
*Mauro Beirão - 06/01/2026
A intensificação das tensões geopolíticas em diferentes
regiões do mundo tem reconfigurado de forma significativa as agendas de
segurança e defesa de diversos países. O sistema internacional atravessa um
período de crescente fragmentação estratégica, marcado pela multiplicação de
conflitos regionais, pela competição entre grandes potências e pela
securitização acelerada de tecnologias emergentes, com impactos diretos sobre a
estabilidade regional e a autonomia decisória dos Estados.
Na América do Sul, a prisão de Nicolás Maduro e o
consequente agravamento da crise política e institucional na Venezuela
alteraram de forma relevante o equilíbrio estratégico regional. A
intensificação das tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela, somada à
incerteza quanto à governabilidade, ao controle das forças de segurança e à
dinâmica interna do país vizinho, introduz novos vetores de instabilidade no
entorno estratégico do Brasil, que até então se caracterizava por baixos níveis
de conflito interestatal.
Esse novo cenário amplia a complexidade dos desafios
relacionados à vigilância de fronteiras, ao controle de fluxos migratórios, ao
combate a ilícitos transnacionais e à preservação da soberania nacional,
exigindo maior capacidade de antecipação, dissuasão e resposta por parte do
Estado brasileiro.
Nesse contexto, a Base Industrial de Defesa (BID) assume
papel ainda mais central como instrumento de autonomia estratégica, política
industrial de alto valor agregado e inserção internacional qualificada. Sua
relevância deve ser compreendida para além da dimensão estritamente militar,
abrangendo a geração de capacidades tecnológicas críticas, a resiliência do
Estado frente a cenários de instabilidade regional e a consolidação do Brasil
como ator responsável e previsível no campo da segurança e da defesa.
A
Base Industrial de Defesa brasileira como ativo estratégico de estado
Sob a perspectiva adotada por organismos multilaterais e
centros de análise estratégica, a indústria de defesa constitui um dos pilares
da capacidade estatal em contextos de incerteza geopolítica. No caso
brasileiro, a BID é composta por um ecossistema industrial diversificado, que
abrange os domínios aeroespacial, naval, terrestre, espacial, cibernético,
comunicações e eletroeletrônico, fomentando empresas de alta tecnologia,
plenamente estabelecidas e integradas ao setor produtivo do país independentemente
da origem de seu capital.
O critério relevante para avaliação estratégica não reside
no país de origem das empresas, mas na capacidade de investimentos, na
transferência de tecnologias, na geração de valor local, na retenção de
competências tecnológicas, na formação de capital humano altamente qualificado
e na aderência dessas capacidades às prioridades de defesa e segurança
nacionais.
Expansão
das exportações e inserção internacional
Nos últimos anos, a Base Industrial de Defesa brasileira
apresentou um crescimento expressivo de suas exportações, refletindo ganhos de
competitividade, maturidade tecnológica e reconhecimento internacional de seus
produtos e sistemas. O aumento significativo das vendas externas demonstra a
capacidade da BID de atender a padrões internacionais rigorosos, operar em cadeias
globais de valor e competir em mercados altamente regulados.
Do ponto de vista das relações internacionais, esse
desempenho projeta o Brasil como um fornecedor relevante de produtos e sistemas
de defesa, ampliando sua presença diplomática, fortalecendo parcerias
estratégicas e contribuindo para sua política externa por meio de instrumentos
de cooperação industrial e tecnológica.
Entretanto, essa inserção internacional mais robusta
contrasta com um desafio estrutural persistente no plano doméstico.
A
assimetria entre capacidade industrial e a demanda interna
Apesar da evolução tecnológica e do desempenho exportador da
BID, as Forças Armadas brasileiras enfrentam limitações significativas de
absorção dessas capacidades, em razão de sucessivos cortes orçamentários e da
elevada rigidez do orçamento de defesa, historicamente concentrado em despesas
obrigatórias. Essa assimetria gera um paradoxo estratégico: o Brasil dispõe
de uma Base Industrial de Defesa capaz de desenvolver e produzir sistemas
avançados, mas ainda carece de previsibilidade orçamentária e continuidade
programática para incorporá-los de forma sistemática às suas próprias forças. Sob
a ótica de políticas públicas, essa desconexão reduz o efeito multiplicador dos
investimento em defesa enfraquece a indução tecnológica gerada por encomendas
governamentais, limita o planejamento de longo prazo da indústria e amplia a
dependência da BID em relação ao mercado externo, tornando-a mais vulnerável a
ciclos internacionais e restrições geopolíticas.
