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10 junho, 2026

As camadas de sobrevivência: o imperativo da artilharia moderna

A artilharia não morreu. Morreu a artilharia que acreditava poder ficar onde atirou e não seguiu as camadas de sobrevivência...

Lançamento do futuro Míssil Tático Balístico AV-SS 100 pelo ASTROS (renderização)
 
*LRCA Defense Consulting - 10/06/2026

Drones percorreram mais de mil quilômetros e atacaram São Petersburgo entre os dias 3 e 6 de junho de 2026, no meio do principal fórum econômico da Rússia. Incendiaram um terminal de petróleo, avariaram seriamente uma corveta da Marinha russa no dique seco de Kronstadt, explodiram paióis navais e paralisaram o aeroporto da cidade. Nenhum avião de combate, nenhum míssil balístico, nenhuma operação de grande escala: apenas drones relativamente baratos produzindo efeitos que, no século passado, exigiriam uma frota inteira de bombardeiros estratégicos.

A cena de São Petersburgo é a versão em tamanho máximo de algo que acontece todos os dias, em escala menor, nas trincheiras do leste da Ucrânia e que está redesenhando a doutrina de artilharia de todos os exércitos do mundo, incluindo o Exército Brasileiro. A lição é simples e brutal: a posição visível é uma sentença de morte. A bateria que atira e fica, é um alvo. A bateria que atira e se move, pode sobreviver.

O ciclo de três minutos
O número que mudou tudo é três. Três minutos. É o tempo que o sistema russo de aquisição de alvos pode levar, em sua versão mais eficiente, para completar o ciclo que vai da observação ao impacto: um observador localiza uma bateria de artilharia, transmite as coordenadas, a central de tiro calcula a solução e os projéteis chegam ao alvo. A informação foi citada pelo capitão Vincent Verdile em artigo publicado no Field Artillery Professional Bulletin de 2026, o boletim oficial de artilharia do Exército americano, com base em análise do Royal United Services Institute (RUSI) sobre a guerra na Ucrânia.

Três minutos é, na prática, menos do que muitas unidades de artilharia do mundo levam para desmontar, reorganizar e partir de uma posição de tiro. Verdile sabe disso por experiência própria: como comandante de pelotão de Paladins, o obuseiro autopropulsado de 155 mm do Exército americano, por dois anos, assistiu à sua bateria levar mais de dez minutos para se deslocar durante o dia. À noite, em uma ocasião, levou mais de uma hora apenas para formar o comboio e sair de uma posição.

A Ucrânia tornou esse problema fatal. O Major-General Andrii Malinovskiy, das Forças Armadas ucranianas, apresentou na Future Artillery Conference 2026, realizada em Londres em maio de 2026, dados que não deixam margem para dúvida: o campo de batalha ucraniano foi transformado em uma zona de engajamento contínuo com profundidade de até 25 quilômetros, criada pelo emprego maciço de drones. Baterias de artilharia são atacadas sistematicamente por drones Lancet russos. A meta ucraniana para o futuro é reduzir a duração de cada missão de tiro para menos de 5 minutos, tempo máximo que uma peça pode permanecer exposta antes de ser localizada e atacada.

Os números operacionais são impressionantes. A Ucrânia registrou 95.300 missões de tiro de artilharia, com 35% de eficácia e 33.360 acertos confirmados. Os drones armados realizaram 326.231 missões, com 34% de eficácia e 110.204 acertos confirmados. Para se proteger, as guarnições ucranianas adotaram grupos móveis de tiro com 2 a 3 militares, abrigos para as peças, nichos de munição separados dos obuseiros e até réplicas de MLRS e radares feitas de madeira e lona, iscas para enganar os drones inimigos.

Diagnóstico americano: o problema começa no adestramento
Verdile não se limitou a descrever o problema. Ele o viveu. Em seu artigo, descreve três vulnerabilidades que encontrou durante uma rotação de adestramento no National Training Center (NTC), em Fort Irwin, Califórnia. o principal campo de treinamento de combate do Exército americano.

A primeira vulnerabilidade é a navegação. O principal meio de orientação das baterias era o JBC-P, um sistema digital de comando e controle embarcado, e aplicativos de celular. Enquanto o sistema funcionava adequadamente para os oficiais, era instável para as guarnições dos obuseiros e para as Centrais de Direção de Fogo, que são os postos onde se calculam as soluções de tiro. O resultado: os pelotões conduziam 90% dos deslocamentos entre posições de tiro, porque os chefes de seção simplesmente não conseguiam navegar sozinhos. Mais de 50% das guarnições não sabiam ler um mapa nem usar um transferidor.

