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01 setembro, 2026

Portugal autoriza assinatura de MoU com a Grécia sobre o KC-390, e CEO da Embraer confirma negociação

Despacho publicado no Diário da República em 26 de agosto habilita o diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa português a formalizar a parceria estratégica bilateral; Francisco Gomes Neto citou a Grécia no earnings call de agosto, mas com cautela que sinaliza contrato ainda não fechado


*LRCA Defense Consulting - 01/09/2026

Dois documentos tornados públicos nas últimas semanas permitem, pela primeira vez, fixar com precisão em que ponto se encontra o processo de aquisição dos três KC-390 pela Grécia: iminente, mas não concluído. O primeiro é um despacho do Ministério da Defesa de Portugal publicado no Diário da República em 26 de agosto de 2026, autorizando formalmente o diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa a assinar um Memorando de Entendimento com o homólogo grego sobre uma "parceria estratégica relativa à capacidade de transporte aéreo militar". O segundo é a transcrição do earnings call do segundo trimestre da Embraer, realizado em 10 de agosto, em que o CEO Francisco Gomes Neto mencionou a Grécia no contexto de suas campanhas de defesa em andamento, com uma escolha de palavras que merece atenção cuidadosa.

Tomados em conjunto, os dois documentos redesenham o mapa do processo: Portugal está juridicamente pronto para assinar; a Embraer acompanha a negociação, mas ainda não a contabiliza como contrato; e a janela de assinatura mais provável é a primeira quinzena de setembro de 2026.

O despacho português: o lado Lisboa está pronto
O Diário da República é o diário oficial de Portugal, e um despacho ministerial publicado nele tem força de ato administrativo vinculante. O documento de 26 de agosto aprova a minuta de um Memorando de Entendimento entre os ministérios da Defesa de Portugal e da Grécia e autoriza o diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa a assiná-lo. O texto menciona explicitamente o interesse grego na aquisição de aeronaves KC-390 no âmbito da parceria estratégica bilateral.

DIÁRIO DA REPÚBLICA — DESPACHO DE 26/08/2026 (síntese)

Ato: Despacho ministerial, Ministério da Defesa Nacional de Portugal

Objeto: Aprovação da minuta de Memorando de Entendimento entre os Ministérios da

   Defesa de Portugal e da Grécia

Matéria: "Parceria estratégica relativa à capacidade de transporte aéreo militar"

Referência ao KC-390: explícita no texto do despacho

Autorização: diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa fica habilitado a assinar

Publicação: Diário da República, 26 de agosto de 2026

O significado prático é preciso: o lado português está juridicamente habilitado para assinar. A publicação no Diário da República não é uma formalidade interna, é o ato que confere ao signatário a competência legal para vincular o Estado português. Sem esse despacho, o MoU não poderia ser assinado por representante do governo de Lisboa. Com ele publicado, a única etapa que resta é a marcação da data e do local da cerimônia, mais a concordância do lado grego que, como demonstrado pela aprovação do KYSEA em 23 de julho, já completou seu próprio ciclo de autorizações institucionais.

A arquitetura jurídica do negócio é composta por duas camadas. O MoU intergovernamental Portugal-Grécia estabelece o quadro da parceria estratégica e os termos da transferência dos slots de produção que Portugal reservou na linha de montagem da Embraer em São José dos Campos. O contrato de aquisição propriamente dito, os EUR 597,5 milhões aprovados pelo Parlamento heleno em junho e referendados pelo KYSEA em julho, pode ser assinado no mesmo ato ou em momento imediatamente posterior. Em outros programas com estrutura semelhante, como o MoU de MRO entre a Embraer e a Hellenic Aerospace Industry (HAI) em maio de 2026, o instrumento preparatório e o ato principal foram separados por dias, não meses.

O earnings call: Gomes Neto confirma, mas escolhe as palavras
Na teleconferência de resultados do segundo trimestre, realizada em 10 de agosto, dezesseis dias antes do despacho português, o CEO Francisco Gomes Neto foi questionado pelo analista Ron Epstein, do Bank of America, sobre o impacto da situação geopolítica nas campanhas de defesa da Embraer. A resposta citou a Grécia, mas em termos que diferem significativamente do que foi dito sobre a Colômbia.


