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28 junho, 2026

Exército recebe CC2 Móvel Grande Unidade em Corumbá e amplia comando e controle do SISFRON no Pantanal

 


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LRCA Defense Consulting - 28/06/2026

A 18ª Companhia de Comunicações, subordinada à 18ª Brigada de Infantaria de Pantanal, recebeu, em Corumbá (MS), no dia 23 de junho, as três viaturas que compõem o Centro de Comando e Controle (CC2) Móvel Grande Unidade do Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON). A nova estrutura amplia a capacidade de comando e controle da brigada na fronteira oeste e se soma a um conjunto de entregas que, desde o final de 2025, vem sendo feito pelo Exército ao longo da faixa de fronteira.

Três viaturas, um único centro de comando
O CC2 Móvel Grande Unidade é composto por três viaturas integradas, batizadas de Autoridades, Células e Apoio de Tecnologia da Informação, cada uma com função específica dentro do conjunto. Juntas, elas formam um ambiente capaz de receber, analisar e difundir informações em tempo real, permitindo que o comandante e seu estado-maior planejem operações e emitam ordens a partir do próprio terreno, em vez de depender exclusivamente de centros fixos distantes da área de operações.

Segundo o Exército, o equipamento proporciona maior mobilidade, segurança e interoperabilidade ao permitir o gerenciamento e o compartilhamento de informações em tempo real durante as operações, contribuindo para o aumento da consciência situacional e para uma tomada de decisão mais ágil e precisa pelos comandantes nos diversos níveis. A entrega em Corumbá não é isolada: em 26 de novembro de 2025, o Comando de Comunicações e Guerra Eletrônica do Exército (CCOMGEx), em Brasília, já havia recebido sua própria unidade do mesmo modelo, que permanece sob responsabilidade da Companhia de Comando e Controle daquele comando.

 

Um projeto que já entregou dezenas de viaturas
O CC2 Mv Grande Unidade foi desenvolvido no âmbito do Projeto de Sensoriamento e Apoio à Decisão (Prj SAD 2), que integra a Fase 2 do SISFRON. A Embraer é a integradora principal desse projeto e, segundo informações institucionais, já superou a marca de 50 soluções veiculares entregues ao programa, entre viaturas de comunicações, centros móveis e postos de comando. Subcontratadas como a RF Com Ltda e a Iturri Brasil são responsáveis por transformar viaturas de transporte não especializadas em plataformas especializadas de comunicações, do tipo nós de acesso e postos rádio.

Ao todo, a Fase 2 do SISFRON prevê a entrega de 15 unidades de CC2 móveis, parte de um pacote mais amplo de viaturas táticas que também inclui dezenas de jipes Agrale Marruá convertidos em centros de comunicações e inteligência. A 18ª Brigada de Infantaria de Pantanal já havia recebido, em dezembro de 2024, uma viatura especializada de comunicações site tático no âmbito do mesmo projeto, e, em setembro de 2024, o 17º Batalhão de Fronteira, também subordinado à 18ª Brigada, recebeu um Centro de Comando e Controle Transportável (CC2 Trnp), de menor porte que o modelo agora entregue à companhia de comunicações.

Por que a fronteira oeste
A 18ª Brigada de Infantaria de Pantanal responde pela vigilância de um trecho sensível da fronteira do Mato Grosso do Sul com a Bolívia e o Paraguai, área historicamente associada ao combate a crimes transfronteiriços, como contrabando e tráfico de drogas. O SISFRON nasceu justamente na região, com o projeto piloto implantado no Comando Militar do Oeste, e a fase atual busca consolidar e ampliar essa experiência para outros trechos da faixa de fronteira, que soma mais de 16 mil quilômetros.

Na prática, um CC2 móvel permite que uma operação de fronteira deixe de depender de um centro fixo distante e passe a contar com um posto de comando avançado, próximo às tropas. Isso reduz o tempo entre a detecção de um evento (por radar, câmera ou patrulha) e a resposta das tropas no terreno, ao conectar dados de sensores do SISFRON, patrulhas e até órgãos civis, como polícia e fiscalização, em um único quadro situacional.

