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07 janeiro, 2026

Soberania sem poder é ilusão: quem está realmente seguro no tabuleiro mundial?

 


*Luiz Alberto Cureau Jr., via LinkedIn - 06/01/2026

Os acontecimentos recentes envolvendo a Venezuela expuseram, de forma nua e crua, uma verdade incômoda que a história já ensinou inúmeras vezes, soberania não se sustenta apenas com discursos, votos em organismos multilaterais ou boas intenções diplomáticas. Sustenta-se, antes de tudo, com capacidade real de dissuasão, previsibilidade orçamentária e instrumentos efetivos de poder como o chamado hard power (poderío militar)que combinado de forma inteligente com o soft power (diplomacia), pode ser uma solução inteligente.

A captura de Nicolás Maduro por forças norte-americanas, em uma operação cirúrgica e de alto impacto político, revela a assimetria brutal entre Estados com forças armadas estruturadas, financiadas de forma contínua e integradas a uma estratégia nacional, e aqueles cuja defesa se tornou retórica vazia ou variável de ajuste fiscal. Não se trata aqui de juízo de valor, mas de constatação objetiva. Quem não consegue proteger seu território, suas instituições e seus líderes, não controla plenamente seu destino.

Nesse cenário, talvez não se trate de estratégia, mas da exposição de fragilidades acumuladas por Estados que abriram mão, ao longo do tempo, de capacidade real de dissuasão para ter discursos populistas ligados a auxílios travestidos de bolsas que no final só garantem outra eleição, mas os diminuem com Estados.

A resposta raramente agrada. Segurança nacional não é improviso, tampouco projeto de governo. É política de Estado, construída ao longo de décadas, sustentada por orçamento sustentável e contínuo, planejamento de longo prazo e clareza estratégica. Países que tratam defesa como gasto supérfluo acabam terceirizando, consciente ou inconscientemente, sua soberania.

O hard power que tem em seu esteio, Forças Armadas capacitadas, tecnologia, inteligência e prontidão não exclui o soft power. Pelo contrário, diplomacia eficaz, capacidade de mediação, liderança regional/mundial e credibilidade internacional só existem quando respaldadas por força real. O mundo respeita quem dialoga, mas ouve com atenção quem também pode se defender.

Para a América do Sul em 2026, a crise venezuelana tende a ser um divisor de águas. Fluxos migratórios, instabilidade fronteiriça, disputas de influência extrarregionais e precedentes perigosos pressionam os países vizinhos. O Brasil, em especial, não pode se dar ao luxo da ingenuidade estratégica. Sua tradição diplomática é um ativo valioso, mas perde eficácia se dissociada de capacidade militar crível e de uma política de defesa estável e previsível.

Tratar episódios dessa magnitude como “normalidade” é um erro estratégico. A soberania, quando negligenciada, não desaparece de forma ruidosa ela se esvai silenciosamente. E quando se percebe a perda, geralmente já é tarde demais para recuperá-la sem custos elevados.

*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 do Exército Brasileiro, Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército, foi comandante do Centro de Capacitação Física do Exército e, atualmente, é consultor em meio ambiente e projetos de crédito de carbono no Instituto Climático VBH em Brasília. 

06 janeiro, 2026

Embraer supera meta de entregas em 2025 e registra melhor trimestre do ano

Fabricante brasileira entregou 244 aeronaves em 2025, ultrapassando em 18% o desempenho de 2024 


*LRCA Defense Consulting - 06/01/2026

A Embraer encerrou 2025 com resultados robustos, entregando 91 aeronaves no quarto trimestre e totalizando 244 jatos ao longo do ano, um crescimento de 18,4% em relação às 206 unidades entregues em 2024. Os números confirmam a recuperação da fabricante brasileira e o cumprimento das metas estabelecidas para o período.

Aviação executiva puxa crescimento
O segmento de Aviação Executiva foi o destaque do trimestre, com 53 entregas, um aumento de 29% em relação ao terceiro trimestre de 2025 (41 unidades) e de 20% comparado ao mesmo período de 2024 (44 jatos). O Phenom 300, líder de mercado pelo 13º ano consecutivo, foi responsável por 23 das entregas trimestrais.

No acumulado do ano, a divisão executiva entregou 155 aeronaves, atingindo o teto superior da projeção de 145 a 155 unidades e consolidando sua posição no mercado global de jatos executivos.

Aviação comercial atinge meta projetada
A Aviação Comercial registrou 32 entregas no quarto trimestre, superando os 20 jatos do terceiro trimestre e ligeiramente acima das 31 unidades do último trimestre de 2024. O E195-E2, maior modelo comercial da Embraer atualmente em produção, representou quase metade das entregas, com 15 unidades.

Ao longo de 2025, o segmento comercial entregou 78 aeronaves, dentro da faixa prevista de 77 a 85 jatos, demonstrando consistência na execução da estratégia da empresa.

Defesa e Segurança mantém ritmo
No setor de Defesa e Segurança, a Embraer entregou seis aeronaves no trimestre: duas unidades do KC-390 Millennium, avião de transporte militar multimissão, e quatro do A-29 Super Tucano. No ano, foram 11 aeronaves militares entregues, ante apenas três em 2024.

