Sob a liderança de Sami Hassuani, ASTROS, MTC-300 e MTB definirão a nova era do poder de fogo brasileiro
*LRCA Defense Consulting - 30/04/2026
A empresa que fabricou o míssil mais lucrativo já produzido no Brasil, capaz de saturar áreas inimigas a dezenas de quilômetros de distância e vendido por mais de US$ 1 bilhão apenas entre 1982 e 1987, passou os últimos quatro anos à beira da falência, com trabalhadores sem salário, credores à porta e potências estrangeiras circulando à espera de um aceno. Nesta quinta-feira (30/04), a Avibras Aeroco anunciou oficialmente o início de suas operações, encerrando um dos capítulos mais turbulentos da história da indústria de defesa brasileira.
A nova empresa surge das cinzas da Avibras Indústria Aeroespacial, fundada em 1961 em Jacareí, interior de São Paulo, e que chegou ao início desta década completamente estrangulada financeiramente. Constituída com capital privado brasileiro e governança renovada, a Avibras Aeroco herda o portfólio tecnológico, os contratos estratégicos e, sobretudo, o legado de décadas de engenharia aeroespacial que tornou o Brasil um ator singular no tabuleiro global de defesa.
O colapso
A trajetória que levou à criação da Avibras Aeroco começa com o colapso
financeiro que se aprofundou a partir de 2020, quando uma combinação de redução
de encomendas governamentais, atrasos em contratos internacionais e
endividamento acelerado tornou insustentável a operação da empresa. Em março de
2022, a Avibras pediu recuperação judicial com dívidas declaradas de R$ 394
milhões, valor que, segundo estimativas posteriores, chegaria a superar R$ 1,5
bilhão quando somados os passivos com trabalhadores, fornecedores e órgãos
públicos.
O impacto humano foi imediato e doloroso. Cerca de 900
funcionários ficaram sem receber salários por um período que se estendeu por
mais de 28 meses, levando a uma greve histórica que paralisou a fábrica a
partir de setembro de 2022. No auge, a empresa havia empregado 6.000 pessoas;
no momento do colapso, operava com uma fração disso. Ao longo de 2024 e 2025,
três grupos estrangeiros demonstraram interesse em adquirir ou financiar a
companhia: o conglomerado de defesa chinês Norinco, a australiana DefendTex e a
saudita Black Storm Military Industries. O interesse estrangeiro acendeu o
alerta em Brasília e no Exército. A Avibras não era apenas uma empresa em
dificuldades, era detentora de tecnologias de propulsão e integração de
sistemas que países desenvolvidos há décadas tentam restringir a seus aliados
mais próximos.
A disputa pela soberania
O risco de que a empresa fosse vendida a um grupo estrangeiro galvanizou
uma reação interna. O governo federal chegou a estudar um plano de resgate com
R$ 600 milhões, sendo metade de capital privado e metade de financiamento público via
Finep e BNDES, mas o modelo não se concretizou na forma planejada.
Quem deu o passo decisivo foi o Fundo Brasil Crédito, que havia se tornado o principal credor da empresa e elaborou um plano alternativo de reestruturação. O plano foi aprovado por 99,2% dos credores presentes na Assembleia Geral. Em agosto de 2025, a Avibras passou por uma troca de controle e inaugurou uma nova gestão focada na implementação do plano.
Em março de 2026, dois marcos jurídicos fundamentais foram alcançados. Em 10 de março, o Tribunal de Justiça de São Paulo rejeitou, por unanimidade, todos os recursos contra o plano de recuperação judicial, mantendo-o válido em sua integralidade. No dia seguinte, os trabalhadores aprovaram, em assembleia sindical, a proposta de pagamento da dívida trabalhista de R$ 230 milhões em até quatro anos, encerrando uma paralisação histórica de 1.280 dias.
A entrada do empresário Joesley Batista, controlador da J&F, holding que detém a JBS, a maior processadora de carnes do mundo, completou o quadro de financiamento. Batista assinou contrato para participar de uma captação de R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito, tornando-se um dos investidores da retomada. Segundo apuração do jornal O Estado de S. Paulo, ele havia condicionado sua participação exatamente ao cumprimento do acordo trabalhista, condição que se concretizou no mês de março.
A nova empresa que emerge desse processo é constituída como uma entidade jurídica distinta, com "bases sólidas de governança, de estrutura financeira e de operação", conforme seu comunicado de lançamento. Ela reúne os ativos estratégicos e o portfólio tecnológico da antiga Avibras, mas nasce sem o peso do passivo que estrangulou a predecessora.
À frente, como Diretor-Presidente, está Sami Hassuani (foto ao lado), engenheiro com mais de 40 anos de trajetória nos setores de defesa e aeroespacial, e figura já conhecida e respeitada da empresa. Hassuani havia presidido a antiga Avibras e esteve associado ao Fundo Brasil Crédito durante o processo de reestruturação. Sua presença sinaliza continuidade técnica e conhecimento profundo dos contratos e relações institucionais que a empresa mantém com o Exército Brasileiro.