A segunda vulnerabilidade é a consciência situacional, ou seja, saber onde se está no campo de batalha. Sem isso, o padrão regulamentar americano de 75 segundos para executar uma missão de fogo de emergência fora de uma posição designada torna-se impossível. Esse tempo exige que o chefe de seção tome a iniciativa: posicionar o obuseiro e aguardar os dados de tiro, em vez de depender que alguém aponte a direção. Sem consciência situacional, o chefe de seção fica paralisado, o ciclo se dilata e o tempo de sobrevivência se esgota.

A terceira vulnerabilidade é estrutural: o adestramento não replicava a mobilidade necessária para sobreviver. Os exercícios de tiro combinado priorizavam cadência e precisão, sem ênfase em sobrevivência. Os pelotões reusavam as mesmas posições de tiro, repetiam os mesmos percursos, e o modelo mental dominante era o de posições estáticas, herança das operações de contrainsurgência no Iraque e no Afeganistão, onde a maior ameaça era um combatente a pé, não um drone de reconhecimento conectado a um radar de contrabateria.

A solução proposta por Verdile é direta: adestramento em quatro níveis, do soldado até a bateria, que incorpora navegação com e sem apoio tecnológico, planos de comunicação alternativos, reação a todos os tipos de contato, incluindo drones, e exercícios de tiro real com deslocamento de sobrevivência entre posições. Sua frase central resume a intenção: "The intent of prioritizing situational awareness and land navigation in training is to create independent platoons that can displace and move quickly and effectively"; em tradução livre: o objetivo é criar pelotões independentes, capazes de se deslocar com rapidez e eficácia.

Tim De Zitter, gerente de ciclo de vida de sistemas de defesa antiaérea e munições vagantes da Defesa Belga, resumiu a conclusão no LinkedIn no mesmo dia em que o Gen Paixão apresentava em Londres: "A arma que atira e permanece, agora é um alvo. A arma que atira e se move, permanece na luta." 

Mover não basta: as seis camadas de sobrevivência
O Laboratório de Ciência e Tecnologia da Defesa britânico, o Dstl, foi além e apresentou em Londres uma tese incômoda para quem acredita que mover-se é suficiente: o simples shoot and scoot, atirar e correr, não basta diante de drones FPV (que voam na perspectiva do piloto e atacam em alta velocidade), munições guiadas e ciclos de reação cada vez mais curtos.

Os pesquisadores britânicos descreveram a ameaça pelo acrônimo EOF: Exposto, Observado e Frágil. As plataformas de artilharia estão sob vigilância constante, com risco de detecção por sensores sofisticados e de ataque por meios baratos, inclusive drones comerciais adaptados com explosivos que custam menos de 500 dólares e podem destruir um obuseiro que vale milhões.

A resposta proposta é um sistema de proteção em camadas: evitar ser visto, depois evitar ser identificado, depois evitar ser adquirido como alvo, depois evitar ser engajado, depois evitar ser atingido e, por fim, minimizar os danos se for atingido. São seis camadas de sobrevivência. A mobilidade resolve apenas uma delas.

A resposta brasileira em Londres
No mesmo dia em que De Zitter publicava sua análise, o General de Brigada R/1 Moises da Paixão Junior apresentava na Future Artillery Conference 2026 a palestra "Modernising Brazilian Army Artillery for a Multi-Domain Future" (Modernizando a Artilharia do Exército Brasileiro para um Futuro Multidomínio). A conferência, em sua 25ª edição, é considerada o maior fórum mundial de fogos indiretos. O Brasil não enviou apenas um representante: a delegação incluía o Comandante de Artilharia do Exército, o Adido Militar para o Reino Unido, o Subcomandante do Centro de Instrução de Mísseis e Foguetes e dois representantes da Avibras Aeroco. O evento foi tratado institucionalmente como prioridade estratégica.


O Gen Paixão é presença recorrente na conferência; participou em 2012, 2013, 2018, 2021, 2022, 2023 e agora em 2026. Sua posição como gerente do Subprograma de Artilharia de Campanha no Escritório de Projetos do Exército (EPEx) coloca-o no centro de todos os programas de modernização da Força Terrestre nessa área.

A palestra organizou a modernização brasileira em três eixos: maior mobilidade e alcance estendido; controle digital do tiro e integração em rede; e fortalecimento da capacidade industrial nacional. Os três respondem diretamente ao diagnóstico de Verdile e De Zitter, e ao ambiente descrito por Malinovskiy nas trincheiras ucranianas.

