A Avibras Aeroco poderá assumir em Jacareí (SP) a montagem dos 36 obuseiros autopropulsados ATMOS 2000 de 155 mm que o Exército Brasileiro pretende adquirir da israelense Elbit Systems. A proposta que incorpora a empresa brasileira ao arranjo industrial foi apresentada ao Comando Logístico do Exército (COLOG) no fim de agosto e agora deverá passar por análise jurídica antes de qualquer contratação.
A informação foi revelada pelo jornalista Marcelo Godoy, de O Estado de S. Paulo, em reportagem publicada nesta segunda-feira (7). Segundo a apuração, a solução prevê que os dois exemplares destinados ao lote de amostra e as 34 viaturas de série sejam montados em Jacareí pela Avibras, enquanto a produção de munições ficará associada à IMBEL. O valor estimado da aquisição é de aproximadamente R$ 800 milhões.
Uma licitação que espera há dois anos
A proposta representa uma tentativa de destravar uma aquisição que permanece sem contrato desde 2024, embora o ATMOS tenha sido formalmente classificado em primeiro lugar na concorrência internacional conduzida pelo Exército. O resultado oficial, publicado em abril daquele ano, colocou o sistema da Elbit à frente do Zuzana 2, da Excalibur International, do CAESAR, da KNDS France, e do SH15, da Norinco. A Elbit foi então convocada para a assinatura do contrato inicial do lote de amostra.
O processo, entretanto, não avançou para a contratação definitiva. A escolha do equipamento israelense passou a sofrer forte pressão política em razão da guerra em Gaza e da deterioração das relações entre o governo brasileiro e o governo de Israel. Paralelamente, a KNDS questionou o resultado da concorrência. Os recursos apresentados pela empresa francesa não alteraram a classificação final, e o Tribunal de Contas da União também não acolheu a tentativa de suspender o processo.
A Avibras entra na equação
A nova solução procura preservar a escolha técnica realizada pelo Exército sem modificar as condições essenciais da proposta vencedora. Segundo a reportagem de Godoy, a proposta apresentada pela Elbit e pela AEL Sistemas já previa a participação de uma empresa brasileira na montagem dos obuseiros, embora não identificasse previamente qual empresa seria. Esse desenho permitiria, segundo a avaliação feita pelo Exército, incorporar a Avibras ao arranjo industrial sem alterar as condições fundamentais da oferta vencedora.
A aproximação entre Elbit/AEL e Avibras, portanto, não surgiu com a reportagem desta segunda-feira. O LRCA Defense Consulting já havia informado, em julho, que as empresas negociavam uma solução para a nacionalização da montagem do ATMOS em Jacareí. O portal também havia acompanhado o interesse da Elbit em ampliar sua presença industrial no Brasil.
Uma escolha com lógica industrial
A escolha da Avibras apresenta uma lógica industrial particularmente forte. O ATMOS é um obuseiro autopropulsado de 155 mm sobre rodas, projetado para operar em diferentes configurações de chassis. A Elbit informa que o sistema pode ser integrado a caminhões 6x6 ou 8x8 escolhidos pelo cliente e que possui automação de pontaria, navegação e carregamento. A configuração brasileira foi associada à família Tatra T-815 6x6, uma plataforma com a qual a Avibras possui experiência acumulada no programa ASTROS.
Embora o obuseiro e o sistema de artilharia de foguetes sejam plataformas distintas, a experiência da empresa com integração de sistemas militares, fabricação de veículos e trabalho sobre chassis Tatra constitui uma base relevante para absorver a montagem do novo equipamento.
A parceria já vinha sendo construída
A própria história da concorrência reforça essa conexão. A proposta do Zuzana 2, segunda colocada no processo, havia previsto uma parceria com a Avibras para a montagem nacional. A participação da empresa brasileira na produção de um obuseiro 155 mm sobre rodas, portanto, já fazia parte das alternativas industriais consideradas durante a competição, antes mesmo da escolha do ATMOS.
