Com o conflito Irã–EUA abalando as cadeias de fornecimento ocidentais, a Indústria Brasileira de Defesa emerge como alternativa estratégica no mercado do Golfo Pérsico
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*LRCA Defense Consulting - 03/04/2026
Enquanto os bombardeiros americanos ainda deixavam rastros de fumaça sobre o Estreito de Hormuz e os países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) contabilizavam os prejuízos econômicos dos ataques iranianos, analistas e executivos do setor de defesa já começavam a fazer as contas de um mercado que pode valer centenas de bilhões de dólares nos próximos anos. Para a indústria brasileira de defesa, o momento pode ser um divisor de águas: poucas vezes o país esteve tão bem posicionado para competir em um mercado historicamente dominado pelos EUA, Europa e Israel.
Por que o Golfo precisa de novos parceiros
Em artigo publicado nesta quinta-feira pelo conceituado
portal Breaking Defense, o analista Aleksandar Jovovic, vice-diretor do Centro
para a Base Industrial (CIB) do Center for Strategic and International Studies
(CSIS), em Washington, traçou um mapa preciso das implicações do conflito com o
Irã para o mercado de defesa do Golfo. A conclusão central é inequívoca: os
países da região precisarão reconstruir e modernizar suas capacidades militares
em ritmo acelerado, e as cadeias de suprimento americanas, já sobrecarregadas
com encomendas domésticas e o backlog de exportações pré-conflito, não serão
capazes de atender a toda a demanda.
O cenário identificado por Jovovic é de urgência múltipla:
reposição de interceptores de defesa aérea gastos aos milhares; reequilíbrio de
arsenais com soluções de menor custo para combate a drones; expansão de
plataformas aéreas de alerta antecipado; novos investimentos navais para
lidar com a ameaça de embarcações de ataque rápido do Corpo de Guardas
Revolucionários Islâmicos; e modernização de sistemas de sensoriamento,
comando, controle e inteligência artificial.
"As empresas americanas não podem descansar sobre os louros, e outros players no mercado global de defesa estão prontos para entrar." — Aleksandar Jovovic, CSIS / Breaking Defense
É precisamente nessa brecha que a Base Industrial de Defesa (BID) brasileira, que em 2025 registrou exportações de US$ 3,1 bilhões, um salto de 74% em relação ao ano anterior, enxerga sua maior oportunidade histórica no Oriente Médio.
Embraer: a ponta de lança brasileira
- O Super Tucano como caçador de drones
O nome que primeiro vem à mente quando se fala em presença
brasileira no mercado do Golfo é o da Embraer. E não por acaso: a companhia de
São José dos Campos já havia marcado presença na IDEX 2025 em Abu Dhabi, a
maior feira de defesa do Oriente Médio, com um portfólio centrado no cargueiro
multimissão KC-390 Millennium e no avião de ataque leve A-29 Super Tucano.
Caetano Spuladro Neto, vice-presidente de vendas e desenvolvimento de negócios
para o Oriente Médio e África na Embraer, disse na ocasião ver "fortes
oportunidades" na região para ambas as plataformas.
O conflito com o Irã veio confirmar e ampliar essa
avaliação. O Super Tucano, já selecionado por 22 forças aéreas em todo o mundo e com
mais de 600 mil horas de voo acumulado, acaba de receber uma atualização
estratégica decisiva: a capacidade formal de combate a drones. Em abril de
2025, a Embraer anunciou modificações específicas para tornar a aeronave mais
efetiva no combate a sistemas aéreos não tripulados (UAS) de médio e grande
porte, exatamente o tipo de ameaça que as forças iranianas empregaram em larga
escala durante o conflito.
A lógica é cirúrgica: o A-29 opera a custos muito
inferiores aos de caças de quarta geração, é mais manobrável e mais lento que jatos, pode decolar de pistas não
pavimentadas e ambientes austeros, e agora carrega mísseis ar-ar e sistemas de
IA para identificação e interdição de drones. Ainda antes do conflito no Golfo,
especialistas ucranianos já haviam recomendado o Super Tucano para missões
similares contra os drones russos, um endosso operacional de peso que ressoa nos
centros de decisão de compras militares do GCC.
O timing é favorável em outra dimensão: o A-29 acaba de ser
homologado pelo Comitê de Catalogação da OTAN e incluído em lista de "projetos
de relevância" da aliança. Na prática, isso facilita a troca de informações
técnicas com países-membros e também com os países do Golfo que operam
sistemas integrados com o padrão OTAN. A versão A-29N, adaptada especificamente
aos padrões da aliança, já foi adquirida por Portugal, o primeiro país europeu
a operar o tipo.
