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24 janeiro, 2026

Portugal recebe quarto KC-390 e consolida papel de hub europeu da aeronave

 Entrega antecipada marca novo capítulo na aviação militar portuguesa


*LRCA Defense Consulting - 24/01/2026

A Força Aérea Portuguesa (FAP) recebeu ontem seu quarto KC-390 Millennium, numa entrega que representa um marco histórico: pela primeira vez, Portugal dispõe de capacidade própria de reabastecimento aéreo. A aeronave, equipada com o kit opcional de reabastecimento REVO (roll on/off), aterrizou às 10h na Base Aérea n.º 11 em Beja, após uma travessia transatlântica sem escalas de oito horas desde o Brasil.

A entrega, realizada dois meses antes do prazo contratual, demonstra o compromisso da Embraer em superar expectativas. A cerimônia de transferência ocorreu nas instalações da fabricante em Gavião Peixoto, com presença de comitiva portuguesa liderada pelo Major-General João Nogueira, diretor do programa KC-390.

Capacidade inédita de reabastecimento aéreo
O kit REVO transforma o C-390 numa aeronave tanque (KC-390) através de tanques de combustível modulares instalados na fuselagem e pods sob as asas. A solução de rápida instalação permite configurar qualquer aeronave da frota portuguesa como reabastecedor conforme as necessidades operacionais, expandindo significativamente o alcance e autonomia das missões.

"A entrega do kit de reabastecimento aéreo assinala um marco histórico para a Força Aérea, que passa a dispor, pela primeira vez, da capacidade de reabastecimento em voo", destacou a FAP em comunicado oficial. Esta nova capacidade reforçará sobretudo a projeção de Portugal em missões conjuntas no âmbito da OTAN e de países aliados.

Portugal: porta de entrada do KC-390 na Europa
A importância estratégica de Portugal no programa KC-390 vai muito além da operação das aeronaves. O país assumiu um papel central na divulgação e comercialização da plataforma junto a parceiros europeus e africanos, gerando retornos financeiros significativos para o Estado.

Segundo o ministro da Defesa, Nuno Melo, cada aeronave KC-390 vendida a países aliados através de Portugal gera um lucro superior a 11 milhões de euros. Em setembro de 2025, o governante anunciou a compra de uma sexta aeronave e a reserva de dez opções adicionais destinadas a países da OTAN.

A Suécia foi o primeiro país europeu a aderir ao "Clube KC-390", adquirindo quatro aeronaves em abril de 2025, numa operação que renderá cerca de 45 milhões de euros a Portugal. Durante visita à Base Aérea de Beja, o ministro sueco da Defesa, Pål Jonson, destacou a crescente parceria estratégica entre os dois países no setor de defesa.

 

Centro Europeu de Formação em Beja
Portugal sediará o único centro europeu de formação de pilotos do KC-390, instalado na Base Aérea n.º 11. Esta infraestrutura representa não apenas uma fonte de receita adicional através do treino de tripulações internacionais, mas também um instrumento de coesão territorial, atraindo recursos técnicos e humanos qualificados para o interior do país.

"A Força Aérea, com este investimento, acaba por ser um instrumento de coesão territorial", sustentou Nuno Melo, destacando o impacto do programa para além da esfera militar.

Participação portuguesa no desenvolvimento
O KC-390 possui componentes produzidos em solo nacional nas antigas instalações da Embraer em Évora e nas OGMA em Alverca do Ribatejo. A concepção da aeronave envolveu 650 mil horas de trabalho da engenharia portuguesa, desenvolvidas pelo CEiiA.

As modificações para adequação aos padrões OTAN, ONU e União Europeia foram realizadas em Portugal, incluindo sistemas seguros de comunicação, navegação e conhecimento situacional. A certificação pela Autoridade Aeronáutica Nacional portuguesa abriu caminho para que outros países europeus adquiram as aeronaves já configuradas para os requisitos das principais alianças internacionais.

Reação das autoridades portuguesas
O General João Cartaxo Alves, Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, classificou o programa como "o maior de Defesa até hoje, quer em termos financeiros, de ambição, quer em termos de futuro". Em cerimônia de certificação em outubro de 2024, destacou que "a prontidão com que atuamos e todos os sistemas de modernização permitiram que a aeronave adoçasse o apetite dos nossos parceiros pela Europa".

Nuno Melo tem enfatizado consistentemente que o investimento em defesa não compete com o Estado social, citando o KC-390 como exemplo de retorno econômico. "É bom que os portugueses percebam que, quando às vezes ouvem aquela conversa de ou é o avião, ou é o hospital, ou é o quartel, isso é tudo conversa. Porque um país decente tem de tudo", afirmou o ministro em setembro de 2025.

