Manila estuda renovar a frota terrestre com centenas de veículos de combate, e o blindado brasileiro, já presente no país, surge como candidato favorecido pela experiência prévia, mesmo sem lista oficial de concorrentes
*LRCA Defense Consulting - 01/08/2026
O Departamento de Defesa Nacional das Filipinas (DND) anunciou a intenção de adquirir mais de 500 blindados para ampliar a mobilidade e a proteção de suas forças terrestres, abrindo espaço para que o VBTP-MR Guarani 6x6, fabricado no Brasil pela Iveco Defence Vehicles (IDV), volte a ser considerado em Manila. O veículo já integra o Exército filipino desde 2024, mas o DND ainda não divulgou uma lista oficial de plataformas candidatas ao novo programa.
O anúncio filipino
O plano foi
revelado pelo secretário de Defesa Nacional das Filipinas, Gilberto Teodoro
Jr., em entrevista à emissora estatal Radyo Pilipinas, em 23 de julho de 2026.
Segundo o ministro, o País asiático pretende adquirir mais de 500 fighting
vehicles para permitir que as tropas terrestres reajam com mais rapidez a
ameaças e reduzam a necessidade de deslocamentos a pé. Teodoro afirmou ainda
que as novas viaturas deverão funcionar como fator de dissuasão, mas não
revelou valores, cronograma ou requisitos técnicos, alegando razões de
segurança.
O porta-voz do Exército filipino (Philippine Army), coronel Louie Dema-ala, confirmou publicamente o apoio da força ao plano, classificando veículos modernos e confiáveis como essenciais para que os soldados respondam com rapidez, manobrem com eficácia e cumpram missões com mais proteção. Dema-ala remeteu ao próprio DND qualquer detalhamento adicional sobre o programa.
A frota blindada atual das Filipinas inclui os tanques leves Sabrah e FV101 Scorpion, variantes do transporte blindado M113 e viaturas sobre rodas como o Kia KM450 e o K151 Raycolt, conjunto majoritariamente envelhecido diante do cenário de tensão no mar do Sul da China. O próprio anúncio ocorre em meio à ampliação de exercícios conjuntos das unidades blindadas filipinas com forças dos Estados Unidos e do Japão, incluindo manobras com viaturas de combate japonesas Type 16, o que sugere que Manila poderá buscar uma combinação de veículos sobre rodas e sobre lagartas, e não a compra de um único modelo para a totalidade do programa.
O histórico do Guarani em
Manila
O
relacionamento entre o Guarani e o Exército filipino não é novo. Em 2020, a
Elbit Systems, empresa israelense responsável pela integração de subsistemas,
foi confirmada como vencedora de um contrato de aproximadamente US$ 46 milhões
para o fornecimento de 28 unidades do VBTP-MR 6x6 Guarani, fabricadas pela IDV
em Sete Lagoas (MG). Os veículos recebem torre remotamente controlada,
metralhadora de 12,7 mm ou canhão automático de 30 mm conforme a configuração,
sistema de gerenciamento de campo de batalha Torch-X e rádio definido por
software E-LynX, ambos da Elbit.
As primeiras cinco unidades chegaram ao Porto de Manila em fevereiro de 2024. Um segundo lote de nove unidades foi embarcado no Porto de Santos em 2025. Segundo reportagem publicada pela revista Sociedade Militar em 31 de julho de 2026, relatos especializados mais recentes indicam que apenas 14 das 28 viaturas contratadas teriam sido efetivamente entregues até aquele momento, com os atrasos atribuídos majoritariamente à integração dos sistemas da Elbit, e não à fabricação da plataforma pela IDV. Como o governo filipino e as empresas envolvidas não divulgaram um balanço público detalhado do contrato, o número exato de unidades já incorporadas ao Exército filipino deve ser tratado com ressalva.
A exportação do Guarani às Filipinas também já enfrentou um obstáculo regulatório. Em 2023, o Escritório Federal de Assuntos Econômicos e Controle de Exportações da Alemanha (BAFA) suspendeu temporariamente a exportação de componentes de origem alemã presentes no blindado, entre eles aço balístico, placas de proteção contra minas, periscópios, partes da transmissão e componentes do sistema de refrigeração. A restrição foi revertida meses depois, após negociações entre os governos envolvidos, permitindo a continuidade das entregas. O episódio expôs a dependência de uma cadeia internacional de fornecedores em um produto fabricado no Brasil e deve pesar na avaliação filipina sobre segurança de fornecimento em qualquer encomenda futura.
