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27 abril, 2026

Taurus antecipa integração com a Mertsav e apresenta armas turcas como parte de seu portfólio militar

A maior vendedora de armas leves do mundo apresentou a militares, policiais e autoridades um portfólio com metralhadoras e lançadores de granada de uma empresa turca que ainda não foi formalmente adquirida, mas que, na prática, já opera como parte da família Taurus

Imagem destaca as metralhadoras e os laçadores de granadas da Mertsav ao lado 
de duas submetralhadoras Taurus RPC 9mm com supressores

*LRCA Defense Consulting - 27/04/2026

Havia algo incomum no salão da AMTT São Paulo entre os dias 13 e 17 de abril de 2026. Entre pistolas, fuzis e o drone armado TAS, produtos inequivocamente brasileiros, saídos das linhas de produção da Taurus em São Leopoldo (RS) e nos Estados Unidos, militares das forças armadas e integrantes das forças policiais manuseavam armas que não constam de nenhum catálogo oficial da empresa gaúcha. 

Ao menos, não ainda, embora na postagem que fez em suas mídias sociais a empresa tenha escrito que "a Taurus recebeu, na AMTT São Paulo, profissionais e autoridades das Forças Armadas e Policiais para uma agenda de apresentações e demonstrações técnicas de seu portfólio Taurus Military Products".

Algumas das armas apresentadas são turcas, produzidas pela Mertsav Savunma Sistemleri, fabricante de Istambul e Kırıkkale que a Taurus está em negociações para adquirir há mais de um ano e que, segundo o Fato Relevante mais recente, publicado em 2 de abril de 2026, ainda aguarda a conclusão de auditorias, negociações finais e aprovações regulatórias para ter a operação efetivada.

No entanto, o que se viu na AMTT conta uma história diferente. Uma história de integração que, na prática, já está em curso.

O que estava no salão
O portfólio apresentado sob o guarda-chuva Taurus Military Products reunia produtos de origens distintas, mas com uma identidade visual e comercial unificada. Do lado brasileiro, estavam presentes as submetralhadoras RPC 9mm nas versões de cano de 8" e 4,5", ambas equipadas com supressores, a arma revolucionária que a Taurus posiciona como concorrente direta da HK MP5 e que não possui nenhum parafuso na estrutura, um pioneirismo mundial declarado pela empresa.

Também figuravam a pistola TX9 (lançada no World Defense Show de Riade, em fevereiro), os fuzis T4 e T10 em diferentes calibres, e o TAS - Tactical Air Soldier, o drone armado desenvolvido em parceria com uma empresa brasileira especializada, cuja estação de tiro é de fabricação Taurus.

Do lado turco, e este é o ponto central desta matéria, o salão contava com um conjunto expressivo de sistemas assinados pela Mertsav:

Metralhadoras:

  • MMG556: metralhadora leve calibre 5,56mm NATO, compatível com carregadores STANAG e correia M27, com três opções de comprimento de cano;

  • MMG762: metralhadora de médio calibre 7,62mm NATO, variante aprimorada da FN Minimi 7,62 (Maximi/Mk.48);

  • MHMG-127: metralhadora pesada calibre 12,7mm (.50 BMG), projetada para atingir alvos terrestres e aéreos a longa distância.

Lançadores de granada e fuzil com acoplamento:

  • TAC 40: lançador de granada standalone calibre 40 mm;

  • MPA 440: lançador de granadas calibre 40 mm, de repetição múltipla, com sistema de funcionamento por ação de bombeamento;

  • TAN: fuzil de assalto 5,56mm com lançador de granada acoplado, também de origem Mertsav.

Nenhum desses sistemas é ainda fabricado pela Taurus. Nenhum deles está no portfólio formal da empresa brasileira. Mas todos foram apresentados, lado a lado com produtos Taurus, a militares e policiais brasileiros sob o mesmo rótulo comercial: Taurus Military Products.



O que isso significa
A pergunta que naturalmente emerge é: por que uma empresa apresenta, em evento institucional para as Forças Armadas e Policiais de seu próprio país, produtos de uma fabricante estrangeira que ainda não adquiriu?

A resposta mais simples e provavelmente a mais correta é que, operacionalmente, a aquisição já está resolvida. O que falta são os ritos formais: a conclusão da due diligence, a assinatura dos contratos definitivos e as aprovações regulatórias nos dois países envolvidos.

