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09 outubro, 2026

Exército Brasileiro, IMBEL e EDGE avançam na cooperação estratégica com os Emirados Árabes Unidos

Carta de Intenções entre o Ministério da Defesa emiradense e o Exército Brasileiro foi assinada em cerimônia que também destacou as duas empresas; alcance industrial e compromissos específicos ainda não foram divulgados



*LRCA Defense Consulting - 09/10/2026

O Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos e o Exército Brasileiro assinaram uma Carta de Intenções destinada a explorar oportunidades de cooperação nas áreas técnica, operacional e logística. O entendimento foi divulgado em 25 de setembro de 2026 pela revista militar emiradense Al Jundi, que destaca o intercâmbio de conhecimentos e a identificação de soluções de interesse mútuo. A fotografia da cerimônia mostra, no painel ao fundo, os símbolos das duas instituições militares, da IMBEL e do EDGE Group.

O registro visual demonstra que a IMBEL e o EDGE foram apresentados como participantes institucionais da cerimônia. A dimensão industrial também foi destacada por Jetson Turquiello Machado da Silva, coronel da reserva do Exército Brasileiro e executivo de desenvolvimento de negócios do EDGE Group para o Brasil e a América Latina. Segundo ele, os entendimentos envolvendo essas organizações contemplam perspectivas de modernização militar, transferência de tecnologia, desenvolvimento industrial e alinhamento com a Força Terrestre 40.

A imagem, porém, não permite estabelecer quais organizações figuram juridicamente como signatárias do documento. O comunicado da Al Jundi identifica o Ministério da Defesa emiradense e o Exército Brasileiro, sem discriminar eventuais instrumentos complementares envolvendo a IMBEL e o EDGE. Tampouco foram publicados os termos de possíveis compromissos industriais.

Uma cooperação que já produziu iniciativas concretas 
A aproximação entre o EDGE e instituições brasileiras antecede a nova Carta de Intenções. Em abril de 2026, o grupo anunciou uma iniciativa com o Exército para avaliação operacional dos armamentos CARACAL CAR 816, de 5,56 mm, e CSR50, de 12,7 mm, por unidades especializadas. A avaliação não representa, por si só, uma decisão de aquisição.

Em agosto, o EDGE e o Comando de Defesa Cibernética do Exército anunciaram a criação de um Centro de Excelência em Defesa Cibernética, com investimentos diretos das duas instituições e atividades previstas de capacitação, resposta a incidentes, pesquisa e desenvolvimento. Trata-se de iniciativa distinta, cuja vinculação à nova Carta de Intenções não foi anunciada.

A presença da IMBEL e as perspectivas industriais 
A representação da IMBEL na cerimônia merece atenção particular. Em dezembro de 2024, o EDGE anunciou uma solução de comunicações seguras destinada ao CENSIPAM, combinando um dispositivo da empresa emiradense KATIM, tecnologias da SIATT e rádios da Indústria de Material Bélico do Brasil. O precedente demonstra que capacidades industriais da IMBEL já haviam sido consideradas em soluções articuladas pelo grupo.

A presença institucional da IMBEL abre espaço para discutir integração de sistemas, fabricação, engenharia ou desenvolvimento tecnológico. Contudo, não foram divulgados projetos específicos, investimentos, condições de propriedade intelectual ou compromissos de produção relacionados à Carta de Intenções de setembro. Seria prematuro apresentar essas possibilidades como decisões tomadas.

Estratégia bilateral e autonomia tecnológica 
A cooperação também se insere em uma relação mais ampla. Em declaração conjunta emitida durante o G20 de 2024, Brasil e Emirados Árabes Unidos destacaram a expansão dos vínculos em defesa e segurança e a crescente presença do EDGE no mercado brasileiro, especialmente em fabricação de defesa, segurança cibernética e inovação.

O EDGE ampliou essa presença com investimentos e aquisições no setor nacional. Em setembro de 2026, anunciou a conclusão da aquisição da empresa brasileira de engenharia aeroespacial AKAER. O grupo também desenvolve iniciativas por meio da SIATT, inclusive em sistemas de mísseis. Esses movimentos dão contexto industrial ao novo entendimento, mas não demonstram que seus programas tenham sido incluídos no documento assinado com o Exército.

Próximas definições
 
O principal ponto ainda não esclarecido é o alcance jurídico e operacional da Carta de Intenções: quais organizações efetivamente a assinaram, quais áreas terão prioridade e se haverá instrumentos posteriores com metas, financiamento e responsabilidades definidas. Uma carta dessa natureza estabelece bases para negociações, sem equivaler a contrato de fornecimento ou compromisso automático de transferência de tecnologia.

Para o Exército Brasileiro, o interesse estratégico dependerá da capacidade de converter o diálogo em resultados verificáveis, com benefícios operacionais e industriais. Para a IMBEL, cuja associação institucional à cerimônia está documentada, o desafio será transformar eventual cooperação em atividades que ampliem suas competências e contribuam para a autonomia tecnológica do País.

Embraer e Atech apresentam aeronaves e sistemas de defesa em campanha conjunta no Marrocos

Depoimentos no Marrakech Airshow destacam KC-390, Super Tucano e integração de comando e controle, com interesse em participação industrial local; compra marroquina permanece sem anúncio público localizado



*LRCA Defense Consulting - 09/10/2026

A participação da Embraer no Marrakech Airshow 2026 ganhou um alcance mais amplo do que a divulgação inicial centrada no KC-390 Millennium. Em vídeo publicado pelo perfil oficial do evento, representantes da fabricante e da Atech, empresa do Grupo Embraer, apresentam uma atuação conjunta que reúne aeronaves de transporte, ataque leve e treinamento, sistemas de defesa aérea e soluções navais. Os depoimentos também reafirmam o interesse em integrar o ecossistema industrial do Marrocos.

O salão, realizado de 7 a 10 de outubro na base aérea de Marrakech, oferece às empresas brasileiras uma oportunidade de apresentar capacidades complementares às autoridades e aos operadores da região. Até a manhã desta sexta-feira (9), a apuração não localizou anúncio público de seleção ou contrato marroquino envolvendo as duas empresas no evento.

Super Tucano também está na campanha 
No depoimento, Guillaume Beurnaux, apresentado como diretor de vendas da Embraer Defense, identifica o KC-390 e o A-29 Super Tucano como os dois principais produtos promovidos pela empresa. O executivo afirma que esta é a quinta participação da companhia no Marrakech Airshow e manifesta a motivação para apresentá-los à Força Aérea Real Marroquina.

A menção ao A-29 acrescenta uma frente à comunicação divulgada antes do salão, que destacava o cargueiro. A fabricante apresenta ao público marroquino tanto uma plataforma de transporte quanto uma aeronave de ataque leve e treinamento. O depoimento, entretanto, não informa a existência de negociação específica para a compra do Super Tucano, nem menciona quantidade, configuração ou cronograma.

Atech leva integração à apresentação brasileira 
Ricardo Machado, apresentado como diretor de desenvolvimento de negócios da Atech, explica que acompanha o representante da Embraer para mostrar os sistemas da empresa e suas possibilidades de integração, especialmente na defesa aérea. Ele também menciona a atuação naval, os sistemas de comando e controle e os sistemas de gerenciamento de combate.

Essa apresentação conjunta é o elemento mais significativo do vídeo. Além das aeronaves, o grupo coloca em evidência capacidades de integração de sistemas, permitindo discutir uma relação comercial mais abrangente com potenciais clientes. O portfólio oficial da Atech inclui C4I, sistemas navais, sistemas embarcados e integração, áreas compatíveis com o conteúdo do depoimento.

A declaração não identifica produtos específicos escolhidos para o Marrocos ou uma arquitetura já definida para suas Forças Armadas. Tampouco anuncia que aeronaves e sistemas serão necessariamente adquiridos em um único pacote. 


O vínculo com a proposta de C4I 
Em junho, a LRCA repercutiu informação do Africa Intelligence sobre a oferta de um centro de comando e controle C4I ao Marrocos, associada à campanha comercial do KC-390. Na ocasião, a negociação foi descrita pela imprensa como envolvendo cinco aeronaves e valor superior a US$ 600 milhões.

A presença da Atech e sua manifestação pública sobre integração com a Embraer são coerentes com aquele relato e lhe acrescentam um elemento direto: a empresa de sistemas está efetivamente promovendo suas soluções ao lado da fabricante no salão. Isso não equivale, porém, à confirmação integral da proposta noticiada em junho. Machado não menciona um centro nacional específico, os cinco cargueiros ou valores.

O dado novo, portanto, é a exposição pública da atuação conjunta. A composição de uma eventual oferta contratual e o estágio de avaliação pelas autoridades marroquinas continuam sem esclarecimento nos depoimentos.

