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08 outubro, 2026

Primeiro E195-E2 da LATAM inaugura nova etapa para a Embraer e a aviação regional brasileira

Com 24 aeronaves firmemente encomendadas e possibilidade de chegar a 74, companhia prepara 42 rotas e aposta em cidades de menor demanda para ampliar sua rede nacional



*LRCA Defense Consulting - 08/10/2026

A LATAM Airlines Brasil e a Embraer celebraram nesta quinta-feira, 8 de outubro de 2026, em São José dos Campos (SP), o início do processo de entrega do primeiro E195-E2 da história da companhia. A aeronave ainda deverá cumprir procedimentos alfandegários, aprovação do interior e etapas de certificação operacional antes de entrar em serviço, previsto para novembro. A incorporação representa mais do que a estreia de um novo modelo: inaugura uma estratégia de crescimento em mercados brasileiros nos quais a capacidade dos jatos tradicionais de corredor único pode dificultar a oferta de frequências economicamente sustentáveis.


Da encomenda à operação 

Anunciado em setembro de 2025, o acordo prevê 24 E195-E2 firmes, avaliados em aproximadamente US$ 2,1 bilhões a preços de tabela, além de 50 opções de compra. O valor não representa necessariamente o preço efetivamente pago. Segundo a programação divulgada agora, 12 aeronaves deverão ser entregues até o fim de 2026 e outras 12 em 2027. A companhia pretende incorporar até 14 unidades à operação entre novembro deste ano e março do próximo, à medida que avancem as entregas e os preparativos.

A LATAM passou de 44 aeroportos atendidos no Brasil há seis anos para 63 atualmente. A primeira etapa de expansão com o E2 deverá levar a rede a 67 destinos, e a empresa pretende superar 70 em 2027. O objetivo anunciado por Jerome Cadier, CEO da LATAM Airlines Brasil, é ampliar a conectividade de forma sustentável, incorporando mercados com potencial econômico à rede de conexões nacionais e internacionais.

Quatro novas bases e 42 rotas 
Os 14 primeiros E195-E2 serão empregados em 42 rotas, incluindo oito novas ligações e quatro destinos até então não atendidos pela companhia: Cabo Frio e Macaé, no Rio de Janeiro; Ji-Paraná, em Rondônia; e Rondonópolis, em Mato Grosso. Entre as ligações anunciadas estão Guarulhos–Rondonópolis, com sete frequências semanais a partir de dezembro de 2026; Guarulhos–Ji-Paraná e Guarulhos–Cabo Frio, com quatro cada, também a partir de dezembro; e Guarulhos–Macaé, com três frequências semanais a partir de fevereiro de 2027. A empresa ainda avalia até 18 destinos adicionais para uma segunda fase em 2027. Essas possibilidades, contudo, ainda não constituem rotas confirmadas.

O significado operacional dessa escolha é importante. Com 136 assentos, o E195-E2 permite ajustar capacidade e frequência à demanda de mercados intermediários. Isso pode facilitar tanto a abertura de destinos quanto a alimentação dos principais centros de conexão da LATAM, sem exigir o mesmo volume de passageiros de aeronaves maiores. A viabilidade de cada rota continuará dependendo de fatores como ocupação, tarifas, infraestrutura aeroportuária e custos operacionais. 


Preparação acelerada para a entrada em serviço 
A companhia recorreu ao E195-E2 de demonstração da Embraer, conhecido como Profit Hunter, para exercícios de evacuação, avaliações e treinamento de tripulações. Segundo as empresas, a iniciativa reduziu em cerca de metade o tempo exigido por determinadas etapas de preparação, sem dispensar requisitos de segurança. Reportagem publicada nesta quinta-feira pela Folha de S.Paulo informa investimento de aproximadamente US$ 50 milhões em capacitação, equipamentos e infraestrutura, além de treinamento de 41 comandantes e 45 copilotos e preparação de oficinas em Guarulhos, Brasília e Curitiba. Esses números referem-se à preparação reportada, não ao custo de aquisição das aeronaves.

A configuração da LATAM terá quatro assentos por fileira, sem assento central, e 136 lugares, incluindo até 20 na Premium Economy, conforme a configuração. Estão previstos Wi-Fi gratuito para associados cadastrados no LATAM Pass, conexões USB-C e acesso ao entretenimento LATAM Play.

O peso industrial e comercial para a Embraer 
A entrada da LATAM amplia a presença da família E2 no mercado brasileiro e coloca o fabricante nacional na frota de uma das maiores empresas aéreas da região. Também constitui uma vitrine para a utilização do E195-E2 em redes com conexões internacionais, nas quais a aeronave pode funcionar como alimentadora de centros de distribuição de tráfego. A existência de 50 opções adicionais representa potencial comercial, mas não deve ser confundida com encomendas firmes.

Segundo a Embraer, o E195-E2 oferece alcance de até 3.000 milhas náuticas (5.556 km), comandos de voo fly-by-wire e consumo de combustível até 30% inferior ao de aeronaves da primeira geração dos E-Jets, dependendo da comparação e das condições operacionais. A fabricante também menciona redução de emissões de carbono de até 25% na família E2. Esses percentuais são referências divulgadas pelo fabricante, e não uma economia assegurada em todas as rotas da LATAM. A adoção do modelo por uma grande companhia brasileira pode reforçar a atratividade do E2 para outros operadores. Contudo, o efeito sobre a produção, o emprego e a cadeia de fornecedores dependerá do ritmo efetivo de entregas e de eventuais novas encomendas. Por ora, o marco confirmado é a chegada da primeira aeronave e a preparação de sua entrada em serviço.

Brasil e Índia estudam novo lançador orbital a partir de tecnologias do MLBR

Acordo entre Concert Technologies e Skyroot Aerospace prevê estudos para um foguete capaz de transportar ao menos 100 kg à órbita baixa; cooperação pode abrir oportunidades para a indústria espacial brasileira.



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LRCA Defense Consulting - 08/10/2026

A Concert Technologies, integrante do programa Microlançador Brasileiro (MLBR), e a indiana Skyroot Aerospace assinaram em 7 de outubro, durante o 77º Congresso Internacional de Astronáutica (IAC 2026), em Antalya, na Turquia, um Memorando de Entendimento (MoU) para estudar o codesenvolvimento de um veículo lançador de satélites. A proposta contempla capacidade de carga útil a partir de 100 kg para órbita baixa da Terra (LEO), posicionando o futuro produto entre o MLBR, projetado para até 40 kg, e os foguetes de maior capacidade da família Vikram.


O entendimento tem vigência prevista de dois anos. Nesse período, as empresas pretendem detalhar aspectos técnicos e comerciais e estruturar os instrumentos necessários à execução do projeto. Desenvolvimento, fornecimento, investimentos e comercialização dependerão de acordos posteriores. Portanto, ainda não há anúncio de contrato definitivo, configuração do veículo, orçamento ou data de lançamento.

O acordo foi assinado pela Concert com participação de Rafael Mordente, CEO da Concert Space, e acompanhado pelo presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), Marco Antônio Chamon, e pelo senador e astronauta Marcos Pontes. Para Chamon, a aproximação exemplifica a função do congresso de estimular parcerias entre empresas e países.

Tecnologia brasileira como ponto de partida 
A relevância da iniciativa está no possível aproveitamento de competências que a indústria nacional vem consolidando no MLBR. A Concert participa do desenvolvimento do sistema de navegação inercial integrado à navegação por satélite (SNI-GNSS), em colaboração com HORUSEYE TECH e CRON, tecnologia associada ao controle e à orientação do lançador. O LRCA já havia examinado, em janeiro de 2025, a importância desse sistema para determinar posição, velocidade e atitude durante o voo.

A contribuição brasileira poderá ir além da navegação, mas o anúncio não especifica quais equipamentos serão transferidos para o novo projeto nem confirma a participação das demais empresas do MLBR. Durante o IAC, Fibraforte e BIZU Space também apresentaram tecnologias relacionadas ao programa: a primeira, um sistema de propulsão para controle do veículo; a segunda, desenvolvimentos em propulsão líquida, incluindo turbobomba e motor.

O MLBR avançou pela revisão crítica de projeto em 2025 e entrou em etapas de fabricação, integração e ensaios. Em junho de 2026, conforme noticiado pelo LRCA, a Finep formalizou aporte adicional de R$ 25 milhões à BIZU Space para desenvolver um terceiro estágio de propulsão líquida, tecnologia com potencial de aplicação em veículos maiores. Esse financiamento diz respeito ao programa brasileiro, não ao novo lançador previsto no MoU.

