Pesquisar este portal

05 setembro, 2026

Estudo na revista Science mostra que El Niño nunca foi tão forte em mil anos

Reconstrução publicada na revista Science aponta variabilidade do fenômeno 36,5% maior desde 1984 do que em todo o período entre os anos 1000 e 1850; em Porto Alegre, prosseguem as obras e projetos, enquanto o Comando Militar do Sul já realizou o planejamento de suas próprias medidas preventivas


*LRCA Defense Consulting - 05/09/2026

Passados quase dois meses da última reportagem da LRCA Defense Consulting, publicada em 11 de julho sob o título "À espera do novo El Niño: o Rio Grande do Sul entre a ciência, a prevenção e a capacidade de resposta", dois fatos novos justificam voltar ao tema. O primeiro é científico: um estudo publicado em 27 de agosto na revista Science reconstituiu mil anos de temperatura do Pacífico equatorial a partir de corais das Ilhas Galápagos e concluiu que os episódios de El Niño das últimas quatro décadas são os mais fortes de todo o período analisado, com indícios de que a intensificação tem origem humana. O segundo é local: um levantamento técnico do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS), de 1º de setembro, revela que o sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, formado pelo Muro da Mauá, diques e casas de bombas, segue apenas parcialmente recuperado desde a catástrofe de 2024.

O que os corais de Galápagos revelam sobre os últimos mil anos
A pesquisa foi conduzida por Julia Cole, do Departamento de Ciências da Terra e do Ambiente da Universidade de Michigan, com colaboração de cientistas da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. A equipe coletou 13 amostras de esqueletos de coral, vivos e fósseis, nas Ilhas Galápagos, região situada no ponto de origem da formação do El Niño. Como os corais incorporam ano a ano, em seu esqueleto de carbonato de cálcio, elementos-traço da água do mar ao redor, a proporção de estrôncio e a razão isotópica do oxigênio-18 registradas em cada camada funcionam como um termômetro histórico do oceano.

O resultado, segundo os autores, é uma das reconstruções mais confiáveis já produzidas sobre a variabilidade do fenômeno: a oceanógrafa Kim Cobb, que não participou do estudo, classificou o trabalho, em entrevista à CNN, como próximo de um "padrão-ouro". Os dados mostram que a variabilidade do El Niño desde 1984 é 36,5% maior do que em todo o período entre os anos 1000 e 1850, e que os eventos das últimas quatro décadas superam em intensidade qualquer outro registrado no milênio estudado. Para Julia Cole, a coincidência entre esse salto e o aquecimento global de origem humana não parece casual: "Se alguém questionar essa conclusão, eu gostaria de saber qual seria a explicação alternativa", disse a pesquisadora à revista Science.

O estudo recupera, para efeito de comparação histórica, o custo de dois episódios recentes: o El Niño de 1982 e 1983, que provocou enchentes no Quênia e no Peru e seca na Indonésia e no Brasil, com perdas estimadas em até US$ 4 trilhões à economia global; e o de 1997 e 1998, que resultou em 23 mil mortes por doenças e desastres climáticos ao redor do mundo. Segundo os pesquisadores, o El Niño em curso já apresenta sinais de poder rivalizar com esses dois episódios em magnitude.

O prognóstico segue piorando desde julho
Os números oficiais também subiram desde a última reportagem da LRCA Defense Consulting. Em 29 de junho, o primeiro boletim conjunto de Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil (SGB) e Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) já apontava probabilidade superior a 90% de o fenômeno persistir até pelo menos o início de 2027, com alta chance de um El Niño muito forte. Em 9 de julho, o Climate Prediction Center, da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), elevou de 63% para 81% a chance de o evento atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026.

Já em julho, a força do novo padrão climático se manifestou na prática: entre os dias 26 e 28, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul emitiu alerta para tempestades com granizo, rajadas de vento acima de 90 quilômetros por hora e acumulados de até 200 milímetros de chuva em 48 horas, colocando em monitoramento permanente os rios Uruguai, Jacuí e Ibirapuitã. Boletins mais recentes de previsão para setembro, mês em que o fenômeno segue se fortalecendo, indicam chuva frequente e risco de temporais em diversas regiões gaúchas, com o pico do El Niño projetado para a transição entre a primavera e o início do verão, podendo atingir, segundo alguns modelos, intensidade inédita.

Porto Alegre: a defesa contra cheias avança, mas segue incompleta
O dado mais sensível para o Rio Grande do Sul, porém, é local. Segundo o pesquisador Rodrigo Paiva, do IPH/UFRGS, ouvido em reportagem publicada em 1º de setembro, é difícil afirmar se uma nova cheia terá magnitude igual à de 2024, mas o novo El Niño exige a aceleração de medidas preventivas. Paiva reconhece avanços: investimentos em Defesa Civil, em sistemas de previsão e na reconstrução de pontes e estradas, estas projetadas com maior resiliência a eventos climáticos extremos. A principal vulnerabilidade, no entanto, persiste na capital gaúcha.

De acordo com o pesquisador, o sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, composto pelo Muro da Mauá, diques e casas de bombas, foi severamente danificado em 2024 e ainda não está totalmente recuperado. Apresentações do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) mostram que os esforços de intervenção foram grandes, mas apenas parte das falhas foi corrigida, enquanto a maioria dos trabalhos necessários segue com obras em andamento ou ainda em fase de projeto.

