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18 setembro, 2026

Embraer entrega à Flexjet o primeiro Praetor 600E

Operadora prevê 12 unidades até o fim de 2026; jato estreia cabine renovada com tela de 42 polegadas e inaugura nova etapa do acordo de até US$ 7 bilhões.



*LRCA Defense Consulting - 18/09/2026

A Embraer anunciou nesta sexta-feira, 18 de setembro, em Melbourne, na Flórida, a entrega do primeiro Praetor 600E à Flexjet. A operadora norte-americana é a cliente de lançamento da frota da versão atualizada do jato executivo supermédio e prevê receber 12 unidades até o fim deste ano, segundo seu próprio comunicado. A previsão indica a escala pretendida para a incorporação do modelo, mas ainda não equivale a entregas realizadas.

O marco integra o acordo anunciado em fevereiro de 2025, avaliado em até US$ 7 bilhões. O contrato reúne pedidos firmes de 182 aeronaves das famílias Phenom e Praetor, opções para outras 30 e ampliação dos serviços de suporte. O valor anunciado refere-se ao acordo potencial como um todo; a Embraer não informou no release quantos Praetor 600E compõem o pedido nem o preço da primeira aeronave.

Uma cabine concebida para trabalho e entretenimento 

A unidade inaugural incorpora a Smart Window™, opção escolhida pela Flexjet. Trata-se de uma tela sensível ao toque OLED 4K de 42 polegadas, integrada à parede lateral da cabine. Ela permite reuniões por vídeo, exibição de conteúdo em alta resolução e visualização externa ao vivo a partir de três câmeras instaladas na aeronave. Na configuração apresentada pela operadora, um sofá e dois assentos ficam voltados para a tela, criando uma área de reunião que também pode servir ao entretenimento.

A Flexjet informa que seus Praetor 600E terão conexão Wi-Fi via Starlink. A configuração divulgada também reúne novos assentos com ajustes elétricos, sistema de gerenciamento da cabine, comandos de voz, carregamento sem fio, iluminação ajustável e áudio aprimorado. São características voltadas a um público que busca utilizar o tempo de voo para trabalhar, descansar ou se entreter. 


Alcance e certificações 
O Praetor 600E conserva o alcance divulgado de 4.018 milhas náuticas (7.441 quilômetros), calculado com quatro passageiros e reservas IFR conforme os critérios da NBAA. De acordo com a Embraer, essa capacidade permite voos sem escala em rotas como São Paulo–Miami e Londres–Nova York, consideradas as condições aplicáveis a cada missão. A aeronave dispõe de comandos de voo digitais com redução ativa de turbulência, sistema de visão aprimorada E2VS e alerta de risco de ultrapassagem de pista ROAAS.

Apresentados em fevereiro de 2026, o Praetor 600E e o Praetor 500E receberam, segundo a fabricante, certificação da ANAC, da FAA e da EASA em abril e junho, respectivamente. Para o 500E, a primeira entrega à Flexjet está prevista para o quarto trimestre de 2026. A empresa afirma que já recebe unidades do Phenom 300E. A entrega antecipada à cliente de lançamento não altera a previsão divulgada no lançamento dos modelos para início das entregas de novos pedidos no primeiro trimestre de 2029.

Parceria iniciada em 2003
A relação comercial entre Embraer e Flexjet começou em 2003 e incluiu a introdução dos Praetor 500 e 600 na frota da operadora em 2019. Para a fabricante, a chegada do 600E à cliente de lançamento permite colocar em operação a evolução de uma família já estabelecida. Para a Flexjet, a aeronave amplia sua oferta de propriedade compartilhada com uma cabine configurada para atender a seus clientes.

A expectativa de 12 entregas em pouco mais de três meses será um indicador concreto da capacidade de produção e incorporação da nova versão. Por ora, a entrega confirmada é a primeira; a distribuição das demais aeronaves do contrato entre modelos e anos não foi detalhada nos anúncios consultados.

CTEx e Omnisys levam morteiro nacional de 120 mm à era do combate digital

Acordo prevê acelerar a entrada em posição e digitalizar o apontamento do M2 Raiado, aumentando a precisão e reduzindo a exposição da guarnição no campo de batalha

Imagem meramente ilustrativa


*LRCA Defense Consulting - 18/09/2026

O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e a Omnisys Engenharia Ltda formalizaram, em 17 de setembro, um Acordo de Parceria para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação destinado à automatização do Morteiro Pesado 120 mm M2 Raiado.

A iniciativa pretende acelerar a transição do armamento entre as posições de transporte e de tiro, além de digitalizar seu apontamento. Os resultados esperados são maior rapidez na entrada em ação, redução de erros humanos e aumento da precisão na aplicação dos elementos de tiro.

Mais do que facilitar o trabalho da guarnição, a automatização procura encurtar o ciclo completo de emprego do morteiro: ocupar a posição, preparar a arma, receber os dados, apontar, disparar, corrigir e abandonar o local.

Essa rapidez tornou-se especialmente importante em um campo de batalha marcado pela presença de drones, radares de contrabateria, sensores acústicos e outros meios capazes de localizar a origem dos disparos e orientar uma resposta adversária.

Um armamento concebido e produzido no País
O Morteiro Pesado 120 mm M2 Raiado foi desenvolvido no início dos anos 2000 pelo então Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento, posteriormente incorporado ao CTEx, em 2005.

O armamento é fabricado pelo Arsenal de Guerra do Rio (AGR), organização militar responsável pela produção, manutenção e revitalização de diferentes sistemas empregados pelo Exército Brasileiro.

Com aproximadamente 717 quilos, o M2 Raiado é transportado sobre um reparo com rodas. Sua configuração permite o tiro em 360 graus, sem a necessidade de reposicionar completamente a base para engajar alvos em diferentes direções.

O sistema foi concebido para proporcionar apoio de fogo às unidades de Infantaria e Cavalaria, podendo ser transportado por terra ou por meios aéreos. Seu tubo raiado imprime rotação ao projétil, contribuindo para sua estabilidade durante o voo.

Em dezembro de 2022, o Comando de Operações Terrestres aprovou a primeira edição do Manual Técnico Morteiro Pesado 120 mm M2 Raiado, EB70-MT-11.424. O Exército também vem realizando a recuperação e a revitalização de unidades existentes, demonstrando a intenção de preservar o sistema em serviço.

