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30 abril, 2026

Avibras Aeroco: renasce a maior empresa de defesa do Brasil

Sob a liderança de Sami Hassuani,  ASTROS, MTC-300 e MTB definirão a nova era do poder de fogo brasileiro 


*LRCA Defense Consulting - 30/04/2026

A empresa que fabricou o míssil mais lucrativo já produzido no Brasil, capaz de saturar áreas inimigas a dezenas de quilômetros de distância e vendido por mais de US$ 1 bilhão apenas entre 1982 e 1987, passou os últimos quatro anos à beira da falência, com trabalhadores sem salário, credores à porta e potências estrangeiras circulando à espera de um aceno. Nesta quinta-feira (30/04), a Avibras Aeroco anunciou oficialmente o início de suas operações, encerrando um dos capítulos mais turbulentos da história da indústria de defesa brasileira.

A nova empresa surge das cinzas da Avibras Indústria Aeroespacial, fundada em 1961 em Jacareí, interior de São Paulo, e que chegou ao início desta década completamente estrangulada financeiramente. Constituída com capital privado brasileiro e governança renovada, a Avibras Aeroco herda o portfólio tecnológico, os contratos estratégicos e, sobretudo, o legado de décadas de engenharia aeroespacial que tornou o Brasil um ator singular no tabuleiro global de defesa.

O colapso
A trajetória que levou à criação da Avibras Aeroco começa com o colapso financeiro que se aprofundou a partir de 2020, quando uma combinação de redução de encomendas governamentais, atrasos em contratos internacionais e endividamento acelerado tornou insustentável a operação da empresa. Em março de 2022, a Avibras pediu recuperação judicial com dívidas declaradas de R$ 394 milhões, valor que, segundo estimativas posteriores, chegaria a superar R$ 1,5 bilhão quando somados os passivos com trabalhadores, fornecedores e órgãos públicos.

O impacto humano foi imediato e doloroso. Cerca de 900 funcionários ficaram sem receber salários por um período que se estendeu por mais de 28 meses, levando a uma greve histórica que paralisou a fábrica a partir de setembro de 2022. No auge, a empresa havia empregado 6.000 pessoas; no momento do colapso, operava com uma fração disso. Ao longo de 2024 e 2025, três grupos estrangeiros demonstraram interesse em adquirir ou financiar a companhia: o conglomerado de defesa chinês Norinco, a australiana DefendTex e a saudita Black Storm Military Industries. O interesse estrangeiro acendeu o alerta em Brasília e no Exército. A Avibras não era apenas uma empresa em dificuldades, era detentora de tecnologias de propulsão e integração de sistemas que países desenvolvidos há décadas tentam restringir a seus aliados mais próximos.

A disputa pela soberania
O risco de que a empresa fosse vendida a um grupo estrangeiro galvanizou uma reação interna. O governo federal chegou a estudar um plano de resgate com R$ 600 milhões, sendo metade de capital privado e metade de financiamento público via Finep e BNDES, mas o modelo não se concretizou na forma planejada.

Quem deu o passo decisivo foi o Fundo Brasil Crédito, que havia se tornado o principal credor da empresa e elaborou um plano alternativo de reestruturação. O plano foi aprovado por 99,2% dos credores presentes na Assembleia Geral. Em agosto de 2025, a Avibras passou por uma troca de controle e inaugurou uma nova gestão focada na implementação do plano.

Em março de 2026, dois marcos jurídicos fundamentais foram alcançados. Em 10 de março, o Tribunal de Justiça de São Paulo rejeitou, por unanimidade, todos os recursos contra o plano de recuperação judicial, mantendo-o válido em sua integralidade. No dia seguinte, os trabalhadores aprovaram, em assembleia sindical, a proposta de pagamento da dívida trabalhista de R$ 230 milhões em até quatro anos, encerrando uma paralisação histórica de 1.280 dias.

A entrada do empresário Joesley Batista, controlador da J&F, holding que detém a JBS, a maior processadora de carnes do mundo, completou o quadro de financiamento. Batista assinou contrato para participar de uma captação de R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito, tornando-se um dos investidores da retomada. Segundo apuração do jornal O Estado de S. Paulo, ele havia condicionado sua participação exatamente ao cumprimento do acordo trabalhista, condição que se concretizou no mês de março.

