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26 fevereiro, 2026

Embraer aposta no futuro que voa sem piloto - e não é só na Eve

Da Speedbird Aero à XMobots e ao eVTOL da Eve, a fabricante de aviões mais valiosa da América Latina constrói um ecossistema de inovação em drones que pode redefinir a logística e a mobilidade urbana do Brasil

 
 
*LRCA Defense Consulting - 26/02/2026

Há uma corrida silenciosa nos céus brasileiros. Drones cruzam rios em Aracaju levando refeições do iFood, outros vigiam fronteiras amazônicas para o Exército, e um protótipo elétrico pousou pela primeira vez em Gavião Peixoto, interior de São Paulo, em dezembro de 2025. Por trás de muito desse movimento está a Embraer, não voando ela mesma, mas financiando, orientando e aprendendo com quem voa.

Em um movimento que desafia a imagem de uma fabricante de jatos regionais, a Embraer construiu ao longo de uma década uma estratégia estruturada de corporate venture capital (CVC) voltada para a nova economia aérea. Com fundos próprios, participações em fundos independentes e uma aceleradora sediada nos Estados Unidos, a companhia já tem investimentos em mais de 40 startups; e no Brasil, dois dos casos mais emblemáticos são justamente do segmento de drones: a Speedbird Aero, focada em entregas urbanas, e a XMobots, maior fabricante de drones da América Latina.

"A Embraer está abrindo um universo que tem uma capacidade exponencial de crescimento. Nesse contexto, o céu é, literalmente, o limite." — Francisco Lyra, sócio da C-Fly Aviation

A arquitetura de um ecossistema
A estratégia de inovação da Embraer não nasceu de um único salto. Ela foi construída em camadas, ao longo de quase uma década, com diferentes instrumentos financeiros calibrados para diferentes momentos do ciclo de maturidade tecnológica.

O primeiro degrau foi o Embraer Ventures, criado em 2014 e descrito pela própria empresa como seu primeiro fundo de corporate venture capital, um veículo já totalmente investido em startups aeroespaciais. Quatro anos depois, em 2018, a companhia aportou no Catapult Ventures, um fundo sediado no Vale do Silício, nos Estados Unidos, como antena avançada para tecnologias de ponta: desde inteligência artificial até voos autônomos. Foi por essa via que chegaram investimentos indiretos em empresas como a Xnor.ai (adquirida pela Apple), a Near Earth Autonomy e a Daedalean, todas focadas em autonomia e cognição aeronáutica.

O terceiro pilar é mais recente e tem sabor brasileiro. Em 2023, a Embraer entrou como cotista do MSW MultiCorp 2, fundo gerido pela gestora carioca MSW Capital em conjunto com Baterias Moura, BB Seguros e o fundo de desenvolvimento carioca AgeRio. A Embraer aportou inicialmente R$ 20 milhões no veículo, que já destinou R$ 10 milhões à sua principal investida: a Speedbird Aero.

Complementando essa estrutura, está a Embraer-X, a aceleradora da companhia com sede em Melbourne, Flórida, e escritórios no Brasil e na Holanda. Mais do que um hub de inovação, a Embraer-X foi a incubadora da Eve Air Mobility, hoje listada na NYSE e na B3, e é o braço executor da estratégia de open innovation que orienta os investimentos em startups.

"A gente criou um unicórnio brasileiro. E a estratégia de venture capital não necessariamente precisa estar dentro do core business da companhia; ela é um pilar de aprendizagem." — Daniel Moczydlower, presidente da Embraer-X

Drone de entrega DLV2 da Speedbird Aero sobrevoando a cidade de Aracaju

Speedbird Aero: o drone que cruza o Rio Sergipe
Em Aracaju, às margens do Rio Sergipe, dois drones realizam uma rota que parece tirada de um roteiro de ficção científica, mas é completamente real. Saindo do Shopping RioMar, as aeronaves cruzam o rio e chegam aos condomínios de Barra dos Coqueiros, município vizinho, levando pedidos do iFood. Entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026, esse par de drones já acumulou mais de duas mil entregas.

