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27 setembro, 2026

Embraer reafirma Mahindra na disputa militar indiana e esclarece papel da Adani

Declaração de Bosco da Costa Junior mantém a divisão entre as parcerias militar e comercial em meio à concorrência por 60 aeronaves de transporte 



*LRCA Defense Consulting - 27/09/2026

A Embraer reafirmou que o Grupo Mahindra permanece como seu parceiro na disputa pelo programa de aeronaves de transporte médio da Força Aérea Indiana, enquanto a colaboração com o Grupo Adani está voltada à aviação comercial. O esclarecimento foi feito pelo presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, Bosco da Costa Junior, em entrevista à agência ANI repercutida pela imprensa indiana em 27 de setembro.

A declaração ganhou relevância porque a Adani também figura entre as empresas indianas que receberam o pedido de propostas para o programa militar. Questionado sobre a possibilidade de atuar com esse grupo na concorrência, Bosco reafirmou a escolha da Mahindra para oferecer o C-390 Millennium e a manutenção da parceria comercial com a Adani.

Parceria construída desde 2024 
Embora algumas manchetes apresentem a escolha da Mahindra como novidade, a cooperação foi anunciada em fevereiro de 2024, com a assinatura de um memorando de entendimento. Em outubro de 2025, as empresas aprofundaram a relação por meio de um acordo de cooperação estratégica, abrangendo comercialização conjunta, industrialização e desenvolvimento da Índia como centro de produção e suporte do C-390.

Em fevereiro de 2026, anunciaram planos para estabelecer uma instalação de manutenção, reparo e revisão na Índia, condicionada à seleção da aeronave no programa. A estrutura proposta inclui manutenção básica e pesada, inspeções estruturais, reparo de componentes, suporte de aviônicos e treinamento.

A entrevista atual, portanto, reafirma a composição da candidatura brasileira. Os textos consultados não anunciam um novo acordo entre Embraer e Mahindra nem apresentam uma decisão indiana de aquisição do C-390.

Concorrência por 60 aeronaves 
O programa busca iniciar a substituição da envelhecida frota de transporte indiana. Conforme a cobertura da ANI, o pedido de propostas foi encaminhado a Mahindra, Tata, Hindustan Aeronautics Limited, Reliance Defence e Adani. A imprensa informa uma opção de ampliar em 50% o lote inicial de 60 unidades, o que representaria mais 30 aeronaves, caso essa possibilidade seja exercida.

O LRCA já havia noticiado a emissão do pedido de propostas em 12 de agosto. Na entrevista agora divulgada, Bosco afirmou que a Embraer está empenhada em responder dentro do cronograma solicitado. A fabricante apresenta o C-390 como solução para substituir o An-32 e contribuir para a padronização da frota de transporte médio da força.

Produção e suporte com alcance internacional 
A Embraer também reiterou o interesse em ampliar sua cadeia de fornecedores e sua rede de manutenção a partir da Índia para acompanhar o crescimento da frota mundial do C-390. Essa ambição já estava presente no acordo estratégico de 2025 e no anúncio de manutenção de fevereiro de 2026.

Na frente comercial, a associação com a Adani contempla oportunidades ligadas à fabricação, à cadeia de suprimentos, aos serviços de pós-venda e à formação de pilotos. O esclarecimento de Bosco delimita essas duas frentes de atuação, preservando a Mahindra como parceira da proposta militar, cuja concretização industrial depende do resultado da concorrência.

26 setembro, 2026

Robôs terrestres abrem rotas e chegam pelo ar à retaguarda russa na Operação Vivaldi

O 3º Corpo de Exército da Ucrânia relata 30 km de trajetos desminados e o emprego de veículos explosivos lançados por drones; os resultados e o alegado pioneirismo ainda dependem de confirmação independente 

Imagem meramente ilustrativa rendererizada por IA


*LRCA Defense Consulting - 26/09/2026

Na ofensiva ucraniana no eixo de Lyman, no norte da região de Donetsk, robôs terrestres passaram a cumprir tarefas diretamente ligadas à progressão das tropas. Segundo o 3º Corpo de Exército, veículos não tripulados abriram rotas minadas no setor de Shandryholove e outros, transportados por drones aéreos pesados, foram lançados na retaguarda russa para ataques explosivos. As duas ações integram a Operação Vivaldi, mas têm funções e divulgações distintas.

Desminagem antes da progressão 
Em comunicado divulgado em 24 de setembro e repercutido pela agência Ukrinform no dia seguinte, o 3º Corpo afirmou que seus sistemas terrestres abriram 30 km de rotas no setor de Shandryholove. De acordo com a unidade, os robôs concluíram o trecho mais difícil em duas noites, sem mortos nem feridos entre os sapadores envolvidos. A comparação apresentada pelo Corpo é que duas companhias de engenharia precisariam de aproximadamente uma semana para executar a mesma tarefa.

Os 30 km se referem à extensão acumulada de rotas, não a uma faixa contínua de terreno nem à área total desminada. A unidade não informou publicamente a quantidade e o tipo de engenhos removidos, a largura das passagens, o número de robôs empregados ou o método de verificação da segurança dos trajetos. Por isso, tanto a extensão divulgada quanto a estimativa de tempo poupado devem ser atribuídas ao 3º Corpo, sem convertê-las em medidas independentes de produtividade.

O Corpo afirma ainda que veículos não tripulados retiram cerca de 60% das minas antipessoal em sua área de responsabilidade. Essa proporção descreve a atuação geral da formação, e não deve ser confundida com a operação específica em Shandryholove. Segundo os militares, os sistemas também fazem transporte de suprimentos, evacuação de feridos e lançamento remoto de minas. 


Robôs lançados por drones 
Em outra frente da Vivaldi, drones aéreos pesados da 3ª Brigada de Assalto lançaram veículos terrestres explosivos a mais de 10 km na retaguarda russa, segundo publicação do próprio 3º Corpo em 24 de setembro. A unidade atribuiu a tática ao grupo NC13 e divulgou imagens registradas pelas câmeras dos robôs. O uso do meio aéreo permitiu posicionar os veículos em locais que seriam difíceis de alcançar por deslocamento terrestre a partir das linhas ucranianas.

O Corpo classifica a ação como inédita no mundo. As imagens e a descrição divulgadas permitem relatar o emprego anunciado, mas não bastam para comprovar uma primazia histórica universal nem para medir, de modo independente, seus efeitos militares. A operação combinou também apoio de drones aéreos, guerra eletrônica, defesa antiaérea e ação da infantaria; não há base para atribuir a retomada das localidades aos robôs isoladamente. 

