Empresa do Grupo Embraer quer dobrar de tamanho até 2030 com sistemas de tráfego aéreo e de drones; balanço de 2025 mostra receita 27% maior, margem em queda e 64% das vendas vindas de programas militares
*LRCA Defense Consulting - 01/11/2026 - 10h17
A Atech, empresa de tecnologia do Grupo Embraer, quer dobrar de tamanho até 2030 e conta com a exportação de sistemas de gerenciamento do espaço aéreo, inclusive para o tráfego de drones, para chegar lá. A meta foi apresentada pelo diretor-presidente Rodrigo Persico em entrevista à Bloomberg Línea publicada em 29 de outubro, na qual ele apontou Ásia, África e América Latina como regiões prioritárias. As demonstrações financeiras de 2025, porém, mostram que o motor atual da companhia está em outro lugar: quase dois terços da receita vieram de programas de Defesa no País, com peso destacado das Fragatas Classe Tamandaré.
Persico, engenheiro mecânico que comanda a Atech desde março de 2023, após mais de duas décadas no grupo, não vinculou a meta a um indicador específico (faturamento, quadro de pessoal ou carteira de contratos) nem divulgou investimentos associados. Sobre a fatia do exterior na receita, disse que ela dependerá da concretização de novos contratos e que a prioridade é construir uma carteira internacional consistente, sem fixar percentual. As próprias demonstrações registram que a presença da empresa ainda é predominante no mercado brasileiro.
Mais receita, menos margem
A receita líquida chegou a R$ 344,6 milhões em 2025, ante R$ 271,3 milhões em 2024, alta de 27%. No relatório da administração, a Atech informa crescimento de 75% nas vendas e de 25% na carteira de pedidos (backlog). A diferença entre os números tem explicação: as vendas medem contratos fechados no ano, que só viram receita à medida que os projetos avançam. Um indício desse fôlego futuro está no balanço, onde os valores faturados antes da execução (passivo de contrato) subiram de R$ 78,6 milhões para R$ 136,6 milhões, puxados pelas fragatas e pelo laboratório de geração nucleoelétrica da Marinha (Labgene).
O crescimento, contudo, custou rentabilidade. O lucro líquido recuou de R$ 73,9 milhões para R$ 70,6 milhões, e a margem líquida caiu de 27,2% para 20,5%. O custo dos serviços aumentou 36%, acima da receita, com destaque para os serviços contratados de terceiros, que quase dobraram (de R$ 33,4 milhões para R$ 62,3 milhões), os materiais aplicados nos projetos e a amortização de produtos desenvolvidos internamente, que saltou de R$ 1,9 milhão para R$ 11 milhões. A margem bruta passou de 32,6% para 27,6%.
Outros dois fatores pesaram. O câmbio, que havia rendido ganho de R$ 10,3 milhões em 2024, gerou perda de R$ 6,6 milhões em 2025; e a empresa constituiu provisão de R$ 6,9 milhões para serviços contratados. Com isso, o lucro antes dos impostos caiu 17%, para R$ 68,4 milhões. O resultado final só não foi pior por dois motivos: a participação de 12% no consórcio Águas Azuis, construtor das fragatas, rendeu R$ 14,2 milhões de equivalência patrimonial (ante R$ 5,8 milhões), e os incentivos fiscais à pesquisa e desenvolvimento, inclusive da Lei do Bem, transformaram o imposto de renda em crédito de R$ 2,2 milhões. A companhia encerrou o ano com R$ 266,5 milhões em caixa, sem dívida bancária, depois de pagar R$ 78 milhões em dividendos à controladora.
A Defesa paga as contas
A divisão da receita por área revela o peso militar do negócio. Defesa respondeu por R$ 221 milhões (64% do total), com alta de 34%; o gerenciamento de tráfego aéreo (ATM) somou R$ 121,4 milhões (35%), com avanço de 17%; e a área de soluções corporativas ficou com R$ 2,2 milhões. Só o consórcio Águas Azuis, formado por Embraer, Atech e a alemã TKMS, gerou R$ 83,5 milhões, cerca de um quarto da receita. Para as fragatas, a Atech fornece o sistema de gerenciamento da plataforma (IPMS) e o sistema de combate; os testes de aceitação em campo ocorreram em 2025, e o cronograma informado previa a entrega do primeiro navio no início de 2026.
A carteira militar inclui ainda os sistemas de instrumentação, controle e proteção do reator do Labgene, protótipo em terra da propulsão do submarino nuclear brasileiro, e o programa DACOM, com o Simulador de Operações Militares. Já a receita obtida com a Eve Air Mobility, empresa de mobilidade aérea do grupo, caiu de R$ 19,3 milhões para R$ 10,3 milhões. O quadro ajuda a entender a ênfase no exterior: grandes programas nacionais têm ciclos finitos, e a meta para 2030 pressupõe encontrar fontes de receita que ocupem o espaço deixado pela conclusão das entregas.
