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02 setembro, 2026

Embraer entrega o 2.000º jato da família E-Jet, recebido pela Azul em São José dos Campos

Aeronave é um E195-E2 e também marca a 50ª entrega da versão E2 para a companhia aérea brasileira, uma das maiores operadoras da família no mundo



*LRCA Defense Consulting - 02/09/2026

A Embraer entregou nesta terça-feira (2), em cerimônia realizada em sua sede, em São José dos Campos (SP), o 2.000º avião da família E-Jet. A aeronave, um E195-E2, foi recebida pela Azul Linhas Aéreas, maior companhia aérea do País em número de destinos atendidos. O marco reforça a posição do programa entre os maiores da aviação comercial mundial em número de unidades entregues.

Em serviço desde 2004, a família E-Jet já foi operada por mais de 90 companhias aéreas em mais de 60 países, acumulou cerca de 48 milhões de horas de voo e transportou mais de 2,85 bilhões de passageiros, segundo dados divulgados pela fabricante. O programa reúne as gerações E170, E175, E190 e E195, além dos modelos de segunda geração, E190-E2 e E195-E2, que trouxeram nova motorização e maior eficiência de combustível em relação à primeira geração.

Para Arjan Meijer, presidente e CEO da Embraer Commercial Aviation, a entrega da 2.000ª unidade é “um marco extraordinário” tanto para a fabricante quanto para o setor de transporte aéreo global. Segundo ele, ao longo das últimas duas décadas a família E-Jet teve papel relevante na conexão de comunidades, na abertura de novos mercados e na criação de oportunidades de crescimento sustentável para as companhias aéreas clientes.

A parceria entre Embraer e Azul remonta a dezembro de 2008, quando a companhia aérea recebeu, em seu voo inaugural, o primeiro E190, registrado como PR-AZL. Desde então, a Azul já operou mais de 140 jatos da família E-Jet e foi cliente de lançamento do E195-E2, tendo recebido a primeira unidade da versão em 2019. A aeronave entregue nesta semana marca também o 50º jato E2 recebido pela companhia. Para John Rodgerson, CEO da Azul, a coincidência dos dois marcos, o do programa da Embraer e o da própria trajetória da companhia aérea, dá um significado especial à entrega, que resume quase duas décadas de expansão da conectividade aérea regional no Brasil e de melhorias na experiência dos passageiros.

Além do peso simbólico, a marca de 2 mil unidades consolida o E-Jet como um dos três maiores programas de jatos comerciais do mundo em volume de entregas, atrás apenas das famílias A320, da Airbus, e 737, da Boeing, tradicionalmente as mais entregues da aviação comercial mundial. O resultado também sustenta a posição da Embraer entre as maiores fabricantes de aeronaves comerciais do planeta e permitiu à companhia brasileira ampliar sua presença no segmento global de narrowbodies de pequeno porte, além do tradicional nicho de aviação regional em que o programa nasceu.

Exército prevê evolução do míssil Avibras MTC-300 com maior alcance e guiamento terminal

MTC Bloco II amplia a capacidade planejada para o sistema ASTROS-FOGOS, mas ainda não há indicação pública de início do desenvolvimento ou definição do alcance

Imagem meramente ilustrativa renderizada por IA


*LRCA Defense Consulting - 02/09/2026

O Exército Brasileiro prevê uma evolução do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), atualmente em fase avançada de certificação, para uma futura versão denominada MTC Bloco II. A proposta contempla maior alcance, novas cabeças de guerra e a incorporação de guiamento terminal, ampliando o espectro de alvos que o sistema poderá enfrentar.

A previsão integra a atualização das diretrizes do Programa Estratégico ASTROS-FOGOS e confirma que a evolução do MTC não se limita ao aumento da distância de emprego. O objetivo é acrescentar capacidades que permitam maior flexibilidade operacional, inclusive diante de alvos móveis.

O MTC-300 atualmente em certificação tem alcance declarado de até 300 quilômetros. Em 26 de agosto de 2026, a Avibras Aeroco e o Exército Brasileiro realizaram com sucesso novo ensaio de tiro no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro. Segundo a empresa, os objetivos previstos para aquela etapa foram integralmente alcançados.

Uma evolução que já estava prevista 
A concepção do MTC Bloco II, entretanto, não surgiu apenas com a atualização de 2026. Documentos de planejamento da Defesa já previam uma evolução do sistema em razão de novas necessidades operacionais, especialmente para a defesa do litoral e o emprego contra alvos móveis. Entre os requisitos apontados estavam justamente o guiamento terminal, novas cabeças de guerra e alcance superior ao MTC então existente.