O que é a Avibras Aeroco
A nova empresa que emerge desse processo é constituída como uma entidade jurídica distinta, com "bases sólidas de governança, de estrutura financeira e de operação", conforme seu comunicado de lançamento. Ela reúne os ativos estratégicos e o portfólio tecnológico da antiga Avibras, mas nasce sem o peso do passivo que estrangulou a predecessora.

À frente, como Diretor-Presidente, está Sami Hassuani (foto ao lado), engenheiro com mais de 40 anos de trajetória nos setores de defesa e aeroespacial, e figura já conhecida e respeitada da empresa. Hassuani havia presidido a antiga Avibras e esteve associado ao Fundo Brasil Crédito durante o processo de reestruturação. Sua presença sinaliza continuidade técnica e conhecimento profundo dos contratos e relações institucionais que a empresa mantém com o Exército Brasileiro.

"Agregar consistência e visão estratégica ao negócio é fundamental para o desenvolvimento da Avibras Aeroco, especialmente em um setor que exige planejamento de longo prazo, relações de confiança e continuidade nas parcerias. Acredito na importância de alinhar tecnologia e propósito, e de reforçar o papel das soluções desenvolvidas em função das necessidades operacionais e estratégicas de nossos clientes", declarou Hassuani no comunicado de lançamento.

Conheça mais sobre o Presidente da Avibras Aeroco nesta matéria: "Sami Youssef Hassuani: o arquiteto da resiliência e o futuro da Avibras".

O legado tecnológico e os novos programas
A razão pela qual tantos atores nacionais e estrangeiros, públicos e privados, disputaram o controle da Avibras está inscrita no portfólio de tecnologias que a empresa desenvolveu ao longo de décadas.

O carro-chefe é o Sistema de Artilharia ASTROS (Artillery Saturation Rocket System), lançador múltiplo de foguetes desenvolvido nos anos 1980 e comprovado em combate em múltiplos conflitos, das Guerras do Golfo ao uso pela Arábia Saudita contra alvos iraquianos em 1991. O sistema foi exportado para Iraque, Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Angola, Malásia e Indonésia, entre outros países. Só entre 1982 e 1987, as vendas do ASTROS II totalizaram US$ 1 bilhão, tornando-o a arma mais lucrativa já produzida pela Avibras e lançando o Brasil ao posto de sexto maior exportador de armas do mundo naquele período.

A versão mais moderna, o ASTROS 2020, está no centro de um dos projetos de modernização mais ambiciosos já anunciados pelo Exército Brasileiro. Em março de 2026, o Exército oficializou a transformação do programa ASTROS no que passa a se chamar "FOGOS", uma plataforma multidomínio que integra artilharia de foguetes, mísseis de cruzeiro e um inédito sistema de defesa antiaérea contra drones e mísseis, com investimentos de R$ 3,4 bilhões previstos para o período 2026–2031. Esse contexto é inseparável do novo marco legal que permite excluir até R$ 30 bilhões do arcabouço fiscal para investimentos em defesa.

No horizonte imediato da Avibras Aeroco estão dois programas críticos. O primeiro é o Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300), com alcance de 300 quilômetros, precisão circular inferior a 9 metros e capacidade de voar a baixa altitude para evitar sistemas de defesa, o que coloca o Brasil em um seleto grupo de países com essa tecnologia. O segundo é o Míssil Tático Balístico (MTB), com alcance superior a 100 quilômetros, evolução do sistema S-80 da antiga linha de produtos.

Ambos os programas são prioritários para o Exército. A retomada imediata das operações da nova empresa terá o MTC-300 como foco central.


O contexto geopolítico
O ressurgimento da Avibras acontece em um momento em que o mercado global de defesa experimenta uma expansão sem precedentes desde o fim da Guerra Fria. A invasão russa da Ucrânia em 2022 acelerou o rearmamento europeu e redefiniu percepções de segurança em todo o mundo. Países que antes hesitavam em investir em capacidades militares próprias, hoje competem por acesso a tecnologias de propulsão, sistemas de mísseis e plataformas de lançamento.

Nesse cenário, as capacidades que a Avibras Aeroco detém, em especial a expertise em propulsão de foguetes e a integração de sistemas complexos, tornam-se ainda mais raras e valiosas. A transferência desse tipo de conhecimento é estritamente controlada por tratados internacionais e regimes de controle de exportação como o Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR), do qual o Brasil é membro. Isso significa que países que querem desenvolver capacidades similares não têm a opção de simplesmente comprá-las no mercado aberto: precisam de parceiros que já as possuam e que estejam dispostos a compartilhá-las, ou precisam adquirir as empresas que as detêm.

