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31 julho, 2026

Documentos revelam termos da compra dos dois KC-390 da Colômbia, em meio a crise na transição de governo

Proposta financeira da Embraer supera US$ 366 milhões, com entregas previstas até 2030, enquanto o Ministério da Defesa colombiano alerta para a necessidade de fechar o negócio antes da posse do novo governo

 
*LRCA Defense Consulting - 31/07/2026

A rádio colombiana Caracol Radio divulgou nesta sexta-feira, 31 de julho de 2026, documentos que comprovam que a Força Aeroespacial Colombiana (FAC) avança na compra de duas aeronaves KC-390 Millennium, fabricadas pela Embraer. Segundo a reportagem, assinada pelo jornalista José David Rodríguez, a proposta financeira apresentada pela Embraer SA totaliza US$ 366.430.371 e inclui as aeronaves, treinamento, suporte logístico, equipamentos especializados e demais recursos necessários para sua operação. Na documentação, o modelo é identificado como "KC-390, aeronave básica", enquanto a finalidade do processo é descrita como a aquisição de aeronaves de transporte tático militar pesado, treinamento, equipamentos associados e suporte logístico.
A reportagem da Caracol Radio confirma e detalha uma informação já antecipada em 14 de julho pelo portal espanhol Infodefensa, segundo o qual o presidente Gustavo Petro teria determinado o encerramento do processo de aquisição das duas aeronaves. Àquela altura, a FAC ainda comparava o KC-390 com o C-130J Super Hercules, da Lockheed Martin, e o A400M Atlas, da Airbus. Antes disso, em 30 de março de 2026, o próprio Infodefensa já havia noticiado uma primeira ordem presidencial para iniciar o processo de compra, atribuída ao interesse de Petro em reforçar uma aliança de defesa aérea com o Brasil, a partir de conversas e compromissos com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Valores e cronograma de entrega
De acordo com os documentos obtidos pela Caracol Radio, cada aeronave está avaliada em mais de US$ 159 milhões, totalizando US$ 319.915.860 pelas duas unidades. Os US$ 46,5 milhões restantes da proposta cobrem equipamentos adicionais, treinamento, suporte logístico e outros elementos necessários à operação. Os documentos estipulam ainda um pagamento adiantado de US$ 182.872.498, a ser desembolsado entre 2027 e 2028, conforme o cronograma financeiro do contrato, com os pagamentos restantes condicionados à fabricação e entrega das aeronaves e de seus equipamentos associados. Os preços foram descritos como fixos e imutáveis durante toda a execução do contrato.
Segundo o cronograma obtido pela emissora, a primeira aeronave deverá ser entregue antes de 30 de outubro de 2029, e a segunda, antes de 30 de novembro de 2030. O contrato prevê ainda o treinamento inicial de pilotos e pessoal técnico da FAC, suporte logístico por 24 meses, equipamentos de apoio em solo e o transporte da primeira aeronave das instalações da Embraer em Gavião Peixoto, no Brasil, até a Base Aérea de CATAM, em Bogotá.
Reabastecimento em voo e uso humanitário
Um dos pontos centrais da oferta é que a primeira aeronave será configurada para realizar reabastecimento em voo, por meio da instalação de sistemas sob as asas, um tanque auxiliar, câmeras e outros equipamentos que permitirão o fornecimento de combustível a outras aeronaves durante operações, entre elas os caças Gripen E/F que a Colômbia também adquiriu da sueca Saab. A mesma unidade incorporará um pacote de sistemas de contramedidas para aumentar sua proteção. As duas aeronaves serão equipadas com comunicações via satélite, rádios militares seguros e sistemas de navegação avançados.
O KC-390 também poderá ser empregado em missões humanitárias e de evacuação aeromédica. A oferta inclui 74 macas, com sistema de empilhamento, o que permitirá adaptar a aeronave para o transporte simultâneo de dezenas de pacientes em emergências ou desastres, uma capacidade relevante para um País marcado pela Cordilheira dos Andes, por extensas áreas amazônicas e por regiões com infraestrutura aeroportuária limitada.
O impasse dos sistemas israelenses
A negociação segue esbarrando em uma questão política sensível para o governo Petro. Segundo o Infodefensa, determinadas configurações do KC-390 incorporam sistemas desenvolvidos pela indústria israelense, entre eles o sistema de missão da aeronave, criado pela Elbit Systems por meio de sua subsidiária brasileira AEL Sistemas, responsável por elementos críticos da cabine, incluindo os sistemas de visualização e o Head-Up Display (HUD). A configuração também pode integrar suítes de autoproteção e guerra eletrônica de origem israelense, entre elas sistemas Dircm (Directional Infrared Countermeasures), dispensadores de contramedidas (CMDS) e pods de guerra eletrônica ativa (AECM), o que colide com restrições que o próprio Petro impôs à aquisição de equipamentos de origem israelense.
Uma compra fechada às pressas na transição de governo
O avanço do negócio ocorre em um momento politicamente delicado. A Colômbia atravessa o processo de empalme (transição institucional) entre o governo de Gustavo Petro e o do presidente eleito, Abelardo De la Espriella, ainda não empossado. O comitê de transição designado pelo mandatário eleito suspendeu sua participação no processo em 7 de julho de 2026, após atritos com a equipe de Petro, o que levou vários ministérios, entre eles o da Defesa, a manter as reuniões previstas e a deixar prontos os relatórios de gestão diante de cadeiras vazias reservadas aos delegados do novo governo.
Segundo relatos reproduzidos em fóruns especializados em defesa colombianos, um informe de empalme do Ministério da Defesa, sob o comando do ministro Pedro Sánchez, alertaria para a necessidade de concluir o processo de compra dos KC-390 ainda durante a atual gestão, o que tem gerado debate sobre a conveniência de fechar um contrato dessa magnitude sem mecanismo de financiamento plenamente assegurado antes da posse do governo entrante. Não há, até o momento, confirmação oficial de assinatura do contrato.
Peça de um rearmamento mais amplo
A eventual chegada do KC-390 se soma a uma renovação mais ampla da aviação militar colombiana, que também inclui a aquisição de 17 caças Gripen E/F, da Saab, em substituição aos veteranos Kfir, de origem israelense. Caso o contrato seja formalizado, a Colômbia se tornará mais um operador do C-390 Millennium, que já opera ou foi selecionado por Portugal, Hungria, Países Baixos, Áustria, República Tcheca, Coreia do Sul, Suécia, Eslováquia, Emirados Árabes Unidos, Lituânia e Uzbequistão, além do Brasil. 
O mesmo movimento de renovação de frotas de transporte tático alcança outros países da região, caso do Chile, cujo presidente José Antonio Kast já sinalizou publicamente interesse pela aeronave, e de Marrocos, cuja negociação avançada prevê a compra de cinco unidades em um contrato estimado em mais de US$ 600 milhões.