Participação industrial permanece no horizonte 
Beurnaux também manifesta o objetivo de fazer parte do ecossistema industrial marroquino. A intenção se conecta ao memorando assinado pela Embraer e pelo governo local no Marrakech Airshow de 2024, que estabeleceu um quadro de cooperação em aviação comercial, defesa e mobilidade aérea urbana, incluindo oportunidades em fornecedores, treinamento e manutenção.

Em balanço publicado antes da edição atual, o portal Aeronautique.ma registrou que uma delegação da Embraer avaliou a cadeia local em abril de 2025 e identificou possíveis fornecedores. A publicação observava, contudo, que ainda não havia confirmação oficial de projeto industrial específico, investimento firme ou encomenda diretamente decorrente daquele memorando.

O vídeo reafirma essa intenção industrial, mas não anuncia fábrica, fornecedor contratado ou compromisso de transferência de tecnologia. Também não permite concluir que a participação local esteja condicionada a uma aquisição militar específica.

O que o salão já revelou
Nas duas sessões de assinaturas do segundo dia divulgadas pelo organizador, foram relacionados acordos de outras empresas, sem menção à Embraer ou à Atech. Esse registro não exclui conversas reservadas ou anúncios posteriores, mas delimita os resultados formalmente apresentados nessas sessões.

Em relação à cobertura anterior da LRCA, a evolução está no alcance agora explicitado pelos executivos: KC-390 e Super Tucano são promovidos junto às possibilidades de integração da Atech, com interesse em cooperação industrial. Marrakech dá visibilidade a uma campanha brasileira que reúne plataformas e sistemas; a decisão marroquina de compra permanece uma questão em aberto.

08 outubro, 2026

Embraer não está à venda: os fatos por trás dos rumores políticos

CEO afirma que nenhuma unidade está à venda e que a empresa está mais forte do que nunca, está muito bem, muito sólida, e que está estudando um novo ciclo de produtos que vai garantir um crescimento de novo prazo ainda mais ambicioso



*LRCA Defense Consulting - 08/10/2026

A circulação de alegações de que a Embraer seria vendida a uma companhia norte-americana caso Flávio Bolsonaro chegasse à Presidência recolocou no debate público a tentativa de associação entre a fabricante brasileira e a Boeing, encerrada em abril de 2020. A documentação histórica permite separar dois acontecimentos distintos: uma operação empresarial efetivamente negociada, aprovada e posteriormente desfeita, e uma hipótese política atual para a qual não foram apresentadas quaisquer evidências de negociação ou compromisso.

Em 8 de outubro de 2026, o presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, declarou que a companhia não possui nenhuma unidade à venda. Ao tratar das relações com o poder público, afirmou que o apoio governamental continua importante, sobretudo pelo financiamento do BNDES e pela atuação diplomática na abertura de mercados. A declaração descreve a posição atual da administração, sem constituir garantia de que nenhuma reorganização societária possa ocorrer no futuro.

A negociação começou antes de Bolsonaro 
As conversas entre Boeing e Embraer começaram em 2017, durante o governo Michel Temer. Uma aquisição integral chegou a ser cogitada, mas a resistência à transferência das atividades estratégicas brasileiras levou à formulação de um negócio mais restrito. Em dezembro de 2018, ainda antes da posse de Jair Bolsonaro, as companhias já haviam definido a estrutura central da operação.

Em fevereiro de 2019, os acionistas aprovaram a proposta. A Boeing pagaria US$ 4,2 bilhões por 80% de uma nova sociedade formada pelas operações de aviação comercial e serviços associados da Embraer; a brasileira conservaria 20%. A avaliação total desse negócio era de US$ 5,26 bilhões. Defesa, aviação executiva e serviços associados a essas áreas permaneceriam sob a Embraer independente. Outra sociedade, voltada ao desenvolvimento de mercados para o KC-390, teria 51% de participação da Embraer e 49% da Boeing.

O governo Jair Bolsonaro deu aval à configuração negociada, e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a concentração em janeiro de 2020, sem restrições concorrenciais. Portanto, seria incorreto afirmar que Bolsonaro iniciou a tentativa de aquisição integral da Embraer. Também seria incorreto omitir que seu governo autorizou a transferência do controle de um dos principais negócios da fabricante.

Por que o acordo fracassou 
Em 25 de abril de 2020, a Boeing anunciou o encerramento do acordo, alegando que condições contratuais para a conclusão não haviam sido cumpridas. A Embraer contestou a justificativa e iniciou uma arbitragem. O rompimento ocorreu em meio à crise do 737 MAX e à retração da aviação provocada pela pandemia de Covid-19, circunstâncias relevantes para compreender o ambiente econômico, mas que não substituem a explicação contratual apresentada oficialmente pelas partes.

A arbitragem terminou por acordo em setembro de 2024, com previsão de pagamento bruto de US$ 150 milhões pela Boeing à Embraer. Não houve conclusão da aquisição: a fabricante brasileira preservou sua divisão de aviação comercial e continuou independente.

O que a União pode vetar 
Privatizada em 1994, a Embraer é uma companhia aberta e não pode ser simplesmente vendida por decisão unilateral do presidente da República. A União conserva uma ação especial, conhecida como golden share, com direitos de veto sobre decisões estratégicas previstas no estatuto, inclusive alterações relacionadas ao controle societário e a programas militares. A empresa também possui regras estatutárias de limitação do exercício de votos e de proteção de sua estrutura decisória.

Esses mecanismos não representam uma proibição absoluta de operações com investidores estrangeiros. A aprovação governamental concedida ao acordo com a Boeing demonstra justamente que uma transação pode avançar quando recebe as autorizações exigidas. Também importa distinguir a venda de uma divisão da transferência do controle da companhia inteira: os instrumentos jurídicos aplicáveis e seus efeitos não são necessariamente idênticos.

Uma empresa em outra situação 

Desde o rompimento, a Embraer recuperou suas operações e ampliou sua presença internacional, apresentando recordes após recordes em seus números. Em 2025, registrou receita anual de aproximadamente US$ 7,58 bilhões, crescimento de 18%. Nos nove primeiros meses de 2026, entregou 175 aeronaves, contra 153 no mesmo período de 2025. A expansão envolve aviação comercial, executiva, Defesa e serviços, além de projetos de desenvolvimento tecnológico.

Esses resultados não tornam impossível uma proposta futura, mas afastam a ideia de que a companhia precise necessariamente ser incorporada por uma concorrente estrangeira para manter suas atividades, muito pelo contrário.

O que se pode concluir sobre o rumor 
O precedente histórico não comprova a alegação atual. O acordo com a Boeing nasceu no governo Temer, recebeu aprovação política no governo Bolsonaro, previa o controle norte-americano somente da aviação comercial e foi desfeito antes de sua execução. Nada disso demonstra que uma eventual administração Flávio Bolsonaro tenha decidido, negociado ou prometido vender a Embraer.

É legítimo discutir as consequências estratégicas de uma transferência de tecnologia ou de controle industrial. Foi exatamente esse o debate travado entre 2018 e 2020. Mas atribuir a um candidato uma venda futura exige evidências próprias, como documentos, compromissos públicos ou negociações verificáveis, não apenas a associação com uma operação anterior.

A posição anunciada por Francisco Gomes Neto em 8 de outubro é objetiva: a Embraer não tem unidades à venda. "A Embraer hoje está mais forte do que nunca, está muito bem, muito sólida. Não tem nenhuma unidade à venda. Muito pelo contrário, nós estamos com planos agora, estamos estudando um novo ciclo de produtos para a companhia que vai garantir um crescimento de novo prazo ainda mais ambicioso", afirmou Gomes Neto.

Assim, até que surjam elementos concretos em sentido contrário, a afirmação de que a eleição de determinado candidato resultará na venda da fabricante permanece apenas como uma alegação sem qualquer comprovação baseada em fatos.

Primeiro E195-E2 da LATAM inaugura nova etapa para a Embraer e a aviação regional brasileira

Com 24 aeronaves firmemente encomendadas e possibilidade de chegar a 74, companhia prepara 42 rotas e aposta em cidades de menor demanda para ampliar sua rede nacional



*LRCA Defense Consulting - 08/10/2026

A LATAM Airlines Brasil e a Embraer celebraram nesta quinta-feira, 8 de outubro de 2026, em São José dos Campos (SP), o início do processo de entrega do primeiro E195-E2 da história da companhia. A aeronave ainda deverá cumprir procedimentos alfandegários, aprovação do interior e etapas de certificação operacional antes de entrar em serviço, previsto para novembro. A incorporação representa mais do que a estreia de um novo modelo: inaugura uma estratégia de crescimento em mercados brasileiros nos quais a capacidade dos jatos tradicionais de corredor único pode dificultar a oferta de frequências economicamente sustentáveis.


