Cada leva de estudantes que passa pelo sistema sem dominar
matemática é uma geração de engenheiros, cientistas e técnicos que o país não
terá.
*LRCA Defense Consulting - 01/01/2026
1 INTRODUÇÃO
A indústria de defesa representa um dos setores mais
exigentes em termos de capital humano qualificado. Diferentemente de diversos outros
segmentos industriais, não há espaço para aproximações ou improvisações quando
se trata do desenvolvimento de sistemas de armas, aeronaves militares,
eletrônica embarcada ou propulsão naval. A margem de erro é literalmente
inexistente.
Neste contexto, as lacunas no ensino de matemática que chegam às
universidades brasileiras representam não apenas um desafio pedagógico, mas uma
ameaça estrutural à capacidade do país de desenvolver uma indústria de defesa
competitiva e autônoma.
Cabe ressaltar que as deficiências educacionais aqui elencadas e analisadas trazem, por óbvio, consequências graves para outros ramos fundamentais da vida nacional, como as diversas engenharias, a medicina, as ciências da computação, a arquitetura, as ciências econômicas e tantas outras áreas que dependem de sólida formação em matemática e ciências exatas. Contudo, o foco deste estudo recai especificamente sobre a Indústria de Defesa, dada sua importância estratégica para a soberania nacional e as particularidades de suas exigências técnicas, que não admitem margem para improviso ou formação deficiente.
O presente estudo constitui uma pequena contribuição da LRCA Defense Consulting para o desenvolvimento da Indústria de Defesa e para a Educação no Brasil, buscando evidenciar a relação indissociável entre formação técnica de qualidade em ciências exatas e a capacidade de um país construir soberania tecnológica na área de defesa.
Ao analisar tanto os desafios sistêmicos quanto alguns dos casos de sucesso já existentes no Brasil, pretende-se oferecer alguns subsídios para a formulação de políticas públicas e estratégias institucionais que fortaleçam simultaneamente a educação básica e a superior, bem como a Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS).
2 O PARADOXO DA EXPANSÃO SEM PROFUNDIDADE
O Brasil vive um momento peculiar: ampliou
significativamente o acesso ao ensino superior nas últimas duas décadas, mas
comprometeu a solidez da base formativa. Para a indústria de defesa, isso se
traduz em um paradoxo cruel. Há mais candidatos disponíveis no mercado de
trabalho, mas uma parcela menor deles possui o domínio técnico necessário para
atuar em projetos de alta complexidade.
Enquanto estudantes universitários paralisam diante de
equações simples, a indústria de defesa precisa de profissionais capazes de
trabalhar com equações diferenciais, transformadas de Laplace, mecânica dos
fluidos, dinâmica de sistemas não-lineares e modelagem computacional avançada.
A distância entre o que chega e o que é necessário tornou-se um abismo técnico.
Relatos de professores universitários são consistentes e
preocupantes: calouros de engenharia, economia e licenciaturas que não dominam
regra de três, porcentagem ou leitura algébrica básica. O que antes seria
exceção tornou-se padrão estatístico. A pandemia não criou o problema, mas
expôs desigualdades históricas e fragilidades estruturais que vinham sendo
mascaradas por políticas de aprovação automática e avaliações pouco rigorosas.
3 SETORES CRÍTICOS EM RISCO
3.1 Engenharia Aeroespacial
O desenvolvimento de aeronaves militares exige domínio
absoluto de aerodinâmica, resistência dos materiais, termodinâmica e sistemas
de controle. Um engenheiro que não domina cálculo vetorial, derivadas parciais
ou análise de tensões não consegue sequer interpretar os requisitos de um
projeto, muito menos contribuir para sua execução. A Embraer, com sua divisão
de defesa, e o programa KC-390 exemplificam o nível de exigência: são projetos
que demandam anos de formação técnica sólida, iniciada já no ensino fundamental.
3.2 Eletrônica e Sistemas Embarcados
Radares, sistemas de guerra eletrônica, comunicações
criptografadas e sensores de precisão dependem de profissionais que dominem
análise de sinais, processamento digital, teoria eletromagnética e matemática
discreta. A lacuna formativa - estudantes que não dominam regra de três ou
porcentagem - torna-se catastrófica neste contexto. Como esperar que esses
mesmos estudantes, anos depois, trabalhem com transformadas de Fourier ou
modulação de sinais?
3.3 Balística e Propulsão
O cálculo de trajetórias, desenvolvimento de propelentes,
análise de combustão e dinâmica de projéteis são áreas onde a matemática não é
apenas ferramenta, mas linguagem nativa. Sem domínio de funções
trigonométricas, logaritmos, exponenciais e integração, não há como formar
especialistas em sistemas de mísseis, artilharia de precisão ou propulsão de
foguetes. O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e o Instituto de Aeronáutica
e Espaço (IAE) dependem de quadros técnicos que simplesmente não podem ser improvisados.
3.4 Construção Naval Militar
Submarinos, fragatas e corvetas exigem cálculos de
estabilidade, resistência hidrodinâmica, sistemas de propulsão nuclear ou
convencional, e integração de sistemas complexos. O programa de submarinos
nucleares brasileiro (PROSUB) ilustra a dimensão do desafio: são décadas de
investimento em infraestrutura, mas que podem fracassar pela ausência de
engenheiros navais plenamente capacitados.