Da preparação manual à assistência automatizada
Na configuração convencional, a entrada em posição exige uma sequência de operações realizadas pela guarnição. O conjunto precisa ser preparado e estabilizado, a arma deve ser nivelada e orientada e os elementos de tiro precisam ser aplicados aos mecanismos de direção e elevação.

A informação divulgada pelo CTEx não apresenta a arquitetura da solução que será desenvolvida. Entretanto, a referência à automatização da passagem entre transporte e tiro indica que o projeto poderá atuar também sobre os mecanismos do reparo, e não apenas sobre o aparelho de pontaria.

Atuadores elétricos, eletromecânicos ou eletro-hidráulicos poderão, em princípio, auxiliar na movimentação, estabilização e preparação do conjunto, reduzindo o esforço físico exigido da guarnição e o tempo necessário para colocar o morteiro em condições de disparar.

A solução efetivamente adotada, sua fonte de energia e seu grau de automação ainda dependerão do trabalho de desenvolvimento realizado pelo CTEx e pela Omnisys.

Apontamento digital reduz erros
No apontamento tradicional, a central de tiro calcula o azimute, a elevação e a carga necessária para atingir o alvo. Esses elementos são transmitidos à guarnição, que realiza manualmente os ajustes na arma, conferindo escalas, níveis e referências.

Em um sistema digital, sensores podem determinar a orientação, a inclinação e a posição geográfica da peça. Um computador recebe os valores calculados pela central de tiro e informa ao operador, ou aplica por meio de atuadores, os movimentos necessários.

O sistema também pode confirmar quando o morteiro alcançou a orientação correta e facilitar o reapontamento para outro alvo ou a introdução de correções após os primeiros disparos.

Essa digitalização reduz erros associados à transmissão dos dados, à leitura das escalas, ao nivelamento e à aplicação do azimute e da elevação.

A automatização não elimina a dispersão própria da munição nem a influência do vento, da temperatura, do desgaste do tubo e da qualidade das coordenadas do alvo. O ganho está principalmente na precisão com que a solução de tiro calculada é aplicada ao armamento.

Exército já testou sistema inercial de pontaria
A modernização do M2 Raiado possui um antecedente relevante. Entre 9 e 12 de maio de 2023, o Arsenal de Guerra do Rio realizou, nas instalações do Centro de Avaliações do Exército, testes para a certificação de um Sistema Inercial de Pontaria produzido pela Safran Electronics & Defense Brasil.

Segundo a divulgação feita na ocasião pelo Exército, o equipamento empregava sensores giroscópicos correspondentes aos três eixos do Morteiro Pesado 120 mm M2A1 R.

O sistema coletava e processava automaticamente diferentes dados. Em seguida, comunicava-se com o Sistema Gênesis de Direção e Controle de Tiro, permitindo o correto nivelamento dos mecanismos de direção e a introdução das correções necessárias para atingir o alvo. A atividade foi divulgada pelo Exército e reproduzida pela DefesaNet.

O acordo agora firmado não esclarece se aquela solução será incorporada, modificada ou substituída. Também não informa se a Safran participará da nova etapa.

O dado confirmado é que o projeto com a Omnisys aparenta possuir escopo mais amplo, pois inclui expressamente a automatização da transição entre transporte e tiro, além da digitalização do apontamento.

Rapidez aumenta a capacidade de sobrevivência
O primeiro ganho da automação será a redução do tempo de reação. A transmissão eletrônica dos elementos de tiro pode diminuir comunicações por voz, anotações, conferências e ajustes sucessivos.

A peça poderá entrar em ação mais rapidamente, executar correções em menos tempo e transferir o fogo para outro alvo com maior agilidade.

O segundo ganho será a maior precisão do apontamento. Sensores inerciais e codificadores angulares permitem conhecer continuamente a orientação real do armamento. Se os dados calculados pela central de tiro forem enviados diretamente à peça, reduz-se a possibilidade de erro humano.

O terceiro, e talvez mais importante, será a sobrevivência da guarnição e do armamento.

O disparo de um morteiro produz diferentes assinaturas. A trajetória das granadas pode ser detectada por radares de contrabateria, enquanto drones, sensores acústicos e observadores inimigos podem identificar a posição por meio do som, da fumaça, do clarão ou da movimentação da tropa.

Quanto mais tempo a peça permanecer na mesma posição depois de abrir fogo, maior será a possibilidade de sofrer um ataque de drones, munições vagantes, artilharia ou outros meios adversários.

A automação reduz essa janela de vulnerabilidade ao permitir que o morteiro chegue, seja preparado, cumpra a missão e abandone a posição em menos tempo.

Essa lógica é conhecida como shoot and scoot, expressão utilizada para descrever a capacidade de disparar e deslocar-se antes da chegada dos fogos de resposta.

Sistemas automatizados mais sofisticados demonstram a importância operacional desse conceito. O Patria NEMO, por exemplo, é apresentado pelo fabricante como capaz de abrir fogo em menos de 25 segundos e abandonar imediatamente a posição. O NEMO é um sistema em torre, muito diferente do morteiro rebocado brasileiro, mas a comparação evidencia por que os tempos de entrada e saída de posição se tornaram requisitos fundamentais.

Menos esforço para a guarnição
A automatização também poderá reduzir o desgaste físico dos militares responsáveis por preparar uma arma com mais de 700 quilos.

A assistência mecânica tende a diminuir a fadiga, reduzir o risco de acidentes e ajudar a manter o desempenho durante missões prolongadas. Também poderá liberar parte da guarnição para tarefas como segurança da posição, comunicações, observação e preparação das munições.

Uma eventual redução no número de militares necessários para operar a peça, entretanto, não foi anunciada.

Mesmo com apontamento automatizado, permanecem atividades que exigem intervenção humana, entre elas o transporte das munições, a preparação das granadas, o carregamento do tubo, a segurança aproximada e a manutenção do sistema.

Também não há indicação de que o projeto incluirá um carregador automático. Assim, a cadência de tiro continuará dependendo, ao menos inicialmente, do trabalho da guarnição.

Munição nacional alcança até 12 quilômetros
O M2 Raiado emprega munições nacionais fabricadas pela IMBEL. O catálogo da empresa apresenta diferentes opções para morteiros pesados de 120 mm.

A granada alto explosiva convencional possui alcance de 6.600 metros e carga de arrebentamento de 2,1 quilos de TNT. A munição alto explosiva pré-raiada alcança 8.150 metros e carrega 4,4 quilos de explosivo.