Kolibri Beteiligung confirma aquisição de cinco Embraer E190 pela German Airways

Financiamento das aeronaves foi fechado dentro do limite previsto pelo bônus da holding alemã, mas companhia aérea ainda não divulgou comunicado próprio sobre a operação 



*LRCA Defense Consulting - 31/07/2026
A Kolibri Beteiligung GmbH, holding controladora da German Airways GmbH, anunciou nesta quinta-feira (30 de julho de 2026) que a subsidiária concluiu, conforme cronograma previsto, a aquisição e o financiamento de cinco aeronaves regionais Embraer E190. O comunicado foi publicado às 20h50 (horário local) no site da Deutsche Börse, na condição de divulgação de informação privilegiada exigida pelo artigo 17 do MAR (Market Abuse Regulation), o regulamento europeu de abuso de mercado.
A operação está diretamente ligada ao bônus corporativo garantido emitido pela Kolibri em 13 de fevereiro de 2026 (Nordic Bond, ISIN NO0013461384), negociado no mercado livre (Free Market) das bolsas de Dusseldorf, Frankfurt, Hamburgo, Hanôver, Stuttgart e na Tradegate BSX. Segundo a Kolibri, o financiamento das cinco aeronaves foi fechado com um parceiro especializado em financiamento de aeronaves, em condições de mercado, e permanece integralmente dentro do limite de endividamento financeiro permitido pelas cláusulas do bônus (permitted financial indebtedness). A empresa afirma que as cláusulas contratuais da dívida seguem sendo cumpridas sem alteração.
A German Airways, sediada em Colônia, é a operadora de aviação do grupo logístico Zeitfracht, que reúne as antigas LGW e WDL Aviation sob uma única marca. A frota da companhia opera exclusivamente com o modelo E190, configurado em classe única de 100 assentos, em contratos de wet lease (aluguel de aeronave com tripulação), charter e ACMI (Aircraft, Crew, Maintenance and Insurance) para companhias como KLM Cityhopper, easyJet, Finnair e LOT Polish Airlines.
Antes do anúncio de hoje, a frota da German Airways somava nove aeronaves E190, após a incorporação, em janeiro de 2026, de uma unidade adicional (registro D-ABKE), arrendada por três anos junto à britânica Executive Jet Support (EJS), para reforçar o serviço de alimentação (feeder) prestado à companhia de lazer Condor. A aquisição das cinco novas aeronaves, agora financiadas diretamente pela estrutura da Kolibri, indica um novo salto na expansão de frota, cujo objetivo declarado pela direção da companhia é ampliar a estabilidade operacional e sustentar novos contratos de capacidade regional na Europa.
Até a publicação desta matéria, a própria German Airways não havia emitido comunicado institucional sobre a operação; a página de imprensa da companhia (germanairways.com/en/press) seguia com sua última atualização datada de 30 de março de 2026, referente à nomeação de Axel Schefe como diretor de Tecnologia. A ausência de um release próprio da operadora, neste caso, não é incomum: quando a obrigação legal de divulgação recai sobre a holding financeira emissora da dívida, como ocorre aqui com a Kolibri, é ela quem assume o dever de comunicar o fato relevante aos detentores do bônus, ainda que a operação diga respeito à frota da subsidiária aérea.
A matéria foi apurada com base no comunicado oficial da Kolibri Beteiligung GmbH publicado na plataforma da Deutsche Börse, em registros históricos de comunicados da German Airways e em reportagens do setor aéreo europeu sobre a expansão recente da frota da companhia.

30 julho, 2026

Conselho dos Emirados reforça parcerias na Farnborough 2026 e celebra a chegada do C-390

Delegação emiradense liderada pelo secretário-geral Nasser Humaid Al Nuaimi posou ao lado do cargueiro da Embraer durante a feira britânica, em referência ao contrato que tornou os Emirados o maior comprador internacional da aeronave 


*LRCA Defense Consulting - 30/07/2026

Uma delegação do Tawazun Council for Defence Enablement (Tawazun), conselho responsável por fomentar e regular o ecossistema industrial de defesa e segurança dos Emirados Árabes Unidos (EAU), concluiu em 23 de julho uma visita de trabalho ao Reino Unido, realizada à margem da Farnborough International Airshow 2026. Chefiada pelo secretário-geral da entidade, Dr. Nasser Humaid Al Nuaimi, a comitiva cumpriu uma agenda de reuniões e visitas técnicas voltada a ampliar a cooperação industrial e tecnológica do país e a construir parcerias de alto valor para o setor.