Cobertura da mídia portuguesa
A mídia portuguesa tem dado destaque ao programa KC-390, reconhecendo sua importância estratégica e econômica. A CNN Portugal descreveu a chegada do quarto avião como um "brinquedo novo" que permite à FAP fazer algo inédito em sua história. O Poder Aéreo ressaltou que a Esquadra 506 – "Rinocerontes" passa a ter capacidade de reabastecimento pela primeira vez.

Veículos de comunicação regionais, como a Rádio Elvas e o Diário de Aveiro, destacaram o feito técnico da travessia transatlântica sem escalas e o impacto para a Base Aérea de Beja. O Público e o Correio da Manhã focaram na dimensão econômica do programa e nas parcerias estratégicas com países europeus.

Perspectivas futuras
Com quatro KC-390 em operação e mais dois a caminho, Portugal consolida-se como operador de referência da plataforma na Europa. A frota, operada pela Esquadra 506 sediada em Beja, já acumulou centenas de horas de voo em missões que vão desde transporte estratégico até evacuações médicas.

O papel de Portugal como intermediário nas vendas para países OTAN e como centro de formação europeu posiciona o país como peça-chave na expansão do KC-390 no continente. A estratégia portuguesa de aliar capacidade operacional, participação industrial e intermediação comercial cria um modelo único de cooperação internacional no setor de defesa.

A versatilidade do KC-390, capaz de executar desde combate a incêndios até reabastecimento aéreo, e seu alcance intercontinental fazem da aeronave uma solução multimissão ideal para as necessidades da OTAN num cenário geopolítico cada vez mais complexo.

A Guerra Informacional do Século XXI

Estudo propõe modelo estratégico para enfrentar batalhas narrativas na era digital, em contribuição significativa para a doutrina militar brasileira


*LRCA Defense Consulting - 24/01/2026

Em um mundo onde a informação circula instantaneamente por plataformas digitais e a inteligência artificial molda percepções, as Forças Armadas enfrentam um novo campo de batalha: a dimensão informacional. É nesse contexto que o tenente-coronel do Exército Brasileiro Luiz Eduardo Maciel Lopes e a professora doutora Karenine Miracully Rocha da Cunha apresentam uma contribuição significativa para a doutrina militar brasileira.

O desafio da "Névoa de Conceitos"
O estudo publicado no livro "CEP 60: a Dimensão Humana do Exército Brasileiro" aborda um problema crucial: a falta de padronização conceitual entre as diferentes forças militares brasileiras quando se trata de operações informacionais. Como observa o pesquisador Walker, citado pelos autores, "cada componente das Forças Armadas (Marinha, Exército e Aeronáutica) acaba conformando uma maneira própria lexical de se relacionar com as Operações de Informação".

Essa fragmentação conceitual é especialmente problemática na era da "plataformização" — termo que descreve o domínio crescente das plataformas online em praticamente todas as esferas da vida, do comércio à educação, passando pela comunicação e até pela guerra.

Comunicação estratégica: além dos quartéis
Os autores partem de dois conceitos centrais adotados pelo Exército Brasileiro: Comunicação Estratégica e Manobra Informacional. Enquanto a primeira é relativamente bem definida ("esforços deliberados para atuar sobre os públicos designados para criar, fortalecer ou preservar condições favoráveis ao avanço dos interesses, políticas e objetivos da nação"), a segunda permanecia nebulosa na doutrina militar.

Inspirados pelo modelo norte-americano de "Communication Synchronization", Lopes e Cunha propõem uma estrutura hierárquica que organiza a comunicação em três níveis: narrativa (a visão global do contexto), temas (ideias convergentes que apoiam a narrativa) e mensagens (comunicações específicas para públicos determinados).

O Modelo Tripla Hélice: quando a psicanálise encontra a estratégia militar
A contribuição mais inovadora do trabalho é o "Modelo Tripla Hélice", desenvolvido por Lopes e reconhecido como "trabalho útil" pelo Exército Brasileiro. Inspirado surpreendentemente na psicanálise lacaniana, especificamente no conceito de nó borromeano (que representa os registros do real, simbólico e imaginário), o modelo propõe uma representação visual das três dimensões do ambiente operacional: física, informacional e humana.

"A representação das condições do ambiente operacional em suas três dimensões possibilitaria uma atuação coordenada de capacidades para criar novas condições de organização para os sujeitos componentes da população", explicam os autores.