 

Impacto para a base industrial de defesa
Para além do ganho operacional imediato, a continuidade das entregas do Prj SAD 2 reforça o papel da Embraer como integradora de sistemas terrestres complexos de comando, controle, comunicações, computação e inteligência, o chamado C4I, consolidando competências em software, cibersegurança e integração de sistemas dentro da Base Industrial de Defesa nacional. O programa integra o eixo de Inovação e Indústria da Defesa do Novo PAC do governo federal, o que assegura, ao menos no horizonte atual, a continuidade dos investimentos nas próximas etapas do SISFRON.

Enquanto uns vendem Defesa, nós vendemos discursos e promessas

 
*Luiz Alberto Cureau Jr. - 28/06/2026

Israel olha para a indústria de defesa e enxerga poder nacional. A Coreia do Sul olha para a indústria de defesa e enxerga desenvolvimento, exportação e influência. O Brasil olha para a indústria de defesa e, com sorte, enxerga uma rubrica no orçamento e normalmente um problema, tipo aquele “vamos dar poder para os militares?”. Quando o assunto é soberania, seguimos especialistas em discursos fortes e execução tímida.

A diferença começa no papel do Estado. Em Israel, o governo vende junto. A indústria produz, mas quem abre portas, negocia, dá garantia e transforma produto em aliança estratégica é o Estado. Lá, defesa não é passeio em feira internacional com aperto de mão e fotografia para rede social, o que normalmente fazemos aqui. É política externa aplicada.

Na Coreia do Sul, o método é ainda mais disciplinado. Compra interna, pesquisa, desenvolvimento, financiamento e exportação conversam entre si. As Forças compram em escala, a indústria ganha previsibilidade, o produto amadurece e depois sai para o mundo com crédito, suporte e pacote tecnológico. Simples? Não. É Óbvio? Bastante. Por isso mesmo talvez seja tão difícil por aqui.

No Brasil, a lógica parece invertida. Temos bons produtos, engenheiros competentes, militares experientes e empresas que sobrevivem apesar do ambiente. Mas compramos pouco, planejamos mal, cortamos muito e depois perguntamos por que a indústria não ganha escala. É como plantar uma árvore, cortar a raiz todo ano e reclamar que ela não dá sombra.

Israel usa inteligência para antecipar demanda e planejar vendas. A Coreia usa financiamento para conquistar mercado. O Brasil, muitas vezes, espera a oportunidade aparecer, torce para a empresa se virar e, se der certo, chama de política pública. Quando dá errado, a culpa costuma ser do mercado, do câmbio, da burocracia ou de algum relatório que ninguém leu.

A Base Industrial de Defesa brasileira não precisa de piedade. Precisa de método. Precisa de contratos plurianuais, compras previsíveis, financiamento ao comprador externo, atuação real dos adidos militares, vendas governo a governo com garantia soberana, offset cobrado de verdade e diplomacia comercial menos cerimonial.

Também precisa que o governo de turno entenda uma coisa básica: defesa não é gasto incômodo para fechar planilha. É seguro de vida da soberania, motor de tecnologia e crescimento. País que não protege sua indústria estratégica acaba comprando caro, importando dependência e chamando isso de modernização, o que fazemos hoje.

Israel e Coreia não chegaram onde estão por milagre. Chegaram porque decidiram. O Brasil já tem capacidade, mercado e talento. Falta abandonar a velha mania nacional de transformar oportunidade em comissão, comissão em relatório e relatório em reunião.

Enquanto eles exportam sistemas, nós ainda exportamos promessas. E promessa, em defesa, não protege fronteiras, não gera escala e não impõe respeito. 

 

*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 (Veterano) do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do 19º Batalhão de Infantaria Motorizado, comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Brigada de Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor de Defesa e Clima na Segura.    

Dobslit é credenciada como Empresa Estratégica de Defesa pelo Ministério da Defesa

 

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LRCA Defense Consulting - 28/06/2026

A Dobslit Serviços e Tecnologias Quânticas anunciou ter recebido do Ministério da Defesa o credenciamento de Empresa Estratégica de Defesa (EED), distinção concedida a organizações consideradas essenciais para o desenvolvimento de competências tecnológicas de interesse nacional. Segundo a empresa, o reconhecimento consolida as tecnologias quânticas, computação quântica, comunicação quântica e sensoriamento quântico, como tema estratégico para a defesa, a segurança cibernética e a soberania tecnológica do Brasil.

