*LRCA Defense Consulting - 18/06/2026
Durante a Eurosatory 2026, em Paris, a CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos) e a italiana Leonardo assinaram um framework agreement (acordo-quadro) para a produção conjunta de cartuchos de 30 mm. O documento foi firmado por Fabio Mazzaro, CEO da CBC, e Luca Perazzo, diretor de sistemas de defesa na Leonardo, e confirmado oficialmente pelas duas empresas em publicação conjunta no LinkedIn da página Leonardo Electronics.
Munições de 30 mm com espoleta programável
Pelos termos do acordo, as duas
empresas vão colaborar na produção de cartuchos nos calibres 30x113 mm e 30x173
mm. O diferencial técnico está na integração desses cartuchos com a nova
espoleta de proximidade multifuncional programável da Leonardo, que permite
três modos de operação: detonação por proximidade com autodestruição
programada, modo tempo (também chamado de airburst) e impacto instantâneo.
Essa espoleta foi projetada para equipar duas famílias de sistemas de armas da Leonardo voltadas ao combate a drones (contramedidas C-UAS, sigla em inglês para sistemas aéreos não tripulados): a torre Hitfist, em suas versões tripulada e não tripulada (incluindo a nova Hitfist 30 UL, Uncrewed Light), equipada com o canhão X-GUN de 30x173 mm; e o sistema Hitrole C-UAS, equipado com o canhão Blaze de 30x113 mm. Ambos os sistemas são descritos pela Leonardo como isentos de restrições ITAR, um detalhe comercial relevante para a exportação a países fora do guarda-chuva de controle de armamentos dos Estados Unidos.
Segundo a nota conjunta, a nova munição amplia a capacidade da Leonardo de oferecer ao mercado um conjunto de armas antidrone capaz de cobrir toda a cadeia de engajamento (detecção, identificação e neutralização), reforçando também sua posição geral no setor de munições. A empresa italiana já figura entre as líderes mundiais em munições de 76 mm, 127 mm e 155 mm, e desenvolve atualmente soluções em 120 mm.
Mais um item na lista de acordos da CBC na feira
O acordo com a Leonardo não foi
a única movimentação da CBC na Eurosatory 2026. A empresa, que completa cem
anos em 2026, também assinou um strategic alliance agreement com a
americana Paligen Technologies, voltado a oportunidades conjuntas no setor de
munição de calibre médio, com foco inicial em programas do governo dos Estados
Unidos; e fechou os termos comerciais principais de uma colaboração com a Shell
Shock Technologies, fabricante da tecnologia de estojo híbrido NAS3, para
industrializar e comercializar globalmente essa tecnologia em calibres como
5,56x45 mm, 7,62x51 mm, .277 Fury, .338 Lapua, .50 BMG e 9 mm.
O padrão sugere uma estratégia deliberada de usar a feira parisiense para multiplicar alianças setoriais, no momento em que a CBC Global Ammunition (holding que reúne CBC Brasil, Magtech, nos Estados Unidos, MEN, na Alemanha, e operações na Bélgica) soma mais de três mil funcionários e produz acima de dois bilhões de cartuchos por ano. O grupo também mantém participações estratégicas na New Lachaussée e na Fritz Werner, fabricantes de equipamentos e linhas de produção para a indústria de munições, além de participação de 19,52% no Colt CZ Group.
O que o acordo significa para o Brasil
Para a base industrial de
defesa brasileira, o episódio tem um valor simbólico que vai além do calibre 30
mm. A CBC, Empresa Estratégica de Defesa e principal fornecedora das Forças
Armadas e dos órgãos de segurança brasileiros, aparece como parceira direta de
uma das maiores prime contractors europeias justamente em uma frente
tecnológica sensível: munição com espoleta programável para combate a drones,
área em que a demanda global cresce de forma acelerada.
Vale uma ressalva editorial: o comunicado conjunto não detalha onde a produção efetivamente ocorrerá, nem se a tecnologia da espoleta programável será transferida para alguma planta brasileira da CBC. O texto fala em atender à crescente demanda internacional por munição de calibre médio e em reforçar capacidade industrial, capacidade de resposta e segurança de fornecimento das duas empresas; uma linguagem compatível tanto com produção centralizada na Itália quanto com algum grau de produção ou montagem distribuída entre as plantas da CBC (Brasil, Estados Unidos, Alemanha e Bélgica). Até a publicação desta reportagem, não há confirmação pública de transferência de tecnologia (ToT) especificamente para o Brasil.
Ainda assim, o acordo se insere em um momento particular do debate sobre defesa antidrone no país. Como já tratamos em reportagens anteriores, o Exército brasileiro vem reconhecendo lacunas na capacidade de detectar e abater drones de baixa assinatura, evidenciadas, por exemplo, nas dificuldades enfrentadas pelos Gepard 1A2 durante a Operação Punhos de Aço 2025. Embora o acordo CBC-Leonardo trate de munição e não de sistemas de armas completos, ele mostra que o mercado internacional de calibre médio está se movendo rapidamente para incorporar espoletas programáveis dedicadas a esse tipo de ameaça; uma tendência que tende a pressionar também as discussões sobre modernização da defesa antiaérea de curto alcance no Brasil.
Outro ponto relevante é o caráter ITAR-free dos sistemas de arma aos quais a nova munição se destina. Para compradores fora do círculo de aliados próximos dos Estados Unidos (incluindo o próprio Brasil, em determinados contextos de exportação), sistemas livres de restrições ITAR costumam ser comercialmente mais atrativos, o que pode ampliar o mercado potencial tanto para a Leonardo quanto, indiretamente, para a CBC como fornecedora de munição.
Por fim, o acordo se soma a uma sequência recente de aproximações entre a indústria de defesa brasileira e grandes grupos europeus, entre eles Saab, MBDA e TKMS, em um momento de reposicionamento das cadeias de suprimento de defesa globais. Mesmo sem cláusulas de produção local confirmadas, a assinatura reforça a CBC como interlocutora reconhecida internacionalmente em munição de calibre médio; um ativo que tende a ter peso em negociações futuras, sejam elas sobre o próprio acordo com a Leonardo, sejam sobre outras parcerias ainda em maturação.