Da encomenda à operação 

Anunciado em setembro de 2025, o acordo prevê 24 E195-E2 firmes, avaliados em aproximadamente US$ 2,1 bilhões a preços de tabela, além de 50 opções de compra. O valor não representa necessariamente o preço efetivamente pago. Segundo a programação divulgada agora, 12 aeronaves deverão ser entregues até o fim de 2026 e outras 12 em 2027. A companhia pretende incorporar até 14 unidades à operação entre novembro deste ano e março do próximo, à medida que avancem as entregas e os preparativos.

A LATAM passou de 44 aeroportos atendidos no Brasil há seis anos para 63 atualmente. A primeira etapa de expansão com o E2 deverá levar a rede a 67 destinos, e a empresa pretende superar 70 em 2027. O objetivo anunciado por Jerome Cadier, CEO da LATAM Airlines Brasil, é ampliar a conectividade de forma sustentável, incorporando mercados com potencial econômico à rede de conexões nacionais e internacionais.

Quatro novas bases e 42 rotas 
Os 14 primeiros E195-E2 serão empregados em 42 rotas, incluindo oito novas ligações e quatro destinos até então não atendidos pela companhia: Cabo Frio e Macaé, no Rio de Janeiro; Ji-Paraná, em Rondônia; e Rondonópolis, em Mato Grosso. Entre as ligações anunciadas estão Guarulhos–Rondonópolis, com sete frequências semanais a partir de dezembro de 2026; Guarulhos–Ji-Paraná e Guarulhos–Cabo Frio, com quatro cada, também a partir de dezembro; e Guarulhos–Macaé, com três frequências semanais a partir de fevereiro de 2027. A empresa ainda avalia até 18 destinos adicionais para uma segunda fase em 2027. Essas possibilidades, contudo, ainda não constituem rotas confirmadas.

O significado operacional dessa escolha é importante. Com 136 assentos, o E195-E2 permite ajustar capacidade e frequência à demanda de mercados intermediários. Isso pode facilitar tanto a abertura de destinos quanto a alimentação dos principais centros de conexão da LATAM, sem exigir o mesmo volume de passageiros de aeronaves maiores. A viabilidade de cada rota continuará dependendo de fatores como ocupação, tarifas, infraestrutura aeroportuária e custos operacionais. 


Preparação acelerada para a entrada em serviço 
A companhia recorreu ao E195-E2 de demonstração da Embraer, conhecido como Profit Hunter, para exercícios de evacuação, avaliações e treinamento de tripulações. Segundo as empresas, a iniciativa reduziu em cerca de metade o tempo exigido por determinadas etapas de preparação, sem dispensar requisitos de segurança. Reportagem publicada nesta quinta-feira pela Folha de S.Paulo informa investimento de aproximadamente US$ 50 milhões em capacitação, equipamentos e infraestrutura, além de treinamento de 41 comandantes e 45 copilotos e preparação de oficinas em Guarulhos, Brasília e Curitiba. Esses números referem-se à preparação reportada, não ao custo de aquisição das aeronaves.

A configuração da LATAM terá quatro assentos por fileira, sem assento central, e 136 lugares, incluindo até 20 na Premium Economy, conforme a configuração. Estão previstos Wi-Fi gratuito para associados cadastrados no LATAM Pass, conexões USB-C e acesso ao entretenimento LATAM Play.

O peso industrial e comercial para a Embraer 
A entrada da LATAM amplia a presença da família E2 no mercado brasileiro e coloca o fabricante nacional na frota de uma das maiores empresas aéreas da região. Também constitui uma vitrine para a utilização do E195-E2 em redes com conexões internacionais, nas quais a aeronave pode funcionar como alimentadora de centros de distribuição de tráfego. A existência de 50 opções adicionais representa potencial comercial, mas não deve ser confundida com encomendas firmes.

Segundo a Embraer, o E195-E2 oferece alcance de até 3.000 milhas náuticas (5.556 km), comandos de voo fly-by-wire e consumo de combustível até 30% inferior ao de aeronaves da primeira geração dos E-Jets, dependendo da comparação e das condições operacionais. A fabricante também menciona redução de emissões de carbono de até 25% na família E2. Esses percentuais são referências divulgadas pelo fabricante, e não uma economia assegurada em todas as rotas da LATAM. A adoção do modelo por uma grande companhia brasileira pode reforçar a atratividade do E2 para outros operadores. Contudo, o efeito sobre a produção, o emprego e a cadeia de fornecedores dependerá do ritmo efetivo de entregas e de eventuais novas encomendas. Por ora, o marco confirmado é a chegada da primeira aeronave e a preparação de sua entrada em serviço.

Brasil e Índia estudam novo lançador orbital a partir de tecnologias do MLBR

Acordo entre Concert Technologies e Skyroot Aerospace prevê estudos para um foguete capaz de transportar ao menos 100 kg à órbita baixa; cooperação pode abrir oportunidades para a indústria espacial brasileira.



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LRCA Defense Consulting - 08/10/2026

A Concert Technologies, integrante do programa Microlançador Brasileiro (MLBR), e a indiana Skyroot Aerospace assinaram em 7 de outubro, durante o 77º Congresso Internacional de Astronáutica (IAC 2026), em Antalya, na Turquia, um Memorando de Entendimento (MoU) para estudar o codesenvolvimento de um veículo lançador de satélites. A proposta contempla capacidade de carga útil a partir de 100 kg para órbita baixa da Terra (LEO), posicionando o futuro produto entre o MLBR, projetado para até 40 kg, e os foguetes de maior capacidade da família Vikram.


O entendimento tem vigência prevista de dois anos. Nesse período, as empresas pretendem detalhar aspectos técnicos e comerciais e estruturar os instrumentos necessários à execução do projeto. Desenvolvimento, fornecimento, investimentos e comercialização dependerão de acordos posteriores. Portanto, ainda não há anúncio de contrato definitivo, configuração do veículo, orçamento ou data de lançamento.

O acordo foi assinado pela Concert com participação de Rafael Mordente, CEO da Concert Space, e acompanhado pelo presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), Marco Antônio Chamon, e pelo senador e astronauta Marcos Pontes. Para Chamon, a aproximação exemplifica a função do congresso de estimular parcerias entre empresas e países.

Tecnologia brasileira como ponto de partida 
A relevância da iniciativa está no possível aproveitamento de competências que a indústria nacional vem consolidando no MLBR. A Concert participa do desenvolvimento do sistema de navegação inercial integrado à navegação por satélite (SNI-GNSS), em colaboração com HORUSEYE TECH e CRON, tecnologia associada ao controle e à orientação do lançador. O LRCA já havia examinado, em janeiro de 2025, a importância desse sistema para determinar posição, velocidade e atitude durante o voo.

A contribuição brasileira poderá ir além da navegação, mas o anúncio não especifica quais equipamentos serão transferidos para o novo projeto nem confirma a participação das demais empresas do MLBR. Durante o IAC, Fibraforte e BIZU Space também apresentaram tecnologias relacionadas ao programa: a primeira, um sistema de propulsão para controle do veículo; a segunda, desenvolvimentos em propulsão líquida, incluindo turbobomba e motor.

O MLBR avançou pela revisão crítica de projeto em 2025 e entrou em etapas de fabricação, integração e ensaios. Em junho de 2026, conforme noticiado pelo LRCA, a Finep formalizou aporte adicional de R$ 25 milhões à BIZU Space para desenvolver um terceiro estágio de propulsão líquida, tecnologia com potencial de aplicação em veículos maiores. Esse financiamento diz respeito ao programa brasileiro, não ao novo lançador previsto no MoU.

Parceira indiana já alcançou a órbita 
A Skyroot acrescenta experiência operacional recente. Segundo a Organização Indiana de Pesquisa Espacial (ISRO), em 18 de julho de 2026 o Vikram-I partiu do Centro Espacial Satish Dhawan e colocou dois satélites em órbita baixa, tornando a Skyroot a primeira empresa privada indiana a realizar um lançamento orbital bem-sucedido a partir do território nacional. A empresa anuncia para o Vikram-I capacidade de até 350 kg em LEO e 260 kg em órbita heliossíncrona.

Essa experiência reduz parte das incertezas associadas à maturidade industrial da parceira, mas não elimina os riscos de engenharia, financiamento e certificação de um novo veículo. Ainda será necessário definir sua arquitetura, propulsão, integração, ensaios e modelo econômico.