O obuseiro que sabe onde está: M109 A5+BR e o sistema Gênesis
O eixo da digitalização tem um produto já operacional que merece atenção especial, porque é exatamente a resposta ao problema de navegação e consciência situacional que Verdile diagnosticou nos Estados Unidos: o obuseiro M109 A5+BR, modernizado com o Sistema de Georreferenciamento Gênesis, desenvolvido pela empresa estatal IMBEL.

São 32 obuseiros autopropulsados de 155 mm que agora sabem exatamente onde estão no campo de batalha a qualquer momento, com ou sem apoio de liderança superior. O Gênesis permite posicionamento preciso da peça, o que reduz o tempo entre chegar em uma posição e estar pronto para atirar. O sistema inclui ainda o rádio digital Falcon III e o sistema de intercomunicação SOTAS, da Thales. O resultado é que o chefe de seção do M109 A5+BR pode tomar a iniciativa, posicionar-se e aguardar os dados de tiro sem depender de ninguém para apontar a direção, exatamente o que Verdile recomenda como padrão de adestramento.

Obuseiro M109 A5+BR, modernizado com o Sistema de Georreferenciamento Gênesis, desenvolvido pela IMBEL

O controle digital de fogos para toda a bateria (chamado SISDAC, Sistema Digitalizado de Artilharia de Campanha) é desenvolvido pela própria IMBEL, com foco em precisão, agilidade e apoio de fogo contínuo. Na Future Artillery Conference, esse sistema foi apresentado ao lado de soluções de exércitos como os da Espanha (TALOS), da Alemanha (TARANIS/ADLER III) e da França (ATLAS III), todos buscando o mesmo objetivo: transformar o processo de solicitar, calcular e executar um tiro, que hoje ainda tem muitas etapas manuais, em um fluxo digital rápido, em que sensores, calculadoras e obuseiros falam a mesma língua em tempo real.

A Embraer, em parceria com o Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército (DCT) desde 2021, desenvolve um radar de contrabateria nacional, um sistema capaz de localizar de onde o inimigo atirou, em tempo real, rastreando o projétil inimigo de volta à sua origem. Esse radar fecha o ciclo: a bateria que se move para não ser localizada também precisa localizar o inimigo antes que ele se mova. A Omnisys, empresa do grupo Thales com sede no Brasil, contribui com radares de vigilância de espaço aéreo e sistemas antidrone.

O ATMOS, Gaza e a necessidade que não desapareceu
O eixo da mobilidade tem seu ponto mais aguardado e mais politicamente delicado. O obuseiro autopropulsado sobre rodas de 155 mm foi objeto de um processo licitatório concluído com a seleção do ATMOS 2000, da israelense Elbit Systems, vencedor sobre o CAESAR francês, o Zuzana 2 tcheco-eslovaco e o SH-15 chinês. O plano era adquirir 36 sistemas.

O ATMOS é um canhão de 155 mm montado sobre um caminhão 6x6, capaz de alcançar mais de 40 quilômetros com munição padrão, chegar a uma posição, disparar múltiplos projéteis e partir em questão de minutos, a encarnação perfeita da doutrina do shoot and scoot. Velocidade máxima de 100 km/h na estrada. Exatamente o tipo de sistema que Verdile pede e que o campo de batalha ucraniano exige.

O contrato foi cancelado no início de 2025. A razão não foi técnica: foi política. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva suspendeu a aquisição em razão de sua posição crítica em relação à conduta de Israel na guerra em Gaza. O ministro da Defesa, José Múcio, havia alertado que a decisão estabeleceria um precedente perigoso para a integridade dos processos de aquisição do Exército e que prejudicaria empresas nacionais que já haviam firmado acordos com a Elbit para participar da produção de componentes e da montagem final no Brasil. A necessidade operacional, contudo, permanece intacta.

Em paralelo, o Exército avança na substituição dos obuseiros rebocados M114 de 155 mm, uma peça desenvolvida na Segunda Guerra Mundial e que ainda serve em algumas unidades brasileiras, e no desenvolvimento de uma nova solução de 105 mm para tropas paraquedistas e aeromóveis, mais leves e com necessidades específicas de mobilidade aérea.

