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23 abril, 2026

Terras Raras: aquisição da Serra Verde pela USA Rare Earth e o reposicionamento geopolítico do Brasil nos minerais críticos


*LRCA Defense Consulting - 23/04/2026

Em 20 de abril de 2026, a empresa norte-americana USA Rare Earth (USAR, listada na Nasdaq) anunciou a aquisição de 100% do Serra Verde Group, dona da mina e planta de processamento Pela Ema, em Minaçu (GO). O valor da transação é de cerca de US$ 2,8 bilhões (aproximadamente R$ 14 bilhões), pago com US$ 300 milhões em dinheiro e 126,849 milhões de novas ações ordinárias da compradora. O fechamento está previsto para o terceiro trimestre de 2026, sujeito a aprovações regulatórias no Brasil e nos EUA.

A operação não é apenas um grande negócio de mineração: representa um marco na corrida global por terras raras, elementos essenciais para a transição energética, eletrônica avançada e, especialmente, para a indústria de defesa. A Serra Verde opera a única mina de terras raras em escala comercial fora da Ásia capaz de produzir os quatro principais elementos magnéticos: neodímio (Nd), praseodímio (Pr), disprósio (Dy) e térbio (Tb), além de ítrio. Esses minerais são componentes chave de ímãs permanentes de alta performance (NdFeB), usados em motores elétricos, turbinas eólicas, veículos elétricos, smartphones e, criticamente, em sistemas de defesa como mísseis guiados, radares, aviões de caça, submarinos e equipamentos com telêmetro a laser.

O que foi vendido e o contexto da mina Pela Ema
A Serra Verde investiu mais de US$ 1,1 bilhão para colocar a Pela Ema em produção comercial no início de 2024. Trata-se de um depósito de argilas iônicas, o primeiro em escala no mundo ocidental, com baixa geração de rejeitos úmidos, uso de energia renovável e biocombustíveis. A fase 1 deve atingir capacidade nominal de cerca de 6.400 a 6.500 toneladas de óxidos totais de terras raras (TREO) por ano até o fim de 2027, com potencial de expansão (fase 2) para dobrar a produção de run-of-mine antes de 2030. A mina deve responder por mais de 50% da oferta global de terras raras pesadas (HREE) fora da China em 2027.

A transação inclui um contrato de fornecimento de 15 anos para 100% da produção da fase 1 com uma Special Purpose Vehicle (SPV) capitalizada por agências do governo dos EUA e capital privado, com pisos de preço mínimos garantidos para Nd, Pr, Dy e Tb. Esse acordo já estava amparado no pacote de financiamento de US$ 565 milhões da U.S. International Development Finance Corporation (DFC), fechado em fevereiro de 2026, que incluía opção de participação minoritária do governo americano. 

 

Estratégia americana e o “mine-to-magnet”
A USA Rare Earth, com forte apoio do governo dos EUA (incluindo participação acionária via Departamento de Comércio em janeiro de 2026 e pacote de até US$ 1,6 bilhão), busca criar uma cadeia integrada “da mina ao ímã” fora da Ásia. A empresa já controla projetos nos EUA (Round Top, no Texas), França (separação e reciclagem via Caremag) e Reino Unido (metais e ligas via Less Common Metals), além de capacidade de fabricação de ímãs em Oklahoma. A Serra Verde adiciona a peça upstream estratégica: terras raras pesadas, escassas no Ocidente.

 

A China domina cerca de 90% do processamento global de terras raras e controla a maior parte da produção de HREE, o que permite influência sobre preços e suprimentos. A aquisição reforça a estratégia de Washington de diversificação, especialmente em meio a tensões geopolíticas.

Consequências estratégicas para o Brasil
Aspectos positivos econômicos e de posicionamento:

  • O Brasil reforça seu papel como fornecedor global de minerais críticos. O país detém a segunda maior reserva mundial de terras raras (estimada em 20-25% do total global), atrás apenas da China. A transação injeta capital estrangeiro, gera royalties e impostos para Goiás e a União, e mantém/expande cerca de 350 empregos diretos na região de Minaçu (com forte contratação local). A expansão projetada pode elevar ainda mais a contribuição do setor mineral para a economia goiana e nacional.