Propaganda na era digital: desafios éticos e operacionais
Um dos aspectos mais controversos do estudo é a discussão sobre propaganda cinza (sem autoria clara) e propaganda negra (com autoria falsa). Os autores reconhecem que tecnologias como deepfakes e ferramentas de inteligência artificial colocaram a produção dessas propagandas "ao alcance de qualquer indivíduo".

O trabalho não defende ou condena essas práticas, mas propõe um "passo a passo" teórico para seu emprego, caso sejam decididas pelos comandantes militares, sempre enfatizando a necessidade de "minucioso estudo de situação, tendo em vista os riscos que elas ensejam".

Relevância para o mundo atual
Em 2026, com conflitos híbridos multiplicando-se globalmente e campanhas de desinformação influenciando desde eleições até percepções sobre guerras, o trabalho de Lopes e Cunha ganha especial relevância. O estudo cita como exemplo contundente a explosão coordenada de dispositivos eletrônicos do Hezbollah em setembro de 2024, demonstrando como operações podem simultaneamente atingir as dimensões física, lógica e cognitiva.

A pesquisa não apenas contribui para a doutrina militar brasileira, mas também oferece ferramentas conceituais para compreender como estados e organizações disputam narrativas e percepções em um ambiente onde, como enfatizam os autores citando Kunsch, "as organizações precisam planejar a comunicação em uma perspectiva global".

Uma definição para Manobra Informacional
Como conclusão, os autores propõem uma definição inédita: Manobra Informacional seria "um conjunto de ações assinadas, subordinadas à Comunicação Estratégica, e não assinadas, cujos efeitos devem ser coordenados e sincronizados com a manobra física, voltados para fazer fluir para dentro de um ambiente operacional as construções de capacidades produtoras de linguagens".

Em outras palavras: na guerra moderna, tão importante quanto movimentar tropas é movimentar narrativas, percepções e informações de forma coordenada, estratégica e, quando necessário, invisível.


Sobre os autores:
- Luiz Eduardo Maciel Lopes é tenente-coronel do Exército Brasileiro, comandante do 8º Regimento de Cavalaria Mecanizado, com formação multidisciplinar que inclui Letras, Psicologia Comportamental e Comunicação Social.

- Karenine Miracully Rocha da Cunha é doutora em Ciências da Comunicação pela USP e professora do Centro de Estudos de Pessoal e Forte Duque de Caxias.

Este artigo baseia-se no capítulo "Força 40: Comunicação Estratégica e Manobra Informacional à Luz do Modelo Tripla Hélice", publicado em obra coletiva sobre a Dimensão Humana do Exército Brasileiro.

 

 

23 janeiro, 2026

Do quartel ao mercado de trabalho: as vantagens de alistar quem serviu à Pátria

Milhares de militares deixam as Forças Armadas anualmente, levando consigo um sólido período de formação. Mas o que encontram do outro lado do portão das armas?


*LRCA Defense Consulting - 23/01/2026

Neste mês de janeiro, para diversas organizações militares, acontece o licenciamento de um grande contingente de soldados incorporados no ano passado (Grupamento A). Para quem observa de fora, pode parecer apenas uma data administrativa. Para os militares que atravessam o portão das armas pela última vez, representa o início de uma das maiores transições da vida.

Durante um longo período, esses profissionais foram moldados em valores como disciplina, liderança, adaptabilidade, espírito de corpo e cumprimento da missão. Acordaram antes do sol, enfrentaram desafios que testaram seus limites físicos e psicológicos, e aprenderam que a missão vem sempre em primeiro lugar. Agora, deixam a farda e entram em um mundo corporativo que, muitas vezes, não está preparado para recebê-los.

"A transição não é o fim da missão. É só a mudança de uniforme."

A questão que se impõe é incômoda, mas necessária: quem estará esperando por eles? Empresas preparadas para acolher? Departamentos de Recursos Humanos capacitados para traduzir competências militares em habilidades corporativas? Gestores dispostos a enxergar potencial além do "currículo tradicional"?

Ou será indiferença, portas fechadas e a frase devastadora que muitos veteranos ouvem: "Você não tem experiência no mercado"?

O paradoxo do desperdício de talentos
O Brasil investe recursos significativos na formação desses profissionais. Escolas militares, cursos de especialização, treinamentos táticos e operacionais, desenvolvimento de liderança. Tudo isso constrói um perfil profissional único, com competências raras no mercado civil: capacidade de tomar decisões sob pressão, trabalho em equipe em situações extremas, comprometimento ético e responsabilidade absoluta.

