarya; em abril de 2026, foi a vez do chefe do Estado-Maior, general Montenegro Junior, repetir a visita durante a LAAD 2026. A Otokar já sinalizou abertura para transferência de tecnologia e produção local, e a comunalidade entre a torre HITFACT MkII do Tulpar e a do Centauro II, já em uso no Brasil, é um argumento técnico a favor do blindado turco. 


Armas leves e coletivas
A Taurus negocia, desde a LAAD de abril de 2025, a aquisição do controle acionário da turca Mertsav Savunma Sistemleri, fabricante de metralhadoras leves e pesadas. Mesmo antes de a operação ser formalizada, a Taurus já venceu, via Estados Unidos, uma licitação para fornecer 300 metralhadoras Mertsav MMG762 ao Exército Brasileiro, e a Marinha assinou, em fevereiro de 2026, um protocolo com a Taurus para o desenvolvimento de sistemas de armas coletivas baseados justamente nos modelos turcos. Em abril de 2026, armas da Mertsav já eram apresentadas ao lado de produtos Taurus, sob o mesmo rótulo comercial, em evento institucional para as Forças Armadas. 


Mísseis
O míssil antinavio MANSUP-ER, da brasileira SIATT, ganhou alcance superior a 200 km (ante 70 km da versão original) graças ao motor turbojato KTJ-3200, da turca Kale Jet Engines, primeira exportação desse motor para fora da Turquia. O arranjo é trilateral, com o Grupo EDGE, dos Emirados Árabes Unidos, financiando e trazendo a Repkon, também turca, para a fabricação do corpo estrutural do míssil. 


Drones e defesa antiaérea
O drone Bayraktar TB2, da Baykar, é elegível ao edital brasileiro de VANTs armados, e o comandante do Exército já visitou a fábrica da empresa em 2025. O modelo mais recente, o TB3, é um dos itens hoje discutidos para eventual produção local destinada ao Sisfron, o sistema de monitoramento de fronteiras.

O que muda com um acordo mais amplo 
Se essa é a fotografia do presente, a pergunta relevante é o que um Conselho Estratégico em nível de vice-presidentes, com mandato para elaborar um roteiro bilateral, pode destravar em cada uma dessas frentes nos próximos anos.

No caso dos blindados, o efeito mais provável é político, não técnico. A decisão sobre o Tulpar já deveria seguir critérios de desempenho, custo e transferência de tecnologia; um guarda-chuva governo a governo tende a funcionar como acelerador de cronograma e como garantia de continuidade caso o programa avance por mais de um ciclo eleitoral, hipótese nada trivial em um contrato bilionário que atravessa gestões.

No caso da Mertsav, o acordo mais amplo dificilmente muda a lógica comercial da operação, que é da Taurus, mas pode acelerar aprovações regulatórias dos dois lados, sobretudo as que dependem de autorizações de exportação de tecnologia sensível de armas coletivas. Uma Taurus Turquia operando como quarta unidade produtiva do grupo, ao lado de Brasil, Estados Unidos e Índia, é um desfecho que já está desenhado; o que falta é o ritmo burocrático acompanhar o ritmo comercial.

O item mais promissor, e também o mais urgente do ponto de vista turco, é o aeronáutico. A Turquia precisa substituir uma frota de C-130 envelhecida e agora sob suspeita, depois do acidente fatal de novembro de 2025; comprou, como solução-ponte, C-130J usados da Royal Air Force, mas essa é uma resposta de curto prazo. O KC-390 já conquistou doze países, incluindo, em maio de 2026, os Emirados Árabes Unidos, sua estreia no Oriente Médio; um pedido turco, ainda que modesto no primeiro lote, teria peso simbólico desproporcional ao tamanho do contrato, pois colocaria o cargueiro brasileiro operando ao lado de aliados da OTAN na fronteira do Mediterrâneo Oriental, região de alta tensão geopolítica. Um acordo governo a governo, no molde do que já se pratica com a exportação de armas Mertsav, tende a ser o instrumento mais rápido para viabilizar essa venda, já que reduz a exposição de ambos os lados a processos de licitação aberta. 


Há ainda uma camada mais especulativa, mas que a imprensa turca já verbaliza havia meses: uma eventual participação brasileira, via Embraer ou Akaer, no desenvolvimento do caça de quinta geração KAAN, cujo primeiro protótipo voou em 2026. Nenhuma das duas empresas confirmou esse desdobramento, e é prudente tratá-lo como hipótese, não como fato; mas a lógica industrial da parceria, com a Akaer já dentro da estrutura do HÜRJET e da relação com a Aselsan, aponta nessa direção, e um Conselho Estratégico é exatamente o tipo de mecanismo político que costuma anteceder decisões desse porte.

No campo dos mísseis, o modelo trilateral do MANSUP-ER (Brasil integrando, Emirados financiando, Turquia fornecendo propulsão e componentes estruturais) já demonstrou funcionar. É razoável esperar que esse arranjo sirva de referência para outros programas, sobretudo em defesa antiaérea de curto alcance e sistemas contra drones, área em que a experiência turca, testada nos conflitos do Cáucaso e do Oriente Médio, é reconhecida internacionalmente.

Uma complementaridade, não uma dependência 
O argumento que sustenta essa aproximação não é apenas comercial. A Turquia lidera em drones, motores a jato e caças leves; o Brasil se destaca em aeronaves de transporte, jatos regionais e engenharia aeroespacial. Nenhum dos dois países está entregando ao outro uma dependência estratégica; ambos preenchem lacunas específicas nas cadeias industriais um do outro, o que é uma condição bem mais saudável, do ponto de vista de soberania, do que a relação clássica entre fornecedor único e comprador cativo.

Para o Brasil, gastando algo como US$ 25 bilhões anuais em defesa, a Turquia representa uma fonte de tecnologia livre de restrições ITAR e BAFTA, o que facilita exportações futuras de produtos que incorporem componentes turcos. Para a Turquia, cujo setor de defesa busca mercados além da OTAN, o País é um cliente de peso e uma porta de entrada para toda a América Latina, região onde a Otokar já negocia com a Colômbia e o KC-390 desperta interesse além das fronteiras brasileiras.

O risco a monitorar é o inverso do entusiasmo: acordos governo a governo tendem a acelerar processos que já estão tecnicamente maduros, mas raramente resolvem, por si só, gargalos orçamentários. O programa de blindados do Exército convive com restrições fiscais conhecidas, e a decisão sobre o Tulpar deverá refletir isso independentemente do que for costurado entre os vice-presidentes.

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