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06 junho, 2026

O obuseiro na estante: o Exército escolheu, o governo não assina e a defesa segue precaríssima

Vencedor de licitação bilionária do Exército, o obuseiro autopropulsado da Elbit Systems segue sem contrato assinado. A Ares, subsidiária brasileira da empresa israelense, exibe uma maquete do sistema em suas instalações. Do lado de fora, o mundo está em guerra e o alto comando brasileiro reconhece: o país não tem defesa compatível com o que seria necessário

Maquete do obuseiro ATMOS na sede da Ares, já com a designação do EB: VBCOAP 155 mm SR (crédito: @Defence360 no X
)


*LRCA Defense Consulting - 06/06/2026

Nas instalações da Ares Aeroespacial e Defesa, no Rio de Janeiro, uma maquete do obuseiro ATMOS ocupa um lugar de destaque. O detalhe resume bem a situação do programa: a subsidiária brasileira da Elbit Systems está pronta para cumprir sua parte, os contratos de suporte logístico e transferência de tecnologia já foram desenhados, a licitação foi concluída, o Exército escolheu o vencedor. Falta apenas a assinatura.

Mais de dois anos após o início do processo formal de seleção e mais de um ano após a declaração de vencedor, o Exército Brasileiro ainda não contratou os 36 obuseiros autopropulsados de 155 mm sobre rodas (VBCOAP 155 mm SR) que o Programa Estratégico Forças Blindadas aguarda desde os primeiros estudos, iniciados em 2017. O motivo não é técnico. Não é jurídico. É político.

Um vencedor sem contrato
Em 29 de abril de 2024, o Comando Logístico do Exército (COLOG) divulgou o resultado do processo licitatório internacional RFP/RFT COLOG nº 01/2023, aberto em agosto de 2023. A vencedora foi a Elbit Systems Land Ltd, com o ATMOS 155 mm/52 calibres montado em chassi Tatra T-815 6×6. A empresa israelense superou três concorrentes: a tcheca Excalibur International (com o Zuzana 2, em segundo lugar), a francesa KNDS (CAESAR, em terceiro) e a chinesa Norinco (SH-15, em quarto). O sistema israelense atendeu a todos os requisitos absolutos estabelecidos pelo Exército e foi avaliado em quatro dimensões: técnica, comercial, suporte logístico integrado e offset.

A cerimônia de assinatura do contrato inicial, que previa a entrega de um lote de amostra com dois exemplares, estava marcada para 7 de maio de 2024. Não ocorreu. O Exército suspendeu o ato por 60 dias, alegando necessidade de revisão jurídica. Nos bastidores, a razão era outra: o conflito em Gaza e a resistência política de parte do governo Lula à formalização de um contrato bilionário com empresa israelense.

O presidente Lula, pressionado por parlamentares do PT, PDT, PSOL e PCdoB pela anulação de todos os contratos de defesa com Israel, acabou dando aval à compra. O argumento do Exército era objetivo: o ATMOS era a melhor proposta técnica e a mais vantajosa para o país em razão da transferência de tecnologia e da criação de empregos. Mas o contrato continuou suspenso. Em outubro de 2024, o ministro da Defesa, José Múcio, foi explícito ao admitir publicamente que o programa estava parado por questões ideológicas, citando a influência do assessor especial Celso Amorim.

Em dezembro de 2024, o Tribunal de Contas da União (TCU) rejeitou a medida cautelar interposta pela KNDS, que pedia a reavaliação do resultado. A decisão do TCU eliminou o último obstáculo formal. Mesmo assim, no início de 2026, o status do programa era descrito por analistas setoriais como o de um "adiamento não anunciado", sem data para assinatura do contrato.

A ToT que está na mesa 
A proposta da Elbit Systems não era apenas a venda de 36 viaturas. Incluía um conjunto estruturado de contrapartidas industriais que, se concretizadas, posicionariam o Brasil como fornecedor global de munições de 155 mm. São três frentes principais.