Esta não seria a primeira vez que a lógica dos negócios corre à frente do papel. Em março de 2026, o próprio CEO Global da Taurus, Salesio Nuhs, revelou em uma live que a empresa havia vencido licitação internacional para o fornecimento de 300 metralhadoras Mertsav MMG762 ao Exército Brasileiro via Estados Unidos. Ou seja, a Taurus já vende armas Mertsav para as Forças Armadas do país que sedia a Taurus, antes de a aquisição da Mertsav estar concluída.

Em fevereiro de 2026, a Marinha do Brasil assinou com a Taurus um Protocolo de Intenções para o desenvolvimento de sistemas de armas coletivas nos calibres 5,56mm, 7,62mm e .50 BMG, precisamente os calibres das três metralhadoras Mertsav exibidas na AMTT. Na cerimônia, realizada na Fortaleza de São José, no Rio de Janeiro, Salesio Nuhs, CEO Global da Taurus, foi direto: "Estamos dando um passo decisivo dentro da Taurus, indo em direção ao mercado de armamento militar, que são as Minimi em calibre 5,56mm e 7,62mm, e a .50."

A presença do BNDES na assinatura daquele protocolo, com o presidente Aloizio Mercadante formalizando apoio por documento oficial, indica que o projeto tem respaldo da política industrial do governo federal, inserido na Missão 6 da Nova Indústria Brasil, dotada de R$ 112,9 bilhões em investimentos até 2026.

Uma empresa que vende antes de ser comprada
A Mertsav não chegou ao radar brasileiro sem credenciais. Antes de aparecer nas apresentaçoes da Taurus, a empresa turca já havia conquistado contratos recentes e relevantes em dois países do Sudeste Asiático.

Para o Exército da Malásia, forneceu 86 metralhadoras pesadas MHMG-127 após disputa com 14 concorrentes. Para os Fuzileiros Navais das Filipinas, saiu vitoriosa com 95 unidades da MMG762, sendo a única licitante a atender todos os requisitos técnicos e financeiros da concorrência. Curiosamente, nessa mesma disputa, Mertsav e Taurus competiram separadamente em outra licitação, para fuzis, como concorrentes diretos. Ambas perderam para a sul-coreana Dasan Machineries.

Essa cena resume bem o estágio em que as duas empresas se encontravam até recentemente: orbitando os mesmos mercados, disputando os mesmos clientes, mas ainda de lados distintos do balcão.

O evento na AMTT de abril de 2026 sugere que esse período chegou ao fim.

O salto que a Taurus quer dar
Para entender a magnitude do movimento, é preciso ter em mente o que a Taurus é hoje e o que pretende ser. A empresa gaúcha, fundada há 86 anos, consolidou-se como a maior vendedora de armas leves do mundo, com mais de 82% de seus produtos exportados para os Estados Unidos. É líder em pistolas e revólveres, com fábricas no Brasil, EUA e Índia.

O que ela não tem e a Mertsav tem é expertise em armas coletivas: metralhadoras leves e pesadas, e lançadores de granada. Desenvolver essa tecnologia do zero exigiria anos de P&D, testes extensivos e homologações custosas. A aquisição da Mertsav, se concluída, comprime esse caminho de forma dramática.

A ambição declarada é explícita: tornar a Taurus a única empresa no mundo capaz de fabricar armas do calibre .22 LR ao .50 BMG, disputando um mercado estimado em US$ 71,5 bilhões até 2032. Para isso, a companhia criou uma nova diretoria específica para o portfólio militar, recrutando um executivo brasileiro com duas décadas de experiência em Israel, referência mundial no setor de defesa.

Caso a aquisição se concretize, como tudo indica, as armas Mertsav passarão a ser produzidas também no Brasil, sem desativação das unidades turcas. A Taurus Turquia se tornaria a quarta unidade produtiva do grupo no mundo.

CEO Global da Taurus, Salesio Nuhs, acompanhado de Henrique Gomes, Diretor da Divisão Militar e Exportação, em visita de cortesia ao General de Exército Basto, Comandante Militar do Sul (CMS), e ao General de Divisão Ferraz, Comandante da 3ª Região Militar (3ª RM)

O sinal mais claro até agora
Desde o primeiro Memorando de Entendimentos, assinado na LAAD de abril de 2025, a operação acumulou prorrogações e adiamentos. O mercado acostumou-se a aguardar o anúncio definitivo. Mas poucos sinais foram tão concretos quanto o que se viu na AMTT de São Paulo.