 

  • Posiciona o Brasil como parceiro preferencial no “clube” de minerais críticos articulado pelos EUA, diversificando exportações (hoje, quase toda produção brasileira de terras raras vai para a China).

Riscos e desafios à soberania e captura de valor:

  • Parte significativa da captura de valor (processamento, metalurgia e fabricação de ímãs) ocorrerá fora do Brasil, nas operações da USA Rare Earth. O contrato de offtake direciona praticamente toda a produção para uma SPV controlada por interesses americanos, limitando a flexibilidade comercial brasileira.

  • Há debates internos sobre soberania nacional. O governo federal tem discutido a criação de uma estatal (“Terrabras”) para controlar terras raras, mas a área técnica do Ministério de Minas e Energia se divide: alguns veem risco à soberania na dependência externa, enquanto outros priorizam parcerias privadas. A aprovação regulatória da operação (pelo CADE, ANM e possivelmente outros órgãos) será um teste para a política mineral brasileira.

 

  • Críticas surgem de setores que defendem maior controle estatal ou nacional sobre esses ativos estratégicos, especialmente após o financiamento DFC e a opção de equity americano. 

Impacto na Indústria de Defesa brasileira
As terras raras são vitais para a defesa moderna. Ímãs de NdFeB (que requerem Dy e Tb para resistir a altas temperaturas) são usados em:

  • Motores de drones e veículos elétricos militares;
  • Sistemas de guiagem de mísseis, drones e torpedos;
  • Radares, sensores e equipamentos de guerra eletrônica;
  • Componentes de aeronaves (Embraer), navios e submarinos.

O Brasil, embora tenha uma indústria de defesa consolidada (Embraer, Avibras, Taurus etc.), depende quase totalmente de importações para esses materiais, com risco de interrupção em cenários de conflito ou restrições chinesas. A aquisição da Serra Verde não garante suprimento direto para o Brasil, pois a produção é direcionada à SPV americana. No entanto, abre duas portas estratégicas:

  1. Oportunidade de parcerias e transferência tecnológica: o Brasil pode negociar cláusulas de conteúdo local, joint ventures ou prioridade de suprimento para projetos de defesa nacionais em futuras aprovações ou expansões. A integração com a cadeia americana poderia facilitar acesso à tecnologia de separação e magnetização, acelerando a capacitação nacional.

  2. Risco de dependência externa: sem mecanismos de garantia, o Brasil pode continuar vulnerável, reforçando a necessidade de uma política nacional de minerais críticos que inclua reserva estratégica, processamento local e estoque de segurança para defesa.

A fase 1 deve atingir capacidade nominal de cerca de 6.400 a 6.500 toneladas de óxidos totais de terras raras (TREO) por ano até o fim de 2027. Foto: Serra Verde

Urgência de uma estratégia soberana
Em resumo, a operação consolida o Brasil como ator relevante na geopolítica dos minerais, mas destaca a urgência de uma estratégia soberana: ou o país avança em verticalização da cadeia (processamento e manufatura) ou corre o risco de se tornar mero exportador de matéria-prima, enquanto o valor agregado fica com parceiros estrangeiros.

A aquisição da Serra Verde não é apenas um negócio bilionário, é um capítulo da nova Guerra Fria dos recursos. Para o Brasil, o desafio agora é transformar reservas geológicas em soberania tecnológica e industrial, especialmente na área de defesa, onde a dependência externa pode comprometer a autonomia estratégica em um mundo cada vez mais polarizado. O fechamento da operação, previsto para o terceiro trimestre de 2026, será acompanhado de perto por analistas, reguladores e o setor de defesa nacional.

22 abril, 2026

Embraer amplia presença na América do Norte com novo acordo estratégico no Canadá

Com o novo contrato, a Jazz Aviation LP se torna a primeira cliente canadense do programa ECIP da Embraer

 


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LRCA Defense Consulting - 22/04/2026

A Embraer anunciou a assinatura de um acordo inédito com a Jazz Aviation LP para suporte ao estoque de peças de reposição da frota de jatos E-Jets da companhia canadense. A parceria marca a entrada do programa de Planejamento Colaborativo de Estoque da fabricante brasileira no Canadá, consolidando sua estratégia de expansão na América do Norte.