EMBRAER — EARNINGS CALL Q2 2026 (10/08/2026) — TRANSCRIÇÃO PARCIAL

"You saw the recent announcement after the UAE, we announced Colombia recently.

 You saw Greece also mentioning a potential deal through Portugal of KC-390.

 We are working on other campaigns as well that I cannot disclose at this point."

— Francisco Gomes Neto, presidente e CEO da Embraer

   Resposta ao analista Ron Epstein (Bank of America)

 
A distinção lexical é o elemento analítico central. A Colômbia foi apresentada como "newest KC-390 customer" (cliente confirmado), contrato assinado em 4 de agosto, anunciado no próprio call. A Grécia foi descrita como "mentioning a potential deal through Portugal" (um negócio potencial), ainda em discussão, não um cliente. A Embraer tem histórico consistente de precisão terminológica neste ponto: só anuncia um país como cliente quando o contrato está assinado. A linguagem de Gomes Neto em 10 de agosto era, portanto, uma confirmação de que o processo grego estava avançado, mas incompleto.

O despacho do Diário da República, publicado dezesseis dias depois, resolve a equação do lado português. Se na data do call o processo ainda estava em negociação, a publicação da autorização de assinatura pelo governo de Lisboa indica que as conversações evoluíram rapidamente para a etapa final. O padrão é coerente com o que o Army Recognition descreveu em 26 de julho: "acordo esperado para ser assinado no outono de 2026, com setembro como possível data-alvo".

Por que setembro e não outubro
Há três razões concretas para que setembro seja o prazo real, e não apenas o desejável. A primeira é a pressão dos slots de produção: a Grécia assumirá três posições previamente reservadas por Portugal na linha de Gavião Peixoto. Esses slots têm janelas temporais associadas ao cronograma de produção da Embraer, e a linha está crescentemente pressionada pela carteira de pedidos acumulada: Emirados Árabes Unidos (20 aeronaves, maio de 2026), Colômbia (2, agosto de 2026), Eslováquia (em negociação final) e potencialmente outros clientes não divulgados que Gomes Neto mencionou no mesmo call. Cada mês de atraso na formalização aumenta o risco de conflito de slots.

A segunda razão é o cronograma de entrega: a Grécia precisa receber a primeira aeronave em 2027. Para isso, o contrato precisa estar assinado com margem suficiente para que a Embraer complete os processos de aceitação, configuração e transferência. Fontes do setor estimam que o prazo mínimo entre assinatura e primeira entrega, neste tipo de contrato com slots pré-reservados, é de doze a dezoito meses. Um contrato assinado em setembro de 2026 deixa exatamente doze a quinze meses para a entrega de 2027, uma margem ajustada, mas viável.

A terceira razão é política: o governo Mitsotakis tem interesse em fechar o maior programa de defesa da história moderna da Grécia antes do fim do terceiro trimestre de 2026. O Escudo de Aquiles foi assinado em Tel Aviv em 31 de agosto. A narrativa de um "setembro de contratos", com o KC-390 seguindo imediatamente o sistema antiaéreo israelense, é um ativo político de primeira grandeza para um governo que fez da modernização das Forças Armadas um dos pilares de sua agenda.

O que ainda falta para o contrato ser assinado
O despacho português de 26 de agosto autoriza a assinatura do MoU intergovernamental, não do contrato de aquisição em si. A sequência mais provável é: MoU Portugal-Grécia assinado em data próxima, formalizando a parceria estratégica e a transferência de slots; em seguida, ou no mesmo ato, o contrato de compra e venda entre as partes, no valor de EUR 597,5 milhões aprovado pelas instituições gregas.

Do lado grego, todos os obstáculos institucionais foram superados: aprovação parlamentar (10 de junho), aprovação do KYSEA (23 de julho), negociações técnicas com Portugal conduzidas pela Diretoria-Geral de Investimentos e Armamentos de Defesa (GDDIA). Do lado português, o despacho de 26 de agosto fecha o ciclo de autorizações. Do lado da Embraer, a empresa acompanha e viabiliza tecnicamente a transferência de slots, sem ser a parte signatária do acordo governo a governo.