4 O CUSTO OCULTO DA TERCEIRIZAÇÃO DO CONHECIMENTO
Quando um país não forma adequadamente seus próprios
engenheiros e técnicos, a indústria de defesa sofre consequências em cascata. A
primeira é a dependência tecnológica externa. Sem capacidade interna de
desenvolvimento, o Brasil permanece refém de transferências de tecnologia
condicionadas, licenciamentos caros e, em situações de conflito ou tensão
geopolítica, vulnerável ao bloqueio de fornecimento.
A segunda consequência é a perda de autonomia estratégica.
Defesa nacional não é apenas sobre ter equipamentos, mas sobre ser capaz de
projetá-los, fabricá-los, mantê-los e, quando necessário, adaptá-los
rapidamente às necessidades operacionais. Esse ciclo completo depende de uma
massa crítica de profissionais de altíssimo nível técnico.
A terceira, talvez a mais silenciosa, é a erosão da
capacidade de inovação. A indústria de defesa é historicamente um dos
principais vetores de avanço tecnológico. Internet, GPS, materiais compostos,
microcircuitos avançados, todos tiveram origem ou forte impulso em projetos
militares. Um país que não forma bem seus cientistas e engenheiros perde não
apenas a capacidade de se defender, mas também de inovar em áreas que,
eventualmente, transbordam para a economia civil.
5 A UNIVERSIDADE COMO REMENDO E O ESGOTAMENTO DO SISTEMA
Universidades brasileiras improvisam disciplinas de
nivelamento, módulos introdutórios, cursos de "matemática zero". Em
algumas instituições, o reforço já se divide em dois andares: um para revisar o
ensino médio; outro, mais constrangedor ainda, para reconstruir o ensino
fundamental. É como se a universidade tivesse assumido, sem aviso prévio, o
papel de escola básica tardia.
Para cursos de engenharia voltados à defesa, isso é
especialmente devastador. O tempo que deveria ser dedicado a aprofundar
conhecimentos em sistemas dinâmicos, controle robusto, análise numérica ou
ciência dos materiais precisa ser redirecionado para revisar frações, funções
básicas e álgebra elementar.
Há um custo oculto nesse remendo. O tempo gasto recuperando
o que deveria estar consolidado reduz a profundidade do ensino superior.
Professores sacrificam rigor para garantir permanência. Estudantes acumulam
frustração, evasão silenciosa e a sensação íntima de inadequação. O país paga
duas vezes: primeiro, por uma educação básica que não ensinou; depois, por uma
universidade que precisa ensinar o que já foi pago para ser ensinado.
Professores relatam turmas heterogêneas onde parte
significativa dos estudantes simplesmente não acompanha o ritmo exigido. O
resultado é uma escolha trágica: ou reduz-se o rigor, comprometendo a qualidade
da formação, ou mantém-se o padrão, elevando a evasão. Em ambos os casos, a
indústria de defesa perde. No primeiro, recebe profissionais insuficientemente
preparados. No segundo, não recebe profissionais em número adequado.
6 COMPARAÇÃO INTERNACIONAL E O DISTANCIAMENTO COMPETITIVO
Enquanto o Brasil lida com estudantes universitários que
travam diante de equações simples, países com indústrias de defesa consolidadas
mantêm padrões rigorosos desde a educação básica. China, Estados Unidos,
Rússia, França, Israel e Coreia do Sul investem pesadamente não apenas em
universidades de elite, mas em toda a cadeia formativa, garantindo que os
estudantes cheguem ao ensino superior com base matemática sólida.
Israel, por exemplo, com uma população menor que a da cidade
de São Paulo, mantém uma das indústrias de defesa mais avançadas do mundo. Não
por acaso, também possui um dos sistemas educacionais mais rigorosos em
ciências exatas. A Coreia do Sul, que décadas atrás tinha indicadores
educacionais comparáveis aos brasileiros, priorizou matemática, física e
engenharia como políticas de Estado. Hoje, exporta sistemas de defesa de alta
tecnologia.
O Brasil, ao contrário, celebra índices de acesso sem
correspondente preocupação com profundidade formativa. Expande sem consolidar.
Aprova sem diagnosticar. E paga o preço na forma de uma indústria de defesa
que, apesar de casos pontuais de excelência, não consegue competir globalmente
de maneira consistente.
7 O DRAMA ECONÔMICO E A PERDA DE OPORTUNIDADES
A indústria de defesa não é apenas estratégica do ponto de
vista militar; é também um setor econômico de alta geração de valor. Países que
dominam tecnologias de defesa exportam bilhões de dólares anualmente. Israel
exporta cerca de 12 bilhões de dólares por ano em equipamentos militares. A
Coreia do Sul tornou-se um dos principais fornecedores globais de sistemas de
artilharia, tanques e aeronaves de treinamento.
O Brasil, com sua dimensão continental, recursos naturais,
base industrial e histórico de projetos bem-sucedidos como o C-390 da Embraer e os ASTROS da Avibras, poderia ocupar posição de destaque nesse mercado. Mas a
fragilidade na formação técnica de engenheiros e cientistas limita essa
possibilidade. Projetos atrasam, custos aumentam, entregas são comprometidas e,
gradualmente, o país perde competitividade internacional.