Imagem meramente ilustrativa rendererizada por IA

A manobra continua possível, mas sob novas condições
A Operação Vivaldi indica que a vigilância por drones dificulta ataques e contra-ataques, mas não impede avanços locais de infantaria e blindados. Segundo o vice-comandante do 3º Corpo de Exército ucraniano, coronel Rodion Kudryashov, a progressão exigiu meses de preparação: estabilizar a frente, reorganizar o comando, reunir recursos, atingir a logística russa e reduzir a capacidade inimiga de observar e atacar as tropas. Robôs terrestres e drones assumiram parte das tarefas mais expostas antes da entrada dos soldados. 

Na análise de Sameer Joshi, a lição central é que a força atacante precisa criar uma proteção local e temporária contra a observação e os ataques inimigos. Isso permite avançar por etapas; a cada nova posição, os meios de detecção, guerra eletrônica, defesa contra drones e comunicações precisam acompanhar a tropa e restabelecer a proteção. É uma leitura plausível da operação, mas os dados públicos ainda não mostram por quanto tempo essa proteção funcionou em cada avanço nem comprovam que o método produziria uma ruptura profunda. Assim, a Vivaldi sustenta uma conclusão mais precisa: a manobra permanece possível quando suas condições são preparadas e mantidas, embora seu alcance continue condicionado à reação do adversário e à capacidade de sustentar o avanço.

O que a combinação revela

Os dois usos apontam para papéis complementares na manobra: um sistema reduz a exposição de engenheiros ao preparar rotas para o avanço; o outro é inserido por via aérea para atacar a retaguarda. Em ambos os casos, o objetivo declarado é colocar máquinas nas etapas de maior risco antes de enviar soldados. Trata-se de uma evolução no emprego operacional dos robôs, não de prova de que possam substituir a engenharia de combate ou a infantaria.

Para o Brasil, o episódio reforça uma questão já presente no debate sobre sistemas não tripulados: além de veículos armados, uma força precisa integrar plataformas de engenharia, transporte, comunicações, drones aéreos e procedimentos de verificação de rotas em condições reais de combate. O LRCA já registrou o desenvolvimento nacional de robôs para neutralização de explosivos e estudos com plataformas terrestres remotamente pilotadas. A experiência ucraniana sugere aplicações a investigar, sem demonstrar que as soluções brasileiras já disponham das mesmas capacidades.

Drones um ano depois: Índia avança e Brasil busca escala

Nova Délhi prepara a maior encomenda de drones militares de sua história, com mais de US$ 2 bilhões reservados à indústria local; no mesmo período, o Brasil modernizou regras, testou sistemas nacionais e sinalizou recursos no orçamento, mas segue sem o programa de incentivo capaz de dar escala à BID



*LRCA Defense Consulting - 26/09/2026

Em setembro de 2025, a LRCA Defense Consulting, em matéria própria, apontou o estado indiano de Tamil Nadu e a política federal de incentivos da Índia como referência para que o Brasil estruturasse uma indústria de drones competitiva, e propôs a criação de um Programa Brasileiro de Incentivo à Produção de Drones (PBID). Doze meses depois, os dois países avançaram em ritmos muito diferentes. 

A Índia passou da fase de fomento para a de compra em larga escala, convertendo as lições do confronto com o Paquistão, em maio de 2025, em contratos, novas regras de aquisição e metas de nacionalização. 

O Brasil também se movimentou, com uma nova regulamentação da ANAC, campanhas de avaliação de drones pelo Exército e uma ação orçamentária que passa a citar os drones de forma explícita. Falta, porém, uma política industrial dedicada ao setor.

A maior encomenda da história indiana 
Em 3 de junho, a agência Reuters revelou que a Índia deverá encomendar à indústria nacional, ainda em 2026, mais de US$ 2 bilhões (acima de 200 bilhões de rúpias) em drones militares de classe tática. A informação partiu de Smit Shah, presidente da Drone Federation India, entidade que reúne mais de 550 empresas e trabalha em estreita colaboração com o governo. Segundo ele, o plano está em estágio avançado, deve seguir um rito de aquisição acelerado (fast track) e prevê entregas em 18 a 24 meses. O valor representa um salto em relação às encomendas recentes de drones táticos, estimadas em 30 bilhões de rúpias (cerca de US$ 313 milhões). O Ministério da Defesa indiano não comentou a reportagem.

Os beneficiários potenciais vão de conglomerados como Adani Group, Larsen & Toubro e Tata Advanced Systems a empresas especializadas e startups como ideaForge, NewSpace Research e Asteria Aerospace, com produtos que cobrem reconhecimento, logística, munições remotamente pilotadas, ataque de precisão e componentes críticos. A motivação é explícita: no conflito de maio de 2025, os dois lados empregaram drones em larga escala, e o episódio expôs lacunas indianas de vigilância e ataque. 

Uma sequência de decisões em poucos meses 

A encomenda bilionária não é um fato isolado. Ela se apoia em uma série de medidas adotadas desde o início do ano:

• Orçamento recorde: o orçamento de defesa para o ano fiscal 2026-27 chegou a 7,85 trilhões de rúpias, alta de cerca de 15%, com 75% das aquisições de capital reservadas a fornecedores nacionais.

• Drone de combate furtivo: em 27 de março, o Conselho de Aquisições de Defesa (DAC) aprovou a compra de 60 aeronaves de ataque remotamente pilotadas do antigo projeto Ghatak, do DRDO, estimada em 390 bilhões de rúpias (aproximadamente US$ 4 bilhões), com meta de 80% de nacionalização.

• Compra descentralizada: em 2 de junho, o ministro Rajnath Singh assinou a nova delegação de poderes financeiros às Forças Armadas, que permite aos comandos adquirir diretamente, com verbas de custeio, drones que dispensam pista e custam até 50 milhões de rúpias por unidade, sem passar pelo ciclo centralizado de investimentos.

• Novas aprovações: em 3 de julho, o DAC autorizou cerca de 520 bilhões de rúpias em aquisições que incluem sistemas antidrone de guerra eletrônica, um drone kamikaze a jato para o Exército, drones embarcados e aeronaves não tripuladas de alta altitude.

• Contratos assinados: em agosto, o governo contratou a Tata Advanced Systems e a NIBE Limited, por 15,77 bilhões de rúpias (cerca de US$ 165 milhões), para fornecer sistemas de munição remotamente pilotada e 840 munições ao Exército.

Em paralelo, a minuta do novo Procedimento de Aquisição de Defesa, divulgada em fevereiro, impede a importação de itens incluídos na Lista Positiva de Nacionalização e cria um caminho específico para drones comerciais de prateleira (commercial off-the-shelf), que podem ser aceitos com base na certificação do fornecedor e em testes de recebimento, sem as longas avaliações de campo. 


A demanda, mais do que o subsídio, mudou o jogo 

A comparação com o cenário de 2025 traz uma lição importante. O esquema de incentivo à produção (PLI) para drones, destacado na reportagem anterior, teve orçamento modesto: 1,2 bilhão de rúpias em três anos. O que transformou a indústria indiana foi a combinação desse estímulo inicial com a proibição de importação de drones prontos, um mercado civil em expansão e, sobretudo, a decisão do Estado de comprar em volume e rapidamente de fornecedores locais.