Think tanks* internacionais frequentemente apontam que a
demanda doméstica estável é elemento crítico para a sustentabilidade de uma
indústria de defesa, não apenas como cliente, mas como indutor de inovação,
padronização e soberania operacional.
Implicações
para autonomia estratégica e política externa
A persistência de baixos níveis de investimento em aquisição
e modernização de meios compromete a credibilidade dissuasória do país e
restringe a sua capacidade de atuação autônoma em cenários regionais e
multilaterais. Além disso, limita a plena exploração dos benefícios
estratégicos associados à BID, tais como:
-
Domínio do ciclo de vida dos sistemas;
-
Autonomia do suporte logístico e de manutenção;
-
Capacidade de adaptação rápida a novos cenários de ameaça;
-
Continuidade logística e operacional das Forças Armadas em cenários de crise;
-
Redução de vulnerabilidades externas em sistemas sensíveis;
-
Capacidade nacional de manutenção, modernização e integração de plataformas
estratégicas;
-
Flexibilidade diplomática, ao diminuir dependências críticas de fornecedores
externos.
Para países com ambições de protagonismo regional, a
literatura estratégica destaca a importância de alinhar política industrial de
defesa, planejamento militar e política externa, evitando que capacidades
industriais avancem de forma dissociada das necessidades operacionais do
Estado.
Empresas
brasileiras com capital internacional e inserção global
A presença de empresas brasileiras com capital internacional
na BID deve ser analisada sob uma ótica pragmática e estratégica. Em um setor
caracterizado por cadeias globais altamente reguladas e intensivas em
tecnologia, a participação em programas internacionais amplia o acesso a
mercados, padrões tecnológicos e processos industriais avançados.
A experiência internacional demonstra que países com BID
robusta combinam capital nacional e internacional, desde que preservem o
controle soberano sobre requisitos operacionais, propriedade intelectual
sensível e ciclos de vida dos sistemas estratégicos.
Considerações
finais
O fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira
ocorre em um momento de profunda transformação do ambiente internacional. O
crescimento das exportações confirma a relevância e a competitividade da BID,
mas também expõe uma fragilidade estrutural que é a limitada capacidade do
Estado brasileiro de absorver, de forma contínua e previsível, as soluções que
ele próprio ajuda a desenvolver.
Para organismos internacionais e centros de análise
estratégica, a principal questão não é a existência de capacidades industriais,
mas a coerência entre ambição estratégica, financiamento público e governança
institucional.
Superar essa assimetria exige uma abordagem de política de
Estado, que reconheça a BID, que é composta por empresas nacionais e empresas
brasileiras com capital internacional, como um instrumento central da autonomia
estratégica brasileira, capaz de contribuir simultaneamente para a segurança
nacional, o desenvolvimento tecnológico e a inserção internacional do país.
* Think tanks são instituições dedicadas à
produção de conhecimento aplicado, com foco em análise, pesquisa e formulação
de propostas para orientar políticas públicas, estratégias governamentais,
decisões empresariais e debates da sociedade.
*Mauro Beirão tem formação em Engenharia
Mecânica e mais de 30 anos dedicados à indústria de defesa e aeroespacial,
atuando em uma das maiores companhias do setor, parte de um dos principais
conglomerados globais de tecnologia e defesa. Ao longo da carreira, contribuiu
para programas estratégicos das Forças Armadas Brasileiras e para o
desenvolvimento de soluções aeroespaciais avançadas. Atualmente, como Gerente
de Marketing da AEL Sistemas, lidera iniciativas de fortalecimento da marca e
prospecção de negócios, consolidando a empresa como referência em inovação e
tecnologia para a defesa nacional.