Mais grave ainda: perde-se a capacidade de formar uma
indústria de defesa robusta internamente, o que compromete a própria segurança
nacional. Dependência externa em defesa não é apenas cara; é estrategicamente
arriscada.
8 CASOS DE SUCESSO: EXEMPLOS QUE FUNCIONAM
Embora o diagnóstico geral seja preocupante, existem
iniciativas brasileiras que demonstram ser possível formar adequadamente os
profissionais de que a indústria de defesa necessita. Seis casos merecem
destaque especial.
8.1 Colégios Embraer: Formação Estratégica desde o Ensino
Médio
A Embraer mantém dois colégios de ensino médio em período
integral: o Colégio Juarez Wanderley em São José dos Campos e o Colégio
Casimiro Montenegro Filho em Botucatu. Juntos, oferecem 240 vagas anuais, sendo
80% destinadas a estudantes de baixa renda vindos da rede pública de ensino,
com bolsas integrais que incluem material didático, uniforme, alimentação e
transporte.
O modelo é notável por vários aspectos. Primeiro, pelo
processo seletivo rigoroso organizado pela Fundação Vunesp, garantindo que os
estudantes admitidos já demonstrem capacidade e comprometimento. Segundo, pela
infraestrutura de excelência e corpo docente altamente qualificado. Terceiro,
pelos resultados: a taxa de aprovação em universidades de primeira linha (USP,
Unicamp, ITA, entre outras) alcança 84%.
Ao longo de 21 anos, já passaram
pelos colégios mais de 4.700 estudantes, muitos vindos de famílias com renda de
até um salário mínimo e meio por pessoa.
A Embraer compreendeu algo fundamental: não pode depender
exclusivamente do sistema público de educação básica para formar os engenheiros
e técnicos de que necessita. Ao investir na formação desde o ensino médio,
garante um fluxo constante de profissionais com base sólida em matemática e
ciências exatas, prontos para os desafios técnicos da indústria aeroespacial de
defesa.
8.2 Colégios Militares e Escolas Cívico-Militares: Rigor
e Resultados
O Sistema Colégio Militar do Brasil (SCMB), composto por 15
instituições distribuídas pelo país, representa outro modelo de excelência na
formação em ciências exatas. Os números são inequívocos: em 2024, os alunos dos
colégios militares conquistaram 419 medalhas na Olimpíada Brasileira de
Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), sendo 72 de ouro, 173 de prata e 174
de bronze. Em 2025, novamente foram mais de 400 alunos premiados, sendo 86 medalhas de ouro, 174 medalhas de prata e 180 medalhas de bronze, além de 312 menções honrosas.
No PISA 2018, a avaliação internacional que mede a qualidade
da educação em 79 países, relatórios destacam que colégios militares federais tiveram desempenho superior à média OCDE em matemática, ciências e leitura, comparável aos top 20 mundiais se analisado isoladamente. Se os resultados
fossem analisados separadamente, teria garantido ao Brasil empate com Portugal
e Croácia nessas áreas.
No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) de
2023, o Colégio Militar de Campo Grande obteve nota 6,7, com média de 370,80 em
matemática, posicionando-se como a 25ª melhor escola do Brasil e a melhor de
Mato Grosso do Sul. Estudo da Universidade Federal do Ceará demonstrou que
alunos de colégios militares adquirem o equivalente a um ano e meio a mais de
conhecimentos em matemática quando comparados a estudantes de escolas públicas
regulares.
A forte preparação em matemática e raciocínio lógico cria
vantagens competitivas significativas. Uma parcela considerável dos egressos
segue carreiras em engenharia, medicina, direito e ciências exatas, exatamente
as áreas críticas para a indústria de defesa. Muitos ingressam em instituições
militares de ensino superior, como a Escola Preparatória de Cadetes do Exército
(EsPCEx) / Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), Academia da Força Aérea
(AFA), Escola Naval, Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e Instituto
Militar de Engenharia (IME).
O modelo de escolas cívico-militares, embora mais recente, também tem apresentado desempenho muito promissor, obtendo excelentes resultados em olimpíadas de matemática (incluindo a OBMEP),
parâmetros nacionais de avaliação (IDEB/Saeb) e vestibulares competitivos. Ainda em
expansão, essas escolas combinam gestão militar com corpo docente civil,
mantendo o rigor disciplinar e a ênfase em ciências exatas que caracterizam os
colégios militares tradicionais.
8.3 Escolas Públicas de Excelência: o Nordeste como
Modelo
Um dos fatos mais surpreendentes do IDEB 2023 é que todas as
21 escolas públicas que alcançaram nota 10 nos anos iniciais do ensino
fundamental estão localizadas no Nordeste: 15 no Ceará, cinco em Alagoas e uma
em Pernambuco. Esta foi a primeira vez na história que o IDEB conferiu nota
máxima a escolas, e todas são nordestinas.
