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08 maio, 2026

Exército avança em mísseis táticos e sistema de rastreio

Campo de Provas da Marambaia sediou reunião de trabalho sobre o Míssil Tático Balístico, o Míssil Tático de Cruzeiro e o sistema de rastreio de engenhos em voo, no âmbito do Programa ASTROS-FOGOS 


*LRCA Defense Consulting - 08/05/2026

Em um sinal concreto do avanço do Brasil no desenvolvimento soberano de armamentos de precisão, o Centro de Avaliações do Exército (CAEx), instalado no histórico Campo de Provas da Marambaia desde 1948, sediou no último dia 6 de maio uma importante reunião de trabalho voltada aos projetos de mísseis táticos nacionais.

O encontro reuniu o Gerente do Programa Estratégico do Exército ASTROS-FOGOS, General de Brigada Veterano Marcelo Gurgel do Amaral Silva, o Gerente do Subprograma de Artilharia de Campanha (SAC), General de Brigada Veterano Moises da Paixão Junior, e representantes de empresas da Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS). Os visitantes foram recebidos pelo Subchefe do CAEx, Coronel Letivan Gonçalves de Mendonça Filho, e os trabalhos foram conduzidos pelo Chefe da Subseção de Rastreio, Eletrônica e Comunicações, Tenente Coronel Carlos Cypriano Vallim Junior.

Projetos em pauta: balístico, cruzeiro e rastreio
A reunião tratou dos Projetos Míssil Tático Balístico (MTB) e Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), além do Sistema Transportável para Rastreio de Engenhos em Voo (STREV). Entre as empresas presentes, destacaram-se a Avibras Aeroco e a Omnisys Engenharia Ltda, nomes centrais da cadeia produtiva de defesa brasileira.

O objetivo principal do STREV é apoiar a pesquisa, o desenvolvimento e a avaliação do míssil tático de cruzeiro MTC-300, dotando o Exército Brasileiro com uma capacidade inédita de acompanhamento em voo de engenhos militares. O sistema possibilita a coleta e a análise de informações em tempo real de engenhos em voo, com o objetivo de contribuir com a avaliação, a pesquisa e o desenvolvimento de materiais de emprego militar ou civil lançados no espaço aéreo até o nível suborbital, trazendo benefícios ao Exército, às demais Forças Armadas e à Base Industrial de Defesa.

O STREV é composto por um radar de banda C, um sistema de rastreio ótico, um radar Doppler e meios de comando e controle disponíveis em infraestrutura própria e com possibilidade de desdobramento em todo o País. O sistema é uma solução móvel para campos de ensaios, desenvolvido pela empresa brasileira Omnisys.

O "Matador" e o novo balístico nacional
O Míssil Tático de Cruzeiro em desenvolvimento, apelidado informalmente de "Matador", é considerado um dos projetos mais ambiciosos da defesa brasileira. O AV-TM 300 voa a velocidades subsônicas de cerca de 1.000 km/h, mantendo um perfil de voo baixo e furtivo, na faixa de 800 metros de altitude, acompanhando o relevo do terreno, o que reduz significativamente a chance de ser detectado por sistemas antiaéreos. Com alcance de até 300 quilômetros (para exportação, pois o real pode superar 1.000 quilômetros) e uma precisão de até 30 metros, o armamento poderá ultrapassar os limites do território nacional e atingir alvos estratégicos muito além da capacidade dos foguetes hoje em uso no Brasil.

Paralelamente, o Míssil Tático Balístico S+100 representa a próxima fronteira da capacidade ofensiva terrestre brasileira. A diferença entre os dois armamentos é estratégica: enquanto o míssil de cruzeiro voa em trajetória rasante, guiado por GPS e navegação inercial para atingir alvos fixos com alta precisão, um míssil balístico segue uma trajetória parabólica de alta altitude, atingindo velocidades muito maiores na fase terminal, o que dificulta sua interceptação.