 
ATMOS - 
obuseiro autopropulsado sobre rodas de 155 mm (vídeo)

Foguetes, mísseis e munições vagantes: o alcance que muda tudo
No campo dos foguetes e mísseis, o Brasil tem uma das capacidades mais singulares da América do Sul: o ASTROS II, sistema de artilharia de saturação da Avibras Aeroco que pode disparar foguetes de diferentes calibres e alcances a partir do mesmo lançador. O programa de modernização, agora chamado ASTROS-FOGOS após reestruturação formalizada em março de 2026 pela Portaria nº 1.703 do Estado-Maior do Exército, está desenvolvendo dois novos vetores.

O primeiro é o Míssil Tático de Cruzeiro TCM 300: alcance de 300 quilômetros (para exportação; interno pode chegar a mais de 1.000 quilômetros), precisão de 30 metros e capacidade de alterar a rota durante o voo para evitar defesas inimigas. Para ter uma referência: São Paulo fica a 430 quilômetros do Rio de Janeiro. O segundo é o Míssil Tático Balístico AV-SS 100, com alcance superior a 100 quilômetros, novo projeto da Avibras Aeroco. Juntos, esses sistemas colocariam o Exército Brasileiro em uma categoria de capacidade de fogos de profundidade que poucos países da região possuem.

O Exército também abriu licitação internacional para munições vagantes, as chamadas loitering munitions ou drones-bomba. Esses sistemas decolam como drones, ficam circulando sobre uma área à espera de um alvo adequado e depois mergulham sobre ele. São capazes de atacar alvos que não estão na linha de visada (atrás de um morro, dentro de uma floresta, escondidos num celeiro) e podem ser lançados por sistemas de foguetes já existentes. A licitação exige capacidade de lançamento assistido e engajamento além da linha de visada. É a resposta brasileira ao que ucranianos e russos já empregam em massa.


Sistema ASTROS realiza tiro noturno durante a Operação Amazônia 

Lançamento do Míssil Tático de Cruzeiro AV-TM 300 pelo ASTROS

A defesa antiaérea que faltava: o EMADS
A apresentação do Gen Paixão em Londres explicitou também a maior vulnerabilidade estrutural da artilharia brasileira: a ausência de defesa antiaérea de média altitude. Um sistema de artilharia que consegue se mover rapidamente, mas não tem proteção contra drones de reconhecimento que voam a altitudes médias, acima do alcance dos mísseis portáteis como o RBS-70 e o Igla-S, continua sendo uma bateria que pode ser observada, rastreada e atacada.

O Exército brasileiro reconheceu essa lacuna como emergencial. Por meio da Portaria EME nº 1.086, de 22 de dezembro de 2025, formalizou a seleção do sistema EMADS da empresa europeia MBDA, para aquisição por acordo direto governo a governo com a Itália. O sistema integra o radar Kronos da Leonardo, os mísseis CAMM-ER da MBDA, capazes de interceptar alvos a até 40 quilômetros de distância e 15 quilômetros de altitude, e plataforma sobre caminhão. Um dia após a conferência de Londres, em 20 de maio de 2026, o Comando Logístico do Exército realizou reunião bilateral com autoridades italianas em Brasília para avançar nas negociações.

Sistema EMADS da empresa europeia MBDA

O que a conferência de Londres disse ao Brasil
O relatório que o Gen Paixão assinou ao retornar de Londres é um documento que merece ser lido com atenção por qualquer artilheiro brasileiro. Em 27 páginas, ele resume as principais palestras de 55 países e extrai quatro conclusões que são, ao mesmo tempo, um diagnóstico global e um roteiro para o Brasil.

- Primeira conclusão: alcance com sobrevivência em campo transparente. Todos os exércitos presentes, do Reino Unido à Hungria, dos Estados Unidos à França, discutiram como reduzir o tempo que uma bateria passa em uma posição de tiro e como se defender de drones enquanto isso. A Artilharia britânica introduziu o conceito de disciplina de assinatura: não apenas mover-se, mas também reduzir as emissões de rádio, o calor gerado pelos motores e qualquer outra característica que permita a um sensor inimigo identificar uma posição de tiro.

- Segunda conclusão: digitalização do ciclo sensor-atirador. O tempo entre detectar um alvo e disparar sobre ele precisa cair de minutos para segundos. Isso exige que sensores, sistemas de C2 e obuseiros falem a mesma língua digital, sem precisar de um operador humano para digitar coordenadas em cada etapa. A IA apareceu na conferência não como substituta do comandante, pois as decisões letais permanecem humanas, mas como assistente que filtra dados, prioriza alvos e recomenda qual arma é a mais adequada para cada situação.