A Escola Municipal Nossa Senhora da Paz, em Coreaú (Ceará),
com 10 no IDEB, ocupa o primeiro lugar nacional. O mais notável é que as 10
melhores escolas públicas do Brasil nos anos iniciais são do Ceará e estão no
interior. Não são capitais. São cidades pequenas como Pires Ferreira, Cruz,
Novo Oriente, Mucambo — municípios que desafiam o senso comum de que excelência
educacional depende de grandes centros urbanos.
O sucesso do Ceará não é acidental. O estado mantém um
regime de colaboração com os municípios que inclui formação continuada para
professores, material didático estruturado, sistema de avaliação (Spaece) e o
Programa de Aprendizagem na Idade Certa (Paic Integral). É uma política de
Estado, não governo, implementada há quase duas décadas com consistência.
Entre as 50 cidades com maiores notas do IDEB 2023 no 9º ano
do ensino fundamental, 36 são do Nordeste, sendo 20 apenas do Ceará. No ensino
médio, a Escola Família Agrícola Padre Eliésio dos Santos, em Ipueiras (Ceará),
no Sertão dos Crateús, é a melhor unidade estadual do Brasil com nota 7,5.
Trata-se de uma escola do campo, que alterna sala de aula e trabalho agrícola,
demonstrando que é possível excelência em contextos não convencionais.
Uma diretora de escola nota 10 relatou: "São aplicados
simulados padronizados mensalmente, não só no ano do IDEB. Além do simulado,
temos maratonas de aprendizagem com premiações para os alunos de destaque e os
professores". Há método, avaliação constante, diagnóstico e intervenção
pedagógica efetiva.
Esses resultados provam algo fundamental para a indústria de
defesa: é possível formar adequadamente estudantes em matemática e ciências
exatas dentro do Brasil, inclusive em contextos de baixa renda e municípios
pequenos. O diferencial está na gestão, no rigor acadêmico, na formação
docente, no acompanhamento sistemático e na cultura de excelência.
8.4 Escolas Particulares de Alto Nível: Investimento e
Resultados
O Brasil também possui escolas particulares que demonstram
padrões internacionais de excelência. Colégios como Bandeirantes e Santa Cruz,
em São Paulo, obtiveram no PISA desempenho comparável aos melhores países da
Europa, como Estônia, Reino Unido e Alemanha. Em Leitura, as escolas
particulares de elite brasileiras colocariam o país na 5ª posição mundial.
O Farias Brito Colégio de Aplicação, em Fortaleza, liderou o
ranking de melhores colégios do Brasil no ENEM por anos consecutivos. Outras instituições de
destaque incluem o Colégio Objetivo Integrado (São Paulo), Instituto Dom
Barreto (Teresina), Colégio Bernoulli (Belo Horizonte) e Coleguium (Belo
Horizonte), todas figurando consistentemente no top 20-50 nacional do ENEM e com forte ênfase em preparação para vestibulares de alta
seletividade em engenharia e ciências exatas.
O que essas escolas têm em comum? Investimento robusto em
infraestrutura (laboratórios, bibliotecas, tecnologia), corpo docente altamente
qualificado, processos seletivos rigorosos, currículo focado em profundidade
(não apenas extensão), avaliações constantes e cultura de excelência acadêmica.
Muitas implementam conteúdos de ensino superior ainda no ensino médio para
estudantes avançados.
Para a indústria de defesa, essas instituições representam
fontes confiáveis de futuros engenheiros e cientistas. Seus egressos ingressam
maciçamente em cursos de engenharia do ITA, IME, Politécnica da USP, Unicamp,
UFRJ e outras instituições de primeira linha, chegando à universidade com
domínio sólido de matemática, física e química.
8.5 Taurus e UNISINOS: Parceria Universidade-Indústria
A Taurus Armas, maior fabricante de pistolas do mundo e
Empresa Estratégica de Defesa, estabeleceu em 2021 uma parceria abrangente com
a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) que exemplifica como a
indústria de defesa pode participar ativamente da formação de seus
profissionais.
A parceria possui três frentes principais. A primeira é o
projeto de Excelência Operacional, desenvolvido pelo grupo de pesquisa GMAP da
UNISINOS, focado em elevar a capacidade operacional e o avanço tecnológico da
empresa rumo à Indústria 4.0. A segunda é o Programa de Capacitação Taurus, que
abrange todos os colaboradores, do montador à diretoria, criando uma base
conceitual sólida para aproveitamento dos avanços tecnológicos.
A terceira frente, particularmente relevante para este
estudo, é o Programa de Educação Continuada Taurus. A empresa oferece aos
colaboradores cursos de graduação, mestrado e doutorado, com apoio dos
professores orientadores da UNISINOS. Foi criado inclusive o Master Business
Engineering (MBE) em Engenharia de Produção e Sistemas Taurus, curso que simula
em sala de aula demandas reais da companhia e estimula cada participante a
desenvolver projetos de melhoria contínua em produtos ou processos.
A parceria se estende à pesquisa aplicada. A Taurus também
firmou convênio com a Universidade de Caxias do Sul (UCS) para desenvolvimento
de armamentos com grafeno, utilizando a UCSGRAPHENE, primeira e maior planta de
produção de grafeno em escala industrial da América Latina instalada por uma
universidade. O resultado foi a pistola GX4 Graphene, primeira arma leve do mundo com grafeno injetado em peças e revestimento Cerakote® Graphene, para maior resistência, durabilidade e dissipação térmica..