Parceira indiana já alcançou a órbita 
A Skyroot acrescenta experiência operacional recente. Segundo a Organização Indiana de Pesquisa Espacial (ISRO), em 18 de julho de 2026 o Vikram-I partiu do Centro Espacial Satish Dhawan e colocou dois satélites em órbita baixa, tornando a Skyroot a primeira empresa privada indiana a realizar um lançamento orbital bem-sucedido a partir do território nacional. A empresa anuncia para o Vikram-I capacidade de até 350 kg em LEO e 260 kg em órbita heliossíncrona.

Essa experiência reduz parte das incertezas associadas à maturidade industrial da parceira, mas não elimina os riscos de engenharia, financiamento e certificação de um novo veículo. Ainda será necessário definir sua arquitetura, propulsão, integração, ensaios e modelo econômico.

Alcântara: oportunidade, não decisão 
O comunicado destaca a demanda por lançamentos para órbitas equatoriais, segmento em que a posição geográfica do Centro Espacial de Alcântara, próximo à Linha do Equador, pode oferecer vantagens. Para missões de baixa inclinação, a rotação terrestre favorece o desempenho do lançador. A localização brasileira também abre uma hipótese de operação comercial a partir do País.

Entretanto, nem o anúncio do MLBR nem os detalhes públicos do MoU confirmam Alcântara como base do futuro foguete. Também não foram divulgadas decisões sobre fabricação, integração ou repartição de propriedade intelectual entre as empresas. Tratar Alcântara como destino já escolhido seria antecipar uma definição ainda inexistente.

Da capacitação à oportunidade comercial 
O principal significado estratégico do entendimento é a possibilidade de transformar tecnologias desenvolvidas no âmbito de um programa nacional em componentes de uma oferta internacional de serviços espaciais. O desafio será converter a intenção em contratos, assegurar participação industrial brasileira efetiva e demonstrar que um lançador intermediário pode atender clientes com custo e confiabilidade competitivos.

Por ora, o acordo representa uma oportunidade concreta de negociação, não um programa de lançamento contratado. Seu avanço dependerá das decisões técnicas e financeiras que Concert e Skyroot deverão tomar durante a vigência do MoU.

CTEx e SIATT avançam na industrialização de pilhas térmicas para mísseis brasileiros

Acordo firmado em 7 de outubro busca levar à fabricação industrial tecnologia desenvolvida pelo Exército, com aplicação inicial no MAX 1.2 AC e potencial para outros sistemas de defesa



*LRCA Defense Consulting - 08/10/2026

O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e a SIATT formalizaram, em 7 de outubro de 2026, um Acordo de Parceria para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (APPDI) voltado à fabricação de pilhas térmicas. Desenvolvida pelo Laboratório de Química Militar (LQM) do CTEx, a tecnologia é destinada a fornecer energia elétrica a sistemas eletrônicos embarcados em armamentos, com aplicação imediata prevista no Sistema de Armas MSS 1.2 MAX, também identificado como MAX 1.2 AC.

A iniciativa representa uma nova etapa de um esforço tecnológico de longa duração. O avanço agora anunciado não deve ser confundido com o início das pesquisas nem com a comprovação de que já exista produção seriada. O acordo estabelece uma parceria para a fabricação, mas o comunicado não detalha cronograma, capacidade produtiva, investimentos ou conclusão dos procedimentos de qualificação industrial.

Uma tecnologia desenvolvida ao longo de décadas 
As pilhas térmicas são fontes eletroquímicas de energia projetadas para permanecer inativas durante períodos prolongados de armazenamento. Quando acionadas, o aquecimento interno permite que o eletrólito passe a conduzir íons, viabilizando o fornecimento de energia aos circuitos do equipamento durante sua operação. Essa combinação de longa vida em armazenamento e rápida disponibilidade energética explica seu emprego em determinados mísseis, foguetes e outros produtos de defesa.

A pesquisa brasileira não é recente. Um trabalho acadêmico de 2025, disponibilizado pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), descreve a evolução dos estudos realizados pelo CTEx, incluindo o desenvolvimento de sistemas de terceira geração voltados ao míssil anticarro. O documento ressalta a complexidade tecnológica dessas fontes energéticas, a necessidade de infraestrutura especializada e as dificuldades internacionais para aquisição de componentes e insumos.

A importância estratégica decorre justamente dessa combinação de requisitos técnicos e restrições de fornecimento. Em sistemas militares armazenados por longos períodos, a disponibilidade da fonte de energia no momento do emprego é parte essencial da confiabilidade do armamento. Produzir nacionalmente esse componente pode reduzir vulnerabilidades logísticas, desde que a fabricação alcance escala, qualidade e regularidade compatíveis com as necessidades operacionais.

Da pesquisa do Exército à capacidade industrial 
O APPDI aproxima o conhecimento acumulado pelo CTEx da experiência da SIATT no desenvolvimento, integração e produção de sistemas de armas. A empresa participa do programa do míssil anticarro MAX 1.2 AC e atua em projetos de mísseis da Marinha, entre eles o MANSUP. A articulação entre laboratório público e indústria pode facilitar a transição de protótipos e processos especializados para uma cadeia de fornecimento nacional.

A SIATT também ampliou recentemente sua estrutura industrial em Caçapava, no interior paulista. Embora essa expansão ofereça contexto relevante para o acordo, não há informação confirmada de que a fabricação das pilhas térmicas ocorrerá nessa unidade. A localização da futura produção e a eventual necessidade de instalações específicas permanecem em aberto.

A prioridade imediata é o míssil MAX 1.2 AC 
O comunicado do CTEx indica expressamente a possibilidade de emprego imediato no Sistema de Armas MSS 1.2 MAX. A referência aproxima o desenvolvimento da demanda concreta de um armamento brasileiro já associado à capacidade industrial da SIATT. Entretanto, a expressão não permite afirmar, por si só, que as pilhas nacionais já equipam todos os exemplares produzidos ou que tenham substituído integralmente fontes importadas.

A incorporação efetiva de um novo componente a um sistema de armas exige compatibilidade com os requisitos elétricos, mecânicos, térmicos e de segurança, além dos ensaios e processos de qualificação aplicáveis. Por isso, o estágio de certificação das pilhas para os lotes de série constitui uma das informações mais relevantes ainda não divulgadas.

Possibilidades para outros programas 
O domínio das pilhas térmicas pode criar oportunidades em outros armamentos nacionais, especialmente aqueles que necessitem de fontes compactas de energia acionadas apenas no momento do emprego. Isso não significa, contudo, que a tecnologia anunciada já esteja selecionada para o MANSUP, o MANSUP-ER ou foguetes guiados. Cada sistema possui arquitetura e requisitos próprios, e qualquer integração dependeria de desenvolvimento e validação específicos.

A SIATT já divulgou anteriormente que o sistema de guiagem, navegação e controle do MANSUP utiliza um conjunto de baterias para alimentar seus circuitos durante o voo. Essa informação demonstra a relevância das fontes energéticas no projeto, mas não identifica essas baterias como pilhas térmicas nem estabelece vínculo técnico com o acordo recém-assinado.

Autonomia tecnológica e questões ainda abertas 
Além do potencial de redução da dependência externa, a parceria levanta questões sobre propriedade intelectual, direitos de fabricação e eventual comercialização internacional. A SIATT tem participação acionária do grupo EDGE, dos Emirados Árabes Unidos, mas esse vínculo societário não autoriza concluir que a tecnologia do CTEx será transferida ao grupo estrangeiro. O alcance dos direitos concedidos à parceira industrial dependerá das cláusulas do acordo e das normas aplicáveis.

Também não foram divulgados o percentual de nacionalização dos insumos, a capacidade anual projetada, o investimento previsto e a data estimada para entrega das primeiras unidades industriais. Sem esses dados, seria prematuro dimensionar o impacto econômico da parceria ou afirmar que a dependência externa foi superada.

O significado do acordo está, portanto, na tentativa de fechar um elo crítico entre pesquisa, desenvolvimento e fabricação. Se a industrialização e a qualificação forem concluídas, o Exército poderá contar com uma fonte energética estratégica produzida no País, fortalecendo a sustentação logística do MAX 1.2 AC e criando uma base tecnológica potencialmente aproveitável em futuros produtos de defesa.

Turbomachine aciona geradora de gases do TG-200 com etanol e avança na propulsão híbrida nacional

Primeiro funcionamento do equipamento marca nova etapa de projeto apoiado pela FINEP, desenvolvido para gerar 130 kW de eletricidade e atender futuras aeronaves híbridas, especialmente VANTs


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LRCA Defense Consulting - 08/10/2026

A Turbomachine anunciou nesta quarta-feira, 7 de outubro de 2026, o primeiro acionamento da geradora de gases do turbogerador aeronáutico TG-200 utilizando etanol. O ensaio ocorreu às 14h20, segundo comunicado da empresa. O resultado representa uma etapa inicial do desenvolvimento de um equipamento nacional destinado a fornecer energia elétrica para sistemas de propulsão híbrida, mas não significa que o conjunto completo já esteja operacional ou validado para uso aeronáutico.