- KC-390: transporte estratégico e ISR
Complementando a oferta no segmento aéreo, o KC-390
Millennium posiciona-se como alternativa ao C-130 Hercules americano para
missões de transporte militar, reabastecimento aéreo e, crescentemente,
Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (ISR). Arábia Saudita, Emirados
Árabes Unidos e Catar estão entre os países que vêm considerando opções de
modernização de suas capacidades de transporte militar, e o KC-390, com seu
custo operacional competitivo e tecnologia de ponta, é candidato natural. Em
demonstração estratégica de alcance, um KC-390 da Força Aérea Brasileira já
transportou um sistema ASTROS II com mísseis MANSUP durante a Operação Joana
d'Arc, sinalizando a versatilidade da plataforma como vetor logístico de
sistemas de armas nacionais.
Em outubro de 2024, durante a Conferência de Usuários do C-390 Millennium realizada em São José dos Campos (SP), um material institucional interno da Embraer passou a circular na mídia especializada internacional, após ter sido publicado em uma mídia social por um dos participantes do evento. Ao lado de Brasil, Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, Coreia do Sul e República Tcheca, operadores confirmados do C-390, o slide listava mais três países: Marrocos, Chile e Emirados Árabes Unidos (imagem abaixo).
SIATT e o MANSUP: o míssil que chegou ao golfo antes da
guerra
A história mais surpreendente da indústria de defesa
brasileira no Oriente Médio foi escrita antes mesmo do conflito estourar e
começa com uma decisão estratégica do Grupo EDGE, o conglomerado de defesa dos
Emirados Árabes Unidos, de adquirir 49,9% da empresa brasileira SIATT (Sistemas
Integrados de Alto Teor Tecnológico) em 2023.
A SIATT é a desenvolvedora do MANSUP (Míssil Antinavio Nacional de Superfície), sistema de armas que representa o maior salto em soberania tecnológica da Marinha do Brasil em décadas. Com alcance de 70 km na versão padrão e de até 200 km na versão MANSUP-ER (Extended Range), o míssil possui guiagem inercial, busca por radar ativo e perfil de voo rasante, de difícil interceptação. O sistema coloca-se em um patamar comparável a mísseis antinavio consagrados, como o Exocet francês e o RBS-15 sueco.
A parceria com o EDGE foi além de um simples investimento:
em 2025, durante a LAAD Defence & Security no Rio de Janeiro, foi assinado
um acordo de licença para transferência de propriedade intelectual do
MANSUP-ER, com direitos de produção, comercialização e exportação global. O
contrato com as Forças Armadas dos Emirados Árabes Unidos para fornecimento do
MANSUP e MANSUP-ER foi avaliado em até US$ 463 milhões, com projeções de que
as exportações do sistema possam alcançar US$ 500 milhões até 2030.
A relevância estratégica para o novo cenário pós-conflito é
direta: o Golfo Pérsico é exatamente o teatro onde ameaças navais assimétricas, como as embarcações de ataque rápido do IRGC mencionadas no artigo do CSIS, demandam sistemas antinavio de resposta rápida, custo acessível e capacidade de
integração com múltiplas plataformas. O MANSUP pode ser lançado de navios, de
plataformas terrestres costeiras e, no futuro, de aeronaves. O EDGE, com sede
estabelecida em Brasília, a primeira fora dos Emirados, já negocia com
múltiplos clientes potenciais na região.
Soma-se a isso o desenvolvimento de versões ar-superfície (MARSUP) e superfície-ar (SAM) do sistema, além de uma futura variante de ataque terrestre baseada nas tecnologias do MANSUP, consolidando uma família de armas inteligentes de origem brasileira em parceria com o grupo emiradense EDGE.
Projeções da SIATT indicam que as exportações do MANSUP podem gerar até US$ 500 milhões até 2030, com o EDGE Group já em negociações com múltiplos clientes no Oriente Médio, África e Ásia.
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Taurus e CBC: armas e munições para a reposição dos
estoques
Se a reposição de interceptores de defesa aérea é o item
mais visível da lista de compras urgentes do Golfo, a reposição de estoques de
munição e armamentos leves vem logo atrás. É aqui que a Taurus Armas e a CBC
(Companhia Brasileira de Cartuchos) entram com força.