Destaques por modelo

Aviação Executiva

  • Phenom 300: 72 unidades em 2025 (vs. 65 em 2024)
  • Phenom 100: 14 unidades em 2025 (vs. 10 em 2024)
  • Light Jets: 86 unidades no total
  • Praetor 500: 39 entregas em 2025 (vs. 28 em 2024)
  • Praetor 600: 30 entregas em 2025 (vs. 27 em 2024)

Aviação Comercial

  • E175: 34 unidades em 2025 (vs. 26 em 2024)
  • E190-E2: 6 unidades em 2025 (vs. 8 em 2024)
  • E195-E2: 38 unidades em 2025 (vs. 39 em 2024)

Defesa e Segurança

  • KC-390 Millennium: 3 unidades em 2025 (vs. 3 em 2024)
  • A-29 Super Tucano: 8 unidades em 2025 (estreia nas entregas)

Perspectivas para 2026
Com a recuperação da demanda global por aeronaves e o fortalecimento de seu portfólio, especialmente nos jatos executivos e no E2, a Embraer se posiciona para dar continuidade ao crescimento em 2026. A empresa projeta entregar entre 222 e 240 aeronaves comerciais e executivas este ano, mantendo trajetória de expansão.

Os resultados reforçam a posição da Embraer como uma das principais fabricantes globais de aeronaves comerciais e executivas de pequeno e médio porte, competindo diretamente com gigantes como Bombardier e Gulfstream no mercado executivo, e mantendo protagonismo no nicho de jatos regionais.

Análise de Mercado
O desempenho da Embraer em 2025 reflete não apenas a execução eficiente de sua estratégia industrial, mas também a recuperação do setor de aviação após anos desafiadores. O crescimento de 267% nas entregas militares e o fortalecimento da linha executiva indicam diversificação bem-sucedida do portfólio.

A liderança do Phenom 300 pelo 13º ano consecutivo é particularmente notável em um mercado competitivo, demonstrando a aceitação consistente dos produtos brasileiros no segmento premium global.

O paradoxo da Defesa brasileira - capacidade industrial sem demanda interna

 


*Mauro Beirão - 06/01/2026

A intensificação das tensões geopolíticas em diferentes regiões do mundo tem reconfigurado de forma significativa as agendas de segurança e defesa de diversos países. O sistema internacional atravessa um período de crescente fragmentação estratégica, marcado pela multiplicação de conflitos regionais, pela competição entre grandes potências e pela securitização acelerada de tecnologias emergentes, com impactos diretos sobre a estabilidade regional e a autonomia decisória dos Estados.

Na América do Sul, a prisão de Nicolás Maduro e o consequente agravamento da crise política e institucional na Venezuela alteraram de forma relevante o equilíbrio estratégico regional. A intensificação das tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela, somada à incerteza quanto à governabilidade, ao controle das forças de segurança e à dinâmica interna do país vizinho, introduz novos vetores de instabilidade no entorno estratégico do Brasil, que até então se caracterizava por baixos níveis de conflito interestatal.

Esse novo cenário amplia a complexidade dos desafios relacionados à vigilância de fronteiras, ao controle de fluxos migratórios, ao combate a ilícitos transnacionais e à preservação da soberania nacional, exigindo maior capacidade de antecipação, dissuasão e resposta por parte do Estado brasileiro.

Nesse contexto, a Base Industrial de Defesa (BID) assume papel ainda mais central como instrumento de autonomia estratégica, política industrial de alto valor agregado e inserção internacional qualificada. Sua relevância deve ser compreendida para além da dimensão estritamente militar, abrangendo a geração de capacidades tecnológicas críticas, a resiliência do Estado frente a cenários de instabilidade regional e a consolidação do Brasil como ator responsável e previsível no campo da segurança e da defesa.

A Base Industrial de Defesa brasileira como ativo estratégico de estado

Sob a perspectiva adotada por organismos multilaterais e centros de análise estratégica, a indústria de defesa constitui um dos pilares da capacidade estatal em contextos de incerteza geopolítica. No caso brasileiro, a BID é composta por um ecossistema industrial diversificado, que abrange os domínios aeroespacial, naval, terrestre, espacial, cibernético, comunicações e eletroeletrônico, fomentando empresas de alta tecnologia, plenamente estabelecidas e integradas ao setor produtivo do país independentemente da origem de seu capital.

O critério relevante para avaliação estratégica não reside no país de origem das empresas, mas na capacidade de investimentos, na transferência de tecnologias, na geração de valor local, na retenção de competências tecnológicas, na formação de capital humano altamente qualificado e na aderência dessas capacidades às prioridades de defesa e segurança nacionais.

Expansão das exportações e inserção internacional

Nos últimos anos, a Base Industrial de Defesa brasileira apresentou um crescimento expressivo de suas exportações, refletindo ganhos de competitividade, maturidade tecnológica e reconhecimento internacional de seus produtos e sistemas. O aumento significativo das vendas externas demonstra a capacidade da BID de atender a padrões internacionais rigorosos, operar em cadeias globais de valor e competir em mercados altamente regulados.

