Exército Brasileiro avança em etapa decisiva do maior programa de modernização de blindados de reconhecimento nacional, com testes de tiro real no CAEx
*LRCA Defense Consulting - 10/02/2026
O Exército Brasileiro deu um passo concreto e simbólico na semana de 2 a 6 de fevereiro de 2026: pela primeira vez, a Viatura Blindada de Reconhecimento Cascavel Nova Geração (VBR Cascavel NG) executou tiros reais com o cálculo balístico realizado integralmente pelo computador de tiro integrado ao novo Sistema de Municiamento e Engajamento Modernizado (SMEM). A atividade, conduzida no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), em Guaratiba, no Rio de Janeiro, marca uma inflexão no desenvolvimento do sistema de armas e consolida o projeto como uma das mais ambiciosas iniciativas da Base Industrial de Defesa brasileira.
Os testes e o que foi verificado
A semana de avaliações reuniu militares de três diferentes órgãos do
Exército: a Diretoria de Fabricação (DF), o Escritório de Projetos do Exército
(EPEx) e o Centro de Instruções de Blindados (CI Bld), além de representantes
do Consórcio Força Terrestre, formado pelas empresas Akaer (líder), Opto Space
& Defense e Universal.
As atividades centraram-se em dois eixos técnicos. O primeiro foi a instrução sobre o processo de colimação da viatura, procedimento essencial para o alinhamento preciso do armamento principal com os sistemas ópticos e eletrônicos da torre modernizada. O segundo, de maior impacto operacional, foi a realização de testes de engenharia do computador balístico, com execução de disparos reais do canhão de 90 mm a distâncias predefinidas.
Trata-se da primeira validação em condições reais do sistema de tiro automatizado. Os militares do CI Bld não apenas acionaram os disparos: também exercitaram a motricidade necessária para operar a nova torre por meio de joystick e interfacearam com o computador de tiro, responsável por calcular automaticamente os parâmetros que afetam a trajetória dos projéteis, como velocidade inicial da munição, temperatura, vento e desgaste do cano.
Os resultados foram considerados positivos pela Diretoria de Fabricação. O comunicado oficial destacou "robustez dos sistemas optrônicos integrados à viatura" e "um estágio de maturidade relevante do processamento dos parâmetros que afetam a precisão do armamento principal". Os dados coletados servirão de base para o aprimoramento contínuo do sistema de tiro ainda em desenvolvimento.
Por que a inclusão dos usuários finais é estratégica
Um dos aspectos mais relevantes da semana de avaliações foi a natureza
participativa da metodologia adotada. A presença do CI Bld, unidade
responsável pela formação dos tripulantes de blindados do Exército, não foi
meramente protocolar. Ao integrar o usuário final ao processo de
desenvolvimento desde fases intermediárias do projeto, o Exército busca evitar
o retrabalho que historicamente onera programas militares complexos.
A estratégia responde a uma lição clássica da engenharia de defesa: sistemas desenvolvidos sem retroalimentação contínua dos operadores tendem a acumular requisitos não atendidos, descobertos apenas na fase de entrega, quando as correções são mais caras e demoradas. As sessões de discussão técnica e operacional realizadas durante a semana, com trocas entre militares da DF, do CAEx e representantes do Consórcio, visam exatamente fechar esse ciclo de informação em tempo hábil.
Um blindado de 50 anos reescrito de dentro para fora
O EE-9 Cascavel foi desenvolvido pela extinta empresa brasileira Engesa na
década de 1970 e entrou em serviço no Exército Brasileiro ao longo dos anos
1980. Projetado como veículo de reconhecimento sobre rodas, com configuração
6x6 e armado com canhão de 90 mm, tornou-se um dos blindados mais exportados da
América do Sul, chegando a países como Iraque, Chipre, Paraguai e vários países
africanos. O Brasil ainda mantém cerca de 409 unidades em carga, embora a
maioria esteja em configuração original ou com modernizações parciais.
