Governo português e Embraer estão em conversações avançadas para instalar na Base Aérea de Beja uma linha de montagem completa do A-29N Super Tucano, o primeiro avião militar a ser produzido "de A a Z" em solo português
*LRCA Defense Consulting - 29/04/2026
Um vento de novidade sopra sobre o Alentejo. Em Beja, a
cidade que durante décadas viu partir jovens em busca de trabalho nas grandes cidades, prepara-se agora para receber um dos maiores investimentos em indústria
de defesa da história recente de Portugal: uma fábrica da Embraer, a gigante
aeronáutica brasileira, destinada a produzir aeronaves militares Super
Tucano. O anúncio, feito a 17 de dezembro de 2025, e as declarações mais
recentes do ministro da Defesa, Nuno Melo, em finais de abril de 2026,
confirmam que o projeto avança com determinação.
A notícia mais recente chegou à margem da feira agropecuária
Ovibeja, onde o ministro garantiu que o Governo está dando "passos
largos" para a concretização do projeto. Na Base Aérea N.º 11, em Beja, já
existe inclusive um edifício identificado onde a fábrica poderá ser instalada,
tratando-se de instalações que foram "em tempos também pensadas para a
produção de aeronaves, que nunca aconteceu", revelou Nuno Melo.
"Eu não me recordo de há muitos anos, na verdade não
me recordo no passado, de alguma vez isto ter acontecido em Portugal - produzir
aviões militares de A a Z." - Nuno Melo, Ministro da Defesa Nacional,
Beja, Abril 2026
O ponto de partida formal ocorreu a 17 de dezembro de 2025,
nas instalações da OGMA - Indústria Aeronáutica de Portugal, em Alverca. Ali, o
ministro Nuno Melo e o presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança,
Bosco da Costa Júnior, assinaram uma carta de intenção para a abertura de uma
fábrica de aeronaves A-29N Super Tucano em Beja. A cerimônia coincidiu com a
entrega das primeiras cinco aeronaves desse tipo à Força Aérea Portuguesa, num total de 12 encomendadas, em contrato avaliado em 200 milhões de euros.
Portugal torna-se, com esta aquisição, o primeiro país
europeu a operar a nova variante NATO do Super Tucano, o A-29N, uma aeronave
reconfigurada segundo os padrões técnicos da Aliança Atlântica. A versão inclui
capacidades inéditas no inventário da Força Aérea Portuguesa, designadamente a
aptidão para missões de luta anti-drone, uma prioridade crescente entre os
aliados europeus à luz dos conflitos recentes.
Números-chave do projeto
- €200M é o investimento total na aquisição de 12 Super Tucano pela FAP
- 12 aeronaves A-29N encomendadas à Embraer pela Força Aérea Portuguesa
- €75M aplicados na indústria nacional para upgrades e adaptações OTAN
- 65%
é a participação da Embraer no capital da OGMA em Alverca
- 60 novas empresas de defesa criadas em Portugal só em 2025
- 22 forças aéreas no mundo operam o Super Tucano
A escolha de Beja não é aleatória. A cidade alentejana já
acolhe a Base Aérea N.º 11, um dos maiores aeródromos do país, com uma pista de
3.000 metros capaz de receber praticamente qualquer aeronave em serviço. Os
novos A-29N foram integrados na Esquadra 101, conhecida como "Roncos", e a Força Aérea lançou uma licitação pública de
2,85 milhões de euros para a construção de um edifício dedicado à esquadra de
voo, sinal claro de que a presença dos Super Tucano em Beja é estrutural e não
temporária.
"A partir do momento em que uma empresa com esta
dimensão se instala no conselho, é óbvio que vai servir de empresa-âncora para
que muitas outras venham e se fixem também." - Nuno Palma Ferro,
Presidente da Câmara Municipal de Beja, Dezembro 2025
O cronograma ambicioso prevê que o projeto fique
concretizado ainda durante 2026. Segundo o ministro Nuno Melo, "a
expectativa será a da concretização do projeto já para o final do ano,
partindo-se daí para a realização de obras infraestruturais, nomeadamente no
edifício já identificado na base militar de Beja, para que se parta para a
linha de produção".
Quanto à localização exata, o governante foi cauteloso,
limitando-se a afirmar que a fábrica ficará "no perímetro da Base de
Beja". A dúvida subsiste sobre se a unidade estará dentro da Base Aérea
N.º 11 propriamente dita, em terrenos contíguos, ou junto ao terminal civil do
aeroporto de Beja. Também o valor do investimento permanece por revelar, embora
o ministro tenha garantido que se trata de um projeto "business
oriented", ou seja, autossustentável, sem necessidade de outros apoios europeus, necessitando apenas de um "investimento mínimo na
adaptação das infraestruturas".