O ecossistema resultante já soma mais de 600 empresas ligadas a drones, das quais mais de uma centena atua em defesa. O programa iDEX, voltado a startups e pequenas empresas, reunia 676 participantes em março de 2026, e 58 protótipos, avaliados em 38,5 bilhões de rúpias, receberam autorização de compra. A dependência de componentes chineses (motores, sensores e sistemas de imagem) continua sendo o ponto fraco reconhecido pelo próprio governo, que estabeleceu a meta de produzir no país ao menos 40% dos componentes-chave até o ano fiscal de 2028, com apoio de crédito barato do banco estatal SIDBI. A imprensa indiana também noticiou a preparação de um novo esquema quinquenal de incentivo à manufatura de drones, da ordem de 100 bilhões de rúpias, cuja implantação ainda não aparece confirmada nas fontes consultadas.

O Brasil também saiu do lugar 
Do lado brasileiro, o ano trouxe avanços concretos, alguns deles alinhados às propostas feitas pela LRCA em 2025:

• Nova regulamentação: a ANAC aprovou o RBAC 100 pela Resolução nº 805, em vigor desde 16 de junho, substituindo o RBAC-E 94. As operações passaram a ser classificadas por risco (categorias Aberta, Específica e Certificada), e não mais pelo peso da aeronave. O Decea complementou o marco com a ICA 100-40, sobre acesso ao espaço aéreo, e a ICA 100-48, sobre gerenciamento de tráfego não tripulado, ambas vigentes desde 1º de julho.

• Certificações nacionais: o Harpia, da Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD), recebeu Autorização de Projeto da ANAC em abril, habilitando sua produção em série; em setembro, o Nauru 100D, da XMobots, foi autorizado a operar até 30 quilômetros de alcance e 6 mil pés de altitude, de dia e à noite.

• Avaliação pelo Exército: entre 22 de junho e 3 de julho, a Diretoria de Fabricação conduziu uma campanha de pré-qualificação de drones lançadores de munição e de sistemas de munições remotamente pilotadas. Das 84 propostas submetidas por empresas da BID, 32 chegaram aos testes práticos e sete estavam qualificadas até 30 de junho; um segundo edital foi publicado em agosto. Entre os pré-qualificados figura a Vultis, startup criada por estudantes da UFSC em Joinville (SC).

• Espaço fiscal: a lei complementar que exclui até R$ 30 bilhões em investimentos de defesa do arcabouço fiscal, ao longo de seis anos, permitiu ao Exército projetar cerca de R$ 3 bilhões anuais para seus programas estratégicos entre 2026 e 2031.

• Sinal orçamentário: o PLOA 2027 reserva R$ 520 milhões à ação Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones e R$ 467 milhões ao Sisfron. A primeira ação não se destina apenas a drones e o projeto ainda depende de aprovação no Congresso, mas é a primeira vez que o termo aparece no título de uma das maiores ações de investimento da Força Terrestre.

• Sinal político: em 8 de setembro, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, afirmou ao Metrópoles que as Forças Armadas investirão fortemente em drones para reforçar a vigilância das fronteiras, onde atuam cerca de 20 mil militares, e citou a Ucrânia, a China e a Turquia como referências.

Somam-se a isso a inclusão de drones de impacto na lista de Produtos Estratégicos de Defesa, em agosto, e a Política de Inteligência Artificial do Ministério da Defesa, instituída pela Portaria GM-MD nº 4.360, de 24 de agosto, que trata da redução da dependência tecnológica, tema diretamente ligado à soberania sobre o software embarcado.

O que continua no solo 
Apesar dos avanços, o diagnóstico de 2025 permanece essencialmente válido. Em audiência pública da Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) do Senado, em 8 de setembro, convocada a pedido do senador Marcos Pontes (PL-SP) para discutir um Programa Nacional de Drones, foi informado que o País já tem 177 mil drones cadastrados na ANAC e registra cerca de 10 mil novos equipamentos por mês. A representante da Secretaria Nacional de Aviação Civil, Júlia Lopes da Silva Nascimento, listou os entraves: carga tributária elevada, falta de incentivos à cadeia produtiva, escassez de mão de obra especializada, pouco fomento à pesquisa, crédito restrito e ausência de uma estratégia nacional para o setor.

O presidente da ABDrone, Pedro Curcio Júnior, defendeu redução de impostos sobre equipamentos e componentes, apoio a pequenos empreendedores e integração entre ANAC, Decea e Anatel. Pela Força Aérea, o major-brigadeiro do ar Frederico Casarino tratou o desenvolvimento de drones nacionais como questão de soberania, resumindo a posição da FAB na frase "o melhor parceiro do Brasil é o próprio Brasil". Pontes anunciou a intenção de propor um marco legal para o setor e de criar uma frente parlamentar.

Em outras palavras, o Brasil ainda não criou um programa de incentivo à produção, um conselho nacional que articule governo, empresas e universidades, nem uma encomenda plurianual com volumes definidos. A diferença de escala é evidente: enquanto a Índia prepara um pacote superior a US$ 2 bilhões apenas para drones táticos, a principal ação brasileira que menciona drones soma R$ 520 milhões e é compartilhada com a Aviação do Exército. 


Lições para dinamizar a BID 

A experiência indiana dos últimos doze meses permite atualizar a agenda proposta em 2025, deslocando o foco do subsídio para a demanda:

• Encomenda firme e previsível: mais do que incentivos fiscais, a indústria precisa de um horizonte de compras. Um plano plurianual de aquisição de sistemas não tripulados, com quantidades e categorias definidas, daria às empresas a segurança para investir em linhas de produção, a exemplo do que o pedido de 60 aeronaves Ghatak fez pela cadeia indiana.

• Rito de aquisição compatível com a tecnologia: drones táticos envelhecem em meses. A pré-qualificação do Exército é um bom primeiro passo, mas precisa desembocar em compras experimentais por lotes e, possivelmente, em autorização para que os Comandos Militares de Área adquiram diretamente sistemas de pequeno porte já qualificados, como fez a Índia.

• Preferência nacional clara: a Lei nº 12.598/2012 já oferece os instrumentos de Empresa Estratégica de Defesa e Produto Estratégico de Defesa. Falta definir categorias de drones em que a importação seja excepcional, à semelhança da lista positiva indiana.

• Cadeia de componentes: metas de conteúdo nacional para motores, baterias, sensores, enlaces de dados e software embarcado, com linhas de crédito da Finep e do BNDES, atacariam o ponto que a própria Índia ainda não resolveu.

• Ponte entre startups e Forças Armadas: a presença de uma empresa nascida em ambiente universitário entre os pré-qualificados mostra que há talento disponível. Um mecanismo nos moldes do iDEX, com desafios, financiamento de protótipos e compromisso de compra, poderia multiplicar esses casos.