Apresentar armas turcas para oficiais das Forças Armadas e policiais brasileiras, em evento fechado de alta credibilidade institucional, não é um gesto de intenção. É um gesto de confiança operacional. É o tipo de apresentação que se faz quando o produto já faz parte da família, mesmo que o cartório ainda não tenha registrado o nome.

Mas se a AMTT foi o palco, o que veio a seguir foi a plateia de mais alto escalão até agora. Em 22 de abril, cinco dias após o encerramento do evento em São Paulo, o próprio CEO Global da Taurus, Salesio Nuhs, acompanhado de Henrique Gomes, Diretor da Divisão Militar e Exportação, realizou uma visita de cortesia ao General de Exército Basto, Comandante Militar do Sul (CMS), e ao General de Divisão Ferraz, Comandante da 3ª Região Militar (3ª RM). Na pauta: as atualizações do portfólio Taurus Military Products e os projetos desenvolvidos em alinhamento às necessidades operacionais do Exército Brasileiro.

A escolha do Comando Militar do Sul não é geograficamente acidental. Porto Alegre, sede do CMS e da 3ª RM, fica a menos de 50 quilômetros de São Leopoldo, onde está a principal fábrica da Taurus. A empresa e o Exército são vizinhos há décadas. Mas uma visita de cortesia do CEO a um general de quatro estrelas, com o diretor da divisão militar ao lado e com o portfólio de armas coletivas na pasta, tem um peso diferente de uma reunião de rotina. É o tipo de agenda que se realiza quando há um negócio sério a discutir, e quando se quer que os mais altos escalões da força armada sejam os primeiros a saber o que está por vir.

A sequência dos eventos de abril de 2026, AMTT em São Paulo e visita ao CMS em Porto Alegre, descreve uma empresa em movimento coordenado: apresenta o produto para o corpo técnico e operacional, depois leva o CEO e o Diretor da Divisão Militar para alinhar com o topo da cadeia de comando regional. É a lógica de quem não está mais vendendo uma ideia, mas entregando uma realidade.

A Taurus ainda não adquiriu a Mertsav no papel. Mas em abril de 2026, entre o salão da AMTT e o gabinete do Comandante Militar do Sul, as armas turcas já portavam um sobrenome brasileiro, e os generais provavelmente já sabem disso.

24 abril, 2026

Drones da brasileira Speedbird Aero estreiam em Nova York

Empresa brasileira  será parceira de aeronaves em um grande teste de operações de entrega por drones na cidade de Nova York, em um marco significativo para o mercado de mobilidade aérea avançada nos Estados Unidos 


*LRCA Defense Consulting - 24/04/2026

A Speedbird Aero, líder global em logística aérea não tripulada, tem o orgulho de anunciar sua participação como parceira de aeronaves em um importante teste de operações de entrega por drones na cidade de Nova York, marcando um marco significativo para o mercado de mobilidade aérea avançada nos Estados Unidos.

O teste de 12 meses, operado pela Skyports Drone Services em parceria com a Autoridade Portuária de Nova York e Nova Jersey (PANYNJ), transportará cargas leves entre o Lower Manhattan e o Terminal Marítimo do Brooklyn. As operações ocorrerão em dias úteis ao longo de uma rota fixa sobre a água, longe de áreas residenciais, sob a supervisão de pilotos de drones certificados da Skyports e com a aprovação da Administração Federal de Aviação (FAA).

Esta iniciativa posiciona a cidade de Nova York como uma das primeiras grandes áreas metropolitanas do mundo a testar a integração da logística baseada em drones em um ecossistema de transporte urbano. O teste se baseia nos esforços contínuos da Autoridade Portuária para avaliar a viabilidade de rotas de carga por drones que possam apoiar entregas de interesse público em toda a região. O objetivo mais amplo é reduzir o congestionamento nas estradas, viabilizar soluções logísticas de baixo carbono e explorar alternativas à entrega tradicional de média distância.

O programa dá sequência a uma prova de conceito de duas semanas realizada em janeiro de 2026 pela Skyports, em parceria com a Autoridade Portuária e a NYCEDC, utilizando a mesma rota, cronograma e plataforma Speedbird.