Desperdiçar esse capital humano não faz sentido do ponto de vista empresarial, social ou econômico. Enquanto empresas investem milhões em programas de desenvolvimento de liderança, existe um contingente de profissionais já formados, testados e aprovados nas condições mais adversas possíveis.

"Ninguém deve servir à Pátria e cair na vala comum", alerta o movimento que defende a valorização de veteranos militares.

Uma ponte entre dois mundos
Reconhecendo essa lacuna, surgiu a plataforma Ache um Veterano, uma iniciativa que se propõe a ser justamente essa ponte entre o universo militar e o corporativo. Diferente de consultorias de recrutamento tradicionais, a plataforma se especializa em traduzir carreiras militares para o mercado civil.

O projeto opera com uma metodologia específica: mapeamento de patentes e funções militares para cargos civis, triagem pré-qualificada de candidatos, treinamentos sob demanda e um sistema de acompanhamento que inclui um "padrinho" para garantir a adaptação do veterano na nova função.

Como funciona a plataforma

  • Cadastro gratuito para empresas
  • Publicação de vagas com triagem especializada
  • Perfis pré-selecionados alinhados à cultura da empresa
  • Sistema de success fee (pagamento apenas por contratação efetivada)
  • Acompanhamento contínuo com indicadores de performance
  • Suporte regional por veteranos licenciados

A proposta é clara: reduzir o risco na contratação e aumentar a previsibilidade de resultados. Segundo a plataforma, veteranos militares tendem a apresentar menor turnover e performance desde o primeiro dia, justamente pelas características desenvolvidas durante a carreira nas Forças Armadas.

Além do benefício individual
A contratação de veteranos militares não representa apenas uma oportunidade para as empresas encontrarem profissionais qualificados. Trata-se também de impacto social mensurável e fortalecimento da reputação como marca empregadora.

Empresas que adotam programas estruturados de contratação de veteranos demonstram responsabilidade social e reconhecimento pelo serviço prestado ao País. É uma forma de a sociedade civil retribuir, ainda que parcialmente, a dedicação de quem serviu.

Mais do que isso, é aproveitar um potencial que já foi desenvolvido com recursos públicos. É criar um ciclo virtuoso onde o investimento na formação militar se traduz em ganhos para a economia e a sociedade como um todo.

"Menos risco na contratação. Mais previsibilidade no resultado."

O desafio da tradução cultural
Um dos maiores obstáculos na transição militar-civil é justamente a tradução de competências. Quando um sargento coordena uma operação logística complexa, está exercendo habilidades de gestão de projetos, liderança de equipes e resolução de problemas. Quando um oficial planeja missões estratégicas, está desenvolvendo pensamento analítico, visão sistêmica e capacidade de antecipação de cenários.

Mas essas competências raramente aparecem traduzidas em um currículo da forma que o RH tradicional está acostumado a ler. Daí a importância de intermediários especializados que compreendem ambos os universos e conseguem fazer essa ponte de forma efetiva.

A própria linguagem militar precisa ser decodificada. Termos como "cumprimento da missão", "espírito de corpo" e "hierarquia e disciplina" carregam significados profundos que se traduzem em comportamentos corporativos valiosos: foco em resultados, trabalho em equipe e respeito a processos.

O momento é agora
Com a primeira baixa de 2025 acontecendo, o tema volta ao centro das atenções. Milhares de militares estão, neste exato momento, iniciando suas transições. Nos próximos meses, outros seguirão o mesmo caminho.

A pergunta permanece: o mercado está pronto para recebê-los? As empresas brasileiras vão desperdiçar esse talento ou vão reconhecer o valor de quem já provou sua capacidade de superar desafios?

A resposta não depende apenas de boa vontade. Depende de estruturas concretas, de processos especializados, de disposição real para entender que experiência de mercado não é o único indicador de competência profissional.

Para os veteranos que deixam o quartel agora, a missão não termina. Ela apenas muda de cenário. E cabe à sociedade civil garantir que esses profissionais encontrem, do outro lado do portão, não a indiferença, mas oportunidades dignas de quem dedicou um longo período servindo ao País.

 

*Nota da Redação: esta editoria não possui qualquer vínculo comercial, institucional ou de parceria com a plataforma Ache um Veterano ou com a empresa Divisão mencionadas nesta reportagem. A publicação tem caráter exclusivamente informativo, com o objetivo de contribuir para a conscientização sobre a importância da recolocação de ex-militares no mercado de trabalho e valorização dos profissionais que serviram às Forças Armadas. A citação da plataforma se deu em razão de sua relevância temática para a pauta abordada. 

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