A Speedbird Aero foi fundada em 2018 por Samuel Salomão e Manoel Coelho, em Franca, no interior paulista. Desde cedo, a startup se diferenciou por tratar a logística com drones como uma operação séria e certificada, e não como uma demonstração de marketing. Em 2019, a empresa iniciou testes com o iFood em Campinas; hoje, a parceria se tornou uma operação comercial contínua. A Speedbird foi também a primeira empresa brasileira a obter autorização da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) para entregas comerciais com drones.

Para o CEO Manoel Coelho, há uma linha clara que separa o que é drone delivery de verdade do que é fantasia de startup. "Você vê gente colocando um drone pequeno para levar cerveja ou sushi na varanda. Isso não é drone delivery, isso não é logística com drone. É a mesma coisa que pegar um carrinho de mão e colocar uma pessoa em cima: não é transporte público, não é regularizado", afirmou em entrevista recente.

A empresa opera hoje uma frota de 35 drones próprios, com certificações em 14 países. Além do iFood, atende Vale (transporte de amostras de minério em Carajás, no Pará), Petrobras (plataformas offshore), e o Grupo Fleury (transporte de amostras de exames em Salvador e Belo Horizonte). O modelo é de complementaridade: os drones não substituem entregadores humanos, mas cobrem rotas onde o transporte convencional é ineficiente.

O papel da Embraer: mais que capital
A entrada da Embraer no capital da Speedbird, via fundo MSW MultiCorp 2, trouxe muito mais do que dinheiro. A startup mudou sua sede para São José dos Campos, vizinha ao maior complexo aeronáutico da América Latina, e passou a ter acesso à expertise técnica acumulada em décadas de desenvolvimento de aeronaves certificadas.

"A Embraer, uma das maiores empresas aeroespaciais do mundo, será como o irmão mais velho e experiente para ajudar a Speedbird nessa jornada", afirmou Moises Swirski, sócio-fundador da MSW Capital, ao anunciar o investimento em 2023.

Em fevereiro de 2026, a Speedbird anunciou uma nova rodada de US$ 5,8 milhões (R$ 30,2 milhões) — um investimento-ponte liderado pelo iFood e seis outros fundos, incluindo novamente a participação indireta da Embraer. O objetivo é capitalizar a empresa e prepará-la para uma Série B prevista para o fim de 2026. A meta imediata: replicar o modelo de Aracaju para a região metropolitana de São Paulo. 'Se a gente consegue fazer em São Paulo, consegue replicar em qualquer lugar do mundo', declarou Coelho.

A expansão internacional já tem endereço. A Speedbird possui equipamentos em Portugal, Israel e Itália, e planeja desembarcar nos Estados Unidos, liderada pelo ex-CEO da Eve Air Mobility, André Stein, uma escolha que fecha o círculo do ecossistema Embraer.

Nauru 500C, da XMobots

XMobots: do agro ao campo de batalha
Se a Speedbird é a face urbana dos investimentos da Embraer em drones, a XMobots representa a aposta no ecossistema de maior complexidade técnica e maior abrangência geográfica. Fundada em 2007 em São Carlos, no interior de São Paulo, pelo empreendedor Giovani Amianti, a empresa foi pioneira em tornar os drones uma realidade cotidiana para o agronegócio e as geotecnologias no Brasil.

Em setembro de 2022, a Embraer anunciou um primeiro investimento em rodada Série A na XMobots, tornando-se acionista minoritária, com opção de aportes futuros, o que realmente aconteceu posteriormente em janeiro de 2024. Os valores não foi divulgados, mas o negócio foi estruturado por meio de um fundo exclusivo da Embraer. Segundo fontes ouvidas à época do primeiro investimento, a XMobots vinha recebendo propostas de fundos de venture capital quando a Embraer entrou na jogada e mudou completamente a perspectiva.

"Trata-se de smart money na veia para uma empresa que aposta em mobilidade aérea. Além do dinheiro, há troca de experiências e desenvolvimento de tecnologia em conjunto." - NeoFeed, setembro de 2022

Hoje classificada como a 6ª maior empresa de drones do mundo (ela chegou a ser a 14ª no momento do investimento), a XMobots conta com mais de 600 colaboradores e uma rede de mais de 200 revendas no Brasil. Seus drones patrulham fronteiras amazônicas para o Exército Brasileiro (Nauru 1000C), monitoram queimadas para a Receita Federal, inspecionam linhas de transmissão elétrica e pulverizam lavouras de cana, soja e algodão.