O que é uma Empresa Estratégica de Defesa
A classificação de Empresa Estratégica de Defesa foi instituída pela Lei nº 12.598, de 2012, e teve seus critérios de credenciamento e descredenciamento atualizados pela Lei nº 14.459, de 2022, originada da Medida Provisória nº 1.123. De acordo com a norma, as EEDs são consideradas essenciais para a promoção do desenvolvimento científico e tecnológico brasileiro e fundamentais para a preservação da segurança e da defesa nacional contra ameaças externas. 

Para obter o credenciamento, a empresa precisa ter sede, administração e estabelecimento industrial no país, comprovar conhecimento científico ou tecnológico relevante e assegurar o controle acionário por brasileiros, admitida a participação estrangeira no capital. O processo é avaliado pela Comissão Mista da Indústria de Defesa (CMID), órgão assessor do Ministério da Defesa, após pré-cadastro da empresa no Sistema de Cadastramento de Produtos e Empresas de Defesa (SisCaPED). Até maio de 2024, segundo levantamento da Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC), o ministério havia credenciado 235 empresas entre EEDs e Empresas de Defesa (ED), a maioria delas voltada a segmentos tradicionais da base industrial de defesa, como armamentos, blindados e sistemas navais e aeroespaciais.

A trajetória da Dobslit
Fundada em 2021 em São Carlos, no interior de São Paulo, a Dobslit se apresenta como pioneira no país em tecnologias quânticas de segunda geração. A empresa nasceu da parceria entre o engenheiro Carlos Speglich e o pesquisador Rogerio Ruivo, com a colaboração do professor Celso J. Villas-Bôas, do Departamento de Física da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), referência em óptica e informação quântica. 

Sediada no Supera Parque de Inovação e Tecnologia de Ribeirão Preto, a Dobslit chegou a inaugurar, em parceria com a francesa Atos, o que descreveu como o primeiro simulador de computador quântico da América Latina, e levou ao SENAI de São Caetano do Sul, em 2023, o primeiro computador quântico de uso educacional instalado no Brasil, um equipamento de mesa baseado em ressonância magnética nuclear fabricado pela chinesa SpinQ. Entre seus clientes e parceiros declarados estão o Centro de Inovação QuIIN, da Embraer, com quem desenvolve algoritmos quânticos aplicados à manutenção preditiva de aeronaves, além de projetos de simulação com a Embrapii.

O Kuapoã e a aposta em segurança quântica
Entre os produtos mais recentes da empresa está o Kuapoã, um gerador de números aleatórios quanticamente seguros (QRNG, na sigla em inglês) apresentado pela Dobslit como projetado e fabricado no Brasil. O equipamento, em formato de rack de 2U, utiliza a aleatoriedade intrínseca de processos fotônicos para gerar números que a empresa classifica como imprevisíveis e não replicáveis por sistemas clássicos, com aplicação na geração de chaves criptográficas, no fortalecimento de protocolos como VPN, TLS e PKI, e na proteção de sistemas governamentais e militares. Segundo o comunicado que anuncia o credenciamento como EED, a participação da Dobslit no desenvolvimento do Kuapoã é citada como uma das iniciativas que reforçam o compromisso da empresa com a soberania tecnológica nacional no campo quântico.

O interesse das Forças Armadas em criptografia pós-quântica
O comunicado da Dobslit agradece nominalmente ao Centro de Análises de Sistemas Navais (CASNAV), da Marinha do Brasil, por seu apoio às tecnologias emergentes do setor. O órgão, criado em 1975 e hoje com cerca de 250 profissionais dedicados a pesquisa operacional, computação, criptologia e segurança de sistemas digitais, tem ampliado nos últimos meses sua atuação em criptografia pós-quântica. Em 27 de maio, a Marinha realizou no Centro Tecnológico da Marinha no Rio de Janeiro (CTMRJ) o primeiro Simpósio de Criptografia Pós-Quântica de Defesa, reunindo pesquisadores, universidades e empresas para discutir os riscos que futuros computadores quânticos representam para os métodos de criptografia hoje empregados na proteção de comunicações estratégicas. 

Para o diretor do CASNAV, capitão de mar e guerra Hugo Leonardo Fernandes da Costa, o avanço da computação quântica representa um dos grandes desafios da atualidade para a proteção da informação, especialmente no contexto da defesa, em que a segurança das comunicações e a preservação da soberania nacional possuem caráter estratégico.

