Visita do comandante da Força Aérea da Turquia à Base de Beja ocorre enquanto Ankara busca renovar frota envelhecida de C-130 e a vizinha Atenas avalia compra do cargueiro da Embraer
*LRCA Defense Consulting - 17/05/2026
A Base Aérea de Beja, em Portugal, voltou a ser palco de um encontro com alto peso simbólico para o programa KC-390. O general Ziya Cemal Kadıoğlu, comandante da Força Aérea da Turquia, visitou a instalação durante missão oficial a Lisboa e examinou de perto o cargueiro fabricado pela Embraer, que equipa a Esquadra 506 da Força Aérea Portuguesa. A visita, realizada a convite do general Sérgio Roberto Leite da Costa Pereira, comandante da Força Aérea Portuguesa, incluiu ainda passagens pela Embaixada turca em Lisboa, pelo Centro de Operações Conjuntas das Forças Armadas Portuguesas e pelo quartel-general do STRIKFORNATO.
A informação foi divulgada por Tolga Özbek, analista de defesa, em perfil no LinkedIn, e rapidamente circulou entre entusiastas e especialistas da área. O texto destaca que a visita "contribui para o fortalecimento da cooperação de defesa entre Turquia e Portugal" e que plataformas como o KC-390 podem representar "uma área potencial de interesse" para a força aérea turca.
Uma frota sob pressão
O interesse turco no KC-390 surge em um momento de
particular sensibilidade para a aviação de transporte de Ankara. A Força Aérea
da Turquia opera há décadas aeronaves da família C-130 Hercules, nas variantes
B e E, adquiridas em diferentes momentos: os primeiros exemplares chegaram nos
anos 1960, seis unidades C-130B foram incorporadas no início da década de 1990
e outros seis C-130E foram comprados da Arábia Saudita em 2011. Em novembro de
2025, um desses aviões, com matrícula 68-01609, caiu na região de Sighnaghi, na
Geórgia, logo após decolar de Ganja, no Azerbaijão, matando todos os 20
militares a bordo. Foi a pior perda militar turca desde fevereiro de 2020.
O acidente levou o Ministério da Defesa turco a suspender temporariamente os voos da frota de C-130 para inspeções técnicas detalhadas, determinando que somente as aeronaves aprovadas nas verificações poderiam retomar as operações. O episódio expôs a vulnerabilidade de uma frota envelhecida e reacendeu debates sobre a urgência de sua renovação.
Para tentar preencher a lacuna no curto prazo, a Turquia fechou, em outubro de 2025, um acordo para adquirir 12 aeronaves C-130J-30 Super Hercules desativadas pela Royal Air Force (RAF) britânica. As aeronaves foram entregues a uma empresa de manutenção no Reino Unido, onde passam por revisão e modernização, incluindo substituição de caixas centrais de asa, atualização de aviônicos e adaptações aos requisitos turcos. A empresa Marshall Aerospace, em Cambridge, é responsável por parte do programa, estimado em mais de 200 milhões de libras ao longo de quatro anos. As entregas à força aérea turca devem começar após 2026.
A par dos C-130, a Turquia também conta com aeronaves A400M adquiridas da Airbus, mas os Hércules seguem sendo o pilar do transporte tático. A compra dos exemplares britânicos descartados foi vista por parte da imprensa especializada como uma solução intermediária para uma frota que, no longo prazo, precisará ser substituída. É nesse contexto que a visita de Kadıoğlu ao KC-390 em Beja ganha contornos estratégicos.
Beja, a vitrine europeia
do KC-390
Portugal é o primeiro país europeu e o primeiro membro da
OTAN a operar o KC-390. O contrato original, assinado em 2019, previa cinco
aeronaves; em setembro de 2025, foi aditado para incluir uma sexta unidade e
dez novas opções de compra que podem ser transferidas a nações parceiras,
mecanismo que facilita aquisições futuras por outros membros da aliança sem a
necessidade de contratos diretos com a Embraer.