A primeira envolve a Indústria Brasileira de Material Bélico (IMBEL). A Elbit assinou um memorando de entendimento com a IMBEL para investimentos na Fábrica de Juiz de Fora, com o objetivo de ampliar a capacidade de produção de granadas e cargas de 155 mm e habilitar a fabricação de modelos mais modernos. Hoje, a IMBEL produz apenas a granada M107 de alto explosivo, modelo básico e sem certificação Otan, o que limita severamente seu potencial de exportação.

A segunda frente envolve a empresa brasileira CSD (Componentes e Sistemas de Defesa). A intenção declarada pela Elbit é transformar a CSD na principal fornecedora de munições para todos os sistemas ATMOS e SOLTAN em operação no mundo, incluindo munições de alcance estendido e guiadas. O projeto destacaria o Brasil como exportador de munições de artilharia de alta tecnologia para o mercado internacional.

A terceira frente é a montagem nacional. A proposta negociada com o Ministério da Defesa previa que 34 dos 36 obuseiros seriam integrados e montados no Brasil, utilizando as competências da AEL Sistemas (Porto Alegre) e da Ares Aeroespacial e Defesa (Rio de Janeiro), ambas subsidiárias brasileiras da Elbit. Os dois primeiros exemplares, do lote de amostra, seriam produzidos integralmente em Israel e enviados para avaliações técnica e operacional no Centro de Avaliações do Exército (CAEx).

O diretor comercial da Ares, Frederico Medella, confirmou que a empresa "possui vasta experiência na execução de contratos de suporte logístico e ToT com o Exército Brasileiro". A Ares tem histórico comprovado nessa modalidade, incluindo o contrato de US$ 100 milhões firmado em 2017 para o fornecimento de estações de armas remotamente controladas às Forças Armadas.

O offset formal, avaliado como critério classificatório na licitação, contemplava ainda o desenvolvimento de um simulador de treinamento de baixo custo, aproveitando a experiência da Ares na área. Somados, os elementos da proposta configuravam uma das transferências de tecnologia mais abrangentes já oferecidas ao Exército Brasileiro em um programa de artilharia. 

Obuseiro israelense ATMOS 2000 - vencedor da licitação do Exército Brasileiro

"Nós não temos defesa" 
O impasse em torno do ATMOS ocorre em paralelo a um debate cada vez mais urgente sobre a capacidade de defesa do Brasil. No último dia do Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre (SSNTFT 2026), realizado em Brasília em 27 de maio de 2026, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, fez uma declaração que rompeu com décadas de discurso oficial. "No passado, não tínhamos nenhuma ameaça na América do Sul. Hoje temos uma percepção de ameaça, incluindo nossa atuação constitucional e legal de auxiliar os Poderes da República na faixa de fronteira, que é uma preocupação enorme, muito vasta. Temos que estar olhando para ela", afirmou.

A declaração, feita diante do Alto Comando e de representantes da Base Industrial de Defesa (BID), reconhece oficialmente uma mudança estratégica no entorno regional. O general não especificou as fontes da ameaça, mas o contexto é conhecido: a crise venezuelana, a disputa por Essequibo, a presença crescente de crime organizado transnacional na faixa de fronteira e a instabilidade política em países vizinhos.

Poucos dias antes, em encontro reservado com representantes da BID em Brasília, o ministro da Defesa, José Múcio, havia feito um diagnóstico ainda mais contundente. "A Defesa é precaríssima. A Defesa brasileira é incompatível com o tamanho e as potencialidades do Brasil. Nós não temos defesa. Muita gente pensa que nós temos como nos defender; nós não temos", declarou o ministro, segundo reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo. Múcio citou como exemplo a mobilização militar realizada quando a Venezuela ameaçou avançar sobre a região de Essequibo, território disputado com a Guiana, e reforçou a necessidade de elevar os investimentos em Defesa para pelo menos 2% do PIB, contra pouco mais de 1% hoje.

O mesmo ministro que reconhece publicamente a fragilidade da defesa brasileira é o responsável por viabilizar, no plano político, a assinatura do contrato do ATMOS. A contradição não passou despercebida no setor.