A aproximação entre a Avibras e a Elbit ganhou novo impulso em 2026, quando a empresa brasileira retomou suas atividades industriais em Jacareí. Em julho, o LRCA registrou as tratativas entre AEL Sistemas, Elbit Systems e Avibras Aeroco para viabilizar a montagem local do ATMOS.
O peso estratégico da munição 155 mm
Para além das viaturas, a munição constitui um componente estratégico da negociação. A proposta vencedora do ATMOS contempla participação industrial brasileira na produção de munições de artilharia. A IMBEL aparece como protagonista desse eixo, o que amplia o alcance industrial do programa para além da fabricação das próprias viaturas.
A possibilidade de desenvolver no País competências relacionadas ao calibre 155 mm pode ser tão relevante, no longo prazo, quanto a montagem dos 36 obuseiros. Trata-se de uma capacidade que interessa diretamente à autonomia logística da artilharia e à formação de uma cadeia nacional de fornecedores.
KNDS volta a procurar a Avibras
A movimentação da KNDS acrescenta outra dimensão ao cenário. Segundo Godoy, a empresa francesa voltou a procurar a Avibras e teria apresentado uma possibilidade de parceria envolvendo o CAESAR e transferência de tecnologia para munições dos calibres 105 mm, 120 mm e 155 mm.
A aproximação recupera uma relação industrial anterior entre as duas empresas, que chegaram a trabalhar juntas no conceito do sistema Tupã, derivado do CAESAR. A iniciativa francesa mostra que a Avibras voltou a ser percebida como um ativo industrial relevante e que a empresa brasileira pode se tornar novamente uma parceira disputada por grandes grupos internacionais de defesa.
Ainda não há contrato
É importante, contudo, separar o que está definido do que ainda depende de decisão. O Exército já definiu o ATMOS como vencedor da concorrência, mas a participação da Avibras ainda está vinculada à análise da proposta apresentada ao COLOG. Segundo a apuração do Estadão, a expectativa no Estado-Maior do Exército é que o primeiro contrato, relativo aos protótipos, seja assinado ainda em 2026. Depois dos testes no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), seria negociado o contrato para as demais 34 viaturas.
Assim, ainda não é correto afirmar que a Avibras tenha recebido ou assinado o contrato dos ATMOS. O que existe, neste momento, é uma proposta formal apresentada ao COLOG, apoiada por uma solução industrial que procura conciliar a decisão técnica do Exército, as restrições políticas envolvendo Israel e a necessidade de fortalecer a Base Industrial de Defesa brasileira.
Mais que uma linha de montagem
Para a Avibras Aeroco, a eventual contratação teria importância que ultrapassa o valor financeiro do programa. Um programa de 36 viaturas criaria uma linha de produção e integração de sistemas de artilharia, preservando competências de engenharia e ampliando a carteira de encomendas da companhia.
O verdadeiro alcance da oportunidade, porém, dependerá do conteúdo da transferência tecnológica. Quanto maior for a participação brasileira em engenharia, fabricação de componentes, integração, manutenção e desenvolvimento de munições, maior será o efeito estruturante do programa sobre a empresa e sobre a Base Industrial de Defesa.
O caso também ilustra uma característica cada vez mais importante dos grandes programas militares: o equipamento selecionado é apenas uma parte da decisão. A capacidade de gerar produção local, domínio tecnológico, cadeia de fornecedores, autonomia logística e condições para futuros desenvolvimentos pode determinar o verdadeiro valor estratégico de uma aquisição.
No caso do ATMOS, a entrada da Avibras pode transformar uma compra que estava travada por razões políticas e geopolíticas em um programa com impacto direto sobre a indústria brasileira de defesa. A próxima etapa, portanto, será acompanhar a análise do COLOG e verificar se a proposta se converterá, de fato, em contrato.