O projeto foi selecionado na chamada Mais Inovação Brasil – Aviação Sustentável, da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), com subvenção econômica de R$ 8.962.020,00. O LRCA já havia noticiado sua aprovação em novembro de 2024. A passagem do projeto para ensaios de funcionamento constitui, agora, o principal fato novo.

Como funciona o TG-200 
Diferentemente de uma turbina destinada a produzir diretamente empuxo, o TG-200 foi concebido para transformar a energia do combustível em eletricidade. Sua arquitetura prevê uma geradora de gases, uma turbina livre de potência e um gerador elétrico compacto de alta rotação, com controle eletrônico. A potência contínua prevista é de 130 kW elétricos; documentos do projeto também mencionam até 200 HP de potência elétrica de pico, equivalentes a aproximadamente 149 kW.

Em uma aeronave híbrido-elétrica, a eletricidade produzida pode alimentar motores de propulsão e, conforme a arquitetura adotada, interagir com sistemas de armazenamento de energia. O objetivo é enfrentar limitações de autonomia e carga útil das aeronaves exclusivamente elétricas. Contudo, sem informações públicas sobre massa, consumo, eficiência e regime de funcionamento do conjunto, ainda não é possível quantificar as vantagens do TG-200 em uma aplicação específica.

ITA participa da solução de um desafio crítico 
O desenvolvimento conta com a participação do Laboratório de Plasmas e Processos do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (LPP-ITA). Segundo a Fundação Casimiro Montenegro Filho, responsável pela gestão administrativa e financeira do projeto, o laboratório desenvolve um ignitor com substrato de tungstênio e revestimento de nitreto de silício depositado por plasma. A iniciativa procura melhorar a resistência do componente à corrosão e às condições de alta temperatura e pressão associadas à operação com etanol.

A FCMF descreve um programa de desenvolvimento de 36 meses, estruturado em três frentes: geradora de gases, integração da turbina livre ao gerador e desenvolvimento de um gerador sem escovas de alta rotação controlado eletronicamente. O primeiro acionamento anunciado pela Turbomachine confirma um avanço na primeira dessas frentes, sem comprovar, por si só, o desempenho integrado das demais.

Possibilidades para a aviação civil e militar 
A proposta tem interesse potencial para veículos aéreos não tripulados de vigilância, reconhecimento e logística, além de outras plataformas que empreguem propulsão elétrica distribuída. No campo militar, um sistema nacional desse tipo poderia ampliar alternativas de integração e reduzir dependências externas em determinadas aplicações. Essas possibilidades, porém, são perspectivas tecnológicas, não encomendas ou programas de integração já confirmados.

A utilização do etanol também aproveita uma cadeia de produção consolidada no Brasil. Seu eventual benefício ambiental dependerá do consumo real do equipamento, da origem do combustível e da comparação do ciclo de vida com alternativas convencionais. A alegação de ineditismo mundial associada ao projeto em divulgações anteriores ainda exigiria verificação comparativa independente.

Próximas etapas 
O marco de 7 de outubro não esclarece a duração do ensaio, a rotação atingida, a potência elétrica produzida ou o cronograma para testes do turbogerador completo. A comprovação desses parâmetros, seguida de ensaios de durabilidade, integração e segurança, será decisiva para avaliar a maturidade do TG-200 e suas perspectivas comerciais.

Sediada em Jacareí (SP), no entorno do polo aeroespacial de São José dos Campos, a Turbomachine já desenvolve motores a turbina para diferentes aplicações. O TG-200 amplia essa experiência para um segmento no qual a geração embarcada de eletricidade pode ganhar relevância, especialmente em aeronaves não tripuladas. O primeiro funcionamento com etanol é, portanto, um avanço concreto, embora ainda distante de demonstrar um produto pronto para operação.

07 outubro, 2026

Marcos Degaut: Defesa, indústria e diplomacia sob uma mesma estratégia nacional

Marcos Degaut tornou-se um dos nomes relevantes para compreender as ideias de política externa e Defesa que circulam no entorno da candidatura de Flávio Bolsonaro. A trajetória do ex-secretário revela uma arquitetura estratégica baseada em autonomia tecnológica, transferência de tecnologia, previsibilidade orçamentária, fortalecimento da BID e integração entre Defesa, diplomacia, indústria e comércio exterior



*LRCA Defense Consulting - 07/10/2026

Marcos Degaut tornou-se um dos nomes relevantes para compreender as ideias de política externa e Defesa que circulam no entorno da candidatura de Flávio Bolsonaro. Aliado próximo de Eduardo Bolsonaro, o ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa participa do debate político atual, mas suas formulações sobre poder nacional são muito anteriores à campanha de 2026.

A análise de artigos, entrevistas, discursos e iniciativas de Degaut ao longo de quase uma década revela mais do que uma sucessão de posições conjunturais. Há uma consistência estrutural entre sua atuação na Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), sua passagem pela Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD), sua experiência posterior no setor privado de Defesa e seus textos recentes.

No centro dessa arquitetura aparecem conceitos recorrentes: autonomia tecnológica, transferência de tecnologia, previsibilidade orçamentária, Base Industrial de Defesa (BID) sustentável e exportadora, capacidade de dissuasão e uma política externa orientada pelo interesse nacional.

Defesa como instrumento de poder nacional 
Para Degaut, Defesa não pode ser tratada apenas como despesa pública nem como política isolada das demais dimensões do Estado. Ainda em 2020, quando comandava a SEPROD, defendia que Defesa, Segurança e BID deveriam integrar uma grande estratégia nacional e eram indissociáveis da política externa de um país que pretendesse possuir peso internacional.

Em textos recentes, o diagnóstico tornou-se mais abrangente. A competição estratégica contemporânea, em sua leitura, deslocou parte da vulnerabilidade nacional para áreas como semicondutores, comunicações, satélites, componentes eletrônicos, sistemas antiaéreos, armas inteligentes, cibernética, inteligência artificial, drones e sensores. A soberania, portanto, dependeria não apenas de território e efetivos militares, mas do domínio ou acesso seguro a tecnologias, cadeias produtivas e infraestrutura crítica.

No artigo “A Sétima República”, publicado em 6 de outubro, Degaut defende explicitamente Forças Armadas capazes de proteger o território e uma Defesa orientada pela dissuasão por negação, com Amazônia e Atlântico Sul como teatros prioritários.

O conceito procura tornar inviável ou excessivamente custoso ao adversário alcançar seus objetivos, o que remete a vigilância, consciência situacional, capacidade de reação e meios capazes de negar liberdade de ação em áreas vitais.

Uma linha que antecede a SEPROD 
A preocupação com programas estratégicos e autonomia já aparecia quando Degaut atuava na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, no governo Michel Temer.

Em setembro de 2017, durante visita à Corveta Jaceguai, foi registrado publicamente que ele vinha trabalhando ativamente para apoiar a construção das então Corvetas Classe Tamandaré, programa que posteriormente evoluiu para as Fragatas Classe Tamandaré.

Esse antecedente é relevante porque mostra que a preocupação com o fortalecimento material das Forças e com programas nacionais não nasceu de sua passagem pela SEPROD. Ela atravessa diferentes funções exercidas por Degaut e ajuda a explicar a continuidade entre sua atuação administrativa e suas formulações atuais.

Autonomia tecnológica como eixo central 
Poucos conceitos aparecem com tanta frequência em suas manifestações quanto autonomia tecnológica.

Em 2021, ao tratar de protocolos de inovação e tecnologia, Degaut afirmou que a criação de redes entre governo, academia e empresas deveria gerar produtos e serviços capazes de aumentar progressivamente a autonomia tecnológica brasileira e reduzir a dependência de produtos estrangeiros.

Em 2023, já no EDGE Group, sintetizou a ideia de maneira direta: não existe autonomia estratégica sem autonomia tecnológica.

A formulação ajuda a organizar todo o restante de seu pensamento. Um país que dependa integralmente de terceiros para sensores, componentes, munições, sistemas de comando, satélites, comunicações ou armamentos sofisticados pode conservar soberania jurídica, mas terá sua liberdade de decisão limitada em uma crise.

Transferência de tecnologia: comprar não basta 
A consequência prática desse raciocínio é a importância atribuída à transferência de tecnologia.

Para Degaut, a aquisição de equipamentos no exterior não deveria ser analisada apenas pelo desempenho do produto ou pelo preço da compra. O valor estratégico aumenta quando a operação permite absorver conhecimento, formar pessoal, internalizar competências, produzir componentes, realizar manutenção e evoluir sistemas no Brasil.

Isso não significa que toda tecnologia sensível esteja disponível para transferência, nem que acordos de offset produzam automaticamente autonomia. A questão central é negociar compras e parcerias de modo que parte relevante do conhecimento permaneça no País.

Sob essa lógica, transferência de tecnologia deixa de ser contrapartida acessória e passa a integrar o cálculo estratégico da aquisição.