Foi precisamente esse cálculo que orientou o interesse de grupos como o Norinco chinês e a saudita Black Storm na Avibras durante os anos de crise. E foi esse mesmo cálculo que motivou a resistência brasileira a uma eventual venda a interesses estrangeiros.

Desafios pela frente
Apesar do alívio que o anúncio de hoje representa, analistas do setor alertam que a retomada não será trivial. O BTG Pactual, por exemplo, contesta judicialmente o plano de reestruturação liderado pelo Fundo Brasil Crédito, alegando que ativos dados como garantia no processo foram comprometidos pelo acordo; o banco cobra cerca de R$ 40 milhões. Há também a questão dos R$ 300 milhões de financiamento público via Finep, BNDES ou PAC, que não foram concluídos, e que poderiam compor a segunda metade do plano original de capitalização.

A pergunta mais profunda permanece em aberto: conseguirá uma empresa de defesa de capital essencialmente privado manter a consistência de investimento que projetos de longo prazo de desenvolvimento de mísseis exigem? Diferentemente de setores de consumo, onde o mercado fornece sinais rápidos de retorno, programas como o MTC-300 exigem décadas de desenvolvimento, relações institucionais profundas e um Estado disposto a ser cliente fiel e de longo prazo.

É justamente essa equação que Sami Hassuani terá de resolver à frente da Avibras Aeroco, com a história da antiga empresa como lição e o interesse renovado das Forças Armadas como seu principal trunfo. Mas Sami tem capacidade, conhecimento e determinação suficientes para liderar esse processo com as melhores chances de êxito.

Bem-vinda, Avibras Aeroco!

Exército Brasileiro inicia 2ª fase de testes com a Viatura Guarani – Implemento de Engenharia no CAEx


*LRCA Defense Consulting - 30/04/2026

O Centro de Avaliações do Exército (CAEx) deu início, em 27 de abril, aos ensaios da Viatura Blindada de Transporte de Pessoal – Média sobre Rodas (VBTP-MR) Guarani na configuração Implemento de Engenharia, em sua segunda fase. A atividade envolve a Diretoria de Fabricação (DF), a Diretoria de Material de Engenharia (DME), a empresa IVECO Defence Vehicles (IDV) e o apoio de militares do Batalhão Escola de Engenharia (BEsE). 

A viatura, baseada na plataforma 6x6 do Guarani, incorpora implementos específicos para atividades de desminagem, limpeza de superfície e marcação de solo. Esses equipamentos visam ampliar as capacidades de engenharia de combate, permitindo que as tropas superem obstáculos, removam minas terrestres e preparem itinerários em cenários de alta complexidade operacional.

A fase atual de testes ocorre após a conclusão, em 10 de abril, da instrumentação completa da viatura pela IVECO. Essa etapa é fundamental para garantir a coleta de dados precisos e confiáveis durante os ensaios. O Laboratório de Ensaios Veiculares (LEV) do CAEx, sob chefia da Capitão Mayara Magalhães Carvalho, coordena os trabalhos técnicos em parceria com a indústria. 

O que está sendo avaliado
Durante os testes, são realizados ensaios padronizados de desempenho veicular e operacional, incluindo:
- Aceleração;
- Velocidade máxima e mínima;
- Transposição de rampas e degraus;
- Determinação do raio de giro;
- Outras verificações dinâmicas e funcionais.

Os procedimentos seguem normas que asseguram rastreabilidade, repetibilidade e representatividade dos resultados, fornecendo subsídios técnicos sólidos para análises e decisões no âmbito do Exército Brasileiro. A campanha intensiva de testes, que teve preparação entre os dias 13 e 17 de abril, tem previsão de encerramento em meados de junho. 

Contexto do projeto
A VBTP-MR Guarani, desenvolvida em parceria entre o Exército Brasileiro e a IVECO, é a principal plataforma blindada sobre rodas da Força Terrestre, projetada para substituir veículos mais antigos como o EE-11 Urutu. Com tração 6x6, motor diesel de aproximadamente 383 cv, blindagem em forma de V capaz de resistir a minas e capacidade anfíbia, o Guarani destaca-se pela modularidade, permitindo diversas configurações (transporte de pessoal, comando, ambulância, entre outras).

A variante de Engenharia faz parte do esforço de modernização do Programa Guarani. Implementos como lâminas dozer, braços manipuladores e sistemas de remoção de obstáculos — alguns originários de parcerias internacionais, como com a Pearson Engineering — transformam o chassi em uma ferramenta versátil para engenharia de combate. Essa capacidade é essencial em operações mecanizadas, onde a mobilidade sob ameaça (superação de campos minados, remoção de barricadas ou preparação de rotas) torna-se fator decisivo. 