“O início das operações em Nova York é um momento decisivo para a logística com drones”, disse Manoel Coelho, CEO da Speedbird Aero. “Poucas cidades apresentam a complexidade operacional e a demanda logística. Temos orgulho de fornecer a tecnologia que permite à Skyports integrar a logística com drones de forma segura e eficiente em um dos espaços aéreos mais movimentados do mundo. O início do serviço aqui demonstra a maturidade de nossa tecnologia e a prontidão da logística com drones para dar suporte a cadeias de suprimentos reais em grande escala.”

“Em todo o mundo, os drones provaram ser uma ferramenta eficaz para o transporte de cargas críticas, oferecendo uma alternativa mais rápida e limpa ao transporte rodoviário tradicional”, disse Alex Brown, CEO da Skyports Drone Services. “Seja navegando por ambientes urbanos densos ou terrenos desafiadores, os drones têm o potencial de transformar a logística de média distância. Estamos ansiosos para demonstrar esse potencial em Nova York nos próximos 12 meses.”

Com base na experiência global e na comprovada confiabilidade tecnológica da Speedbird, a empresa está apoiando a implementação de uma estrutura projetada para operações logísticas contínuas.

“Estamos construindo uma estrutura que pode suportar uma rede logística de longo prazo”, acrescentou Coelho. “Assim como caminhões e aeronaves operam sob sistemas padronizados, os drones estão entrando em uma fase em que podem dar suporte a cadeias de suprimentos reais — não apenas demonstrações.”

A plataforma da Speedbird está se consolidando rapidamente como a ferramenta principal do setor. Sua comprovada confiabilidade é demonstrada pelas operações pioneiras da Skyports, como o primeiro serviço comercial de entrega por drones do Reino Unido, com voos rotineiros do Royal Mail nas Ilhas Orkney, logística remota de saúde na Bélgica pilotada a partir do Reino Unido e missões de navio para terra em Singapura, integrando sistemas UTM e de rastreamento marítimo. 

Essas missões além da linha de visão (BVLOS) são sustentadas por protocolos de segurança reconhecidos globalmente, incluindo a estrutura de Avaliação de Risco Operacional Específico (SORA) — uma abordagem amplamente endossada por autoridades de aviação em todo o mundo e pela visão da FAA para operações BVLOS. O projeto também foi realizado com ampla divulgação e coordenação com órgãos reguladores locais, agências de aplicação da lei, entidades governamentais e grupos comunitários para garantir total alinhamento.

Essa abordagem focada na segurança permite que a Skyports implante a plataforma da Speedbird para missões médicas e logísticas urgentes em Nova York. As operações a partir do heliporto do centro de Manhattan permitem uma implantação rápida e criam uma base para a expansão futura para outros bairros e centros regionais.

Sobre a Speedbird Aero
A Speedbird Aero é uma empresa brasileira de tecnologia, fundada em 2018 e com presença global, sediada no Brasil (Franca-SP) e em Portugal, especializada em logística aérea não tripulada. A companhia desenvolve, fabrica e opera sistemas de entrega por drones, atuando por meio de um modelo integrado que combina hardware, software e operação.

Pioneira no setor no Brasil, a empresa foi uma das primeiras a obter certificações para operações comerciais com drones, incluindo voos BVLOS (além da linha de visada), com múltiplos modelos de aeronaves. Suas soluções atendem áreas como delivery, saúde e transporte de cargas leves, com foco em eficiência, segurança e sustentabilidade.

A Speedbird Aero já realizou quase 40 mil missões comerciais com drones, demonstrando a maturidade e confiabilidade de sua tecnologia em aplicações logísticas reais. Com operações em 14 países, a empresa acumula importantes avanços regulatórios, como a autorização no Brasil para voos sobre áreas com densidade populacional de até 5.000 pessoas por km² e a aprovação para operar sob o nível SAIL III na Europa.

A companhia oferece suas soluções por meio de um modelo Drone-as-a-Service (DaaS), apoiando clientes em toda a cadeia — da fabricação das aeronaves à operação e conformidade regulatória —, posicionando-se como uma das referências globais no desenvolvimento da logística com drones.