O programa ASTROS-FOGOS: um guarda-chuva estratégico
A reunião no CAEx insere-se num momento de intensa reorganização do programa de artilharia de longo alcance do Exército. O programa ASTROS será ampliado e rebatizado de "Fogos", passando a ter três verticais debaixo de um único guarda-chuva: o antigo sistema de foguetes ASTROS, sistemas de artilharia de campanha e uma nova defesa antiaérea. Uma encomenda no valor de até R$ 3,4 bilhões deve ser fechada ainda em 2026 para um novo sistema de defesa antiaérea que permitirá à Força Terrestre incorporar tecnologia inédita na América Latina para a interceptação de drones e mísseis de cruzeiro.

A modernização é apoiada por uma lei complementar aprovada em 2025, que permite investimentos de até R$ 30 bilhões fora do marco fiscal. O orçamento anual do Exército praticamente dobrou, chegando a cerca de R$ 3 bilhões por ano entre 2026 e 2031.

A Avibras Aeroco: recuperada e estratégica
A presença da Avibras Aeroco na reunião do CAEx ganha peso adicional diante de sua recente reestruturação. A empresa é o maior fabricante e exportador de armamento e sistemas de defesa do Brasil, e a única integradora dos sistemas de propulsão de foguetes e mísseis fabricados no país. O Exército Brasileiro acompanha de perto o processo de retomada, ciente de que a Avibras concentra competências sensíveis que reduzem a dependência externa do país em áreas críticas de soberania.

Segundo dados do Escritório de Projetos do Exército (EPEx), cerca de 90% do desenvolvimento do míssil de cruzeiro AV-MTC já estava concluído, faltando apenas a fase final de testes e disparos experimentais, trabalhos que a crise financeira da empresa havia interrompido. A retomada das atividades da Avibras abre caminho para que essa fase conclusiva finalmente avance.

 

Integração institucional como diferencial
Os trabalhos realizados no CAEx neste 6 de maio evidenciam a crescente sinergia entre os atores do ecossistema de defesa nacional. A parceria com a Avibras Aeroco reforça a manutenção e o desenvolvimento da Base Industrial de Defesa brasileira, gerando conhecimento tecnológico, empregos qualificados e autonomia em áreas sensíveis.

Especialistas em defesa avaliam que iniciativas como essa consolidam o Brasil como um dos poucos países da América Latina com capacidade autônoma de desenvolvimento de mísseis táticos, fortalecendo sua posição regional e internacional no setor.

O resultado dos trabalhos conduzidos no histórico Campo de Provas da Marambaia deverá contribuir diretamente para o aumento do poder de combate da Força Terrestre e, em perspectiva mais ampla, para o projeto de soberania tecnológica e industrial do Brasil na área de defesa.

Embraer registra maior receita da história para um primeiro trimestre e bate recorde em carteira de pedidos

Fabricante brasileira de aeronaves faturou US$ 1,447 bilhão no 1T26, crescimento de 31% na comparação anual; backlog chega a US$ 32,1 bilhões pelo sexto trimestre consecutivo de recordes


*LRCA Defense Consulting - 08/05/2026

A Embraer encerrou o primeiro trimestre de 2026 com a maior receita já registrada para o período, consolidando um início de ano que surpreende positivamente em volume operacional, mesmo diante de ventos contrários como as tarifas de importação dos Estados Unidos. Os dados, divulgados nesta sexta-feira (8), mostram uma empresa que acelera entregas, acumula pedidos em ritmo histórico e reitera suas projeções para o ano.

Receita recorde e margens em alta
A Embraer alcançou US$ 32,1 bilhões em sua carteira de pedidos no primeiro trimestre, consolidando o sexto recorde consecutivo e reforçando sua posição entre as principais fabricantes de aeronaves do mundo.