Contexto internacional
O credenciamento da Dobslit ocorre em um momento de crescente atenção global às tecnologias quânticas de defesa. Segundo o próprio comunicado da empresa, diversos países têm realizado investimentos bilionários no setor, reconhecendo seu potencial para alterar o equilíbrio tecnológico, econômico e geopolítico nas próximas décadas. No Brasil, o tema ainda carece de uma política nacional consolidada, embora instituições de pesquisa e financiamento, como o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), já tenham direcionado recursos à área; o CBPF inaugurou em junho deste ano um laboratório de tecnologias quânticas no Rio de Janeiro, fruto de um aporte de R$ 30 milhões com participação de MCTI, CNPq, Finep, Faperj, Fapesp e Petrobras. 

Com o credenciamento como EED, a Dobslit passa a integrar oficialmente a base industrial de defesa brasileira como representante das tecnologias quânticas, segmento até então pouco presente entre as empresas credenciadas pelo Ministério da Defesa, tradicionalmente concentradas em armamentos, plataformas e sistemas convencionais.

27 junho, 2026

Míssil de cruzeiro AATD de longo alcance: o que se sabe sobre o programa da PlasmaHub

Missil AATD da PlasmaHub, em imagem renderizada por IA

*LRCA Defense Consulting - 27/06/2026

A empresa brasileira PlasmaHub, com sede em São José dos Campos (SP), esteve presente na Eurosatory 2026, realizada de 15 a 19 de junho em Paris. A participação ocorreu dentro do Espaço Brasil, pavilhão coletivo coordenado pela ABIMDE no Hall 5B, estande C100, junto com outras 18 empresas nacionais. A PlasmaHub vinha sendo associada, em publicações de terceiros nas redes sociais, a um sistema de mísseis de longo alcance para aplicações estratégicas, que estaria entre os destaques de sua participação no evento.

Até o fechamento desta matéria, porém, não foi localizada cobertura da imprensa especializada que confirme o míssil de longo alcance como destaque efetivo da presença da empresa na feira. Diferentemente de companhias brasileiras como Embraer, CBC, Taurus, Mac Jee e Condor, que tiveram estandes próprios na Eurosatory 2026, a PlasmaHub esteve no espaço coletivo do pavilhão nacional, o que pode ter limitado a visibilidade individual de seus produtos.
 
O sistema de lançamento e a propulsão híbrida
Segundo publicação do portal Brazil Defense Brief (BDB) feita antes da abertura da feira, o sistema contaria com um lançador móvel rodoviário configurável para dois a quatro mísseis em canisters. A solução integrada incluiria recarga de mísseis, fornecimento de combustível, controle móvel de missão, comunicações via satélite e integração C2 (comando e controle). Essas características, no entanto, não foram confirmadas por cobertura da feira em si nem por declaração oficial da PlasmaHub.

A propulsão, segundo a mesma publicação, combinaria dois estágios: um foguete de propelente sólido, usado como acelerador inicial (booster), e um motor turbojato, empregado na fase de cruzeiro. Essa arquitetura em dois estágios conferiria ao sistema capacidade de ataque de longo alcance, com ogiva de fragmentação por explosão.

Vídeo do perfil Global Militar postado no YouTube há seis meses, onde é dito que o míssil foi revelado pelo Jorn. Roberto Caiafa em seu blog Caiafa Master

O motor TJ-1000, da Turbomachine, e a confirmação pelo Exército Brasileiro
As imagens do míssil em montagem permitem identificar, no banco de testes, um motor turbojato de eixo único que corresponde, em proporções e posicionamento, ao modelo TJ-1000, fabricado pela brasileira Turbomachine. O motor tem peso seco de 70 quilos, 1.180 milímetros de comprimento e 350 milímetros de diâmetro, sendo capaz de gerar entre 1.000 e 1.200 libras-força de empuxo, conforme a configuração. Utiliza um compressor axial de quatro estágios, fabricado em peça única de alumínio, e turbina de um estágio. O mesmo motor já é empregado pela Avibras Aeroco, sob acordo de licença de fabricação, no míssil AV-TM 300 (também chamado MTC-300), que equipa o sistema ASTROS.

