*LRCA Defense Consulting, 20 de setembro de 2026
A possível chegada de Bruno Dantas à presidência do Conselho de Administração da Avibras Aeroco começa a revelar uma arquitetura de poder mais complexa do que a simples substituição de um dirigente. Segundo informação publicada por Lauro Jardim, em O Globo, o ex-ministro do Tribunal de Contas da União assumirá o posto em outubro, na empresa que passa ao controle da Globe Investimentos, dos irmãos Joesley e Wesley Batista.
Se confirmada pela companhia, a nomeação colocará Dantas no núcleo de definição estratégica, supervisão da administração, governança, riscos e grandes decisões empresariais. A condução cotidiana da fábrica, da engenharia, dos programas tecnológicos, dos contratos e da atuação comercial poderá permanecer em uma esfera executiva separada. É justamente nessa segunda dimensão que ainda falta uma resposta decisiva: qual será o papel de Sami Hassuani na nova fase da empresa?
De hipótese de comando executivo à presidência do Conselho
As primeiras notícias sobre o futuro profissional de Dantas indicavam que ele poderia assumir o comando da Avibras e liderar um rápido processo de recuperação, modernização e internacionalização. A referência seria a trajetória de transformação da Embraer. A informação de Lauro Jardim modifica o enquadramento: em vez de presidente executivo, Dantas ocuparia a presidência do Conselho de Administração.
A diferença é substantiva. O Conselho estabelece diretrizes, acompanha resultados, supervisiona os administradores e delibera sobre investimentos e decisões de maior alcance. Não se confunde com a gestão diária. Para Dantas, a função parece compatível com uma trajetória marcada por governança, articulação institucional, conhecimento do Estado, ambiente regulatório e interlocução de alto nível. Seu valor para a Avibras estaria menos na condução técnica da produção e mais na capacidade de organizar relações, decisões e projetos em torno de uma companhia estratégica.
Os Batista aportam controle e capacidade de recuperação
A Globe Investimentos acordou a aquisição da totalidade das ações da Nova AVB S.A., controladora integral da Avibras Aeroco. Em 14 de setembro, a Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica aprovou a operação. Como a entrada ocorre por meio do escritório de investimentos da família Batista, e não diretamente por uma empresa operacional da J&F, o desenho preserva flexibilidade para organizar o novo ativo de defesa.
Os irmãos Batista chegam com capital, capacidade de recuperação de empresas em situação desafiadora e acesso a redes financeiras e empresariais. A Avibras, por sua vez, oferece um ativo industrial raro: domínio de tecnologias críticas em propulsão sólida, foguetes, mísseis e integração de sistemas complexos, além do Sistema ASTROS, do Míssil Tático de Cruzeiro em certificação e do Míssil Tático Balístico em desenvolvimento.
A própria Avibras antecipou a separação de funções
Há um elemento institucional que dá consistência ao desenho agora noticiado. Em sua página de governança, a Avibras Aeroco afirma adotar uma estrutura baseada na segregação de funções, com equilíbrio entre direção estratégica e execução operacional. O texto estabelece que os órgãos de governança têm competências claramente definidas e que cabe ao modelo assegurar tanto a definição das diretrizes quanto o acompanhamento das atividades executivas.
A presidência do Conselho por Dantas se encaixaria exatamente nessa camada estratégica. A administração executiva, por sua natureza, exigiria experiência industrial, conhecimento dos produtos, domínio das relações com clientes militares e capacidade de transformar encomendas e projetos em produção, certificação e entrega.
A incógnita Sami Hassuani
Quando iniciou oficialmente suas operações, em abril, a Avibras Aeroco apresentou Sami Hassuani como presidente executivo. Engenheiro com mais de 40 anos de experiência nos setores de defesa e aeroespacial, ele recebeu a missão de conduzir o desenvolvimento da companhia, com foco no crescimento sustentável e na expansão para novos mercados.
Até o momento, não houve anúncio público de mudança nessa função. Em comunicado de 2 de setembro, a própria empresa afirmou que continuava sem alterações em sua administração, embora já circulassem notícias sobre mudanças futuras. A nota foi divulgada antes da aprovação do Cade e antes da informação de Lauro Jardim, portanto não resolve o desenho posterior ao fechamento da operação.
A permanência de Hassuani, com atribuições executivas bem definidas, permitiria combinar dois perfis complementares: Dantas na governança, na estratégia e na articulação institucional; Hassuani na indústria, na tecnologia, nos contratos e no mercado internacional. Também evitaria perder, num momento delicado de retomada, conhecimento acumulado sobre a companhia, seus produtos, seus clientes e o setor de defesa.
Capital nacional, tecnologia estratégica e ambição internacional
O arranjo em formação deverá ser avaliado por sua capacidade de entregar resultados concretos. A nova Avibras precisa consolidar a retomada industrial, financiar desenvolvimento tecnológico, concluir certificações, assegurar encomendas domésticas, oferecer garantias às exportações e recuperar a confiança de trabalhadores, fornecedores e clientes. A governança só terá valor se acelerar essas tarefas e proteger as competências estratégicas mantidas no País.
O Míssil Tático de Cruzeiro, com alcance de até 300 quilômetros, encontra-se em processo de certificação. O Míssil Tático Balístico AV-SS-100 está em desenvolvimento para emprego pelo Sistema ASTROS. Esses programas mostram que a transformação societária não envolve apenas a sobrevivência de uma empresa, mas a continuidade de capacidades soberanas difíceis de reconstruir caso sejam perdidas.
O que já se sabe e o que falta confirmar
A compra da Nova AVB pela Globe e a aprovação da operação pela Superintendência-Geral do Cade estão documentadas. A Avibras também confirma publicamente que Sami Hassuani ocupa a presidência executiva e que seu modelo de governança separa estratégia e execução. A ida de Bruno Dantas para a presidência do Conselho, porém, ainda se apoia na apuração de Lauro Jardim e não foi anunciada oficialmente pela Avibras Aeroco ou pela Globe Investimentos.
Também permanecem abertas a composição completa do Conselho, as atribuições reservadas a Dantas, a estrutura da diretoria após a mudança de controle e a posição que caberá a Hassuani. Essas definições mostrarão se a nova controladora pretende preservar a combinação entre articulação estratégica e experiência industrial ou promover uma reorganização mais ampla.
Uma arquitetura de poder começa a aparecer
A reportagem publicada pelo LRCA em 29 de agosto levantou a possibilidade de separar a condução estratégica da gestão operacional da Avibras. A informação agora divulgada aponta nessa direção, mas com uma diferença relevante: Dantas não iria para o comando executivo, e sim para o topo do Conselho.
O desenho que começa a surgir pode ser resumido em três eixos: a Globe e os irmãos Batista com o capital e o controle acionário; Bruno Dantas com a presidência do Conselho, a governança e a orientação estratégica; e uma estrutura executiva responsável por indústria, engenharia, contratos e mercados. O nome de Sami Hassuani continua sendo a principal peça ainda não definida publicamente nessa arquitetura.
Caso a composição seja confirmada nesses termos, a nova Avibras Aeroco não estará apenas trocando de controlador. Estará montando uma estrutura destinada a combinar poder financeiro, articulação institucional e competência tecnológica. O sucesso do projeto dependerá de como esses três elementos serão equilibrados e convertidos em encomendas, exportações, inovação e continuidade industrial.





