Sistema aéreo de pulverização agrícola SPAD 150

De São Carlos às Forças Armadas
O portfólio da XMobots revela a amplitude de sua ambição. A família Nauru de drones VTOL (decolagem e pouso vertical) é o carro-chefe para defesa e segurança. O Nauru 1000C já equipa o Exército Brasileiro e participou de sua primeira missão oficial durante a Operação Perseu, o maior exercício militar do país. O modelo Nauru 500C foi entregue à Marinha, à Receita Federal e à Polícia Militar de Santa Catarina.

Em março de 2025, na LAAD Defense & Security, a empresa foi além: lançou a XMobots Defense como divisão autônoma, apresentando ao mercado global um novo UCAV (Unmanned Combat Aerial Vehicle) militar, resultado de três anos de desenvolvimento: o Nauru 100D. A empresa também assinou um memorando de entendimento com a MBDA, gigante europeia fabricante de mísseis, para desenvolver a versão armada do Nauru 1000C com mísseis Enforcer. Do laboratório de São Carlos ao campo de batalha, a trajetória é vertiginosa.

No agronegócio, a XMobots lançou em 2025 a divisão XMobots Agriculture, com estande de 700 m² na Agrishow, recorde da empresa. O SPAD 200B, sistema que transporta dois drones de pulverização e 1.000 litros de insumos, operado por apenas um piloto e um auxiliar, simboliza a maturidade industrial atingida. O mercado de drones agrícolas no Brasil, com potencial de R$ 96 bilhões até 2028, segundo projeções do setor, é o principal motor de crescimento da empresa.

eVTOL da Eve Air Mobility
Eve: o filho que virou unicórnio
Nenhum investimento da Embraer em mobilidade aérea teve a escala e o impacto do que gerou a Eve Air Mobility. Nascida dentro da Embraer-X em 2017, a Eve é hoje uma empresa independente listada na Bolsa de Nova York (NYSE: EVEX) e na B3 (EVEB31), com uma carteira de 2.900 intenções de compra avaliada em US$ 14,5 bilhões e a ambição de colocar táxis aéreos elétricos nas cidades brasileiras a partir de 2027.

Em 19 de dezembro de 2025, um marco histórico: o protótipo em escala real do eVTOL da Eve decolou pela primeira vez em voo livre no complexo da Embraer em Gavião Peixoto. A aeronave, movida por oito rotores para sustentação vertical e uma hélice traseira para cruzeiro, pousou após aproximadamente um minuto de voo pairado a 12 metros de altitude. 'Eve voou. Este é um marco histórico para nossos funcionários, clientes, investidores e todo o ecossistema', afirmou Johann Bordais, CEO da Eve.

A empresa foi capitalizada ao longo de sua trajetória com mais de US$ 400 milhões levantados no IPO, além de US$ 96 milhões em 2024 aportados pela própria Embraer e pela japonesa Nidec, e R$ 200 milhões do BNDES. A produção será em Taubaté, São Paulo, com capacidade inicial de 120 unidades por ano, expansível para 480, e a certificação pela Anac está prevista para 2027.

O eVTOL da Eve tem 2.900 encomendas confirmadas de 30 clientes em 13 países, a maior carteira do segmento em nível global.

A estratégia por trás dos investimentos
O presidente da Embraer-X, Daniel Moczydlower, define a lógica dos investimentos com clareza: a empresa não busca apenas retorno financeiro, mas aprendizado estratégico em áreas onde o gigante aeroespacial não seria competitivo por conta própria. 'É um mercado que, com certeza, a Embraer não seria competitiva, mas a gente está aprendendo muito com eles', disse sobre a Speedbird. E sobre a XMobots: 'A gente aumentou a participação na empresa. O agro brasileiro é uma potência da nossa economia e cada vez mais sofisticado do ponto de vista da tecnologia'.