A versão pré-raiada com propulsão adicional pode atingir 12.000 metros, ampliando consideravelmente a área de atuação da unidade apoiada.

A automação do apontamento não aumentará diretamente esses alcances, que dependem da munição e das características balísticas do armamento. O ganho estará na velocidade e na precisão com que os fogos poderão ser desencadeados dentro da área já coberta pelo sistema.

Integração com o Sistema Gênesis
Uma futura integração com o Sistema Gênesis de Direção e Controle de Tiro poderá conectar digitalmente o morteiro à cadeia de comando e controle.

Nesse modelo, as informações obtidas por observadores avançados, drones, radares ou outros sensores são processadas pela central de tiro e convertidas em elementos para cada peça.

Quando esses elementos chegam diretamente ao sistema de apontamento, elimina-se parte das transmissões intermediárias e reduz-se o tempo entre a identificação do alvo e a abertura do fogo.

A digitalização também facilita a concentração dos disparos de vários morteiros sobre um mesmo objetivo. Cada peça pode receber os dados correspondentes à sua posição e orientação, permitindo que os fogos cheguem de maneira coordenada.

Apesar do antecedente dos testes realizados em 2023, a integração do novo sistema com o Gênesis ainda não foi mencionada no anúncio do CTEx e deverá ser tratada como uma possibilidade técnica até que seja oficialmente confirmada.

Omnisys reúne competências de integração
Fundada em 1997 e controlada pelo Grupo Thales, a Omnisys atua em vigilância e controle do espaço aéreo, defesa aérea, guerra eletrônica, sistemas de rastreio, aviônicos, eletrônica de mísseis e aplicações espaciais.

A empresa possui experiência em sensores, processamento de sinais, eletrônica embarcada, integração de subsistemas e controle eletromecânico, competências compatíveis com um projeto de automatização do morteiro.

Em trabalho anterior para o Exército, a Omnisys desenvolveu o Sistema Transportável para Rastreio de Engenhos em Voo, destinado ao acompanhamento de mísseis, foguetes, granadas de artilharia, munições de grande calibre e aeronaves remotamente pilotadas.

Naquele programa, a empresa demonstrou a integração de subsistemas ópticos e de radar, além do controle eletromecânico dos movimentos angulares de uma antena.

A parceria com o CTEx reúne, portanto, o conhecimento militar e tecnológico acumulado no desenvolvimento do M2 Raiado com a capacidade industrial da Omnisys nas áreas de sensores, eletrônica, atuação mecânica e integração de sistemas.

Modernização não cria imediatamente um morteiro autopropulsado
A automatização anunciada não deve ser confundida com o desenvolvimento imediato de um morteiro autopropulsado ou inteiramente automático.

O comunicado não menciona a instalação do M2 em uma viatura blindada, a adoção de carregador automático, a proteção da guarnição ou a capacidade de disparar a partir do interior de um veículo.

O avanço previsto concentra-se na transição entre as configurações de transporte e tiro e na digitalização do apontamento.

Ainda assim, se o projeto entregar preparação mecanizada, localização automática da peça, aplicação digital dos elementos de tiro e integração eficiente com o Sistema Gênesis, o salto operacional será expressivo.

O Exército poderá preservar um armamento desenvolvido no País, suas munições e a infraestrutura de fabricação existente, acrescentando recursos mais compatíveis com o combate contemporâneo.

Questões ainda precisam ser esclarecidas
O anúncio não informa o valor do acordo, o prazo de desenvolvimento, a quantidade de protótipos nem o cronograma previsto para os testes.

Também não esclarece o grau de automação, a fonte de energia dos mecanismos, a participação de outras empresas, a possibilidade de modernizar todas as peças existentes ou a futura escala de produção.

Outro ponto a ser confirmado é a relação entre o novo projeto e o Sistema Inercial de Pontaria testado em 2023 com a Safran.

Essas definições serão importantes para medir o alcance industrial e operacional do programa. Mesmo em sua fase inicial, entretanto, o acordo sinaliza que o Exército pretende atualizar um de seus principais armamentos coletivos de apoio de fogo sem abandonar uma solução desenvolvida e produzida no País.

Para o M2 Raiado, a automação poderá representar menos tempo parado, maior precisão na aplicação dos dados e, principalmente, melhores condições para cumprir a missão de fogo e deixar a posição antes da resposta adversária.

17 setembro, 2026

A-29 Super Tucano antidrone: Embraer avança para demonstração com alvos reais

Demonstração conduzida com um país não divulgado busca validar o conceito operacional e aperfeiçoar a interface homem-máquina de uma solução que combina sensores, inteligência artificial e armamentos já integrados ao Super Tucano 


*LRCA Defense Consulting - 17/09/2026

A Embraer avançou para uma etapa decisiva do projeto destinado a adaptar o A-29 Super Tucano às missões de combate a sistemas aéreos não tripulados. A empresa está trabalhando com um país cujo nome não foi divulgado em uma demonstração de prova de conceito com aeronaves A-29 e drones reais empregados como alvos. O objetivo é refinar o conceito operacional e otimizar a interface homem-máquina de uma solução altamente integrada.

A informação, divulgada pelo portal norte-americano Breaking Defense em 16 de setembro, acrescenta um elemento novo aos anúncios feitos desde novembro de 2025. Até agora, a comunicação pública havia se concentrado na definição do conceito contra drones e, posteriormente, na integração do sistema de inteligência artificial Gunslinger, da Valkyrie Aero. O emprego de aeronaves e alvos reais mostra que o programa começa a sair do plano da arquitetura proposta para enfrentar condições representativas de uma missão.

O passo mais importante até agora 
Uma prova de conceito não equivale à conclusão do desenvolvimento, à certificação da configuração ou à declaração de capacidade operacional. Ainda assim, representa um salto qualitativo. É nessa fase que sensores, processamento, comunicações, armamentos, procedimentos e carga de trabalho da tripulação são avaliados como partes de uma única cadeia de engajamento.

O teste com drones reais permite verificar se o A-29 consegue receber ou gerar a indicação de alvo, localizá-lo, identificá-lo, acompanhá-lo e apresentar ao piloto uma solução de interceptação com rapidez suficiente. Também possibilita medir limitações difíceis de reproduzir apenas em simulação, como reduzida assinatura visual e térmica do alvo, manobras, interferências ambientais, geometria de aproximação e pouco tempo disponível para a decisão.