• O marco legal como oportunidade: o debate aberto na CCT do Senado pode ser o veículo para institucionalizar o PBID e o Conselho Nacional de Drones propostos em 2025, integrando regulação, incentivo à produção e demanda de defesa em um único instrumento.

Da vitrine à escala 
Há um ano, o Brasil tinha potencial, mas não tinha regras modernas, sinal orçamentário nem processo estruturado de avaliação de sistemas nacionais. Hoje tem os três, ainda que em estágio inicial. A Índia mostra que o passo seguinte, e decisivo, é transformar protótipos qualificados em encomendas de volume, com prazos curtos e preferência pela indústria local. Sem isso, empresas como XMobots, AdTech SD, Stella Tecnologia e outras seguirão demonstrando capacidade em vitrines e exercícios, mas sem a escala que sustenta uma base industrial. Com isso, o País pode, enfim, fazer a decolagem que parecia iminente em 2025.

Guardião Cibernético mobiliza instituições em sete cidades e testa resposta a crises digitais

Oito anos após sua criação, exercício coordenado pelo Exército amplia os cenários simulados; setor nuclear inclui transporte marítimo e fontes oficiais divergem sobre o número de participantes

Imagem meramente representativa


*LRCA Defense Consulting - 26/09/2026

O Exercício Guardião Cibernético 8.0 terminou na sexta-feira (25) após cinco dias de simulações de ataques capazes de afetar serviços essenciais. Com sede na Escola Superior de Defesa, em Brasília, e polos em Belém, Manaus, Curitiba, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, a atividade reuniu Forças Armadas, órgãos públicos, reguladores, empresas e instituições de ensino para testar a resposta conjunta a incidentes cibernéticos. Sua realização coube ao Ministério da Defesa, sob coordenação do Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber) do Exército, com participação da Marinha e da FAB.

No ambiente simulado, militares do Exército desempenharam o papel de atacantes. Equipes das instituições participantes precisaram identificar, conter e responder às ameaças, enquanto gestores exercitaram decisões e planos de contingência. Os setores envolvidos incluíram energia, água, telecomunicações, finanças, transporte e atividades nucleares. O treinamento, portanto, examinou tanto procedimentos técnicos quanto a articulação entre organizações responsáveis por infraestruturas críticas.

Quatro cenários no setor nuclear 

Uma das novidades mais concretas surgiu no setor nuclear. Segundo a Secretaria Naval de Segurança Nuclear e Qualidade (SecNSNQ), da Marinha, foram trabalhados quatro cenários em Brasília: uma usina nuclear em terra, um hospital, um laboratório e uma embarcação que transportava material nuclear com destino a uma usina nuclear flutuante. O cenário marítimo foi incluído pela primeira vez no Guardião Cibernético. A preparação utilizou o Anshar, simulador de ataques cibernéticos da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) informou que todos os cenários destinados ao setor foram inéditos ou reformulados. A autarquia distingue a simulação construtiva, voltada à gestão da crise, comunicação e coordenação institucional, da simulação virtual, em que equipes técnicas respondem a situações em tempo real. A ANSN também menciona um cenário relativo a pequenos reatores modulares, elaborado com colaboração da Marinha, sem especificar se corresponde ao transporte marítimo descrito pela SecNSNQ.

A composição das equipes demonstra a amplitude da resposta exigida por um incidente. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) relatou a participação de profissionais das áreas técnica, jurídica, de comunicação e da alta gestão. O chefe do Centro de Ciência e Tecnologia do Exército, general Hertz Pires do Nascimento, também destacou o papel da comunicação social para informar a população sobre uma crise e as medidas adotadas. 

Contagens oficiais ainda não coincidem 
A dimensão do exercício exige uma ressalva. O Ministério da Defesa informou na abertura cerca de 1.300 participantes, 300 organizações e representantes de 14 países. Nota do Exército divulgada na manhã do último dia repetiu esses números. Já a SecNSNQ registrou mais de 4 mil participantes, 382 instituições públicas e privadas e representantes de 20 países; a CNEN apresentou números próximos para pessoas e instituições.

As notas não esclarecem os critérios usados em cada contagem. Uma possibilidade é que os números menores retratem um conjunto mais restrito de participantes e os maiores incluam atividades nos polos e outras modalidades de participação, mas isso ainda não foi confirmado pelos organizadores. Também não há explicação publicada para a diferença entre 14 e 20 países. Por isso, os dados devem permanecer atribuídos a cada fonte, sem serem tratados como uma série única ou um balanço reconciliado.

Na edição de 2025, a Escola Superior de Defesa havia distinguido cerca de 750 profissionais e 169 organizações de aproximadamente mil pessoas envolvidas em atividades on-line. A experiência anterior mostra que diferentes modalidades podem produzir contagens distintas, mas não define quais critérios foram empregados em 2026.  


O que o exercício ainda precisa demonstrar 
O material divulgado até o momento descreve cenários, setores e procedimentos exercitados, mas não apresenta um relatório consolidado de lições aprendidas. Não foram divulgados, nas fontes consultadas, tempos de detecção ou contenção dos ataques simulados, vulnerabilidades encontradas ou medidas corretivas resultantes. Esses dados permitiriam avaliar com mais precisão o que o Guardião Cibernético revelou sobre a capacidade de resposta nacional.

Ao reunir instituições de setores interdependentes, a oitava edição ampliou as oportunidades de testar decisões e canais de cooperação sob pressão. A extensão desse aprendizado para a proteção efetiva dos serviços essenciais dependerá das correções adotadas após o exercício e de um balanço que permita verificar seus resultados.

Taurus no Gripen reforça perspectiva para mísseis brasileiros, mas integração exige etapas próprias

Avanço anunciado na Suécia mostra a capacidade de adaptação do caça; MICLA-BR é o candidato mais diretamente associado ao F-39, enquanto emprego do MARSUP ainda dependeria de decisões e estudos específicos



*LRCA Defense Consulting - 26/09/2026

A TAURUS Systems anunciou em 24 de setembro que concluiu em “tempo recorde” a integração do míssil de cruzeiro Taurus ao Gripen. O resultado é um sinal favorável para o Brasil, que opera o F-39 e desenvolve projetos próprios de mísseis de lançamento aéreo. Ele, contudo, não estabelece um prazo para integrar armamentos brasileiros nem prova que esse trabalho poderia repetir a velocidade alcançada na Suécia.

O comunicado da fabricante não informa a duração dos trabalhos, os testes realizados, o alcance da certificação ou a configuração precisa da aeronave. A notícia da Defense Express identifica o Gripen C/D sueco e relata que houve um primeiro lançamento em agosto. O F-39 brasileiro pertence à família Gripen E/F. Por isso, a experiência é um precedente relevante, mas seus resultados não podem ser transferidos automaticamente para a versão brasileira. 