O único elemento de incerteza remanescente é a data exata e o local da cerimônia, Lisboa, Atenas ou outro ponto, que não foi anunciado por nenhum dos dois governos até o momento de publicação desta matéria. Mas os instrumentos jurídicos estão prontos. A caneta está sobre a mesa.

CRONOLOGIA: DOS ESTUDOS AO MoU

Fev. 2026

Delegação da Força Aérea Helênica avalia o KC-390 em operação em Beja, Portugal

22 mai. 2026

MoU Embraer / HAI para capacidade de MRO na Grécia — primeiro sinal público de decisão tomada

10 jun. 2026

Parlamento heleno aprova o programa: EUR 597,5 milhões, 3 aeronaves via Portugal

23 jul. 2026

KYSEA referenda os contratos — ciclo institucional grego encerrado

31 jul. 2026

Army Recognition: "setembro como possível data-alvo" para assinatura do acordo com Portugal

10 ago. 2026

Earnings call Embraer Q2: CEO cita Grécia como "potential deal through Portugal" — não como cliente confirmado

26 ago. 2026

Diário da República (Portugal) publica despacho autorizando assinatura do MoU com a Grécia sobre KC-390

31 ago. 2026

Escudo de Aquiles assinado em Tel Aviv — programa paralelo, distinto do KC-390

Set. 2026*

Assinatura do MoU Portugal-Grécia e do contrato de aquisição do KC-390 (data não anunciada)

2027

Previsão de entrega da 1ª aeronave à Força Aérea Helênica

2030

Conclusão das entregas das 3 aeronaves

(*) Linhas em verde: eventos confirmados por ato oficial. Setembro: projeção baseada em documentos primários.

Fontes: Diário da República de Portugal — Despacho 10563/2026 (26/08/2026) | Embraer Q2 2026 Earnings Call Transcript (Motley Fool / Globe and Mail, 10/08/2026) | Army Recognition (26/07/2026) | LRCA Defense Consulting

 

Centauro II: Exército assina primeiro lote e dá início à renovação da Cavalaria mecanizada

Contrato assinado em Brasília prevê a entrega inicial de sete viaturas 8x8 armadas com canhão de 120 mm, dentro de um programa que pode chegar a 221 unidades e substituirá o veterano Cascavel



*LRCA Defense Consulting - 01/09/2026

O Exército Brasileiro assinou, na segunda-feira, 31 de agosto, no Quartel-General do Exército (QGEx), o Forte Caxias, em Brasília, o contrato para a aquisição do primeiro lote da Viatura Blindada de Combate de Cavalaria (VBC Cav) Centauro II BR. A solenidade, realizada no Salão de Honra do Comando Logístico, marca a entrada em vigor do Lote de Experimentação Doutrinária (LED) do programa, etapa que abre caminho para a renovação da frota de blindados sobre rodas da Cavalaria mecanizada.

O documento foi firmado pelo comandante logístico do Exército, general de exército Maurílio Miranda Netto Ribeiro, e por Giovanni Luisi, vice-presidente sênior de Marketing e Vendas do Consórcio IDV–OTO Melara (CIO), empresa do grupo italiano Leonardo. Acompanharam o ato o comandante do Exército, general de exército Tomás Ribeiro Paiva, além dos generais de exército responsáveis pelas áreas de economia e finanças, ciência e tecnologia e pessoal da Força.

O LED prevê, de início, sete viaturas, retiradas do total de 98 unidades definidas na concorrência internacional encerrada em 2022, contrato que ainda contempla a possibilidade de ampliação para até 221 blindados, conforme a disponibilidade orçamentária e as necessidades operacionais do Exército. A aquisição será executada por meio de pedidos anuais, com entregas mínimas de sete unidades por ano. As primeiras viaturas do novo lote devem chegar ao Brasil até o início de 2028, segundo o cronograma informado pelo Exército.