No campo financeiro, a companhia faturou US$ 1,447 bilhão no período, o maior valor de sempre para um primeiro trimestre e uma alta de 31% frente ao 1T25. O EBIT ajustado chegou a US$ 94 milhões, com margem de 6,5%, acima dos 5,6% registrados um ano antes. Vale notar que as tarifas de importação americanas de 10% custaram à empresa US$ 13 milhões no trimestre (92 pontos-base de impacto), e outros US$ 11 milhões em estoque já estão contabilizados para impactar o segundo trimestre.

O lucro líquido ajustado ficou em US$ 27,7 milhões, ante US$ 50 milhões no mesmo período de 2025. A queda reflete, em parte, mudança metodológica: a empresa decidiu deixar de classificar impostos diferidos como item extraordinário, ajustando os comparativos de 2025 para uma análise mais consistente. O lucro líquido atribuível aos acionistas foi de US$ 33,4 milhões, ou US$ 0,1856 por ADS.

Defesa puxa os destaques; Comercial cresce em volume
O segmento de Defesa e Segurança foi a grande estrela do trimestre. A receita saltou 63% na comparação anual, chegando a US$ 227 milhões, impulsionada pelo reconhecimento de receita do KC-390 Millennium e pelo aumento na produção do A-29 Super Tucano. A margem bruta quase dobrou, passando de 12,3% para 26,8%, e a margem EBIT ajustada virou fortemente positiva, saindo de -1,6% para 17%, beneficiada por US$ 25 milhões em itens não recorrentes.

A Aviação Comercial cresceu 45% em receita, atingindo US$ 293 milhões, mas viu suas margens pressionadas por mix de clientes, custos logísticos e ausência de créditos de fornecedores que haviam beneficiado o 1T25. A Aviação Executiva faturou US$ 418 milhões (+30%), embora a margem EBIT ajustada tenha recuado de 11,3% para 6%, afetada pelas tarifas americanas (US$ 12 milhões de impacto) e pelos gastos com o lançamento da nova família Praetor 500/600 "E". Serviços e Suporte, por sua vez, entregou crescimento sólido de 15%, com receita de US$ 490 milhões e melhora de margem, parcialmente compensando o efeito das tarifas no segmento.

44 aeronaves entregues, alta de 47%
A Embraer entregou 44 aeronaves no trimestre, avanço de 47% sobre as 30 entregas registradas no primeiro trimestre do ano passado. Das 44 aeronaves, 10 foram jatos comerciais (4 da família E2 e 6 da família E1), 29 foram executivos (16 pequenos e 13 médios) e 5 foram de defesa (um KC-390 Millennium e quatro A-29 Super Tucano).

Esse volume corresponde a 16% da previsão anual da empresa, que projeta entre 240 e 255 entregas combinadas nas áreas de aviação comercial e executiva em 2026.

Carteira de pedidos no maior patamar da história
O backlog de US$ 32,1 bilhões representa alta de 22% na comparação anual. O avanço foi puxado pela aviação comercial, que registrou alta de 50% e alcançou US$ 15 bilhões em pedidos. Um dos destaques do período foi a Europa, com a compra de até 46 aeronaves E195-E2 pela finlandesa Finnair, sendo 18 vinculadas ao trimestre entre encomendas firmes, opções e direitos de compra.

A relação book-to-bill (pedidos recebidos versus faturados) da Aviação Comercial ficou em 3,0x nos últimos doze meses, ou seja, a empresa vendeu três vezes mais do que entregou no período, sinal de demanda robusta à frente.

Caixa negativo no trimestre, mas por escolha
O fluxo de caixa livre ajustado (sem Eve) foi negativo em US$ 447,1 milhões, um resultado esperado e explicado pela construção de estoque. O aumento de US$ 399,5 milhões em inventários é deliberado: a Embraer está antecipando produção para honrar um volume maior de entregas nos próximos trimestres, especialmente no segundo semestre, quando a sazonalidade do setor concentra as entregas.

A posição de caixa consolidada ficou em US$ 2,298 bilhões ao final de março, complementada por uma linha de crédito rotativo de US$ 1 bilhão ainda não utilizada. A subsidiária Eve, focada em aeronaves elétricas de decolagem vertical (eVTOL), encerrou o trimestre com US$ 441 milhões em caixa.