O que a integração realmente demonstra 
A Saab apresenta o Gripen E como uma plataforma concebida para incorporar novos armamentos e atualizar suas funções de missão. Essa arquitetura pode facilitar o trabalho de engenharia. Ainda assim, a integração de um míssil envolve verificar peso e dimensões, suportes e alimentação elétrica, troca de dados, apresentação de informações ao piloto, programação da missão e separação segura durante o lançamento. Ensaios em solo e em voo e a aprovação da configuração completam o processo. A dificuldade e o prazo variam de arma para arma.

Há outra particularidade: a TAURUS Systems reúne a MBDA e a Saab entre seus acionistas. Essa relação industrial pode ter facilitado a cooperação no programa sueco. Ela não constitui, por si só, garantia de acesso equivalente a interfaces, equipes e recursos para um projeto brasileiro.

MICLA-BR é a conexão mais direta 
O MICLA-BR nasceu da busca da Força Aérea Brasileira por uma capacidade nacional de ataque de precisão a longa distância. Documentos de planejamento da Aeronáutica o descrevem como míssil de cruzeiro ar-superfície, com histórico de estudos para adaptar tecnologia do AV-TM 300. O LRCA Defense Consulting já registrou sua ligação histórica com a futura integração à família Gripen e observou que o projeto aparece no PLOA 2027 com R$ 11 milhões previstos para aquisição de mísseis de longo alcance.

A rubrica orçamentária, entretanto, não esclarece que material será adquirido, em que estágio está o armamento nem se há contrato de integração ao F-39. Uma eventual campanha dependeria de uma configuração definida do míssil, requisitos da FAB, financiamento, acesso aos dados técnicos necessários e um programa de ensaios acordado com os responsáveis pela aeronave.

MARSUP tem outro ponto de partida 
O MARSUP é objeto de um protocolo de intenções firmado em fevereiro entre a Marinha do Brasil e a SIATT para estudar mísseis ar-superfície antinavio derivados da experiência do MANSUP. Segundo a divulgação do projeto, o foco inicial está em aeronaves da Aviação Naval. Não há anúncio público de escolha do Gripen como plataforma do MARSUP ou de uma campanha para integrá-lo ao F-39.

A possibilidade merece estudo, sobretudo se houver interesse conjunto da Marinha e da FAB em uma capacidade antinavio lançada pelo caça. Seria necessário definir qual versão do míssil seria adequada, sua compatibilidade com a aeronave, a cadeia de designação de alvos marítimos e o custo da integração. Nesse caso, a experiência sueca inspira uma pergunta, não oferece uma resposta pronta. 


Uma oportunidade que depende de decisões 
O avanço com o Taurus mostra que o Gripen pode receber um míssil de cruzeiro de grande porte mediante um programa de integração bem conduzido. Para o Brasil, o principal ganho potencial está em planejar desde cedo o desenvolvimento do míssil e sua interface com o F-39 como partes de uma mesma capacidade operacional. A rapidez sueca fortalece a perspectiva, mas o calendário brasileiro só poderá ser estimado quando houver armamento definido, recursos contratados e dados públicos sobre os ensaios previstos.

25 setembro, 2026

Projeto na África do Sul abre nova frente tecnológica para a Atech, da Embraer

CEO da Atech confirma à LRCA que o desenvolvimento de AIM integra o contrato firmado com a ATNS em 2025; empresa estuda publicar documento técnico sobre a solução



*LRCA Defense Consulting - 25/09/2026

A Atech, empresa do Grupo Embraer, está ampliando suas capacidades em Gestão da Informação Aeronáutica (AIM) no âmbito do contrato assinado em 2025 com a Air Traffic and Navigation Services (ATNS), estatal responsável pelos serviços de navegação aérea da África do Sul. A confirmação foi dada à LRCA Defense Consulting pelo CEO da Atech, Rodrigo Persico, após uma publicação em que apresentou o projeto como um passo na expansão tecnológica da companhia.

“Esse trabalho faz parte do pacote com a ATNS de 2025, mas nos deu a oportunidade de desenvolver o AIM de ponta, com os recursos mais avançados que temos hoje em dia”, afirmou Persico. Ele acrescentou que a empresa considera publicar um documento técnico sobre o tema. A declaração esclarece que o avanço em AIM está associado ao contrato existente, sem anunciar uma contratação independente.

Do fluxo aéreo à informação aeronáutica 
O acordo anunciado em setembro de 2025 prevê a modernização do sistema de Gestão de Fluxo de Tráfego Aéreo (ATFM) da ATNS no centro de controle situado no Aeroporto Internacional O.R. Tambo, em Joanesburgo. O escopo divulgado à época incluía um centro de contingência e um ambiente de treinamento, simulação e testes. A própria Embraer registrou a contratação em seu relatório anual.

O ATFM procura ajustar a demanda de voos à capacidade disponível de aeroportos e setores do espaço aéreo. Já o AIM cuida dos dados de que dependem o planejamento de voo, a configuração do espaço aéreo e diversas decisões operacionais. São funções distintas, mas relacionadas: a qualidade e a disponibilidade das informações aeronáuticas são necessárias para que os sistemas de gestão de tráfego trabalhem com uma base coerente.

Segundo a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), o AIM envolve a gestão integrada e o intercâmbio de dados aeronáuticos digitais com qualidade assegurada. A ATNS descreve sua base aeronáutica centralizada como um meio de distribuir informações validadas e permitir a integração com outros sistemas. Isso ajuda a entender a relevância do domínio tecnológico que a Atech diz estar desenvolvendo, sem pressupor que a companhia substituirá toda a infraestrutura AIM atualmente usada pela estatal.

Uma capacidade com potencial internacional 
Em sua publicação, Persico afirmou que a experiência sul-africana amplia a capacidade da Atech de desenvolver, integrar, implantar e apoiar soluções de gestão de tráfego aéreo. O valor estratégico está na possibilidade de reunir, em um portfólio mais abrangente, a gestão da informação aeronáutica e as ferramentas que apoiam as decisões sobre fluxo e controle. Trata-se de uma perspectiva comercial, não de anúncio de novos contratos.

A Atech ainda não detalhou quais funções AIM compõem a entrega à ATNS, o estágio de desenvolvimento e implantação da solução nem quando essas funções deverão entrar em operação. Esses pontos permanecem abertos para esclarecimento pela empresa. A eventual publicação do documento técnico mencionado por Persico poderá oferecer uma visão mais precisa da arquitetura e das capacidades desenvolvidas.