Essa orientação também ajuda a interpretar sua atuação posterior no EDGE Group e a aproximação com empresas brasileiras. Parcerias internacionais são vistas como instrumentos úteis quando agregam tecnologia, capacidade produtiva, acesso a mercados e desenvolvimento conjunto, e não apenas capital.

Previsibilidade orçamentária: condição para planejar 
Outro pilar é a previsibilidade orçamentária.

Degaut tem sustentado que a indústria de Defesa não consegue executar planejamento estratégico consistente se não souber se haverá continuidade de recursos para programas que atravessam muitos anos. Em entrevista de 2023, afirmou que a imprevisibilidade afeta desenvolvimento de projetos e produtos, contratação de pessoal e participação em licitações internacionais.

O problema é particularmente sensível porque grandes projetos militares possuem longos ciclos de maturação, contratos complexos, pagamentos distribuídos por vários exercícios e, frequentemente, compromissos em moeda estrangeira, compensações industriais e transferência de tecnologia.

Cortes abruptos podem elevar custos, retardar cronogramas, provocar perda de equipes especializadas e enfraquecer a confiança de fornecedores e parceiros.

A ênfase, portanto, não está apenas em gastar mais. Está em permitir que Forças Armadas e indústria saibam, dentro de horizontes plurianuais razoáveis, quais recursos estarão disponíveis.

A discussão sobre mecanismos capazes de oferecer essa estabilidade financeira é estratégica, mas eventuais modelos ainda em formulação não podem ser tratados como política definida enquanto não forem apresentados publicamente.

A BID como instrumento militar, econômico e tecnológico 
Na visão de Degaut, a BID ultrapassa a função de abastecer as Forças Armadas. Ela produz empregos qualificados, inovação, renda, exportações, divisas e tecnologias de uso dual.

Durante sua gestão na SEPROD, procurou aproximar Ministério da Defesa, BNDES, indústria, academia e instrumentos de promoção comercial.

Em artigo de 2021 republicado pelo LRCA Defense Consulting, destacou novas formas de financiamento e garantias, aperfeiçoamento da Tríplice Hélice, envolvendo Estado, academia e iniciativa privada, e busca de maior isonomia normativa e tributária para a indústria nacional. Também sustentou que exportar é crucial para preservar a capacidade de fornecer produtos, serviços e tecnologia de ponta.

A lógica econômica é objetiva: a demanda interna brasileira, sujeita a restrições fiscais e oscilações, não oferece escala contínua para todos os segmentos industriais de Defesa.

Exportações permitem diluir custos, sustentar linhas produtivas, conservar equipes especializadas e financiar novos ciclos de inovação.

Financiamento e garantias completam a equação 
A previsibilidade das encomendas domésticas, contudo, não resolve sozinha o problema.

Degaut também tem chamado atenção para financiamento e garantias às exportações. Produtos de Defesa disputam mercados nos quais Estados estrangeiros frequentemente apoiam suas empresas com crédito, seguro, garantias soberanas e instrumentos diplomáticos.

Sem mecanismos competitivos, uma empresa brasileira pode possuir um bom produto e ainda assim perder uma concorrência porque o comprador recebeu condições financeiras melhores de outro país.

Daí a tentativa, durante a SEPROD, de aproximar a BID de instituições como o BNDES e fortalecer instrumentos de promoção comercial. 


Capital estrangeiro e autonomia não são necessariamente opostos 
A experiência posterior de Degaut no EDGE Group acrescenta uma nuance importante.

Sua concepção de autonomia não implica fechamento ao capital estrangeiro. Investimentos e parcerias internacionais podem fortalecer a soberania quando aumentam domínio tecnológico, produção local, qualificação de pessoal e capacidade exportadora.

O critério relevante, nessa perspectiva, não seria simplesmente a nacionalidade do investidor, mas o resultado estratégico da parceria: quanto conhecimento é absorvido, quais competências permanecem no Brasil e se a operação reduz ou amplia dependências críticas.

Política externa: diplomacia como instrumento de poder
A mesma arquitetura aparece em suas formulações sobre política externa.

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo em 1º de outubro, Degaut defendeu um Itamaraty mais forte, estratégico e valorizado, capaz de converter diplomacia em influência, mercados, investimentos, tecnologia, segurança e prosperidade.

No texto, contestou a caracterização de suas ideias como uma suposta “Reforma Rubio”. Afirmou que nunca discutiu projeto com esse nome nem defendeu transplantar ao Brasil a reforma do Departamento de Estado norte-americano.

Também registrou que suas reflexões não constituíam programa fechado nem proposta oficial de governo. A distinção é importante para qualquer tentativa de antecipar políticas futuras: existem ideias em debate, mas nem todas podem ser apresentadas como decisões da campanha.

O conteúdo defendido publicamente por Degaut inclui fortalecimento da capacidade de formulação e antecipação do Itamaraty, maior centralidade para diplomacia econômica, comércio, investimentos, tecnologia e Defesa, simplificação administrativa e critérios mais objetivos de mérito e desempenho na carreira.

Estados Unidos, China e interesse nacional 

Suas manifestações recentes apontam para maior aproximação estratégica com os Estados Unidos, mas não necessariamente para ruptura econômica com a China.

O fio condutor é o interesse nacional: relações internacionais deveriam ser avaliadas pela capacidade de gerar segurança, tecnologia, mercados, investimentos e liberdade de ação.

Esse pragmatismo também aparece na discussão sobre minerais críticos, energia, inteligência artificial e infraestrutura. Recursos naturais, isoladamente, não produzem poder. Eles precisam ser transformados em capacidade industrial, conhecimento, tecnologia e instrumentos de negociação internacional.

A nova guerra tecnológica 
A atenção dada a drones, inteligência artificial, sensores, espaço, defesa cibernética, comunicações e sistemas antiaéreos mostra que a visão de Degaut não está limitada aos grandes programas tradicionais.

As guerras recentes demonstraram que plataformas sofisticadas convivem com sistemas baratos, produção em massa, software, guerra eletrônica e ciclos tecnológicos extremamente rápidos.

Para o Brasil, o desafio seria combinar programas de longo prazo com capacidade de inovação acelerada, aproximando Forças Armadas, empresas, universidades e centros de pesquisa.

Nesse ambiente, autonomia não significa produzir absolutamente tudo, mas identificar tecnologias cuja dependência externa pode comprometer a liberdade de ação e desenvolver capacidade nacional ou parcerias confiáveis para dominá-las. 

Uma arquitetura de poder nacional 
Quando reunidas, as posições de Degaut formam uma cadeia coerente: previsibilidade orçamentária permite planejamento; planejamento sustenta programas e indústria; transferência de tecnologia e pesquisa ampliam autonomia tecnológica; autonomia tecnológica fortalece a BID; uma BID robusta aumenta a capacidade militar e exportadora; capacidade militar gera dissuasão; e dissuasão oferece maior liberdade de ação à política externa.

É essa conexão que diferencia sua abordagem de uma discussão restrita ao orçamento das Forças Armadas.

Defesa, indústria, tecnologia, comércio exterior, diplomacia, energia e recursos estratégicos aparecem como componentes de um mesmo sistema de poder nacional.

O que pode ser inferido 
Caso essas ideias tenham influência efetiva sobre um eventual governo Flávio Bolsonaro, é razoável inferir uma pressão por maior previsibilidade dos recursos destinados aos programas estratégicos, fortalecimento da BID, mecanismos de financiamento e garantias às exportações, maior exigência de transferência de tecnologia em parcerias internacionais e prioridade para áreas tecnológicas consideradas críticas.

Também seria coerente com esse pensamento uma maior integração entre Defesa e política externa, atenção especial à Amazônia e ao Atlântico Sul e aproximação estratégica com parceiros capazes de oferecer tecnologia, investimentos e acesso a mercados.

Essas são, entretanto, inferências construídas a partir de posições públicas e de uma trajetória administrativa. Não equivalem a compromissos formalmente assumidos pela candidatura.

Permanecem abertas questões decisivas: qual será o nível de recursos destinado à Defesa, quais programas terão prioridade, como serão financiados, quais tecnologias serão consideradas críticas e quais mecanismos serão usados para assegurar continuidade orçamentária.

Consistência estrutural
A principal conclusão da pesquisa é que o pensamento de Marcos Degaut apresenta forte consistência estrutural.

O apoio a programas navais quando estava na SAE, a defesa de autonomia tecnológica e fortalecimento da BID na SEPROD, a ênfase posterior em parcerias industriais e transferência de conhecimento e suas formulações atuais sobre Defesa e política externa pertencem a uma mesma arquitetura intelectual.

Mais do que saber qual cargo Degaut poderia ocupar em um eventual governo, o interesse público está em compreender essa arquitetura.