O Plano Estratégico do Exército também já havia associado o Bloco II à necessidade de desenvolver um Míssil Tático de Cruzeiro com guiamento terminal contra alvos móveis. Isso mostra que a nova diretriz representa a continuidade de uma linha de planejamento, e não a criação repentina de um novo projeto.

Mais do que simplesmente aumentar o alcance 
A principal mudança qualitativa do Bloco II poderá estar no guiamento terminal. O MTC-300 foi concebido para ataques de precisão contra alvos previamente definidos, enquanto a capacidade de buscar ou discriminar o alvo na fase final do voo abre a possibilidade de emprego contra alvos móveis, incluindo, em determinados cenários, meios navais em movimento.

Essa característica tem relevância especial para a defesa do litoral. Estudos produzidos no âmbito do próprio Exército já apontaram que um míssil de cruzeiro destinado a engajar vetores navais em manobra necessita de uma solução de guiamento terminal, complementar aos sistemas de navegação inercial e por satélite.

O alcance do Bloco II ainda não foi definido publicamente 
Embora o planejamento estabeleça que o Bloco II deverá superar os 300 quilômetros associados ao MTC-300, não há, nas informações públicas consultadas, um número oficial para o alcance da futura versão.

Estimativas muito superiores, frequentemente atribuídas ao futuro míssil em discussões públicas, não devem ser confundidas com requisitos oficialmente divulgados ou capacidades demonstradas. Até o momento, a referência segura é a de que o Bloco II deverá ter alcance superior ao atual, sem especificação pública de quantos quilômetros serão alcançados. 

Projeto ainda não equivale a desenvolvimento iniciado 
Outro ponto importante é a diferença entre uma capacidade prevista no planejamento estratégico e um projeto efetivamente em desenvolvimento. A documentação disponível indica que o Bloco II permanece no campo da evolução planejada. Não há evidência pública suficiente para afirmar que uma campanha de desenvolvimento já tenha sido iniciada.

Essa distinção é particularmente relevante porque o MTC-300 e o MTC Bloco II encontram-se em situações diferentes. Enquanto o primeiro vem passando por ensaios destinados à certificação, o segundo continua associado a uma capacidade futura, cujos requisitos e soluções tecnológicas ainda podem sofrer alterações. 

A questão da propulsão permanece em aberto 
Também não há definição pública consolidada sobre a turbina que equipará o Bloco II. Referências anteriores do setor associaram diferentes soluções de propulsão à evolução da família MTC, mas os documentos públicos mais recentes consultados não permitem afirmar que o TF-1200, o TJ-1000B ou qualquer outro modelo tenha sido oficialmente selecionado para a futura versão.

A ausência de uma definição pública, portanto, não significa que determinadas alternativas tenham sido descartadas. Significa apenas que não há informação oficial suficiente para atribuir ao Bloco II uma configuração de propulsão específica. 

O novo contexto do ASTROS-FOGOS 
A evolução do MTC ocorre em um momento de reorganização do portfólio estratégico do Exército. Em março de 2026, a Força estruturou o ASTROS-FOGOS como um de seus programas prioritários, concentrando sob uma mesma arquitetura iniciativas relacionadas à artilharia, mísseis e foguetes e defesa antiaérea.

Nesse contexto, o MTC Bloco II passa a integrar uma visão mais ampla de capacidades de fogos de longo alcance. O desenvolvimento de munições mais precisas, com maior alcance e capacidade de enfrentar diferentes tipos de alvos, é coerente com a busca do Exército por maior capacidade de dissuasão e projeção de efeitos sem a necessidade de empregar meios aéreos tripulados. 

MTC-300 avança enquanto o Bloco II permanece no horizonte 
O contraste entre os dois projetos é importante. O ensaio realizado em 26 de agosto reforçou o avanço do MTC-300 no processo de certificação. A atividade reuniu equipes do Exército e da Avibras Aeroco e contou ainda com representantes do Escritório de Projetos do Exército, da Diretoria de Fabricação, do Instituto Militar de Engenharia e do Centro Tecnológico do Exército.