O cuidado com a interface homem-máquina é particularmente relevante. Caçar um drone pequeno, lento e de baixa assinatura não é apenas um problema de alcance de sensores ou de precisão do armamento. O sistema precisa transformar diversos dados em indicações claras, reduzir tarefas manuais e ajudar o piloto a priorizar ameaças sem retirar dele a decisão sobre o emprego da força. Uma apresentação inadequada pode aumentar a carga de trabalho justamente na fase mais crítica da interceptação.

Uma evolução construída em etapas 

A Embraer apresentou o conceito operacional do A-29 para missões contra drones em novembro de 2025. A proposta aproveita recursos existentes ou já integráveis à aeronave, entre eles sensores eletro-ópticos e infravermelhos, enlace de dados, metralhadoras calibre .50 e foguetes guiados a laser. A lógica é oferecer uma resposta de menor custo contra determinados drones, preservando caças de alto desempenho e mísseis antiaéreos mais caros para ameaças que realmente exijam esses meios.

Em março de 2026, a fabricante anunciou uma parceria com a norte-americana Valkyrie Aero para integrar ao A-29 o Gunslinger, conjunto baseado em inteligência artificial destinado a processar dados dos sensores da aeronave, detectar e acompanhar múltiplos alvos e apoiar rapidamente o ciclo de decisão. A tecnologia não transforma o Super Tucano em uma plataforma autônoma de combate. Sua função é aumentar a consciência situacional e reduzir o tempo entre a detecção, a identificação e a autorização de um engajamento pelo piloto.

A demonstração agora revelada parece unir essas duas linhas de trabalho: a plataforma e seus meios de detecção e ataque, de um lado, e a automação da análise e da apresentação das informações, de outro. Embora a Embraer não tenha identificado o país participante, a presença de um operador estrangeiro sugere que o esforço está sendo orientado por uma necessidade concreta e não apenas por uma iniciativa promocional.

Uma lacuna entre a defesa terrestre e os caças 
O crescimento do emprego de drones de ataque e munições vagantes criou uma lacuna na defesa aérea. Sistemas terrestres de curto alcance são essenciais para proteger bases, tropas e infraestruturas, mas sua cobertura é localizada. Caças supersônicos e mísseis de alto valor podem interceptar essas ameaças, porém o custo por engajamento e a disponibilidade limitada tornam essa solução difícil de sustentar diante de ataques numerosos e repetidos.

O A-29 busca ocupar uma camada intermediária. Sua autonomia, velocidade relativamente baixa, capacidade de permanecer na área, sensores, armamento interno e pontos externos permitem patrulhar corredores prováveis de aproximação e ampliar a área defendida. O avião também pode receber informações de radares e centros de comando, deslocar-se rapidamente entre setores e atuar antes que o drone alcance o objetivo protegido.

Essa solução, contudo, não substitui uma defesa antiaérea em camadas. O Super Tucano depende de alerta antecipado, identificação confiável, coordenação do espaço aéreo e regras de engajamento rigorosas. Também deverá operar em ambientes nos quais a ameaça inimiga permita o emprego seguro de uma aeronave tripulada. Seu valor está em complementar radares, guerra eletrônica, canhões, mísseis e drones interceptadores, acrescentando mobilidade e persistência ao conjunto.

Interesse comercial para operadores atuais e futuros 
A Embraer informa que o Super Tucano foi selecionado por mais de 20 forças aéreas e acumulou extensa experiência em missões de ataque leve, vigilância, patrulha e treinamento avançado. A adaptação contra drones amplia a utilidade de uma frota já existente e pode ser oferecida tanto a operadores atuais quanto a novos clientes, especialmente países que precisam proteger fronteiras, bases aéreas, instalações estratégicas e grandes extensões territoriais sem manter caças de primeira linha permanentemente em alerta.

A divulgação do tema em diferentes portais internacionais também indica uma ação de posicionamento de mercado. A Embraer procura apresentar o A-29 não apenas como uma aeronave de contrainsurgência e ataque leve, mas como uma plataforma capaz de responder a uma das demandas mais urgentes da defesa aérea contemporânea. O argumento comercial ganha força quando deixa de se apoiar somente em uma configuração planejada e passa a incorporar uma demonstração com usuário potencial e alvos reais.

O que ainda precisa ser demonstrado
Os dados divulgados não esclarecem qual país participa da prova, que tipos de drones são empregados, quais sensores externos integram a cadeia de detecção, quais armamentos serão efetivamente disparados nem o cronograma para conclusão dos ensaios. Também não há indicação pública de contrato de aquisição associado à demonstração.

Essas reservas são importantes, mas não reduzem o significado do avanço. O combate a drones exige que uma boa ideia seja transformada em uma sequência confiável e repetível: detectar, classificar, identificar, decidir e neutralizar. Ao colocar o A-29 diante de drones reais e de um usuário não divulgado, a Embraer começa a buscar a evidência operacional necessária para provar que o Super Tucano pode cumprir essa sequência com eficiência.

Se os resultados confirmarem o conceito, o A-29 poderá ganhar uma nova função em seu já amplo portfólio de missões e oferecer aos operadores uma alternativa móvel, persistente e potencialmente mais econômica para parte do desafio contra drones. Mais do que uma atualização isolada, trata-se de reposicionar uma aeronave brasileira consolidada diante de uma transformação que já redefine a defesa aérea em diferentes regiões do mundo.

Colt CZ Group dobra o EBITDA no primeiro semestre e reforça o valor da participação da CBC

Com receita de CZK 15,9 bilhões (+44,2%) e EBITDA ajustado de CZK 4,6 bilhões (+95,1%) no primeiro semestre de 2026, o grupo tcheco-americano eleva o guidance anual e confirma que a estratégia de integração vertical, da nitrocelulose à arma acabada, está produzindo resultados sem precedentes. Para a CBC, segunda maior acionista com 19,52% do capital, cada ponto percentual de margem conquistado pelo grupo é um evento financeiro direto.



*LRCA Defense Consulting - 17/09/2026

Um semestre histórico
O Colt CZ Group divulgou, em 17 de setembro de 2026, seus resultados consolidados não auditados referentes ao primeiro semestre encerrado em 30 de junho. Os números confirmam uma aceleração estrutural, não conjuntural, do grupo: a receita total atingiu CZK 15,9 bilhões, crescimento de 44,2% sobre o mesmo período de 2025, enquanto o EBITDA ajustado chegou a CZK 4,6 bilhões, praticamente o dobro (+95,1%) do registrado na primeira metade do ano anterior. O lucro líquido avançou 72,7%, para CZK 1,6 bilhão.