Por que o Guarani é visto como
favorito, sem ser garantido
A principal
vantagem do Guarani é a experiência operacional já acumulada pelo Exército
filipino com a plataforma, somada à estrutura logística, de manutenção e de
treinamento já implantada para sua operação. A adoção de um modelo já conhecido
tende a reduzir custos com ferramental, peças de reposição, simuladores e
formação de equipes técnicas, além de facilitar a integração de novas unidades
a uma cadeia logística já em funcionamento.
Há, no entanto, uma diferença de nomenclatura relevante entre o produto brasileiro e o anúncio filipino. O Guarani atualmente em serviço nas Filipinas é classificado principalmente como veículo blindado de transporte de pessoal, enquanto o termo fighting vehicles, usado por Teodoro, remete normalmente a um veículo de combate de infantaria, categoria que costuma receber armamento mais pesado e missão de apoio direto às tropas desembarcadas. Como o DND ainda não revelou os requisitos técnicos do programa, permanece em aberto se a futura encomenda incluirá o Guarani, viaturas mais pesadas, veículos sobre lagartas ou uma combinação de plataformas especializadas.
A relação de defesa entre
Brasil e Filipinas
O vínculo
militar entre os dois países ultrapassa o programa Guarani. Brasil e Filipinas
assinaram, em 2022, um memorando de cooperação em defesa que abriu espaço para
iniciativas em logística, indústria, treinamento e intercâmbio tecnológico. Em
fevereiro de 2026, o DND classificou o Brasil como parceiro relevante para seu
programa de modernização das Forças Armadas e como seu único parceiro formal de
defesa na América Latina, sinalizando interesse em ampliar a cooperação
industrial. A Força Aérea das Filipinas também opera seis unidades do A-29
Super Tucano, da Embraer, outro produto brasileiro incorporado ao processo de
modernização militar filipino, o que reforça o histórico institucional que pode
facilitar negociações governamentais e novos acordos industriais em torno do
Guarani, ainda que cada aquisição dependa de avaliação própria.
Mudança de controle acionário
da fabricante
O cenário
industrial por trás do Guarani também mudou nos últimos meses. Em 18 de março
de 2026, o grupo italiano Leonardo concluiu a aquisição da Iveco Defence
Vehicles e da marca de caminhões militares ASTRA, negócio avaliado em
aproximadamente €1,6 bilhão. A operação inclui a planta de Sete Lagoas (MG),
onde é fabricado o Guarani, e reorganiza a IDV como uma OEM (Original Equipment
Manufacturer) integrada ao portfólio de eletrônica, sensores e torres da
Leonardo, com potencial de elevar o padrão de exportação do blindado
brasileiro.
Um desdobramento corporativo mais recente, contudo, ainda gera incerteza sobre o desenho final do grupo. Segundo comunicado da própria Leonardo, reproduzido pela Investing.com em 31 de julho de 2026, a companhia mantém negociações não vinculativas com a alemã Rheinmetall sobre a venda de parte da IDV recém-adquirida. O diretor financeiro do grupo, Giuseppe Aurilio, descreveu a existência de um acordo de cavalheiros com a Rheinmetall, sem caráter formalmente vinculativo, e classificou a venda como uma entre várias alternativas em avaliação, e não a única. O executivo destacou que o negócio de caminhões da IDV está em crescimento e é lucrativo, o que colocaria a Leonardo em posição mais confortável para negociar. O diretor-executivo Lorenzo Mariani acrescentou que o grupo recebeu consultas de outras partes interessadas na mesma unidade.
É importante notar que essas tratativas com a Rheinmetall dizem respeito, segundo fontes internacionais como Defense Post e MarketScreener, ao negócio de caminhões militares e logísticos da IDV, marcas ASTRA e Eurocargo, e não à linha de veículos blindados de combate, na qual se insere o Guarani. Ainda assim, o episódio confirma que a reestruturação societária em torno da fabricante segue em curso, num momento em que Manila avalia expandir sua frota blindada, o que reforça a relevância de acompanhar a governança da IDV como variável relevante para qualquer negociação futura entre Brasil e Filipinas.
O que ainda não está confirmado
Até o
fechamento desta reportagem, nenhuma fonte filipina ou brasileira havia
confirmado a inclusão formal do Guarani em uma licitação ou lista restrita do
novo programa de mais de 500 veículos. O DND não divulgou plataformas
candidatas, valores ou cronograma. A menção ao blindado brasileiro no
noticiário internacional decorre, por ora, de inferência editorial baseada no
histórico de relacionamento e na infraestrutura logística já instalada nas
Filipinas, e não de documento oficial de licitação.




.jpg)


.jpg)