E na Defesa? Nos EUA e no Brasil, boletins do El Niño tendem a ser tratados como indicador de ameaça militar
Se a vulnerabilidade civil de Porto Alegre segue exposta, o mesmo alerta vale, em outra dimensão, para as próprias Forças Armadas. Em 28 de julho, o jornal norte-americano Defense News publicou artigo de opinião de John Conger, ex-subsecretário adjunto principal de Defesa dos Estados Unidos para assuntos orçamentários, defendendo que comandos militares tratem boletins de El Niño como indicador de ameaça, testando com meses de antecedência suas próprias reservas de energia, combustível e água, suas rotas de acesso e seus sistemas de comunicação, além de reforçar a capacidade de socorrer a população civil.

A pergunta tem endereço direto no Rio Grande do Sul, sede do Comando Militar do Sul (CMS), a Grande Unidade do Exército Brasileiro com maior efetivo do País (cerca de 50 mil militares, um quarto de toda a Força, distribuídos por 160 organizações militares). O próprio núcleo histórico e administrativo do CMS, na Rua da Praia, em Porto Alegre, foi atingido pela enchente de 2024: o alagamento chegou a cortar a energia do Quartel-General Integrado e a tirar do ar, por um período, os sistemas lógicos então concentrados fisicamente no prédio, sob responsabilidade do Centro de Telemática de Área (CTA).

Questionado por esta reportagem sobre o que mudou desde então, o CMS informou que foi elaborado um plano de evacuação do Quartel-General que prevê a continuidade das operações administrativas e de comando no 3º Regimento de Cavalaria de Guarda (3º RCG), organização militar da Região Metropolitana de Porto Alegre. Quanto à infraestrutura de TI, o Comando confirmou que os servidores continuam fisicamente no mesmo local, mas que passou a existir a possibilidade de link com os servidores de outro Comando Militar de Área, dando redundância à estrutura e evitando que uma nova interrupção local volte a tirar os sistemas do ar. 

O CMS acrescentou que as demais organizações militares sob seu comando também reanalisaram e melhoraram os planos de contingência próprios para eventos climáticos severos, reforçando ainda as capacidades de apoio à população civil. Ou seja: assim como a defesa física de Porto Alegre contra cheias, a defesa da própria continuidade administrativa do Exército no Rio Grande do Sul já foi posta à prova em 2024 e, segundo o Comando, foi proativamente redesenhada desde então, permanecendo sob constante monitoramento.

O que muda com esses dois achados
Antes, o alerta sobre o El Niño no Rio Grande do Sul se apoiava em boletins de probabilidade e no precedente direto de 2024. Agora, um estudo publicado em revista científica de referência sugere que o próprio fenômeno está estruturalmente mais forte do que em qualquer momento dos últimos mil anos, e que essa mudança tende a ser permanente, não um pico isolado. 

Ao mesmo tempo, duas vulnerabilidades identificadas em 2024, a defesa física de Porto Alegre contra cheias e a continuidade administrativa do Comando Militar do Sul, aparecem em situações distintas: a primeira, ainda sob ameaça; a segunda, conforme o próprio CMS, já planejada e reforçada.


Fontes: revista Science; Julia Cole (Universidade de Michigan); CNN; Inmet; Inpe; ANA; Cemaden; SGB; Sedec; Noaa/Climate Prediction Center; Defesa Civil do Rio Grande do Sul; Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS; DMAE; LRCA Defense Consulting.

Analista turco defende compra do C-390 para substituir C-130 na força aérea da Turquia

Artigo do centro de estudos ODAP, de Istambul, aponta o cargueiro da Embraer como caminho para renovar a frota de transporte militar turca e aprofundar a cooperação industrial com o Brasil



*LRCA Defense Consulting - 05/09/2026 

Um artigo publicado nesta sexta-feira (4) pelo ODAP (Centro de Estudos do Oriente Médio, Eurásia e Ásia-Pacífico), think tank sediado em Istambul, defende que o C-390 Millennium, cargueiro militar fabricado pela Embraer, é a alternativa mais adequada para substituir a envelhecida frota de C-130 Hercules operada pela Força Aérea da Turquia. O texto é assinado por Umur Tugay Yücel, cientista político e especialista em política externa, e argumenta que a troca de plataforma envolve, além do aspecto técnico, dimensões estratégicas, econômicas e geopolíticas para Ancara.

Uma frota que envelhece 

Segundo o autor, o C-130 forma há décadas a espinha dorsal do transporte aéreo militar turco, cumprindo missões que vão da ajuda humanitária a operações transfronteiriças e atividades da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). No entanto, boa parte dos exemplares em serviço na Turquia foi produzida ainda nas décadas de 1960 e 1970, com base em um projeto que remonta aos anos 1950. Programas de modernização estenderam a vida útil da frota, mas, para Yücel, não bastam mais diante do envelhecimento estrutural, do aumento dos custos de manutenção e das exigências do ambiente de combate atual, como guerra eletrônica e sistemas digitais de missão.

O artigo também associa a dependência de plataformas americanas a riscos políticos, citando as restrições sofridas pela Turquia no programa do caça F-35 em razão da lei americana Caatsa (Countering America's Adversaries Through Sanctions Act, ou lei de combate aos adversários dos Estados Unidos por meio de sanções).

O C-390 como resposta às novas exigências 
Yücel descreve o C-390 como um projeto concebido do zero para as necessidades operacionais do século XXI, e não apenas como herdeiro dos cargueiros tradicionais. Entre os pontos destacados estão a velocidade de cruzeiro de Mach 0,8, obtida com motores turbofan; a capacidade de carga de aproximadamente 26 toneladas, com compatibilidade total com paletes padrão da Otan; e a arquitetura de aviônica baseada em comandos de voo eletrônicos, a chamada tecnologia fly-by-wire, que reduz a carga de trabalho do piloto e amplia a segurança de voo. O texto lembra ainda a versatilidade da aeronave, empregada como cargueiro, aeronave de reabastecimento em voo, plataforma de busca e salvamento e para evacuação médica, além de sua capacidade de transportar até 84 militares.