A 15ª Brigada de Infantaria Mecanizada (“Brigada Guarani”), em Palmas (PR), já atua na criação da doutrina de emprego dessas viaturas.

Importância estratégica
Segundo fontes do Exército, a atividade reforça a integração entre centros de pesquisa, diretorias técnicas, tropa e indústria de defesa. O desenvolvimento bem-sucedido do Guarani Implemento de Engenharia contribuirá diretamente para o incremento do Poder de Combate da Força Terrestre, entregando um material seguro, confiável e eficaz para as unidades de engenharia das brigadas mecanizadas.

“Essa variante amplia uma capacidade crítica: garantir mobilidade sob risco em operações de alta complexidade”, destacam análises especializadas. O projeto alinha-se à estratégia de autonomia tecnológica e fortalecimento da Base Industrial de Defesa nacional. 

A conclusão bem-sucedida dos testes no CAEx representa mais um passo na consolidação da família Guarani como plataforma versátil e moderna, capaz de atender às demandas atuais e futuras do Exército Brasileiro em diferentes teatros de operações. 

Jato executivo Embraer Praetor 600E de nova geração conquista tripla certificação da ANAC, FAA e EASA


 
*LRCA Defense Consulting - 30/04/2026

A Embraer anunciou hoje que o Praetor 600E conquistou a tripla certificação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), da FAA (Administração Federal de Aviação dos EUA) e da EASA (Agência Europeia para a Segurança da Aviação).

A certificação segue o lançamento da nova aeronave, juntamente com o Praetor 500E, em fevereiro de 2026, quando ambos foram apresentados como a primeira evolução da família Praetor, líder do setor. Este marco confirma a prontidão do Praetor 600E para operações globais, atendendo aos rigorosos requisitos de segurança e desempenho, ao mesmo tempo que inaugura uma nova era de experiência em cabine.


“A conquista da tripla certificação da ANAC, FAA e EASA é um marco importante para o Praetor 600E”, disse Michael Amalfitano, Presidente e CEO da Embraer Executive Jets. “Desde o anúncio da aeronave em fevereiro, as vendas para novos clientes e o feedback do mercado têm sido excepcionalmente positivos. Esta tripla certificação é uma clara validação da excelência em engenharia da Embraer e acelera nosso caminho para a entrada em serviço para clientes em todo o mundo.”

Com um alcance intercontinental de 4.018 milhas náuticas (7.441 km), capacidade para quatro passageiros e reservas IFR da NBAA, o Praetor 600E possibilita voos sem escalas entre importantes cidades, como Londres-Nova York e São Paulo-Miami. Complementando essa capacidade de desempenho, o modelo mais recente apresenta uma cabine completamente reimaginada, com assentos totalmente novos projetados pela Embraer, um Sistema de Gerenciamento de Cabine (CMS) avançado e tecnologia de última geração que eleva o conforto, a produtividade e a conectividade.

O Praetor 600E apresenta uma tecnologia de cabine inédita no setor com uma Smart Window™ com tela sensível ao toque OLED 4K de 42 polegadas, um recurso opcional que oferece um novo nível de funcionalidade e imersão. Essa tela sensível ao toque exclusiva da Embraer permite videoconferências, streaming de conteúdo em alta resolução e visualizações externas em tempo real por meio de três câmeras externas. Com a opção de configurar um sofá em frente à Smart Window™, a cabine se torna um ambiente versátil para reuniões, filmes e outras formas de entretenimento.


O jato supermédio também conta com o abrangente pacote de aviônicos da Embraer, incluindo a tecnologia fly-by-wire completa, exclusiva da classe, com redução ativa de turbulência, o Sistema de Visão Aprimorada Embraer (E2VS) e o Sistema de Alerta e Conscientização de Ultrapassagem de Pista (ROAAS), reduzindo a carga de trabalho do piloto, aprimorando a consciência situacional e proporcionando voos mais suaves, além de expandir a flexibilidade operacional para uma gama maior de destinos.

Espera-se que o Praetor 500E receba a tripla certificação até o final de 2026. Para novos pedidos, as entregas de ambas as aeronaves estão previstas para começar em 2029. 