Alcântara: oportunidade, não decisão 
O comunicado destaca a demanda por lançamentos para órbitas equatoriais, segmento em que a posição geográfica do Centro Espacial de Alcântara, próximo à Linha do Equador, pode oferecer vantagens. Para missões de baixa inclinação, a rotação terrestre favorece o desempenho do lançador. A localização brasileira também abre uma hipótese de operação comercial a partir do País.

Entretanto, nem o anúncio do MLBR nem os detalhes públicos do MoU confirmam Alcântara como base do futuro foguete. Também não foram divulgadas decisões sobre fabricação, integração ou repartição de propriedade intelectual entre as empresas. Tratar Alcântara como destino já escolhido seria antecipar uma definição ainda inexistente.

Da capacitação à oportunidade comercial 
O principal significado estratégico do entendimento é a possibilidade de transformar tecnologias desenvolvidas no âmbito de um programa nacional em componentes de uma oferta internacional de serviços espaciais. O desafio será converter a intenção em contratos, assegurar participação industrial brasileira efetiva e demonstrar que um lançador intermediário pode atender clientes com custo e confiabilidade competitivos.

Por ora, o acordo representa uma oportunidade concreta de negociação, não um programa de lançamento contratado. Seu avanço dependerá das decisões técnicas e financeiras que Concert e Skyroot deverão tomar durante a vigência do MoU.

CTEx e SIATT avançam na industrialização de pilhas térmicas para mísseis brasileiros

Acordo firmado em 7 de outubro busca levar à fabricação industrial tecnologia desenvolvida pelo Exército, com aplicação inicial no MAX 1.2 AC e potencial para outros sistemas de defesa



*LRCA Defense Consulting - 08/10/2026

O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e a SIATT formalizaram, em 7 de outubro de 2026, um Acordo de Parceria para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (APPDI) voltado à fabricação de pilhas térmicas. Desenvolvida pelo Laboratório de Química Militar (LQM) do CTEx, a tecnologia é destinada a fornecer energia elétrica a sistemas eletrônicos embarcados em armamentos, com aplicação imediata prevista no Sistema de Armas MSS 1.2 MAX, também identificado como MAX 1.2 AC.

A iniciativa representa uma nova etapa de um esforço tecnológico de longa duração. O avanço agora anunciado não deve ser confundido com o início das pesquisas nem com a comprovação de que já exista produção seriada. O acordo estabelece uma parceria para a fabricação, mas o comunicado não detalha cronograma, capacidade produtiva, investimentos ou conclusão dos procedimentos de qualificação industrial.

Uma tecnologia desenvolvida ao longo de décadas 
As pilhas térmicas são fontes eletroquímicas de energia projetadas para permanecer inativas durante períodos prolongados de armazenamento. Quando acionadas, o aquecimento interno permite que o eletrólito passe a conduzir íons, viabilizando o fornecimento de energia aos circuitos do equipamento durante sua operação. Essa combinação de longa vida em armazenamento e rápida disponibilidade energética explica seu emprego em determinados mísseis, foguetes e outros produtos de defesa.

A pesquisa brasileira não é recente. Um trabalho acadêmico de 2025, disponibilizado pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), descreve a evolução dos estudos realizados pelo CTEx, incluindo o desenvolvimento de sistemas de terceira geração voltados ao míssil anticarro. O documento ressalta a complexidade tecnológica dessas fontes energéticas, a necessidade de infraestrutura especializada e as dificuldades internacionais para aquisição de componentes e insumos.

A importância estratégica decorre justamente dessa combinação de requisitos técnicos e restrições de fornecimento. Em sistemas militares armazenados por longos períodos, a disponibilidade da fonte de energia no momento do emprego é parte essencial da confiabilidade do armamento. Produzir nacionalmente esse componente pode reduzir vulnerabilidades logísticas, desde que a fabricação alcance escala, qualidade e regularidade compatíveis com as necessidades operacionais.

Da pesquisa do Exército à capacidade industrial 
O APPDI aproxima o conhecimento acumulado pelo CTEx da experiência da SIATT no desenvolvimento, integração e produção de sistemas de armas. A empresa participa do programa do míssil anticarro MAX 1.2 AC e atua em projetos de mísseis da Marinha, entre eles o MANSUP. A articulação entre laboratório público e indústria pode facilitar a transição de protótipos e processos especializados para uma cadeia de fornecimento nacional.

A SIATT também ampliou recentemente sua estrutura industrial em Caçapava, no interior paulista. Embora essa expansão ofereça contexto relevante para o acordo, não há informação confirmada de que a fabricação das pilhas térmicas ocorrerá nessa unidade. A localização da futura produção e a eventual necessidade de instalações específicas permanecem em aberto.

A prioridade imediata é o míssil MAX 1.2 AC 
O comunicado do CTEx indica expressamente a possibilidade de emprego imediato no Sistema de Armas MSS 1.2 MAX. A referência aproxima o desenvolvimento da demanda concreta de um armamento brasileiro já associado à capacidade industrial da SIATT. Entretanto, a expressão não permite afirmar, por si só, que as pilhas nacionais já equipam todos os exemplares produzidos ou que tenham substituído integralmente fontes importadas.

A incorporação efetiva de um novo componente a um sistema de armas exige compatibilidade com os requisitos elétricos, mecânicos, térmicos e de segurança, além dos ensaios e processos de qualificação aplicáveis. Por isso, o estágio de certificação das pilhas para os lotes de série constitui uma das informações mais relevantes ainda não divulgadas.

Possibilidades para outros programas 
O domínio das pilhas térmicas pode criar oportunidades em outros armamentos nacionais, especialmente aqueles que necessitem de fontes compactas de energia acionadas apenas no momento do emprego. Isso não significa, contudo, que a tecnologia anunciada já esteja selecionada para o MANSUP, o MANSUP-ER ou foguetes guiados. Cada sistema possui arquitetura e requisitos próprios, e qualquer integração dependeria de desenvolvimento e validação específicos.

A SIATT já divulgou anteriormente que o sistema de guiagem, navegação e controle do MANSUP utiliza um conjunto de baterias para alimentar seus circuitos durante o voo. Essa informação demonstra a relevância das fontes energéticas no projeto, mas não identifica essas baterias como pilhas térmicas nem estabelece vínculo técnico com o acordo recém-assinado.

Autonomia tecnológica e questões ainda abertas 
Além do potencial de redução da dependência externa, a parceria levanta questões sobre propriedade intelectual, direitos de fabricação e eventual comercialização internacional. A SIATT tem participação acionária do grupo EDGE, dos Emirados Árabes Unidos, mas esse vínculo societário não autoriza concluir que a tecnologia do CTEx será transferida ao grupo estrangeiro. O alcance dos direitos concedidos à parceira industrial dependerá das cláusulas do acordo e das normas aplicáveis.

Também não foram divulgados o percentual de nacionalização dos insumos, a capacidade anual projetada, o investimento previsto e a data estimada para entrega das primeiras unidades industriais. Sem esses dados, seria prematuro dimensionar o impacto econômico da parceria ou afirmar que a dependência externa foi superada.

O significado do acordo está, portanto, na tentativa de fechar um elo crítico entre pesquisa, desenvolvimento e fabricação. Se a industrialização e a qualificação forem concluídas, o Exército poderá contar com uma fonte energética estratégica produzida no País, fortalecendo a sustentação logística do MAX 1.2 AC e criando uma base tecnológica potencialmente aproveitável em futuros produtos de defesa.

Turbomachine aciona geradora de gases do TG-200 com etanol e avança na propulsão híbrida nacional

Primeiro funcionamento do equipamento marca nova etapa de projeto apoiado pela FINEP, desenvolvido para gerar 130 kW de eletricidade e atender futuras aeronaves híbridas, especialmente VANTs


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LRCA Defense Consulting - 08/10/2026

A Turbomachine anunciou nesta quarta-feira, 7 de outubro de 2026, o primeiro acionamento da geradora de gases do turbogerador aeronáutico TG-200 utilizando etanol. O ensaio ocorreu às 14h20, segundo comunicado da empresa. O resultado representa uma etapa inicial do desenvolvimento de um equipamento nacional destinado a fornecer energia elétrica para sistemas de propulsão híbrida, mas não significa que o conjunto completo já esteja operacional ou validado para uso aeronáutico.


O projeto foi selecionado na chamada Mais Inovação Brasil – Aviação Sustentável, da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), com subvenção econômica de R$ 8.962.020,00. O LRCA já havia noticiado sua aprovação em novembro de 2024. A passagem do projeto para ensaios de funcionamento constitui, agora, o principal fato novo.