Reuniões em Londres
Segundo comunicado da agência de notícias oficial dos Emirados, a WAM, a programação incluiu conversas com o diretor nacional de armamentos do Reino Unido, com foco no fortalecimento da parceria bilateral de defesa e no alinhamento de prioridades industriais entre os dois países. Al Nuaimi também se reuniu com representantes de empresas e organizações internacionais do setor, entre elas a MBDA, a RTX, a BAE Systems, o UK Defence Solutions Centre e a Enterprise Gateway.

As discussões trataram de tecnologias avançadas de defesa, sistemas de defesa aérea e pesquisa e desenvolvimento, além de temas como transferência de conhecimento, capacitação de talentos nacionais e localização de tecnologias e cadeias de suprimentos consideradas prioritárias para o país.

Em nota, o diretor executivo de estratégia e assuntos executivos da Tawazun, Khalifa Ayada Al Hameli, afirmou que a participação na Farnborough International Airshow reflete a estratégia de longo prazo dos Emirados de construir parcerias internacionais baseadas na troca de conhecimento, na formação de talentos e na localização de tecnologias e cadeias de suprimentos, com o objetivo de reforçar a sustentabilidade da base industrial de defesa do país.

A foto ao lado do C-390
O registro que ilustra o comunicado da WAM mostra a delegação do Tawazun posando em frente a um C-390 Millennium da Embraer estacionado no pátio da feira britânica. Ao lado de membros da tripulação, a comitiva emiradense surge alinhada diante da aeronave, que exibe bandeiras de diferentes países junto à porta dianteira, um gesto simbólico que reforça a importância atribuída pelos Emirados à aquisição do cargueiro brasileiro para a defesa do país.

A imagem reforça, no plano simbólico, o vínculo já firmado no campo contratual entre o Tawazun e a Embraer em torno do C-390, hoje o maior programa de exportação da aeronave para um único país.

O contrato que tornou os EAU o maior cliente do C-390
A visita à Farnborough ocorre menos de três meses depois de o Tawazun assinar, em 4 de maio, o maior contrato internacional já firmado para o C-390 Millennium. O acordo, celebrado durante o evento Make it in the Emirates 2026, em Abu Dhabi, prevê a compra de dez aeronaves firmes e opção de mais dez unidades para a Força Aérea e Defesa Aérea dos Emirados, o que representa também a primeira venda do cargueiro no Oriente Médio.

O contrato foi assinado por Al Nuaimi e por Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, na presença do vice-presidente e vice-primeiro-ministro dos Emirados, xeique Mansour bin Zayed Al Nahyan, e do presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto. O acordo prevê ainda o desenvolvimento de capacidades locais de manutenção, reparo e revisão (MRO) em parceria com uma empresa de defesa emiradense, em linha com a política de conteúdo local que orienta a atuação do Tawazun.

Caso todas as opções sejam exercidas, a frota emiradense de C-390 poderá superar em número a do próprio Brasil, país de origem da aeronave. Para o Tawazun, a seleção do C-390 seguiu uma avaliação técnica e operacional que incluiu testes em condições ambientais equivalentes às do Golfo, e a aeronave é vista pela entidade como peça central para modernizar a capacidade de transporte aéreo militar do país nas próximas décadas.

29 julho, 2026

FNAC amplia para R$ 13,56 bilhões o crédito destinado às companhias aéreas

BNDES ficará responsável por avaliar a liberação dos recursos, que devem beneficiar GOL, LATAM, Azul e Abaeté, e podem impulsionar indiretamente a demanda por aeronaves da Embraer

 

*LRCA Defense Consulting - 29/07/2026

O Comitê Gestor do Fundo Nacional de Aviação Civil (CG-FNAC) aprovou, em 22 de junho, a ampliação do acesso das companhias aéreas brasileiras a duas linhas de crédito que somam R$ 13,56 bilhões. O valor é mais de três vezes superior aos R$ 4 bilhões previstos originalmente para o fundo e representa, segundo o Ministério dos Portos e Aeroportos (MPor), o maior pacote de crédito já estruturado com recursos do FNAC para o setor. 

Apesar da aprovação do comitê, a contratação ainda depende de análise técnica do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que avaliará risco de crédito, capacidade de pagamento e garantias de cada companhia antes de liberar os valores.

A primeira modalidade é uma linha emergencial de capital de giro, no valor de R$ 8 bilhões, criada pela Resolução CMN nº 5.297/2026. Gol, Latam Airlines Brasil e Azul poderão captar até R$ 2,5 bilhões cada uma, enquanto a Abaeté terá acesso a até R$ 80 milhões. As operações têm prazo de até 60 meses, juros de 4% ao ano e carência de até 12 meses para início do pagamento. Como contrapartida, as empresas que aderirem à linha ficam proibidas de distribuir dividendos a acionistas durante o período de vigência dos contratos.