Já o Bloco II representa uma etapa posterior. Sua importância está menos em uma capacidade já disponível e mais na direção tecnológica que o Exército pretende seguir: maior alcance, novas opções de carga militar e capacidade de guiamento terminal. Caso o projeto avance para a fase de desenvolvimento, essas características poderão transformar o MTC em uma arma significativamente mais versátil do que a versão atualmente em certificação. 

O que deve ser observado 
Os próximos documentos de planejamento e eventuais decisões de contratação serão importantes para verificar se o MTC Bloco II deixará o estágio de previsão e passará a uma fase formal de desenvolvimento. Também será relevante acompanhar eventual definição dos requisitos de alcance, do sistema de guiamento terminal, das cabeças de guerra e da propulsão.

Por enquanto, o quadro que emerge da documentação pública é claro: o Brasil trabalha para consolidar o MTC-300 de até 300 quilômetros e, paralelamente, mantém planejada uma evolução capaz de ampliar substancialmente suas possibilidades de emprego. O Bloco II, porém, ainda deve ser tratado como uma capacidade futura, e não como um míssil já em desenvolvimento ou com características técnicas definitivamente estabelecidas. 

01 setembro, 2026

ITA e OpenAI: o que o acordo realmente prevê, segundo documentos oficiais

Caráter estratégico do ITA e seu vínculo com a Força Aérea Brasileira torna improvável que o acordo previsse, ou sequer admitisse, repasse de dados institucionais


*LRCA Defense Consulting - 01/09/2026

A OpenAI, empresa americana responsável pelo ChatGPT, anunciou, em 18 de agosto de 2026, durante evento em São Paulo, o início de suas operações comerciais no Brasil. O anúncio incluiu quatro iniciativas e parcerias institucionais: com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), com a Prefeitura de São Paulo, por meio da Prodam, com a plataforma de capacitação jurídica ENTER e com o programa Estímulo, voltado a pequenos empreendedores.

O acordo com o ITA, uma das principais escolas de engenharia ligadas às Forças Armadas no País, chamou atenção de setores que acompanham temas de defesa e soberania tecnológica. Nas redes sociais, circulou a leitura de que a instituição teria fechado uma parceria para compartilhar dados com a OpenAI, e de que o acordo levantaria suspeitas quanto à entrega de informações sensíveis à soberania nacional a uma empresa dos Estados Unidos.

O que dizem os documentos e anúncios oficiais 
Segundo o anúncio publicado pela própria OpenAI e confirmado por veículos como CNN Brasil, Poder360, IT Forum e Consecti, os termos tornados públicos descrevem a concessão de acesso e créditos pela OpenAI ao ITA: a empresa fornecerá contas do ChatGPT Edu a estudantes, docentes e funcionários do ITA, além de créditos para o uso de recursos avançados, como modelos de raciocínio e o Codex, ferramenta de programação da companhia. O objetivo declarado é ampliar o acesso a ferramentas de inteligência artificial no ensino, na pesquisa e no desenvolvimento tecnológico da instituição.

Em nenhuma das fontes oficiais consultadas, incluindo o anúncio da OpenAI e a cobertura jornalística sobre o evento de lançamento, foi localizada menção a cláusulas de compartilhamento de dados institucionais, de pesquisa ou de projetos do ITA com a empresa americana. O modelo descrito é equivalente ao adotado pela OpenAI em outras universidades, como Oxford, Wharton, Arizona State e Columbia. A iniciativa também se insere na estratégia maior da empresa de ampliar a utilização de suas ferramentas no ambiente universitário e acadêmico.

A política da OpenAI para contas institucionais do tipo Edu e Enterprise, disponível na central de ajuda da empresa, afirma que os dados dessas organizações não são utilizados para treinar os modelos por padrão, e que as informações são protegidas por criptografia em trânsito e em repouso. Isso, contudo, não significa que a empresa jamais processe os dados: o tratamento ocorre de acordo com as condições do serviço, as configurações da organização e as respectivas políticas de privacidade. 

Por que o tema gera desconfiança 
O caráter estratégico do ITA, ligado à formação de engenheiros para a indústria aeroespacial e de defesa, explica por que qualquer parceria da instituição com uma empresa estrangeira de tecnologia tende a ser observada com atenção redobrada. A chegada da OpenAI ao País ocorre, ainda, em um momento de disputa comercial entre grandes empresas de inteligência artificial por espaço no mercado brasileiro, o que amplia o escrutínio sobre os termos de cada acordo firmado com instituições públicas ou estratégicas.