Se suas ideias efetivamente influenciarem políticas a partir de 2027, a mudança mais relevante poderá não estar em um programa isolado ou em uma aquisição específica, mas na tentativa de integrar instrumentos que o Brasil historicamente administra de maneira fragmentada: orçamento, tecnologia, indústria, Defesa, comércio exterior e diplomacia.

Primeiro Gripen E produzido no Brasil voa e consolida Gavião Peixoto na cadeia global do caça

Marco comprova que a transferência de tecnologia avançou da capacitação para uma capacidade industrial efetiva; linha da Embraer poderá complementar a produção sueca e atender futuras encomendas nacionais e internacionais



*LRCA Defense Consulting - 07/10/2026

O primeiro F-39E Gripen produzido no Brasil pela Embraer realizou nesta quarta-feira, 7 de outubro, seu voo inaugural a partir do complexo industrial de Gavião Peixoto (SP). Mais do que uma etapa prevista no processo de fabricação, o voo representa a comprovação prática de que o País passou a dominar, em território nacional, capacidades de montagem final, integração de sistemas, ensaios em solo e preparação de uma aeronave de caça avançada para testes em voo.


A missão foi conduzida por um piloto de testes da Saab e teve como objetivo verificar o funcionamento dos principais sistemas e validar as características de voo da aeronave. Segundo Embraer e Saab, os resultados confirmaram o desempenho esperado e produziram os dados necessários para a continuidade da campanha de ensaios de produção e aceitação que antecede a entrega à Força Aérea Brasileira (FAB).

Apresentado oficialmente em 25 de março, o caça é o primeiro de 15 exemplares previstos para produção no Brasil dentro do programa atualmente contratado. Depois da conclusão dos testes e do processo de aceitação, deverá seguir para a Base Aérea de Anápolis (GO), onde se integrará ao 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), unidade que opera o Gripen E no País. 


Da transferência de tecnologia à capacidade comprovada 
O significado industrial do voo está diretamente ligado à arquitetura escolhida pela FAB para o Programa Gripen. O contrato assinado em 2014 não se limitou à compra de 36 aeronaves, sendo 28 Gripen E monopostos e oito Gripen F bipostos. Ele incorporou um amplo processo de transferência de tecnologia e cooperação industrial, com engenheiros, técnicos, pilotos de testes e especialistas brasileiros trabalhando junto às equipes suecas em desenvolvimento, engenharia, fabricação, integração, testes e manutenção.

Durante mais de uma década, esse processo criou infraestrutura, formou pessoal e inseriu empresas brasileiras na cadeia de fornecimento do programa. Em março, levantamento publicado pelo LRCA Defense Consulting apontou mais de 350 profissionais brasileiros treinados na Suécia, além da geração de mais de 2 mil empregos diretos e 10 mil indiretos relacionados ao programa. A Saab também ampliou em São Bernardo do Campo (SP) a fabricação de aeroestruturas do Gripen, incluindo a fuselagem traseira, cuja capacidade anual passou de oito para 16 unidades após a abertura de uma segunda linha.

O voo inaugural em Gavião Peixoto é particularmente relevante porque transforma conhecimento transferido em capacidade demonstrada. Montar uma aeronave não equivale, por si só, a dominar todo o ciclo industrial. Ao participar do planejamento e da execução do primeiro voo, além da integração e dos testes anteriores, a Embraer demonstra que a estrutura brasileira alcançou um estágio no qual pode entregar uma aeronave completa para a campanha de aceitação. 


Gavião Peixoto deixa de ser apenas uma linha brasileira 

A evolução mais importante, porém, está no papel reservado à unidade paulista para os próximos anos. Gavião Peixoto abriga a única linha de montagem final do Gripen fora da Suécia e, desde julho, passou a ser formalmente considerada por Saab e Embraer como parte da expansão da capacidade mundial de produção do caça.

Em 21 de julho, durante o Farnborough International Airshow, as duas empresas assinaram um Heads of Agreement (HoA) que estabelece as bases para a potencial produção de 20 Gripen adicionais no Brasil. O documento ainda não constitui o contrato definitivo, mas prevê que a Embraer assuma a montagem dessas aeronaves e que a linha brasileira complemente a de Linköping, na Suécia, para responder ao crescimento da demanda global. As empresas declararam a intenção de concluir o acordo correspondente ainda em 2026.

Esse aspecto altera qualitativamente a posição brasileira no programa. A instalação criada inicialmente para atender parte da encomenda da FAB passa a ser tratada como elemento do sistema produtivo internacional do Gripen. O próprio comunicado divulgado após o voo inaugural afirma que o sucesso da missão valida Gavião Peixoto como parte integrante do sistema global de produção do caça.

Mercado internacional aumenta a importância da linha brasileira 

A expansão ocorre em um momento favorável ao Gripen E/F. Além das encomendas do Brasil e da Suécia, a Colômbia assinou em novembro de 2025 contrato de 3,1 bilhões de euros para 17 aeronaves, sendo 15 Gripen E e dois Gripen F, com entregas previstas até 2032. A Tailândia, que já opera o Gripen C/D, contratou quatro aeronaves da nova geração, três Gripen E e um Gripen F, em negócio de aproximadamente 5,3 bilhões de coroas suecas.

A Ucrânia acrescenta uma variável de grande dimensão. Em maio, Estocolmo e Kiev anunciaram passos para uma possível aquisição inicial de até 20 Gripen E/F pela Ucrânia, paralelamente à intenção sueca de doar até 16 Gripen C/D. A Saab ressalvou, entretanto, que a negociação dos novos Gripen ainda não representa uma encomenda contratada.

Esse crescimento potencial da carteira pressiona a capacidade produtiva da Saab e ajuda a explicar a decisão de estruturar dois polos de montagem. Informações divulgadas pela própria empresa e acompanhadas pelo LRCA indicam que aeronaves destinadas a clientes internacionais poderão ser produzidas no Brasil. Isso não significa que toda nova encomenda será automaticamente direcionada a Gavião Peixoto, mas torna a unidade brasileira uma alternativa industrial concreta para distribuir carga de produção e reduzir prazos de entrega. 


A Colômbia pode ser o primeiro teste da vocação exportadora 

A encomenda colombiana é especialmente relevante por razões geográficas, logísticas e industriais. O LRCA vem acompanhando desde 2025 a possibilidade de participação da Embraer na produção dos Gripen destinados à Força Aeroespacial Colombiana. Com o contrato já assinado, o tema deixou de ser apenas uma hipótese comercial sobre a escolha do caça e passou a depender da definição de como Saab e Embraer distribuirão efetivamente a fabricação dos exemplares colombianos.

A proximidade entre os dois países e a existência de uma linha já capacitada na América do Sul favorecem Gavião Peixoto, mas a participação brasileira em cada lote deve ser tratada com cautela até que os fabricantes divulguem o planejamento industrial definitivo. O fato objetivo é que Saab e Embraer passaram a apresentar a planta paulista como instrumento para atender também à demanda global. 

Um ativo estratégico para a Embraer e para a BID 

Para a Embraer, a maturidade alcançada no Gripen amplia um conjunto de competências que vai além da fabricação de uma aeronave específica. A empresa já domina projetos complexos de aviação comercial, executiva e militar, mas a produção e os ensaios de um caça supersônico moderno acrescentam experiência em integração de sistemas de missão, processos industriais de elevada segurança, testes de produção e interação com cadeias internacionais de defesa.

Para a Base Industrial de Defesa (BID), o ganho mais importante é a permanência dessas competências no País. Transferência de tecnologia só produz valor estratégico duradouro quando gera pessoal qualificado, instalações, processos, propriedade intelectual acessível nos termos acordados e capacidade de aplicar o conhecimento em novos ciclos industriais. O voo de 7 de outubro constitui uma evidência concreta de que uma parcela relevante desse objetivo foi atingida.

Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, classificou o primeiro voo como um marco histórico e afirmou que as competências desenvolvidas ao longo dos anos se converteram em capacidades industriais reais e comprovadas no Brasil. Marcus Wandt, chefe da área de negócios Aeronautics da Saab, destacou que a produção brasileira atingiu um novo nível de maturidade e cria uma base sólida para o futuro desenvolvimento do Gripen no País. 


O próximo passo 

A aeronave que voou nesta quarta-feira seguirá agora pela campanha de testes de produção e aceitação antes da entrega à FAB. Em paralelo, a atenção se volta para dois movimentos: a continuidade da fabricação dos demais Gripen previstos para a linha brasileira e a transformação do acordo de julho para 20 aeronaves adicionais em contratos definitivos.

O contrato original de 2014 permanece como a base do programa brasileiro. O comunicado de 7 de outubro informa que dez aeronaves foram entregues à FAB até o momento, embora divulgações oficiais anteriores tenham apresentado contagens diferentes em determinados estágios do programa. Por essa razão, o número mais recente divulgado pelas empresas é o mais prudente para retratar a situação atual.