A segunda modalidade, prevista na Resolução CMN nº 5.260/2025, disponibiliza R$ 5,56 bilhões para investimentos de longo prazo, com até R$ 1,8 bilhão para cada uma das três grandes companhias. Os recursos dessa linha, com juros entre 6,5% e 7,5% ao ano a depender do investimento, podem ser usados na aquisição de aeronaves, modernização de frota, manutenção, compra de combustível sustentável de aviação (SAF) e obras de infraestrutura aeroportuária. Como condição, as aéreas participantes precisam ampliar a oferta de voos para regiões consideradas estratégicas para a integração nacional, como a Amazônia Legal e o Nordeste.

A ampliação do pacote de crédito responde ao aumento dos custos operacionais do setor aéreo brasileiro, em especial com o querosene de aviação (QAV), item que passou a representar quase 45% das despesas das companhias em razão dos efeitos do conflito no Oriente Médio sobre o preço do petróleo. Para o ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, as linhas de crédito garantem condições para que as empresas sigam investindo em suas operações e fortalecendo a conectividade aérea em todas as regiões do País.

Benefício indireto à Embraer
O financiamento aprovado pelo CG-FNAC não se destina diretamente à Embraer; o benefício direto é das próprias companhias aéreas, e não da fabricante. Ainda assim, o efeito sobre a Embraer tende a ser positivo por via indireta: Gol, Latam e Azul, principais beneficiárias da linha de investimento de longo prazo, são clientes da fabricante brasileira e têm pedidos e negociações em curso para aeronaves da família E-Jets E2, o que faz da nova disponibilidade de crédito um fator que pode sustentar ou ampliar essa demanda. 

A ampliação do FNAC é distinta de outros movimentos recentes do BNDES em relação à Embraer, como o financiamento de R$ 279 milhões aprovado em abril para projetos de inovação da companhia, no âmbito do programa BNDES Mais Inovação, e as linhas Exim Pós-Embarque usadas para viabilizar a exportação de aeronaves a clientes internacionais.

Ministério da Defesa abre chamada para empresas participarem do Brazilian Defense Day 2026

Evento, coordenado pela Secretaria de Produtos de Defesa, reunirá embaixadas e representantes das Forças Armadas em 3 de setembro, na Escola Superior de Defesa, em Brasília; inscrições para pitches das empresas vão até 21 de agosto

 
*LRCA Defense Consulting - 29/07/2026

A Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD), do Ministério da Defesa, abriu chamada para que empresas da Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS) brasileira se inscrevam no Brazilian Defense Day 2026, edição do encontro que aproxima o setor de defesa nacional de embaixadas, representantes de Forças Armadas estrangeiras e delegações internacionais. O evento acontecerá no dia 3 de setembro, das 8h30 às 14h30, na Escola Superior de Defesa (ESD), em Brasília (DF).
A iniciativa é coordenada pela SEPROD em parceria com o Cluster Aeroespacial Brasileiro, sediado no Parque Tecnológico de São José dos Campos (PIT-SJC), que atua na divulgação da chamada junto a suas empresas associadas. Segundo o comunicado distribuído às associadas, o encontro busca ampliar o relacionamento institucional e comercial da BIDS brasileira com embaixadores, representantes do corpo diplomático, autoridades das Forças Armadas e delegações internacionais, fortalecendo a inserção do setor no mercado externo.
A edição de 2026 dá sequência a um formato que já havia sido testado pela SEPROD em parceria com a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE): o Brazilian Defense Day Embaixadas, realizado no Clube da Aeronáutica de Brasília, reuniu representantes de 47 países e 48 empresas brasileiras, que apresentaram seus produtos em formato de pitch competition a embaixadores e delegações estrangeiras. À época, o sucesso da iniciativa levou a expectativa de que o evento passasse a integrar o calendário oficial do Ministério da Defesa, o que se confirma agora com a nova edição marcada para setembro.
Como participar
As empresas interessadas em apresentar seus produtos e soluções durante o evento devem enviar arquivos em PowerPoint até o dia 21 de agosto, para o e-mail bdd.seprod@defesa.gov.br. As apresentações devem seguir um roteiro definido pela organização: no máximo cinco slides, sem vídeos, com o primeiro slide dedicado à identificação da empresa e o último trazendo contatos e QR Code. O material servirá de base para um pitch de três minutos, a ser apresentado durante o encontro.
A organização reforça que a participação das empresas é considerada estratégica para a promoção internacional da BIDS brasileira, em um momento de expansão das exportações do setor. Segundo balanço divulgado pela própria SEPROD, as autorizações concedidas pelo governo brasileiro para exportação de produtos de defesa somaram US$ 1,815 bilhão no primeiro semestre de 2026, alta de 29% sobre o mesmo período de 2025, resultado atribuído pela pasta a viagens oficiais, ao novo modelo de negociação governo a governo e ao lançamento de catálogo de produtos da BIDS.
Dúvidas sobre a participação das empresas associadas ao Cluster Aeroespacial Brasileiro podem ser encaminhadas para o e-mail aero@pitsjc.org.br

ANA Holdings confirma compra de mais oito Embraer E190-E2

Novo pedido eleva para 23 o total de encomendas firmes da fabricante brasileira junto ao grupo japonês, que prepara parceria operacional mais ampla com a IBEX Airlines


*LRCA Defense Consulting - 29/07/2026

A ANA Holdings, controladora da All Nippon Airways (ANA), aprovou nesta quarta-feira (29), em reunião de conselho, a compra de mais oito jatos Embraer E190-E2. A decisão foi confirmada por registro da própria companhia na bolsa japonesa e reproduzida por veículos especializados, entre eles a AVIATOR e a FlightGlobal.