Ainda assim, a distinção entre fornecer acesso a uma ferramenta e repassar dados institucionais é relevante para a análise do caso. Um risco operacional distinto, e esse sim mencionado por especialistas em segurança da informação de forma genérica, é o de usuários inserirem, no uso cotidiano de ferramentas de inteligência artificial, informações sensíveis em suas próprias consultas, independentemente da existência de qualquer cláusula contratual de repasse de dados. Esse risco, no entanto, decorre do comportamento do usuário e não caracteriza, por si só, um acordo institucional de transferência de informações como o descrito nas redes sociais.

Situação até o fechamento desta matéria
Até o momento, não foi localizado, nos canais oficiais consultados do ITA, da Aeronáutica ou do Ministério da Defesa, documento contratual público que permita conhecer eventuais cláusulas adicionais do acordo além das informações divulgadas pela OpenAI. Também não foi localizada manifestação pública específica dessas instituições que detalhe o teor jurídico e operacional da parceria.

Isso não permite concluir, contudo, que não existam outras cláusulas contratuais. Significa apenas que, até o fechamento desta matéria, elas não foram tornadas públicas ou não foram localizadas nas fontes oficiais consultadas.

Diante do caráter estratégico do ITA e de seu vínculo direto com a Força Aérea Brasileira, seria de se esperar que a instituição não admitisse, em um acordo dessa natureza, cláusula que previsse, ou sequer deixasse em aberto, a possibilidade de transferência de dados institucionais, de pesquisa ou de projetos estratégicos a uma empresa estrangeira. Nas informações públicas disponíveis, não há qualquer indício de que esse tenha sido o objeto da parceria com a OpenAI. O que está documentado é a disponibilização de contas do ChatGPT Edu e de créditos para recursos avançados, incluindo modelos de raciocínio e o Codex.

Portugal autoriza assinatura de MoU com a Grécia sobre o KC-390, e CEO da Embraer confirma negociação

Despacho publicado no Diário da República em 26 de agosto habilita o diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa português a formalizar a parceria estratégica bilateral; Francisco Gomes Neto citou a Grécia no earnings call de agosto, mas com cautela que sinaliza contrato ainda não fechado


*LRCA Defense Consulting - 01/09/2026

Dois documentos tornados públicos nas últimas semanas permitem, pela primeira vez, fixar com precisão em que ponto se encontra o processo de aquisição dos três KC-390 pela Grécia: iminente, mas não concluído. O primeiro é um despacho do Ministério da Defesa de Portugal publicado no Diário da República em 26 de agosto de 2026, autorizando formalmente o diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa a assinar um Memorando de Entendimento com o homólogo grego sobre uma "parceria estratégica relativa à capacidade de transporte aéreo militar". O segundo é a transcrição do earnings call do segundo trimestre da Embraer, realizado em 10 de agosto, em que o CEO Francisco Gomes Neto mencionou a Grécia no contexto de suas campanhas de defesa em andamento, com uma escolha de palavras que merece atenção cuidadosa.

Tomados em conjunto, os dois documentos redesenham o mapa do processo: Portugal está juridicamente pronto para assinar; a Embraer acompanha a negociação, mas ainda não a contabiliza como contrato; e a janela de assinatura mais provável é a primeira quinzena de setembro de 2026.

O despacho português: o lado Lisboa está pronto
O Diário da República é o diário oficial de Portugal, e um despacho ministerial publicado nele tem força de ato administrativo vinculante. O documento de 26 de agosto aprova a minuta de um Memorando de Entendimento entre os ministérios da Defesa de Portugal e da Grécia e autoriza o diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa a assiná-lo. O texto menciona explicitamente o interesse grego na aquisição de aeronaves KC-390 no âmbito da parceria estratégica bilateral.

DIÁRIO DA REPÚBLICA — DESPACHO DE 26/08/2026 (síntese)

Ato: Despacho ministerial, Ministério da Defesa Nacional de Portugal

Objeto: Aprovação da minuta de Memorando de Entendimento entre os Ministérios da

   Defesa de Portugal e da Grécia

Matéria: "Parceria estratégica relativa à capacidade de transporte aéreo militar"

Referência ao KC-390: explícita no texto do despacho

Autorização: diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa fica habilitado a assinar

Publicação: Diário da República, 26 de agosto de 2026

O significado prático é preciso: o lado português está juridicamente habilitado para assinar. A publicação no Diário da República não é uma formalidade interna, é o ato que confere ao signatário a competência legal para vincular o Estado português. Sem esse despacho, o MoU não poderia ser assinado por representante do governo de Lisboa. Com ele publicado, a única etapa que resta é a marcação da data e do local da cerimônia, mais a concordância do lado grego que, como demonstrado pela aprovação do KYSEA em 23 de julho, já completou seu próprio ciclo de autorizações institucionais.