A Taurus, maior vendedora de armas leves do mundo, tem no Oriente Médio um foco estratégico crescente. Em 2023, a empresa celebrou um Memorando de Entendimentos com a SCOPA Military Industries para o estudo de viabilidade de uma joint venture na Arábia Saudita, com objetivo de fabricar localmente pistolas 9mm e fuzis 5,56mm e .300 BLK para comercialização em todo o GCC, alinhando-se com o programa Saudi Vision 2030 de industrialização nacional da defesa. Posteriormente, a iniciativa foi colocada em stand by mas ainda pode ser reativada, especialmente nesse novo cenário.
A empresa também avança em calibres maiores, visando o
mercado militar: metralhadoras 7,62mm e .50 BMG, além de drones armados, estão no roadmap de produto, e a Taurus
criou uma nova diretoria específica para o segmento militar global, chefiada
por um executivo com 20 anos de experiência em Israel. Com exportações para
mais de 100 países e cerca de 90% da produção destinada ao mercado externo, a
empresa tem a escala e a capilaridade necessárias para atender demandas de
grande volume.
Já a CBC, controladora da Taurus desde 2015, é uma das maiores fabricantes mundiais de munição e fornecedora certificada para países da OTAN, com produtos validados em mais de 130 países. Sua capacidade de produção em larga escala, com padrões MIL STD e NATO, posiciona a empresa como fornecedora natural para a reposição dos estoques de munição do Golfo. Na IDEX 2025, Taurus e CBC mantiveram estandes próprios, uma demonstração do peso que a empresa atribui ao mercado emiradense e do Golfo.
O ecossistema: drones, eletrônica e sistemas integrados
- Stella Tecnologia e XMobots: o gigante e o versátil
O conflito com o Irã confirmou o que a guerra na Ucrânia já
havia ensinado: drones são o elemento que mais rapidamente transforma o campo
de batalha moderno. E o Brasil, surpreendentemente, tem respostas competitivas
para esse mercado.
A Stella Tecnologia desenvolveu o Atobá, considerado o maior
drone já produzido na América Latina, com impressionante capacidade de voo
contínuo de 35 horas, 40% maior que o israelense Hermes 900, referência global
da categoria. O sistema é voltado para missões de Inteligência, Vigilância e
Reconhecimento (IVR), e a empresa, após ter estabelecido parceria com o Grupo Thales, firmou em setembro de 2025 um Memorando de
Entendimento com a Força Aérea Brasileira para o desenvolvimento conjunto de
tecnologias-chave em aeronaves não tripuladas. Plataformas dessa categoria são
exatamente as que o CSIS aponta como prioridade para monitoramento de possíveis
ataques iranianos no Golfo.
A XMobots, por sua vez, posiciona-se no segmento de drones táticos de menor porte, com soluções versáteis para vigilância, reconhecimento e, em breve, ataque. Junto com a Mac Jee, a Modirum/Gespi e a AEL Sistemas, integra um ecossistema brasileiro de UAS que participou de workshops do Exército e que, diante da demanda do Golfo, pode abrir caminho para o mercado de exportação.
- Mac Jee e Akaer: sistemas de combate e blindados
A Mac Jee é uma das empresas brasileiras com presença mais
consistente no Oriente Médio: participou da IDEX 2023, da IDEX 2025 e de
múltiplas edições da Eurosatory europeia. A empresa atua
nos segmentos de defesa e aeroespacial com foco em sistemas energéticos e de
combate, como munição 155mm, o lançador de foguetes Armadillo, o drone kamikase ANSHAR, o DAGGER - um sistema inteligente de guiagem
de munições
aéreas, as munições aéreas BGB (MK) e a munição anti-bunker BPB 2000 (BLU
109)
Já a Akaer, sediada em São José dos Campos - empresa brasileira de engenharia avançada para os setores de defesa e aeroespacial - é parceira-chave do programa Hürjet, treinador avançado e caça leve turco, e possui escritórios comerciais na Turquia e Portugal.
A empresa foi contratada para desenvolver segmentos da fuselagem do Gripen já em 2009 e, desde então, acumulou mais de 500 mil horas de trabalho dedicadas ao programa. A relação com a Saab é estreita o suficiente para que a empresa sueca detenha uma participação acionária na Akaer, atualmente em 28%.