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| Super Tucanos na Base Aérea N.º 11, em Beja (ilustração por IA) |
A estratégia portuguesa segue o modelo já ensaiado com o
KC-390, o avião de transporte militar da Embraer que Portugal adquiriu cinco
unidades, com opção para mais dez, e que em grande parte é fabricado em
Portugal. No caso dos Super Tucano, a aposta é ainda mais ambiciosa: produzir
as aeronaves "de A a Z" em Beja, algo que o ministro da Defesa afirma
nunca ter acontecido antes com aviões militares no país.
A lógica industrial é clara: ao adaptar os Super Tucano aos
requisitos OTAN em Portugal, com a certificação da Autoridade Aeronáutica
Nacional, as aeronaves ficam habilitadas a ser adquiridas por outros países
membros da OTAN ou da União Europeia. A linha de montagem em Beja não servirá
apenas as necessidades nacionais; está projetada para responder à crescente
procura europeia por aeronaves de ataque leve com capacidade anti-drone.
A Embraer tem raízes profundas em Portugal. Além dos 65% que
detém no capital da OGMA, em Alverca, onde são produzidas peças para vários
modelos da empresa, a gigante brasileira conta com um centro de engenharia em
Lisboa e duas unidades produtivas que operaram no Parque de Indústria
Aeronáutica de Évora até 2022, quando foram vendidas à espanhola Aernnova. O
projeto de Beja representa, portanto, um regresso à produção aeronáutica de
componentes estratégicos em Portugal, desta vez com foco na montagem final de
aeronaves militares.
Para Beja e para o interior alentejano, as expectativas são
elevadas. O presidente da Câmara Municipal, Nuno Palma Ferro, vê na fábrica uma
oportunidade histórica: "Ficamos muito contentes porque Beja pode e deve
ser um dos vértices para que muitas indústrias aqui se reúnam". Para o
Governo, o projeto insere-se numa estratégia mais alargada de desenvolvimento
das indústrias de defesa nacionais, "um poderoso instrumento de coesão
social", nas palavras de Nuno Melo, que já levou ao nascimento de 60
novas empresas no setor só em 2025.
O Super Tucano é, pelo seu perfil operacional, uma aposta
estratégica de momento. Com mais de 600.000 horas de voo acumuladas por 22
forças aéreas no mundo, a aeronave combina versatilidade, custo operacional
reduzido e um repertório crescente de missões. A capacidade anti-drone, recentemente certificada pela Embraer, usando sensores eletro-ópticos e
foguetes guiados, tornou-o particularmente atrativo num continente que, desde
a guerra na Ucrânia, reavalia com urgência os seus meios de defesa. O argumento
comercial é direto: usar caças de última geração para abater drones de baixo
custo é economicamente absurdo; o Super Tucano oferece uma resposta eficaz e
economicamente racional.
Resta aguardar a concretização formal do acordo entre o
Governo e a Embraer, sendo que as próximas reuniões com representantes da empresa no
Brasil estão agendadas para breve. Mas os sinais, por ora, apontam todos na
mesma direção: Beja prepara-se para entrar no mapa aeronáutico europeu como
nunca antes na sua história.
Cronologia do projeto
Dez. 2024: contrato assinado
Portugal assina contrato de 200M€ com a Embraer para
aquisição de 12 aeronaves A-29N Super Tucano para a Força Aérea Portuguesa.
17 Dez. 2025: carta de intenção assinada na OGMA
Nuno Melo e Bosco da Costa Júnior (Embraer) assinam carta de
intenção para a fábrica em Beja. Entregues os primeiros cinco A-29N à Força
Aérea Portuguesa. Portugal torna-se o 1.º país europeu a operar esta variante
NATO.
Jan. 2026: licitação pública para infraestrutura
A Força Aérea lança licitação pública de 2,85M€ para
construção do edifício da Esquadra 101 em Beja, consolidando a presença dos
Super Tucano na base alentejana.
Abr. 2026: "passos largos" confirmados
À margem da Ovibeja, ministro Nuno Melo confirma que o
Governo avança com "passos largos" para a concretização da fábrica e
que reuniões com a Embraer no Brasil estão iminentes. Edifício na BA11 já
identificado.
Final 2026: a meta é o acordo formal e início das obras
O Governo espera concretizar o projeto e iniciar obras de
adaptação das infraestruturas na Base Aérea de Beja ainda durante 2026.