A arquitetura jurídica do negócio é composta por duas camadas. O MoU intergovernamental Portugal-Grécia estabelece o quadro da parceria estratégica e os termos da transferência dos slots de produção que Portugal reservou na linha de montagem da Embraer em São José dos Campos. O contrato de aquisição propriamente dito, os EUR 597,5 milhões aprovados pelo Parlamento heleno em junho e referendados pelo KYSEA em julho, pode ser assinado no mesmo ato ou em momento imediatamente posterior. Em outros programas com estrutura semelhante, como o MoU de MRO entre a Embraer e a Hellenic Aerospace Industry (HAI) em maio de 2026, o instrumento preparatório e o ato principal foram separados por dias, não meses.

O earnings call: Gomes Neto confirma, mas escolhe as palavras
Na teleconferência de resultados do segundo trimestre, realizada em 10 de agosto, dezesseis dias antes do despacho português, o CEO Francisco Gomes Neto foi questionado pelo analista Ron Epstein, do Bank of America, sobre o impacto da situação geopolítica nas campanhas de defesa da Embraer. A resposta citou a Grécia, mas em termos que diferem significativamente do que foi dito sobre a Colômbia.


EMBRAER — EARNINGS CALL Q2 2026 (10/08/2026) — TRANSCRIÇÃO PARCIAL

"You saw the recent announcement after the UAE, we announced Colombia recently.

 You saw Greece also mentioning a potential deal through Portugal of KC-390.

 We are working on other campaigns as well that I cannot disclose at this point."

— Francisco Gomes Neto, presidente e CEO da Embraer

   Resposta ao analista Ron Epstein (Bank of America)

 
A distinção lexical é o elemento analítico central. A Colômbia foi apresentada como "newest KC-390 customer" (cliente confirmado), contrato assinado em 4 de agosto, anunciado no próprio call. A Grécia foi descrita como "mentioning a potential deal through Portugal" (um negócio potencial), ainda em discussão, não um cliente. A Embraer tem histórico consistente de precisão terminológica neste ponto: só anuncia um país como cliente quando o contrato está assinado. A linguagem de Gomes Neto em 10 de agosto era, portanto, uma confirmação de que o processo grego estava avançado, mas incompleto.

O despacho do Diário da República, publicado dezesseis dias depois, resolve a equação do lado português. Se na data do call o processo ainda estava em negociação, a publicação da autorização de assinatura pelo governo de Lisboa indica que as conversações evoluíram rapidamente para a etapa final. O padrão é coerente com o que o Army Recognition descreveu em 26 de julho: "acordo esperado para ser assinado no outono de 2026, com setembro como possível data-alvo".

Por que setembro e não outubro
Há três razões concretas para que setembro seja o prazo real, e não apenas o desejável. A primeira é a pressão dos slots de produção: a Grécia assumirá três posições previamente reservadas por Portugal na linha de Gavião Peixoto. Esses slots têm janelas temporais associadas ao cronograma de produção da Embraer, e a linha está crescentemente pressionada pela carteira de pedidos acumulada: Emirados Árabes Unidos (20 aeronaves, maio de 2026), Colômbia (2, agosto de 2026), Eslováquia (em negociação final) e potencialmente outros clientes não divulgados que Gomes Neto mencionou no mesmo call. Cada mês de atraso na formalização aumenta o risco de conflito de slots.

A segunda razão é o cronograma de entrega: a Grécia precisa receber a primeira aeronave em 2027. Para isso, o contrato precisa estar assinado com margem suficiente para que a Embraer complete os processos de aceitação, configuração e transferência. Fontes do setor estimam que o prazo mínimo entre assinatura e primeira entrega, neste tipo de contrato com slots pré-reservados, é de doze a dezoito meses. Um contrato assinado em setembro de 2026 deixa exatamente doze a quinze meses para a entrega de 2027, uma margem ajustada, mas viável.