A Akaer também detém 10% da Saab Aeronáutica Montagens (SAM), compondo uma estrutura de governança compartilhada que funde os interesses brasileiros e suecos na produção das aeroestruturas. No programa Gripen, a empresa atua em engenharia de estruturas, desenvolvendo seções de fuselagem e asas, e representa um elo fundamental entre o projeto e a manufatura.
O Grupo EDGE já firmou acordos com a empresa, reforçando a ponte tecnológica com o Golfo. Em 2025, a Akaer e a turca ASELSAN, referência global em sistemas de alta tecnologia, assinaram um Memorando de Entendimento (MoU) para o desenvolvimento conjunto de soluções em defesa. Além disso, a Akaer lidera o consórcio Força Terrestre para a modernização do blindado Cascavel.
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| Armadillo foi avaliado na Arábia Saudita |
- AEL Sistemas e Atech: aviônica e C2
A AEL Sistemas, subsidiária do grupo israelense Elbit
Systems no Brasil, desenvolve e integra sistemas aviônicos para plataformas
militares. Sua participação decisiva nos programas Gripen, Super Tucano e KC-390, posiciona-a como elo natural em eventuais
negociações de venda dessas aeronaves para o Golfo.
Já a Atech, empresa do Grupo Embraer especializada em sistemas críticos e
tecnologias de apoio à tomada de decisão, tem participado de múltiplas edições
da IDEX e é reconhecida como a 'System House' da Defesa Brasileira. Em um
mercado que o CSIS identifica como prioritário para a modernização de Comando,
Controle, Comunicações, Computadores e Inteligência (C4I), a Atech tem
portfólio diretamente endereçado às necessidades do Golfo.
A Atech é responsável pelo desenvolvimento e fornecimento de dois dos sistemas mais críticos do Programa Fragatas Tamandaré: o Sistema de Gerenciamento de Combate (CMS – Combat Management System) e o Sistema Integrado de Gerenciamento da Plataforma (IPMS – Integrated Platform Management System).

Fragata Tamandaré: um navio de guerra made in Brazil para o Golfo?
Entre os ativos menos óbvios, mas potencialmente mais transformadores, está o Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT), pérola da indústria de defesa naval brasileira. Construídas no Estaleiro Brasil Sul da TKMS em Itajaí, Santa Catarina, as fragatas representam um salto qualitativo sem precedentes na capacidade de construção naval militar do país: quatro navios de 3.380 toneladas, 107 metros de comprimento, arquitetura stealth, e um sistema de combate integrado compatível com padrões da OTAN, desenvolvido pela Atech (Grupo Embraer). A primeira delas, a F200 Tamandaré, foi incorporada à Marinha do Brasil no início de 2026; a quarta está sendo construída simultaneamente no mesmo estaleiro.
A pergunta que analistas e executivos do setor começam a fazer em voz alta é: haveria espaço para a plataforma, ou para uma versão dela, no Golfo Pérsico? A resposta curta é: sim, e o terreno já foi preparado.
- O elo TKMS: a ponte entre Brasil e o Golfo
O elemento central dessa equação não é apenas a fragata em si, mas quem a constrói: a Thyssenkrupp Marine Systems (TKMS), fabricante alemã e líder mundial em sistemas navais de combate. Em novembro de 2025, a Arábia Saudita foi reportada em conversações exploratórias com a própria TKMS sobre a possível aquisição de fragatas MEKO A-200, a família de navios mais avançada da empresa, da qual a Tamandaré é uma variante (MEKO A-100). O interesse saudita é parte de um esforço mais amplo das Forças Navais Reais Sauditas para modernizar sua frota e ampliar a capacidade industrial local, alinhado com o programa Visão 2030.
Isso cria uma janela estratégica única: o Brasil, ao construir as Tamandarés em território nacional com crescente índice de conteúdo local, tornou-se o primeiro polo de construção naval de combate da TKMS na América Latina, e um polo com capacidade comprovada, já operando quatro navios simultaneamente. Quando a TKMS negocia com o Golfo, o estaleiro de Itajaí está na mesa como referência operacional viva.