Mac Jee: a empresa brasileira que foi a Huntsville com ambições de potência mundial em mísseis

De São José dos Campos ao coração do complexo militar americano, a empresa acumula, em menos de dois anos, aquisições estratégicas, contratos internacionais e parcerias com a FAB que a colocam no mapa global da indústria de defesa

 

*LRCA Defense Consulting - 24/04/2026

Quando a Mac Jee fincou presença no AUSA Global Force Symposium & Exposition, em Huntsville, Alabama, não estava apenas participando de mais uma feira de defesa ou de um simpósio. Estava pisando no que talvez seja o endereço mais simbólico do mundo para qualquer empresa que queira ser levada a sério no setor de mísseis.

Huntsville sedia o segundo maior simpósio militar dos Estados Unidos, reunindo líderes do Exército, contratantes de defesa e inovadores da indústria. A cidade abriga o Redstone Arsenal, o NASA Marshall Space Flight Center, o U.S. Army Aviation and Missile Command, e os quartéis-generais regionais de gigantes como Lockheed Martin, RTX e General Dynamics. É a "Rocket City" americana, e a Mac Jee foi até lá para mostrar que tem algo a dizer.

A presença no evento não foi acidental. Ela é o capítulo mais recente de uma trajetória de expansão acelerada que transformou uma empresa pouco conhecida do público em um dos atores mais ambiciosos da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira.

De distribuidora a fabricante de mísseis: a trajetória da Mac Jee
Fundada em 2007, a Mac Jee iniciou suas operações com a distribuição de componentes militares importados para os mercados nacional e sul-americano: conectores especiais, eletrônica embarcada e monitores. Com capital 100% nacional, o grupo foi expandindo gradualmente seu escopo até se tornar um conglomerado composto pela Mac Jee Defesa, Mac Jee Tecnologia e Equipaer.

Hoje, a empresa opera em outra escala. Com sede em São José dos Campos e escritórios comerciais em São Paulo e na França, o grupo atua com operações globais e se posiciona como parte da Base Industrial de Defesa brasileira.

O salto mais visível veio em novembro de 2025. A Mac Jee anunciou a aquisição exclusiva da propriedade intelectual dos mísseis MAR-1, míssil antirradiação, e MAA-1B, míssil ar-ar de curto alcance, dois sistemas já testados. O MAR-1 foi exportado para o Paquistão e integrado aos caças Mirage ROSE e ao JF-17, enquanto o MAA-1B foi lançado por caças F-5M em testes.

Esses sistemas foram desenvolvidos originalmente pela extinta Mectron em parceria com a FAB. Ao adquirir sua propriedade intelectual, a Mac Jee herdou décadas de pesquisa aplicada e assumiu a responsabilidade de levá-los adiante.

Com a aquisição, a empresa pretende criar uma base comum de desenvolvimento e produção, reduzindo custos e aumentando a capacidade fabril para atender demandas nacionais e internacionais. A Mac Jee afirmou ainda que irá anunciar dois novos programas estratégicos em breve, atualmente em fase final de engenharia.

Além dos mísseis herdados: os projetos que ninguém esperava
Se a aquisição do MAR-1 e do MAA-1B já representou um salto significativo, o que se sabe sobre os projetos não catalogados da Mac Jee vai além do que qualquer empresa de seu porte costuma revelar.

Segundo análises do setor, a empresa está desenvolvendo versões evoluídas dos sistemas adquiridos: o ARM (evolução do MAR-1) com alcance de 70 km e ogiva de 90 kg, e o SRAAM (evolução do MAA-1B) com guiamento infravermelho dual-band de quinta geração. Paralelamente, trabalha em um míssil de cruzeiro com motor microjato e asas retráteis, e em um míssil balístico tático de curto alcance (SRBM) com 300 km de alcance, 2.200 kg de peso e precisão de até 10 metros via navegação GNSS/INS, características comparáveis ao norte-americano MGM-140 ATACMS.

O planejamento da empresa abarcando a produção de mísseis, inclusive de cruzeiro, explica seu interesse em eventualmente adquirir toda ou parte da Avibras, especialmente o know-how de seu míssil de cruzeiro AV-TM 300.

O front hipersônico: parceira da FAB no projeto mais ambicioso do Brasil
O projeto que talvez melhor defina a nova escala da Mac Jee é o PROPHIPER 14-X, o programa hipersônico mais avançado já conduzido no Brasil.