O artigo cita a adoção do C-390 por países da Otan como Portugal, Países Baixos, Hungria, República Tcheca, Eslováquia e Suécia, além da Coreia do Sul e do Uzbequistão, este último membro da Organização dos Estados Turcos, como indicativo da maturidade tecnológica da aeronave e de sua compatibilidade com os padrões da aliança.

Um novo eixo de cooperação entre Turquia e Brasil 
Para o cientista político, o principal atrativo do C-390 para Ancara vai além da ficha técnica. O artigo sustenta que a compra da aeronave poderia evoluir para produção conjunta, compartilhamento de tecnologia e centros locais de manutenção, com a participação de empresas turcas como TAI, ASELSAN, HAVELSAN e TEI no ecossistema industrial do C-390. Segundo o autor, a infraestrutura aeroespacial turca oferece base suficiente para esse tipo de parceria, enquanto as políticas de controle de exportação do Brasil, mais flexíveis do que as dos Estados Unidos, tornariam a Embraer um parceiro estratégico para um país que busca autonomia em sua cadeia de suprimentos de defesa.

O texto conclui que a escolha do C-390 se somaria à política externa turca de diversificação de parceiros, reduzindo a dependência de Washington e de fornecedores europeus e projetando uma cooperação de defesa entre Turquia e Brasil em ambos os lados do Atlântico. 
 

Comandante da Força Aérea da Turquia, general Ziya Cemal Kadıoğlu, visitou a Base Aérea de Beja, 
em Portugal, para conhecer de perto o C-390


Negociações já em curso 

A publicação do ODAP chega em meio a negociações que já estão em andamento entre os dois países. Em abril de 2025, durante a Feira Internacional de Defesa e Segurança (LAAD), no Rio de Janeiro, a Turkish Aerospace e a Embraer assinaram um memorando de entendimento para explorar cooperação industrial, incluindo a produção de jatos comerciais E190 e E195-E2 na Turquia. Na mesma ocasião, o então ministro da Defesa do Brasil, José Múcio Monteiro, afirmou à agência Reuters que a Embraer negociava a venda do C-390 também para Turquia, Polônia e Finlândia.

Mais recentemente, o comandante da Força Aérea da Turquia, general Ziya Cemal Kadıoğlu, visitou a Base Aérea de Beja, em Portugal, para conhecer de perto o C-390 que equipa a esquadra portuguesa, em um gesto interpretado pela imprensa especializada como sinal do interesse turco em suceder a frota de C-130. Segundo apurações da LRCA Defense Consulting, o Brasil segue como facilitador diplomático das negociações, que incluem, além da Turquia, países como Polônia, Grécia, Colômbia e Marrocos.

O artigo completo, em inglês, está disponível no site do ODAP.

04 setembro, 2026

EDGE conclui compra da Akaer e usa participação da SIATT para preservar selo de empresa estratégica de defesa

Com fatia minoritária da SIATT na aeroespacial de São José dos Campos, grupo dos Emirados Árabes Unidos fecha a terceira aquisição na base industrial de defesa brasileira desde 2023



*LRCA Defense Consulting - 04/09/2026 

O EDGE, conglomerado estatal de defesa e tecnologia dos Emirados Árabes Unidos, anunciou nesta sexta-feira (4) a conclusão da compra da Akaer, empresa de engenharia aeroespacial de São José dos Campos (SP). O anúncio confirma o fechamento do negócio cujo acordo de compra e venda de ações, o share purchase agreement, havia sido assinado em cerimônia realizada em julho, quando as partes revelaram a intenção de transferir 100% do capital da companhia brasileira ao grupo emiradense.

Segundo comunicado da EDGE, todas as condições precedentes usuais para o fechamento da operação foram cumpridas, o que torna a Akaer, na prática, uma subsidiária integral do grupo dos Emirados. “A conclusão desta aquisição marca um importante passo para a EDGE no Brasil. Aguardamos com expectativa a contribuição contínua da Akaer para o ecossistema de defesa do País e a força que seu talento de engenharia traz às capacidades da EDGE em todo o grupo”, disse Hamad Al Marar, diretor-presidente (CEO) da EDGE.

A novidade: SIATT entra no capital da Akaer 
O ponto que distingue esta etapa da operação em relação ao que havia sido anunciado em julho é a estrutura societária adotada para viabilizar o fechamento. A EDGE informou que, como parte da transação, uma participação minoritária no capital da Akaer será mantida pela SIATT, empresa brasileira de mísseis e sistemas de alta tecnologia da qual o próprio grupo emiradense já é sócio. Segundo a EDGE, esse desenho societário reflete a estrutura corporativa acertada para a aquisição, com o objetivo de preservar o enquadramento da Akaer como Empresa Estratégica de Defesa (EED), classificação concedida pelo Ministério da Defesa a companhias responsáveis pelo desenvolvimento ou pela produção de bens e tecnologias consideradas essenciais à defesa nacional.

A fórmula chama a atenção porque, até então, o mecanismo discutido publicamente para a manutenção do status de EED da Akaer era a permanência de uma participação brasileira direta, nos moldes do que ocorre na própria SIATT, cujos sócios fundadores brasileiros mantêm o controle votante da empresa. Ao colocar a SIATT, e não um sócio brasileiro independente, como titular da fatia minoritária da Akaer, a EDGE cria uma cadeia societária em que uma empresa já parcialmente sua passa a deter parte de outra companhia do mesmo grupo em solo brasileiro. O desenho definitivo da governança e o percentual exato reservado à SIATT não foram detalhados pelas empresas.