Um mundo armado, um calendário que escapa 
O contexto internacional que cerca o impasse é o mais desfavorável possível para o adiamento de decisões de defesa. A guerra na Ucrânia demonstrou que o apoio de fogo de artilharia continua sendo o eixo central do combate terrestre de alta intensidade e que a autonomia industrial em munições é condição de sobrevivência operacional. O conflito no Oriente Médio, a tensão entre Estados Unidos e Irã e o rearmamento acelerado de potências médias e grandes reforçam a percepção, expressa pelo próprio ministro Múcio, de que "todo mundo está armado".

O ATMOS, ironicamente, é um produto com histórico de combate exatamente nessas regiões. Utilizado em operações no Oriente Médio, o sistema acumula registros operacionais que orientaram parte dos requisitos técnicos fixados pelo Exército Brasileiro. A escolha pelo chassi Tatra T-815 6×6, o mesmo utilizado pelo sistema de foguetes ASTROS II MK nas versões mais recentes, foi um elemento adicional de padronização logística que pesou na avaliação.

O cronograma original previa a entrega dos dois exemplares do lote de amostra no segundo trimestre de 2025, a partir da assinatura do contrato inicial ainda em 2024. Aprovados os exemplares, o COLOG assinaria o contrato principal para as 34 unidades restantes, com entregas anuais até 2034. Cada mês de atraso comprime esse horizonte e encarece o programa.

Do lado da Ares, a maquete na parede continua esperando. A subsidiária brasileira da Elbit é o elo local de uma cadeia que, para ganhar vida, depende de uma decisão que está menos no plano técnico do que no plano da vontade política.

O que está em jogo além do obuseiro 
O atraso no ATMOS não é um caso isolado. Insere-se num padrão mais amplo de programas estratégicos do Exército que dependem de importação e que encontram resistências de diferentes origens. O contingenciamento de R$ 4,363 bilhões no orçamento do Ministério da Defesa, o maior corte nominal entre os ministérios no exercício de 2025, colocou em risco simultâneo o submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto, as fragatas Classe Tamandaré, os caças Gripen NG da FAB, as aeronaves KC-390 e os programas de sistemas terrestres.

No setor de munições, o quadro é sintomático: em janeiro de 2025, o Exército Brasileiro emitiu, por meio de sua comissão em Washington, um pedido de informações (RFI-0159/2025) para a aquisição de munições de 105 mm e 155 mm no exterior. O país que quer ser exportador de granadas de alcance estendido ainda busca no mercado internacional as munições básicas para operar seus obuseiros existentes.

Para a BID brasileira, a equação é conhecida: sem contratos, não há escala; sem escala, não há transferência de tecnologia que se sustente. A ToT prevista no contrato do ATMOS, que incluiria a modernização da IMBEL e a transformação da CSD em fornecedora global, só se materializa se o contrato existir. Enquanto a maquete fica na parede da Ares, o potencial industrial associado ao programa permanece no papel.

05 junho, 2026

Do campo ao front: o drone pesado multimissão começa a mudar o combate, e o Brasil está atento

O Adis ucraniano consolida uma tendência já anunciada pelo SSNTFT 2026 do Exército: quadricópteros de grande porte, originalmente desenvolvidos para agricultura e logística civil, foram convertidos em ferramentas de linha de frente capazes de atacar, realizar minagem remota e reabastecer posições avançadas, e o Brasil já tem a base industrial para acompanhar essa evolução

Adis - drone bombardeiro quadricóptero pesado multimissão (Imagem: Martyn Tech)

*LRCA Defense Consulting - 05/06/2026

A empresa ucraniana Martyn Tech apresentou, no começo deste mês, o Adis, um bombardeiro quadricóptero pesado desenvolvido em resposta a necessidades diretas da linha de frente. Os números são significativos: 10 kg de carga útil em raio de combate de 20 km, cerca de uma hora de autonomia, com testes registrando 12 kg transportados por mais de 20 km ou 3 kg por mais de 50 km, a 65 km/h de velocidade de cruzeiro e até 400 m de altitude operacional. O drone está equipado com um sistema de câmera dupla para detecção e identificação de alvos. A empresa afirma que ele pode detectar objetos a distâncias de até 600 m durante o dia e até 150 m à noite.