Um marco para a Cavalaria 
Desenvolvido pelo Consórcio IDV–OTO Melara, o Centauro II é uma viatura blindada 8x8, equipada com a torre HITFACT MkII e o canhão OTO Melara 120/45, de 120 mm e alma lisa. O veículo é apresentado pelo Exército e pelo fabricante como o mais poderoso blindado de combate sobre rodas em operação na América Latina, reunindo poder de fogo, sensores digitais e sistema de controle de tiro compatíveis com o padrão das principais forças blindadas do mundo.

A viatura vai substituir o EE-9 Cascavel, em serviço desde a década de 1970, e chega para equipar, no primeiro momento, o 6º Esquadrão de Cavalaria, em Santa Maria (RS), e o 3º Esquadrão de Cavalaria Mecanizado, em Brasília, unidade que também tem a missão de atuar como força de ação rápida, com possibilidade de emprego em outras regiões do País, inclusive nas fronteiras da Região Norte.

O contrato também marca o retorno da Leonardo ao Brasil em um grande programa estratégico de defesa, cerca de 40 anos depois da parceria bilateral que resultou no projeto do caça AMX, desenvolvido em conjunto por Brasil e Itália.

Sete unidades dentro de um programa maior 
O contrato assinado nesta segunda-feira não corresponde à entrega imediata das 98 viaturas inicialmente previstas, mas ao primeiro lote de experimentação, de sete unidades, que servirá para testar, adaptar e validar táticas, técnicas e procedimentos de emprego do novo blindado na realidade brasileira antes da produção em maior escala. O valor total do programa, batizado de Projeto Forças Blindadas, já havia sido estimado, em 2022, em cerca de € 900 milhões para as 98 unidades iniciais, cifra sujeita a atualização em função da inflação, da taxa de câmbio e do escopo final acordado nesta nova fase contratual.

O caminho até a assinatura de agora não foi livre de percalços. Em dezembro de 2022, a compra chegou a ser suspensa por decisão liminar do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em ação que questionava o processo de licitação. A liminar foi derrubada dias depois pela presidência do Superior Tribunal de Justiça, sob o argumento de que a aquisição integrava uma política de defesa de longo prazo e que a suspensão poderia causar prejuízo à capacidade de defesa nacional. Naquele mesmo mês, o Exército assinou um contrato inicial, o chamado Lote Protótipo, de duas viaturas, que chegaram ao País em agosto e setembro de 2024 para testes de certificação. 


Transferência de tecnologia e Base Industrial de Defesa 
Assim como em outros grandes programas de reaparelhamento da Força Terrestre, o Centauro II BR está condicionado a acordos de compensação tecnológica (offset) e à nacionalização progressiva de componentes. O pacote de transferência de tecnologia previsto para o programa inclui o conhecimento de fabricação de munições de 120 mm — nos tipos perfurante (APFSDS), de alto explosivo (HE) e programável —, além de sistemas de controle de tiro, eletrônica embarcada, sensores óticos e de pontaria. A expectativa do setor é que a nacionalização alcance parcela relevante dos componentes ao longo dos próximos lotes de produção, o que tende a repercutir também em outras aquisições futuras da Força Terrestre, como a nova família de viaturas sobre lagartas.

Em publicação nas redes sociais, o major Marcelo Deotti, que integrou o Programa Forças Blindadas como assessor do projeto, descreveu a assinatura do contrato como um divisor de águas estratégico, tecnológico e industrial para o Brasil, destacando quatro frentes de impacto: o ganho de capacidade operacional da Cavalaria mecanizada, a validação de novas táticas e procedimentos por meio do lote de experimentação, o fortalecimento da Base Industrial de Defesa por meio dos acordos de offset e a modernização da cadeia de comando, controle e logística do Exército. Deotti relatou ainda ter participado da avaliação técnica do veículo na Itália, onde teria sido o primeiro militar brasileiro a realizar um disparo com o canhão de 120 mm da torre HITFACT.

Segundo o Consórcio IDV–OTO Melara, a conquista do contrato brasileiro resultou de um processo de concorrência internacional de alto nível, conduzido pelo Exército com rigor técnico ao longo de vários anos, desde a primeira consulta pública ao mercado, realizada entre março e maio de 2021, quando 55 empresas demonstraram interesse e chegaram a ser ofertados 28 modelos distintos de viatura.