Guidance de 2026 mantido apesar das tarifas
A empresa reiterou integralmente suas projeções para o ano: receita entre US$ 8,2 bilhões e US$ 8,5 bilhões, margem EBIT ajustada entre 8,7% e 9,3%, já incorporando o impacto de tarifas de importação americanas de 10%, e fluxo de caixa livre de pelo menos US$ 200 milhões. Em termos operacionais, a meta é entregar entre 80 e 85 aeronaves comerciais e entre 160 e 170 executivas ao longo do ano.

Ações e remuneração aos acionistas
As ações da Embraer acumulavam valorização expressiva nos doze meses anteriores ao balanço: alta de 43% no pregão da B3 (EMBJ3), contra 17% do Ibovespa, e de 28% na NYSE (EMBJ), ante 16% do S&P 500. O valor de mercado da companhia era de R$ 54,3 bilhões (US$ 10,5 bilhões) em 31 de março. No período, a empresa recomprou R$ 183,7 milhões em ações e pagou R$ 12,7 milhões em dividendos. Para os acionistas do EMBJ3, está previsto ainda o pagamento de dividendos do exercício de 2025 no valor de R$ 0,01 por ação, com liquidação em 20 de maio.

07 maio, 2026

O aliado invisível quer navegar: como o drone Nauru 100D pode preencher uma lacuna crítica da Marinha

Drone tático brasileiro Nauru 100D passa por avaliação operacional dos Fuzileiros Navais e aponta o caminho para uma Marinha do Brasil mais autônoma e tecnologicamente soberana 


*LRCA Defense Consulting - 07/05/2026

Uma ilha no litoral fluminense foi, nas últimas semanas, palco de um ensaio silencioso, mas de enorme significado estratégico. No Centro de Avaliação da Ilha da Marambaia (CADIM), o Corpo de Fuzileiros Navais submeteu o drone tático Nauru 100D, desenvolvido pela paulista XMobots, a uma bateria de testes em condições operacionais reais. Voos diurnos e noturnos, rastreamento de embarcações, identificação de alvos com câmeras térmicas e eletro-ópticas: a aeronave não tripulada nacional saiu-se muito bem diante de uma comitiva de oficiais da Marinha do Brasil. O resultado foi, nas palavras de quem esteve lá, “muito positivo”.

A missão na Marambaia
A Ilha da Marambaia, na Baía de Sepetiba, é um território historicamente associado à formação e ao treinamento dos Fuzileiros Navais. Nos últimos anos, o CADIM tem se consolidado como um centro de validação de equipamentos militares em cenários próximos da realidade. Foi justamente nesse ambiente que a XMobots foi convocada a provar o valor do seu mais recente produto voltado à defesa.

Segundo Caique Garbin, especialista de novos negócios para defesa da XMobots e responsável por liderar a apresentação, a Marinha queria verificar duas coisas fundamentais: se o sistema cumpria com as especificações técnicas anunciadas e se conseguia operar adequadamente no ambiente próprio dos Fuzileiros Navais.

"Pudemos operar o equipamento em condições reais e obter resultados muito positivos, confirmando sua compatibilidade com este importante braço das Forças Armadas do Brasil." - Caique Garbin, Especialista de Novos Negócios para Defesa da XMobots 

O ensaio incluiu um voo noturno que se estendeu até tarde e um voo matinal no dia seguinte, nos quais foram testadas todas as funcionalidades do sistema: monitoramento de embarcações de dia e de noite, identificação e rastreamento de pessoas, verificação da qualidade do enlace de comunicação e da transmissão de imagem, além da avaliação da facilidade de montagem, manuseio e transporte do equipamento.