O salto do controle via satélite
O elemento verdadeiramente diferenciador não está na carga útil, mas sim no enlace de controle. Ao incorporar comunicação via satélite como canal primário de comando, o Adis elimina a principal restrição dos quadricópteros de linha de frente anteriores: o horizonte de rádio. Com isso, os operadores podem ser posicionados muito além da área de lançamento, reduzindo sua exposição e transformando o que era uma improvisação tática de curto alcance em algo mais próximo de um sistema distribuído de fogos e logística.

A estrutura modular completa o quadro: a mesma plataforma pode ser reconfigurada para lançamento de munição, minagem remota (dispersão aérea de minas sobre acessos e flancos) ou entrega de carga, como baterias, suprimentos médicos e equipamentos especializados, a posições que estradas, valas e veículos expostos já não alcançam com segurança.

Novidade ou consolidação de uma tendência?
O Adis não inventa a categoria. Quadricópteros e hexacópteros pesados de ataque estão em uso regular na Ucrânia desde o outono de 2022, batizados pelos soldados russos de "Baba Yaga", uma referência ao aspecto abominável desses drones voando à noite carregados de munição. Plataformas como o Vampire (Skyfall) e o Kazhan (Reactive Drone) já carregam 15 kg ou mais e operam entre 20 km e 60 km. Em 2024, por decreto do presidente Zelensky, os sistemas não tripulados foram estabelecidos como uma força independente das Forças Armadas ucranianas, sinal de que a tecnologia deixou o estágio experimental.

O Adis representa um passo incremental, mas relevante: o controle via satélite é algo que as gerações anteriores resolviam com Starlink como retransmissor intermediário, solução mais vulnerável à guerra eletrônica do que um enlace direto embarcado. A diferença entre usar o Starlink como relay e ter o módulo de comunicação integrado ao piloto automático não é apenas técnica, mas sim de robustez operacional e de sobrevivência do elo de controle em ambiente saturado por contramedidas eletrônicas.

Os russos responderam... com atraso
As forças russas foram as primeiras a nomear os quadricópteros pesados ucranianos justamente porque não tinham equivalente no início do conflito. A adaptação levou tempo. Em 2024, unidades russas na região sul de Donetsk já operavam plataformas pesadas próprias equipadas com sistemas de lançamento de minas de 82 mm, projetadas para permanecer indetectáveis pelos sistemas de guerra eletrônica ucranianos.

Em maio de 2026, a Rússia apresentou o Berdysh, produzido pela Ural Drone Factory: um hexacóptero capaz de realizar funções de ataque, entrega de carga e retransmissão de comunicações, com alcance de até 25 km, teto de 1.000 m, velocidade de até 50 km/h e carga útil de até 20 kg. A plataforma confirma que ambos os lados do conflito chegaram, por caminhos distintos, à mesma conclusão operacional.

O Brasil no mesmo espectro
O 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre (SSNTFT 2026), realizado entre 25 e 27 de maio de 2026 no Quartel-General do Exército e no Estande de Tiro General Darcy Lázaro, em Brasília, reuniu onze empresas da BID e revelou que o Brasil já opera nesse espectro, com objetivos e escala distintos dos do conflito ucraniano, mas com convergência técnica inegável. 

As demonstrações de maior impacto visual envolveram plataformas multirrotoras pesadas com payloads militares. 
A Taurus Armas exibiu um drone de ataque de grande porte capaz de operar armamento leve (fuzis e lança-granadas), incluindo o lançamento de projéteis de morteiro de 120 mm com 15 kg de peso, colocando o sistema diretamente no mesmo patamar de carga útil das primeiras gerações de "Baba Yaga" ucranianos. A Condor Não Letais apresentou o Condor Drop, quadricóptero tático adaptado para lançamento de agentes químicos de controle de distúrbios e apoio a missões de vigilância. As demais participantes: XMobots, Ares, PlasmaHub, Modirum Gespi, AeroID, ADTech, BR Vant, Ambipar e RADeCO, com demontrações e/ou exposições, completaram um painel que, segundo o Comandante do Exército, general Tomás Paiva, evidenciou a "rápida evolução da BID no desenvolvimento de sistemas não tripulados".

