Ata da Comissão Mista Brasil-África do Sul associa o KC-390, os jatos E2 e o retorno da Petrobras dentro de uma mesma estratégia de aprofundamento econômico entre os dois países
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| Renderização de um C-390 nas cores da Força Aérea Sul-Africana |
*LRCA Defense Consulting - 03/09/2026
O chanceler brasileiro Mauro Vieira colocou, em uma única frase de discurso, três negócios que normalmente seriam tratados como notícias separadas. Na ata final da VIII Sessão da Comissão Mista Brasil-África do Sul, realizada em 26 de agosto de 2026, em Pretória, o Vieira “destacou também as negociações em curso relativas à aeronave brasileira de transporte militar KC-390 e aos jatos regionais E2 da Embraer, e observou as oportunidades decorrentes da retomada das operações da Petrobras na África do Sul”, segundo o documento assinado por ele e pelo ministro sul-africano Ronald O. Lamola.
Isoladamente, nenhum dos três temas é inédito. O interesse sul-africano pelo KC-390 já é acompanhado desde 2023; a presença comercial da Embraer no País, por meio da Airlink, é antiga; e o retorno da Petrobras à exploração na África do continente vem sendo construído desde 2024. A novidade está em outro lugar: pela primeira vez, os três temas aparecem reunidos dentro do texto oficial de uma reunião ministerial de alto nível, como parte da mesma agenda econômica e estratégica bilateral, e não mais como notícias setoriais dispersas.
Defesa: o KC-390 como carro-chefe industrial
No eixo de defesa, o compromisso já tem lastro contratual. Em abril de 2025, durante a feira LAAD Defence and Security, no Rio de Janeiro, a Embraer e a Denel, estatal sul-africana de defesa, assinaram um memorando de entendimento para uma futura colaboração na fabricação de aeroestruturas e em serviços de manutenção, reparo e revisão (MRO) do KC-390. O acordo foi firmado por Fabio Caparica, vice-presidente de Contratos da Embraer Defesa & Segurança, e Chris Boshoff, CEO da área aeroespacial da Denel.
A ata da Comissão Mista recupera esse memorando e o descreve como potencial gerador de cooperação industrial aeroespacial, desenvolvimento tecnológico, integração em cadeias internacionais de suprimentos e transferência de competências entre as indústrias de defesa dos dois países. O documento tem uma seção própria dedicada ao programa KC-390, na qual os dois governos registram que prosseguem as discussões sobre a possível adoção da aeronave na África do Sul.
Do lado comercial, a ofensiva da Embraer ganhou estrutura dedicada em janeiro de 2026, quando a fabricante nomeou Leandro Marc Pienaar como diretor de Desenvolvimento de Negócios para a África Austral, com a promoção do KC-390 e do A-29 Super Tucano entre suas atribuições. Pienaar, formado em engenharia mecânica pela Universidade de Pretória, veio da Milkor (Pty) Ltd, onde negociou contratos de defesa em todo o continente.
A publicação sul-africana DefenceWeb confirmou, em reportagem de 26 de junho de 2026, que a Embraer vê o KC-390 como a aeronave preferencial para substituir a envelhecida frota de C-130BZ Hercules da Força Aérea Sul-Africana (SAAF). Segundo Marcio Monteiro, diretor de Marketing da Embraer Defesa & Segurança, a força aérea sul-africana gastou 2,3 bilhões de rands entre os exercícios fiscais de 2021/22 e 2025/26 apenas com fretamento de aeronaves para sustentar missões de paz na República Democrática do Congo e em Moçambique, recurso que poderia ter sido direcionado à compra de aviões novos.
Um fator estratégico adicional reforça o interesse: Brasil e África do Sul operam o caça sueco Gripen (a FAB com as versões E/F, a SAAF com C/D), e o KC-390 já foi certificado, em testes conduzidos com a Saab e a Força Aérea Brasileira, para reabastecer Gripens em voo. A África do Sul perdeu sua capacidade de reabastecimento aéreo com a aposentadoria dos Boeing 707 usados como tanque.
Aviação comercial: os E2 em um mercado já consolidado
Se no KC-390 a Embraer ainda negocia uma venda, na família E2 ela já colhe resultados. A Airlink, maior operadora de aeronaves Embraer da África desde 2001 e dona de uma frota de 70 aparelhos da fabricante, fechou em agosto de 2025 um contrato de leasing com a Azorra para dez unidades do E195-E2. As três primeiras aeronaves foram entregues entre setembro e outubro de 2025 e entraram em operação comercial em dezembro daquele ano, com voo inaugural entre Joanesburgo e Durban; as demais devem chegar até 2027.
O mercado sul-africano foi formalmente aberto à nova geração de jatos em 3 de setembro de 2025, quando a Autoridade de Aviação Civil da África do Sul (SACAA) concedeu a certificação de aceitação de tipo ao E190-E2 e ao E195-E2. Segundo Stephan Hannemann, vice-presidente sênior da Embraer para África e Oriente Médio, a certificação abriu novas oportunidades para as aeronaves no continente.
É nesse contexto que a menção de Vieira a negociações envolvendo os E2 ganha outro significado. Como o negócio com a Airlink já está em curso, a referência do chanceler sugere uma agenda comercial mais ampla do que essa operação isolada, possivelmente incluindo outras companhias aéreas sul-africanas ou aprofundamento da cooperação industrial em torno da família E2, e não apenas a confirmação de um contrato que já foi assinado.
Energia: a Petrobras de volta ao setor exploratório sul-africano
O terceiro eixo citado por Vieira é a retomada das operações da Petrobras na África do Sul. A estatal brasileira participa do bloco Deep Western Orange Basin (DWOB), na costa sul-africana, operado pela TotalEnergies, dentro de um movimento mais amplo de reposicionamento da companhia no continente africano desde fevereiro de 2024. A mesma estratégia já rendeu à Petrobras participação em blocos na Namíbia (o 2613, também com a TotalEnergies) e em São Tomé e Príncipe, onde a estatal brasileira é operadora, com 75% do Bloco 3.
A ata da Comissão Mista também registra que os dois países discutem a finalização de um acordo de cooperação nuclear, que permitiria o comércio na área nuclear entre Brasil e África do Sul, além de intercâmbios técnicos sobre transmissão elétrica, energias renováveis e minerais críticos.
Uma agenda industrial em formação
Reunidos em um único parágrafo da fala oficial do chanceler brasileiro, os três temas (defesa, aviação comercial e energia) desenham algo que ultrapassa o comércio bilateral tradicional entre Brasil e África do Sul, historicamente descrito nas atas da Comissão Mista sobretudo pelos números de exportação de minérios, produtos químicos e alimentos. A ata de 2026 também documenta outros sinais dessa aproximação industrial: a cooperação entre a Denel e a Embraer, apontada como base para participação da indústria sul-africana no programa KC-390; a chegada da missão empresarial sul-africana ao Brasil em agosto de 2026, com empresas dos setores aeroespacial, de defesa e de mineração; e as tratativas para um Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos entre os dois países, que ambos os lados pretendem concluir até o fim de 2026.
Ainda não há confirmação de uma decisão de compra do KC-390 pela SAAF, nem detalhamento oficial de quais negociações específicas em torno dos E2 Vieira tinha em mente ao discursar em Pretória. O que a ata deixa mais claro é a intenção política de tratar aeroespacial e energia como setores estratégicos comuns entre os dois países, ao lado de temas já consolidados como agronegócio e mineração.