- Terceira conclusão: efeitos em camadas. Artilharia de tubo, foguetes, mísseis, morteiros, drones e munições vagantes não são substitutos uns dos outros, mas sim são complementares. A 3ª Divisão Britânica apresentou um conceito de composição de forças que é uma régua útil para medir onde o Brasil está: 20% de capacidades de alto valor e difíceis de destruir (como o ASTROS), 40% de sistemas de médio custo que podem ser perdidos em combate (drones e munições vagantes) e 40% de munições convencionais de consumo. A artilharia brasileira, ainda fortemente concentrada em tubo rebocado de 105 mm, tem um caminho a percorrer nessa direção.

- Quarta conclusão: resiliência industrial. Prontidão não se mede apenas pelo número de obuseiros em serviço. Mede-se também pela capacidade de produzir munição em escala, de manter estoque suficiente para semanas de combate intenso e de certificar sistemas para que possam operar com aliados. A Ucrânia consumiu munição mais rápido do que qualquer país conseguia produzir. O Brasil, com a IMBEL e a Avibras Aeroco como pilares industriais, está avançando nessa direção, mas a reestruturação financeira da Avibras, que passou por recuperação judicial, é uma vulnerabilidade que o setor ainda carrega.

O problema que o equipamento não resolve
O Gen Paixão encerrou seu relatório com uma frase que é ao mesmo tempo uma conquista e um aviso: "O desafio para os próximos anos será transformar projetos, normas e indústrias em capacidade disponível nas unidades de tiro".

Essa frase merece ser lida com muita atenção. O Brasil tem os programas certos. Tem parte dos equipamentos certos. Tem, no ASTROS-FOGOS, uma arquitetura institucional capaz de integrar diferentes vetores de fogo. Tem, no M109 A5+BR com o sistema Gênesis, um obuseiro que sabe onde está e pode se mover com precisão. Tem, no desenvolvimento do radar de contrabateria com a Embraer e do SISDAC com a IMBEL, as peças de um sistema digital de fogos que começa a tomar forma.

O que ainda falta, e é o ponto mais difícil de resolver com dinheiro ou contratos, é o elemento que Verdile identificou na sua própria bateria americana: a cultura de adestramento que transforma mobilidade em reflexo, desde que seja treinada exaustivamente inúmeras vezes e sob diversas condições táticas. Uma peça que nunca treinou para sair de uma posição em menos de três minutos, à noite, sem JBC-P funcionando, sob a ameaça de um drone que pode aparecer a qualquer momento, não vai fazer isso automaticamente no momento em que precisar. A doutrina do shoot and scoot não nasce com o equipamento. Ela precisa ser treinada, repetida e internalizada até virar instinto.

A conferência de Londres mostrou que essa é uma preocupação universal. O painel operacional final, com representantes da Ucrânia, dos Estados Unidos e da Suécia, foi explícito: as soluções tecnológicas precisam sobreviver ao terreno, à guerra eletrônica, ao atrito logístico e ao ritmo de decisões de uma frente em movimento. Tecnologia sem doutrina é sucata cara.


A artilharia brasileira, neste 10 de junho de 2026, comemora o Dia da Arma com um programa de modernização consistente, uma presença ativa nos principais fóruns internacionais e uma indústria de defesa que, apesar dos percalços, ainda é uma das mais completas da América do Sul. 

O ciclo de três minutos que Verdile descreve não é uma ameaça imaginária ou distante: é o padrão que qualquer conflito de alta intensidade vai impor, em qualquer teatro de operações, a qualquer bateria que não tenha aprendido a se mover.

A bateria que atira e fica, e que não segue as camadas de sobrevivência, torna-se um alvo. O Exército Brasileiro parece ter entendido a sentença. O próximo passo é garantir que cada artilheiro, em cada bateria do país, também a tenha internalizado antes que precise aprender da pior maneira possível.

 

Fontes e referências

CPT Vincent Verdile. "Moving to Survive: Transforming Artillery Training for Modern Warfare". Field Artillery Professional Bulletin: E-Edition 2026, US Army.

Gen Bda R/1 Moises da Paixão Junior. Relatório Future Artillery 2026. EPEx/EME, Brasília, 9 jun. 2026.

Gen Bda R/1 Moises da Paixão Junior. "Modernising Brazilian Army Artillery for a Multi-Domain Future". Future Artillery Conference 2026, Londres, 19 mai. 2026.