A performance justificou a revisão do guidance para o ano inteiro. O grupo agora projeta receitas de CZK 31,0 a 33,0 bilhões e EBITDA ajustado entre CZK 8,0 e 8,5 bilhões, o teto superior cresceu em relação à orientação anterior. Na avaliação do CEO Radek Musil, o resultado valida a estratégia de longo prazo de construir um grupo verticalmente integrado e geograficamente diversificado. "Todos os nossos segmentos tiveram bom desempenho", afirmou Musil ao apresentar os números. "Entramos no segundo semestre com um alto nível de receitas esperadas já cobertas por pedidos confirmados."

O que chama atenção não é apenas o volume de crescimento, mas a qualidade dele: a margem de EBITDA ajustado passou de 33,0% no primeiro semestre de 2025 para 28,9% no primeiro semestre de 2026, aparente contração, mas decorrente da diluição natural causada pelo peso da receita de armas de fogo no mix, segmento de margens inferiores às de munição e energéticos. Isolados, os dois segmentos de maior valor agregado entregaram margens de 33,2% e 54,5%, respectivamente, ambas superiores às do período anterior.

Resultados consolidados: H1 2025 vs H1 2026

Colt CZ Group SE: demonstração de resultados resumida

Indicador

H1 2025

H1 2026

Variação

Receita total

CZK 11,0 bi

CZK 15,9 bi

+44,2%

EBITDA ajustado

CZK 2,4 bi

CZK 4,6 bi

+95,1%

Lucro líquido

CZK 0,95 bi

CZK 1,6 bi

+72,7%

Segmento armas de fogo — receita

CZK 5,8 bi

CZK 8,0 bi

+37,4%

Segmento munição — receita

CZK 5,2 bi

CZK 4,9 bi

-5,0%

Segmento munição — margem EBITDA aj.

26,5%

33,2%

+6,7 p.p.

Segmento energéticos — receita

CZK 2,6 bi*

CZK 3,0 bi

+14,3%*

Segmento energéticos — margem EBITDA aj.

54,5%

*Base proforma. Fonte: Colt CZ Group SE, comunicado de 17/09/2026

Os três motores do crescimento
O resultado do primeiro semestre é sustentado por três vetores distintos, cada um com dinâmica própria.

Armas de fogo: o segmento cresceu 37,4% em receita, para CZK 8,0 bilhões, apesar do avanço modesto de 0,6% no número de unidades vendidas (291.724 armas). O que explica a discrepância é o mix: mais contratos militares e de segurança pública (M&LE), que pagam preços superiores aos do mercado comercial. Colt Canada foi o protagonista do período, com contratos de fornecimento de rifles C7/C8 para as Forças Armadas canadenses (30.000 unidades entre 2026 e 2029) e entregas ao Ministério da Defesa dinamarquês. O crescimento da receita canadense foi de 271% na comparação anual. A Colt também assegurou novo contrato de rifles M4 para clientes estrangeiros por meio do programa de Vendas Militares Estrangeiras (FMS) dos Estados Unidos.

Munição: a receita caiu 5,0%, para CZK 4,9 bilhões, em razão da redução das entregas no âmbito da iniciativa tcheca de munições para a Ucrânia e do impacto das tarifas norte-americanas sobre as importações, que deslocou parte das entregas para o mercado europeu. Esse dado, isolado, poderia sugerir fraqueza. Mas a margem de EBITDA ajustado saltou de 26,5% para 33,2%, sinal de que o segmento está vendendo menos volume e faturando mais por unidade, priorizando contratos de maior valor agregado. A Sellier & Bellot conquistou novos pedidos na Espanha, Polônia, Romênia, Croácia e Estônia, além de fornecimentos pela NSPA (NATO Support and Procurement Agency).

Energéticos: o segmento mais novo e mais lucrativo do grupo entregou CZK 3,0 bilhões em receita e margem de EBITDA ajustado de 54,5%, a mais alta do grupo pelo segundo trimestre consecutivo. A Synthesia Nitrocellulose, adquirida em janeiro de 2026, é um dos maiores fabricantes de nitrocelulose energética da Europa e da América do Norte, matéria-prima essencial para propelentes de munição de todos os calibres. O grupo projeta que o segmento de energéticos representará cerca de 16% da receita total e aproximadamente um terço do EBITDA ajustado ao longo de 2026.

O único vetor negativo foi o mercado comercial norte-americano: a receita dos Estados Unidos caiu 12,7%, para CZK 3,5 bilhões, combinando a fraqueza da demanda civil com o impacto das tarifas de importação. O grupo adota como estratégia de mitigação o controle de custos e o lançamento de novos produtos, incluindo a nova divisão Colt Optics, além da reorientação de parte do volume para o mercado europeu.

O que os números significam para a CBC
A CBC Europe S.à r.l. detém, desde 6 de janeiro de 2026, 19,52% do capital registrado e 19,60% dos direitos de voto do Colt CZ Group, posição que a mantém como segunda maior acionista e confere ao grupo brasileiro assento no conselho de supervisão. Cada ponto percentual de crescimento do grupo tcheco-americano tem, portanto, implicação financeira direta e mensurável para a CBC.

O mecanismo é duplo. O primeiro é a valorização patrimonial da participação: à medida que o Colt CZ Group eleva receitas, margens e lucros, o valor de mercado do grupo tende a se apreciar, e a fatia da CBC acompanha esse movimento. O segundo é o fluxo de dividendos: o conselho do grupo propôs, para o exercício de 2026, dividendo de CZK 30 por ação, sujeito à aprovação em assembleia. Com 12.227.843 ações em carteira, a CBC receberá, se aprovado, cerca de CZK 366,8 milhões apenas a título de dividendos, sem considerar eventuais ajustes derivados do desempenho do segundo semestre.

O resultado do primeiro semestre sugere que o desempenho anual pode superar o teto do guidance revisado. O grupo declarou operar com "alto nível de receitas esperadas já cobertas por pedidos confirmados" ao entrar no segundo semestre, linguagem que, no vocabulário de relações com investidores, sinaliza confiança acima da média na entrega dos números projetados. Se o guidance de CZK 8,0 a 8,5 bilhões de EBITDA ajustado se materializar, o segundo semestre precisará entregar entre CZK 3,4 e 3,9 bilhões, meta plausível dado que o segundo semestre costuma ser mais forte em contratos M&LE.