Primeiro Embraer C-390 é entregue ao Uzbequistão e abre operação na Ásia Central

Aeronave foi recebida em Gavião Peixoto nesta sexta-feira; contrato firmado em 2024 inclui treinamento, suporte e peças de reposição



*LRCA Defense Consulting - 25/09/2026

A Embraer entregou nesta sexta-feira, 25 de setembro, o primeiro C-390 Millennium à Força Aérea do Uzbequistão. A cerimônia ocorreu nas instalações da fabricante em Gavião Peixoto (SP), com a presença do comandante da força aérea uzbeque, major-general Akhmad Jamolovich Burkhonov, e de Olimkhon Bakiyevich Rustamov, diretor da instituição estatal O‘ztextreyd, em representação do país. O Uzbequistão é o primeiro cliente do avião na Ásia Central.

O acordo foi firmado no fim de 2024, quando a identidade do comprador não foi divulgada. A Embraer revelou, durante o Singapore Airshow de fevereiro de 2026, que se tratava do Uzbequistão e indicou o emprego prioritário dos aviões em transporte e missões humanitárias. O contrato também abrange treinamento, apoio técnico e fornecimento de peças. A fabricante não informou no anúncio desta entrega o valor do negócio, o número total de aeronaves contratadas nem a data das próximas entregas. 


Da assinatura à primeira entrega 
A passagem da encomenda à entrega amplia a presença internacional do programa C-390 e dá início à incorporação da aeronave pela força aérea uzbeque. A entrega formal ocorreu no Brasil; o comunicado não especifica quando o avião chegará ao Uzbequistão ou entrará efetivamente em serviço. Essa distinção é relevante ao avaliar a capacidade operacional já disponível ao país.

Burkhonov afirmou que o C-390 representa um passo na modernização da força aérea e permitirá executar diferentes missões com maior eficiência e prontidão. Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, destacou a entrada do Uzbequistão na comunidade de clientes do modelo e o compromisso da empresa com o suporte à operação. 


Capacidade de transporte e versatilidade 
Segundo a Embraer, o C-390 transporta até 26 toneladas de carga e alcança velocidade de 470 nós, cerca de 870 km/h. Pode levar tropas e equipamentos, realizar lançamentos aéreos, evacuação aeromédica, busca e salvamento, combate a incêndios e assistência humanitária. Foi projetado também para operar em pistas temporárias ou não pavimentadas. Com equipamento de instalação rápida, pode desempenhar missões de reabastecimento em voo como aeronave abastecedora e receptora; o anúncio não esclarece se a unidade uzbeque foi entregue nessa configuração.

A encomenda uzbeque soma-se à expansão do C-390 além dos operadores iniciais Brasil, Portugal e Hungria. A República Tcheca também recebeu sua primeira aeronave em julho de 2026. Outros países selecionaram o modelo, mas seleção e operação efetiva representam etapas diferentes. Para o Uzbequistão, o resultado imediato confirmado é o recebimento da primeira unidade e o início do processo de integração de uma nova capacidade de transporte militar.

24 setembro, 2026

A corrida pela autonomia nacional em sistemas não tripulados: o Brasil entre a dependência e a liderança



*Luis Henrique Unterleider - via LinkedIn - 24/09/2026 

O Brasil vive um paradoxo que define a próxima década de sua defesa ao abrigar a empresa líder no desenvolvimento de drones na América Latina, a Xmobots e, simultaneamente, manter uma dependência crítica da importação de uma parcela dos insumos e componentes essenciais à fabricação e operação desses sistemas.

O país demonstrou capacidade comprovada no desenvolvimento e na integração de plataformas complexas, mas ainda não domina em escala industrial a manufatura dos componentes de maior valor agregado, tais como sensores de alta precisão, unidades de propulsão avançada, aviônica e arquiteturas de software. Essa assimetria ultrapassou a barreira do desequilíbrio econômico para se tornar uma vulnerabilidade estratégica.

Contudo, o cenário atual sinaliza uma mudança que decorre não apenas da maturação tecnológica, mas da convergência institucional construída em torno do setor. Em um curto espaço de tempo, o Estado brasileiro estruturou instrumentos importantes: a Nova Indústria Brasil (NIB) estabeleceu a meta de 75% de autonomia na produção de tecnologias críticas para a defesa até 2033; o Ministério da Defesa reuniu as três Forças para discutir projetos conjuntos de sistemas não tripulados; a ABIMDE - Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança instituiu o Comitê de Veículos Não Tripulados e a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) viabilizou um edital de R$ 300 milhões voltado à Base Industrial de Defesa (BID).

A disputa nacional em curso ultrapassa a mera montagem de vetores aéreos, pois trata-se de uma corrida pelo domínio tecnológico de componentes críticos cujo direcionamento (compartilhado entre o Estado, a indústria nacional e parceiros internacionais) está sendo determinado atualmente.

A sensibilidade intrínseca desse ecossistema e o valor estratégico de seus ativos evidenciam-se de forma concreta no caso da Akaer . Em 2026, o Grupo EDGE, conglomerado de tecnologia avançada e defesa de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, concluiu a aquisição do controle acionário da Akaer, empresa sediada em São José dos Campos (SP) que acumula décadas de experiência em engenharia e atuação em programas relevantes, como os caças Gripen, a aeronave Super Tucano e o cargueiro KC-390. A concretização do negócio assinala a terceira aquisição promovida pelo grupo árabe na indústria de defesa brasileira nos últimos anos. No que tange especificamente ao domínio dos sistemas não tripulados, a transação emite um sinal claro ao mercado internacional, visto que o movimento pode ser entendido como um reforço à capacidade técnica global do Grupo Edge no segmento de aeronaves remotamente pilotadas, reiterando a relevância dos polos tecnológicos brasileiros no cenário geopolítico global.

A soberania tecnológica, sob essa perspectiva, não constitui apenas uma aspiração econômica ou comercial, mas torna-se indispensável para a segurança e sobrevivência do Estado. A dependência externa de componentes críticos em sistemas militares transfere a terceiros, ainda que de forma implícita, frações vitais da capacidade de defesa e dissuasão de uma nação, expondo o país a vulnerabilidades operacionais, geopolíticas e tecnológicas.

Sob a ótica operacional, embargos internacionais, rupturas em cadeias logísticas globais ou atrasos em licenças podem paralisar frotas e sistemas em situações de crise. No âmbito geopolítico, a autonomia de formulação da política externa fica comprometida quando o poder militar repousa sobre fornecedores sujeitos a pressões diplomáticas externas. No campo tecnológico, a ausência de domínio integral do ciclo de desenvolvimento submete o país a ciclos externos de modernização, cenário preocupante em sistemas autônomos cujo valor reside predominantemente em camadas de software que evoluem em ciclos contínuos extremamente curtos.

A importância dessa premissa foi reconhecida pelo governo federal no Decreto nº 12.725 de 2025, que destacou como diretriz que uma base industrial e tecnológica sólida constitui fator de autonomia estratégica e redução da dependência externa, sintetizando uma verdadeira doutrina de Estado.