Como funciona o TG-200 
Diferentemente de uma turbina destinada a produzir diretamente empuxo, o TG-200 foi concebido para transformar a energia do combustível em eletricidade. Sua arquitetura prevê uma geradora de gases, uma turbina livre de potência e um gerador elétrico compacto de alta rotação, com controle eletrônico. A potência contínua prevista é de 130 kW elétricos; documentos do projeto também mencionam até 200 HP de potência elétrica de pico, equivalentes a aproximadamente 149 kW.

Em uma aeronave híbrido-elétrica, a eletricidade produzida pode alimentar motores de propulsão e, conforme a arquitetura adotada, interagir com sistemas de armazenamento de energia. O objetivo é enfrentar limitações de autonomia e carga útil das aeronaves exclusivamente elétricas. Contudo, sem informações públicas sobre massa, consumo, eficiência e regime de funcionamento do conjunto, ainda não é possível quantificar as vantagens do TG-200 em uma aplicação específica.

ITA participa da solução de um desafio crítico 
O desenvolvimento conta com a participação do Laboratório de Plasmas e Processos do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (LPP-ITA). Segundo a Fundação Casimiro Montenegro Filho, responsável pela gestão administrativa e financeira do projeto, o laboratório desenvolve um ignitor com substrato de tungstênio e revestimento de nitreto de silício depositado por plasma. A iniciativa procura melhorar a resistência do componente à corrosão e às condições de alta temperatura e pressão associadas à operação com etanol.

A FCMF descreve um programa de desenvolvimento de 36 meses, estruturado em três frentes: geradora de gases, integração da turbina livre ao gerador e desenvolvimento de um gerador sem escovas de alta rotação controlado eletronicamente. O primeiro acionamento anunciado pela Turbomachine confirma um avanço na primeira dessas frentes, sem comprovar, por si só, o desempenho integrado das demais.

Possibilidades para a aviação civil e militar 
A proposta tem interesse potencial para veículos aéreos não tripulados de vigilância, reconhecimento e logística, além de outras plataformas que empreguem propulsão elétrica distribuída. No campo militar, um sistema nacional desse tipo poderia ampliar alternativas de integração e reduzir dependências externas em determinadas aplicações. Essas possibilidades, porém, são perspectivas tecnológicas, não encomendas ou programas de integração já confirmados.

A utilização do etanol também aproveita uma cadeia de produção consolidada no Brasil. Seu eventual benefício ambiental dependerá do consumo real do equipamento, da origem do combustível e da comparação do ciclo de vida com alternativas convencionais. A alegação de ineditismo mundial associada ao projeto em divulgações anteriores ainda exigiria verificação comparativa independente.

Próximas etapas 
O marco de 7 de outubro não esclarece a duração do ensaio, a rotação atingida, a potência elétrica produzida ou o cronograma para testes do turbogerador completo. A comprovação desses parâmetros, seguida de ensaios de durabilidade, integração e segurança, será decisiva para avaliar a maturidade do TG-200 e suas perspectivas comerciais.

Sediada em Jacareí (SP), no entorno do polo aeroespacial de São José dos Campos, a Turbomachine já desenvolve motores a turbina para diferentes aplicações. O TG-200 amplia essa experiência para um segmento no qual a geração embarcada de eletricidade pode ganhar relevância, especialmente em aeronaves não tripuladas. O primeiro funcionamento com etanol é, portanto, um avanço concreto, embora ainda distante de demonstrar um produto pronto para operação.

07 outubro, 2026

Marcos Degaut: Defesa, indústria e diplomacia sob uma mesma estratégia nacional

Marcos Degaut tornou-se um dos nomes relevantes para compreender as ideias de política externa e Defesa que circulam no entorno da candidatura de Flávio Bolsonaro. A trajetória do ex-secretário revela uma arquitetura estratégica baseada em autonomia tecnológica, transferência de tecnologia, previsibilidade orçamentária, fortalecimento da BID e integração entre Defesa, diplomacia, indústria e comércio exterior



*LRCA Defense Consulting - 07/10/2026

Marcos Degaut tornou-se um dos nomes relevantes para compreender as ideias de política externa e Defesa que circulam no entorno da candidatura de Flávio Bolsonaro. Aliado próximo de Eduardo Bolsonaro, o ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa participa do debate político atual, mas suas formulações sobre poder nacional são muito anteriores à campanha de 2026.

A análise de artigos, entrevistas, discursos e iniciativas de Degaut ao longo de quase uma década revela mais do que uma sucessão de posições conjunturais. Há uma consistência estrutural entre sua atuação na Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), sua passagem pela Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD), sua experiência posterior no setor privado de Defesa e seus textos recentes.

No centro dessa arquitetura aparecem conceitos recorrentes: autonomia tecnológica, transferência de tecnologia, previsibilidade orçamentária, Base Industrial de Defesa (BID) sustentável e exportadora, capacidade de dissuasão e uma política externa orientada pelo interesse nacional.

Defesa como instrumento de poder nacional 
Para Degaut, Defesa não pode ser tratada apenas como despesa pública nem como política isolada das demais dimensões do Estado. Ainda em 2020, quando comandava a SEPROD, defendia que Defesa, Segurança e BID deveriam integrar uma grande estratégia nacional e eram indissociáveis da política externa de um país que pretendesse possuir peso internacional.

Em textos recentes, o diagnóstico tornou-se mais abrangente. A competição estratégica contemporânea, em sua leitura, deslocou parte da vulnerabilidade nacional para áreas como semicondutores, comunicações, satélites, componentes eletrônicos, sistemas antiaéreos, armas inteligentes, cibernética, inteligência artificial, drones e sensores. A soberania, portanto, dependeria não apenas de território e efetivos militares, mas do domínio ou acesso seguro a tecnologias, cadeias produtivas e infraestrutura crítica.

No artigo “A Sétima República”, publicado em 6 de outubro, Degaut defende explicitamente Forças Armadas capazes de proteger o território e uma Defesa orientada pela dissuasão por negação, com Amazônia e Atlântico Sul como teatros prioritários.

O conceito procura tornar inviável ou excessivamente custoso ao adversário alcançar seus objetivos, o que remete a vigilância, consciência situacional, capacidade de reação e meios capazes de negar liberdade de ação em áreas vitais.

Uma linha que antecede a SEPROD 
A preocupação com programas estratégicos e autonomia já aparecia quando Degaut atuava na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, no governo Michel Temer.

Em setembro de 2017, durante visita à Corveta Jaceguai, foi registrado publicamente que ele vinha trabalhando ativamente para apoiar a construção das então Corvetas Classe Tamandaré, programa que posteriormente evoluiu para as Fragatas Classe Tamandaré.

Esse antecedente é relevante porque mostra que a preocupação com o fortalecimento material das Forças e com programas nacionais não nasceu de sua passagem pela SEPROD. Ela atravessa diferentes funções exercidas por Degaut e ajuda a explicar a continuidade entre sua atuação administrativa e suas formulações atuais.

Autonomia tecnológica como eixo central 
Poucos conceitos aparecem com tanta frequência em suas manifestações quanto autonomia tecnológica.

Em 2021, ao tratar de protocolos de inovação e tecnologia, Degaut afirmou que a criação de redes entre governo, academia e empresas deveria gerar produtos e serviços capazes de aumentar progressivamente a autonomia tecnológica brasileira e reduzir a dependência de produtos estrangeiros.

Em 2023, já no EDGE Group, sintetizou a ideia de maneira direta: não existe autonomia estratégica sem autonomia tecnológica.

A formulação ajuda a organizar todo o restante de seu pensamento. Um país que dependa integralmente de terceiros para sensores, componentes, munições, sistemas de comando, satélites, comunicações ou armamentos sofisticados pode conservar soberania jurídica, mas terá sua liberdade de decisão limitada em uma crise.

Transferência de tecnologia: comprar não basta 
A consequência prática desse raciocínio é a importância atribuída à transferência de tecnologia.

Para Degaut, a aquisição de equipamentos no exterior não deveria ser analisada apenas pelo desempenho do produto ou pelo preço da compra. O valor estratégico aumenta quando a operação permite absorver conhecimento, formar pessoal, internalizar competências, produzir componentes, realizar manutenção e evoluir sistemas no Brasil.

Isso não significa que toda tecnologia sensível esteja disponível para transferência, nem que acordos de offset produzam automaticamente autonomia. A questão central é negociar compras e parcerias de modo que parte relevante do conhecimento permaneça no País.

Sob essa lógica, transferência de tecnologia deixa de ser contrapartida acessória e passa a integrar o cálculo estratégico da aquisição.

Essa orientação também ajuda a interpretar sua atuação posterior no EDGE Group e a aproximação com empresas brasileiras. Parcerias internacionais são vistas como instrumentos úteis quando agregam tecnologia, capacidade produtiva, acesso a mercados e desenvolvimento conjunto, e não apenas capital.