As apostas temáticas do CVC da Embraer revelam os grandes eixos de transformação que a empresa identifica no setor: sistemas autônomos com inteligência artificial; eletrificação e descarbonização da aviação (com investimento em combustíveis sustentáveis em parceria com a United Airlines nos EUA); e a chamada 'última milha aérea', onde entregadores voadores e táxis elétricos disputam espaço com os modelos tradicionais de transporte.

Os números do mercado reforçam a lógica. O mercado global de drones para entregas deve movimentar US$ 18,65 bilhões até 2028, segundo projeções do setor. O mercado de eVTOLs, avaliado em US$ 4,2 bilhões em 2025, deve atingir US$ 39 bilhões até 2033. E no contexto mais amplo, o mercado de drones civis pode ultrapassar US$ 35 bilhões nos próximos anos.

A Embraer entende que não consegue capturar esses mercados sozinha. Mas pode ser o 'irmão mais velho', como usou a metáfora a MSW Capital, de quem está construindo o futuro. Uma posição elegante para uma empresa de 56 anos que prefere aprender a errar.

Cenário regulatório: o habilitador invisível
Por trás de cada rota de drone que cruza rios ou patrulha lavouras, há um arcabouço regulatório sem o qual nada seria possível. No Brasil, o marco decisivo foi a publicação do RBAC 94 pela Anac em 2017, que passou a permitir operações além da linha de visada do piloto, as chamadas BVLOS (Beyond Visual Line of Sight). Foi essa regulamentação que abriu caminho para que empresas como Speedbird e XMobots estruturassem operações comerciais contínuas.

A XMobots foi pioneira: o Nauru 500C foi o primeiro drone brasileiro autorizado para voos BVLOS acima de 400 pés e operações noturnas. Mais recente, a empresa obteve autorização para operações de até 60 km de distância durante a noite, o primeiro projeto no país a conseguir essa habilitação. Esse tipo de avanço regulatório, construído com anos de diálogo com a Anac, é parte do ativo intangível mais valioso dessas startups.

Para o eVTOL da Eve, a Anac demonstrou entusiasmo incomum. Em setembro de 2025, o presidente da agência, Tiago Faierstein, manifestou intenção de acelerar a certificação para 2026, um ano antes da meta da própria empresa. O Brasil, historicamente um mercado regulatório conservador em aviação, pode se tornar um dos primeiros países do mundo a ter táxis aéreos elétricos operando comercialmente.

O mapa do que está por vir
A Embraer chegou ao século XXI com uma identidade clara: fabricante de jatos regionais para 70 a 150 passageiros, com forte presença no mercado de defesa e aviação executiva. Mas a economia aérea do futuro é outra: descentralizada, elétrica, autônoma e conectada ao cotidiano das cidades e do campo.

Ao investir em Speedbird, XMobots e Eve, e ao aprender com cada uma delas, a Embraer está comprando apólices de seguro tecnológico e, ao mesmo tempo, construindo os alicerces de um ecossistema que pode tornar o Brasil um protagonista global na mobilidade aérea do século XXI. É uma aposta de longo prazo, feita por uma empresa que sabe melhor do que ninguém o tempo que leva para uma aeronave sair do papel e chegar ao céu.

Da pulverização de soja no Mato Grosso ao taxi aéreo em São Paulo, passando por entregas de exames em Salvador, o portfólio da Embraer em drones e eVTOLs esboça o contorno do que será a aviação brasileira nas próximas décadas.

25 fevereiro, 2026

MARSUP: SIATT e Marinha firmam acordo para criar versão aérea do MANSUP

Protocolo de Intenções assinado em 23 de fevereiro prevê estudos para adaptar o míssil antinavio de superfície para emprego a partir de aeronaves da Força Aeronaval, ampliando a autonomia estratégica da Defesa brasileira 


*LRCA Defense Consulting - 25/02/2026

Numa movimentação que reforça o compromisso do Brasil com a soberania tecnológica em defesa, a SIATT Engenharia, Indústria e Comércio S.A. e a Marinha do Brasil formalizaram, na última segunda-feira (23), um Protocolo de Intenções para o desenvolvimento conjunto de dois grupos de Mísseis Ar-Superfície Antinavio batizados de MARSUP. 

O documento foi assinado na sede da Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha (DSAM), no Rio de Janeiro, pelo Vice-Almirante Carlos Henrique Zampieri, diretor da DSAM, e por Rogério Salvador, presidente da SIATT. 