O novo pedido soma-se ao contrato firmado em fevereiro de 2025, quando a ANA Holdings encomendou 15 unidades firmes do modelo, com opção para outras cinco. Com a nova confirmação, o total de compromissos firmes do grupo japonês para o E190-E2 sobe para 23 aeronaves. Segundo o registro da bolsa, o valor do pedido adicional gira em torno de 105 bilhões de ienes (cerca de US$ 642 milhões). As entregas estão previstas para o período entre o ano fiscal de 2029, que começa em 1º de abril daquele ano, e 2032.

Configurado na versão de 100 assentos, o E190-E2 é apresentado pela Embraer como o jato de sua categoria com menor consumo de combustível e menores emissões sonoras entre os modelos equivalentes, graças a motores e tecnologias de geração mais recente. A ANA Holdings afirma que a aeronave dará mais flexibilidade para ajustar a oferta de capacidade à demanda nas rotas domésticas, em um contexto de mudanças demográficas no Japão, incluindo o encolhimento da população em determinadas regiões.

A compra das oito novas unidades está diretamente ligada a um movimento de reorganização das operações domésticas da ANA. Segundo apurado pelo portal TRAICY, a companhia e sua parceira de codeshare, a IBEX Airlines, sediada em Tóquio, anunciaram um acordo para ampliar a atual parceria, que passará de um simples compartilhamento de código para uma parceria operacional mais abrangente. Nesse novo arranjo, a ANA seguirá responsável pelo planejamento de rotas, frequências e vendas, na condição de transportadora comercializadora, enquanto a IBEX Airlines operará os voos, na condição de transportadora operadora, sob o código e os números de voo da ANA.

As oito novas aeronaves E190-E2 serão usadas em conjunto com a frota já existente do grupo ANA e devem substituir os jatos CRJ da IBEX Airlines, que hoje opera nove unidades do modelo CRJ700. A companhia afirma que o novo desenho de parceria permitirá a ambas as empresas usar de forma mais eficiente seus recursos de gestão, ao mesmo tempo em que a ANA preserva sua rede doméstica e ganha eficiência operacional.

O pedido original de fevereiro de 2025 fazia parte de uma encomenda maior, de até 77 aeronaves, fechada pela ANA Holdings com a Boeing, a Airbus e a Embraer, e marcou a primeira chegada da família E2 ao mercado japonês. Até então, a frota regional do grupo era composta por turboélices De Havilland Canada DHC-8-Q400, operados pela subsidiária ANA Wings. As entregas do primeiro lote de E190-E2 devem começar em 2028.

A Embraer não havia se manifestado publicamente sobre o novo pedido até a publicação desta matéria.

Thales expande hub de radares no Brasil e abre espaço para novas parcerias e aquisições

Ampliação da fábrica da Omnisys em São Bernardo do Campo consolida a subsidiária como centro global de produção e reforça o apetite da matriz francesa por fusões e aquisições no País, movimento que já vinha sendo puxado por outros grupos estrangeiros na base industrial de defesa