Fontes do setor apontam que versões mais potentes da propulsão, como um motor identificado como TF-1200, poderiam elevar o alcance de sistemas baseados no TJ-1000 a algo entre 1.500 e 2.000 quilômetros. Essa estimativa encontra respaldo em fonte primária: um trabalho acadêmico de 2025, produzido por sete oficiais do Centro de Instrução de Artilharia de Mísseis e Foguetes (CI Art Msl Fgt) do Exército Brasileiro como requisito para a especialização em Planejamento e Emprego do Sistema de Mísseis e Foguetes, confirma que a PlasmaHub está desenvolvendo míssil de longo alcance denominado AATD, o qual pode chegar até 2000 km. O mesmo documento confirma que a plataforma lançadora teria capacidade de lançar até duas munições, no mesmo sentido do que circulava em publicações de terceiros nas redes sociais.

O estudo, voltado à base industrial de defesa que sustenta o sistema ASTROS, traz a confirmação institucional mais robusta sobre o programa até o momento. Descreve a PlasmaHub como empresa com expertise na integração de sistemas componentes de mísseis, foguetes, além de munições pesadas com sistemas de guiamento acoplados, fundada em 2018 e classificada como Empresa Estratégica de Defesa (EED). Detalha ainda a rede de parceiros da empresa na manufatura horizontalizada de seus produtos: Edge Of Space (EOS), responsável por dispositivos pirotécnicos; Índios Pirotecnia; Castro Leite Consultoria (CLC), que contribui com navegação inercial; Airtech Defense; e a própria Turbomachine, fornecedora dos motores. A PlasmaHub aparece como responsável pelo desenvolvimento do computador de missão (descrito no documento como Mission First Computer).

O estudo também registra que a empresa alega que seus produtos estão fora da jurisdição das ITAR (International Traffic in Arms Regulations, o regime norte-americano de controle de exportação de tecnologias de defesa), embora dependa de insumos e matérias-primas importadas para executar seus projetos. Buscar a condição de ITAR Free é relevante para a competitividade comercial do míssil, já que produtos sujeitos às ITAR enfrentam restrições severas de exportação impostas pelos Estados Unidos.

Míssil em fase de montagem, com a seção do motor exposta no banco de testes, em imagem da PlasmaHub

A ficha técnica completa do portfólio de mísseis
Materiais divulgados pela própria PlasmaHub detalham um portfólio mais amplo do que o míssil de longo alcance isoladamente. Ele inclui um míssil de cruzeiro de curto e médio alcance, o míssil de cruzeiro de longo alcance, uma estação de controle terrestre e uma estação de lançamento móvel baseada em veículo terrestre. A empresa também desenvolve um kit de guiamento e planeio para bombas da família MK (MK-81, MK-82 e MK-89), além de um foguete supersônico de artilharia e do já mencionado veículo lançador de satélites, em parceria com o consórcio liderado pela Cenic.

O míssil de curto e médio alcance tem alcance estimado entre 200 e 300 quilômetros, velocidade de Mach 0,80 e altitude de voo em torno de 20 mil pés. É propulsionado pelo motor turbojato TJ-200, da Turbomachine, e incorpora asas retráteis, aletas de controle em configuração cruciforme e entrada de ar inferior. O armamento emprega guiamento bidirecional com datalink, cabeça de guerra de fragmentação e erro circular provável (CEP) de 30 metros. O projeto tem como base o míssil de cruzeiro Caburé 300, desenvolvido pela própria Turbomachine e apresentado na LAAD 2015, o que indica linhagem de mais de uma década para o conceito.

Já o míssil de longo alcance, alvo principal desta matéria, mantém velocidade de Mach 0,75, carga útil de 200 quilos e o motor TJ-1000. Incorpora asas e superfícies de controle retráteis, lançamento a partir de canister e ogiva de fragmentação. O sistema conta ainda com sensor infravermelho para a fase terminal, CEP estimado em 2 metros, dispositivo de autodestruição e possibilidade de emprego de booster de aceleração, além da opção de lançamento a partir de uma unidade física dedicada.

A turbina TJ-200, por sua vez, é uma microturbina a gás de apenas 180 milímetros de diâmetro, com 12 quilos de peso e capacidade de gerar 220 libras-força de empuxo, suficiente para os 300 quilômetros declarados de alcance do míssil de menor porte.

