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29 setembro, 2026

Telebras coordenará rede com tripla redundância para transmitir a Copa Feminina de 2027

Contrato de R$ 230,5 milhões prevê circuitos de alta capacidade, participação de outras operadoras e infraestrutura pronta em maio de 2027

Imagem meramente ilustrativa

*LRCA Defense Consulting - 29/09/2026

A Telebras será responsável por uma rede de telecomunicações que deverá conectar os oito estádios da Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027 a um centro de transmissão no Rio de Janeiro. O contrato com o Ministério das Comunicações (MCom), divulgado em 29 de setembro, tem valor estimado de R$ 230,5 milhões e prevê uma solução com trajetos independentes, redundância e participação obrigatória de outra operadora em parte das conexões.

O termo de referência consultado pela LRCA detalha exigências que ajudam a dimensionar a operação. Além de transportar áudio, vídeo, sincronismo e dados, a Telebras deverá coordenar a implantação, os testes, a manutenção e o suporte durante o evento. Os requisitos descrevem o que deve ser entregue, sem comprovar que a rede já esteja instalada.

Três circuitos por estádio 
Cada estádio deverá ser atendido por três circuitos independentes, identificados como azul, vermelho e verde, com percursos geograficamente distintos e sem pontos críticos comuns. Cada circuito terá duas vias redundantes, com capacidade mínima de 50 gigabits por segundo (Gbps) por via. A arquitetura busca reduzir o risco de que uma falha comprometa simultaneamente os caminhos disponíveis para a transmissão.

A rede conectará os estádios Mineirão, Mané Garrincha, Castelão, Beira-Rio, Arena Pernambuco, Maracanã, Fonte Nova e Arena Corinthians ao centro de transmissão previsto no Píer Mauá. Um estúdio em Copacabana contará com os mesmos requisitos de tripla abordagem e redundância. O centro também será interligado a dois pontos de presença internacionais, a serem indicados pela FIFA/HBS na região metropolitana do Rio.

Os acessos gerenciados à internet deverão ser fisicamente separados da rede de contribuição audiovisual, com segregação de cabos, rotas, equipamentos e operação. O documento proíbe até mesmo o compartilhamento do cabo óptico utilizado pelos circuitos que transportarão os sinais das transmissões.

Outra operadora terá participação obrigatória 
A diversidade de fornecedores integra as exigências técnicas. Pelo menos um dos três circuitos de cada estádio e do estúdio de TV deverá ser fornecido por uma operadora de telecomunicações distinta da Telebras. A condição procura evitar que todos os caminhos dependam exclusivamente de um único prestador.

O termo permite a contratação de terceiros para fornecer capacidade de rede, circuitos, obras civis, lançamento de cabos e outros serviços complementares, mediante autorização prévia da Administração. A Telebras, porém, manterá a responsabilidade integral pelo desempenho e pela entrega da solução. A documentação examinada não identifica quais operadoras participarão. 

Imagem meramente ilustrativa

Testes e operação concentram metade do valor 
O valor de R$ 230.525.371,93 está distribuído em cinco etapas. O planejamento técnico representa 2%, cerca de R$ 4,61 milhões; a implantação, 40%, aproximadamente R$ 92,21 milhões; os testes e o comissionamento, 20%, cerca de R$ 46,11 milhões; a operação assistida e o período crítico, 30%, aproximadamente R$ 69,16 milhões; e a desmobilização e documentação final, 8%, cerca de R$ 18,44 milhões.

Assim, metade do montante está vinculada às etapas de testes e operação. Elas incluem validação de desempenho e redundância, monitoramento contínuo, manutenção, suporte e tratamento de incidentes. Os pagamentos dependerão dos serviços efetivamente executados, medidos e aceitos pela Administração.

Segundo o termo de referência, a pesquisa de preços produziu uma estimativa de R$ 236,13 milhões. A proposta da Telebras ficou aproximadamente R$ 5,61 milhões abaixo, uma diferença de 2,38%. Essa comparação registra a posição da proposta em relação à referência do MCom; por si só, não comprova economia efetiva na execução.

Rede pronta antes da abertura 
O cronograma prevê uma prova de conceito no primeiro trimestre de 2027. A infraestrutura deverá estar implantada, testada e pronta para serviço até 15 de maio, antes do jogo de abertura, em 24 de junho. A operação plena deverá ser mantida até 25 de julho, com permanência do serviço até o dia 26 e posterior desmobilização segura.

A vigência prevista é de 12 meses. Embora haja possibilidade de prorrogação pelo período necessário à conclusão do escopo, o termo ressalva que isso não altera automaticamente as datas críticas de entrega. Atrasos injustificados poderão resultar em ajustes de pagamento e sanções.

A contratação direta foi formalizada pela Dispensa de Licitação nº 90011/2026. Conforme o termo de referência, o fundamento inclui o artigo 75, inciso IX, da Lei nº 14.133/2021 e o artigo 27 da Lei nº 15.421/2026, que prevê a contratação da Telebras para os serviços necessários ao evento.