Com vistas a materializar essas diretrizes, a Nova Indústria Brasil (NIB), lançada em 2024, elegeu sua Missão 6 para ancorar o fortalecimento das tecnologias soberanas de defesa, segurança pública e construção naval. A política pública estabeleceu como horizonte mandatário alcançar 75% de autonomia na produção de tecnologias críticas para a defesa nacional até 2033, alocando os sistemas autônomos e remotamente controlados na lista de nichos prioritários ao lado do setor nuclear, de sensoriamento avançado, sistemas de comunicação segura e propulsão. Os desdobramentos operacionais dessa política ganharam tração com a abertura, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em conjunto com a Finep, do edital Mais Inovação Brasil (Rodada 2) Base Industrial de Defesa, disponibilizando R$ 300 milhões em recursos focados em projetos empresariais com risco tecnológico. O instrumento segue aceitando submissões até 30 de setembro de 2026 por parte de Empresas Estratégicas de Defesa (EED), representando o primeiro teste crítico dos objetivos traçados para a década.

O diagnóstico industrial que fundamenta essas iniciativas expõe a profundidade dos gargalos tecnológicos do país. Enquanto as principais potências globais mobilizam centenas de bilhões para resguardar a soberania em semicondutores, o Brasil ainda busca estruturar sua inserção nessa cadeia primária. No segmento de sistemas não tripulados, as lacunas de manufatura e propriedade intelectual concentram-se em cinco pilares: sensores e optrônicos, compreendendo radares, sensores multiespectrais, imageadores térmicos e sistemas LIDAR; propulsão aerotécnica, abrangendo motores a combustão leves, motores elétricos de alta densidade energética e baterias; aviônica embarcada e sistemas de navegação inercial resistentes à perda de sinal de satélite (GNSS); links de dados com criptografia e resiliência a contramedidas de guerra eletrônica; e, por fim, arquiteturas de software de controle, processamento computacional, fusão multissensorial e algoritmos de inteligência artificial.

A dinâmica do setor demonstra que o valor agregado migrou definitivamente das estruturas de hardware para a inteligência embarcada e os sensores; produzir apenas a fuselagem sem dominar os subsistemas eletrônicos equivale a fabricar o hardware sem dominar o software.

Apesar dos desafios remanescentes na cadeia de suprimentos, a Base Industrial de Defesa brasileira consolidou um ecossistema produtivo maduro, dotado de governança empresarial, homologações operacionais e contratos de fornecimento executados diretamente com as Forças Armadas. A radiografia dos principais agentes industriais do país permite identificar as competências já internalizadas e os elos que ainda precisam de aprofundamento tecnológico.

No segmento de plataformas aéreas e sensoriamento integrado, a Xmobots destaca-se como a maior empresa do setor na América Latina. Seu portfólio de engenharia inclui o Nauru 500C ISR, primeiro sistema aéreo remotamente pilotado com decolagem e pouso vertical (VTOL) que obteve autorização de projeto e certificação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) para operações além do alcance visual (BVLOS), com alcance de enlace de até 60 km e quatro horas de autonomia operacional. O vetor foi mobilizado pelo Exército Brasileiro em operações de repressão ao garimpo ilegal na Amazônia e integrado pela Marinha do Brasil em missões de busca e salvamento no litoral. A companhia desenvolveu igualmente o Nauru 1000C ISTAR, plataforma tática de vigilância e inteligência de desenvolvimento nacional incorporada à Força Terrestre para monitoramento de fronteiras, bem como o Nauru 100D, lançado em 2025 para estruturar a divisão de defesa da Xmobots, apresentada na LAAD 2025.

Complementando o segmento de longo alcance, a Stella Tecnologia firmou-se como expoente nacional na fabricação de sistemas de grande porte. A companhia desenvolveu o Atobá, um VANT estratégico de grande porte, que realizou seu primeiro voo em 2020 após cinco anos de engenharia, oferecendo até 28 horas de autonomia e enlace de dados seguro em raio de 250 km, inserindo o país no restrito grupo de nações detentoras dessa capacidade ao lado de potências consolidadas. O avanço do programa resultou na apresentação, na LAAD 2024, do Atobá XR, plataforma com o triplo da capacidade de volume do modelo anterior, projetada para transporte de cargas e emprego de munições vagantes (loitering munitions). Em 2025, a empresa estabeleceu parceria estratégica com a Thales para integrar aviônica avançada, radares de vigilância e enlaces de comando franceses às plataformas nacionais.

A AERO CONCEPTS - Aeroespacial, Industrial e Defesa Ltda. é uma empresa brasileira especializada no desenvolvimento de propulsão para sistemas aéreos não tripulados, atuando em um dos elos mais críticos da cadeia: a fabricação nacional de turbinas para drones e mísseis. A companhia desenvolve, em parceria com a Força Aérea Brasileira, motores de propulsão para aeronaves não tripuladas e firmou com a Stella Tecnologia, na FIDAE 2024, uma aliança estratégica entre empresas de capital 100% nacional para o desenvolvimento de sistemas de alta complexidade. Sua tecnologia de propulsão a jato equipa o drone Albatroz, um dos exemplos mais concretos de autonomia tecnológica nacional aplicada a sistemas aéreos não tripulados.

No âmbito dos aviônicos e da eletrônica embarcada de alta confiabilidade, a AEL Sistemas , sediada em Porto Alegre (RS), atua como elo de classe mundial. Subsidiária da Elbit Systems, a empresa internalizou a engenharia de computadores de missão, sistemas eletro-ópticos, comunicações seguras e enlaces táticos empregados nos principais equipamentos das Forças Armadas brasileiras, notadamente os displays de grande formato WAD, sistemas de mira montados no capacete (HMD) e painéis HUD integrados aos caças F-39 Gripen, comprovando que o mercado de defesa brasileiro possui capacidade para absorver e gerar tecnologia de ponta quando respaldado por programas estáveis de longo prazo.

A fronteira do combate moderno e a proliferação de sistemas de ataque de precisão encontram sinergia operacional na Modirum I Gespi, empresa brasileiro-finlandesa sediada em São José dos Campos (SP), formada em 2024 após a aquisição da participação majoritária na tradicional Gespi pela finlandesa Modirum Defence. A companhia atua no desenvolvimento de munições vagantes e sistemas aéreos não tripulados de defesa, com soluções demonstradas ao Comandante do Exército Brasileiro e apresentadas na DroneShow 2026, consolidando sua posição na fronteira entre armamento guiado e autonomia decisória.

Com atuação consolidada na Base Industrial de Defesa, a Mac Jee é uma empresa brasileira dedicada ao desenvolvimento de mísseis, munições de precisão e sistemas de ataque. A companhia apresentou internacionalmente sua munição vagante Anshar, voltada a operações de ataque de precisão, e produz no Brasil o kit DAGGER, sistema de orientação de munições aéreas. Em novembro de 2025, adquiriu a propriedade intelectual dos mísseis MAR-1 e MAA-1B Piranha, originalmente desenvolvidos pela Mectron, contribuindo para a retomada da capacidade nacional no segmento de mísseis. Com atuação crescente na integração entre armamento e plataformas não tripuladas, a empresa consolida-se como elo central da cadeia de sistemas de ataque do ecossistema brasileiro.