Se a expansão prevista for confirmada e Gavião Peixoto receber também aeronaves destinadas ao mercado externo, o primeiro voo realizado em 7 de outubro poderá ser lembrado como o momento em que a transferência de tecnologia do Programa Gripen ultrapassou definitivamente a condição de compensação industrial e passou a sustentar uma atividade brasileira permanente dentro de um programa mundial de aeronaves de combate.

MODIRUM | GESPI transforma experiência em munições em solução industrial modular

Nova estação turn-key pode ser configurada para munições de 105, 120 e 155 mm e insere a empresa em um mercado global pressionado pela necessidade de ampliar e descentralizar capacidades produtivas 



*LRCA Defense Consulting - 07/10/2026

Da munição à capacidade de produzir 
A MODIRUM | GESPI ampliou seu portfólio com uma solução turn-key para implantação de estações de carregamento de munições, movimento que leva a empresa além do fornecimento de produtos de defesa e passa a oferecer também a engenharia necessária para estabelecer ou ampliar capacidades industriais.

A proposta ganha relevância por combinar três características particularmente valorizadas no atual mercado de defesa: modularidade, flexibilidade para diferentes calibres e possibilidade de expansão conforme a demanda. Segundo o material técnico divulgado pela empresa, a plataforma pode ser configurada para munições de 105 mm, 120 mm e 155 mm, incluindo diferentes variantes, e permite fabricar distintas famílias de projéteis dentro da mesma infraestrutura.

Mais do que um novo equipamento, a solução representa a transformação da experiência acumulada pela companhia na produção de munições em um produto industrial potencialmente exportável. Em vez de vender apenas o resultado final da fábrica, a MODIRUM | GESPI passa a oferecer parte do conhecimento necessário para que outros clientes desenvolvam capacidade própria de produção.

Um conceito diferente da linha contínua 
O elemento central da solução é a substituição do fluxo tradicional de produção contínua por estações modulares independentes. Em uma linha convencional, o produto se desloca sucessivamente entre diferentes etapas e uma interrupção em determinado ponto pode repercutir sobre todo o processo.

No conceito apresentado pela MODIRUM | GESPI, cada módulo funciona de maneira independente e o corpo do projétil permanece em sua estação durante o processo. A empresa afirma que essa arquitetura reduz a movimentação interna de materiais, diminui a dependência de um fluxo serial e limita os efeitos provocados por paradas de máquinas ou interrupções em outros pontos da produção.

A modularidade também permite adequar a configuração às necessidades do cliente e acrescentar ou reorganizar estações conforme a demanda. Dessa forma, investimentos adicionais podem acompanhar o crescimento da produção, em vez de exigir, desde o início, uma estrutura dimensionada para a capacidade máxima.

Uma plataforma para três calibres 
Outro diferencial destacado é a produção multicalibre. A mesma plataforma pode ser configurada para 105 mm, 120 mm e 155 mm, sem que cada família de munição exija necessariamente uma linha completamente independente.

De acordo com a documentação da empresa, a mudança entre modelos é realizada principalmente por ajustes de configuração e pequenas alterações de ferramental. Essa característica pode ser especialmente relevante para países ou fabricantes que necessitam produzir volumes diferentes de várias famílias de munições e não dispõem de escala suficiente para justificar instalações exclusivas para cada uma delas.

O calibre 155 mm confere dimensão estratégica adicional à iniciativa. A guerra na Ucrânia evidenciou o consumo elevado de munição de artilharia em conflitos de alta intensidade e desencadeou uma corrida internacional pela recomposição de estoques e ampliação da capacidade industrial.

A corrida mundial pela capacidade industrial 
A tendência não se limita à compra de munições prontas. Países da OTAN vêm procurando ampliar, distribuir e tornar mais resiliente sua própria capacidade de produção. Em julho de 2026, nove aliados anunciaram o projeto multinacional Generic NATO Indirect Fire Round (GENIFR), destinado a estabelecer parâmetros para uma futura munição genérica de 155 mm plenamente intercambiável e interoperável. Segundo a Aliança, a iniciativa pretende simplificar e acelerar a produção.

No mesmo contexto, a OTAN lançou o NATO Engine, iniciativa voltada a conectar empresas a fábricas e instalações avançadas com capacidade disponível, estimulando produção transfronteiriça e expansão industrial. O princípio é relevante para compreender o mercado potencial de soluções modulares: a questão estratégica deixou de ser apenas onde comprar munição e passou a incluir onde e com que rapidez é possível criar nova capacidade de produzi-la.

A dimensão dessa demanda pode ser observada nos investimentos dos grandes fabricantes. A Rheinmetall, por exemplo, informou em setembro que continua ampliando instalações existentes e construindo novas unidades, com objetivo de atingir aproximadamente 1,5 milhão de projéteis de 155 mm por ano em 2030. A empresa vem recebendo sucessivos contratos internacionais para fornecimento desse tipo de munição.

Gargalos permanecem na cadeia 
A estação da MODIRUM | GESPI, entretanto, não deve ser confundida, com as informações disponíveis, com uma fábrica integral e verticalizada de munições. O material divulgado trata especificamente de uma solução de estação de carregamento e não detalha a inclusão de todas as etapas anteriores da cadeia, como fabricação do corpo do projétil, produção de explosivos, propelentes e espoletas.

A distinção é importante porque alguns dos maiores gargalos internacionais estão justamente nos materiais energéticos. A Comissão Europeia já identificou limitações na disponibilidade de nitrocelulose energética, nitroglicerina e altos explosivos, além da capacidade instalada para mistura, extrusão e acondicionamento de propelentes, como obstáculos à expansão da produção de munição de artilharia.

Portanto, a solução apresentada deve ser entendida pelo que está comprovado: uma arquitetura modular para estações de carregamento, concebida para aumentar flexibilidade, escalabilidade e continuidade operacional. Não há, até o momento, dados públicos sobre capacidade anual de cada configuração, prazo de implantação, nível de automação, preço ou clientes já contratados.

Uma evolução da estratégia da MODIRUM | GESPI 
O lançamento não surge isoladamente. Após adquirir participação majoritária na GESPI, a Modirum Defence anunciou investimento nas instalações industriais brasileiras para desenvolver produção regular de munição de 155 mm padrão OTAN. O plano divulgado previa o início de volumes mensais regulares a partir de abril de 2025 e posterior ampliação de acordo com a demanda.

Em setembro de 2025, MODIRUM | GESPI e IMBEL anunciaram o fortalecimento de sua parceria estratégica, destacando compartilhamento de conhecimento técnico, desenvolvimento de soluções, certificação, padronização e controles de qualidade para atender às Forças Armadas brasileiras e ao mercado internacional.

A internacionalização ganhou outro instrumento em junho de 2026, com a criação da Modirum International, estrutura do grupo dedicada a vendas, comercialização e logística de defesa em escala global. Sua atuação inclui munições, foguetes, sistemas aéreos não tripulados, componentes de munição e matérias-primas destinadas à fabricação de produtos de defesa.

A nova estação turn-key se encaixa nessa trajetória. A companhia passa a ter condições de oferecer não apenas munições e componentes, mas uma solução de engenharia destinada a clientes que pretendam instalar ou ampliar capacidade local de carregamento.

Produção local como ativo estratégico 
A busca por soberania industrial tornou-se um dos efeitos duradouros das crises recentes. Estoques nacionais, capacidade de reposição e segurança das cadeias de suprimento voltaram a ocupar posição central no planejamento de defesa. Nesse cenário, países que não pretendem construir grandes complexos industriais desde o início podem encontrar valor em instalações escaláveis e configuráveis para diferentes necessidades.

É justamente nesse espaço que a proposta da MODIRUM | GESPI pode encontrar oportunidades. Uma solução modular reduz a necessidade de estruturas dedicadas a um único modelo e permite ampliar a capacidade de forma progressiva. Para mercados que desejam nacionalizar parte da produção, estabelecer uma segunda fonte ou criar reservas industriais mobilizáveis, essa flexibilidade pode representar vantagem.

Ainda não é possível medir a dimensão comercial da iniciativa. A empresa não divulgou contratos, clientes, capacidade produtiva por estação ou mercados específicos em negociação. Também não há elementos públicos suficientes para afirmar que o sistema constitua uma fábrica completa de munições.

Mesmo com essas ressalvas, o lançamento representa uma evolução relevante. Ao transformar conhecimento adquirido na fabricação de munições em uma solução industrial oferecida ao mercado, a MODIRUM | GESPI procura ocupar um segmento que ganhou importância estratégica: não apenas fornecer munição, mas ajudar a criar a capacidade para produzi-la.