Previsibilidade orçamentária: condição para planejar 
Outro pilar é a previsibilidade orçamentária.

Degaut tem sustentado que a indústria de Defesa não consegue executar planejamento estratégico consistente se não souber se haverá continuidade de recursos para programas que atravessam muitos anos. Em entrevista de 2023, afirmou que a imprevisibilidade afeta desenvolvimento de projetos e produtos, contratação de pessoal e participação em licitações internacionais.

O problema é particularmente sensível porque grandes projetos militares possuem longos ciclos de maturação, contratos complexos, pagamentos distribuídos por vários exercícios e, frequentemente, compromissos em moeda estrangeira, compensações industriais e transferência de tecnologia.

Cortes abruptos podem elevar custos, retardar cronogramas, provocar perda de equipes especializadas e enfraquecer a confiança de fornecedores e parceiros.

A ênfase, portanto, não está apenas em gastar mais. Está em permitir que Forças Armadas e indústria saibam, dentro de horizontes plurianuais razoáveis, quais recursos estarão disponíveis.

A discussão sobre mecanismos capazes de oferecer essa estabilidade financeira é estratégica, mas eventuais modelos ainda em formulação não podem ser tratados como política definida enquanto não forem apresentados publicamente.

A BID como instrumento militar, econômico e tecnológico 
Na visão de Degaut, a BID ultrapassa a função de abastecer as Forças Armadas. Ela produz empregos qualificados, inovação, renda, exportações, divisas e tecnologias de uso dual.

Durante sua gestão na SEPROD, procurou aproximar Ministério da Defesa, BNDES, indústria, academia e instrumentos de promoção comercial.

Em artigo de 2021 republicado pelo LRCA Defense Consulting, destacou novas formas de financiamento e garantias, aperfeiçoamento da Tríplice Hélice, envolvendo Estado, academia e iniciativa privada, e busca de maior isonomia normativa e tributária para a indústria nacional. Também sustentou que exportar é crucial para preservar a capacidade de fornecer produtos, serviços e tecnologia de ponta.

A lógica econômica é objetiva: a demanda interna brasileira, sujeita a restrições fiscais e oscilações, não oferece escala contínua para todos os segmentos industriais de Defesa.

Exportações permitem diluir custos, sustentar linhas produtivas, conservar equipes especializadas e financiar novos ciclos de inovação.

Financiamento e garantias completam a equação 
A previsibilidade das encomendas domésticas, contudo, não resolve sozinha o problema.

Degaut também tem chamado atenção para financiamento e garantias às exportações. Produtos de Defesa disputam mercados nos quais Estados estrangeiros frequentemente apoiam suas empresas com crédito, seguro, garantias soberanas e instrumentos diplomáticos.

Sem mecanismos competitivos, uma empresa brasileira pode possuir um bom produto e ainda assim perder uma concorrência porque o comprador recebeu condições financeiras melhores de outro país.

Daí a tentativa, durante a SEPROD, de aproximar a BID de instituições como o BNDES e fortalecer instrumentos de promoção comercial. 


Capital estrangeiro e autonomia não são necessariamente opostos 
A experiência posterior de Degaut no EDGE Group acrescenta uma nuance importante.

Sua concepção de autonomia não implica fechamento ao capital estrangeiro. Investimentos e parcerias internacionais podem fortalecer a soberania quando aumentam domínio tecnológico, produção local, qualificação de pessoal e capacidade exportadora.

O critério relevante, nessa perspectiva, não seria simplesmente a nacionalidade do investidor, mas o resultado estratégico da parceria: quanto conhecimento é absorvido, quais competências permanecem no Brasil e se a operação reduz ou amplia dependências críticas.

Política externa: diplomacia como instrumento de poder
A mesma arquitetura aparece em suas formulações sobre política externa.

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo em 1º de outubro, Degaut defendeu um Itamaraty mais forte, estratégico e valorizado, capaz de converter diplomacia em influência, mercados, investimentos, tecnologia, segurança e prosperidade.

No texto, contestou a caracterização de suas ideias como uma suposta “Reforma Rubio”. Afirmou que nunca discutiu projeto com esse nome nem defendeu transplantar ao Brasil a reforma do Departamento de Estado norte-americano.

Também registrou que suas reflexões não constituíam programa fechado nem proposta oficial de governo. A distinção é importante para qualquer tentativa de antecipar políticas futuras: existem ideias em debate, mas nem todas podem ser apresentadas como decisões da campanha.

O conteúdo defendido publicamente por Degaut inclui fortalecimento da capacidade de formulação e antecipação do Itamaraty, maior centralidade para diplomacia econômica, comércio, investimentos, tecnologia e Defesa, simplificação administrativa e critérios mais objetivos de mérito e desempenho na carreira.

Estados Unidos, China e interesse nacional 

Suas manifestações recentes apontam para maior aproximação estratégica com os Estados Unidos, mas não necessariamente para ruptura econômica com a China.

O fio condutor é o interesse nacional: relações internacionais deveriam ser avaliadas pela capacidade de gerar segurança, tecnologia, mercados, investimentos e liberdade de ação.

Esse pragmatismo também aparece na discussão sobre minerais críticos, energia, inteligência artificial e infraestrutura. Recursos naturais, isoladamente, não produzem poder. Eles precisam ser transformados em capacidade industrial, conhecimento, tecnologia e instrumentos de negociação internacional.

A nova guerra tecnológica 
A atenção dada a drones, inteligência artificial, sensores, espaço, defesa cibernética, comunicações e sistemas antiaéreos mostra que a visão de Degaut não está limitada aos grandes programas tradicionais.

As guerras recentes demonstraram que plataformas sofisticadas convivem com sistemas baratos, produção em massa, software, guerra eletrônica e ciclos tecnológicos extremamente rápidos.

Para o Brasil, o desafio seria combinar programas de longo prazo com capacidade de inovação acelerada, aproximando Forças Armadas, empresas, universidades e centros de pesquisa.

Nesse ambiente, autonomia não significa produzir absolutamente tudo, mas identificar tecnologias cuja dependência externa pode comprometer a liberdade de ação e desenvolver capacidade nacional ou parcerias confiáveis para dominá-las. 

Uma arquitetura de poder nacional 
Quando reunidas, as posições de Degaut formam uma cadeia coerente: previsibilidade orçamentária permite planejamento; planejamento sustenta programas e indústria; transferência de tecnologia e pesquisa ampliam autonomia tecnológica; autonomia tecnológica fortalece a BID; uma BID robusta aumenta a capacidade militar e exportadora; capacidade militar gera dissuasão; e dissuasão oferece maior liberdade de ação à política externa.

É essa conexão que diferencia sua abordagem de uma discussão restrita ao orçamento das Forças Armadas.

Defesa, indústria, tecnologia, comércio exterior, diplomacia, energia e recursos estratégicos aparecem como componentes de um mesmo sistema de poder nacional.

O que pode ser inferido 
Caso essas ideias tenham influência efetiva sobre um eventual governo Flávio Bolsonaro, é razoável inferir uma pressão por maior previsibilidade dos recursos destinados aos programas estratégicos, fortalecimento da BID, mecanismos de financiamento e garantias às exportações, maior exigência de transferência de tecnologia em parcerias internacionais e prioridade para áreas tecnológicas consideradas críticas.

Também seria coerente com esse pensamento uma maior integração entre Defesa e política externa, atenção especial à Amazônia e ao Atlântico Sul e aproximação estratégica com parceiros capazes de oferecer tecnologia, investimentos e acesso a mercados.

Essas são, entretanto, inferências construídas a partir de posições públicas e de uma trajetória administrativa. Não equivalem a compromissos formalmente assumidos pela candidatura.

Permanecem abertas questões decisivas: qual será o nível de recursos destinado à Defesa, quais programas terão prioridade, como serão financiados, quais tecnologias serão consideradas críticas e quais mecanismos serão usados para assegurar continuidade orçamentária.

Consistência estrutural
A principal conclusão da pesquisa é que o pensamento de Marcos Degaut apresenta forte consistência estrutural.

O apoio a programas navais quando estava na SAE, a defesa de autonomia tecnológica e fortalecimento da BID na SEPROD, a ênfase posterior em parcerias industriais e transferência de conhecimento e suas formulações atuais sobre Defesa e política externa pertencem a uma mesma arquitetura intelectual.

Mais do que saber qual cargo Degaut poderia ocupar em um eventual governo, o interesse público está em compreender essa arquitetura.

Se suas ideias efetivamente influenciarem políticas a partir de 2027, a mudança mais relevante poderá não estar em um programa isolado ou em uma aquisição específica, mas na tentativa de integrar instrumentos que o Brasil historicamente administra de maneira fragmentada: orçamento, tecnologia, indústria, Defesa, comércio exterior e diplomacia.