29 abril, 2026

Portugal se prepara para fabricar aviões de guerra: a fábrica da Embraer em Beja avança a passos largos

Governo português e Embraer estão em conversações avançadas para instalar na Base Aérea de Beja uma linha de montagem completa do A-29N Super Tucano, o primeiro avião militar a ser produzido "de A a Z" em solo português 


*LRCA Defense Consulting - 29/04/2026

Um vento de novidade sopra sobre o Alentejo. Em Beja, a cidade que durante décadas viu partir jovens em busca de trabalho nas grandes cidades, prepara-se agora para receber um dos maiores investimentos em indústria de defesa da história recente de Portugal: uma fábrica da Embraer, a gigante aeronáutica brasileira, destinada a produzir aeronaves militares Super Tucano. O anúncio, feito a 17 de dezembro de 2025, e as declarações mais recentes do ministro da Defesa, Nuno Melo, em finais de abril de 2026, confirmam que o projeto avança com determinação.

A notícia mais recente chegou à margem da feira agropecuária Ovibeja, onde o ministro garantiu que o Governo está dando "passos largos" para a concretização do projeto. Na Base Aérea N.º 11, em Beja, já existe inclusive um edifício identificado onde a fábrica poderá ser instalada, tratando-se de instalações que foram "em tempos também pensadas para a produção de aeronaves, que nunca aconteceu", revelou Nuno Melo.

"Eu não me recordo de há muitos anos, na verdade não me recordo no passado, de alguma vez isto ter acontecido em Portugal - produzir aviões militares de A a Z." - Nuno Melo, Ministro da Defesa Nacional, Beja, Abril 2026

O ponto de partida formal ocorreu a 17 de dezembro de 2025, nas instalações da OGMA - Indústria Aeronáutica de Portugal, em Alverca. Ali, o ministro Nuno Melo e o presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, Bosco da Costa Júnior, assinaram uma carta de intenção para a abertura de uma fábrica de aeronaves A-29N Super Tucano em Beja. A cerimônia coincidiu com a entrega das primeiras cinco aeronaves desse tipo à Força Aérea Portuguesa, num total de 12 encomendadas, em contrato avaliado em 200 milhões de euros.

Portugal torna-se, com esta aquisição, o primeiro país europeu a operar a nova variante NATO do Super Tucano, o A-29N, uma aeronave reconfigurada segundo os padrões técnicos da Aliança Atlântica. A versão inclui capacidades inéditas no inventário da Força Aérea Portuguesa, designadamente a aptidão para missões de luta anti-drone, uma prioridade crescente entre os aliados europeus à luz dos conflitos recentes.

Números-chave do projeto

  • €200M é o investimento total na aquisição de 12 Super Tucano pela FAP
  • 12 aeronaves A-29N encomendadas à Embraer pela Força Aérea Portuguesa
  • €75M aplicados na indústria nacional para upgrades e adaptações OTAN
  • 65% é a participação da Embraer no capital da OGMA em Alverca
  • 60 novas empresas de defesa criadas em Portugal só em 2025
  • 22 forças aéreas no mundo operam o Super Tucano

A escolha de Beja não é aleatória. A cidade alentejana já acolhe a Base Aérea N.º 11, um dos maiores aeródromos do país, com uma pista de 3.000 metros capaz de receber praticamente qualquer aeronave em serviço. Os novos A-29N foram integrados na Esquadra 101, conhecida como "Roncos", e a Força Aérea lançou uma licitação pública de 2,85 milhões de euros para a construção de um edifício dedicado à esquadra de voo, sinal claro de que a presença dos Super Tucano em Beja é estrutural e não temporária.

"A partir do momento em que uma empresa com esta dimensão se instala no conselho, é óbvio que vai servir de empresa-âncora para que muitas outras venham e se fixem também." - Nuno Palma Ferro, Presidente da Câmara Municipal de Beja, Dezembro 2025

O cronograma ambicioso prevê que o projeto fique concretizado ainda durante 2026. Segundo o ministro Nuno Melo, "a expectativa será a da concretização do projeto já para o final do ano, partindo-se daí para a realização de obras infraestruturais, nomeadamente no edifício já identificado na base militar de Beja, para que se parta para a linha de produção".

Quanto à localização exata, o governante foi cauteloso, limitando-se a afirmar que a fábrica ficará "no perímetro da Base de Beja". A dúvida subsiste sobre se a unidade estará dentro da Base Aérea N.º 11 propriamente dita, em terrenos contíguos, ou junto ao terminal civil do aeroporto de Beja. Também o valor do investimento permanece por revelar, embora o ministro tenha garantido que se trata de um projeto "business oriented", ou seja, autossustentável, sem necessidade de outros apoios europeus, necessitando apenas de um "investimento mínimo na adaptação das infraestruturas".