A terceira razão é política: o governo Mitsotakis tem interesse em fechar o maior programa de defesa da história moderna da Grécia antes do fim do terceiro trimestre de 2026. O Escudo de Aquiles foi assinado em Tel Aviv em 31 de agosto. A narrativa de um "setembro de contratos", com o KC-390 seguindo imediatamente o sistema antiaéreo israelense, é um ativo político de primeira grandeza para um governo que fez da modernização das Forças Armadas um dos pilares de sua agenda.

O que ainda falta para o contrato ser assinado
O despacho português de 26 de agosto autoriza a assinatura do MoU intergovernamental, não do contrato de aquisição em si. A sequência mais provável é: MoU Portugal-Grécia assinado em data próxima, formalizando a parceria estratégica e a transferência de slots; em seguida, ou no mesmo ato, o contrato de compra e venda entre as partes, no valor de EUR 597,5 milhões aprovado pelas instituições gregas.

Do lado grego, todos os obstáculos institucionais foram superados: aprovação parlamentar (10 de junho), aprovação do KYSEA (23 de julho), negociações técnicas com Portugal conduzidas pela Diretoria-Geral de Investimentos e Armamentos de Defesa (GDDIA). Do lado português, o despacho de 26 de agosto fecha o ciclo de autorizações. Do lado da Embraer, a empresa acompanha e viabiliza tecnicamente a transferência de slots, sem ser a parte signatária do acordo governo a governo.

O único elemento de incerteza remanescente é a data exata e o local da cerimônia, Lisboa, Atenas ou outro ponto, que não foi anunciado por nenhum dos dois governos até o momento de publicação desta matéria. Mas os instrumentos jurídicos estão prontos. A caneta está sobre a mesa.

CRONOLOGIA: DOS ESTUDOS AO MoU

Fev. 2026

Delegação da Força Aérea Helênica avalia o KC-390 em operação em Beja, Portugal

22 mai. 2026

MoU Embraer / HAI para capacidade de MRO na Grécia — primeiro sinal público de decisão tomada

10 jun. 2026

Parlamento heleno aprova o programa: EUR 597,5 milhões, 3 aeronaves via Portugal

23 jul. 2026

KYSEA referenda os contratos — ciclo institucional grego encerrado

31 jul. 2026

Army Recognition: "setembro como possível data-alvo" para assinatura do acordo com Portugal

10 ago. 2026

Earnings call Embraer Q2: CEO cita Grécia como "potential deal through Portugal" — não como cliente confirmado

26 ago. 2026

Diário da República (Portugal) publica despacho autorizando assinatura do MoU com a Grécia sobre KC-390

31 ago. 2026

Escudo de Aquiles assinado em Tel Aviv — programa paralelo, distinto do KC-390

Set. 2026*

Assinatura do MoU Portugal-Grécia e do contrato de aquisição do KC-390 (data não anunciada)

2027

Previsão de entrega da 1ª aeronave à Força Aérea Helênica

2030

Conclusão das entregas das 3 aeronaves

(*) Linhas em verde: eventos confirmados por ato oficial. Setembro: projeção baseada em documentos primários.

Fontes: Diário da República de Portugal — Despacho 10563/2026 (26/08/2026) | Embraer Q2 2026 Earnings Call Transcript (Motley Fool / Globe and Mail, 10/08/2026) | Army Recognition (26/07/2026) | LRCA Defense Consulting

 

Centauro II: Exército assina primeiro lote e dá início à renovação da Cavalaria mecanizada

Contrato assinado em Brasília prevê a entrega inicial de sete viaturas 8x8 armadas com canhão de 120 mm, dentro de um programa que pode chegar a 221 unidades e substituirá o veterano Cascavel



*LRCA Defense Consulting - 01/09/2026

O Exército Brasileiro assinou, na segunda-feira, 31 de agosto, no Quartel-General do Exército (QGEx), o Forte Caxias, em Brasília, o contrato para a aquisição do primeiro lote da Viatura Blindada de Combate de Cavalaria (VBC Cav) Centauro II BR. A solenidade, realizada no Salão de Honra do Comando Logístico, marca a entrada em vigor do Lote de Experimentação Doutrinária (LED) do programa, etapa que abre caminho para a renovação da frota de blindados sobre rodas da Cavalaria mecanizada.

O documento foi firmado pelo comandante logístico do Exército, general de exército Maurílio Miranda Netto Ribeiro, e por Giovanni Luisi, vice-presidente sênior de Marketing e Vendas do Consórcio IDV–OTO Melara (CIO), empresa do grupo italiano Leonardo. Acompanharam o ato o comandante do Exército, general de exército Tomás Ribeiro Paiva, além dos generais de exército responsáveis pelas áreas de economia e finanças, ciência e tecnologia e pessoal da Força.