Nos últimos anos, a Taurus investiu mais de 500 milhões de
reais em maquinários, equipamentos e processos de produção automatizados, mas
compreendeu que investir em tecnologia sem investir nas pessoas que a operarão
seria inútil. O modelo demonstra que a indústria de defesa não pode ser
passiva, aguardando que o sistema educacional entregue profissionais prontos.
Precisa participar ativamente da formação.
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| Formatura da 1ª turma de colaboradores no MBE Engenharia de Produção e Sistemas Taurus em 2023 |
8.6 UFSM e Exército Brasileiro: Soberania Tecnológica em
Simulação Militar
A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) consolidou-se
como principal parceira acadêmica do Exército Brasileiro no desenvolvimento de
tecnologias de defesa nacional. Com investimentos que já ultrapassam R$ 20
milhões ao longo de uma década, a cooperação entre as instituições tem gerado
inovações críticas para a soberania tecnológica do país, especialmente na área
de simulação militar.
8.6.1 Projetos Desenvolvidos e Resultados
Há mais de uma década, pesquisadores do Centro de Tecnologia
da UFSM vêm desenvolvendo soluções inovadoras que transformaram a capacidade de
treinamento das Forças Armadas brasileiras. O principal marco foi a criação do
Sistema Integrado de Simulação ASTROS (SIS-ASTROS), destinado ao treinamento de
operadores do sistema de foguetes 100% nacional fabricado pela Avibras. A
equipe desenvolveu um Simulador Virtual Tático completo, com mesa tática
sensível ao toque e vídeo wall, além de softwares para treinamento em
computadores pessoais.
Outro projeto relevante foi a modernização do Dispositivo de
Simulação e Engajamento Tático (DSET), que simula por meio de feixes laser a
trajetória balística nos blindados Leopard 1A5. O projeto, orçado em R$ 2
milhões, eliminou limitações do sistema original alemão da década de 1980,
substituindo a impressora térmica por transmissão de dados via rádio e
incluindo georreferenciamento das viaturas.
Os resultados são expressivos: dezenas de publicações
científicas, uma patente concedida, dois depósitos de patentes em andamento,
oito registros de software e diversos prêmios de reconhecimento científico.
Aproximadamente 190 pessoas já trabalharam nos projetos, entre professores,
alunos de graduação e pós-graduação, pesquisadores e funcionários.
8.6.2 Metodologia e Tecnologias Empregadas
A metodologia envolve o desenvolvimento de "serious
games" — jogos de computador que vão além do entretenimento para cumprir
propósitos de treinamento e educação. O processo inicia-se com estudo
aprofundado de doutrinas militares, seguido por desenvolvimento de soluções
inovadoras em engenharia de software, computação gráfica, realidade virtual,
inteligência artificial, interoperabilidade de jogos em rede e modelagem 3D.
O projeto mais recente, iniciado em dezembro de 2024 com
aporte superior a R$ 10 milhões e duração de cinco anos, envolve equipe
multidisciplinar com seis professores do Programa de Pós-Graduação em Ciência
da Computação da UFSM, além de um professor da UFRGS. A equipe conta com 15
alunos de iniciação científica, dois bolsistas de mestrado e quatro
pesquisadores mestres.
8.6.3 Tríplice Hélice e Formação de Recursos Humanos
A cooperação entre UFSM e Exército exemplifica o conceito da
tríplice hélice: a integração entre universidade, governo e indústria para
promover inovação e desenvolvimento tecnológico. O General de Brigada Moisés da
Paixão Júnior, Gerente do Programa Estratégico ASTROS, ressaltou que os
projetos em cooperação com a UFSM são diferenciados, pois os resultados obtidos
frequentemente superam as expectativas iniciais.
Santa Maria estabeleceu-se como polo nacional de tecnologia
de defesa e simulação militar, abrigando tanto os laboratórios da UFSM quanto
importantes instalações militares como o Centro de Instrução de Blindados e o
Centro de Adestramento-Sul.
8.6.4 Relevância para a Formação Técnica
O caso UFSM-Exército é particularmente relevante para este
estudo por demonstrar como a parceria universidade-Forças Armadas pode formar
profissionais altamente qualificados em áreas críticas para a defesa nacional.
Os aproximadamente 190 profissionais que já passaram pelos projetos receberam
formação prática em tecnologias de ponta que exigem sólida base em matemática,
computação, física e engenharia.