Nos casos da Condor e da Taurus, a plataforma base de voo (drone quadricóptero) foi desenvolvida sob encomenda por uma empresa brasileira especializada no desenvolvimento de RPAS (Remotely Piloted Aircraft System ou Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada, em português) para a indústria de defesa e segurança, sem que as partes tenham feito declarações oficiais sobre a natureza dessas parcerias. Este modelo de desenvolvimento já produziu, fora do contexto do SSNTFT, uma plataforma da mesma família operando um array de radar embarcado para levantamento automatizado, solução desenvolvida para a Radaz e que, inclusive, já está sendo exportada para países da Europa e do Oriente Médio.

A camada menos visível, mas estrategicamente muito relevante do SSNTFT, foi a participação institucional da própria Diretoria de Fabricação (DF) e do Arsenal de Guerra do Rio (AGR). Além de a DF apresentar a situação atual de sua Iniciativa de Drones de Ataque ao Alto Comando (programa que, desde dezembro de 2025, percorreu um RFI com 37 empresas habilitadas - sendo 33 nacionais, um workshop com a BID e, em março de 2026, o lançamento do edital de pré-qualificação de SARP - Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada de ataque), o AGR demonstrou um projeto próprio de desenvolvimento de drones bombardeiros e kamikazes, incluindo um conceito de container para fabricação de drones com manufatura aditiva (impressoras 3D). Trata-se, em essência, de uma fábrica de drones desdobrável em campanha, capacidade que as forças ucranianas desenvolveram empiricamente na linha de frente e que o Exército Brasileiro está buscando incorporar de forma planejada, com produção descentralizada e resiliente a rupturas na cadeia logística convencional.


Taurus - TAS lançador de granada 120mm

Quadricóptero da Condor Não Letais para lançamento de agentes químicos de controle de distúrbios
 

Drone Pelicano R3 como plataforma para o radar SAR RD350 da Radaz

O que falta e como pode ser resolvido
O hiato entre o estágio brasileiro e o Adis ucraniano é identificável e, em boa medida, endereçável. O principal elemento ausente nas plataformas nacionais é o enlace de controle via satélite integrado: a comunicação entre operador e drone ainda depende de rádio convencional, com todas as limitações de horizonte e vulnerabilidade à guerra eletrônica que isso implica.

A solução passa necessariamente pela escolha do tipo de satélite. O uso do Starlink (SpaceX) oferece baixa latência (20 a 40 milissegundos) suficiente para um completo controle manual em tempo real, mas cria dependência estratégica de uma empresa privada americana e de uma infraestrutura que pode ser restringida unilateralmente. O SGDC (Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas), operado pela Telebras com banda X dedicada às Forças Armadas, é soberano e cobre praticamente 100% do território nacional e a Amazônia Azul, mas a altitude de 36.000 km impõe latência de 600 a 800 milissegundos, inviável para pilotagem manual em tempo real, porém perfeitamente funcional para missões executadas por 
piloto automático com controle por waypoints, que é exatamente o modelo de emprego mais adequado para as missões de minagem remota, entrega de carga e ataques a alvos fixos.

A integração técnica em si não é um obstáculo de fronteira. Trata-se de engenharia de sistemas bem definida: seleção e qualificação do módulo de comunicação, adaptação estrutural da plataforma, desenvolvimento do firmware de integração com o 
piloto automático e validação da lógica de contingência. Um projeto dessa natureza, com financiamento e equipe adequados, pode ser executado em 12 a 24 meses.