O LED prevê, de início, sete viaturas, retiradas do total de 98 unidades definidas na concorrência internacional encerrada em 2022, contrato que ainda contempla a possibilidade de ampliação para até 221 blindados, conforme a disponibilidade orçamentária e as necessidades operacionais do Exército. A aquisição será executada por meio de pedidos anuais, com entregas mínimas de sete unidades por ano. As primeiras viaturas do novo lote devem chegar ao Brasil até o início de 2028, segundo o cronograma informado pelo Exército.

Um marco para a Cavalaria 
Desenvolvido pelo Consórcio IDV–OTO Melara, o Centauro II é uma viatura blindada 8x8, equipada com a torre HITFACT MkII e o canhão OTO Melara 120/45, de 120 mm e alma lisa. O veículo é apresentado pelo Exército e pelo fabricante como o mais poderoso blindado de combate sobre rodas em operação na América Latina, reunindo poder de fogo, sensores digitais e sistema de controle de tiro compatíveis com o padrão das principais forças blindadas do mundo.

A viatura vai substituir o EE-9 Cascavel, em serviço desde a década de 1970, e chega para equipar, no primeiro momento, o 6º Esquadrão de Cavalaria, em Santa Maria (RS), e o 3º Esquadrão de Cavalaria Mecanizado, em Brasília, unidade que também tem a missão de atuar como força de ação rápida, com possibilidade de emprego em outras regiões do País, inclusive nas fronteiras da Região Norte.

O contrato também marca o retorno da Leonardo ao Brasil em um grande programa estratégico de defesa, cerca de 40 anos depois da parceria bilateral que resultou no projeto do caça AMX, desenvolvido em conjunto por Brasil e Itália.

Sete unidades dentro de um programa maior 
O contrato assinado nesta segunda-feira não corresponde à entrega imediata das 98 viaturas inicialmente previstas, mas ao primeiro lote de experimentação, de sete unidades, que servirá para testar, adaptar e validar táticas, técnicas e procedimentos de emprego do novo blindado na realidade brasileira antes da produção em maior escala. O valor total do programa, batizado de Projeto Forças Blindadas, já havia sido estimado, em 2022, em cerca de € 900 milhões para as 98 unidades iniciais, cifra sujeita a atualização em função da inflação, da taxa de câmbio e do escopo final acordado nesta nova fase contratual.

O caminho até a assinatura de agora não foi livre de percalços. Em dezembro de 2022, a compra chegou a ser suspensa por decisão liminar do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em ação que questionava o processo de licitação. A liminar foi derrubada dias depois pela presidência do Superior Tribunal de Justiça, sob o argumento de que a aquisição integrava uma política de defesa de longo prazo e que a suspensão poderia causar prejuízo à capacidade de defesa nacional. Naquele mesmo mês, o Exército assinou um contrato inicial, o chamado Lote Protótipo, de duas viaturas, que chegaram ao País em agosto e setembro de 2024 para testes de certificação. 


Transferência de tecnologia e Base Industrial de Defesa 
Assim como em outros grandes programas de reaparelhamento da Força Terrestre, o Centauro II BR está condicionado a acordos de compensação tecnológica (offset) e à nacionalização progressiva de componentes. O pacote de transferência de tecnologia previsto para o programa inclui o conhecimento de fabricação de munições de 120 mm — nos tipos perfurante (APFSDS), de alto explosivo (HE) e programável —, além de sistemas de controle de tiro, eletrônica embarcada, sensores óticos e de pontaria. A expectativa do setor é que a nacionalização alcance parcela relevante dos componentes ao longo dos próximos lotes de produção, o que tende a repercutir também em outras aquisições futuras da Força Terrestre, como a nova família de viaturas sobre lagartas.

Em publicação nas redes sociais, o major Marcelo Deotti, que integrou o Programa Forças Blindadas como assessor do projeto, descreveu a assinatura do contrato como um divisor de águas estratégico, tecnológico e industrial para o Brasil, destacando quatro frentes de impacto: o ganho de capacidade operacional da Cavalaria mecanizada, a validação de novas táticas e procedimentos por meio do lote de experimentação, o fortalecimento da Base Industrial de Defesa por meio dos acordos de offset e a modernização da cadeia de comando, controle e logística do Exército. Deotti relatou ainda ter participado da avaliação técnica do veículo na Itália, onde teria sido o primeiro militar brasileiro a realizar um disparo com o canhão de 120 mm da torre HITFACT.