O modelo evidencia que estudantes com formação adequada em
ciências exatas podem contribuir significativamente para a soberania
tecnológica do país. A capacitação proporcionada tem sido um diferencial no
mercado de trabalho, com profissionais sendo absorvidos por empresas do setor
tecnológico brasileiro e internacional. Como enfatizou o professor Raul Ceretta
Nunes, coordenador do projeto, "a equipe efetivamente estabelece uma
conexão profícua entre academia, governo e indústria", desenvolvendo
"soluções inovadoras de simulação 100% nacional".
 |
| Equipes da UFSM e do Exército reunidas no Gabinete do Reitor (dezembro de 2025) |
9 LIÇÕES DOS MODELOS DE
EXCELÊNCIA
Os casos de sucesso analisados —
Colégios Embraer, colégios militares, escolas cívico-militares, escolas públicas nota 10 do Nordeste e
interior, escolas particulares de alto nível, parceria Taurus-UNISINOS e
parceria UFSM-Exército — revelam padrões comuns que deveriam orientar políticas
para a formação de profissionais para a indústria de defesa:
9.1 Rigor Acadêmico sem
Concessões
Todas as instituições de sucesso
mantêm padrões elevados e não rebaixam expectativas. Avaliações constantes,
diagnóstico precoce de dificuldades e intervenção pedagógica efetiva são
práticas sistemáticas.
9.2 Gestão por Resultados
O modelo cearense de colaboração
estado-município, com metas claras, acompanhamento sistemático e
responsabilização, prova que gestão educacional eficiente faz diferença mesmo
em contextos de recursos limitados.
9.3 Formação Docente
Qualificada
Professores bem preparados em
conteúdo e metodologia, bem como qualificação e retenção
de bons professores, são condição necessária e fazem a diferença.
9.4 Cultura de Excelência
Escolas que celebram conquistas
acadêmicas, mantêm expectativas altas e criam ambiente propício ao estudo
produzem resultados superiores, independentemente do contexto socioeconômico.
9.5 Meritocracia e Inclusão
não são Excludentes
Os Colégios Embraer reservam 80%
das vagas para estudantes de baixa renda da rede pública, mas mantêm processo
seletivo rigoroso. Escolas públicas nota 10 do interior do Ceará atendem
populações pobres, mas não abrem mão do rigor. Colégios militares e escolas cívi-militares possuem alunos de todas as classes sócio-econômicas. Meritocracia acadêmica bem
implementada identifica e desenvolve talentos onde quer que estejam.
9.6 Parcerias
Universidade-Indústria-Governo Funcionam
Os modelos Taurus-UNISINOS e
UFSM-Exército, com mestrados aplicados, pesquisa conjunta, formação continuada
e desenvolvimento de tecnologias nacionais, demonstram que a indústria de
defesa e as Forças Armadas podem participar ativamente da formação de seus
profissionais, acelerando a inovação e criando ciclos virtuosos de
conhecimento. A tríplice hélice (universidade-governo-indústria) se mostra
especialmente eficaz na área de defesa.
9.7 Formação Prática em
Projetos Reais
A experiência da UFSM mostra que
estudantes que participam de projetos reais de desenvolvimento tecnológico para
defesa adquirem não apenas conhecimento teórico, mas experiência prática
inestimável. Os aproximadamente 190 profissionais formados pelos projetos
UFSM-Exército representam massa crítica qualificada que beneficia todo o setor
tecnológico nacional.
10 PROPOSTAS DE ENFRENTAMENTO
10.1 Recuperação da Educação
Básica em Matemática
Não há atalho. A solução começa
na escola fundamental, com professores bem formados, currículos estruturados,
avaliações diagnósticas reais e intervenções pedagógicas efetivas. Políticas de
fluxo que empurram estudantes adiante sem domínio de conteúdo são incompatíveis
com a formação de uma força de trabalho técnica qualificada.
A matemática exige construção
sequencial: frações antes de equações, equações antes de funções, funções antes
do cálculo. Quando essa escada está quebrada em vários degraus, o estudante
tenta subir pulando etapas que nunca foram solidificadas. O resultado é o
colapso no ensino superior.
Os casos de sucesso dos colégios
militares e da Embraer, das escolas cívico-militares, e das escolas públicas de destaque do Nordeste e do interior mostram que é possível,
dentro do Brasil, oferecer educação básica de qualidade em matemática e
ciências exatas. O diferencial está no rigor acadêmico, na disciplina, na
seleção por mérito, na infraestrutura adequada e no corpo docente qualificado.
Esses elementos não são privilégios inatingíveis, mas escolhas institucionais
deliberadas.
10.2 Parcerias entre Indústria
de Defesa, Forças Armadas e Universidades
Os modelos Taurus-UNISINOS e
UFSM-Exército demonstram o caminho: empresas como Embraer Defesa, Avibras, Mac
Jee, Akaer e instituições como CTEx, IAE, além do próprio Exército Brasileiro,
Marinha e Força Aérea, precisam estabelecer programas estruturados de formação,
desde estágios até programas de pós-graduação aplicada. A indústria e as Forças
Armadas não podem apenas receber profissionais prontos; precisam participar
ativamente de sua formação.
A criação de mestrados e
doutorados voltados especificamente para as demandas da indústria de defesa,
como fizeram a Taurus em parceria com a UNISINOS e o Exército com a UFSM,
permite que colaboradores e estudantes desenvolvam soluções aplicadas a problemas
reais enquanto se qualificam academicamente. Esse modelo de educação continuada
beneficia simultaneamente o profissional, a instituição e o desenvolvimento
tecnológico nacional.
Parcerias para pesquisa e
desenvolvimento, como a estabelecida entre Taurus e UCS para aplicação de
grafeno em armamentos, ou entre UFSM e Exército para simulação militar,
exemplificam como universidades podem se tornar extensões dos centros de
pesquisa das empresas e das Forças Armadas, acelerando a inovação e formando
pesquisadores altamente especializados.