O financiamento como elo que faltava
Em 26 de maio de 2026, a Finep e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação publicaram a Carta Convite MCTI/Finep/FNDCT — Promoção da Autonomia Tecnológica na Área da Defesa (chamada pública nº 943682), destinando até R$ 500 milhões em recursos não reembolsáveis do FNDCT às Instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação vinculadas ao Ministério da Defesa (ICTMDs).

As linhas temáticas contempladas incluem explicitamente sistemas de guiamento, controle e navegação aplicados a veículos não tripulados aéreos, terrestres e navais, além de inteligência artificial, robótica, visão computacional e sensoriamento remoto. O edital exige cooperação com empresas da Base Industrial de Defesa (BID), criando o elo formal entre as ICTMDs (ITA, IME, IPqM e similares) e fabricantes como SkyDrones, XMobots e Stella Tecnologia. As submissões vão até 18 de setembro de 2026.

O edital representa o maior aporte público unitário já destinado exclusivamente à BID em projetos de pesquisa e desenvolvimento a fundo perdido, e chega em momento em que o ecossistema nacional de plataformas não tripuladas já demonstrou capacidade de integração com payloads militares reais. A licitação do Exército Brasileiro para aquisição de munição vagante, que atraiu habilitação de 37 fabricantes, sendo 33 nacionais, é outro indicador da profundidade desse ecossistema.

Adis - drone bombardeiro quadricóptero pesado multimissão (Imagem: Martyn Tech)

A lição ucraniana para a BID
A diferença fundamental entre o ecossistema ucraniano e o brasileiro não é tecnológica, mas de velocidade e de volume. Na Ucrânia, a linha de frente define o produto em semanas: uma necessidade identificada numa trincheira se transforma em especificação, protótipo, teste e produção em série em ciclos que seriam considerados impossíveis em qualquer processo de aquisição convencional. Em 2024, o país produziu mais de 30.000 drones bombardeiros. O Brasil, mesmo com empresas competentes e demanda institucional crescente, ainda opera em ciclos de aquisição que se contam em anos.

O Adis, nesse sentido, não é um produto isolado. É o marcador mais recente de uma tendência que o seminário SSNTFT 2026 do Exército Brasileiro já havia sinalizado em escala nacional recentemente: o drone pesado multimissão deixou de ser nicho e virou classe de aeronave utilitária de campo de batalha. Quem souber comprimir o ciclo entre demanda operacional, desenvolvimento industrial e produção em escala terá, nessa tecnologia, uma vantagem assimétrica de difícil compensação. 

Com novo contrato da Azorra para até 30 jatos, Embraer supera 500 pedidos do E2

Locadora americana assina contrato firme para 15 E195-E2, com direito de compra para mais 15; programa chega ao marco histórico com mais de 200 aeronaves em operação e 24 companhias aéreas clientes 


*LRCA Defense Consulting - 05/06/2026

A Embraer e a Azorra assinaram um novo contrato firme para a aquisição de 15 aeronaves E195-E2, com direito de compra para mais 15 jatos. O acordo eleva o total de encomendas firmes da locadora americana para 54 unidades do modelo E2, ante 39 anteriores, e empurra o programa acima da marca de 500 pedidos firmes acumulados desde o lançamento do portfólio de segunda geração.

O contrato representa o terceiro aumento na encomenda original da Azorra para o modelo E2, feita em dezembro de 2021, e será contabilizado nos resultados e na backlog da Embraer referentes ao segundo trimestre de 2026.

Um programa em aceleração
Desde que entrou em serviço, a família E2 acumula mais de 200 aeronaves em operação junto a 24 companhias aéreas. No primeiro trimestre de 2026, a Embraer registrou backlog de US$ 32,1 bilhões, sexto recorde consecutivo, com a aviação comercial respondendo por US$ 15 bilhões do total, alta de 50% em relação ao mesmo período do ano anterior. A fabricante projeta entre 80 e 85 entregas de aviação comercial em 2026, crescimento de 6% sobre 2025.