África do Sul como vitrine
O principal contrato internacional recente foi firmado em setembro de 2025 com a Air Traffic and Navigation Services (ATNS), estatal sul-africana de navegação aérea. O projeto substitui o sistema de gerenciamento de fluxo de tráfego aéreo (ATFM) do país, com instalação no centro de controle do Aeroporto Internacional O. R. Tambo, em Joanesburgo, além de centro de contingência, ambiente de treinamento, processamento de planos de voo, coordenação do uso do espaço aéreo e gestão do fluxo de aeronaves não tripuladas. A conclusão está prevista para o terceiro trimestre de 2027. O efeito já aparece no balanço: as contas a receber de clientes no exterior subiram de R$ 3,7 milhões para R$ 12,9 milhões, e a empresa atribui o aumento, entre outros fatores, ao contrato com a ATNS.
Em setembro de 2026, Persico confirmou à LRCA Defense Consulting que o contrato também abriu caminho para o desenvolvimento de recursos de Gestão da Informação Aeronáutica (AIM) e que a empresa estuda publicar um documento técnico sobre a solução. Na entrevista à Bloomberg Línea, o executivo disse ver na África oportunidades não apenas em tráfego aéreo, mas também em defesa e segurança.
Drones e a nova regra do espaço aéreo
A aposta mais visível da Atech é a plataforma de gerenciamento de tráfego de aeronaves não tripuladas (UTM), que reúne planejamento de missões, acompanhamento em tempo real, dados meteorológicos, resolução de conflitos e comunicações seguras. O desenvolvimento conta com subvenção da Finep, recurso não reembolsável, de R$ 5,18 milhões, formalizada em junho de 2025 e paga em duas parcelas ao longo de três anos; a primeira, de R$ 2,58 milhões, foi depositada em outubro de 2025. A empresa já havia levado o tema às ruas em Curitiba, escolhida em novembro de 2024 para sediar testes de entregas por drones em rotas além do alcance visual do piloto.
O ambiente regulatório ganhou forma neste ano. A ICA 100-48, que estabelece as regras de gerenciamento do tráfego aéreo não tripulado e cria o sistema brasileiro BR-UTM, foi aprovada pelo DECEA em março de 2026 e entrou em vigor em 1º de julho, junto com a nova edição da ICA 100-40. Para Persico, a expansão dos drones não tem volta, e eles podem se tornar o last mile das entregas; a oportunidade, segundo ele, está em gerir todo esse tráfego. No segmento de mobilidade aérea urbana, a Atech desenvolve com a Eve a plataforma Vector, voltada à gestão do tráfego de eVTOLs, cujo ritmo comercial dependerá da certificação dessas aeronaves.
Embora usem tecnologias aparentadas, UTM e sistemas antidrone (C-UAS) atendem a propósitos distintos: o primeiro organiza voos autorizados, enquanto o segundo detecta e neutraliza aeronaves hostis. A Atech atua nas duas frentes, combinando sensores e gestão de informações, e reforça a credencial em segurança digital como a única empresa brasileira a participar dos exercícios de ciberdefesa da OTAN.
Concorrência de peso
No início de outubro, durante o ICAO Air Navigation World 2026, em Montreal, a Atech apresentou uma plataforma ATFM modular, desenhada para implantação gradual por provedores de navegação aérea com orçamentos e infraestruturas diferentes. A empresa já tem sistemas de fluxo e de planos de voo operando na Índia, além de exportações para Paraguai, África do Sul e outros países latino-americanos, e instalou em Lisboa, junto à Embraer Defense Europe, seu primeiro escritório fora do País.
O mercado, porém, é disputado por grupos muito maiores. A francesa Thales fechou acordo para um novo sistema ATFM nos Emirados Árabes Unidos em novembro de 2025 e foi escolhida em julho de 2026 para modernizar o gerenciamento de tráfego aéreo de Singapura; a Metron Aviation, do grupo Airbus, já forneceu sua plataforma de gestão de fluxo ao mesmo país; e a espanhola Indra demonstrou em fevereiro de 2026, em Málaga, a integração entre controle de tráfego convencional e gestão de drones. Com cerca de 550 profissionais, a Atech disputa espaço com base em soluções escaláveis e na experiência acumulada com o DECEA, para o qual assinou quatro novos contratos de modernização em 2025.
O que decidirá a meta
O caminho até 2030 depende da conversão de oportunidades em contratos no exterior, da entrega do projeto sul-africano no prazo, do amadurecimento regulatório das operações com drones e da capacidade de recompor a receita hoje sustentada pelos grandes programas navais. A Atech chega a essa fase com caixa robusto, carteira em expansão e presença internacional em construção; o tamanho que pretende dobrar, no entanto, só poderá ser medido quando a empresa definir publicamente o indicador.