A EMBRAER, uma das maiores empresas aeroespaciais do mundo, aprofundou sua presença no setor de sistemas não tripulados ao se tornar acionista da XMobots em 2022 e firmar, em novembro de 2025, acordo com a Marinha do Brasil para o desenvolvimento de drones aeronavais. Por meio da Atech, empresa do grupo, apresentou no ARAMUSS 2025 soluções integradas em sistemas não tripulados e antidrone, cobrindo também o lado defensivo da equação. A entrada da Embraer no setor sinaliza que os sistemas autônomos deixaram de ser nicho de startups para se tornar prioridade industrial estratégica no Brasil.

Fechando o ciclo de sensoriamento estratégico e consciência situacional, a IACIT, também de São José dos Campos (SP), concluiu a implantação do Radar OTH 0100 Surface Wave, primeiro radar além do horizonte (OTH) desenvolvido no Brasil e operado sob contrato pela Marinha para fiscalização da Amazônia Azul. A empresa apresentou na LAAD 2025 suas soluções Skywave e Surface Wave para monitoramento de alvos aéreos e marítimos a centenas de milhas náuticas da costa e desenvolve, sob coordenação do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), arquiteturas computacionais voltadas à gestão e monitoramento em tempo real do tráfego não tripulado e veículos eVTOL no espaço aéreo nacional.

A coordenação institucional desse contingente fabril deu um salto com a formalização, em 2025, do Comitê de Veículos Não Tripulados da ABIMDE, congregando vinte e três empresas associadas: Adtech, AEL Sistemas, Aeroid, Akaer, Avionics, Baiuca Sports, BR Vant, CERTI, Condor Tecnologias Não Letais, CSD, DGS Boats, EMGEPRON, Energias, IDV, Mac Jee, Modirum Gespi, Neger, Performa Defesa, Polícia Militar da Bahia, Redtech, Stella Tecnologia, Taurus Armas e XMobots. A entidade atua como interlocutora setorial perante os poderes públicos na padronização de protocolos de interoperabilidade, simplificação regulatória, requisitos de certificação militar e consolidação de políticas de compras governamentais. O cenário comprova a existência de uma capacidade fabril instalada ampla e funcional, restando o desafio de transformar a capacidade de integrar em autonomia plena sobre os componentes de maior sofisticação tecnológica.

Para a base fabril brasileira, a centralidade da soberania tecnológica dita as regras de perenidade dos negócios. O modelo tradicional de contratação pública, formatado para compras esporádicas de sistemas acabados, revela-se incompatível com o dinamismo de desenvolvimento dos sistemas autônomos. Torna-se imperativo adotar modelos de compras públicas que financiem programas contínuos de pesquisa e desenvolvimento e prototipagem evolutiva. A dualidade tecnológica (dual-use) desponta como o vetor primordial de sustentabilidade econômica, permitindo que plataformas desenvolvidas sob requisitos de defesa sejam adaptadas à vigilância ambiental, fiscalização de fronteiras, agronegócio de precisão e segurança pública, gerando a escala fabril necessária para amortizar investimentos e posicionar os fabricantes no mercado externo de exportação. Paralelamente, parcerias internacionais devem ser pautadas por cláusulas de transferência de tecnologia (offset) que internalizem software, ferramentais e conhecimentos proprietários nas empresas brasileiras.

Para o comando estratégico das Forças Armadas e dos órgãos de segurança pública, a soberania tecnológica manifesta-se em três pilares operacionais inegociáveis. O primeiro refere-se à prontidão logística: a dependência de fornecedores estrangeiros para reposição de aviônica ou chips críticos compromete a disponibilidade operacional das frotas em momentos de crise. O segundo pilar é a capacidade de modernização contínua, permitindo que algoritmos de voo, módulos de guerra eletrônica e bibliotecas de alvos sejam atualizados internamente pelas próprias Forças no ritmo das ameaças emergentes. O terceiro pilar abarca a interoperabilidade e a doutrina conjunta: as operações militares contemporâneas demandam que sistemas aéreos, terrestres, navais e cibernéticos das três Forças comuniquem-se por enlaces de dados padronizados e arquiteturas abertas de comando e controle, colocando o software no centro do poder de combate.

Alcançar a meta de 75% de autonomia produtiva até 2033 demanda a execução estruturada de uma estratégia em diversas vertentes: a priorização de investimentos orçamentários orientados ao fortalecimento da cadeia produtiva; a modernização dos marcos de aquisição de defesa, espelhando experiências ágeis internacionais de inovação e contratação por risco tecnológico; a exigência de contrapartidas de transferência tecnológica efetiva em todas as aquisições governamentais no exterior; a consolidação do Comitê de Não Tripulados da ABIMDE como ambiente técnico permanente de diálogo com os Estados-Maiores das Forças; e o aporte financeiro massivo na formação e retenção de quadros de engenharia, desenvolvedores de sistemas e cientistas de dados especializados em sistemas autônomos.

O Brasil alcança um alinhamento favorável, no qual a vontade política (NIB 2033), a coordenação industrial (ABIMDE e Ministério da Defesa), a demanda operativa (Marinha, Exército e Aeronáutica) e os instrumentos de fomento (editais Finep) operam de forma harmônica. O parque industrial nacional já ultrapassou a fase experimental e entrega resultados operacionais de alta complexidade em múltiplos domínios de defesa. Contudo, a reunião fragmentada dessas capacidades não estabelece, isoladamente, uma soberania sustentável. A autonomia plena dependerá da migração definitiva da indústria brasileira da condição de montadora de componentes estrangeiros para a de detentora das tecnologias habilitadoras de sensores, propulsores e inteligência de software.

O posicionamento que o país ocupará em 2033 não será resultado de eventos futuros, mas das decisões orçamentárias, industriais e doutrinárias implementadas no presente. A liderança militar e tecnológica no teatro operacional dos sistemas autônomos pertencerá às nações capazes de controlar o ciclo tecnológico integral de seus meios de dissuasão. Com infraestrutura fabril comprovada, marcos normativos fixados e capital humano de excelência, o Brasil reúne as condições necessárias para consolidar sua autonomia estratégica e liderar o desenvolvimento de sistemas não tripulados, cabendo aos formuladores de políticas e aos líderes da indústria consumar a estratégia rumo à independência tecnológica de fato.

 

*Luis Henrique Unterleider é executivo sênior com mais de 25 anos de liderança estratégica internacional em consultoria, desenvolvimento de negócios globais e otimização operacional. Com experiência consolidada em governança de conselho e decisão orientada por dados, atua nos setores de defesa, FMCG, manufatura e indústria química, com histórico comprovado de criação sustentável de valor em mercados globais complexos. 

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