O E195-E2, maior aeronave comercial da Embraer, é movido por dois motores Pratt & Whitney PW1919G, variante da família de turbofans de engrenagem geared turbofan (GTF). A configuração proporciona redução superior a 24% no consumo de combustível por assento em relação à geração anterior do E195, emissões de NOx 50% abaixo do limite da regulação ICAO CAEP/6 e margem de ruído acumulada de 19 a 20 dB sobre o Capítulo 4 da ICAO. A aeronave opera com sistema de controle de voo totalmente digital (fly-by-wire) e configuração de assentos dois a dois, sem fileira central, o que a fabricante apresenta como diferencial de conforto no segmento de monofuselagem de pequeno porte.

Azorra: de apoiadora inicial a maior locadora do programa
Sediada em Fort Lauderdale, na Flórida, com escritório adicional em Dublin, na Irlanda, a Azorra é uma locadora de aeronaves especializada em jatos regionais, de cruzamento e monofuselagens de pequeno porte. A empresa acumula frota de 338 ativos aeronáuticos, incluindo 186 aeronaves próprias ou gerenciadas, 103 motores e fuselagens e backlog de 49 aeronaves. A carteira de encomendas inclui pedidos de aeronaves Airbus A220-100/300 e Embraer E190/E195-E2.

A locadora figura entre os primeiros apoiadores do programa E2 e atuou em parceria com a Embraer e a Pratt & Whitney para expandir a base de operadores da família, que hoje inclui companhias na África do Sul, Jordânia, Mongólia, Austrália, Brasil e outras regiões. Com o novo pedido, o backlog firme da Azorra para o E2 ultrapassa 50 aeronaves.

"Nosso investimento contínuo na família E2 da Embraer reflete a forte demanda que observamos das companhias aéreas em todo o mundo por aeronaves de tamanho adequado e baixo consumo de combustível", afirmou John Evans, CEO da Azorra.

Arjan Meijer, presidente e CEO da Embraer Aviação Comercial, destacou que superar a marca de 500 pedidos firmes do E2 "é um momento de orgulho para a Embraer" e reflete o crescente interesse global em aeronaves de pequeno porte com eficiência de nova geração.

Contexto de mercado
O pedido da Azorra reforça tendência identificada por outras aquisições recentes. Em março de 2026, a finlandesa Finnair assinou acordo para até 46 E195-E2, entre pedidos firmes, opções e direitos de compra, para renovação de frota. O Emirados Árabes Unidos, por sua vez, selecionou o KC-390 Millennium para ampliar sua capacidade de transporte aéreo militar, indicando que a Embraer avança em paralelo nos segmentos comercial e de defesa.

No segmento de locação, a pressão por aeronaves de menor porte e elevada eficiência de combustível tem beneficiado o E195-E2 frente a monofuselagens maiores em rotas de baixa e média densidade. A configuração sem assento central diferencia o modelo tanto na percepção dos passageiros quanto na flexibilidade de rede oferecida às companhias aéreas operadoras.

FAB emprega sistema de sequestro cibernético de drones na Operação Ágata Amazônia 2026

Adquirido em caráter emergencial para a COP 30, o EnforceAir da israelense-britânica D-Fend Solutions ganhou nova missão operacional na fronteira amazônica, onde drones clandestinos apoiam o crime transfronteiriço 


*LRCA Defense Consulting - 05/06/2026

A Força Aérea Brasileira (FAB) implantou na Operação Ágata Amazônia 2026 o sistema de contramedidas antidrones EnforceAir, desenvolvido pela D-Fend Solutions, empresa de origem israelense sediada em Londres. O equipamento, empregado pelo 3º Grupo de Defesa Antiaérea (3º GDAAE) com apoio do Destacamento de Controle do Espaço Aéreo de São Gabriel da Cachoeira (DTCEA-UA), cobre a vigilância de baixa altitude em áreas operacionais sensíveis, neutralizando aeronaves remotamente pilotadas (RPAs) que possam ameaçar as forças em campo ou apoiar atividades ilícitas.