Quem é a Akaer
Fundada em 1992 e sediada em São José dos Campos, a Akaer acumula mais de 10 milhões de horas de engenharia aeroespacial em programas civis e militares. A empresa participou do desenvolvimento do caça F‑39 Gripen, da Força Aérea Brasileira; do cargueiro multimissão KC‑390 Millennium, da Embraer; da revitalização estrutural das asas dos aviões de patrulha P‑3AM Orion; e venceu, em 2023, a licitação para modernizar o blindado EE‑9 Cascavel do Exército. A companhia também assina o Opto‑ThermoScan, sistema de medição de temperatura corporal, e foi selecionada recentemente pela alemã Deutsche Aircraft para fabricar a fuselagem dianteira do turboélice D328eco, tornando‑se a primeira fornecedora brasileira de nível 1 (Tier 1) da indústria aeroespacial global.

A companhia já trabalhava em parceria com a EDGE no desenvolvimento e na industrialização de sistemas não tripulados antes mesmo da aquisição, incluindo o programa de drone de grande porte JENIAH. Segundo o diretor financeiro (CFO) da EDGE, Rodrigo Torres, cerca de 40% da receita da Akaer já vinha de contratos com o grupo emiradense no momento do anúncio, em julho.

Como a venda chegou a esse ponto 
A negociação avançou em meio a dificuldades financeiras enfrentadas pela Akaer, que acumulou dívidas e passou a ter problemas para honrar compromissos com funcionários e fornecedores. Em julho, Torres afirmou à CNN Brasil que o Ministério da Defesa e integrantes das Forças Armadas procuraram a EDGE durante a feira LAAD para discutir alternativas que evitassem o fechamento da empresa, pedindo que se avaliasse uma parceria capaz de impedir a falência da companhia. O governo havia liberado, via Finep, R$ 41,3 milhões para a Akaer; parte da verba foi cancelada em 2025 em razão de um suposto desvio de recursos.

O atual controlador da Akaer, Cesar Silva, deixará a gestão da empresa, mas deve permanecer como consultor da EDGE por um período de um a dois anos, segundo apurado à época do anúncio. A estrutura acionária da companhia também facilitou a operação: a sueca Saab, que chegou a deter 42,21% da holding Akaer Participações S.A., teve sua fatia integralmente recomprada pela então controladora Connectus Gestão e Participações em outubro de 2023, com aprovação sem restrições do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), o que dispensou a negociação com um sócio estrangeiro na operação com a EDGE.

Terceira aquisição do grupo emiradense na defesa brasileira 
A Akaer é a terceira compra da EDGE na base industrial de defesa (BID) brasileira desde setembro de 2023. As duas anteriores foram a SIATT, cujos sócios fundadores brasileiros mantêm 50,1% do capital e 60% do capital votante, e a Condor Tecnologias Não Letais, líder mundial em armamentos não letais, na qual a EDGE detém participação majoritária. Executivos do grupo já afirmaram publicamente que o investimento acumulado da EDGE no Brasil soma cerca de R$ 3 bilhões (em torno de US$ 590 milhões). O valor pago pela Akaer não foi divulgado pelas empresas.

Com Akaer, Condor e SIATT sob o mesmo guarda-chuva, o grupo passa a reunir, dentro do País, capacidades que vão do projeto conceitual de plataformas (com a Akaer) a mísseis guiados e sistemas de navegação (com a SIATT) e armamentos não letais (com a Condor). A Akaer também aparece, segundo dossiê do International Institute for Strategic Studies (IISS) sobre sistemas não tripulados no Oriente Médio, como parceira de projeto do motor do REACH-S, UAV da ADASI, subsidiária da EDGE, e do Samoom, drone da saudita Intra Defense Technologies, ao lado da sul-africana Hensoldt e da belga ULPower Aero Engines.

Questionamentos sobre soberania 
A operação também gerou reação de entidades ligadas à ciência e à engenharia nacionais. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Clube de Engenharia e outras entidades levaram à Presidência da República um pedido de suspensão da operação e de auditoria, argumentando que a manutenção do enquadramento como EED para uma empresa de controle integralmente estrangeiro representa um nó jurídico ainda não resolvido. Até a conclusão do negócio, o governo não havia explicitado publicamente o critério que seria adotado para validar a preservação do status da Akaer.

Analistas da BID citam como precedente a aquisição da Atmos Sistemas pela sueca Saab, em 2020, quando decisões de engenharia e propriedade intelectual passaram, no médio prazo, a migrar para fora do raio de influência nacional, o que reforça o interesse em acompanhar como a EDGE conduzirá a governança e a transferência de tecnologia na Akaer.

O que observar daqui para frente 
Falta ainda esclarecer o percentual exato da participação da SIATT no capital da Akaer e o desenho final de governança que sustentará o enquadramento como EED perante o Ministério da Defesa. Também merece atenção o ritmo de novos anúncios prometidos pela EDGE para o Brasil, inclusive em cibersegurança e produção local, que podem indicar se o padrão agora observado, de uma empresa do próprio grupo servindo de veículo para cumprir exigências societárias brasileiras, se repetirá em outras companhias da base industrial de defesa nacional.