A Base Aérea n.º 11, em Beja, concentra toda a frota portuguesa, incluindo o simulador de voo completo, e forma pilotos de outros países. O quarto KC-390 entregue a Portugal, em janeiro de 2026, trouxe uma novidade relevante: foi o primeiro exemplar da frota portuguesa equipado com kit de reabastecimento aéreo, com tanques instalados na fuselagem e pods sob as asas, tornando-o capaz de atuar como tanqueiro.
A infraestrutura montada em Beja funciona como referência operacional concreta para visitantes militares de todo o mundo. Além do general turco, o ministro da Defesa da Eslováquia visitou a base em março de 2026 para avaliar o KC-390, e o ministro da Defesa da Grécia, Nikos Dendias, fez o mesmo em maio de 2026.
A Grécia na reta final
A visita grega é talvez a de maior impacto imediato para a
Embraer. Dendias foi a Portugal a convite do ministro da Defesa português, Nuno
Melo, e após o encontro declarou publicamente que a Grécia tem interesse na
compra do C-390 Millennium. A Força Aérea Helênica opera hoje C-130 nas
variantes B e H, com disponibilidade limitada e frota considerada obsoleta para
os padrões atuais da Otan, além de C-27J Spartan de menor porte.
O modelo em avaliação prevê uma aquisição em duas fases: três aeronaves inicialmente, com possibilidade de expansão para mais três unidades. A cooperação com Portugal é apontada como fator decisivo, pois permite à Grécia apoiar-se em um quadro já estabelecido de exploração operacional, suporte e transferência de conhecimento, e eventualmente adquirir as aeronaves via governo a governo por meio das opções contratadas por Lisboa.
Na avaliação do Estado-Maior da Aeronáutica grego, o KC-390 apresenta vantagem em relação ao C-130J não apenas no custo de aquisição, mas também em vantagens operacionais e técnico-econômicas relacionadas a manutenção, suporte e disponibilidade. O KC-390 é mais veloz (870 km/h contra 660 km/h do C-130J) e carrega mais carga (26 toneladas contra 21 toneladas). Os motores turbofan IAE V2500, amplamente empregados na aviação comercial, tornam sua manutenção mais simples e barata.
A Força Aérea Helênica também especificou requisitos que transformam a aeronave em multiplicador de poder: o KC-390 deverá ser adquirido com sistema de autodefesa, capacidade de reabastecimento aéreo de aeronaves de combate e equipamento de evacuação médica. Para a Grécia, com centenas de ilhas habitadas, essa capacidade tem dimensão tanto militar quanto humanitária.
O governo grego sinalizou investimentos da ordem de 28 bilhões de euros em defesa até 2036, após longo período de restrições orçamentárias decorrente da crise financeira de 2009 a 2018. A decisão sobre o KC-390 é esperada para os próximos meses.
Um clube que cresce
O KC-390 foi selecionado por 12 países até maio de 2026.
Entre os usuários e clientes confirmados estão Brasil (19 unidades), Portugal
(6), Hungria, Áustria, República Tcheca, Suécia, Países Baixos, Lituânia,
Eslováquia, Coreia do Sul, Uzbequistão e Emirados Árabes Unidos. O pedido dos
Emirados, anunciado em maio de 2026, totalizou 20 aeronaves (10 firmes e 10
opções) e marcou a estreia do KC-390 no Oriente Médio.
A expansão europeia do programa é notável. Desde a entrada em serviço com a Força Aérea Portuguesa, em 2023, e com a Força Aérea Húngara, em 2024, o KC-390 acumulou mais de 14.000 horas de voo na frota brasileira, com taxa de disponibilidade superior a 99%. Esses números são citados com frequência pelos representantes da Embraer em apresentações a potenciais clientes.
A visita do general Kadıoğlu em Beja não resultou, até o momento, em qualquer declaração oficial de interesse por parte da Turquia. Mas o simples fato de que o comandante da força aérea de um país que acaba de comprar C-130 usados do Reino Unido tenha se dado ao trabalho de examinar pessoalmente o KC-390 em operação diz algo sobre o horizonte de modernização que Ankara projeta para a próxima década. No leste do Mediterrâneo, o cargueiro brasileiro começa a figurar como uma opção real em planos militares que ainda levam algum tempo para se concretizar.