31 agosto, 2026

Gripen F, versão biposto do caça sueco, realiza seu primeiro voo na Suécia com piloto brasileiro a bordo

Aeronave decolou de Linköping e permaneceu 40 minutos no ar; caça de dois lugares é fruto da parceria entre Brasil e Suécia e será operado pelo 1º Grupo de Defesa Aérea, em Anápolis



*LRCA Defense Consulting - 31/08/2026

O caça Gripen F, variante biposto do Gripen E, realizou nesta sexta-feira (28) seu primeiro voo, decolando às 9h40 no horário local (4h40 em Brasília) do aeródromo da Saab em Linköping, na Suécia. A aeronave permaneceu no ar por 40 minutos, em missão que verificou o funcionamento dos sistemas principais e o desempenho inicial de voo.

O voo foi conduzido pelo piloto-chefe de testes da Saab, Jakob Högberg, e pelo tenente-coronel aviador Abdon de Rezende Vasconcelos, piloto de testes da Força Aérea Brasileira (FAB). A presença de um piloto brasileiro no comando compartilhado da missão inaugural reforça o caráter binacional do programa, que tem o Brasil como cliente lançador da versão de dois lugares.

Designado F-39F na nomenclatura da FAB, o Gripen F é destinado ao 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), sediado na Base Aérea de Anápolis (BAAN), para onde a primeira unidade deve seguir em 2027, segundo informações veiculadas por veículos especializados em defesa. Com o primeiro voo, a aeronave entra oficialmente na fase aérea de sua campanha de testes, conduzida pelo Centro de Ensaios em Voo da Saab, na Suécia.

Segundo a Saab, a etapa seguinte será a expansão progressiva do envelope de voo, quando serão validados gradualmente parâmetros como velocidade, altitude, fator de carga (carga G) e ângulo de ataque. Em paralelo, serão avaliadas as capacidades táticas e as funções específicas do cockpit traseiro, elemento que diferencia o Gripen F da versão monoposto.

“Esse primeiro voo representa um passo importante tanto para a Saab quanto para a Força Aérea Brasileira. Ver o Gripen F decolar é particularmente significativo para todas as equipes suecas e brasileiras cujos anos de trabalho de engenharia ajudaram a transformar esta aeronave em realidade. Ela é projetada para acelerar o treinamento de pilotos, ao mesmo tempo em que aprimora o desempenho operacional em missões de combate avançadas”, afirmou Lars Tossman, chefe da área de negócios Aeronautics da Saab. 


O desenvolvimento do Gripen F resulta da parceria estratégica entre Brasil e Suécia e da ampla transferência de tecnologia realizada no âmbito do Programa Gripen Brasileiro, que já capacitou mais de 350 engenheiros, técnicos e pilotos brasileiros em atividades ligadas ao desenvolvimento, à produção, aos ensaios em voo e à manutenção da aeronave. Como cliente lançador, o País teve papel ativo no codesenvolvimento da variante de dois lugares, o que garantiu participação industrial direta e cooperação de longo prazo.

O programa F-39 Gripen foi firmado em 2014 e prevê a aquisição de 36 aeronaves pela FAB, sendo 28 monoposto (Gripen E) e oito biposto (Gripen F), em contrato avaliado em aproximadamente US$ 4,5 bilhões. As entregas começaram em 2020 e devem se estender até 2032, com parte da produção realizada na planta da Embraer em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo. Atualmente, o Brasil já opera dez unidades do Gripen E, que equipam o 1º GDA.

O primeiro Gripen F havia sido apresentado ao mundo em cerimônia de roll out realizada em junho, também em Linköping, com a presença do então ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, e do comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Marcelo Kanitz Damasceno. Concluída a campanha de testes e os procedimentos de aceitação, a aeronave será preparada para entrega à Força Aérea Brasileira.

Será que chegamos ao limite da incompetência?