Segundo o Consórcio IDV–OTO Melara, a conquista do contrato brasileiro resultou de um processo de concorrência internacional de alto nível, conduzido pelo Exército com rigor técnico ao longo de vários anos, desde a primeira consulta pública ao mercado, realizada entre março e maio de 2021, quando 55 empresas demonstraram interesse e chegaram a ser ofertados 28 modelos distintos de viatura.

31 agosto, 2026

Gripen F, versão biposto do caça sueco, realiza seu primeiro voo na Suécia com piloto brasileiro a bordo

Aeronave decolou de Linköping e permaneceu 40 minutos no ar; caça de dois lugares é fruto da parceria entre Brasil e Suécia e será operado pelo 1º Grupo de Defesa Aérea, em Anápolis



*LRCA Defense Consulting - 31/08/2026

O caça Gripen F, variante biposto do Gripen E, realizou nesta sexta-feira (28) seu primeiro voo, decolando às 9h40 no horário local (4h40 em Brasília) do aeródromo da Saab em Linköping, na Suécia. A aeronave permaneceu no ar por 40 minutos, em missão que verificou o funcionamento dos sistemas principais e o desempenho inicial de voo.

O voo foi conduzido pelo piloto-chefe de testes da Saab, Jakob Högberg, e pelo tenente-coronel aviador Abdon de Rezende Vasconcelos, piloto de testes da Força Aérea Brasileira (FAB). A presença de um piloto brasileiro no comando compartilhado da missão inaugural reforça o caráter binacional do programa, que tem o Brasil como cliente lançador da versão de dois lugares.

Designado F-39F na nomenclatura da FAB, o Gripen F é destinado ao 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), sediado na Base Aérea de Anápolis (BAAN), para onde a primeira unidade deve seguir em 2027, segundo informações veiculadas por veículos especializados em defesa. Com o primeiro voo, a aeronave entra oficialmente na fase aérea de sua campanha de testes, conduzida pelo Centro de Ensaios em Voo da Saab, na Suécia.

Segundo a Saab, a etapa seguinte será a expansão progressiva do envelope de voo, quando serão validados gradualmente parâmetros como velocidade, altitude, fator de carga (carga G) e ângulo de ataque. Em paralelo, serão avaliadas as capacidades táticas e as funções específicas do cockpit traseiro, elemento que diferencia o Gripen F da versão monoposto.

“Esse primeiro voo representa um passo importante tanto para a Saab quanto para a Força Aérea Brasileira. Ver o Gripen F decolar é particularmente significativo para todas as equipes suecas e brasileiras cujos anos de trabalho de engenharia ajudaram a transformar esta aeronave em realidade. Ela é projetada para acelerar o treinamento de pilotos, ao mesmo tempo em que aprimora o desempenho operacional em missões de combate avançadas”, afirmou Lars Tossman, chefe da área de negócios Aeronautics da Saab. 


O desenvolvimento do Gripen F resulta da parceria estratégica entre Brasil e Suécia e da ampla transferência de tecnologia realizada no âmbito do Programa Gripen Brasileiro, que já capacitou mais de 350 engenheiros, técnicos e pilotos brasileiros em atividades ligadas ao desenvolvimento, à produção, aos ensaios em voo e à manutenção da aeronave. Como cliente lançador, o País teve papel ativo no codesenvolvimento da variante de dois lugares, o que garantiu participação industrial direta e cooperação de longo prazo.

O programa F-39 Gripen foi firmado em 2014 e prevê a aquisição de 36 aeronaves pela FAB, sendo 28 monoposto (Gripen E) e oito biposto (Gripen F), em contrato avaliado em aproximadamente US$ 4,5 bilhões. As entregas começaram em 2020 e devem se estender até 2032, com parte da produção realizada na planta da Embraer em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo. Atualmente, o Brasil já opera dez unidades do Gripen E, que equipam o 1º GDA.

O primeiro Gripen F havia sido apresentado ao mundo em cerimônia de roll out realizada em junho, também em Linköping, com a presença do então ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, e do comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Marcelo Kanitz Damasceno. Concluída a campanha de testes e os procedimentos de aceitação, a aeronave será preparada para entrega à Força Aérea Brasileira.

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