A Jazz, maior companhia aérea regional do país e principal operadora da Air Canada Express, opera atualmente 25 aeronaves do modelo Embraer E-175. Com o novo contrato, a empresa se torna a primeira cliente canadense do programa ECIP (Embraer Collaborative Inventory Planning), iniciativa baseada em análise de dados e gestão compartilhada de materiais.

Segundo a Embraer, o modelo do ECIP prevê que a fabricante arque com a maior parte do investimento em peças de reposição, além de assumir a gestão logística e operacional desses itens. O objetivo é reduzir o tempo de inatividade das aeronaves e otimizar a eficiência operacional das companhias aéreas.

“O novo contrato demonstra o ritmo acelerado de crescimento da nossa área de Serviços e Suporte na América do Norte, região com a maior presença de E-Jets do mundo”, afirmou Carlos Naufel, presidente e CEO da divisão. “Estamos ansiosos para apoiar a Jazz e fortalecer seu desempenho operacional.”

Do lado canadense, o acordo é visto como um avanço na confiabilidade das operações. “Ao aderir ao programa, estamos aproveitando a expertise global da Embraer para reduzir o tempo de inatividade e garantir um serviço consistente aos passageiros”, destacou Doug Clarke, presidente da Jazz.

Modelo baseado em dados e previsibilidade
O ECIP oferece um conjunto de vantagens operacionais e financeiras. Entre os principais pontos estão a redução de custos iniciais com estoque, a previsibilidade de despesas por meio de preços fixos anuais por peça e a melhoria na disponibilidade de componentes críticos.

O sistema também utiliza recomendações semanais baseadas no consumo real e nos níveis de estoque, com apoio de softwares avançados e da expertise da Embraer em planejamento logístico. A fabricante destaca ainda que a rede global de suporte garante prazos de entrega predefinidos e níveis de desempenho elevados.

Relevância estratégica
A América do Norte concentra a maior frota mundial de E-Jets, o que torna a região prioritária para a expansão dos serviços da Embraer. O acordo com a Jazz reforça esse posicionamento e amplia a presença da empresa em um mercado altamente competitivo.

Perfil da Jazz Aviation
A Jazz Aviation opera voos para cerca de 70 destinos na América do Norte e integra o grupo Chorus Aviation Inc.. A companhia tem se destacado por reconhecimentos recentes no Canadá, incluindo prêmios de segurança, diversidade e ambiente de trabalho.

Com a nova parceria, a empresa busca elevar ainda mais seus padrões operacionais e consolidar sua posição como uma das principais operadoras regionais do continente.

Aço 100% brasileiro: Usiminas é única fornecedora do material para as Fragatas Tamandaré

Siderúrgica mineira supera concorrentes internacionais e garante participação estratégica no maior programa naval militar do Brasil em décadas 

Concepção artística das oito fragatas da Classe Tamandaré

*LRCA Defense Consulting - 22/04/2026

Quando a Fragata Tamandaré (F200) foi entregue à Marinha do Brasil em março deste ano, um feito passou quase despercebido sob a imponência do navio de guerra: toda a estrutura de aço que sustenta o casco e os conveses da embarcação veio de fábricas brasileiras. Mais especificamente, de uma só empresa: a Usiminas.

A companhia foi a única no Brasil fornecedora de aço plano para as embarcações, reforçando seu papel no fortalecimento da indústria nacional e na defesa das águas brasileiras. O feito ganha dimensão ainda maior quando se considera que, segundo publicação especializada, em projetos anteriores o Brasil importava parte do material para a construção naval militar.

O programa
O Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT) é uma iniciativa estratégica da Marinha do Brasil para a obtenção, por meio de construção nacional, de quatro fragatas de alta complexidade tecnológica. O contrato foi formalizado em março de 2020 no valor de R$ 9,1 bilhões, com o consórcio Águas Azuis, formado pela alemã Thyssenkrupp Marine Systems (TKMS) e pela Embraer Defesa & Segurança. A construção ocorre na TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Itajaí, Santa Catarina.

As fragatas são embarcações multipropósito projetadas para atuar em cenários de guerra de superfície, antiaérea e antissubmarino, com elevada capacidade de combate e interoperabilidade. O programa foi criado com o objetivo principal de substituir as fragatas Classe Niterói em operação desde 1975 e as Type 22 adquiridas de segunda mão do Reino Unido na década de 1990.