Declaração surpreendente e sincera do Ministro da Defesa expõe uma vulnerabilidade construída ao longo de décadas, enquanto o Brasil adia decisões estratégicas e assiste à erosão de sua capacidade de dissuasão



*
Luiz Alberto Cureau Jr. - 31/08/2026

A declaração do ministro da Defesa de que, em um cenário hipotético de confronto com os Estados Unidos, “teríamos que abrir o portão, porque não temos equipamento para enfrentá-los nem dinheiro para consertar o portão”, talvez tenha sido a mais sincera e preocupante admissão já feita por uma autoridade brasileira sobre o estado da nossa capacidade de defesa.

O problema não é reconhecer que existe uma enorme diferença de poder militar entre Brasil e Estados Unidos. Isso é evidente. O que causa perplexidade é a naturalidade com que o país parece aceitar a própria vulnerabilidade, como se ela fosse inevitável e até aceitável. 

O Brasil vem aceitando, há décadas, um lento processo de erosão de sua capacidade de defesa, quer por pura incompetência ou por revanchismo burro.

Nenhuma nação responsável estrutura suas Forças Armadas para derrotar uma superpotência até porque creio que deveríamos ser uma. O objetivo é outro, desenvolver capacidade de dissuasão suficiente para tornar qualquer pressão militar, econômica ou estratégica inconveniente. Países respeitados não são aqueles que procuram guerras, mas aqueles que convencem seus adversários de que elas não compensam.

Enquanto grande parte do mundo amplia investimentos em defesa, indústria, tecnologia, inteligência artificial e segurança cibernética, o Brasil continua adiando decisões estratégicas. Perdemos tempo discutindo se investir em defesa é prioridade, quando a verdadeira pergunta deveria ser, quanto custará não investir?

O cenário internacional tornou-se mais competitivo. Disputam-se minerais críticos, rotas marítimas, energia, alimentos, água e domínio tecnológico. O Brasil reúne praticamente todos esses ativos em abundância. Ainda assim, insiste em acreditar que sua riqueza, por si só, será suficiente para garantir respeito internacional. Não será, podem acreditar!

A história demonstra que riquezas atraem interesses, e interesses nem sempre são defendidos pela diplomacia. A diplomacia ganha força quando está apoiada por credibilidade nacional, capacidade tecnológica e uma estrutura de defesa compatível com o tamanho e a importância do país.

Talvez a fala do ministro tenha produzido um efeito positivo: obrigar a sociedade a olhar para um problema que deixou de ser militar e passou a ser estratégico. A questão já não é quanto o Brasil gasta com defesa, mas quanto tempo ainda suportará conviver com uma capacidade de dissuasão cada vez menor diante de um mundo cada vez mais imprevisível.

A maior ameaça não é a possibilidade de uma invasão hipotética. É continuarmos acreditando que vulnerabilidades históricas se resolvem com discursos, enquanto outros países planejam décadas à frente. A incompetência de uma nação não está em reconhecer suas fraquezas, mas em conhecê-las, discuti-las há décadas e, mesmo assim, não fazer absolutamente nada para corrigi-las.


*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 (Veterano) do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do 19º Batalhão de Infantaria Motorizado, comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Brigada de Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor de Defesa e Clima na Segura. 

30 agosto, 2026

Contrato do Embraer C-390 entre Grécia e Portugal pode ser assinado em setembro, na esteira do Escudo de Aquiles

Com o acordo israelense marcado para 31 de agosto em Tel Aviv, o governo Mitsotakis tem razões políticas e operacionais para fechar também o acordo com Lisboa no início de setembro; Diretoria de Armamentos grega negocia ativamente com a contraparte portuguesa, segundo fontes especializadas



*LRCA Defense Consulting - 30/08/2026

A Grécia assina nesta segunda-feira, 31 de agosto, no Ministério da Defesa israelense em Tel Aviv, os contratos do Escudo de Aquiles, o sistema antiaéreo multicamadas avaliado em EUR 3,1 bilhões que combina sistemas da Rafael e da Israel Aerospace Industries (IAI). O ato encerra o ciclo formal do maior programa de aquisição de defesa da história moderna do País. O que ainda aguarda assinatura é o contrato dos três C-390 Millennium da Embraer, que tramita em pista separada, com Lisboa, e tudo indica que essa assinatura possa ocorrer em setembro, possivelmente dias após a cerimônia israelense.