Primeiro Gripen E produzido no Brasil voa e consolida Gavião Peixoto na cadeia global do caça

Marco comprova que a transferência de tecnologia avançou da capacitação para uma capacidade industrial efetiva; linha da Embraer poderá complementar a produção sueca e atender futuras encomendas nacionais e internacionais



*LRCA Defense Consulting - 07/10/2026

O primeiro F-39E Gripen produzido no Brasil pela Embraer realizou nesta quarta-feira, 7 de outubro, seu voo inaugural a partir do complexo industrial de Gavião Peixoto (SP). Mais do que uma etapa prevista no processo de fabricação, o voo representa a comprovação prática de que o País passou a dominar, em território nacional, capacidades de montagem final, integração de sistemas, ensaios em solo e preparação de uma aeronave de caça avançada para testes em voo.


A missão foi conduzida por um piloto de testes da Saab e teve como objetivo verificar o funcionamento dos principais sistemas e validar as características de voo da aeronave. Segundo Embraer e Saab, os resultados confirmaram o desempenho esperado e produziram os dados necessários para a continuidade da campanha de ensaios de produção e aceitação que antecede a entrega à Força Aérea Brasileira (FAB).

Apresentado oficialmente em 25 de março, o caça é o primeiro de 15 exemplares previstos para produção no Brasil dentro do programa atualmente contratado. Depois da conclusão dos testes e do processo de aceitação, deverá seguir para a Base Aérea de Anápolis (GO), onde se integrará ao 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), unidade que opera o Gripen E no País. 


Da transferência de tecnologia à capacidade comprovada 
O significado industrial do voo está diretamente ligado à arquitetura escolhida pela FAB para o Programa Gripen. O contrato assinado em 2014 não se limitou à compra de 36 aeronaves, sendo 28 Gripen E monopostos e oito Gripen F bipostos. Ele incorporou um amplo processo de transferência de tecnologia e cooperação industrial, com engenheiros, técnicos, pilotos de testes e especialistas brasileiros trabalhando junto às equipes suecas em desenvolvimento, engenharia, fabricação, integração, testes e manutenção.

Durante mais de uma década, esse processo criou infraestrutura, formou pessoal e inseriu empresas brasileiras na cadeia de fornecimento do programa. Em março, levantamento publicado pelo LRCA Defense Consulting apontou mais de 350 profissionais brasileiros treinados na Suécia, além da geração de mais de 2 mil empregos diretos e 10 mil indiretos relacionados ao programa. A Saab também ampliou em São Bernardo do Campo (SP) a fabricação de aeroestruturas do Gripen, incluindo a fuselagem traseira, cuja capacidade anual passou de oito para 16 unidades após a abertura de uma segunda linha.

O voo inaugural em Gavião Peixoto é particularmente relevante porque transforma conhecimento transferido em capacidade demonstrada. Montar uma aeronave não equivale, por si só, a dominar todo o ciclo industrial. Ao participar do planejamento e da execução do primeiro voo, além da integração e dos testes anteriores, a Embraer demonstra que a estrutura brasileira alcançou um estágio no qual pode entregar uma aeronave completa para a campanha de aceitação. 


Gavião Peixoto deixa de ser apenas uma linha brasileira 

A evolução mais importante, porém, está no papel reservado à unidade paulista para os próximos anos. Gavião Peixoto abriga a única linha de montagem final do Gripen fora da Suécia e, desde julho, passou a ser formalmente considerada por Saab e Embraer como parte da expansão da capacidade mundial de produção do caça.

Em 21 de julho, durante o Farnborough International Airshow, as duas empresas assinaram um Heads of Agreement (HoA) que estabelece as bases para a potencial produção de 20 Gripen adicionais no Brasil. O documento ainda não constitui o contrato definitivo, mas prevê que a Embraer assuma a montagem dessas aeronaves e que a linha brasileira complemente a de Linköping, na Suécia, para responder ao crescimento da demanda global. As empresas declararam a intenção de concluir o acordo correspondente ainda em 2026.

Esse aspecto altera qualitativamente a posição brasileira no programa. A instalação criada inicialmente para atender parte da encomenda da FAB passa a ser tratada como elemento do sistema produtivo internacional do Gripen. O próprio comunicado divulgado após o voo inaugural afirma que o sucesso da missão valida Gavião Peixoto como parte integrante do sistema global de produção do caça.

Mercado internacional aumenta a importância da linha brasileira 

A expansão ocorre em um momento favorável ao Gripen E/F. Além das encomendas do Brasil e da Suécia, a Colômbia assinou em novembro de 2025 contrato de 3,1 bilhões de euros para 17 aeronaves, sendo 15 Gripen E e dois Gripen F, com entregas previstas até 2032. A Tailândia, que já opera o Gripen C/D, contratou quatro aeronaves da nova geração, três Gripen E e um Gripen F, em negócio de aproximadamente 5,3 bilhões de coroas suecas.

A Ucrânia acrescenta uma variável de grande dimensão. Em maio, Estocolmo e Kiev anunciaram passos para uma possível aquisição inicial de até 20 Gripen E/F pela Ucrânia, paralelamente à intenção sueca de doar até 16 Gripen C/D. A Saab ressalvou, entretanto, que a negociação dos novos Gripen ainda não representa uma encomenda contratada.

Esse crescimento potencial da carteira pressiona a capacidade produtiva da Saab e ajuda a explicar a decisão de estruturar dois polos de montagem. Informações divulgadas pela própria empresa e acompanhadas pelo LRCA indicam que aeronaves destinadas a clientes internacionais poderão ser produzidas no Brasil. Isso não significa que toda nova encomenda será automaticamente direcionada a Gavião Peixoto, mas torna a unidade brasileira uma alternativa industrial concreta para distribuir carga de produção e reduzir prazos de entrega. 


A Colômbia pode ser o primeiro teste da vocação exportadora 

A encomenda colombiana é especialmente relevante por razões geográficas, logísticas e industriais. O LRCA vem acompanhando desde 2025 a possibilidade de participação da Embraer na produção dos Gripen destinados à Força Aeroespacial Colombiana. Com o contrato já assinado, o tema deixou de ser apenas uma hipótese comercial sobre a escolha do caça e passou a depender da definição de como Saab e Embraer distribuirão efetivamente a fabricação dos exemplares colombianos.

A proximidade entre os dois países e a existência de uma linha já capacitada na América do Sul favorecem Gavião Peixoto, mas a participação brasileira em cada lote deve ser tratada com cautela até que os fabricantes divulguem o planejamento industrial definitivo. O fato objetivo é que Saab e Embraer passaram a apresentar a planta paulista como instrumento para atender também à demanda global. 

Um ativo estratégico para a Embraer e para a BID 

Para a Embraer, a maturidade alcançada no Gripen amplia um conjunto de competências que vai além da fabricação de uma aeronave específica. A empresa já domina projetos complexos de aviação comercial, executiva e militar, mas a produção e os ensaios de um caça supersônico moderno acrescentam experiência em integração de sistemas de missão, processos industriais de elevada segurança, testes de produção e interação com cadeias internacionais de defesa.

Para a Base Industrial de Defesa (BID), o ganho mais importante é a permanência dessas competências no País. Transferência de tecnologia só produz valor estratégico duradouro quando gera pessoal qualificado, instalações, processos, propriedade intelectual acessível nos termos acordados e capacidade de aplicar o conhecimento em novos ciclos industriais. O voo de 7 de outubro constitui uma evidência concreta de que uma parcela relevante desse objetivo foi atingida.

Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, classificou o primeiro voo como um marco histórico e afirmou que as competências desenvolvidas ao longo dos anos se converteram em capacidades industriais reais e comprovadas no Brasil. Marcus Wandt, chefe da área de negócios Aeronautics da Saab, destacou que a produção brasileira atingiu um novo nível de maturidade e cria uma base sólida para o futuro desenvolvimento do Gripen no País. 


O próximo passo 

A aeronave que voou nesta quarta-feira seguirá agora pela campanha de testes de produção e aceitação antes da entrega à FAB. Em paralelo, a atenção se volta para dois movimentos: a continuidade da fabricação dos demais Gripen previstos para a linha brasileira e a transformação do acordo de julho para 20 aeronaves adicionais em contratos definitivos.

O contrato original de 2014 permanece como a base do programa brasileiro. O comunicado de 7 de outubro informa que dez aeronaves foram entregues à FAB até o momento, embora divulgações oficiais anteriores tenham apresentado contagens diferentes em determinados estágios do programa. Por essa razão, o número mais recente divulgado pelas empresas é o mais prudente para retratar a situação atual.