 
*LRCA Defense Consulting - 29/07/2026

A Omnisys, subsidiária brasileira do grupo francês de defesa Thales, concluiu a maior expansão industrial de sua história e, ao mesmo tempo, sinalizou disposição para crescer no Brasil por meio de novas parcerias e aquisições. O anúncio, feito nesta terça-feira (28), em São Bernardo do Campo (SP), reúne dois movimentos que se complementam: a consolidação da fábrica local como polo global de radares e a perspectiva, admitida publicamente por executivos da companhia, de que o crescimento futuro no País passe também por operações de compra ou associação com outras empresas do setor.
O maior investimento da história da unidade
Segundo a Thales, o aporte superior a R$ 120 milhões multiplicou por dez a capacidade de produção de radares da Omnisys, que passa de uma média de cinco para 50 equipamentos por ano. A área fabril da unidade, no bairro Vila Júpiter, cresce 40%, de oito mil para 11 mil metros quadrados, e o processo deve ser concluído em junho de 2027. O quadro de funcionários aumentará 70%, de 250 para 420 pessoas, com a capacitação da nova mão de obra prevista para durar até dezembro de 2026.
O anúncio contou com a presença do ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho. Segundo o presidente da Omnisys, Rodrigo Modugno, a companhia já exporta para 20 países e pretende orientar a produção para escala serial sem abrir mão da capacidade de inovar e atender às Forças Armadas brasileiras. O diretor-geral da Thales no Brasil e vice-presidente para a América Latina, Luciano Macaferri Ridrigues, afirmou que o resultado consistente da operação no País justificou a decisão de concentrar ali parte da produção hoje feita na França, no Reino Unido e na Austrália.
Discurso aberto a fusões e aquisições
Ao lado da ampliação física da fábrica, a Thales deixou claro que enxerga espaço para crescer no Brasil também por vias externas. Em entrevista à Reuters, o vice-presidente de radares de superfície da Thales, Eric Huber, disse que a companhia está aberta a parcerias e a atividades de M&A (fusões e aquisições), já que pretende continuar crescendo no País. Segundo ele, a empresa não comenta casos específicos, mas reafirma a intenção de ampliar sua presença nacional.
No curto prazo, a prioridade da Thales é garantir o sucesso da nova etapa produtiva e das entregas decorrentes da expansão da fábrica. No médio e no longo prazos, porém, o grupo avalia ampliar o portfólio fabricado localmente, incluindo novos modelos de radares e o reforço da parceria com o Exército Brasileiro e a Força Aérea Brasileira na área de radares militares. A Thales projeta crescimento superior a 60% em vendas e receitas na América Latina nos próximos três a cinco anos.
Um padrão que já se repete na indústria brasileira
A sinalização da Thales ocorre num momento em que a base industrial de defesa (BID) brasileira já vive um ciclo de consolidação puxado por capital estrangeiro. O caso mais recente é o do EDGE Group, conglomerado estatal dos Emirados Árabes Unidos, que concluiu, em pouco menos de três anos, a compra de três empresas de defesa no País: 50% da SIATT (Sistemas Integrados de Alto Teor Tecnológico), em 2023; 51% da Condor Tecnologias Não Letais, em 2024; e, mais recentemente, 100% da Akaer, empresa de engenharia aeroespacial de São José dos Campos.
Segundo o CFO do EDGE Group, Rodrigo Torres, o objetivo do conglomerado é repetir nas empresas adquiridas a mesma estratégia: injeção de capital, expansão da produção e acesso à carteira internacional do grupo. A movimentação do EDGE Group ilustra o interesse de grandes conglomerados estrangeiros em ativos brasileiros de defesa com tecnologia sensível, como mísseis, sistemas eletro-ópticos e engenharia aeroespacial; é nesse cenário que se insere a fala de Huber sobre o apetite da Thales por parcerias e aquisições.
Radares militares e vigilância costeira como próximos passos
Modugno adiantou que a Omnisys pretende ampliar sua atuação em vigilância costeira, área que, segundo ele, é uma demanda crescente à medida que os países ficam mais atentos às suas zonas econômicas exclusivas. No mercado doméstico, o executivo citou o aumento das apreensões em zonas rurais como outro fator de demanda. A empresa também deve quadruplicar a capacidade de seu laboratório de reparos em São Bernardo do Campo, com técnicos brasileiros atuando em diferentes países para garantir a disponibilidade dos radares, cuja vida útil varia de 25 a 30 anos.
Para Macaferri Ridrigues, o maior desafio da expansão não está na demanda, mas na formação de mão de obra especializada; segundo ele, um radarista qualificado pode levar décadas para ser formado, o que levou a Thales a investir em treinamento interno e em intercâmbio com universidades locais, entre elas a Universidade Federal do ABC (UFABC).
Se, por ora, a Thales evita comentar operações específicas, o discurso público de seus executivos e o histórico recente de outros grupos estrangeiros no setor sugerem que o apetite por parcerias e aquisições no Brasil deve seguir como uma frente relevante de expansão da indústria de defesa nacional, ao lado dos investimentos diretos em capacidade industrial já em curso.

KAI e Embraer assinam memorando para ampliar cooperação em aviação comercial

Acordo entre as fabricantes, firmado durante visita do presidente sul-coreano ao Brasil, formaliza plano anunciado em fevereiro para explorar o desenvolvimento de uma aeronave de nova geração


*LRCA Defense Consulting - 29/07/2026 (atualizado em 30/07)

A Korea Aerospace Industries (KAI) e a Embraer assinaram um memorando de entendimento (MOU) para ampliar a cooperação em aviação comercial e aeroespacial, fortalecendo a parceria estratégica entre as duas fabricantes. O acordo foi firmado durante o Korea-Brazil Business Roundtable, realizado em São Paulo nesta terça feira (28), no âmbito da visita de Estado do presidente sul-coreano Lee Jae Myung ao Brasil, segundo informou o portal especializado AVIATOR.

Segundo autoridades sul-coreanas, o MOU dá continuidade a um anúncio feito pelas duas empresas em fevereiro, quando KAI e Embraer já haviam manifestado a intenção de explorar conjuntamente o desenvolvimento de uma aeronave comercial de nova geração. O novo memorando estabelece agora um marco para colaboração mais ampla e diálogo estratégico regular entre as companhias.

O acordo corporativo coincidiu com uma proposta política do presidente Lee, que, no mesmo evento, apontou o desenvolvimento conjunto de aeronaves comerciais de nova geração como um dos três eixos prioritários para aprofundar a relação econômica entre os dois países, ao lado da cooperação em minerais críticos e da crescente indústria coreana de cosméticos.

Governo fala em estágio inicial, mas empresas já formalizam colaboração
Em paralelo ao MOU entre as fabricantes, o chefe da Política Presidencial da Coreia do Sul, Kim Yong-beom, afirmou que a participação sul-coreana no programa de nova geração da Embraer ainda está em estágio muito preliminar: nem a forma dessa participação, nem os termos comerciais de um eventual acordo mais amplo foram definidos até o momento. A distinção é relevante: o MOU já assinado organiza o diálogo entre KAI e Embraer, mas o formato final da cooperação, incluindo eventual investimento ou desenvolvimento conjunto de um avião maior, segue em aberto.

Ideia surgiu durante inspeção a um C-390
O tema já havia sido lançado por Lee no domingo (26), ao chegar a Brasília, quando inspecionou um C-390, aeronave de transporte militar fabricada pela Embraer que a Força Aérea sul-coreana deve começar a receber ainda neste ano, dentro de um contrato que já prevê a produção de componentes por empresas coreanas. Na ocasião, o presidente disse a autoridades brasileiras que os dois países deveriam, no futuro, construir aeronaves civis juntos, se possível.

Foto: Korea Herald

Um avião maior que os jatos regionais atuais
De acordo com Kim, a Embraer estaria avaliando ampliar seu portfólio para além dos jatos regionais de 70 a 100 assentos, hoje núcleo de seu negócio comercial, entrando no segmento de aeronaves de médio porte, com capacidade para 150 a 200 passageiros. É nesse programa, ainda em fase de concepção, que a Coreia do Sul pretende buscar uma participação mais profunda do que a atual, hoje restrita majoritariamente ao fornecimento de partes de fuselagem e asas.