O acordo representa um novo capítulo na expansão de uma família de armamentos que vem sendo construída há mais de uma década. A base tecnológica do MARSUP é o próprio MANSUP (Míssil Antinavio de Superfície), já em fase avançada de operacionalização pela Marinha e cuja trajetória de desenvolvimento é, por si só, uma história de persistência da indústria nacional. 

Do navio ao céu: a lógica da evolução
O foco dos estudos previstos no protocolo é avaliar a viabilidade técnica de adaptar a tecnologia consolidada no MANSUP para que ela possa ser lançada a partir de aeronaves da Força Aeronaval. Trata-se de uma evolução conceitual já bem conhecida na história dos armamentos modernos: o míssil francês Exocet, por exemplo, começou como sistema superfície-superfície (MM38) e se tornou mundialmente famoso na versão aérea AM39, amplamente utilizada em conflitos pelo mundo. 

Não é coincidência que analistas e militares brasileiros citem o Exocet como paralelo. A própria DSAM, ao comentar o acordo firmado em fevereiro de 2025 na feira IDEX, em Abu Dhabi, onde também foram avançadas conversas sobre a família MANSUP, adotou essa comparação para explicar a estratégia. "A intenção é aproveitar o sucesso do MANSUP para expandir as capacidades do armamento naval brasileiro", afirmou o Vice-Almirante Zampieri em evento anterior. 

Imagem meramente ilustrativa

MANSUP: da prancheta ao mar aberto
Para compreender a envergadura do novo acordo, é preciso entender o que o MANSUP representa. O projeto foi iniciado no fim da década de 2000, com o objetivo de substituir a dependência dos mísseis Exocet estrangeiros. Financiado pela Marinha e por créditos de compensação (offset) de contratos internacionais, como a aquisição dos helicópteros H225M, o programa consumiu mais de R$ 380 milhões até 2019 e envolveu empresas brasileiras como Avibras, Omnisys e Atech, além da própria SIATT (à época chamada Mectron). 

Em setembro de 2024, o míssil demonstrou sua eficácia em um teste de afundamento (SINKEX), ao atingir com precisão o ex-HMS Broadsword, navio da Marinha Britânica cedido ao Brasil. Em dezembro do mesmo ano, a SIATT realizou o primeiro lançamento do MANSUP a partir de uma plataforma terrestre, com o uso de um lançador ASTROS operado pela Infantaria da Marinha, expandindo ainda mais o escopo operacional do sistema. 

Em junho de 2025, a SIATT assinou contrato formal para o fornecimento do MANSUP à Marinha, que equipará as novas Fragatas da Classe Tamandaré. Paralelamente, a Marinha firmou um contrato de compartilhamento de tecnologia por 10 anos com a SIATT e o Grupo EDGE dos Emirados Árabes Unidos, que adquiriu 50% da empresa em 2023, permitindo o desenvolvimento, produção, uso e venda do míssil e do MANSUP-ER, versão de alcance estendido, tanto no Brasil quanto no exterior, mediante pagamento de royalties

"Este protocolo marca um avanço concreto na evolução de uma capacidade construída ao longo de anos pela indústria nacional. Ele demonstra a maturidade tecnológica alcançada pela SIATT e, sobretudo, o talento da nossa equipe." - Rogério Salvador, presidente da SIATT 

Uma família de mísseis e o olhar para o mercado global
O MARSUP não é o único braço da expansão planejada. Os acordos firmados em Abu Dhabi em fevereiro de 2025 também previram o desenvolvimento de variantes superfície-ar (SAM) e de ataque terrestre (LAM) baseadas nas tecnologias do MANSUP. Em abril de 2025, um acordo com a empresa turca Kale Jet Engines garantiu o fornecimento de motores turbojato KTJ-3200 para a versão MANSUP-ER, o mesmo motor usado no míssil antinavio turco Atmaca. 

