*Luiz Alberto Cureau Jr. - 28/06/2026
Israel olha para a indústria de defesa e enxerga poder nacional. A Coreia do Sul olha para a indústria de defesa e enxerga desenvolvimento, exportação e influência. O Brasil olha para a indústria de defesa e, com sorte, enxerga uma rubrica no orçamento e normalmente um problema, tipo aquele “vamos dar poder para os militares?”. Quando o assunto é soberania, seguimos especialistas em discursos fortes e execução tímida.
A diferença começa no papel do Estado. Em Israel, o governo vende junto. A indústria produz, mas quem abre portas, negocia, dá garantia e transforma produto em aliança estratégica é o Estado. Lá, defesa não é passeio em feira internacional com aperto de mão e fotografia para rede social, o que normalmente fazemos aqui. É política externa aplicada.
Na Coreia do Sul, o método é ainda mais disciplinado. Compra interna, pesquisa, desenvolvimento, financiamento e exportação conversam entre si. As Forças compram em escala, a indústria ganha previsibilidade, o produto amadurece e depois sai para o mundo com crédito, suporte e pacote tecnológico. Simples? Não. É Óbvio? Bastante. Por isso mesmo talvez seja tão difícil por aqui.
No Brasil, a lógica parece invertida. Temos bons produtos, engenheiros competentes, militares experientes e empresas que sobrevivem apesar do ambiente. Mas compramos pouco, planejamos mal, cortamos muito e depois perguntamos por que a indústria não ganha escala. É como plantar uma árvore, cortar a raiz todo ano e reclamar que ela não dá sombra.
Israel usa inteligência para antecipar demanda e planejar vendas. A Coreia usa financiamento para conquistar mercado. O Brasil, muitas vezes, espera a oportunidade aparecer, torce para a empresa se virar e, se der certo, chama de política pública. Quando dá errado, a culpa costuma ser do mercado, do câmbio, da burocracia ou de algum relatório que ninguém leu.
A Base Industrial de Defesa brasileira não precisa de piedade. Precisa de método. Precisa de contratos plurianuais, compras previsíveis, financiamento ao comprador externo, atuação real dos adidos militares, vendas governo a governo com garantia soberana, offset cobrado de verdade e diplomacia comercial menos cerimonial.
Também precisa que o governo de turno entenda uma coisa básica: defesa não é gasto incômodo para fechar planilha. É seguro de vida da soberania, motor de tecnologia e crescimento. País que não protege sua indústria estratégica acaba comprando caro, importando dependência e chamando isso de modernização, o que fazemos hoje.
Israel e Coreia não chegaram onde estão por milagre. Chegaram porque decidiram. O Brasil já tem capacidade, mercado e talento. Falta abandonar a velha mania nacional de transformar oportunidade em comissão, comissão em relatório e relatório em reunião.
Enquanto eles exportam sistemas, nós ainda exportamos promessas. E promessa, em defesa, não protege fronteiras, não gera escala e não impõe respeito.
*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 (Veterano) do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do 19º Batalhão de Infantaria Motorizado, comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Brigada de Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor de Defesa e Clima na Segura.