Um papel potencial no ecossistema do ASTROS, mesmo com a Avibras reativada
O trabalho acadêmico do Exército situa a PlasmaHub dentro de um contexto institucional mais amplo: a crise da Avibras, fabricante histórica do sistema ASTROS, que entrou em recuperação judicial em 2022 por uma dívida de aproximadamente R$ 600 milhões. Essa crise comprometeu por anos o suprimento de munição e a manutenção do sistema, levando o Exército a mapear empresas alternativas da base industrial de defesa capazes de assumir funções antes exclusivas da Avibras.

Desde a conclusão do estudo, porém, o quadro mudou: em maio de 2026, a empresa, agora sob nova governança e rebatizada Avibras Aeroco, retomou suas operações após receber um aporte de R$ 300 milhões do grupo J&F e encerrar uma greve de 1.280 dias. A retomada inclui a continuidade do MTC-300 (AV-TM 300) e do próprio sistema ASTROS, que segue propulsionado pelo motor TJ-1000 da Turbomachine sob licença de fabricação, sem indicação de substituição por um motor próprio da empresa.

Mesmo com a reativação da Avibras Aeroco, o mapeamento institucional que apontava a PlasmaHub como possível solução para a manutenção dos sistemas lançadores do ASTROS, dada sua expertise em plataformas e em sistemas lançadores, segue relevante: a base industrial de defesa brasileira tende a se manter diversificada, com a PlasmaHub, a SIATT, a Mac Jee e a Modirum Gespi mapeadas como possíveis fornecedoras complementares de munição, e com a PlasmaHub citada também na integração de sistemas de comunicações, meteorologia e cálculo de tiro, ao lado de RF Com e SIATT. Isso sugere que a empresa não atua apenas como desenvolvedora independente de um míssil próprio, mas também como possível ator de apoio dentro do ecossistema industrial que sustenta um dos principais sistemas de artilharia do Exército Brasileiro.

Uma visão mais ampla da PlasmaHub
O míssil de longo alcance é apenas uma frente da PlasmaHub. A empresa, formada por engenheiros com passagens pela Embraer, pela Avibras e pela Mectron, atua também no setor espacial: integra o consórcio liderado pela Cenic Engenharia responsável pelo desenvolvimento do MLBR (Microlançador Brasileiro), o veículo lançador de pequeno porte (VLPP) financiado pela Finep, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com participação da Agência Espacial Brasileira (AEB).

No consórcio, a PlasmaHub contribui com o banco de controle de lançamento, projetos aeroespaciais e montagem de módulos. O programa já passou pela Preliminary Design Review (PDR), em junho de 2024, e pela Critical Design Review (CDR), concluída com sucesso em 29 e 30 de maio de 2025, marco que autorizou o início da fase de construção e testes. Em janeiro de 2026, o MLBR concluiu também um teste de resistência do motor. A próxima etapa é a Systems Qualification Review (SQR), que avaliará a qualificação dos principais subsistemas do veículo.

Vale notar que o projeto concorrente ao MLBR, o VLN-AKR, liderado pela Akaer, foi cancelado por irregularidades na prestação de contas, o que deixou o MLBR como o único projeto privado em andamento no Brasil para o desenvolvimento de um microlançador.

 
Renderização do futuro Complexo Industrial e Tecnológico da PlasmaHub e Turbomachine em Paracuru (CE) em vídeo do perfil @beimoficial no Instagram, postado em setembro de 2024 

O polo industrial de Paracuru
Outra frente relevante é a expansão territorial do projeto. A PlasmaHub e a Turbomachine pretendem construir um complexo industrial de engenharia espacial em Paracuru, no Ceará, em terreno doado pela prefeitura, com a previsão de cerca de 60 empregos diretos e mais de 200 indiretos. O município fica a aproximadamente 80 quilômetros de Fortaleza e relativamente próximo do Centro de Lançamento de Alcântara (MA), o principal ativo espacial estratégico do país.

A presença da Turbomachine no complexo sugere integração vertical entre as duas empresas, unindo produção de propulsão e integração de sistemas no mesmo polo. Reportagens anteriores já haviam destacado que a PlasmaHub descreve seu míssil de cruzeiro como um projeto “100% nacional”, reforçando a lógica de soberania tecnológica que também orienta o programa MLBR.

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