A Atech, empresa de tecnologia do Grupo Embraer, quer dobrar de tamanho até 2030 e conta com a exportação de sistemas de gerenciamento do espaço aéreo, inclusive para o tráfego de drones, para chegar lá. A meta foi apresentada pelo diretor-presidente Rodrigo Persico em entrevista à Bloomberg Línea publicada em 29 de outubro, na qual ele apontou Ásia, África e América Latina como regiões prioritárias. As demonstrações financeiras de 2025, porém, mostram que o motor atual da companhia está em outro lugar: quase dois terços da receita vieram de programas de Defesa no País, com peso destacado das Fragatas Classe Tamandaré.
Persico, engenheiro mecânico que comanda a Atech desde março de 2023, após mais de duas décadas no grupo, não vinculou a meta a um indicador específico (faturamento, quadro de pessoal ou carteira de contratos) nem divulgou investimentos associados. Sobre a fatia do exterior na receita, disse que ela dependerá da concretização de novos contratos e que a prioridade é construir uma carteira internacional consistente, sem fixar percentual. As próprias demonstrações registram que a presença da empresa ainda é predominante no mercado brasileiro.
Mais receita, menos margem
A receita líquida chegou a R$ 344,6 milhões em 2025, ante R$ 271,3 milhões em 2024, alta de 27%. No relatório da administração, a Atech informa crescimento de 75% nas vendas e de 25% na carteira de pedidos (backlog). A diferença entre os números tem explicação: as vendas medem contratos fechados no ano, que só viram receita à medida que os projetos avançam. Um indício desse fôlego futuro está no balanço, onde os valores faturados antes da execução (passivo de contrato) subiram de R$ 78,6 milhões para R$ 136,6 milhões, puxados pelas fragatas e pelo laboratório de geração nucleoelétrica da Marinha (Labgene).
O crescimento, contudo, custou rentabilidade. O lucro líquido recuou de R$ 73,9 milhões para R$ 70,6 milhões, e a margem líquida caiu de 27,2% para 20,5%. O custo dos serviços aumentou 36%, acima da receita, com destaque para os serviços contratados de terceiros, que quase dobraram (de R$ 33,4 milhões para R$ 62,3 milhões), os materiais aplicados nos projetos e a amortização de produtos desenvolvidos internamente, que saltou de R$ 1,9 milhão para R$ 11 milhões. A margem bruta passou de 32,6% para 27,6%.
Outros dois fatores pesaram. O câmbio, que havia rendido ganho de R$ 10,3 milhões em 2024, gerou perda de R$ 6,6 milhões em 2025; e a empresa constituiu provisão de R$ 6,9 milhões para serviços contratados. Com isso, o lucro antes dos impostos caiu 17%, para R$ 68,4 milhões. O resultado final só não foi pior por dois motivos: a participação de 12% no consórcio Águas Azuis, construtor das fragatas, rendeu R$ 14,2 milhões de equivalência patrimonial (ante R$ 5,8 milhões), e os incentivos fiscais à pesquisa e desenvolvimento, inclusive da Lei do Bem, transformaram o imposto de renda em crédito de R$ 2,2 milhões. A companhia encerrou o ano com R$ 266,5 milhões em caixa, sem dívida bancária, depois de pagar R$ 78 milhões em dividendos à controladora.
A Defesa paga as contas
A divisão da receita por área revela o peso militar do negócio. Defesa respondeu por R$ 221 milhões (64% do total), com alta de 34%; o gerenciamento de tráfego aéreo (ATM) somou R$ 121,4 milhões (35%), com avanço de 17%; e a área de soluções corporativas ficou com R$ 2,2 milhões. Só o consórcio Águas Azuis, formado por Embraer, Atech e a alemã TKMS, gerou R$ 83,5 milhões, cerca de um quarto da receita. Para as fragatas, a Atech fornece o sistema de gerenciamento da plataforma (IPMS) e o sistema de combate; os testes de aceitação em campo ocorreram em 2025, e o cronograma informado previa a entrega do primeiro navio no início de 2026.
A carteira militar inclui ainda os sistemas de instrumentação, controle e proteção do reator do Labgene, protótipo em terra da propulsão do submarino nuclear brasileiro, e o programa DACOM, com o Simulador de Operações Militares. Já a receita obtida com a Eve Air Mobility, empresa de mobilidade aérea do grupo, caiu de R$ 19,3 milhões para R$ 10,3 milhões. O quadro ajuda a entender a ênfase no exterior: grandes programas nacionais têm ciclos finitos, e a meta para 2030 pressupõe encontrar fontes de receita que ocupem o espaço deixado pela conclusão das entregas.