Se a expansão prevista for confirmada e Gavião Peixoto receber também aeronaves destinadas ao mercado externo, o primeiro voo realizado em 7 de outubro poderá ser lembrado como o momento em que a transferência de tecnologia do Programa Gripen ultrapassou definitivamente a condição de compensação industrial e passou a sustentar uma atividade brasileira permanente dentro de um programa mundial de aeronaves de combate.

MODIRUM | GESPI transforma experiência em munições em solução industrial modular

Nova estação turn-key pode ser configurada para munições de 105, 120 e 155 mm e insere a empresa em um mercado global pressionado pela necessidade de ampliar e descentralizar capacidades produtivas 



*LRCA Defense Consulting - 07/10/2026

Da munição à capacidade de produzir 
A MODIRUM | GESPI ampliou seu portfólio com uma solução turn-key para implantação de estações de carregamento de munições, movimento que leva a empresa além do fornecimento de produtos de defesa e passa a oferecer também a engenharia necessária para estabelecer ou ampliar capacidades industriais.

A proposta ganha relevância por combinar três características particularmente valorizadas no atual mercado de defesa: modularidade, flexibilidade para diferentes calibres e possibilidade de expansão conforme a demanda. Segundo o material técnico divulgado pela empresa, a plataforma pode ser configurada para munições de 105 mm, 120 mm e 155 mm, incluindo diferentes variantes, e permite fabricar distintas famílias de projéteis dentro da mesma infraestrutura.

Mais do que um novo equipamento, a solução representa a transformação da experiência acumulada pela companhia na produção de munições em um produto industrial potencialmente exportável. Em vez de vender apenas o resultado final da fábrica, a MODIRUM | GESPI passa a oferecer parte do conhecimento necessário para que outros clientes desenvolvam capacidade própria de produção.

Um conceito diferente da linha contínua 
O elemento central da solução é a substituição do fluxo tradicional de produção contínua por estações modulares independentes. Em uma linha convencional, o produto se desloca sucessivamente entre diferentes etapas e uma interrupção em determinado ponto pode repercutir sobre todo o processo.

No conceito apresentado pela MODIRUM | GESPI, cada módulo funciona de maneira independente e o corpo do projétil permanece em sua estação durante o processo. A empresa afirma que essa arquitetura reduz a movimentação interna de materiais, diminui a dependência de um fluxo serial e limita os efeitos provocados por paradas de máquinas ou interrupções em outros pontos da produção.

A modularidade também permite adequar a configuração às necessidades do cliente e acrescentar ou reorganizar estações conforme a demanda. Dessa forma, investimentos adicionais podem acompanhar o crescimento da produção, em vez de exigir, desde o início, uma estrutura dimensionada para a capacidade máxima.

Uma plataforma para três calibres 
Outro diferencial destacado é a produção multicalibre. A mesma plataforma pode ser configurada para 105 mm, 120 mm e 155 mm, sem que cada família de munição exija necessariamente uma linha completamente independente.

De acordo com a documentação da empresa, a mudança entre modelos é realizada principalmente por ajustes de configuração e pequenas alterações de ferramental. Essa característica pode ser especialmente relevante para países ou fabricantes que necessitam produzir volumes diferentes de várias famílias de munições e não dispõem de escala suficiente para justificar instalações exclusivas para cada uma delas.

O calibre 155 mm confere dimensão estratégica adicional à iniciativa. A guerra na Ucrânia evidenciou o consumo elevado de munição de artilharia em conflitos de alta intensidade e desencadeou uma corrida internacional pela recomposição de estoques e ampliação da capacidade industrial.

A corrida mundial pela capacidade industrial 
A tendência não se limita à compra de munições prontas. Países da OTAN vêm procurando ampliar, distribuir e tornar mais resiliente sua própria capacidade de produção. Em julho de 2026, nove aliados anunciaram o projeto multinacional Generic NATO Indirect Fire Round (GENIFR), destinado a estabelecer parâmetros para uma futura munição genérica de 155 mm plenamente intercambiável e interoperável. Segundo a Aliança, a iniciativa pretende simplificar e acelerar a produção.

No mesmo contexto, a OTAN lançou o NATO Engine, iniciativa voltada a conectar empresas a fábricas e instalações avançadas com capacidade disponível, estimulando produção transfronteiriça e expansão industrial. O princípio é relevante para compreender o mercado potencial de soluções modulares: a questão estratégica deixou de ser apenas onde comprar munição e passou a incluir onde e com que rapidez é possível criar nova capacidade de produzi-la.

A dimensão dessa demanda pode ser observada nos investimentos dos grandes fabricantes. A Rheinmetall, por exemplo, informou em setembro que continua ampliando instalações existentes e construindo novas unidades, com objetivo de atingir aproximadamente 1,5 milhão de projéteis de 155 mm por ano em 2030. A empresa vem recebendo sucessivos contratos internacionais para fornecimento desse tipo de munição.

Gargalos permanecem na cadeia 
A estação da MODIRUM | GESPI, entretanto, não deve ser confundida, com as informações disponíveis, com uma fábrica integral e verticalizada de munições. O material divulgado trata especificamente de uma solução de estação de carregamento e não detalha a inclusão de todas as etapas anteriores da cadeia, como fabricação do corpo do projétil, produção de explosivos, propelentes e espoletas.

A distinção é importante porque alguns dos maiores gargalos internacionais estão justamente nos materiais energéticos. A Comissão Europeia já identificou limitações na disponibilidade de nitrocelulose energética, nitroglicerina e altos explosivos, além da capacidade instalada para mistura, extrusão e acondicionamento de propelentes, como obstáculos à expansão da produção de munição de artilharia.

Portanto, a solução apresentada deve ser entendida pelo que está comprovado: uma arquitetura modular para estações de carregamento, concebida para aumentar flexibilidade, escalabilidade e continuidade operacional. Não há, até o momento, dados públicos sobre capacidade anual de cada configuração, prazo de implantação, nível de automação, preço ou clientes já contratados.

Uma evolução da estratégia da MODIRUM | GESPI 
O lançamento não surge isoladamente. Após adquirir participação majoritária na GESPI, a Modirum Defence anunciou investimento nas instalações industriais brasileiras para desenvolver produção regular de munição de 155 mm padrão OTAN. O plano divulgado previa o início de volumes mensais regulares a partir de abril de 2025 e posterior ampliação de acordo com a demanda.

Em setembro de 2025, MODIRUM | GESPI e IMBEL anunciaram o fortalecimento de sua parceria estratégica, destacando compartilhamento de conhecimento técnico, desenvolvimento de soluções, certificação, padronização e controles de qualidade para atender às Forças Armadas brasileiras e ao mercado internacional.

A internacionalização ganhou outro instrumento em junho de 2026, com a criação da Modirum International, estrutura do grupo dedicada a vendas, comercialização e logística de defesa em escala global. Sua atuação inclui munições, foguetes, sistemas aéreos não tripulados, componentes de munição e matérias-primas destinadas à fabricação de produtos de defesa.

A nova estação turn-key se encaixa nessa trajetória. A companhia passa a ter condições de oferecer não apenas munições e componentes, mas uma solução de engenharia destinada a clientes que pretendam instalar ou ampliar capacidade local de carregamento.

Produção local como ativo estratégico 
A busca por soberania industrial tornou-se um dos efeitos duradouros das crises recentes. Estoques nacionais, capacidade de reposição e segurança das cadeias de suprimento voltaram a ocupar posição central no planejamento de defesa. Nesse cenário, países que não pretendem construir grandes complexos industriais desde o início podem encontrar valor em instalações escaláveis e configuráveis para diferentes necessidades.

É justamente nesse espaço que a proposta da MODIRUM | GESPI pode encontrar oportunidades. Uma solução modular reduz a necessidade de estruturas dedicadas a um único modelo e permite ampliar a capacidade de forma progressiva. Para mercados que desejam nacionalizar parte da produção, estabelecer uma segunda fonte ou criar reservas industriais mobilizáveis, essa flexibilidade pode representar vantagem.

Ainda não é possível medir a dimensão comercial da iniciativa. A empresa não divulgou contratos, clientes, capacidade produtiva por estação ou mercados específicos em negociação. Também não há elementos públicos suficientes para afirmar que o sistema constitua uma fábrica completa de munições.

Mesmo com essas ressalvas, o lançamento representa uma evolução relevante. Ao transformar conhecimento adquirido na fabricação de munições em uma solução industrial oferecida ao mercado, a MODIRUM | GESPI procura ocupar um segmento que ganhou importância estratégica: não apenas fornecer munição, mas ajudar a criar a capacidade para produzi-la.

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