O investimento de mais de R$ 20
milhões do Exército na UFSM ao longo de uma década demonstra que essas
parcerias, quando bem estruturadas, geram retorno significativo em tecnologia
nacional, formação de recursos humanos e soberania tecnológica.
10.3 Replicação do Modelo
Embraer por Outras Empresas Estratégicas
A experiência dos Colégios
Embraer deveria inspirar outras empresas da Base Industrial de Defesa e
Segurança (BIDS). Empresas como Avibras, CBC (Companhia Brasileira de
Cartuchos), IMBEL (Indústria de Material Bélico do Brasil), Akaer, Mac Jee e EMGEPRON
(Empresa Gerencial de Projetos Navais) poderiam considerar iniciativas
semelhantes, criando escolas técnicas ou estabelecendo parcerias com
instituições de ensino médio para garantir um fluxo constante de estudantes com
formação sólida em ciências exatas.
O investimento é significativo,
mas o retorno em longo prazo compensa: profissionais formados desde cedo dentro
da cultura da empresa, com lealdade institucional, domínio técnico adequado e
compreensão das especificidades da indústria de defesa. A taxa de 84% de
aprovação em universidades de primeira linha dos egressos dos colégios Embraer
comprova a viabilidade do modelo.
10.4 Ampliação e
Fortalecimento do Sistema de Colégios Militares e de Escolas Cívico-Militares
O desempenho excepcional dos
colégios militares e de escolas cívico-militares em matemática e ciências
exatas não é acidental. Resulta de um conjunto de fatores: processo seletivo
rigoroso, infraestrutura adequada, corpo docente qualificado, disciplina, rigor
acadêmico e acompanhamento constante do rendimento dos estudantes.
O Brasil possui atualmente 15
colégios militares federais e um número crescente de escolas cívico-militares
estaduais. A ampliação estratégica desse sistema, especialmente em regiões onde
se concentram empresas e instituições de defesa (Vale do Paraíba em São Paulo,
região metropolitana do Rio de Janeiro, sul do país, eixo Brasília-Goiânia), poderia criar verdadeiros polos de
formação de futuros engenheiros e técnicos para a indústria de defesa. A região de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, não é citada, pois já dispõe de duas dessas escolas: Colégio Militar de Santa Maria e Colégio Tiradentes da Brigada Militar.
Dados da OBMEP 2024 e 2025 mostram que
os colégios militares conquistaram mais de 400 medalhas em cada edição, demonstrando não apenas competência, mas excelência sistemática no
ensino de matemática. Essa excelência se traduz em vantagens competitivas
reais: egressos que ingressam no IME, ITA, Politécnica da USP, Unicamp e outras
instituições de engenharia de primeira linha.
Importante destacar que 80% das
vagas dos colégios Embraer são destinadas a estudantes de baixa renda vindos da
rede pública, desmistificando a ideia de que educação de excelência em ciências
exatas seria privilégio exclusivo de classes mais favorecidas. O modelo dos
colégios militares também aceita estudantes independentemente da renda
familiar, mediante processo seletivo por mérito.
A questão central não é
elitização, mas meritocracia acadêmica combinada com investimento adequado.
Países como Coreia do Sul e Cingapura universalizaram educação de qualidade em
ciências exatas mantendo padrões rigorosíssimos. O Brasil pode e deve fazer o
mesmo. O Ceará, Alagoas e Pernambuco, com suas escolas públicas nota 10
localizadas em municípios pequenos e do interior, provam que isso é possível
dentro do contexto brasileiro.
10.5 Currículos de Engenharia
com Foco em Defesa
Algumas universidades brasileiras
poderiam desenvolver currículos específicos voltados para a indústria de
defesa, com ênfases em áreas críticas: aeroespacial militar, sistemas
embarcados de defesa, cibersegurança aplicada, propulsão avançada, balística computacional,
simulação militar. Isso já existe em países como Estados Unidos, França e
Rússia.
A parceria Taurus-UNISINOS criou,
dentro do curso de Engenharia de Produção, a disciplina "Sistema Taurus de
Produção", permitindo que futuros engenheiros adquiram conhecimento
tecnológico específico da produção de armas. A UFSM desenvolve expertise
singular em simulação militar e "serious games" aplicados à defesa.
Esses modelos poderiam ser replicados por outras universidades, criando
disciplinas, habilitações ou até cursos inteiros voltados para as
especificidades da indústria de defesa.
10.6 Expansão de Programas de
Iniciação Científica em Projetos de Defesa
O modelo da UFSM, com 15 alunos
de iniciação científica trabalhando em projetos reais de simulação militar,
deveria ser ampliado para outras universidades e áreas da defesa. Estudantes de
graduação que participam de projetos aplicados desenvolvem não apenas
conhecimento técnico, mas compreensão das necessidades estratégicas nacionais e
experiência prática inestimável.
Programas estruturados de
iniciação científica em parceria com empresas da BIDS e com as Forças Armadas
poderiam identificar e formar talentos desde cedo, criando um pipeline de
profissionais qualificados para a indústria de defesa.