03 setembro, 2026

Japonesa ANA Holdings assina novo pedido de oito jatos E190-E2 à Embraer

Acordo eleva para 23 as encomendas firmes da companhia aérea japonesa pela família E2 e confirma decisão do conselho de administração tomada em julho


 
*LRCA Defense Consulting - 03/09/2026 

A Embraer e a ANA Holdings Inc. (ANA HD) assinaram, nesta sexta-feira (4), em Tóquio, o contrato para a compra de oito aeronaves E190-E2. O acordo formaliza a decisão anunciada em 29 de julho de 2026 pelo conselho de administração da holding japonesa de ampliar sua frota regional e eleva para 23 o total de encomendas firmes da ANA HD pela família E2 da fabricante brasileira. A companhia japonesa ainda mantém cinco opções de compra adicionais para o mesmo modelo.

O novo pedido se soma ao contrato original, firmado em fevereiro de 2025, por 15 unidades firmes do E190-E2, com opção para outras cinco. Segundo apuração da imprensa especializada, a operação atual está avaliada em cerca de 105 bilhões de ienes (em torno de US$ 642 milhões) e as entregas devem ocorrer entre os anos fiscais de 2029 e 2032; já a primeira aeronave E2 da ANA HD, oriunda do contrato original, tem entrega prevista para 2028.

"Este pedido adicional de E190-E2 acelera nossos esforços para construir uma rede de aviação regional sustentável no Japão", afirmou Koji Shibata, presidente e CEO da ANA Holdings. "Isso também reforça nossa confiança na tecnologia da Embraer para reduzir tanto o impacto ambiental quanto os custos operacionais. Estamos animados em aprofundar essa parceria, elevando a conectividade regional e proporcionando uma experiência superior aos passageiros em todo o Japão."

"Estamos honrados com a confiança contínua da ANA HD no pequeno narrowbody E2 da Embraer e aguardamos poder apoiar os planos de crescimento da companhia aérea no Japão", declarou Arjan Meijer, presidente e CEO da Embraer Aviação Comercial. "Com sua economia excepcional e eficiência de combustível, o E2 vai apoiar a ampliação da conectividade em todo o Japão, além de oferecer mais conforto e espaço aos passageiros."

De acordo com veículos do setor, as oito novas aeronaves serão operadas pela IBEX Airlines, parceira regional da ANA, em um esquema de ACMI (aeronave, tripulação, manutenção e seguro fornecidos por terceiros), em substituição aos jatos CRJ700 atualmente empregados pela companhia. Pelo modelo, a ANA segue responsável pelo planejamento de rotas, pela programação e pela venda de passagens, enquanto a IBEX responde pela operação dos voos.

A escolha do E190-E2 pela ANA ocorreu depois do fim do programa SpaceJet, da Mitsubishi Aircraft, do qual a companhia japonesa era cliente lançadora. A fabricante japonesa tentou por anos certificar o jato regional até que a Mitsubishi Heavy Industries cancelasse o projeto em 2023, após sucessivos atrasos e bilhões de dólares em custos de desenvolvimento.

O E190-E2 integra a família E-Jets E2 da Embraer, reconhecida pela eficiência de combustível, pelas menores emissões, pelos níveis reduzidos de ruído e pela experiência superior de passageiros. Segundo a fabricante, a versatilidade da aeronave permite às companhias aéreas atender com eficiência tanto mercados já existentes quanto novas rotas, com ganhos operacionais e ambientais relevantes. Os E-Jets da Embraer operam no Japão desde 2009 e contam com suporte de pessoal da fabricante brasileira no País.

Estabelecida em 2013, a ANA Holdings é a maior holding de grupo aéreo do Japão, reunindo 72 empresas. O grupo inclui a companhia aérea de serviço completo All Nippon Airways (ANA) e a Peach Aviation Limited, principal companhia aérea de baixo custo do País. A ANA HD supervisiona um portfólio diversificado de negócios centrado no transporte aéreo, incluindo operações de passageiros e de carga, além de empresas de apoio ao setor de aviação. O grupo destaca ainda a classificação máxima de cinco estrelas da SKYTRAX conquistada pela ANA anualmente desde 2013, feito que faz da companhia a única aérea japonesa a manter a distinção por 13 anos consecutivos; também figura entre as empresas mais admiradas do mundo segundo a revista Fortune e integra o Dow Jones Best-in-Class World Index há nove anos consecutivos.

Do laboratório da USP às Forças Armadas: como a XMobots construiu uma indústria brasileira de drones de combate

Com mais de R$ 220 milhões investidos em soluções de Defesa desde 2022, empresa de São Carlos verticaliza tecnologia, avança em drones armados e mira operações navais e enxames autônomos 

Nauru 1000C armado com míssil MBDA Enforcer Air


*LRCA Defense Consulting - 03/09/2026 

A XMobots, fabricante brasileira de veículos aéreos não tripulados sediada em São Carlos, interior de São Paulo, informou ter destinado mais de R$ 220 milhões, desde 2022, ao desenvolvimento de soluções para Defesa e Segurança. O valor, revelado pela própria empresa, soma-se a outros R$ 11 milhões aplicados entre 2010 e 2022 em projetos de pesquisa apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 


Reinaldo Junior - Diretor de Defesa da XMobots

Fundada em 2007 por Giovani Amianti, então estudante de mestrado da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), a empresa nasceu incubada no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia da própria universidade (Cietec-USP). Quase duas décadas depois, tornou-se a única fabricante brasileira de drones próprios fornecidos simultaneamente ao Exército Brasileiro, à Marinha do Brasil, à Receita Federal e ao Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), além de ocupar, segundo o ranking da consultoria alemã Drone Industry Insights, a sexta posição entre as maiores empresas de drones do mundo. 