Do ponto de vista das relações internacionais, esse desempenho projeta o Brasil como um fornecedor relevante de produtos e sistemas de defesa, ampliando sua presença diplomática, fortalecendo parcerias estratégicas e contribuindo para sua política externa por meio de instrumentos de cooperação industrial e tecnológica.

Entretanto, essa inserção internacional mais robusta contrasta com um desafio estrutural persistente no plano doméstico.

A assimetria entre capacidade industrial e a demanda interna

Apesar da evolução tecnológica e do desempenho exportador da BID, as Forças Armadas brasileiras enfrentam limitações significativas de absorção dessas capacidades, em razão de sucessivos cortes orçamentários e da elevada rigidez do orçamento de defesa, historicamente concentrado em despesas obrigatórias. Essa assimetria gera um paradoxo estratégico: o Brasil dispõe de uma Base Industrial de Defesa capaz de desenvolver e produzir sistemas avançados, mas ainda carece de previsibilidade orçamentária e continuidade programática para incorporá-los de forma sistemática às suas próprias forças. Sob a ótica de políticas públicas, essa desconexão reduz o efeito multiplicador dos investimento em defesa enfraquece a indução tecnológica gerada por encomendas governamentais, limita o planejamento de longo prazo da indústria e amplia a dependência da BID em relação ao mercado externo, tornando-a mais vulnerável a ciclos internacionais e restrições geopolíticas.

Think tanks* internacionais frequentemente apontam que a demanda doméstica estável é elemento crítico para a sustentabilidade de uma indústria de defesa, não apenas como cliente, mas como indutor de inovação, padronização e soberania operacional. 

Implicações para autonomia estratégica e política externa

A persistência de baixos níveis de investimento em aquisição e modernização de meios compromete a credibilidade dissuasória do país e restringe a sua capacidade de atuação autônoma em cenários regionais e multilaterais. Além disso, limita a plena exploração dos benefícios estratégicos associados à BID, tais como:

- Domínio do ciclo de vida dos sistemas;

- Autonomia do suporte logístico e de manutenção;

- Capacidade de adaptação rápida a novos cenários de ameaça;

- Continuidade logística e operacional das Forças Armadas em cenários de crise;

- Redução de vulnerabilidades externas em sistemas sensíveis;

- Capacidade nacional de manutenção, modernização e integração de plataformas estratégicas;

- Flexibilidade diplomática, ao diminuir dependências críticas de fornecedores externos.

Para países com ambições de protagonismo regional, a literatura estratégica destaca a importância de alinhar política industrial de defesa, planejamento militar e política externa, evitando que capacidades industriais avancem de forma dissociada das necessidades operacionais do Estado.

Empresas brasileiras com capital internacional e inserção global

A presença de empresas brasileiras com capital internacional na BID deve ser analisada sob uma ótica pragmática e estratégica. Em um setor caracterizado por cadeias globais altamente reguladas e intensivas em tecnologia, a participação em programas internacionais amplia o acesso a mercados, padrões tecnológicos e processos industriais avançados.

A experiência internacional demonstra que países com BID robusta combinam capital nacional e internacional, desde que preservem o controle soberano sobre requisitos operacionais, propriedade intelectual sensível e ciclos de vida dos sistemas estratégicos.

Considerações finais

O fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira ocorre em um momento de profunda transformação do ambiente internacional. O crescimento das exportações confirma a relevância e a competitividade da BID, mas também expõe uma fragilidade estrutural que é a limitada capacidade do Estado brasileiro de absorver, de forma contínua e previsível, as soluções que ele próprio ajuda a desenvolver.

Para organismos internacionais e centros de análise estratégica, a principal questão não é a existência de capacidades industriais, mas a coerência entre ambição estratégica, financiamento público e governança institucional.

Superar essa assimetria exige uma abordagem de política de Estado, que reconheça a BID, que é composta por empresas nacionais e empresas brasileiras com capital internacional, como um instrumento central da autonomia estratégica brasileira, capaz de contribuir simultaneamente para a segurança nacional, o desenvolvimento tecnológico e a inserção internacional do país.

* Think tanks são instituições dedicadas à produção de conhecimento aplicado, com foco em análise, pesquisa e formulação de propostas para orientar políticas públicas, estratégias governamentais, decisões empresariais e debates da sociedade.

*Mauro Beirão tem formação em Engenharia Mecânica e mais de 30 anos dedicados à indústria de defesa e aeroespacial, atuando em uma das maiores companhias do setor, parte de um dos principais conglomerados globais de tecnologia e defesa. Ao longo da carreira, contribuiu para programas estratégicos das Forças Armadas Brasileiras e para o desenvolvimento de soluções aeroespaciais avançadas. Atualmente, como Gerente de Marketing da AEL Sistemas, lidera iniciativas de fortalecimento da marca e prospecção de negócios, consolidando a empresa como referência em inovação e tecnologia para a defesa nacional.

 

 

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