Para a CBC, há ainda um terceiro vetor de impacto, ainda latente, mas em maturação: o fornecimento de componentes e insumos ao Colt CZ Group por empresas do próprio ecossistema brasileiro. A Taurus Armas, controlada indiretamente pela CBC Global Ammunition, possui tecnologia de metal injection molding (MIM) exclusiva no Hemisfério Sul, e cada arma produzida pelo grupo tcheco pode conter até 14 peças fabricadas por esse processo. Negociações avançadas entre a Česká zbrojovka e a Taurus foram sinalizadas pela visita de executivos tchecos a São Leopoldo em maio de 2025. Se um contrato formal de fornecimento se concretizar, a CBC passará a capturar valor não apenas como acionista do grupo, mas como integrante de sua cadeia produtiva.

Impacto financeiro estimado da participação da CBC no Colt CZ Group (2026)

CBC Europe S.à r.l. - participação de 19,52% no Colt CZ Group

Item

Base de cálculo

Estimativa para a CBC

Participação no capital

19,52% de 62.637.242 ações

12.227.843 ações

Dividendo proposto (CZK 30/ação)

12.227.843 × CZK 30

~CZK 366,8 milhões

Guidance EBITDA 2026 (teto)

CZK 8,5 bi × 19,52%

~CZK 1,66 bilhão (proporcional)

Guidance receita 2026 (teto)

CZK 33,0 bi × 19,52%

~CZK 6,44 bilhões (proporcional)

Nota: os valores proporcionais não representam receita da CBC, mas a parcela do resultado consolidado do Colt CZ Group atribuível à sua participação acionária. Fonte: elaboração LRCA com base nos dados do Colt CZ Group SE.

O MoU com a Frankenburg e a camada adicional de crescimento
Os resultados do primeiro semestre foram divulgados no mesmo dia em que este veículo reportava o Memorando de Entendimento assinado pelo Colt CZ Group com a Frankenburg Technologies, empresa estoniana desenvolvedora do Mark I, míssil interceptador de drones com custo estimado em menos de um décimo do preço de um Stinger convencional. O MoU insere o Colt CZ Group, pela primeira vez, no segmento de sistemas de armas guiadas.

A combinação dos dois eventos é relevante para a leitura do que está se construindo. O resultado do H1 2026 demonstra que a base industrial do grupo, especialmente o segmento de energéticos, está operando com margens elevadas e capacidade de absorver novos negócios sem deteriorar a estrutura de custos. O Mark I, propulsionado por motor foguete de combustível sólido, é exatamente o tipo de produto que pode utilizar a nitrocelulose energética da Synthesia como insumo. Se a cadeia produtiva do míssil for integrada ao grupo, o segmento de energéticos, já o mais rentável, teria uma nova fonte de receita de alta margem, em mercado com demanda estruturalmente crescente na Europa.

Para a CBC, o encadeamento é direto: melhores margens no segmento de energéticos elevam o EBITDA consolidado do Colt CZ Group; EBITDA maior amplia a base de distribuição de dividendos e valoriza a participação acionária. O MoU com a Frankenburg não é, portanto, apenas uma notícia de expansão de portfólio do grupo tcheco. É mais uma peça na construção de valor que, ao final da cadeia, chega ao balanço da CBC.

Síntese
O primeiro semestre de 2026 entrega, com clareza matemática, a tese que sustentou a decisão da CBC de trocar a Sellier & Bellot por participação acionária no Colt CZ Group em maio de 2024: um grupo verticalmente integrado, em ciclo de rearmamento global, com três segmentos complementares e margens crescentes vale mais, e distribui mais, do que uma subsidiária isolada, por mais sólida que fosse. Com 19,52% do capital e assento no conselho de supervisão, a CBC não é espectadora desse crescimento. É co-proprietária dele.

O guidance revisado para CZK 31,0 a 33,0 bilhões de receita e CZK 8,0 a 8,5 bilhões de EBITDA ajustado em 2026, lastreado em pedidos confirmados, coloca o Colt CZ Group em trajetória de tornar-se, em valor de EBITDA, um dos maiores grupos de defesa da Europa Central. Para a CBC, isso significa que a decisão de 2024, por vezes questionada nos mercados brasileiros à época, estava muito bem calibrada.

16 setembro, 2026

C-390 com mísseis Barracuda amplia o alcance comercial e estratégico da Embraer

Integração paletizada poderá transformar o cargueiro em vetor de ataque de longo alcance e reforçar propostas à Índia, à Polônia e a operadores atuais, mas o projeto ainda está na fase de desenvolvimento 

Imagm renderizada apenas para ilustração


*LRCA Defense Consulting - 16/09/2026

O C-390 Millennium poderá ganhar uma capacidade que altera substancialmente seu valor militar e comercial. A Embraer e a norte-americana Anduril assinaram, em 21 de julho de 2026, durante o Farnborough International Airshow, um memorando de entendimento para buscar a integração do míssil de cruzeiro Barracuda-500M em um sistema paletizado lançado pela rampa traseira da aeronave.

A proposta não transforma permanentemente o cargueiro em bombardeiro. O conceito emprega módulos de missão removíveis, procedimentos convencionais de lançamento aéreo e uma arquitetura de instalação e retirada rápidas. Assim, a mesma aeronave poderá continuar executando transporte de tropas e cargas, reabastecimento em voo, evacuação aeromédica, busca e salvamento e ajuda humanitária e, quando necessário, receber um conjunto capaz de produzir ataques de precisão a longa distância.

Essa combinação interessa especialmente a países que necessitam de mobilidade estratégica, mas também procuram ampliar seus estoques e vetores de ataque sem adquirir uma frota dedicada de bombardeiros. Índia e Polônia aparecem como oportunidades particularmente coerentes. A primeira conduz um programa para uma nova aeronave de transporte médio e negocia ampla produção local. A segunda é alvo de uma campanha industrial do C-390 e, simultaneamente, firmou parceria para fabricar o próprio Barracuda-500M em território polonês.

Uma capacidade além do transporte aéreo 
Segundo a Embraer, a solução paletizada permitirá ao C-390 lançar dezenas de munições simultaneamente. A formulação deve ser interpretada como objetivo do conceito, porque as empresas ainda não divulgaram a configuração final, o número exato de armas por aeronave, o cronograma de ensaios nem a data em que a capacidade poderá estar disponível aos clientes.