06 outubro, 2026

Avibras Aeroco faz primeira entrega ao Exército e transforma retomada industrial em resultado concreto

Cinco meses após reiniciar as operações, empresa entrega lote de munições em Formosa; marco ocorre dias depois da transferência de contrato de R$ 60,8 milhões que prevê 3.072 foguetes ASTROS



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LRCA Defense Consulting - 06/10/2026

A Avibras Aeroco alcançou nesta terça-feira, 6 de outubro, um dos marcos mais relevantes desde a retomada de suas operações: a entrega do primeiro lote de munições ao Exército Brasileiro (EB). O material foi recebido no Centro de Logística de Mísseis e Foguetes (C Log Msl Fgt), em Formosa (GO), principal estrutura logística de apoio ao Sistema ASTROS da Força Terrestre.


A entrega ocorre apenas cinco meses depois do início oficial das atividades da nova empresa, em maio, após um longo período de crise financeira, recuperação judicial e paralisação industrial da antiga Avibras. Mais do que cumprir uma etapa contratual, o evento representa a primeira demonstração concreta de que a reorganização empresarial conseguiu reativar a cadeia produtiva, recompor equipes especializadas e voltar a colocar material de emprego militar nas mãos do principal cliente nacional da companhia.

Que munições foram entregues? 

A Avibras Aeroco não informou, em seu comunicado, o tipo nem a quantidade das munições que compõem o primeiro lote. Esse ponto impede afirmar, neste momento, que a entrega corresponda a um contrato específico.

Há, entretanto, uma coincidência relevante. Em 25 de setembro, poucos dias antes da entrega, foi publicada a sub-rogação total do Contrato nº 130/2023, pelo qual a Avibras Aeroco assumiu da Avibras Divisão Aérea e Naval S.A. todos os direitos e obrigações de uma encomenda do Exército no valor de R$ 60.800.818,56, com vigência até 31 de dezembro de 2026.

Como o LRCA Defense Consulting revelou em 28 de setembro, a documentação original desse contrato prevê 3.072 foguetes para o Sistema ASTROS: 2.624 AV-SS-09 TS, destinados ao treinamento das guarnições, e 56 contêineres completos AV-CL/SS-30, cada um contendo oito foguetes SS-30, totalizando outras 448 munições.

Os AV-SS-09 TS representam a maior parcela quantitativa da encomenda e somam R$ 37,96 milhões. Os contêineres com os 448 SS-30 correspondem a outros R$ 22,85 milhões. Embora a proximidade entre a transferência contratual e a entrega desta terça-feira torne plausível uma relação entre os dois fatos, não há, até o momento, confirmação pública da empresa ou do Exército que permita estabelecer essa vinculação como fato. 



De uma fábrica paralisada à primeira entrega em cinco meses 
A velocidade da retomada é um dos aspectos mais relevantes do anúncio. A Avibras Aeroco iniciou oficialmente suas operações em maio de 2026, reunindo ativos estratégicos, instalações e o portfólio tecnológico transferidos no processo de reorganização da antiga Avibras Indústria Aeroespacial.

A reativação foi apoiada por uma captação privada de aproximadamente R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito. O processo permitiu reintegrar trabalhadores, contratar profissionais especializados, recompor fornecedores e colocar novamente em funcionamento áreas ligadas à fabricação de mísseis, foguetes, veículos especiais e sistemas aeroespaciais.

Em maio, a nova companhia também foi credenciada pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED). Em julho, durante visita às instalações de Jacareí (SP), o Ministério da Defesa registrou que a fábrica já operava na produção de componentes metálicos para mísseis e foguetes, na montagem de sistemas de defesa e na fabricação de veículos especiais.

Segundo o comunicado divulgado nesta terça-feira, a empresa precisou, nesses cinco meses, ativar áreas produtivas, incorporar mão de obra especializada e restabelecer elos de sua cadeia de suprimentos. A primeira entrega mostra que essa recomposição ultrapassou a fase de preparação fabril e chegou efetivamente à etapa de produção, aceitação logística e fornecimento ao cliente.

O Exército como elemento central da recuperação 
O Exército Brasileiro tem exercido papel central na retomada da Avibras Aeroco. Já em 6 de maio, representantes da empresa reuniram-se no Centro Tecnológico do Exército (CTEx), no Rio de Janeiro, com autoridades responsáveis por fabricação, tecnologia, avaliação e artilharia para alinhar demandas em andamento e discutir futuros contratos.

Em julho, nova reunião na unidade industrial de Jacareí reuniu a Diretoria de Fabricação, o Comando de Artilharia do Exército, as gerências do Programa Estratégico ASTROS-FOGOS e do Subprograma Artilharia de Campanha, além da Comissão de Absorção de Conhecimentos e Transferência de Tecnologia. O encontro tratou tanto dos contratos existentes quanto de novas possibilidades de cooperação.

A escolha de Formosa para a primeira entrega é igualmente significativa. O Forte Santa Bárbara concentra o Comando de Artilharia do Exército e organizações diretamente ligadas ao emprego, treinamento, manutenção e logística de mísseis e foguetes. É ali que se encontra o Centro de Logística de Mísseis e Foguetes, responsável por sustentar a capacidade operacional do ASTROS.

ASTROS volta ao centro da atividade industrial 

O Sistema ASTROS continua sendo o principal ativo tecnológico e comercial da Avibras Aeroco. Desenvolvido no Brasil e exportado para diferentes países, o sistema permite empregar munições de diferentes calibres e alcances a partir de uma arquitetura móvel de lançadores, viaturas de comando, remuniciamento, apoio e controle de tiro.

Para o Exército, a disponibilidade regular de foguetes não se limita à formação de estoques. As munições de treinamento são necessárias para manter guarnições qualificadas, realizar exercícios de tiro e preservar a prontidão de unidades especializadas. Já os foguetes operacionais recompõem e ampliam a capacidade de fogo da Força Terrestre.

A retomada industrial ocorre paralelamente à evolução tecnológica do próprio ASTROS. Em agosto, Avibras Aeroco e Exército realizaram com sucesso mais uma etapa da certificação do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), no Centro de Avaliações do Exército, na Restinga da Marambaia (RJ). O armamento, integrado ao sistema, foi desenvolvido para alcançar alvos a até 300 quilômetros.

O Programa Estratégico ASTROS-FOGOS também contempla a evolução da artilharia brasileira para capacidades de maior alcance e precisão, incluindo o foguete guiado SS-40G e o MTC, além da modernização mais ampla da Artilharia de Campanha. 


Mudança de controle avança em paralelo 
A recuperação operacional ocorre ao mesmo tempo em que a estrutura de controle da empresa passa por nova transformação. Em agosto, a Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais de Joesley e Wesley Batista, acertou a aquisição da Nova AVB S.A., holding que controla integralmente a Avibras Aeroco.

Em 14 de setembro, a Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a operação sem restrições, ao concluir que a transação representava essencialmente uma substituição de agente econômico, sem potencial de produzir problemas concorrenciais. O valor da aquisição não foi divulgado.

A combinação de novo capital, continuidade dos contratos militares e retomada das linhas industriais cria uma situação bastante diferente daquela enfrentada pela companhia nos últimos anos. A sustentabilidade dessa recuperação, porém, continuará dependendo de encomendas domésticas, exportações, investimentos em desenvolvimento tecnológico e capacidade de manter uma cadeia de fornecedores compatível com produtos de defesa de alta complexidade.

Um marco que pode ser mais importante que o tamanho do lote 

Mesmo sem a divulgação da quantidade entregue nesta terça-feira, o significado industrial do evento é claro. Para uma fabricante de sistemas complexos, voltar a produzir não significa apenas religar máquinas. É necessário requalificar processos, restabelecer fornecedores, assegurar matérias-primas e componentes, recompor equipes de engenharia e produção, executar controles de qualidade e atender aos requisitos de aceitação do cliente militar.

A primeira entrega ao Exército indica que a Avibras Aeroco conseguiu percorrer esse ciclo em aproximadamente cinco meses. Trata-se de um indicador concreto de recuperação de capacidade produtiva, ainda que não seja suficiente, isoladamente, para assegurar a sustentabilidade financeira de longo prazo da companhia.

O próximo ponto a observar será a cadência das entregas. Caso o lote esteja relacionado ao Contrato nº 130/2023, a empresa terá diante de si uma encomenda que, em sua configuração original, envolve milhares de foguetes e prazo contratual até o fim de dezembro. Se pertencer a outro instrumento, a entrega continuará tendo relevância própria e reforçará a existência de uma carteira em execução.

De qualquer forma, cinco meses depois de iniciar uma nova etapa empresarial, a fabricante do ASTROS voltou a fazer aquilo que constitui a razão central de sua existência: transformar tecnologia nacional em sistemas e munições entregues às Forças Armadas brasileiras.