Uma cadeia produtiva verticalizada dentro de casa 
Com sede em São Carlos, polo aeronáutico e universitário do interior paulista, a XMobots conta atualmente com quadro de funcionários que já superou 500 colaboradores, mais da metade deles engenheiros de diferentes especialidades. Essa estrutura sustenta o principal diferencial da empresa: a verticalização de toda a cadeia tecnológica e produtiva, da engenharia aeronáutica ao software embarcado, passando por aviônicos, sensores, inteligência artificial, estruturas e propulsão.

Segundo a empresa, essa integração reduz peso, potência e custo dos sistemas, em abordagem que a companhia compara à lógica adotada pela Apple na integração entre software e hardware. A capacidade instalada de produção já ultrapassa duas mil unidades por ano, considerando as diferentes plataformas da linha Nauru e o sensor XSIS 222A. 

Linha de produção do Nauru 1000C

Nauru 1000C do Exército Brasileiro

Família Nauru: da vigilância tática ao ataque com munição 
O portfólio militar da XMobots está reunido na Família Nauru, conjunto de plataformas de diferentes portes e capacidades voltadas a missões de inteligência, vigilância, reconhecimento e aquisição de alvos, a chamada ISTAR.

O menor da linha, o Nauru 100D, pesa 9 kg, emprega tecnologia eVTOL (decolagem e pouso vertical elétrico) e alcança até seis horas de autonomia em campanha, com alcance de 30 quilômetros. Sua evolução armada, o Nauru 100D UCAV, foi apresentada ao Alto Comando do Exército em maio de 2026, durante o Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre, e voltou a ser exibida em abril, na LAAD Security Milipol Brazil, com direito a demonstração conjunta das versões ISR e UCAV que atingiu o alvo com precisão de 1,4 metro.

O Nauru 500C ISR, de 25 kg e autonomia de quatro horas, foi o primeiro VTOL autorizado pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) a operar além da linha de visada visual (BVLOS) no país, incluindo autorização inédita para voos noturnos obtida em 2024. Está hoje em uso pelo Censipam, pela Marinha do Brasil e pela Polícia Militar de Santa Catarina, além de empresas do setor de celulose.

Já o Nauru 1000C ISTAR, com 181 kg e autonomia de dez horas, é o modelo mais robusto em operação, entregue ao 1º Batalhão de Aviação do Exército, em Taubaté, no interior paulista, em dezembro de 2022. Passou por avaliação técnica e operacional do Centro de Avaliações do Exército (CAEx), concluída em julho de 2024, e por experimentação doutrinária encerrada em dezembro do mesmo ano, tendo ainda participado das operações Perseu (novembro de 2024) e IVR (março de 2025), esta última conjunta entre Exército, Marinha e Força Aérea.

Ao longo de sua trajetória, a Família Nauru acumulou cerca de 5 mil horas de voo e 5 mil operações, distribuídas entre mais de 1.500 voos do Nauru 100D, aproximadamente 2.600 do Nauru 500C e cerca de 800 do Nauru 1000C. 


Nauru 100D na versão bombardeiro (acima) e em voo noturno (abaixo)

Sensores, aviônicos e navegação: a arquitetura por trás dos drones 
Por trás das plataformas está uma arquitetura tecnológica própria, desenvolvida progressivamente pela empresa. Ela inclui os softwares de comando e controle XCockpit e XSIS Manager; o sistema de gerenciamento automático de bordo AMS XG, de sétima geração, que aplica redundâncias e aciona paraquedas em caso de falha; a navegação por filtro de Kalman estendido (EKF); o controle robusto TECS (Total Energy Control System); e o enlace de rádio definido por software com salto de frequência (FHSS), que blinda as comunicações contra tentativas de bloqueio deliberado, o jamming.

A empresa aposta ainda em baterias de lítio-íon em estado semi-sólido com troca rápida em campo (quick-connect), estruturas em polímeros avançados, espumas de impacto e tubos de carbono, e em manufatura aditiva combinada à injeção plástica para produção em escala.

No campo dos sensores, o XSIS 222A, de aproximadamente 6 kg e arquitetura compacta de baixo peso, consumo e tamanho (SWaP), integra imageamento diurno e noturno, câmera térmica, telêmetro a laser, rastreamento automático de alvos e leitura de placas veiculares por inteligência artificial. Desenvolvido originalmente para o Nauru 1000C ISTAR, o sensor já é adaptado também a helicópteros tripulados, como o Airbus AS350.

A empresa destaca ainda um algoritmo próprio de lançamento de alta precisão, testado no Nauru 100D UCAV com erro circular provável inferior a 2 metros, que corrige em tempo real os efeitos do vento e da velocidade sobre a munição, dispensando ajustes manuais do operador e permitindo que a aeronave seja recuperada, rearmada e reempregada em novas missões. 

Nauru 1000C ISTAR com sensor XSIS 222A

Marinha, Petrobras e a corrida pela Amazônia Azul 
A aproximação com a Marinha do Brasil se intensificou ao longo de 2026. Em fevereiro, o comandante Carlos Alexandre Tunala da Silva, oficial superior do Corpo de Fuzileiros Navais, visitou a sede da empresa em São Carlos para avaliar o emprego do Nauru 100D em missões de reconhecimento e vigilância em ambientes litorâneos, fluviais e expedicionários. Em abril, o drone foi testado pelos Fuzileiros Navais na Ilha da Marambaia, no litoral fluminense, em voos diurnos e noturnos. Em maio, autoridades de alto escalão da Marinha, incluindo o diretor geral do Material da Marinha, retornaram à empresa para tratar da integração de plataformas eVTOL a operações embarcadas em navios de superfície.