No front comercial, os avanços também são expressivos. A SIATT e o Grupo EDGE fecharam um acordo avaliado em cerca de US$ 350 milhões com os Emirados Árabes Unidos para a venda do MANSUP, e negociações de exportação estão em andamento com países da África, Ásia e América Latina. Projeções da SIATT apontam para uma receita potencial de até US$ 500 milhões com exportações até 2030. Em abril de 2025, na feira LAAD, a SIATT e a estatal EMGEPRON assinaram um memorando para facilitar vendas que exijam acordos governo a governo, sob supervisão do Ministério da Defesa. 

 

Desafios e perspectivas
Apesar do otimismo, especialistas apontam desafios. A versão básica do MANSUP tem alcance de 70 quilômetros, considerado modesto frente a mísseis concorrentes que ultrapassam 300 km. O MANSUP-ER busca endereçar essa limitação, mas sua produção em escala depende de novos investimentos. A Marinha planeja nacionalizar 95% dos componentes do sistema até 2030, mas a dependência de microeletrônicos importados ainda é um gargalo, especialmente diante das instabilidades globais nas cadeias de suprimento de semicondutores. 

Para o MARSUP especificamente, o protocolo assinado em 23 de fevereiro representa um ponto de partida: os estudos precisarão validar tecnicamente a adaptação do sistema para emprego aéreo, o que envolve não apenas modificações no míssil, mas integração com as aeronaves da Força Aeronaval e desenvolvimento de novos conceitos operacionais. 

Se os estudos avançarem conforme esperado, o Brasil poderá, a médio prazo, contar com um míssil antinavio lançado a partir do ar, totalmente nacional, uma capacidade que hoje é dominada por poucos países no mundo e que representaria um salto qualitativo no Poder Naval brasileiro.

Avibras mira retomada das operações em março, mas aguarda definição do governo federal

Empresa de defesa divulga nota atualizando condições para reativação após três anos paralisada  


*LRCA Defense Consulting - 25/02/2026

A Avibras, tradicional fabricante brasileira de sistemas de defesa, divulgou nesta quarta-feira (25/02) uma nota à imprensa detalhando o andamento das condições necessárias para a retomada de suas operações, prevista para março de 2026. O comunicado revela um cenário de avanços em várias frentes, mas aponta um entrave crítico: a ausência de definição sobre a contribuição do governo federal.

O caminho até aqui
A empresa acumula três anos de paralisação, período que a própria nota descreve como marcado pelo "desgoverno da antiga administração" e pelo processo de Recuperação Judicial. A virada começou a se desenhar com a elaboração de um Plano de Reestruturação, aprovado com expressiva adesão de 99,2% dos credores presentes na Assembleia Geral. Em agosto de 2025, a companhia passou por uma mudança de controle, com uma nova gestão assumindo o compromisso de implementar o plano.

O que avança e o que trava
Das cinco condições precedentes listadas pela Avibras, quatro apresentam algum grau de progresso. As negociações com o Sindicato dos Trabalhadores são descritas como consistentes. As aquisições estratégicas pelo Exército Brasileiro seguem em curso, aguardando apenas a confirmação orçamentária. A negociação tributária registra avanços com os órgãos competentes. E os recursos privados liderados por credores já estão estruturados e disponíveis.

O ponto de atenção está na quinta condição: a contribuição do governo brasileiro, na forma de fomento, "permanece sem definição", expressão que, no contexto de uma nota cuidadosamente elaborada, soa como um recado direto a Brasília.

O que está em jogo
A Avibras não é uma empresa qualquer. Conhecida internacionalmente pelo sistema de artilharia fogueteiro ASTROS, a companhia é considerada estratégica para a soberania e a defesa nacional, argumento que a própria nota evoca ao defender "uma solução brasileira, sustentável". A retomada de suas atividades interessa tanto à cadeia produtiva da indústria de defesa quanto às Forças Armadas, que dependem de fornecedores nacionais para a manutenção de sua autonomia tecnológica.

O recado da nota
Ao listar publicamente o estado de cada condição, a Avibras adota uma postura de transparência calculada: celebra o que foi conquistado, reconhece o que falta e, implicitamente, coloca o governo federal diante de sua responsabilidade. A empresa afirma que "seguirá envidando todos os esforços necessários" para viabilizar a retomada, mas o tom geral do comunicado deixa claro que o próximo movimento decisivo depende de Brasília.

Com março se aproximando, o relógio corre... e a bola, pelo que parece, está com o governo.

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