Agrale amplia aposta em ônibus a gás na Argentina e se posiciona para a renovação da frota a partir de 2027

Acordo de longo prazo com a Hexagon Agility prevê mais de 400 novos ônibus a GNV, após uma primeira encomenda de 108 sistemas, enquanto Buenos Aires prepara a substituição gradual do diesel por gás natural e eletricidade



*LRCA Defense Consulting - 06/10/2026

A Agrale Argentina deu um passo relevante para ampliar sua presença no processo de renovação do transporte coletivo argentino. A empresa de origem brasileira e a Hexagon Agility firmaram um acordo de longo prazo para equipar mais de 400 novos ônibus movidos a gás natural veicular (GNV), ampliando uma parceria que, em maio de 2026, havia resultado na encomenda de 108 sistemas de combustível para ônibus urbanos.

O movimento ganha importância porque ocorre às vésperas de uma mudança regulatória em Buenos Aires. A partir de 1º de janeiro de 2027, os ônibus zero quilômetro registrados para os serviços de transporte coletivo sob jurisdição da cidade deverão utilizar gás natural comprimido ou propulsão elétrica. Os veículos a diesel atualmente habilitados poderão continuar em operação até atingirem a idade máxima regulamentar.

Mais do que uma encomenda isolada, portanto, a parceria coloca a Agrale diante de um mercado que tende a acelerar a substituição de uma frota ainda fortemente dependente do diesel. Segundo dados divulgados pelas próprias empresas, mais de 97% dos ônibus da capital argentina ainda utilizam esse combustível.

De 108 para mais de 400 ônibus em poucos meses 
A primeira grande encomenda da Hexagon Agility para o transporte coletivo argentino foi anunciada em 27 de maio de 2026. O contrato previa o fornecimento de 108 sistemas de GNV para ônibus da Agrale Argentina, com entrada em serviço em Buenos Aires a partir do segundo semestre.

Em 14 de setembro, menos de quatro meses depois, as empresas anunciaram a nova etapa: mais de 400 ônibus adicionais e um acordo de longo prazo. A Hexagon descreveu o movimento como uma expansão significativa da parceria e vinculou-o ao crescimento do transporte público movido a gás natural na Argentina e, potencialmente, em outros mercados da região.

Há uma cautela importante na interpretação dos números. O anúncio confirma o acordo entre Agrale e Hexagon para equipar mais de 400 veículos, mas não identifica os operadores finais, o valor envolvido nem a distribuição das unidades por cidades. Assim, não é adequado interpretar automaticamente o número como mais de 400 ônibus já vendidos e entregues a empresas de transporte.

Produção argentina com capital brasileiro 
Outro aspecto relevante é o caráter industrial da operação. A Agrale não atua no mercado argentino apenas como exportadora de veículos produzidos no Brasil. Sua fábrica de Mercedes, na província de Buenos Aires, produz chassis para ônibus, caminhões leves e tratores.

Em agosto de 2026, durante visita do ministro dos Transportes da província de Buenos Aires, Martín Marinucci, o governo provincial informou que a companhia possui três fábricas no Brasil e uma na Argentina e que, desde sua instalação no país vizinho, produziu e comercializou mais de 9 mil unidades destinadas ao transporte de passageiros, muitas delas fabricadas e desenvolvidas localmente.

Gabriel Ruggiero, diretor comercial da Agrale Argentina, destacou justamente essa característica ao anunciar a parceria ampliada com a Hexagon. Segundo ele, a produção nacional permite responder com maior rapidez às demandas específicas dos operadores argentinos.

Buenos Aires cria um mercado para GNV e eletricidade 
O cenário regulatório ajuda a explicar por que a escala do negócio aumentou tão rapidamente. A Resolução 111/SECT/25 da Secretaria de Transporte de Buenos Aires determinou que, a partir de janeiro de 2027, novos ônibus incorporados ao sistema deverão utilizar GNC, denominação argentina para o gás natural comprimido, ou propulsão elétrica.

A medida não determina a retirada imediata dos ônibus a diesel. Ela atua sobre a renovação da frota: à medida que veículos antigos forem substituídos, o diesel deixará de ser uma opção para as novas unidades abrangidas pela regulamentação.

Isso abre uma disputa tecnológica interessante. A eletrificação oferece operação local sem emissões pelo escapamento, mas exige investimentos em veículos, infraestrutura de recarga, rede elétrica e gestão energética. O ônibus a gás, por sua vez, utiliza uma tecnologia de combustão já madura e pode aproveitar a extensa infraestrutura argentina de gás natural, embora não seja uma solução de emissão zero quando abastecido com gás fóssil.

A infraestrutura começa a acompanhar os veículos 
O governo argentino também vem atualizando a regulamentação para permitir que a infraestrutura de abastecimento acompanhe o avanço dos veículos pesados a gás. Em abril de 2026, o ENARGAS aprovou a nova Norma NAG-420, que estabelece requisitos para ampliar a habilitação de instalações destinadas ao abastecimento de veículos pesados.

Essa questão é decisiva. A adoção de centenas de ônibus exige instalações capazes de abastecer grandes frotas dentro das janelas operacionais das garagens, algo bastante diferente do abastecimento convencional de automóveis.

Tecnologia de cilindros reduz o peso do sistema 
A Hexagon Agility fornece sistemas que utilizam cilindros Tipo 4, construídos com materiais compostos e fibra de carbono. A redução de peso em relação aos reservatórios metálicos tradicionais é especialmente relevante para ônibus, nos quais a massa do sistema de armazenamento interfere na capacidade de passageiros, na autonomia e nos limites de carga por eixo.

A parceria também se insere em uma cadeia tecnológica mais ampla. Desde 2025, a FPT Industrial fornece à Agrale o motor N60 CNG para o chassi MA 11.0 GNV. O propulsor, de 200 cv e 750 Nm, pode funcionar com gás natural ou biometano, permitindo que a mesma arquitetura veicular utilize futuramente combustível renovável sem exigir a substituição integral do sistema de propulsão.

Gás natural como alternativa de transição 
A Argentina reúne condições particularmente favoráveis para essa solução. O País possui grandes reservas de gás natural, produção crescente e uma rede de GNV desenvolvida ao longo de décadas. Para operadores de transporte, isso pode reduzir a barreira de entrada quando comparada a uma eletrificação integral da frota.

O benefício ambiental, entretanto, deve ser analisado com cuidado. O gás natural fóssil continua emitindo dióxido de carbono e a cadeia precisa controlar eventuais emissões fugitivas de metano. Sua vantagem aumenta quando substitui motores diesel mais antigos e cresce substancialmente quando o combustível utilizado é biometano.

Por isso, GNV e eletrificação não precisam necessariamente ser vistos como soluções excludentes. Dependendo da cidade, das rotas, da infraestrutura e da disponibilidade energética, diferentes tecnologias podem coexistir durante a transição.

Uma oportunidade que pode ultrapassar Buenos Aires 
O interesse argentino pelo gás no transporte pesado não está restrito à capital. Rosario, por exemplo, avançou em processo para aquisição de 45 ônibus zero quilômetro movidos integralmente a GNV. Não há, até o momento, elementos que permitam associar essas unidades à Agrale, mas o processo demonstra que a demanda por essa tecnologia começa a surgir em outros centros urbanos.

A própria Agrale e a Hexagon afirmam enxergar oportunidades em toda a região. Para a fabricante brasileira, a operação argentina pode funcionar como uma referência industrial importante: desenvolvimento e produção locais, integração com fornecedores internacionais de tecnologia e uma plataforma capaz de operar com gás natural ou biometano.

Isso não significa que o modelo será automaticamente reproduzido em outros países latino-americanos. Preço relativo dos combustíveis, disponibilidade de gás, infraestrutura, subsídios, regras ambientais e custo dos ônibus elétricos variam significativamente entre os mercados. Mas a escala alcançada na Argentina oferece à Agrale uma vitrine concreta para disputar novas oportunidades.

Uma trajetória iniciada antes da atual mudança 
A aposta da Agrale no gás argentino não começou em 2026. Buenos Aires já realizava testes com ônibus de tecnologias limpas anos antes da atual regulamentação. O que muda agora é a escala: uma tecnologia que passou por demonstrações e encomendas iniciais começa a ser incorporada a centenas de veículos justamente quando as regras passam a direcionar a renovação da frota para alternativas ao diesel.

Nesse contexto, o acordo com a Hexagon Agility representa mais do que o fornecimento de reservatórios para ônibus. Ele posiciona uma fabricante brasileira, por meio de sua estrutura industrial argentina, em uma transformação que pode redesenhar parte do transporte coletivo do país vizinho nos próximos anos.

Se a combinação entre disponibilidade de gás, custo operacional, infraestrutura e regulamentação confirmar as expectativas das empresas, os mais de 400 ônibus poderão ser apenas a primeira etapa de uma oportunidade maior. A dimensão real desse mercado, contudo, dependerá da velocidade de renovação das frotas, das decisões dos operadores e da competição crescente com os ônibus elétricos.

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