Em janeiro de 2026, a XMobots iniciou, em parceria com a Marinha e com a Petrobras, um programa orçado em R$ 50 milhões para adaptar a Família Nauru a operações navais e offshore, contemplando resistência à salinidade e à umidade, comunicação por satélite (SATCOM) e pouso e decolagem a partir de plataformas móveis. O interesse da Marinha se relaciona à vigilância da chamada Amazônia Azul, o território marítimo de cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados sobre o qual o Brasil reivindica direitos soberanos, hoje monitorado com apoio limitado de meios não tripulados nacionais. 


Nauru 500C na Marinha do Brasil

Capital, sócios e credenciamento como empresa de Defesa 
A expansão da XMobots no setor de Defesa acompanhou mudanças relevantes em sua estrutura societária. Em setembro de 2022, a Embraer anunciou acordo para participação minoritária na companhia, por meio de fundo cujo único cotista era a própria fabricante aeroespacial, com opção de aportes adicionais no futuro. O negócio sucedeu uma rodada Série A de R$ 30 milhões captada em 2019, liderada pelo fundo Aerotec, com participação da Confrapar. Em janeiro de 2024, a gestora Spectra adquiriu fatia de 20% na XMobots, movimento que coincidiu com ampliação da participação da Embraer, sem que os valores das transações fossem divulgados.

No plano regulatório, a razão social XMobots Aeroespacial e Defesa Ltda. figura entre as empresas avaliadas pelo Ministério da Defesa para credenciamento como Empresa Estratégica de Defesa (EED), categoria prevista na Lei 12.598/2012 que reconhece companhias consideradas essenciais à soberania tecnológica nacional. A companhia consolidou uma estrutura dedicada ao setor, a XMobots Defense, apresentada durante a LAAD Defence & Security de 2025 e hoje comandada por Reinaldo de Campos Gonçalves Junior, executivo com mais de dez anos de experiência no setor e passagens por empresas como Akaer, Becker Avionics e IACIT.

“Nossa estratégia é construir uma capacidade de Defesa que não termine na entrega de uma aeronave. Dominamos a engenharia, a produção, a integração, o treinamento, a manutenção e a evolução tecnológica do sistema. Essa verticalização nos permite responder com mais agilidade às necessidades das Forças Armadas e, ao mesmo tempo, manter dentro do País o conhecimento necessário para sustentar capacidades estratégicas”, afirma Reinaldo. 

Conceito de sistema contentorizado projetável da XMobots para emprego de enxames de drones 
(Créditos: @Defence360)

Cooperação internacional e o caminho até o UCAV nacional 
A evolução das plataformas armadas contou também com cooperação tecnológica externa. Em 2022, a XMobots firmou acordo com a MBDA, uma das principais empresas globais do setor de mísseis, para integrar os mísseis Enforcer Air ao Nauru 1000C. A parceria permitiu à empresa brasileira acumular conhecimento posteriormente aproveitado no desenvolvimento das capacidades armadas do Nauru 100D.

Para a XMobots, projetar, integrar, testar e operar uma aeronave de combate reutilizável exige domínio de múltiplas áreas de engenharia e sistemas críticos, competência que a empresa associa ao objetivo de reduzir a dependência de sistemas armados importados e fortalecer a cadeia produtiva nacional.

Próximas fronteiras: enxames, plataformas armadas e o Nauru 3000D 
Entre os projetos em desenvolvimento está o Nauru 1000C Armado, evolução da plataforma ISTAR para missões de ataque, avaliando arquitetura de ataque em mergulho (dive bomber) semelhante à do Nauru 100D, na qual o Nauru 1000C ISTAR identifica e acompanha o alvo enquanto uma segunda aeronave armada recebe os dados de posição, deslocamento e vento necessários ao cálculo da trajetória.

Outra frente é o Nauru 100D Swarm, arquitetura para coordenação de múltiplas aeronaves em uma mesma operação. Na configuração em desenvolvimento, três aeronaves cuidam do reconhecimento do ambiente e da aquisição de alvos, enquanto outras 27 atuam de forma coordenada a partir das informações obtidas durante a missão, combinando navegação, enlace de dados, processamento de informações e comando e controle compartilhados.

A empresa desenvolve ainda o Nauru 3000D, plataforma de maior porte, configuração VTOL, propulsão híbrida e até 14 horas de autonomia, projetada para módulos intercambiáveis de missões ISTAR, transporte de carga e transporte de tropas. Em cenário de referência estudado pela própria companhia, considerando o transporte equivalente a 28 soldados ao longo de 20 anos de operação, a solução distribuída com o Nauru 3000D apresentaria custo total cerca de 54% inferior ao de uma solução equivalente baseada em helicópteros, mantendo capacidade de transporte semelhante.

A companhia organiza essa evolução em um roteiro próprio, o programa FW1000, que classifica as plataformas em quatro categorias crescentes de porte e complexidade, da CAT0 (Nauru 100D) à CAT3 (Nauru 3000X), com certificação prevista para 2028. 


Uma indústria em ascensão dentro da Base Industrial de Defesa 
O avanço da XMobots ocorre em meio à expansão mais ampla da Base Industrial de Defesa brasileira em sistemas não tripulados, movimento que também inclui empresas como Taurus e Ambipar Robotics. Para analistas do setor, o desafio remanescente é a articulação dessas iniciativas dispersas em torno de uma estratégia nacional integrada para drones e robôs de combate, capaz de orientar prioridades de investimento e doutrina entre Exército, Marinha e Força Aérea.