10.7 Investimento em Centros
de Excelência
O Brasil precisa de centros de
pesquisa em defesa que sejam, simultaneamente, ambientes de formação de alto
nível. O modelo do Lincoln Laboratory (MIT), do DARPA nos EUA ou do Technion em
Israel mostra que é possível integrar pesquisa de ponta, formação de recursos
humanos e desenvolvimento tecnológico aplicado.
O Centro de Tecnologia da UFSM,
com sua experiência em simulação militar, representa um embrião desse tipo de
centro de excelência. Santa Maria já se consolidou como polo de tecnologia de
defesa. Outros polos poderiam ser desenvolvidos em regiões estratégicas,
concentrando expertise, recursos e talentos.
10.8 Programas de Bolsas e
Retenção de Talentos
Engenheiros e cientistas
altamente qualificados são disputados globalmente. O Brasil precisa criar
condições para que os melhores talentos permaneçam no país e atuem na indústria
de defesa nacional. Isso inclui bolsas robustas durante a formação, salários
competitivos após a graduação e ambientes de trabalho estimulantes
tecnicamente.
O caso da UFSM indica que
profissionais formados em projetos de defesa podem ser rapidamente absorvidos pelo
mercado, inclusive internacional. Programas de retenção de talentos, com
carreiras atrativas nas Forças Armadas, em empresas da BIDS e em centros de pesquisa,
são essenciais para manter no país a massa crítica de profissionais
qualificados.
11 CONSIDERAÇÕES FINAIS: O
SILÊNCIO QUE COMPROMETE A SOBERANIA
As lacunas matemáticas que chegam
silenciosamente à universidade brasileira representam, para a indústria de
defesa, um problema estrutural. Esse silêncio é ensurdecedor. Ele representa a
impossibilidade de formar, em quantidade e qualidade suficientes, os
engenheiros, físicos, matemáticos e técnicos necessários para sustentar uma
indústria de defesa competitiva e autônoma.
Enquanto outros países tratam a
educação em ciências exatas como questão de segurança nacional, o Brasil segue
improvisando, remendando e celebrando acessos sem profundidade. O resultado não
aparece nos índices de matrícula, mas nas limitações de projetos, nos atrasos
tecnológicos, na dependência externa e, em última instância, na fragilidade
estratégica.
O drama não é apenas pedagógico.
É econômico e civilizatório. Um país que forma engenheiros sem álgebra sólida,
professores sem domínio conceitual e profissionais que operam fórmulas sem
compreendê-las compromete sua própria capacidade de inovação, produtividade e
autonomia tecnológica.
Mas este estudo também revela uma
verdade fundamental: o Brasil sabe fazer educação de qualidade em ciências
exatas. Os colégios Embraer formam engenheiros de excelência. Os colégios
militares conquistam centenas de medalhas na OBMEP. Escolas públicas do
interior do Ceará, Alagoas e Pernambuco alcançam nota 10 no IDEB. Escolas
particulares brasileiras têm desempenho no PISA comparável aos melhores países
europeus. A parceria Taurus-UNISINOS mostra que universidade e indústria podem
formar profissionais altamente qualificados juntas. A parceria UFSM-Exército
demonstra que é possível desenvolver tecnologia 100% nacional de ponta e,
simultaneamente, formar a massa crítica de profissionais que o país necessita.
O problema não é falta de
conhecimento sobre como fazer, mas falta de vontade política de universalizar o
que já funciona. Enquanto ilhas de excelência prosperam, o sistema como um todo
naufraga, empurrando milhões de estudantes adiante sem domínio real do
conteúdo. É uma escolha, consciente ou não, de manter dois Brasis educacionais:
um que forma para a excelência, outro que aprova para o fluxo.
Para a indústria de defesa, essa
dualidade é insustentável. Não é possível construir soberania tecnológica e
autonomia estratégica com uma base educacional fraturada. Submarinos nucleares,
aeronaves de combate, sistemas de mísseis, guerra eletrônica, cibersegurança e
simulação militar exigem massa crítica de profissionais altamente qualificados.
Ilhas de excelência não bastam; é preciso um arquipélago, depois um continente.
Em matemática não se pode fingir que
aprendeu. E uma indústria de defesa não funciona com profissionais que apenas
fingiram dominar as bases técnicas que a sustentam. O Brasil precisa escolher:
continuar expandindo sem consolidar, mantendo a dualidade que condena a maioria
ao fracasso, ou replicar nacionalmente o que já funciona em suas ilhas de
excelência.
O modelo existe. As evidências
estão à vista. A tecnologia pedagógica está dominada. Os casos de sucesso estão
documentados e operando. Falta apenas a decisão política de tratá-los como
prioridade estratégica nacional — não apenas educacional, mas de segurança,
soberania e desenvolvimento.
O tempo dessa escolha, porém,
está se esgotando. Cada leva de estudantes que passa pelo sistema sem dominar
matemática é uma geração de engenheiros, cientistas e técnicos que o país não
terá. E sem eles, a indústria de defesa brasileira permanecerá eternamente
aquém de seu potencial. O caminho a ser seguido está mostrado. Resta ao Brasil a decisão de trilhá-lo em escala nacional.