O projeto Cascavel NG não é uma simples atualização de componentes. Trata-se de uma reescrita quase completa dos sistemas embarcados, transformando o que era uma plataforma analógica e mecânica em um veículo digital e modular. Entre as principais intervenções estão: substituição do motor por unidade de maior potência e eficiência; instalação de câmbio automático de seis marchas; sistema adaptativo de suspensão e controle eletrônico de pressão dos pneus; torre automatizada com mecanismo de giro e elevação do canhão acionado por joystick; substituição das miras ópticas convencionais por um conjunto optrônico de última geração, com câmeras termais, visão noturna e plataforma giroestabilizada para o comandante; computador de tiro balístico automatizado; sistema de Comando e Controle (C2) integrado, compatível com outras viaturas do Exército; e instalação de ar-condicionado para a tripulação.
A viatura também foi projetada para receber um sistema lançador de mísseis anticarro (ATGM) na torre, com o míssil MAX 1.2 AC, desenvolvido pela empresa nacional SIATT, sendo avaliado como candidato natural para essa integração.
Cronograma e dimensão do programa
O contrato para a primeira fase do projeto foi assinado em julho de 2022,
com o Consórcio Força Terrestre, liderado pela Akaer em parceria com a Opto
Space & Defense e a Universal, vencendo a licitação conduzida pela
Diretoria de Fabricação. Essa etapa prevê o desenvolvimento de dois protótipos
e um lote piloto de sete viaturas.
O primeiro protótipo foi apresentado ao Estado-Maior do Exército na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em novembro de 2023. Em setembro de 2024, dois protótipos foram submetidos a testes no próprio CAEx, com provas de desempenho em terrenos acidentados, simulações de combate e travessias de cursos d'água. Ainda em setembro de 2025, um grupo de 30 militares recebeu capacitação especializada no Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP).
A conclusão da entrega do lote piloto de sete unidades está prevista para o primeiro semestre de 2026. O programa mais amplo contempla a modernização de 98 a 201 viaturas, com entregas escalonadas entre 2026 e 2037, a um custo contratado de R$ 1,2 bilhão. O critério de viabilidade para a extensão do programa estabelece que o custo unitário do Cascavel NG não deve ultrapassar 30% do valor de aquisição de uma Viatura de Blindada de Cavalaria Centauro II — o principal veículo 8x8 previsto para as unidades de cavalaria mecanizada.
Indústria nacional e soberania tecnológica
O projeto Cascavel NG é frequentemente citado pelos seus gestores como um
vetor de fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira. A Akaer,
empresa com mais de 33 anos de atuação e participação em programas como o caça
Gripen E (Saab) e o cargueiro KC-390 (Embraer), posiciona o projeto como
demonstração da capacidade nacional de entregar sistemas de defesa completos,
digitais e autossustentáveis.
"O Cascavel NG é mais do que um projeto de modernização. Ele simboliza o avanço da engenharia de defesa nacional e a capacidade que o Brasil tem de desenvolver tecnologia de ponta", afirmou Cesar Silva, CEO da Akaer, em comunicado divulgado pela empresa.
Para o Exército Brasileiro, o programa tem valor estratégico duplo: no curto prazo, mantém operacionais viaturas cuja substituição integral seria financeiramente inviável; no longo prazo, desenvolve competências nacionais em sistemas optrônicos, computação de tiro e integração digital que poderão ser aplicadas em programas futuros.
Próximos passos
Com os dados de engenharia obtidos nos tiros de fevereiro, o Consórcio
Força Terrestre deverá implementar ajustes no software do computador balístico
e nos parâmetros de integração do SMEM. A sequência natural do programa prevê
novos ciclos de testes, com ampliação das condições e distâncias avaliadas,
antes da certificação final do sistema para entrega às unidades operacionais.
A entrega do lote piloto completo, com as sete viaturas, ao longo do primeiro semestre de 2026 marcará o início efetivo da fase de qualificação operacional do Cascavel NG junto às unidades de cavalaria do Exército. A partir daí, a decisão sobre a extensão do programa de modernização para as demais dezenas de viaturas dependerá tanto da avaliação técnica quanto da disponibilidade orçamentária da Força Terrestre nos próximos anos.