As informações disponíveis na imprensa especializada internacional convergem para esse cenário. O portal Army Recognition, em análise publicada em 26 de julho, indicou que o acordo governo a governo com Portugal está previsto para o outono de 2026, "com setembro como possível data-alvo". A FlightGlobal estimou que o contrato todo estaria concluído até junho de 2027, o que é compatível com a entrega do primeiro C-390 em 2027. Nenhuma das duas publicações fixou uma data específica, mas o mosaico de informações levanta uma pergunta central: haveria razões concretas para que o governo grego acelerasse a assinatura do C-390 para a primeira ou segunda semana de setembro?

Por que setembro faz sentido 
A primeira razão é política. A assinatura do Escudo de Aquiles em Tel Aviv cria um momento de alta visibilidade para o programa de modernização das Forças Armadas gregas. O primeiro-ministro Mitsotakis e o ministro Dendias têm interesse em sustentar esse momentum, e fechar o contrato do C-390 logo em seguida, enquanto a atenção da imprensa ainda está concentrada nos programas de defesa gregos, seria um reforço natural da narrativa de que a Grécia está executando, e não apenas anunciando, sua agenda de rearmamento.

A segunda razão é operacional. A Grécia vai assumir três posições de produção previamente reservadas por Portugal na linha de montagem da Embraer em São José dos Campos. Esses slots têm prazo: se não forem transferidos formalmente dentro de uma janela definida pelo contrato português, podem ser realocados a outros clientes. A Embraer tem uma fila crescente de pedidos: Emirados Árabes Unidos (20 aeronaves em maio de 2026), Eslováquia (em negociação final) e eventualmente a Turquia no horizonte. A pressão do tempo existe e favorece a conclusão rápida.

A terceira razão é procedimental. O ciclo de aprovações institucionais gregos está completo: o Parlamento aprovou o programa em 10 de junho, o KYSEA referendou os contratos em 23 de julho. A Diretoria-Geral de Investimentos e Armamentos de Defesa (GDDIA) da Grécia está conduzindo as negociações com a contraparte portuguesa, segundo o Army Recognition. Não há mais nenhum obstáculo político interno; o que resta é apenas a conclusão técnica e jurídica de um acordo cujos termos financeiros (EUR 597,5 milhões, com custo unitário de EUR 157,9 milhões) já foram publicamente detalhados.

Por que os dois contratos são independentes 

É preciso ser claro sobre o que não acontece em Tel Aviv nesta semana: a assinatura do Escudo de Aquiles não arrasta o C-390. Os dois programas envolvem partes completamente distintas. O acordo israelense é firmado entre a GDDIA grega e a SIBAT, a Diretoria de Cooperação Internacional de Defesa do Ministério da Defesa de Israel, com a participação de Rafael e IAI. O acordo do C-390 é firmado entre a GDDIA grega e as autoridades de defesa portuguesas, com a Embraer como fabricante. Portugal não tem assento na cerimônia de Tel Aviv, assim como Israel não tem papel no acordo com Lisboa.

O mecanismo usado para o C-390 é o das opções de compra transferíveis que Portugal incluiu no aditivo de setembro de 2025 ao seu contrato original com a Embraer. Esse instrumento permite que Portugal ceda a nações parceiras da OTAN até dez opções de compra de aeronaves. A Grécia exercerá três dessas opções, o que juridicamente significa que a assinatura ocorre entre a autoridade de defesa portuguesa e a grega, com a Embraer como parte técnica do acordo, não como signatária direta do ato de governo a governo.