A motivação: ampliar a base industrial aeroespacial coreana
Kim explicou que a eventual parceria serviria para ampliar a base industrial aeroespacial da Coreia do Sul, hoje concentrada quase exclusivamente na fabricação de aeronaves militares pela Korea Aerospace Industries (KAI). Segundo ele, a KAI não pode permanecer restrita a esse campo, dependente apenas da demanda doméstica por caças, e precisa expandir tanto na área militar quanto na aviação comercial. O setor de aviação comercial, os motores aeronáuticos e a indústria espacial estão conectados, disse Kim, acrescentando que a Coreia do Sul precisa fortalecer significativamente suas capacidades aeroespaciais.

O que a KAI já fornece à Embraer hoje
A KAI afirmou que a parceria tem como objetivo ir além da atual relação de fornecedora que mantém com a Embraer. Atualmente, a empresa sul-coreana fabrica estruturas de asa para aeronaves comerciais da Embraer e componentes estruturais para aeronaves eVTOL (de decolagem e pouso vertical elétricos), segmento em que a fabricante brasileira atua por meio da Eve Air Mobility. Com o novo memorando, a KAI busca desenvolver uma parceria de mais longo prazo, focada em compartilhamento de tecnologia e desenvolvimento conjunto.

Representantes da Korea Aerospace Industries e da Embraer posam para foto após a assinatura de um memorando de entendimento sobre cooperação estratégica em estruturas aeronáuticas durante a Mesa Redonda Empresarial Coreia-Brasil em São Paulo, Brasil, em 28 de julho de 2026. Foto: Cortesia da KAI

Empresas já se movimentam
Durante a viagem, executivos coreanos se anteciparam ao debate público: Cho Won Tae, presidente do Hanjin Group, e Kim Jong Chool, presidente da KAI, mantiveram reuniões individuais com o chairman da Embraer para tratar de uma possível participação sul-coreana e da ampliação da parceria já existente entre as duas empresas. O acordo entre KAI e Embraer foi um dos sete memorandos de entendimento assinados entre companhias coreanas e brasileiras durante o fórum, que também abrangeram defesa, minerais críticos e biotecnologia.

Kim Yong-beom mencionou ainda conversas em andamento entre a Korean Air e a Embraer, mas o Governo evitou detalhá-las, alegando tratar-se de um estágio ainda inicial das tratativas.

Cautela diante de um mercado concentrado
O próprio Kim reconheceu que as empresas avançam com cautela: o mercado global de aeronaves é dominado por poucos fabricantes, entre eles Airbus e Boeing, e uma eventual parceria com a Embraer poderia afetar as relações da Coreia do Sul com esses concorrentes. Ainda assim, o Governo sul-coreano avalia que a Embraer, uma das três maiores fabricantes de aeronaves comerciais do mundo e importante player em aviação executiva e defesa, oferece uma oportunidade concreta de expansão na aviação civil global, caso as condições se mostrem favoráveis.

Uma base de cooperação que já existe
A eventual expansão para o campo comercial se apoiaria em uma cooperação industrial já consolidada entre os dois países. Em 2023, a Coreia do Sul foi selecionada pela Administração do Programa de Aquisição de Defesa (DAPA) como cliente do C-390 Millennium, no programa Large Transport Aircraft II (LTA II), e componentes do cargueiro, como partes de fuselagem e asas, já são produzidos por fornecedores locais como ASTG, EMK e Kencoa Aerospace. Em outubro de 2025, a Embraer e a DAPA assinaram ainda um memorando de entendimento para aprofundar a cooperação tecnológica e abrir caminho à participação de empresas coreanas nas cadeias globais de suprimentos da fabricante brasileira.

Próximos passos
Segundo Kim, o Governo sul-coreano pretende usar os resultados das conversas da Korean Air e da KAI com a Embraer para desenhar uma estratégia de participação mais ampla, envolvendo outras empresas e órgãos oficiais, sob coordenação da Presidência e da Korea AeroSpace Administration. Após o retorno da comitiva a Seul, disse Kim, o tema será discutido internamente de forma mais aprofundada, como base para dar sequência às tratativas com a Embraer.

27 julho, 2026

Delivery no front de combate: drone entrega frango frito da KFC a soldados ucranianos e expõe nova fronteira logística

Bombardeiro Heavy Shot usado pelo 3º Regimento de Operações Especiais da Ucrânia populariza cena inédita e reacende o debate sobre o potencial civil da logística aérea não tripulada testada em combate 

Imagem real trabalhada com IA

*LRCA Defense Consulting - 27/07/2026

Um vídeo publicado nos últimos dias mostra soldados do 3º Regimento Separado de Propósito Especial da Ucrânia, unidade conhecida como “Príncipe Sviatoslav, o Bravo”, recebendo em posição de combate uma entrega de comida da rede KFC, embalada em uma sacola da Glovo.

KFC é a sigla de Kentucky Fried Chicken, a rede americana de fast-food fundada por Harland Sanders, especializada em frango frito. É uma das maiores redes de fast-food do mundo, com presença em mais de 140 países, incluindo a Ucrânia, onde segue operando mesmo em meio à guerra.