A comitiva da Marinha era expressiva. Estiveram presentes representantes do Batalhão de Combate Aéreo do Corpo de Fuzileiros Navais - o chamado Esquadrão de Drones de Ataque, subordinado ao Comando da Força Aeronaval (Aviação Naval); do Esquadrão QE - 1º Esquadrão de Aeronaves Remotamente Pilotadas de Esclarecimento (EsqdQE-1), subordinado ao Corpo de Fuzileiros Navais (CFN); e ainda pessoal das áreas de compras e materiais. O evento foi coordenado pelo Capitão de Mar e Guerra (FN) Carlos Alexandre Tunala da Silva, Gerente de Drones do Comando do Material de Fuzileiros Navais (CMatFN) e Gestor do Contrato e Fiscal Administrativo para processos ligados à Gerência de Operações Especiais, SARP (Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas) e Anti-SARP; e pelo Capitão de Mar e Guerra (FN) Marcos Fernando Pereira Matta, comandante do Batalhão de Combate Aéreo do Corpo de Fuzileiros Navais (BtlCmbAe).


O que é o Nauru 100D

Lançado em abril de 2025 sob a nova marca XMobots Defense, divisão criada estrategicamente para estruturar o segmento militar da empresa de São Carlos (SP), o Nauru 100D é um sistema aéreo não tripulado (UAS) tático projetado para missões ISTAR: Intelligence, Surveillance, Target Acquisition and Reconnaissance (Inteligência, Vigilância, Aquisição de Alvos e Reconhecimento).

Em sua configuração padrão de vigilância, o drone pesa apenas 9 kg, pode ser montado em menos de três minutos graças à tecnologia Plug & Play, é transportado em duas mochilas táticas e oferece até seis horas de autonomia operacional com um kit de três baterias intercambiáveis, cada uma garantindo duas horas de voo, com recarga simultânea em campo.

Dotado de tecnologia eVTOL (Electric Vertical Take-Off and Landing), o Nauru 100D decola e pousa verticalmente, dispensando pistas de decolagem, catapultas ou qualquer infraestrutura dedicada. Essa característica é especialmente relevante para operações em ambientes costeiros, insulares ou em zonas de mata, cenários típicos da atuação dos Fuzileiros Navais.

O sistema é controlado por dois tablets que formam uma estação completa de Comando e Controle, sem necessidade de estrutura adicional. Equipado com o Gimbal SIS031A, integra câmeras RGB e infravermelho termal (LWIR), o que lhe permite operar eficazmente tanto de dia quanto à noite. A inteligência artificial embarcada possibilita rastreamento automático de alvos (pessoas, veículos e embarcações), aquisição de coordenadas geográficas e até leitura de placas e reconhecimento facial.

Para dificultar sua detecção, a aeronave é construída com materiais antirreflexo que reduzem suas assinaturas térmica, sonora e visual, tornando-a, nas palavras da própria fabricante, praticamente indetectável em missões de infiltração silenciosa.

Por que o Nauru 100D interessa à Marinha e aos Fuzileiros Navais
Os Fuzileiros Navais do Brasil têm como missões precípuas a realização de operações anfíbias, aquelas que partem do mar em direção à costa, a proteção de instalações navais e a atuação em conflitos de baixa e média intensidade em faixas litorâneas, fluviais e insulares. Em todos esses cenários, a consciência situacional, ou seja, saber o que existe além do alcance visual da tropa, é um fator que pode determinar o sucesso ou o fracasso de uma operação.

É exatamente nessa lacuna que o Nauru 100D se encaixa. Como multiplicador de força, o drone permite que um pequeno destacamento operado por apenas dois soldados obtenha, em tempo real, imagens de alta resolução de uma área que levaria horas para ser reconhecida a pé, com muito maior risco de exposição do pessoal.

Em operações anfíbias, o drone pode ser lançado ainda a bordo de uma embarcação para mapear a praia de desembarque, identificar posições inimigas, avaliar obstáculos e transmitir essas informações ao comandante da operação antes mesmo de os fuzileiros pisarem em terra. Sua capacidade de operar à noite com câmeras termais é especialmente valiosa nesse tipo de incursão, que frequentemente ocorre sob cobertura da escuridão.