O que diz a imprensa especializada 

A cobertura da imprensa internacional sobre este ponto específico, a data de assinatura do contrato C-390, é escassa, mas o que existe aponta consistentemente para setembro. O Army Recognition é a fonte mais explícita, citando setembro como "possível data-alvo". O Air Data News, em 26 de julho, registrou que "se o contrato for assinado, a Grécia se tornará mais um operador europeu do C-390", sem fixar data. O Overt Defense, em 29 de julho, informou que "um contrato final ainda não havia sido assinado", o que confirma que a assinatura estava pendente mesmo após a aprovação do KYSEA. O Greek City Times, em sua cobertura de 23 de julho, registrou que a primeira entrega está prevista para 2027, o que implica contrato assinado no máximo até o final de 2026, com margem exígua.

Nenhuma das fontes consultadas indica que há obstáculos conhecidos nas negociações com Portugal. As questões técnicas (slots de produção, cronograma de entregas, configuração das aeronaves com reabastecimento aéreo, autodefesa e evacuação aeromédica) parecem ter sido resolvidas antes mesmo da aprovação parlamentar de junho, dado o nível de detalhe financeiro já então público.

O papel da Embraer e da HAI 

Do lado industrial, a Embraer tem interesse direto na velocidade de formalização. A empresa está em plena campanha europeia: além da Grécia, acompanha as negociações finais com a Eslováquia e monitora o processo turco, que ganhou nova visibilidade após a visita do general Ziya Cemal Kadıoğlu à Base Aérea de Beja em maio de 2026. Um contrato assinado com a Grécia em setembro seria um ativo de campanha para essas negociações paralelas: a prova de que o mecanismo governo a governo com Portugal funciona, é rápido e entrega os slots prometidos.

A Hellenic Aerospace Industry (HAI), por sua vez, tem interesse em iniciar o mais cedo possível a preparação da infraestrutura de MRO prevista no Memorando de Entendimento assinado com a Embraer em 22 de maio. Quanto antes o contrato principal for assinado, mais cedo começa o cronograma de transferência de tecnologia e capacitação de pessoal que dará à HAI e, por extensão, à indústria de defesa grega, um papel permanente no suporte ao C-390 na Europa.

O cenário mais provável 
A leitura dos dados disponíveis aponta para o seguinte cenário: a assinatura do contrato governo a governo Grécia-Portugal deve ocorrer entre a primeira e a terceira semana de setembro de 2026, provavelmente em Lisboa ou Atenas, com cerimônia separada da de Tel Aviv. A data de setembro não é especulação pura: é o que a fonte mais detalhada (Army Recognition) indica explicitamente, corroborada pela lógica dos prazos de entrega (2027) e pelo fato de que todas as etapas institucionais gregas já foram concluídas.

O único elemento de incerteza é a eventual negociação de pontos específicos ainda abertos com Portugal: configuração final das aeronaves, detalhes do suporte logístico, condições da transferência de slots. Se esses pontos estiverem resolvidos, a assinatura em setembro é altamente provável. Se restarem pendências técnicas, o prazo poderia escorregar para outubro, ainda dentro do "outono de 2026" citado pelo Army Recognition, sem comprometer a entrega de 2027.

O governo Mitsotakis tem todas as razões para querer que os dois contratos, Escudo de Aquiles e C-390, sejam assinados em semanas consecutivas. A narrativa política de um "setembro de contratos", após anos de debate e décadas de equipamentos envelhecidos, é um ativo eleitoral e diplomático de primeira grandeza. A questão não é se, mas quando. 

NOTA METODOLÓGICA
Esta matéria combina dados confirmados (aprovações parlamentar e do KYSEA, valores financeiros, mecanismo contratual com Portugal, data do Escudo de Aquiles em Tel Aviv) com análise editorial fundamentada em fontes especializadas (Army Recognition, FlightGlobal, Overt Defense, Air Data News, Greek City Times). A data de setembro para o contrato do C-390 é indicada pela imprensa especializada, mas não foi confirmada oficialmente por nenhum governo. A LRCA monitorará e atualizará quando houver anúncio oficial.

CRONOLOGIA DO PROGRAMA C-390 NA GRÉCIA

Fev. 2026

Delegação da Força Aérea Helênica avalia C-390 em Beja, Portugal

22 mai. 2026

MoU Embraer / HAI para MRO na Grécia (Atenas)

10 jun. 2026

Parlamento grego aprova programa (EUR 597,5 M)


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