- O pacote brasileiro: muito além do casco
O que tornaria a oferta brasileira diferenciada no contexto do Golfo não é apenas o navio em si, mas o ecossistema que o rodeia e que já existe, integrado e testado. As fragatas Tamandaré saem com o Sistema de Gerenciamento de Combate (CMS) e o Sistema Integrado de Gerenciamento da Plataforma (IPMS) desenvolvidos pela Atech, empresa do Grupo Embraer. O sistema de mísseis antiaéreos é o Sea Ceptor (CAMM), com 12 células na configuração atual, com discussões em andamento sobre ampliar para 24 e integrar o CAMM-ER. O armamento antinavio é o MANSUP, exatamente o míssil que a SIATT e o Grupo EDGE dos Emirados já têm acordos de produção e exportação assinados. O segundo lote de fragatas, confirmado em fevereiro de 2026, já prevê integração nativa com MANSUP e MANSUP-ER, aumento do conteúdo nacional de 32% para 42%, e novas versões dos sistemas de guerra eletrônica.
Em outras palavras: uma fragata Tamandaré exportada para o Golfo chegaria com armamento que o próprio Grupo EDGE emiradense já co-detém a propriedade intelectual. A sinergia entre o consórcio Águas Azuis (TKMS + Embraer) e a parceria SIATT-EDGE cria um arranjo de fornecimento integrado que nenhum outro player pode oferecer na região: tecnologia alemã, sistemas de combate e aviônica brasileiros, e mísseis antinavio desenvolvidos em parceria com os Emirados.
- A demanda existe: o Golfo precisa de navios
O artigo do CSIS é explícito: o Golfo Pérsico historicamente dependeu da Marinha dos EUA para patrulhar e garantir a liberdade de navegação. O conflito com o Irã expôs essa dependência como um risco estratégico inaceitável. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Kuwait já vinham ampliando investimentos navais e o conflito acelerou essa agenda. Para as frotas orientais do GCC, que operam no próprio Golfo Pérsico e enfrentam a ameaça das Embarcações de Ataque Rápido (FIAC) do IRGC, bem como operações de minagem e drones navais iranianos, um navio de combate de 3.500 toneladas com capacidades integradas de guerra de superfície, antiaérea e antissubmarino representa exatamente o perfil requerido.
A TKMS confirmou, ao adquirir o Estaleiro Oceana em Itajaí em 2021, que o objetivo ia além das fragatas brasileiras: a empresa buscava construir 'futuras vendas para outras marinhas da região'. O estaleiro brasileiro, com capacidade de construção simultânea de quatro navios e crescente domínio tecnológico local, inclusive com o desenvolvimento de software de sistema de combate no Brasil, é hoje um hub de exportação naval em potencial.
Uma fragata Tamandaré exportada para o Golfo chegaria com mísseis MANSUP/MANSUP-ER cuja tecnologia o próprio Grupo EDGE dos Emirados co-detém, uma sinergia de fornecimento que nenhum outro competidor pode replicar.
- Os obstáculos reais
A oportunidade é real, mas os obstáculos são significativos. O PFCT foi dimensionado para a Marinha do Brasil, e expandir a capacidade produtiva do estaleiro para atender clientes externos exigiria investimentos adicionais e planejamento cuidadoso, especialmente num momento em que o segundo lote de quatro fragatas brasileiras já está sendo negociado. Há também o fator custo: cada fragata Tamandaré custa em torno de US$ 500–550 milhões no pacote completo, um valor competitivo para o padrão europeu, mas que precisa ser comparado com alternativas como as corvetas espanholas Avante 2200 da Navantia, com as quais a Arábia Saudita já firmou contratos.
Acresce que navios de combate são negócios de Estado, não apenas comerciais: exigem acordos governo a governo, garantias de suporte de longo prazo, transferência de tecnologia e manutenção in loco. O Brasil ainda está construindo essa estrutura institucional para exportação naval. A EMGEPRON, empresa estatal que gerencia o PFCT, já firmou MoUs com a SIATT e com o EDGE, sinalizando disposição para esse modelo, mas a estrutura precisa ser formalizada e testada em escala.
Ainda assim, o progresso é inegável. O Brasil deixou de ser apenas comprador de tecnologia naval para tornar-se um produtor com credencial operacional real. E no Golfo pós-conflito, onde países com orçamentos de defesa superiores ao PIB de nações inteiras buscam diversificar fornecedores e construir capacidade industrial própria, um parceiro que oferece construção local, transferência de tecnologia e sistemas integrados com DNA regional, via EDGE, pode surpreender os céticos.
O ativo oculto: a neutralidade brasileira
Há um trunfo brasileiro que nenhum catálogo de produto
consegue capturar com precisão: a posição diplomática do Brasil. Em um cenário
onde os países do Golfo sentiram-se mal informados pelos EUA antes e durante o
conflito, como relatos de fontes do GCC citados no artigo do Breaking Defense
confirmam, a percepção de que Washington priorizou seus próprios objetivos
estratégicos cria um apetite genuíno por diversificação de parcerias.
