Visita de executivos da empresa brasileira ao Exército indonésio revela tentativa de preservar contratos milionários em meio à grave crise financeira
*LRCA Defense Consulting - 28/01/2026
A missão tem um contexto delicado: a Avibras atravessa sua terceira recuperação judicial desde 2022, acumula dívidas estimadas em R$ 1,5 bilhão e está paralisada há quase três anos. A empresa, que já foi referência mundial em sistemas de artilharia de saturação, agora luta por sua sobrevivência, e a Indonésia representa um dos últimos fios de esperança comercial.
Um cliente estratégico em jogo
A Indonésia é um dos principais clientes internacionais da Avibras. Entre 2012 e 2020, o país adquiriu 63 unidades do sistema ASTROS II Mk6, a versão mais moderna do lançador múltiplo de foguetes desenvolvido pela empresa brasileira. Os contratos, que somaram entre US$ 350 milhões e US$ 400 milhões, foram divididos em duas etapas: 36 unidades na primeira encomenda (2012) e 27 unidades entregues em junho de 2020.
Os sistemas ASTROS II operam ativamente no Exército indonésio, equipando batalhões de artilharia e sendo utilizados em exercícios militares regulares, como o realizado em agosto de 2025 em Java Central. A aquisição foi vista como estratégica para o fortalecimento da defesa em áreas sensíveis, como o disputado Mar de Natuna, onde as tensões geopolíticas com a China têm aumentado.
Porém, com a paralisação da Avibras desde setembro de 2022, surgem questões críticas: quem prestará manutenção e fornecerá peças de reposição para os sistemas já entregues? Quem treinará novos operadores? E, principalmente, haverá novos contratos?
Sami Youssef Hassuani: o arquiteto que retorna
A presença de Sami Youssef Hassuani na delegação é emblemática. Engenheiro com vasta experiência na indústria de defesa brasileira, Sami foi presidente da Avibras e da Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE). Apesar de não ocupar mais o cargo de CEO (que atualmente pertence a Fábio Guimarães Leite, nomeado em agosto de 2025), Sami retornou à empresa como assessor técnico da nova administração.
Fontes próximas à empresa revelam que Sami foi cotado para liderar a chamada 'Nova Avibras', nome dado ao projeto de reestruturação proposto pelo fundo Brasil Crédito, principal credor da companhia. Sua participação em reuniões com o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos em maio de 2025, quando ainda representava o Brasil Crédito, demonstra seu papel central nas negociações pela recuperação da empresa.
A visita à Indonésia, portanto, não é casual. Sami conhece profundamente o mercado indonésio, tendo participado das negociações que resultaram nas vendas milionárias do ASTROS II. Sua presença sinaliza uma tentativa de tranquilizar o cliente sobre a continuidade do suporte técnico e, possivelmente, abrir caminho para novos negócios.
PT Poris Duta Sarana: o elo indonésio
A PT Poris Duta Sarana, empresa indonésia que acompanhou a delegação, adiciona outra camada à narrativa. Com sede em Jacarta e atuação em diversos setores, incluindo fornecimento de materiais técnicos e serviços de importação, a Poris possui histórico no setor de defesa indonésio, embora detalhes específicos de sua participação em contratos militares sejam escassos.
Registros de importação indicam envolvimento da empresa com materiais de alta performance, como primers epóxi industriais. Curiosamente, a PT Poris Duta Sarana também possui registro no Brasil desde abril de 2022, com atividade declarada no comércio varejista de móveis, um contraste com suas operações mais técnicas na Indonésia.
A participação da Poris sugere que pode estar atuando como intermediária local, facilitando negociações entre a Avibras e o Exército indonésio, um papel comum em contratos de defesa internacionais, onde empresas locais auxiliam fabricantes estrangeiros a navegar pelas complexidades burocráticas e regulatórias.
O que está em jogo?
A visita ao Pussenarmed pode ter múltiplos objetivos. O primeiro e mais óbvio é a manutenção dos sistemas já entregues. Com a Avibras paralisada, o Exército indonésio enfrenta o risco de ficar sem suporte técnico para suas 63 unidades do ASTROS II, um problema grave para equipamentos militares complexos que exigem manutenção regular, peças de reposição e treinamento contínuo de operadores.
Um segundo objetivo provável é tranquilizar o cliente sobre a capacidade da Avibras de retomar operações. A nova administração, liderada por Fábio Guimarães Leite desde agosto de 2025, anunciou planos para retomar gradualmente as atividades, começando com setores administrativos e de engenharia. Em setembro de 2025, a empresa informou estar em processo de reestruturação, com diligências, auditorias e manutenção das instalações industriais em andamento.
Mas há também a possibilidade de negociações para novos contratos. A Indonésia vem modernizando suas Forças Armadas e o ASTROS II provou ser eficaz em exercícios de artilharia. Contratos adicionais para munições, upgrades tecnológicos ou até mesmo novas baterias do sistema poderiam representar uma injeção crucial de recursos para a Avibras.
Documentos da nova gestão indicam que a empresa já retomou visitas e reuniões técnicas com os principais clientes, incluindo prospecções no Oriente Médio e avanços em negociações com o Exército Brasileiro. A Indonésia, portanto, faz parte de uma estratégia mais ampla de reativação comercial.
