Estatal aeroespacial da FAB acumula quatro MoUs
estratégicos na FIDAE 2026 e consolida papel inédito como intermediária
governamental para negócios G2G da Base Industrial de Defesa
*LRCA Defense Consulting - 17/04/2026
Em menos de um ano de existência, a Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil S.A. - ALADA já reescreveu seu próprio enredo. Criada em julho de 2025 com a missão de fortalecer o setor aeroespacial nacional e impulsionar o Programa Espacial Brasileiro, a estatal vinculada à Força Aérea Brasileira revelou, durante a FIDAE 2026, em Santiago, um segundo e igualmente estratégico propósito: tornar-se o principal instrumento do Estado brasileiro para viabilizar exportações de defesa no modelo governo a governo, o chamado G2G.
A revelação não foi discreta. Em plena Feira Internacional de Aeronáutica e Espaço do Chile, o Ministério da Defesa formalizou memorandos de entendimento com três de suas empresas vinculadas, a ALADA, a Empresa Gerencial de Projetos Navais (EMGEPRON) e a Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL), criando a base legal para que essas estatais atuem como intermediárias em negociações de defesa intergovernamentais. No mesmo evento, a ALADA assinou ainda um MoU próprio com a Embraer e outro com a AEL Sistemas, completando uma agenda de acordos que surpreendeu o setor pelo escopo e pela velocidade.
O nó jurídico que travava o Brasil
Para entender o significado dessa movimentação, é preciso compreender um
obstáculo histórico que até então tornava o Brasil uma exceção incômoda no
mercado global de defesa. A equipe jurídica do Ministério da Defesa entendia
que a legislação brasileira não permitia que o país fizesse a intermediação de
vendas de empresas privadas em contratos G2G; o modelo só podia ser usado em
negociações com estatais. O problema era que as estatais não produzem os
produtos necessários para atender à demanda internacional.
O resultado prático era que países que adotam o G2G como condição para adquirir equipamentos militares - prática comum na África, no Oriente Médio e em parte da América Latina - encontravam no Brasil uma porta fechada. Empresas como a Embraer, de capital aberto e natureza privada, simplesmente não se encaixavam num formato de contrato entre estados soberanos.
A solução encontrada foi criativa: uma estatal pode fechar um acordo de colaboração com a empresa privada para produtos específicos e atuar como sua representante durante as negociações. Os MoUs assinados na FIDAE 2026 institucionalizam exatamente essa estratégia. A ALADA, designada pelo Ministério da Defesa como entidade autorizada a conduzir esse tipo de contratação em nome do Estado, passa a ocupar o papel que faltava na arquitetura exportadora brasileira.
Embraer: o teste de maior visibilidade
O acordo de maior repercussão na FIDAE foi, sem dúvida, o MoU firmado entre
a ALADA e a Embraer. O foco é específico: contratos do tipo G2G, modalidade em
que o Estado brasileiro atua como interlocutor direto na negociação com países
compradores. O acordo chega num momento em que a Embraer busca ampliar sua
presença em mercados estratégicos na América Latina e na África.
Para Fabio Caparica, vice-presidente de Contratos da Embraer Defesa, o memorando abre uma opção que antes simplesmente não existia. Em sua avaliação, o acordo permitirá que países que exijam contratos entre governos acessem uma nova modalidade de negociação para adquirir produtos e soluções da empresa. Os principais equipamentos em foco são o KC-390 Millennium, cargueiro tático considerado o mais moderno de sua classe, e o A-29 Super Tucano, líder global em missões de ataque leve e treinamento avançado.
Além de destravar mercados antes inacessíveis, o modelo G2G oferece à Embraer um argumento menos óbvio, mas igualmente relevante: credibilidade política junto a clientes que tradicionalmente desconfiam de fornecedores puramente comerciais em contratos de defesa. Ao transitar por uma entidade oficial como a ALADA, o KC-390 e o Super Tucano deixam de ser apenas produtos de uma empresa privada brasileira e passam a carregar, ao menos formalmente, o endosso institucional do governo federal.
AEL Sistemas: tecnologia de ponta no circuito G2G
A parceria com a AEL Sistemas, subsidiária israelense-brasileira, amplia o
alcance da iniciativa para o segmento de sistemas eletrônicos de defesa. A
iniciativa reforça o papel da ALADA como articuladora de oportunidades para a
Base Industrial de Defesa, especialmente em negociações que envolvem contratos
diretos entre governos.
O presidente da ALADA, Sergio Roberto de Almeida, destacou o potencial competitivo embutido no acordo. Para ele, a parceria evidencia a qualidade tecnológica de produtos como o WAD, utilizado no caça Gripen, e o Link-BR2, que demonstram o potencial competitivo do Brasil no cenário internacional. Já Samir Mustafá, diretor de Desenvolvimento de Negócios da AEL, ressaltou que o memorando abre espaço para negociações G2G que fortalecem a cooperação institucional e as relações estratégicas do Brasil com parceiros internacionais.
Uma nova arquitetura para as exportações brasileiras de
defesa
O secretário de Produtos de Defesa, Heraldo Luiz Rodrigues, coordenou os
acordos e foi enfático ao defender a iniciativa. Para ele, operações dessa
natureza são fundamentais para estimular e fortalecer a exportação de produtos
fabricados no Brasil, conferindo credibilidade institucional às negociações e
ampliando o acesso a novos mercados. O secretário destaca que as empresas
brasileiras possuem capacidade instalada expressiva e produtos com
reconhecimento mundial de alta qualidade, o que favorece o crescimento das
vendas externas.