A Anduril informa que o Barracuda-500M possui alcance superior a 500 milhas náuticas, aproximadamente 926 quilômetros, e capacidade de carga útil acima de 100 libras, cerca de 45 quilogramas. A empresa apresenta a família Barracuda como uma resposta à necessidade de recompor rapidamente estoques de munições de precisão: o projeto teria 50% menos componentes, exigiria 95% menos ferramentas e consumiria metade do tempo de fabricação de sistemas comparáveis.

O ganho operacional decorre da combinação entre alcance, quantidade e dispersão. Um C-390 poderia decolar de uma base afastada, aproximar-se apenas até uma área segura de lançamento e liberar as armas fora do alcance imediato de parte das defesas inimigas. A aeronave não teria de penetrar o espaço aéreo mais contestado. Depois da missão, o equipamento paletizado poderia ser retirado e o cargueiro retornaria às tarefas logísticas.

O modelo acompanha a tendência, já explorada pelo programa norte-americano Rapid Dragon, de usar aeronaves de transporte como plataformas de lançamento. A diferença comercial é relevante: em vez de vincular o ataque de longo alcance apenas a caças e bombardeiros caros e disponíveis em pequena quantidade, a força aérea passa a utilizar parte de sua frota logística para gerar massa em momentos críticos.

Índia combina grande necessidade e ambição industrial 
A Índia é provavelmente o mercado no qual a nova capacidade produz o maior impacto potencial. Embraer e Mahindra Group mantêm uma aliança para oferecer o C-390 ao programa Medium Transport Aircraft da Força Aérea Indiana. As empresas pretendem, caso a aeronave seja selecionada, estabelecer produção, montagem, cadeia de suprimentos e manutenção, reparo e revisão no País, com a ambição de transformar a Índia em centro regional do programa.

O Barracuda acrescenta à proposta uma função que vai além da substituição de cargueiros. Para uma força aérea que precisa operar em grandes distâncias e diante de ambientes estratégicos distintos, um conjunto removível de mísseis permitiria preservar a frota para transporte na rotina e convertê-la para ataque de longo alcance em uma crise. A capacidade poderia complementar, e não substituir, os vetores dedicados já existentes ou futuros.

Também haveria espaço para uma oferta industrial ampliada, envolvendo montagem do avião, manutenção e eventual participação indiana em equipamentos de missão. Isso dependeria, porém, de negociações específicas entre governos e empresas, de autorizações de exportação norte-americanas e das exigências indianas de conteúdo local. Até agora, a Índia não selecionou o C-390 nem anunciou a aquisição do Barracuda para emprego aéreo. A reportagem publicada pelo portal indiano IDRW identifica uma oportunidade plausível, mas não registra uma decisão oficial da Força Aérea Indiana.

Polônia reúne as duas pontas da proposta 
Na Polônia, a convergência é ainda mais direta. A Embraer promove o KC-390 como futura aeronave de transporte e reabastecimento do país e assinou memorandos com empresas polonesas. Em março de 2026, apresentou a aeronave à Wojskowe Zakłady Lotnicze Nr 2, em Bydgoszcz, como parte da cooperação para manutenção, reparo e revisão. A fabricante brasileira também já avaliou a possibilidade de montagem final na Polônia.

Paralelamente, a Polska Grupa Zbrojeniowa e a Anduril anunciaram, em julho, um acordo para produzir em Bydgoszcz a versão terrestre Surface-Launched Barracuda-500M. A parceria prevê fabricação local e integração industrial. Embora a variante terrestre não seja idêntica ao sistema paletizado destinado ao C-390, a presença do fabricante, da cadeia produtiva e da tecnologia no mesmo país reduz barreiras de cooperação e cria uma combinação comercial particularmente atraente.

Para Varsóvia, uma frota de C-390 poderia cumprir transporte, reabastecimento em voo, apoio a forças dispersas e lançamento de munições a longa distância. Para a Embraer, a oferta uniria aeronave, capacidade militar adicional e participação da indústria local. Isso não significa que a Polônia tenha decidido adquirir o cargueiro ou integrar nele o Barracuda. Significa que duas campanhas antes separadas passaram a formar um possível ecossistema comum.

Operadores atuais também entram no horizonte 
A possibilidade não se limita a Índia e Polônia. Em julho de 2026, a Embraer relacionava Brasil, Portugal, Hungria, República da Coreia, Países Baixos, Áustria, República Tcheca, Uzbequistão, Suécia, Emirados Árabes Unidos, Eslováquia e Lituânia entre os países que haviam selecionado o C-390. Em agosto, a Colômbia tornou-se o 13º país a escolher a plataforma.

Nem todos terão interesse político, doutrinário ou financeiro em adquirir mísseis de cruzeiro. Para alguns operadores, o valor principal do C-390 continuará sendo a mobilidade aérea, o apoio humanitário ou o reabastecimento em voo. Outros, especialmente membros da OTAN preocupados com a disponibilidade de munições e com operações dispersas, poderão considerar o módulo paletizado uma forma de ampliar a capacidade de ataque sem alterar permanentemente suas aeronaves.

A modularidade cria ainda uma vantagem de ciclo de vida. Um cliente poderia adquirir inicialmente o avião para transporte e, mais tarde, incorporar o conjunto de missão, desde que a integração seja certificada e autorizada. A Embraer passaria a oferecer não apenas uma aeronave multimissão, mas uma plataforma capaz de receber novas funções por meio de equipamentos removíveis.

Oportunidade relevante, com obstáculos técnicos e políticos 
A integração exigirá mais do que acomodar paletes no compartimento de carga. Será necessário demonstrar separação segura pela rampa, comportamento aerodinâmico, comunicação com as munições, planejamento de missão, interfaces de comando, compatibilidade eletromagnética, segurança de armamento e procedimentos de certificação. Ensaios em solo e em voo deverão validar o emprego em diferentes velocidades, altitudes e condições operacionais.

Há também questões de soberania e controle de exportações. O Barracuda é um sistema norte-americano, e cada venda dependerá das autorizações aplicáveis. Países interessados poderão exigir acesso a interfaces, integração com seus próprios sistemas de comando e controle, autonomia sobre dados de missão e participação industrial. A atratividade do conceito será medida não apenas pelo alcance do míssil, mas pelo preço, pela escala de produção e pela liberdade real de emprego concedida ao operador.