O sistema também é relevante para a vigilância da chamada Amazônia Azul, o imenso território marítimo brasileiro de cerca de 5,7 milhões de km² sobre o qual o Brasil reivindica direitos soberanos. Monitorar embarcações suspeitas, detectar atividades de pesca ilegal, tráfico ou contrabando em áreas remotas são tarefas que podem ser drasticamente facilitadas por um drone portátil com alcance de até 30 km e capacidade de transmissão de imagens em tempo real.

A Marinha já havia dado sinais claros desse interesse antes mesmo dos testes na Marambaia. Em fevereiro de 2026, o Comandante Carlos Alexandre Tunala da Silva visitou a sede da XMobots em São Carlos para uma avaliação institucional das capacidades tecnológicas da empresa, discutindo conceitos de emprego e possíveis aplicações do Nauru 100D em missões de reconhecimento, vigilância persistente e apoio à tomada de decisão em ambientes litorâneos, fluviais e expedicionários.


 

Enxames e combate: o horizonte que se aproxima
O Nauru 100D que os Fuzileiros Navais avaliaram na Marambaia é, por ora, um drone de vigilância e reconhecimento. Mas a XMobots já tornou públicas duas propostas conceituais que ampliam radicalmente o escopo operacional da plataforma: o modelo UCAV (Unmanned Combat Aerial Vehicle) e o conceito Swarm, ou enxame.

- A versão de combate (UCAV)
O conceito UCAV prevê uma aeronave não tripulada de combate capaz de operar em altitudes elevadas, evadir radar e realizar ataques de precisão milimétrica. A proposta inclui disparo de munição a partir de uma altitude de 60 metros, com correção de trajetória em tempo real, e a possibilidade de retorno à base após a missão para novas sortidas, o que o distingue das chamadas loitering munitions (munições vagantes ou drones kamikazes), que são descartados no impacto.

Entre as cargas de emprego estudadas estão bombas de alto poder explosivo (HE) e bombas antitanque com penetração (HEAT). A capacidade de retorno e reuso transforma o drone em um ativo reutilizável, reduzindo os custos operacionais e aumentando a sustentabilidade tática de unidades em campo.

- O sistema de enxame (Swarm)
Ainda mais ambicioso é o conceito Swarm. A proposta prevê o lançamento simultâneo de até 30 aeronaves a partir de um contêiner de 20 pés instalado em um caminhão (ou em um navio), três delas destinadas ao reconhecimento e identificação de alvos, e as outras 27 ao ataque coordenado.

As três aeronaves de reconhecimento usam inteligência artificial avançada para rastrear, identificar e designar alvos. As 27 unidades de ataque recebem essas informações e se coordenam autonomamente para atacar os alvos com máxima eficiência, podendo inclusive contornar contramedidas eletromagnéticas, de interferência e sistemas de artilharia antidrone. Após a missão, os drones retornam autonomamente ao contêiner.

O alcance previsto para o sistema Swarm varia entre 120 km e 340 km, dependendo da versão. A capacidade de produção declarada pela empresa é de 360 unidades por mês, mais de 4.000 por ano, e a XMobots afirmou ter iniciado a fabricação de um lote-teste de 20 sistemas, com pedidos iniciais já recebidos.

"O conceito tecnológico UCAV e Swarm com o Nauru 100D amplia as capacidades, além das missões ISTAR." — Giovani Amianti, fundador e CEO da XMobots

Para a Marinha do Brasil, o potencial dessas versões avançadas é enorme. Um enxame de 30 drones lançado de um navio ou de uma posição costeira poderia saturar as defesas de um alvo inimigo de forma coordenada, enquanto as unidades de reconhecimento fornecem inteligência em tempo real ao comandante da operação. Trata-se de uma doutrina de emprego que, até poucos anos atrás, era exclusividade de potências como Estados Unidos e Israel.