Enquanto essa arquitetura institucional amadurece, a XMobots segue como a referência mais visível do setor: fornecedora estabelecida de duas três Forças Armadas brasileiras que hoje operam drones nacionais, parceira de programas industriais internacionais e protagonista dos primeiros testes brasileiros de drones armados reutilizáveis.

Embraer e SPX Capital se unem para criar gigante da cibersegurança

Troca de ações une Tempest e Vision Cybersecurity e mira expansão na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa



*LRCA Defense Consulting - 03/09/2026 

A Embraer e a SPX Capital vão se tornar sócias em uma nova companhia de cibersegurança, com receita anual superior a R$ 700 milhões. O acordo, formalizado por meio de troca de ações, prevê a aquisição da Tempest Security Intelligence, hoje controlada pela fabricante de aeronaves, pela Vision Cybersecurity, empresa sob controle da gestora paulista. A operação foi anunciada nesta quinta-feira (3), em São Paulo.

A transação ainda depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e de outros órgãos reguladores. Após sua conclusão, a SPX assumirá o controle e a maior fatia acionária do grupo resultante, enquanto a Embraer passará a integrar o quadro societário como acionista relevante e seguirá também como cliente da companhia. Os valores da operação e os percentuais de participação de cada sócia não foram divulgados.

O comando do novo grupo ficará com André Fleury, hoje CEO da Vision. Mais do que somar clientes e receita, ele diz que a ambição é construir um player capaz de atuar em toda a cadeia de segurança cibernética, do desenvolvimento de tecnologias e do monitoramento recorrente até a detecção, a contenção e a recuperação de ataques. Segundo Fleury, existem hoje apenas três ou quatro empresas no mundo capacitadas a oferecer esse tipo de serviço completo, e a união das duas companhias brasileiras abre espaço para que o grupo resultante também ocupe essa posição. "Queremos ser o principal player de cibersegurança para essas empresas no Brasil e no mundo", afirma.

As duas empresas têm atuações complementares. Voltada a empresas de médio porte, a Vision presta serviços gerenciados de cibersegurança, os chamados MSSP (managed security service provider), monitorando sistemas de clientes de forma contínua para identificar e neutralizar ameaças antes que se tornem incidentes. Já a Tempest, nascida de um grupo de pesquisa acadêmica em Recife (PE) há 26 anos, concentra-se em grandes empresas e setores críticos da economia, como bancos, energia, óleo e gás e saúde, com um portfólio que vai da consultoria à integração de tecnologias e identidade digital.

João Lins, CEO da Tempest, que passará a ocupar a vice-presidência de tecnologia e inovação do grupo combinado, afirma que boa parte dos concorrentes atua apenas em nichos específicos ou se limita à revenda de produtos, ao passo que a união das duas companhias permite atender o mercado de cibersegurança de forma mais abrangente. Segundo ele, as carteiras de clientes de Tempest e Vision praticamente não se sobrepõem, o que reforça o potencial de ganho de escala combinado.

A empresa resultante da fusão terá cerca de 900 profissionais e mais de 600 clientes corporativos, cujos nomes não foram revelados por questões de segurança. Num primeiro momento, as marcas Tempest e Vision seguirão operando de forma independente; o nome definitivo do grupo será decidido à medida que a integração avançar. Assessoraram a operação o Bradesco BBI e o Madrona Advogados, pelo lado da Embraer, e o Mattos Filho, pelo lado da SPX.

A movimentação dá continuidade a um relacionamento antigo entre Embraer e Tempest. A fabricante brasileira de aeronaves entrou no capital da empresa pernambucana por volta de 2015, por meio de um fundo de investimento, tornou-se acionista majoritária em 2020 e concluiu a aquisição da totalidade da companhia em 2023, movida pela avaliação de que a cibersegurança é uma camada estratégica tanto para a área de defesa quanto para a aviação. Já em 2024, a Embraer chegou a contratar o Bradesco BBI para buscar um comprador para a Tempest, dentro de uma estratégia de concentração em negócios considerados core business.

Do outro lado da mesa, a Vision nasceu como spin-off da ISH Tecnologia, empresa capixaba fundada em 1996 e pioneira em cibersegurança no País, que passou a concentrar sua atuação em contratos com o setor público. A SPX começou a analisar o mercado brasileiro de cibersegurança e a mapear oportunidades de consolidação em 2025 e, em janeiro deste ano, formalizou um investimento de até R$ 400 milhões na Vision, assumindo participação majoritária na companhia; Rodrigo Dessaune, fundador da ISH, permanece como presidente do conselho de administração de ambas as empresas. A operação teve assessoria da Ártica.

O movimento ocorre em um mercado brasileiro de cibersegurança ainda bastante fragmentado, apesar de o País figurar entre os mais visados por ataques cibernéticos no mundo; o setor foi estimado em cerca de US$ 2 bilhões em 2024, com penetração de serviços ainda considerada baixa em relação a mercados mais maduros.

A expansão para fora do Brasil é apontada pelos executivos como o passo seguinte da estratégia. Fleury cita a América Latina como o mercado natural mais próximo e, na sequência, a América do Norte e a Europa, nesta ordem. Segundo ele, a lógica é sustentada tanto pela tecnologia quanto pela base de clientes: parte das empresas brasileiras atendidas pelo grupo já opera internacionalmente e demanda serviços de cibersegurança integrados em escala global. "Não ficamos devendo nada para as empresas de fora", diz Fleury.

Postagem em destaque