Os números do setor sustentam o otimismo. O Brasil mais do que dobrou suas exportações de produtos de defesa no primeiro trimestre de 2026: saltaram de US$ 457 milhões no mesmo período de 2025 para US$ 931 milhões. O resultado mantém uma trajetória de crescimento que já havia registrado recordes consecutivos em 2024 e 2025, com Alemanha, Bulgária, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos e Portugal entre os principais destinos.
Das estrelas ao mercado global: a dupla vocação da ALADA
Esse novo papel estratégico não apaga a missão original da empresa.
Concebida como um catalisador do Programa Espacial Brasileiro, a estatal tem
por missão fortalecer a indústria aeroespacial nacional, maximizar o potencial
estratégico do país no setor e promover a autossuficiência em materiais
aeronáuticos e espaciais, reduzindo a dependência de fornecedores estrangeiros
em tecnologias sensíveis.
Já no segundo semestre de 2025, a ALADA demonstrava essa vocação dupla. Em setembro daquele ano, a empresa promoveu encontros com representantes das Embaixadas dos Estados Unidos e da Alemanha, discutindo as potencialidades dos centros de lançamento da Força Aérea Brasileira, especialmente o Centro Espacial de Alcântara, e buscando ampliar a cooperação técnica e identificar novas oportunidades de negócios.
A síntese dessa trajetória foi expressa pelo próprio presidente da ALADA ao discursar na cerimônia de ativação da empresa, em julho de 2025: para ele, a ALADA não é apenas uma empresa, mas um instrumento de transformação nacional, a materialização do sonho brasileiro de alçar voos cada vez mais altos, literal e figurativamente.
ALADA integra o SIMDES e reforça presença na Base Industrial de Defesa
A consolidação da ALADA como peça central da estratégia de defesa brasileira ganhou um novo capítulo durante a LAAD 2026, um dos principais eventos do setor na América Latina: a estatal aeroespacial formalizou sua entrada no SIMDES - Sindicato Nacional das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança, passando a integrar oficialmente o ecossistema da Base Industrial de Defesa.
A adesão vai além do simbolismo institucional. Ao ingressar no SIMDES, a ALADA passa a participar de fóruns estratégicos, comitês temáticos e iniciativas voltadas ao desenvolvimento tecnológico, à cooperação setorial e à competitividade da indústria nacional, espaços onde política industrial e agenda exportadora se constroem coletivamente. Para uma empresa que acumula MoUs com Embraer, AEL Sistemas, EMGEPRON e IMBEL e que foi designada pelo Ministério da Defesa como intermediária oficial em contratos G2G, essa inserção amplia consideravelmente sua capacidade de articulação com o setor privado.
O ingresso também sinaliza convergência de agendas. O SIMDES apresentou, durante o encontro, seu Planejamento Estratégico 2026–2030, estruturado em três eixos: Inovar, Escalar e Exportar, que orientam a atuação da entidade na construção de uma base industrial mais robusta e integrada. O alinhamento com a missão da ALADA é direto: a estatal nasceu, justamente, para ser o elo entre inovação aeroespacial, projetos estratégicos e mercado internacional.
Com menos de um ano de existência, a ALADA já acumula uma agenda que poucos esperavam para uma empresa tão jovem: acordos com gigantes da indústria de defesa, credenciamento para negociações G2G e, agora, assento formal no principal fórum sindical da Base Industrial de Defesa brasileira. O movimento consolida sua posição não apenas como executora de projetos aeroespaciais, mas como articuladora de um ecossistema que o Brasil precisava construir há décadas.
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| Formalização da adesão ao SIMDES |
Os desafios do caminho
Analistas do setor, contudo, advertem que a assinatura de memorandos de
entendimento é apenas o ponto de partida. Um MoU é, por definição, uma
declaração de intenções, não um contrato. O impacto real sobre as receitas e o
portfólio de exportações só se materializará se a ALADA conseguir conduzir
operações G2G concretas até o fechamento de negócios efetivos.
O principal risco apontado é burocrático: se a estatal introduzir etapas adicionais de aprovação sem contrapartida em agilidade ou financiamento soberano, pode acabar funcionando como mais uma camada de processo num setor onde a velocidade de negociação frequentemente é fator decisivo. Concorrentes como Estados Unidos, França e Itália já operam há décadas com estruturas G2G consolidadas, que combinam financiamento governamental, garantias políticas e suporte logístico de longo prazo. O acordo Embraer-ALADA é uma primeira resposta estruturada do Brasil a essa realidade.
Se a ALADA conseguir converter seus MoUs em contratos efetivos com parceiros africanos e latino-americanos, o Brasil terá dado um salto qualitativo na sua estratégia de inserção no mercado global de defesa. A Base Industrial de Defesa brasileira reúne 283 empresas e 2.064 produtos cadastrados no Ministério da Defesa, incluindo aeronaves, embarcações, soluções cibernéticas, radares, sistemas de comunicação e armamento. Todo esse portfólio agora tem, pela primeira vez, uma vitrine institucional estruturada para alcançar governos que antes o Brasil simplesmente não conseguia alcançar.
O mercado e os ministérios de defesa, de Nairóbi a Bogotá, estarão de olho.