Maj Gen Andrii Malinovskiy. "Ukrainian Perspectives: Artillery as Central, Decisive Component of Modern High Intensity Warfare". Future Artillery Conference 2026, Londres, 19 mai. 2026.

Tom Newbery (Dstl). "Active Survivability Suites for Artillery Systems". Future Artillery Conference 2026, Londres, 20 mai. 2026.

Tim De Zitter. Post analítico no LinkedIn sobre o artigo de Verdile. Belgian Defence, 19 mai. 2026.

09 junho, 2026

CBC Global Ammunition e Shell Shock Technologies firmam parceria para munição leve de alto desempenho

Acordo será celebrado na Eurosatory 2026, em Paris; tecnologia NAS3™ promete redução de peso e ganho balístico em calibres militares e comerciais


*LRCA Defense Consulting - 09/06/2026

A CBC Global Ammunition, um dos maiores fabricantes mundiais de munição de pequeno calibre, e a Shell Shock Technologies (SST), empresa norte-americana especializada em inovação em estojos de munição, formalizarão publicamente seu Memorando de Entendimento (MoU) durante a edição de 2026 da Eurosatory, principal feira mundial de defesa e segurança terrestre, realizada em Paris. A cerimônia está marcada para 15 de junho de 2026, às 14h, no estande da CBC (Hall 5A, estande J391).

O acordo, já assinado, estabelece uma colaboração voltada à industrialização e à comercialização da tecnologia proprietária NAS3™, desenvolvida pela SST. A parceria abrange os mercados militar, policial e civil em escala global, com a CBC atuando como parceira licenciada de fabricação e desenvolvimento de mercado.

O que é a tecnologia NAS3™
A tecnologia NAS3™ combina metalurgia avançada e processos de fabricação proprietários para produzir estojos de munição leves e de alta resistência à pressão. Em comparação com os tradicionais estojos de latão, o sistema promete maior velocidade de projétil, maior capacidade volumétrica do estojo, redução de peso e melhor desempenho balístico geral.

A solução utiliza aço inoxidável combinado com alumínio aeronáutico, sendo projetada para aplicações militares e comerciais exigentes, incluindo programas de munição de nova geração e de alto desempenho. A SST é sediada em Eubank, no estado do Kentucky (EUA).

Calibres cobertos
O escopo do acordo abrange múltiplos calibres de uso militar e civil: 5,56x45mm, 7,62x51mm, .277 Fury (6,8x51mm), .338 Lapua Magnum, .50 BMG e 9mm. A diversidade do portfólio reflete a intenção de atender desde fuzis de assalto padronizados pela NATO até calibres de precisão de longo alcance e pistolas.

Papel da CBC
Sob o MoU, a CBC deverá apoiar os esforços de industrialização e a escalada futura da produção, incluindo a integração à sua crescente infraestrutura fabril nos Estados Unidos. A empresa anunciou recentemente planos para uma grande instalação de fabricação de munição no nordeste de Oklahoma, reforçando seu comprometimento de longo prazo com os mercados de defesa e comercial norte-americanos.

A CBC é a holding que reúne marcas como CBC, Magtech, MEN, Extreme Performance e SinterFire. Com quase cem anos de tradição industrial, o grupo emprega mais de três mil profissionais no Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Bélgica e Índia, e produz mais de dois bilhões de cartuchos por ano. A empresa também detém participações estratégicas na New Lachaussée e na Fritz Werner, especializadas em maquinário e sistemas para fabricação de munição.

Declaração
"A Eurosatory reúne o que há de melhor em defesa e segurança global, e estamos orgulhosos de estar aqui com a CBC para marcar o início desta colaboração", afirmou Peter Foss, sócio-gerente e CEO da Shell Shock Technologies. "A NAS3 foi desenvolvida para ampliar os limites de desempenho da munição moderna, e as capacidades de fabricação global da CBC oferecem uma plataforma excepcional para acelerar a industrialização e a comercialização da tecnologia."

Contexto: a CBC no mercado de defesa
A CBC Global Ammunition é parte do ecossistema da Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), maior fabricante de munição da América Latina, que detém o controle acionário da Taurus Armas. A empresa tem ampliado sua presença internacional por meio de contratos com forças armadas e forças de segurança em diversas regiões, e a parceria com a SST representa mais um passo em sua estratégia de diversificação tecnológica e acesso ao segmento de munição de alto desempenho para plataformas militares de próxima geração.

A Eurosatory 2026 ocorre entre 15 e 19 de junho, no Centro de Exposições Paris Nord Villepinte.

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