Chefe do Estado-Maior aponta confrontos semanais com o GAOR na fronteira com a Colômbia e desloca a prioridade do Comando Militar da Amazônia para o oeste da região
*LRCA Defense Consulting - 17/07/2026
O chefe do Estado-Maior do Exército, general Francisco Humberto Montenegro Júnior, revelou que a principal ameaça enfrentada pelo Comando Militar da Amazônia (CMA) deixou de ser a fronteira de Roraima com a Venezuela e passou a se concentrar no oeste da região amazônica, onde pelotões brasileiros travam confrontos semanais com guerrilheiros colombianos ligados ao narcotráfico. A declaração foi feita durante o seminário “A Evolução da Guerra: Desafios para o Componente Terrestre”, realizado no auditório do quartel-general do Exército, em Brasília, no dia 14 de julho de 2026.
Segundo o general, soldados, tenentes e sargentos da 2.ª e da 16.ª Brigadas de Infantaria de Selva enfrentam ataques e trocam tiros toda semana com integrantes do GAOR (Grupos Armados Organizados Residuais), denominação dada a dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que se recusaram a aderir ao acordo de paz de 2016 e passaram a atuar como um dos mais fortes cartéis do narcotráfico da América do Sul. “O cenário mudou. Hoje, a gente tem um cenário muito preocupante no CMA”, afirmou Montenegro, segundo reportagem do jornalista Marcelo Godoy publicada pelo Estadão.
Rotas de escoamento de droga levam a mudança de
foco
De acordo com o general, os guerrilheiros dos GAOR cruzam a fronteira
brasileira para escoar drogas com destino à Europa e à África, principalmente
por duas vias. A primeira é a rota do Solimões, que liga áreas produtoras de
droga nos países andinos à malha fluvial amazônica, passando perto da tríplice
fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru; dali, a carga pode seguir por rio até
Manaus e Belém, de onde alcança rotas internacionais. A segunda é a chamada
rota Caipira, historicamente associada ao escoamento de entorpecentes vindos da
Bolívia e do Paraguai pelo Centro-Oeste até o Sudeste, com saída pelo litoral
de São Paulo. Segundo o general, essa combinação de rotas fez da faixa oeste do
CMA a nova prioridade operacional da Força.
Levantamentos de segurança pública anteriores já indicavam que a rota do Solimões é considerada a segunda principal via de entrada de cocaína no País, atrás apenas da rota Caipira. Reportagens sobre o tema apontam ainda que ex-integrantes das Farc se associaram a facções brasileiras, como o Comando Vermelho, para disputar o controle de trechos da rota amazônica, o que ajudaria a explicar a intensidade dos confrontos hoje relatados pelo Exército.
Prejuízo de R$ 600 milhões e apreensões na
fronteira
O general Montenegro também citou um dado divulgado pelo comando do
Exército em maio de 2026, segundo o qual a atuação da Força Terrestre na faixa
de fronteira impôs mais de R$ 600 milhões de prejuízo ao crime organizado em
2025, somando milhares de ações contra ilícitos, entre apreensões de drogas,
destruição de estruturas ilegais e patrulhamentos. Um episódio emblemático
dessa rotina ocorreu na madrugada de 27 de fevereiro de 2025, quando o 2.º
Pelotão Especial de Fronteira (PEF), da 16.ª Brigada de Infantaria de Selva,
apreendeu uma tonelada de skunk (variedade de maconha de alto teor de THC) em
uma embarcação no Rio Içá, no Amazonas, próximo à fronteira com a Colômbia.
Os Pelotões Especiais de Fronteira funcionam como pontos avançados e quase permanentes de presença do Estado brasileiro em áreas remotas da Amazônia, muitas vezes cercadas por rios e selva fechada. Segundo dados do próprio Comando Militar da Amazônia, o CMA vigia atualmente cerca de 60% das fronteiras terrestres do Brasil, com efetivos distribuídos em 64 organizações militares, 23 pelotões especiais de fronteira e um destacamento especial de fronteira, atuando nas quatro tríplices fronteiras da região (Brasil-Guiana-Venezuela, Brasil-Colômbia-Venezuela, Brasil-Peru-Colômbia e Brasil-Peru-Bolívia).
O que perdeu prioridade: o dispositivo montado
contra Maduro
A fala do general reposiciona um dispositivo que havia sido montado nos
últimos anos em razão do risco de o então ditador venezuelano Nicolás Maduro
usar o território brasileiro para se apossar da região de Essequibo, na Guiana.
Para reforçar a 1.ª Brigada de Infantaria de Selva, com sede em Boa Vista (RR),
o Exército havia criado, em 2023, o 18.º Regimento de Cavalaria Mecanizado e
enviado à unidade dezenas de mísseis antitanque MAX 1.2 AC (à época ainda
designados MSS 1.2 AC), sistema guiado a laser desenvolvido com tecnologia
nacional pelo Centro Tecnológico do Exército (CTEx) em parceria com a SIATT,
além de artilharia antiaérea de baixa altura. Reportagens recentes já
reenquadram esse mesmo material dentro da nova prioridade amazônica, afirmando
que os mísseis foram enviados com urgência à região em 2023 e 2024 por causa da
crise de Essequibo, mas hoje servem, sobretudo, para reforçar a soberania
brasileira sobre a Amazônia como um todo.
Ao comentar a revelação do general, o jornalista Marcelo Godoy observou que, enquanto forças políticas do País discutem a classificação jurídica do crime organizado, os grupos armados continuam a se infiltrar na política, na economia e nas fronteiras nacionais.
Um precedente histórico
O confronto direto entre tropas brasileiras e guerrilheiros colombianos
em solo nacional não é inédito. Em fevereiro de 1991, cerca de 40 guerrilheiros
das Farc, que se autodenominavam “Comando Simón Bolívar”, invadiram o
território brasileiro às margens do Rio Traíra, no Amazonas, e atacaram de
surpresa um destacamento do Exército guarnecido por apenas 17 militares. A
resposta brasileira, batizada de Operação Traíra, envolveu tropas de elite,
forças especiais e apoio do Exército colombiano. O episódio de 1991 e os
confrontos hoje relatados pelo general Montenegro têm origem em contextos
distintos (o ataque de 1991 seria motivado pela repressão ao garimpo ilegal,
enquanto os atritos atuais decorreriam do narcotráfico), mas ilustram a
persistência histórica da fronteira amazônica como área de atrito armado com
grupos originados da guerrilha colombiana.
Cooperação binacional em curso
Paralelamente ao quadro descrito pelo general, Brasil e Colômbia têm
ampliado ações conjuntas na mesma faixa de fronteira. Um exemplo é a Operação
Fronteira Dourada, conduzida entre 11 e 19 de novembro de 2025, que reuniu
Polícia Federal, Ibama, ICMBio, Exército, Polícia Rodoviária Federal, Censipam
e a Polícia Nacional da Colômbia contra o garimpo ilegal na região do Rio
Puruê, com resultado de mais de R$ 112 milhões de prejuízo às estruturas
criminosas. Organismos internacionais também têm sinalizado atenção ao tema: o
Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime destacou, em 2026, que Brasil
e Colômbia assinaram protocolo de intercâmbio de inteligência para enfrentar o
crime organizado transnacional ligado ao tráfico de drogas em áreas marítimas e
fluviais da Amazônia compartilhada.
A revelação do general Montenegro Júnior deve alimentar o debate sobre quais equipamentos o Exército deve priorizar para o combate diário nas áreas de fronteira mais expostas ao narcotráfico, tema que, segundo o próprio general, já está sendo avaliado pela Força.




