Ministro boliviano visita fábrica no Brasil e promete “novidades importantes” em meio à implementação da política de céus abertos no país
*LRCA Defense Consulting - 13/07/2026
O ministro de Obras Públicas da Bolívia, Mauricio Zamora, visitou recentemente as instalações da Embraer no Brasil para negociar a renovação da frota da Boliviana de Aviación (BoA), companhia aérea estatal do país. A visita integra um esforço mais amplo do governo boliviano para restaurar a competitividade da BoA diante da entrada de novos concorrentes no mercado aéreo nacional, movimento que ocorre em paralelo à implementação, pelo Executivo do presidente Rodrigo Paz, de uma política de céus abertos no país.
“No Brasil, seguimos dando passos para o futuro da BoA. Hoje visitei a planta da Embraer, um dos principais fabricantes de aeronaves do mundo, para avançar nas gestões de renovação de nossa frota, como nos pediu o presidente Rodrigo Paz. Muito em breve teremos novidades importantes”, informou Zamora em suas redes sociais, segundo o Ministério de Obras Públicas, Serviços e Habitação (MOPSV) da Bolívia.
Antes da viagem, o ministro já havia adiantado à emissora local Rádio Fides que a aproximação com a fabricante brasileira era concreta: “eu estou trabalhando em uma visão já executiva, estou em contato com a gente da Embraer no Brasil porque meu plano é o de renovação da frota aérea”. O governo boliviano já havia descartado, na semana anterior à visita, qualquer hipótese de privatização da BoA, conforme declarações do próprio Zamora.
Segundo o ministro, o estado deficiente de conservação da frota atual decorre de anos de desgaste administrativo durante governos do Movimento Ao Socialismo (MAS). “Os aviões já estão um pouco velhos e têm cada vez mais problemas”, afirmou, atribuindo a baixa taxa operacional da companhia a deficiências de gestão e planejamento acumuladas ao longo de duas décadas.
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| Ministro Zamora em visita à Embraer (Instagram) |
Frota reduzida e dados conflitantes
O dimensionamento exato da frota ativa da BoA varia conforme a fonte
consultada. Segundo o MOPSV e o portal Aviacionline, a companhia possui hoje 20
aeronaves no total, das quais apenas dez estão em operação, com o restante em
manutenção. Já o portal America Economica, também com base em declarações do
próprio ministro, indicou que a BoA opera atualmente com 13 aeronaves, cobrindo
uma malha de nove destinos nacionais e nove internacionais. A discrepância
entre os números, ambos atribuídos a Zamora em momentos distintos, não foi
esclarecida publicamente e deve ser tratada com cautela até nova confirmação
oficial.
De acordo com dados da Cirium Fleet Analyzer citados pela Aviacionline, a frota operacional da BoA é composta por quatro Boeing 737-300 (mais quatro armazenados), cinco B737-800 (mais dois armazenados), dois B737-700 (mais um armazenado), dois CRJ-200 (mais um armazenado), três Airbus A330-200 (mais um armazenado) e um Boeing 767-300ER (mais um armazenado).
Um processo de renovação já em curso
A busca por aeronaves da Embraer não parte do zero. A BoA já vinha
executando, desde 2022, um processo gradual de modernização de sua frota:
incorporou Airbus A330-200 usados para substituir os antigos Boeing 767-300ER
nas rotas de longo alcance para Estados Unidos e Europa, além de Boeing 737 NG
para as rotas domésticas. No início deste ano, a companhia também recorreu à
incorporação de três CRJ-200 em regime de leasing para reforçar a capacidade
operacional, chegando a contar com apoio da Força Aérea Boliviana, que
mobilizou um Boeing 737 e um BAe-146 para cobrir rotas quando faltaram
aeronaves disponíveis. O governo também estuda a aquisição de até dez Boeing
767-300ER adicionais, segundo informações anteriores do próprio Zamora.
A negociação com a Embraer representaria, portanto, uma nova fase desse processo, com potencial para alterar de forma mais estrutural o perfil da frota da estatal boliviana. Até o momento, nem o governo boliviano nem a fabricante brasileira divulgaram detalhes sobre modelos, quantidades ou prazos das eventuais aquisições.
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| Ministro Zamora em visita à Embraer (Instagram) |
Por que a Embraer
A Embraer é a terceira maior fabricante de aeronaves comerciais do
mundo, atrás da Boeing e da Airbus, e líder global no segmento de jatos
regionais de 70 a 130 assentos, no qual atua com a família E2 (E175-E2, E190-E2
e E195-E2). O interesse da BoA por aeronaves desse porte é compatível com o
padrão de rotas domésticas e regionais da companhia na América do Sul, embora a
fabricante brasileira não tenha, até a publicação desta reportagem, confirmado
qual segmento de sua linha de produtos está sendo oferecido ao governo
boliviano.
A aproximação ocorre em um momento de forte impulso comercial para a fabricante brasileira. A Embraer chega ao Farnborough International Airshow 2026, que ocorre entre os dias 20 e 24 de julho na Inglaterra, com 109 aeronaves entregues no primeiro semestre do ano, alta de cerca de 20% sobre o mesmo período de 2025, e carteira de pedidos em nível recorde. Em março, a finlandesa Finnair assinou acordo para até 46 E195-E2, e, em julho, a Azorra superou a marca de 500 pedidos firmes da família E2, reforçando a demanda internacional por aeronaves de pequeno porte com baixo consumo de combustível.
Caso se concretize, o acordo com a BoA ampliaria a presença da Embraer no mercado de aviação comercial da América do Sul, um segmento tradicionalmente disputado com fabricantes norte-americanos e europeus, e reforçaria os laços comerciais entre Brasil e Bolívia no setor aeroespacial.
Céus abertos sem privatização
A renovação da frota caminha em paralelo à abertura do mercado aéreo
boliviano. Há poucas semanas, a ABSA Cargo, filial do grupo LATAM, iniciou
operações no país com um voo procedente de Miami, tornando-se o quarto operador
estrangeiro exclusivo de carga a ingressar no mercado boliviano. Segundo
Zamora, o presidente Rodrigo Paz “recebe de braços abertos não só companhias
estrangeiras, mas também empresários bolivianos interessados em criar suas
próprias linhas aéreas”, desde que respeitados os requisitos técnicos e os
tetos tarifários estabelecidos pela Autoridade de Regulação e Fiscalização de
Telecomunicações e Transportes (ATT).
Apesar da abertura à concorrência, o governo boliviano descartou expressamente a privatização da BoA. “Houve 20 anos de dano com o protecionismo em relação à BoA. Minha missão é torná-la competitiva, com novas aeronaves e o menor número possível de atrasos, mas ao mesmo tempo estou promovendo céus abertos”, afirmou Zamora. Segundo o ministro, a companhia gera receita, mas sofreu historicamente com problemas estruturais e de planejamento: “se você tem um monopólio e todo o mercado boliviano, como não vai gerar dinheiro? Então você tem uma empresa que gera dinheiro, vamos trabalhar da melhor forma com a BoA, mas precisamos que entre a concorrência”, concluiu.