O transporte, porém, não foi feito por um entregador comum: coube a um drone Heavy Shot, normalmente empregado em missões noturnas de ataque. A cena circulou amplamente em redes sociais e chamou a atenção inclusive de analistas militares como Rob Lee, pesquisador sênior do Foreign Policy Research Institute, tornando-se um ponto de partida para discutir o papel crescente de drones pesados como plataforma logística, e não apenas de combate.

Do bombardeiro ao entregador
O Heavy Shot é um drone bombardeiro pesado desenvolvido pela empresa ucraniana Gurzuf Defence. Em sua configuração usual, a plataforma carrega entre 20 kg e 30 kg de granadas de morteiro ou outras munições, a distâncias de até 20 km, e vem sendo adotado pelas Forças Armadas da Ucrânia, pelas Forças de Operações Especiais, pelo Serviço de Segurança (SBU), pela inteligência de defesa (HUR) e pela Guarda de Fronteira. No episódio em questão, o mesmo tipo de plataforma que normalmente lança explosivos foi reprogramado, na prática, para uma missão totalmente distinta: entregar uma refeição quente a uma posição avançada, num gesto que mistura humor de guerra, moral de tropa e demonstração de capacidade técnica.

Parte de uma família, não um caso isolado
O Heavy Shot integra uma família maior de quadricópteros e hexacópteros pesados que soldados russos apelidaram de “Baba Yaga”, em referência à bruxa do folclore eslavo, entre eles o Vampire, fabricado pela SkyFall, e o Kazhan, da Reactive Drone. O próprio Vampire, com cerca de 30 km de alcance e câmeras térmicas, já vinha sendo usado não só em ataques mas também na entrega de alimentos e suprimentos médicos à linha de frente. Casos anteriores incluem até o transporte de uma bicicleta elétrica para resgatar um soldado cercado, e reportagens já haviam registrado brigadas de elite ucranianas em que entre 50% e 80% do reabastecimento das posições mais avançadas passou a depender de robôs terrestres e multirrotores pesados, e não mais de veículos tripulados.

A explicação para essa mudança é operacional, não estética: analistas como Rob Lee observam que alguns regimentos de assalto e batalhões de operações especiais passaram a empregar drones bombardeiros pesados em apoio direto a pequenas equipes de infantaria, sustentando-as com comida, água, munição e material médico. Com zonas de exclusão de até 20 km monitoradas por drones de ambos os lados, o reabastecimento por caminhão ou viatura tornou-se praticamente inviável em setores críticos como Kostiantynivka e Pokrovsk, obrigando tropas a caminhar longas distâncias carregando tudo de que precisam quando o suprimento aéreo não chega a tempo.

O contraste que viralizou
Parte do impacto do vídeo está na leitura simbólica que ele provocou nas redes: usuários compararam o episódio a relatos anteriores de soldados russos que se rendiam recebendo comida da rede McDonald's oferecida por forças ucranianas, e alguns comentários chegaram a evocar, com humor, o paralelo histórico das barcaças de sorvete usadas pelos Estados Unidos para elevar o moral de tropas no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial. Trata-se de uma interpretação simbólica difundida por usuários e comentaristas nas redes, não de um dado operacional verificável, mas que ajuda a explicar por que a cena ganhou tração fora do círculo de especialistas em defesa.

Uma vitrine involuntária: o potencial comercial da tecnologia
Para além do episódio pontual, o caso funciona como vitrine involuntária de uma tecnologia com apelo comercial crescente. O mercado global de entregas por drone já é avaliado em cerca de US$ 5 bilhões em 2026, com projeções de alcançar entre US$ 17 bilhões e US$ 21 bilhões até meados da década seguinte, impulsionado principalmente por comércio eletrônico, farmácias e logística de curta distância, segundo levantamentos da Fortune Business Insights e da Future Market Insights. Operadoras civis como Zipline e Wing já entregam pedidos em janelas de 10 a 30 minutos, mas operam, em geral, em ambientes controlados, sem interferência eletrônica deliberada.

A diferença do caso ucraniano é justamente essa: plataformas como o Heavy Shot e o Vampire foram validadas em condições extremas de guerra eletrônica, GPS degradado e defesa antiaérea ativa, algo que dificilmente qualquer operação civil de delivery é chamada a enfrentar. Esse amadurecimento técnico forçado pela necessidade militar tende a alimentar, no médio prazo, tecnologias de navegação resiliente e comunicação redundante que podem migrar para aplicações civis de última milha, incluindo entregas médicas em áreas remotas e reabastecimento humanitário em zonas de difícil acesso.

O raciocínio não é exclusivo da Ucrânia. No Brasil, o mesmo tipo de lógica dual-use já orienta discussões dentro do Exército Brasileiro sobre quadricópteros de grande porte originalmente desenvolvidos para agricultura e logística civil, hoje avaliados também para reabastecimento de posições avançadas, um caminho que o País começa a percorrer de forma planejada, à luz do que a Ucrânia aprendeu de forma empírica ao longo de mais de três anos de conflito.

Uma tendência já em curso
O episódio do KFC entregue por drone não inaugura, portanto, uma tendência: ele a ilustra de forma inédita e viral. A transformação da logística de linha de frente, de caminhões e viaturas para drones aéreos e robôs terrestres, já vinha sendo registrada como uma das mudanças mais significativas na arte da guerra desde a mecanização das forças armadas. O que a cena com o Heavy Shot acrescenta é a evidência de que essa mesma tecnologia, testada sob fogo, carrega também um potencial comercial que companhias de delivery e logística ao redor do mundo devem observar com atenção.

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