A crise da Avibras: um contexto sombrio
A Avibras, fundada em 1961 e uma das poucas empresas brasileiras com capacidade de desenvolver sistemas complexos de artilharia, vive sua pior crise. Após entrar em recuperação judicial pela terceira vez em março de 2022, a empresa acumula dívidas estimadas em R$ 1,5 bilhão, incluindo cerca de R$ 200 milhões com o governo federal.
Os aproximadamente 900 trabalhadores estão em greve desde setembro de 2022, com 28 meses de salários atrasados. A fábrica em Jacareí (SP) permanece paralisada, com instalações e equipamentos em risco de obsolescência. Vários planos de venda falharam: uma tentativa com a australiana DefendTex em 2024 não se concretizou; negociações com a chinesa Norinco também não avançaram; e, mais recentemente, conversas com a saudita Black Storm Military Industries permanecem em andamento, mas sem conclusão.
Em agosto de 2025, houve uma mudança significativa: Fábio Guimarães Leite, através da empresa Vita Gestão e Investimentos, tornou-se acionista majoritário com 99% das ações, após a saída do ex-proprietário João Brasil Carvalho Leite. Um plano alternativo de recuperação judicial foi aprovado pelos credores em maio de 2025, mas sua homologação ainda enfrenta recursos legais do Banco Fibra e da União.
Em março de 2025, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional chegou a pedir a conversão da recuperação judicial em falência, devido ao não cumprimento de parcelas de refinanciamento de dívidas tributárias. A situação permanece crítica, com a Avibras dependendo de acordos com credores, governo e trabalhadores para viabilizar sua reestruturação.
A Avibras informou hoje (28) ao Sindicato dos Metalúrgicos de SJC que pretende retomar atividades da fábrica em 16 de março, desde que seja fechado o acordo de pagamento das dívidas trabalhistas e resolvida a pendência da recuperação judicial no TJ-SP.
Implicações estratégicas
A visita à Indonésia transcende o aspecto comercial imediato. Ela representa uma tentativa de preservar um dos últimos ativos valiosos da Avibras: sua reputação internacional e sua base de clientes consolidada. Perder o mercado indonésio não significaria apenas a perda de receita, mas também o fim da credibilidade da empresa no mercado global de defesa.
Para a Indonésia, a situação também é delicada. Depender de um fornecedor em crise para manter sistemas de defesa estratégicos é um risco. O país pode ser forçado a buscar alternativas, como a transferência de tecnologia para produção local ou a aquisição de novos sistemas de outros fabricantes, como o sul-coreano K239 Chunmoo ou o israelense PULS.
Do ponto de vista brasileiro, a crise da Avibras é um sinal alarmante sobre a fragilidade da base industrial de defesa nacional. A empresa é certificada como Empresa Estratégica de Defesa (EED) e domina tecnologias críticas de propulsão, integração de sistemas e fabricação de veículos militares. Sua falência representaria não apenas a perda de empregos qualificados, mas também de capacidades tecnológicas que levaram décadas para serem desenvolvidas.
Perspectivas e incertezas
A visita ao Pussenarmed é, em muitos aspectos, um teste para a 'Nova Avibras'. Se a empresa conseguir demonstrar capacidade de retomar o suporte aos sistemas indonésios e, idealmente, fechar novos contratos, isso poderia catalisar sua recuperação. Contratos internacionais trariam não apenas recursos financeiros, mas também credibilidade junto a credores e ao governo brasileiro.
Por outro lado, o fracasso em manter essa relação comercial poderia acelerar o declínio da empresa. Clientes internacionais tendem a ser avessos a riscos quando se trata de equipamentos militares críticos. Uma vez perdida a confiança, é extremamente difícil recuperá-la.
A escolha de Sami Youssef Hassuani para liderar a delegação é estratégica. Sua experiência, reputação no mercado internacional e conhecimento profundo dos sistemas ASTROS II fazem dele o emissário ideal. Mas mesmo o melhor diplomata corporativo não pode compensar indefinidamente a falta de capacidade operacional.
A Avibras precisará demonstrar resultados concretos: retomada da produção, solução das dívidas trabalhistas, regularização tributária e, crucialmente, capacidade de entregar suporte técnico e novos equipamentos. Promessas não serão suficientes.
Missão de sobrevivência
A visita ao Centro de Armamento de Artilharia de Campanha do Exército Indonésio representa muito mais do que um encontro diplomático de rotina. É uma missão de sobrevivência. Para a Avibras, manter viva sua relação com a Indonésia pode ser a diferença entre uma recuperação bem-sucedida e o fim definitivo de uma das mais importantes empresas de defesa brasileiras.
Para a Indonésia, é uma questão de garantir que seus investimentos milionários em sistemas ASTROS II não se transformem em equipamentos obsoletos por falta de suporte. E para o Brasil, é mais um capítulo doloroso na saga de uma indústria de defesa que luta para manter relevância internacional enquanto enfrenta crises internas profundas.
O desfecho dessa história ainda está sendo escrito. Mas uma coisa é certa: os próximos meses serão decisivos para determinar se a Avibras terá uma segunda chance ou se tornará apenas mais um caso de estudo sobre a fragilidade da base industrial de defesa em países em desenvolvimento.














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