Super Tucanos na Base Aérea N.º 11, em Beja (ilustração por IA)

A estratégia portuguesa segue o modelo já ensaiado com o KC-390, o avião de transporte militar da Embraer que Portugal adquiriu cinco unidades, com opção para mais dez, e que em grande parte é fabricado em Portugal. No caso dos Super Tucano, a aposta é ainda mais ambiciosa: produzir as aeronaves "de A a Z" em Beja, algo que o ministro da Defesa afirma nunca ter acontecido antes com aviões militares no país.

A lógica industrial é clara: ao adaptar os Super Tucano aos requisitos OTAN em Portugal, com a certificação da Autoridade Aeronáutica Nacional, as aeronaves ficam habilitadas a ser adquiridas por outros países membros da OTAN ou da União Europeia. A linha de montagem em Beja não servirá apenas as necessidades nacionais; está projetada para responder à crescente procura europeia por aeronaves de ataque leve com capacidade anti-drone.

A Embraer tem raízes profundas em Portugal. Além dos 65% que detém no capital da OGMA, em Alverca, onde são produzidas peças para vários modelos da empresa, a gigante brasileira conta com um centro de engenharia em Lisboa e duas unidades produtivas que operaram no Parque de Indústria Aeronáutica de Évora até 2022, quando foram vendidas à espanhola Aernnova. O projeto de Beja representa, portanto, um regresso à produção aeronáutica de componentes estratégicos em Portugal, desta vez com foco na montagem final de aeronaves militares.

Para Beja e para o interior alentejano, as expectativas são elevadas. O presidente da Câmara Municipal, Nuno Palma Ferro, vê na fábrica uma oportunidade histórica: "Ficamos muito contentes porque Beja pode e deve ser um dos vértices para que muitas indústrias aqui se reúnam". Para o Governo, o projeto insere-se numa estratégia mais alargada de desenvolvimento das indústrias de defesa nacionais, "um poderoso instrumento de coesão social", nas palavras de Nuno Melo, que já levou ao nascimento de 60 novas empresas no setor só em 2025.

O Super Tucano é, pelo seu perfil operacional, uma aposta estratégica de momento. Com mais de 600.000 horas de voo acumuladas por 22 forças aéreas no mundo, a aeronave combina versatilidade, custo operacional reduzido e um repertório crescente de missões. A capacidade anti-drone, recentemente certificada pela Embraer, usando sensores eletro-ópticos e foguetes guiados, tornou-o particularmente atrativo num continente que, desde a guerra na Ucrânia, reavalia com urgência os seus meios de defesa. O argumento comercial é direto: usar caças de última geração para abater drones de baixo custo é economicamente absurdo; o Super Tucano oferece uma resposta eficaz e economicamente racional.

Resta aguardar a concretização formal do acordo entre o Governo e a Embraer, sendo que as próximas reuniões com representantes da empresa no Brasil estão agendadas para breve. Mas os sinais, por ora, apontam todos na mesma direção: Beja prepara-se para entrar no mapa aeronáutico europeu como nunca antes na sua história.

Cronologia do projeto

Dez. 2024: contrato assinado
Portugal assina contrato de 200M€ com a Embraer para aquisição de 12 aeronaves A-29N Super Tucano para a Força Aérea Portuguesa.

17 Dez. 2025: carta de intenção assinada na OGMA
Nuno Melo e Bosco da Costa Júnior (Embraer) assinam carta de intenção para a fábrica em Beja. Entregues os primeiros cinco A-29N à Força Aérea Portuguesa. Portugal torna-se o 1.º país europeu a operar esta variante NATO.

Jan. 2026: licitação pública para infraestrutura
A Força Aérea lança licitação pública de 2,85M€ para construção do edifício da Esquadra 101 em Beja, consolidando a presença dos Super Tucano na base alentejana.

Abr. 2026: "passos largos" confirmados
À margem da Ovibeja, ministro Nuno Melo confirma que o Governo avança com "passos largos" para a concretização da fábrica e que reuniões com a Embraer no Brasil estão iminentes. Edifício na BA11 já identificado.

Final 2026: a meta é o acordo formal e início das obras
O Governo espera concretizar o projeto e iniciar obras de adaptação das infraestruturas na Base Aérea de Beja ainda durante 2026.


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