Para o Brasil, a iniciativa abre uma discussão adicional. O C-390 é a principal plataforma militar de exportação da indústria aeronáutica nacional, mas a arma proposta é estrangeira. A parceria amplia a competitividade internacional do avião e pode gerar engenharia, integração e serviços para a Embraer. Ao mesmo tempo, evidencia a importância de o País desenvolver munições de longo alcance e arquiteturas próprias que, no futuro, também possam ser integradas à aeronave, como o MARSUP, que em desenvolvimento pela SIATT e pela FAB, por exemplo.

C-390 passa a disputar uma categoria mais ampla 
O memorando com a Anduril deve ser visto como o início de um caminho tecnológico e comercial, não como capacidade já entregue. Ainda assim, ele modifica a percepção do produto. O C-390 deixa de ser apresentado somente como substituto moderno de cargueiros táticos e passa a disputar espaço como plataforma modular para produzir efeitos operacionais a longa distância.

Na Índia, isso reforça uma proposta associada à produção local e à autonomia industrial. Na Polônia, conecta o avião brasileiro a um míssil que poderá ser fabricado no próprio país. Entre operadores atuais, oferece uma rota de crescimento da capacidade sem a compra imediata de uma nova classe de aeronaves. Se a integração cumprir o que promete, a Embraer terá acrescentado ao C-390 um argumento que combina logística, dissuasão e poder de ataque em uma única frota.

BermudAir passa a operar o E190F e leva o E-Freighter da Embraer às Américas pela primeira vez

Aeronave arrendada da Regional One entra na frota da companhia bermudense e amplia a atuação do programa de cargueiros da fabricante brasileira para o continente americano



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LRCA Defense Consulting - 16/09/2026

A BermudAir tornou-se, nesta terça-feira, a segunda operadora mundial do E-Freighter, programa de cargueiros da Embraer (NYSE: EMBJ; B3: EMBJ3). A companhia aérea sediada nas Bermudas passará a operar um E190F arrendado da Regional One, marcando a primeira presença do modelo nas Américas desde o início do programa. O anúncio foi feito em conjunto pelas duas empresas.

A operação soma-se à frota atual da BermudAir, formada por dois E175 e dois E190, com a qual a companhia atende dez destinos entre o Caribe, os Estados Unidos e o Canadá. Com a chegada do E190F cargueiro, a empresa passa a oferecer também transporte de carga expressa na mesma rede em que já opera voos de passageiros.

“O transporte de carga é um próximo passo natural para nós”, disse Adam Scott, fundador e CEO da BermudAir. Segundo ele, a companhia construiu “uma operação confiável e dimensionada corretamente”, conectando Bermuda e o Caribe à América do Norte, e o E190F permitirá usar essa mesma rede para atender empresas locais, o comércio eletrônico e o frete urgente entre as ilhas atendidas pela companhia.

Pela Regional One, o diretor de investimentos George Mamangakis afirmou que a empresa está “muito feliz” em ter a BermudAir como segunda operadora do E190F e primeira do E-Freighter nas Américas, classificando a bermudense como uma parceira que ajudará a demonstrar a versatilidade da plataforma. Ele acrescentou que o marco representa mais um passo no crescimento do programa E190 P2F (passenger-to-freighter, ou de passageiro para cargueiro), com a expectativa de expandir a base global de operadoras do modelo.

Já Arjan Meijer, presidente e CEO da Embraer Aviação Comercial, destacou que a escolha do E190F pela BermudAir representa a entrada em serviço do modelo na América do Norte e no Caribe pela primeira vez. Para o executivo, a companhia bermudense, uma das que mais crescem na região, está expandindo suas operações para além do transporte de passageiros ao explorar o mercado de carga aérea, o que reforça, segundo ele, a proposta de valor do E-Freighter.

O programa e a aeronave 

O E-Freighter foi lançado pela Embraer em maio de 2022 e converte aeronaves da família E-Jets, de passageiros para cargueiros dedicados, no âmbito do programa passenger-to-freighter (P2F). O E190F, construído sobre a plataforma dos E-Jets, combina os porões inferior e superior para oferecer mais de 100 m³ de volume de carga e até 13,5 toneladas de carga útil.

Segundo a Embraer, o modelo foi projetado para preencher a lacuna entre os turboélices de carga e as aeronaves maiores de fuselagem estreita, com custos operacionais até 30% menores do que os das aeronaves clássicas de fuselagem estreita, volume de carga 35% superior e alcance mais de três vezes maior do que o dos turboélices de carga de grande porte. A fabricante brasileira também classifica o E190F como o jato cargueiro mais silencioso e ecológico de sua categoria.

O programa recebeu certificação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) em julho de 2024, seguida pela aprovação da Federal Aviation Administration (FAA), dos Estados Unidos, e da European Union Aviation Safety Agency (Easa), da União Europeia, o que autorizou operações globais do modelo. Antes da BermudAir, a operadora de lançamento do E190F foi a Bridges Air Cargo, de Malta, que iniciou os voos comerciais em março de 2026 entre Colônia, na Alemanha, e Larnaca, no Chipre.

Frota da Regional One 
A Regional One, com sede no sul da Flórida, é especializada no mercado de aviação regional e mantém desde o lançamento do E-Freighter cinco encomendas firmes do E190F, das quais duas aeronaves convertidas já foram entregues e estão em operação. A empresa integra o grupo que também controla a Bridges Air Cargo e vem ampliando gradualmente seus pedidos ao longo do programa, iniciados com duas conversões em 2022.

A Embraer estima um mercado potencial de cerca de 700 aeronaves no segmento de cargueiros regionais ao longo de vinte anos, somando a substituição de modelos antigos e o crescimento da demanda por logística ligada ao comércio eletrônico. Até o momento, o E190F segue sem concorrente direto certificado no segmento de conversão de jatos regionais em cargueiros.

Contexto da BermudAir 
Fundada em 2023, a BermudAir opera a partir do Aeroporto Internacional L. F. Wade, nas Bermudas, e vem ampliando seu leque de destinos no continente americano ao longo de 2026, com a entrada em novos pontos no Caribe e na América Central. A entrada do E190F cargueiro na frota, ainda que operada de forma independente das rotas de passageiros, se soma a esse movimento de expansão e diversificação de negócios da companhia.

Para o setor aeroespacial brasileiro, a operação do E-Freighter pela BermudAir amplia a presença internacional do portfólio da Embraer para além dos segmentos executivo, regional de passageiros e militar, consolidando o programa de cargueiros como nova frente comercial da fabricante.

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