Da COP 30 à fronteira norte
O EnforceAir chegou ao inventário da FAB em outubro de 2025, quando a Base Aérea de Anápolis (BAAN) contratou a D-Fend Solutions em caráter emergencial, por dispensa de licitação, para proteger áreas sensíveis e delegações de chefes de Estado durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), realizada em Belém em novembro daquele ano. O contrato, assinado em 29 de outubro de 2025, teve validade de doze meses e valor de R$ 6,6 milhões.

Com a COP 30 encerrada, o sistema não foi recolhido: foi reempregado na Operação Ágata Amazônia 2026, rebatizada de Comando Conjunto Harpia, que mobiliza cerca de 1.638 militares das três Forças Armadas, além de agentes da Polícia Federal, do Ibama e do Censipam, em ações de vigilância e combate a ilícitos transfronteiriços na Amazônia Ocidental.

EnforceAir implantado pela FAB na Operação Ágata Amazônia 2026

Como funciona o sistema
O EnforceAir é classificado como sistema C-UAS (counter-unmanned aircraft systems) de categoria não cinética e não bloqueadora. Em vez de destruir fisicamente o drone ou embaralhar sinais de radiofrequência de forma indiscriminada, a tecnologia executa o que a D-Fend denomina RF cyber takeover: intercepta o protocolo de comunicação entre o drone e seu operador, assume o controle do equipamento e o pousa em uma zona segura predefinida, sem derrubar o aparelho e sem interromper outras comunicações no espectro.

A solução opera de forma autônoma ou manual, detecta e identifica múltiplas ameaças simultaneamente, não requer linha de visada direta com o alvo e distingue automaticamente entre drones autorizados e não autorizados, permitindo que aeronaves amigas continuem operando na mesma área. O hardware inclui rádio definido por software (SDR, software-defined radio) de baixo consumo e peso, com antenas omnidirecionais de banda ultralarga que cobrem 360 graus.

A versão mais recente, o EnforceAir PLUS, acrescenta um radar de estado sólido para detecção antecipada e uma opção de bloqueio seletivo de radiofrequência como camada adicional, gerenciados pelo motor de fusão de dados SmartAir, que integra as informações de sensores cibernéticos e de radar em um quadro situacional unificado.

 

Emprego operacional na Amazônia
De acordo com o Comandante da Força Aérea Componente (FAC) na operação, Brigadeiro do Ar Mateus Barros de Andrade, o sistema antidrone integra um esforço mais amplo que inclui defesa aeroespacial, controle de solo e atividades de inteligência, vigilância e reconhecimento. "O nosso principal foco, durante a Operação Ágata, está nas ações de defesa aérea, medidas de controle de solo e atividades de inteligência, vigilância e reconhecimento. Para garantir a proteção do nosso material e das aeronaves empregadas em São Gabriel da Cachoeira, adquirimos também um equipamento antidrone, com o objetivo de evitar possíveis ameaças às nossas aeronaves", disse o Brigadeiro Mateus.

A relevância do sistema se amplifica no contexto amazônico: drones clandestinos são frequentemente usados por organizações criminosas para monitorar operações policiais e militares, orientar o transporte de drogas e ouro, e apoiar o garimpo ilegal em territórios indígenas e unidades de conservação de difícil acesso. A capacidade de pousar o drone invasor intacto, em vez de abatê-lo, tem o benefício adicional de preservar o equipamento como evidência.

Posicionamento internacional da D-Fend Solutions
Fundada em Israel e hoje com sede em Londres, a D-Fend Solutions posiciona o EnforceAir como solução de referência para agências governamentais de alto nível, destacando implantações em órgãos militares e de segurança federal dos Estados Unidos, além de grandes aeroportos internacionais. A empresa fornece atualizações de software com frequência para ampliar a cobertura de novos modelos de drones comerciais, e afirma que o sistema opera com taxa próxima a zero de falsos alarmes.

O contrato com a FAB representa uma das primeiras implantações públicas conhecidas do EnforceAir na América do Sul, sinalizando a entrada da D-Fend Solutions no mercado de defesa brasileiro em um momento em que a proliferação de drones de baixo custo redefine os requisitos de proteção do espaço aéreo tanto em grandes eventos civis quanto em ambientes operacionais militares.

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