Em 18 de dezembro de 2025, a Mac Jee e o Instituto de Estudos Avançados (IEAv), organização militar vinculada ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), formalizaram um Acordo de Parceria para execução conjunta de atividades de Ciência, Tecnologia e Inovação no âmbito do Projeto Estratégico de Propulsão Hipersônica 14-X. O instrumento, publicado no Diário Oficial da União em 16 de dezembro, tem vigência de 36 meses e contará com cerca de 40 engenheiros e cientistas diretamente envolvidos.

O objeto central da parceria é o RATO-14X, o foguete acelerador que levará o veículo hipersônico 14-X às condições necessárias para seus testes em voo. A Mac Jee foi selecionada pela FINEP, em conjunto com o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), para liderar o desenvolvimento desse foguete de decolagem para veículos hipersônicos. A iniciativa também envolve o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

Em fevereiro de 2026, a rede de parcerias se ampliou ainda mais. Um acordo formalizado em 11 de fevereiro prevê colaboração do ITA com a Mac Jee em aerodinâmica, aeroelasticidade e otimização de trajetória do RATO-14X, com lançamento previsto para o final de 2027 no Centro Espacial de Alcântara.

Em dezembro de 2021, o demonstrador 14-X S já havia atingido velocidade próxima a Mach 6 em seu primeiro teste de voo, na Operação Cruzeiro em Alcântara, validando condições de partida e combustão do scramjet em ambiente relevante.

O presidente do Conselho de Administração do Grupo Mac Jee, Simon Jeannot, definiu o significado da parceria com o IEAv de forma direta: "A parceria com o IEAv acelera a maturação de capacidades nacionais em propulsão hipersônica e contribui para a preparação do sistema integrado e da campanha de testes do PROPHIPER 14-X". Jeannot deixou o cargo de CEO da empresa para focar em decisões de nível estratégico e na expansão global do grupo.

Huntsville como estratégia, não como turismo
É nesse contexto que a presença da Mac Jee em Huntsville adquire seu real significado. A empresa não foi à "Rocket City" para observar. Foi para ser vista e para estabelecer as parcerias que precisará para os próximos passos.

No AUSA Global Force, a Mac Jee apresentou suas competências em propulsão sólida para foguetes e mísseis, tecnologias de grande calibre, materiais energéticos e integração de ogivas. O programa RATO foi explicitamente citado como âncora de posicionamento no domínio de sistemas de mísseis, a prova de que a empresa não está vendendo promessas, mas resultados em desenvolvimento.

A escolha do evento também foi cirúrgica. O AUSA Global Force Symposium explora as capacidades delineadas na Estratégia de Modernização do Exército americano, endereçando pontos críticos de pesquisa e desenvolvimento, aquisição, contratos e parcerias industriais. Estar nessa mesa significa ser considerado um interlocutor válido por forças armadas e contratantes de primeira linha.

Contratos, escala e a questão da demanda doméstica
Do lado comercial, os números começam a refletir a nova dimensão da empresa. Em julho de 2025, a Mac Jee anunciou a formalização de um contrato internacional no valor aproximado de US$ 60 milhões para o fornecimento de munições de tecnologia avançada, reforçando sua posição como OEM internacional, com capacidade de ser contratada diretamente por forças armadas estrangeiras.

A ironia que permeia toda essa ascensão, porém, é conhecida por quem acompanha o setor: boa parte dos contratos da Mac Jee é internacional. As Forças Armadas brasileiras ainda não figuram como cliente expressivo da empresa em cujos projetos bilhões de reais em capacidade tecnológica nacional estão sendo construídos, uma tensão estrutural que remete ao colapso da Engesa nos anos 1990 e que o setor inteiro preferiria não repetir.

A Lei Complementar 221, aprovada em novembro de 2025, autorizou a exclusão de até R$ 30 bilhões em gastos estratégicos de defesa do arcabouço fiscal, e o orçamento do Exército deve triplicar entre 2026 e 2031. Se esse dinheiro chegar, e se as Forças Armadas demonstrarem interesse pelos projetos que estão sendo desenvolvidos em seu próprio quintal, a Mac Jee pode se tornar algo que o Brasil raramente conseguiu sustentar: uma empresa de defesa de classe mundial com raízes genuinamente nacionais.

A viagem a Huntsville foi, no fundo, um recado. A Mac Jee está na mesa.

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