"Agregar consistência e visão estratégica ao negócio é fundamental para o desenvolvimento da Avibras Aeroco, especialmente em um setor que exige planejamento de longo prazo, relações de confiança e continuidade nas parcerias. Acredito na importância de alinhar tecnologia e propósito, e de reforçar o papel das soluções desenvolvidas em função das necessidades operacionais e estratégicas de nossos clientes", declarou Hassuani no comunicado de lançamento.
Conheça mais sobre o Presidente da Avibras Aeroco nesta matéria: "Sami Youssef Hassuani: o arquiteto da resiliência e o futuro da Avibras".
O legado tecnológico e os novos programas
A razão pela qual tantos atores nacionais e estrangeiros, públicos e
privados, disputaram o controle da Avibras está inscrita no portfólio de
tecnologias que a empresa desenvolveu ao longo de décadas.
O carro-chefe é o Sistema de Artilharia ASTROS (Artillery Saturation Rocket System), lançador múltiplo de foguetes desenvolvido nos anos 1980 e comprovado em combate em múltiplos conflitos, das Guerras do Golfo ao uso pela Arábia Saudita contra alvos iraquianos em 1991. O sistema foi exportado para Iraque, Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Angola, Malásia e Indonésia, entre outros países. Só entre 1982 e 1987, as vendas do ASTROS II totalizaram US$ 1 bilhão, tornando-o a arma mais lucrativa já produzida pela Avibras e lançando o Brasil ao posto de sexto maior exportador de armas do mundo naquele período.
A versão mais moderna, o ASTROS 2020, está no centro de um dos projetos de modernização mais ambiciosos já anunciados pelo Exército Brasileiro. Em março de 2026, o Exército oficializou a transformação do programa ASTROS no que passa a se chamar "FOGOS", uma plataforma multidomínio que integra artilharia de foguetes, mísseis de cruzeiro e um inédito sistema de defesa antiaérea contra drones e mísseis, com investimentos de R$ 3,4 bilhões previstos para o período 2026–2031. Esse contexto é inseparável do novo marco legal que permite excluir até R$ 30 bilhões do arcabouço fiscal para investimentos em defesa.
No horizonte imediato da Avibras Aeroco estão dois programas críticos. O primeiro é o Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300), com alcance de 300 quilômetros, precisão circular inferior a 9 metros e capacidade de voar a baixa altitude para evitar sistemas de defesa, o que coloca o Brasil em um seleto grupo de países com essa tecnologia. O segundo é o Míssil Tático Balístico (MTB), com alcance superior a 100 quilômetros, evolução do sistema S-80 da antiga linha de produtos.
Ambos os programas são prioritários para o Exército. A
retomada imediata das operações da nova empresa terá o MTC-300 como foco
central.
O contexto geopolítico
O ressurgimento da Avibras acontece em um momento em que o mercado global
de defesa experimenta uma expansão sem precedentes desde o fim da Guerra Fria.
A invasão russa da Ucrânia em 2022 acelerou o rearmamento europeu e redefiniu
percepções de segurança em todo o mundo. Países que antes hesitavam em investir
em capacidades militares próprias, hoje competem por acesso a tecnologias de
propulsão, sistemas de mísseis e plataformas de lançamento.
Nesse cenário, as capacidades que a Avibras Aeroco detém, em especial a expertise em propulsão de foguetes e a integração de sistemas complexos, tornam-se ainda mais raras e valiosas. A transferência desse tipo de conhecimento é estritamente controlada por tratados internacionais e regimes de controle de exportação como o Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR), do qual o Brasil é membro. Isso significa que países que querem desenvolver capacidades similares não têm a opção de simplesmente comprá-las no mercado aberto: precisam de parceiros que já as possuam e que estejam dispostos a compartilhá-las, ou precisam adquirir as empresas que as detêm.
Foi precisamente esse cálculo que orientou o interesse de grupos como o Norinco chinês e a saudita Black Storm na Avibras durante os anos de crise. E foi esse mesmo cálculo que motivou a resistência brasileira a uma eventual venda a interesses estrangeiros.
Desafios pela frente
Apesar do alívio que o anúncio de hoje representa, analistas do setor
alertam que a retomada não será trivial. O BTG Pactual, por exemplo, contesta
judicialmente o plano de reestruturação liderado pelo Fundo Brasil Crédito,
alegando que ativos dados como garantia no processo foram comprometidos pelo
acordo; o banco cobra cerca de R$ 40 milhões. Há também a questão dos R$ 300
milhões de financiamento público via Finep, BNDES ou PAC, que não foram
concluídos, e que poderiam compor a segunda metade do plano original de
capitalização.
A pergunta mais profunda permanece em aberto: conseguirá uma empresa de defesa de capital essencialmente privado manter a consistência de investimento que projetos de longo prazo de desenvolvimento de mísseis exigem? Diferentemente de setores de consumo, onde o mercado fornece sinais rápidos de retorno, programas como o MTC-300 exigem décadas de desenvolvimento, relações institucionais profundas e um Estado disposto a ser cliente fiel e de longo prazo.
É justamente essa equação que Sami Hassuani terá de resolver
à frente da Avibras Aeroco, com a história da antiga empresa como lição e o
interesse renovado das Forças Armadas como seu principal trunfo. Mas Sami tem capacidade, conhecimento e determinação suficientes para liderar esse processo com as melhores chances de êxito.
Bem-vinda, Avibras Aeroco!

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