O Brasil, que historicamente mantém relações com todos os
atores da região sem alinhamentos exclusivos, e que é o único país do
hemisfério sul com assento permanente nas maiores feiras de defesa do Oriente
Médio, tem credenciais únicas de interlocutor neutro. Essa posição é reforçada
pela parceria com o EDGE Group dos Emirados, que funciona como uma ponte de
legitimidade regional para os produtos brasileiros, especialmente em
negociações com Arábia Saudita e outros membros do GCC.
Além disso, o Brasil oferece algo que potências ocidentais
raramente concedem com facilidade: transferência de tecnologia. A Taurus estuda
joint venture na Arábia Saudita com produção local. O EDGE detém direitos de
produção e exportação do MANSUP-ER. A Embraer cogita uma linha de montagem do
Super Tucano em Portugal, um modelo que pode ser replicado na região. Isso
alinha-se perfeitamente com as crescentes iniciativas de localização industrial
do GCC, aceleradas pelo conflito e pela consciência da fragilidade das cadeias
de suprimento globais.
O Brasil é o único país do hemisfério sul com presença consistente nas principais feiras de defesa do Oriente Médio, e sua neutralidade diplomática é um diferencial competitivo em um mercado que busca diversificar parcerias.
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Desafios e ressalvas
O caminho, porém, não é livre de obstáculos. O Brasil
enfrenta restrições históricas em sua política de exportação de defesa:
autorizações pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Ministério da
Defesa são obrigatórias, e a posição diplomática do governo Lula, que mantém
canais abertos inclusive com Teerã, pode complicar negociações com países do
Golfo que veem o Irã como ameaça existencial.
Há também o desafio da escala de produção. Enquanto a
Embraer tem capacidade industrial para grandes encomendas, empresas menores
como XMobots, Mac Jee e Stella Tecnologia precisarão expandir
significativamente sua capacidade produtiva para atender à demanda de forças
armadas de países ricos como os do GCC. O investimento do governo brasileiro de
R$ 113 bilhões em defesa até 2026 pode ajudar a fortalecer essa cadeia
produtiva, mas os efeitos plenos levam anos para se materializar.
A concorrência também será intensa. Além dos tradicionais
fornecedores americanos e europeus, a Turquia, que já participa do programa
MANSUP-ER via fornecimento do motor a jato KTJ-3200 pela Kale Jet Engines, tem
ambições crescentes no mercado do Golfo. China e Coreia do Sul também
disputarão fatias do mercado. E os próprios países do Golfo intensificam suas
iniciativas de indústria de defesa própria.
Por fim, há a questão do timing: o Brasil chega a esse mercado com crescente consistência, mas ainda sem os laços históricos que definem os relacionamentos de décadas entre Washington e Riade, ou Londres e Abu Dhabi. Construir a confiança necessária para contratos bilionários exige presença sustentada, não apenas participação em feiras.
Uma janela que não ficará aberta para sempre
O conflito com o Irã abriu uma janela de oportunidade para
novos players no mercado de defesa do Golfo. Como bem observou o analista do
CSIS, as cadeias de suprimento americanas estarão sobrecarregadas, os países do
GCC buscam diversificação, e as iniciativas de localização industrial criam
demanda por parceiros dispostos a transferir tecnologia. O Brasil, com seu
portfólio diversificado que vai de aviões de ataque a mísseis antinavio, de
munição certificada pela OTAN a drones de longa endurance, reúne condições
únicas para aproveitar esse momento.
A parceria SIATT-EDGE já provou que o caminho é viável e lucrativo. A presença da Embraer, da Taurus e da CBC no IDEX demonstra que há estratégia e consistência por trás das ações. O ecossistema de empresas menores, como Stella, XMobots, Mac Jee, Akaer e Atech, está maduro o suficiente para dar o salto de exportação com os apoios corretos. As fragatas Tamandaré são uma opção real para os países do Golfo.
O que falta, talvez, seja a decisão política de transformar essa capacidade latente em política de Estado com a mesma determinação que o Programa Nuclear e o programa KC-390 foram sustentados ao longo de governos. A janela do Golfo está aberta. O Brasil tem as chaves. A questão é se as usará antes que outros o façam.