A batalha pela homologação
A conquista da Usiminas não foi trivial. Desde 2020, a empresa participou de um rigoroso processo de homologação para atender às exigências técnicas do PFCT, em um trabalho conjunto que envolveu diversas áreas da companhia para assegurar que o aço atendesse aos padrões internacionais definidos pela certificadora.

As exigências eram severas. Para aplicação nas fragatas, o material precisava apresentar elevada resistência mecânica, tenacidade e excelente soldabilidade, características essenciais para suportar condições severas do ambiente marítimo e operações de defesa. O plano de testes incluiu ensaios mecânicos, análises macro e microestruturais, testes de dureza e impacto, além de avaliações específicas das juntas soldadas, simulando condições reais de fabricação no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Usiminas, o maior em siderurgia da América Latina.

O resultado foi uma vitória sobre concorrentes internacionais. A iniciativa evidencia a competitividade da Usiminas frente a siderúrgicas europeias.

5.200 toneladas de aço nacional
Os números revelam a escala do fornecimento. Cada embarcação utiliza cerca de 1.300 toneladas de aço plano; somadas as quatro fragatas, o total chega a 5.200 toneladas de chapas grossas e bobinas laminadas a quente produzidas exclusivamente em duas fábricas da Usiminas: as chapas grossas em Ipatinga (MG) e as bobinas em Cubatão (SP).

É a primeira vez que o Brasil constrói fragatas desse nível usando exclusivamente material siderúrgico produzido no próprio país.

Para Lúcio Sávio Miranda, especialista em assistência técnica da Usiminas, o significado vai além do contrato. "Nos enche de orgulho a participação da Usiminas no Programa Fragatas Classe Tamandaré, com o qual a Marinha do Brasil poderá ampliar sua atuação na defesa das águas territoriais brasileiras. É um projeto que evidencia a capacidade da indústria nacional, e esperamos seguir contribuindo nas próximas etapas", afirmou.

Modernização da esquadra e soberania marítima
A entrega da F200, em março de 2026, representou um marco histórico. O Termo de Aceitação e Recebimento Provisório (TERP) foi assinado no Rio de Janeiro, simbolizando não apenas a conclusão de uma etapa contratual, mas a consolidação de capacidades industriais e tecnológicas no Brasil.

A Fragata Tamandaré também recebeu os certificados estatutários emitidos pela classificadora internacional Det Norske Veritas (DNV), confirmando a atualização oficial do status da embarcação de "em construção" para "em operação", dentro dos mais altos referenciais internacionais.

As outras três fragatas seguem em diferentes estágios de construção. Em janeiro de 2026, foi iniciada a construção da quarta e última embarcação do primeiro lote, a Fragata Mariz e Barros (F203), fazendo com que o TKMS Estaleiro Brasil Sul atingisse o auge da produção prevista, com as quatro fragatas sendo construídas simultaneamente em território brasileiro.

O programa ainda prevê a geração de cerca de 23 mil empregos - entre diretos, indiretos e induzidos - durante a construção das embarcações, além da reativação do estaleiro em Itajaí, que estava fora de operação.

O futuro: mais quatro fragatas e mais aço brasileiro
O horizonte é ainda mais promissor. Em abril de 2026, o presidente brasileiro confirmou, durante visita à Alemanha, a aquisição de mais quatro fragatas da Classe Tamandaré, elevando a frota total para oito navios. "Um consórcio binacional está construindo quatro fragatas da classe Tamandaré, para entrega até 2028. Aqui em Hanôver, avançamos nas tratativas para a aquisição de mais quatro unidades", afirmou o presidente.

Para o segundo lote, a meta é elevar o índice de conteúdo local de 32% para 42%, e as novas unidades deverão ser integradas com o míssil antinavio brasileiro MANSUP-ER, com alcance estendido para 250 quilômetros.

Se a Usiminas mantiver a condição de fornecedora exclusiva de aço no segundo lote, o volume de material poderá dobrar, chegando a mais de 10 mil toneladas de aço nacional nas fragatas mais modernas já construídas no Brasil.

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