África do Sul como vitrine
O principal contrato internacional recente foi firmado em setembro de 2025 com a Air Traffic and Navigation Services (ATNS), estatal sul-africana de navegação aérea. O projeto substitui o sistema de gerenciamento de fluxo de tráfego aéreo (ATFM) do país, com instalação no centro de controle do Aeroporto Internacional O. R. Tambo, em Joanesburgo, além de centro de contingência, ambiente de treinamento, processamento de planos de voo, coordenação do uso do espaço aéreo e gestão do fluxo de aeronaves não tripuladas. A conclusão está prevista para o terceiro trimestre de 2027. O efeito já aparece no balanço: as contas a receber de clientes no exterior subiram de R$ 3,7 milhões para R$ 12,9 milhões, e a empresa atribui o aumento, entre outros fatores, ao contrato com a ATNS.
Em setembro de 2026, Persico confirmou à LRCA Defense Consulting que o contrato também abriu caminho para o desenvolvimento de recursos de Gestão da Informação Aeronáutica (AIM) e que a empresa estuda publicar um documento técnico sobre a solução. Na entrevista à Bloomberg Línea, o executivo disse ver na África oportunidades não apenas em tráfego aéreo, mas também em defesa e segurança.
Drones e a nova regra do espaço aéreo
A aposta mais visível da Atech é a plataforma de gerenciamento de tráfego de aeronaves não tripuladas (UTM), que reúne planejamento de missões, acompanhamento em tempo real, dados meteorológicos, resolução de conflitos e comunicações seguras. O desenvolvimento conta com subvenção da Finep, recurso não reembolsável, de R$ 5,18 milhões, formalizada em junho de 2025 e paga em duas parcelas ao longo de três anos; a primeira, de R$ 2,58 milhões, foi depositada em outubro de 2025. A empresa já havia levado o tema às ruas em Curitiba, escolhida em novembro de 2024 para sediar testes de entregas por drones em rotas além do alcance visual do piloto.
O ambiente regulatório ganhou forma neste ano. A ICA 100-48, que estabelece as regras de gerenciamento do tráfego aéreo não tripulado e cria o sistema brasileiro BR-UTM, foi aprovada pelo DECEA em março de 2026 e entrou em vigor em 1º de julho, junto com a nova edição da ICA 100-40. Para Persico, a expansão dos drones não tem volta, e eles podem se tornar o last mile das entregas; a oportunidade, segundo ele, está em gerir todo esse tráfego. No segmento de mobilidade aérea urbana, a Atech desenvolve com a Eve a plataforma Vector, voltada à gestão do tráfego de eVTOLs, cujo ritmo comercial dependerá da certificação dessas aeronaves.
Embora usem tecnologias aparentadas, UTM e sistemas antidrone (C-UAS) atendem a propósitos distintos: o primeiro organiza voos autorizados, enquanto o segundo detecta e neutraliza aeronaves hostis. A Atech atua nas duas frentes, combinando sensores e gestão de informações, e reforça a credencial em segurança digital como a única empresa brasileira a participar dos exercícios de ciberdefesa da OTAN.
Concorrência de peso
No início de outubro, durante o ICAO Air Navigation World 2026, em Montreal, a Atech apresentou uma plataforma ATFM modular, desenhada para implantação gradual por provedores de navegação aérea com orçamentos e infraestruturas diferentes. A empresa já tem sistemas de fluxo e de planos de voo operando na Índia, além de exportações para Paraguai, África do Sul e outros países latino-americanos, e instalou em Lisboa, junto à Embraer Defense Europe, seu primeiro escritório fora do País.
O mercado, porém, é disputado por grupos muito maiores. A francesa Thales fechou acordo para um novo sistema ATFM nos Emirados Árabes Unidos em novembro de 2025 e foi escolhida em julho de 2026 para modernizar o gerenciamento de tráfego aéreo de Singapura; a Metron Aviation, do grupo Airbus, já forneceu sua plataforma de gestão de fluxo ao mesmo país; e a espanhola Indra demonstrou em fevereiro de 2026, em Málaga, a integração entre controle de tráfego convencional e gestão de drones. Com cerca de 550 profissionais, a Atech disputa espaço com base em soluções escaláveis e na experiência acumulada com o DECEA, para o qual assinou quatro novos contratos de modernização em 2025.
O que decidirá a meta
O caminho até 2030 depende da conversão de oportunidades em contratos no exterior, da entrega do projeto sul-africano no prazo, do amadurecimento regulatório das operações com drones e da capacidade de recompor a receita hoje sustentada pelos grandes programas navais. A Atech chega a essa fase com caixa robusto, carteira em expansão e presença internacional em construção; o tamanho que pretende dobrar, no entanto, só poderá ser medido quando a empresa definir publicamente o indicador.
