Soberania tecnológica e a Base Industrial de Defesa
O sucesso dos testes na Marambaia tem um significado que vai além do aspecto puramente operacional. Ele representa um avanço concreto da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira, o conjunto de empresas nacionais capazes de desenvolver e fornecer tecnologia militar de ponta às Forças Armadas sem dependência de fornecedores estrangeiros.

A XMobots é hoje a 6ª maior empresa de drones civis do mundo e a líder absoluta na América Latina. Fundada em 2007, em São Carlos (SP), a companhia adotou desde o início uma estratégia de verticalização total da produção: motores, sensores, hardware, software e inteligência artificial são todos desenvolvidos internamente, o que garante controle sobre a cadeia produtiva e facilidade de manutenção em campo.

Essa filosofia é central para o tema da soberania tecnológica. Um drone cujos componentes dependem de fornecedores estrangeiros pode ter seu suprimento interrompido por sanções econômicas, embargos ou simples decisões comerciais de governos de outros países. Um drone feito do início ao fim no Brasil não tem esse risco.

Já na LAAD Milipol Security Brazil 2026, a empresa apresentou seus sistemas a delegações de Argentina, Nigéria e Emirados Árabes Unidos, sinal de que o interesse pelo produto nacional ultrapassa as fronteiras brasileiras. Os sistemas da família Nauru já foram adquiridos pelo Exército Brasileiro e pela Marinha do Brasil para missões de vigilância, reconhecimento e apoio a operações.

O contexto geopolítico que dá urgência ao tema
A aceleração dos testes e avaliações do Nauru 100D não acontece no vácuo. Os conflitos contemporâneos, particularmente o da Ucrânia, mas também os do Azerbaijão e do Oriente Médio, reescreveram de forma dramática as doutrinas militares sobre o uso de drones. O que antes era visto como um recurso auxiliar passou a ser reconhecido como um elemento central do campo de batalha moderno.

Na Ucrânia, drones FPV de baixo custo destruíram blindados avaliados em milhões de dólares. Enxames de aeronaves não tripuladas saturaram sistemas de defesa antiaérea. Drones de reconhecimento definiram o resultado de batalhas ao fornecer coordenadas precisas para artilharia. A relação custo-efetividade desses sistemas revelou-se espantosamente favorável em comparação com armas convencionais.

O Brasil, com suas vastas fronteiras terrestres e marítimas, incluindo a Amazônia e a Amazônia Azul, tem razões estratégicas concretas para investir nessa capacidade. Uma Marinha capaz de lançar enxames de drones a partir de navios ou plataformas costeiras, mantendo vigilância persistente sobre extensas áreas marítimas com mínima exposição humana, seria uma força muito mais eficiente e resiliente do que aquela que depende apenas de meios tripulados.

 

Um passo pequeno, um salto estratégico
Os voos na Ilha da Marambaia foram, na dimensão física, modestos: um drone de 9 quilos sobrevoando uma ilha remota no litoral do Rio de Janeiro. Na dimensão estratégica, porém, o que aconteceu lá representa algo bem maior.

Uma empresa 100% nacional demonstrou a uma força militar brasileira que é capaz de fornecer tecnologia de vigilância e reconhecimento de nível mundial, desenvolvida e produzida inteiramente no país, a um custo operacional acessível e com facilidade de emprego em condições adversas. E já aponta, no horizonte, para capacidades de combate que podem mudar o equilíbrio de poder em qualquer conflito em que o Brasil eventualmente precise se envolver para proteger sua soberania.

A decisão de incorporar ou não o Nauru 100D à frota dos Fuzileiros Navais ainda é institucional e política: depende de orçamento, processos de aquisição e prioridades estratégicas. Mas o que os testes na Marambaia deixaram claro é que o produto existe, funciona e está pronto. Cabe agora ao Brasil decidir se quer ser um país que compra drones de outros ou um país que os fabrica e os usa com inteligência.

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