Contratações complementares e legado
Em uma frente distinta, a Telebras anunciou o Pregão Eletrônico/SRP nº 35/2026, com abertura prevista para 2 de outubro. O objeto abrange vistorias, projetos e implantação ou expansão de infraestrutura, mencionando expressamente a Copa Feminina. Como também contempla outras demandas da estatal, seu eventual valor não pode ser tratado automaticamente como despesa adicional do torneio.

O alcance do legado permanente ainda exige esclarecimentos. O escopo prevê desativação, retirada ou regularização de equipamentos e documentação final. Assim, não é possível afirmar que todo o valor contratado será convertido em infraestrutura incorporada ao País. Será necessário conhecer quais ativos permanecerão em operação, sua destinação e as condições de aproveitamento após a competição. 
 
Telebras e as comunicações estratégicas do País
A Telecomunicações Brasileiras S.A. (Telebras) é uma sociedade de economia mista de capital aberto vinculada ao Ministério das Comunicações. Atua no fornecimento de conectividade à administração pública, no apoio a provedores regionais e na execução de políticas de inclusão digital. Sua infraestrutura reúne mais de 30 mil quilômetros de rede de fibra óptica e serviços por meio do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC), que amplia o alcance das conexões em território brasileiro.

A companhia também é credenciada pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED), condição formalizada pela Portaria GM-MD nº 2.526, de 6 de junho de 2025, publicada em 11 de junho daquele ano. O credenciamento insere a Telebras entre as empresas reconhecidas por sua relevância para a segurança e a defesa nacionais, em consonância com sua atuação nas comunicações estratégicas do Estado e na soberania das telecomunicações do País. 

28 setembro, 2026

Contrato transferido à Avibras Aeroco prevê mais de 3 mil foguetes para o ASTROS

Documentos da contratação de R$ 60,8 milhões detalham aquisição de munições SS-09 TS e SS-30 pelo Exército, com maior parcela do valor destinada ao treinamento das guarnições

Imagem renderizada e meramente ilustrativa


*LRCA Defense Consulting - 28/09/2026

O contrato de R$ 60,8 milhões do Exército Brasileiro cuja transferência para a Avibras Aeroco foi noticiada nesta segunda-feira, 28 de setembro, prevê a aquisição de 3.072 foguetes para o sistema ASTROS. A composição da compra foi identificada pela LRCA Defense Consulting no contrato original e em seu termo de referência, disponíveis no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP).

São 2.624 foguetes AV-SS-09 TS, empregados no treinamento, e 56 contêineres AV-CL/SS-30 completos, cada um com oito foguetes SS-30, totalizando outras 448 munições. Os documentos esclarecem o objeto do Contrato nº 130/2023, que não estava discriminado no extrato de transferência descrito pela Revista Sociedade Militar.

Segundo a publicação, o ato divulgado no Diário Oficial da União de 25 de setembro registra a sub-rogação total do contrato da Avibras Divisão Aérea e Naval S/A para a Avibras Aeroco Indústria Aeroespacial Ltda., com transferência dos direitos e obrigações. O valor informado permanece em R$ 60.800.818,56 e a vigência se estende até 31 de dezembro de 2026.

O que compõe os R$ 60,8 milhões
Firmado pelo Centro de Obtenções do Exército em 30 de novembro de 2023, o Termo de Contrato nº 130-COEx/CSUP está vinculado ao processo administrativo 64488.052709/2023-42. Sua cláusula primeira apresenta os dois itens, também relacionados no Termo de Referência nº 107/2023.

Os 2.624 foguetes AV-SS-09 TS foram contratados pelo preço unitário de R$ 14.464,78, somando R$ 37.955.582,72. Já os 56 contêineres completos com SS-30 custam R$ 407.950,64 cada, em um total de R$ 22.845.235,84. A soma corresponde exatamente ao valor global divulgado.

A quantidade de 3.072 foguetes é a prevista na contratação original. Ela não deve ser interpretada como o número de munições ainda pendentes de entrega à Força Terrestre, pois os documentos examinados não permitem estabelecer esse saldo.

Treinamento concentra a maior parcela do valor 
Os foguetes AV-SS-09 TS representam aproximadamente 62,4% do valor contratado. Documentação técnica do Instituto Militar de Engenharia identifica o modelo como foguete de treinamento solo-solo. Uma publicação da revista Doutrina Militar Terrestre, do Exército, destaca que seu emprego reduz os custos do treinamento das guarnições ASTROS em atividades como escolas de fogo.

Essa composição evidencia uma dimensão relevante da aquisição: o suprimento de munições para sustentar o adestramento. O treinamento com tiro real complementa a disponibilidade dos lançadores e permite exercitar as equipes que operam o sistema.

O objeto discriminado nos documentos compreende essas duas modalidades de fornecimento. Não há, nessa relação, aquisição de viaturas lançadoras nem contratação de mísseis táticos de cruzeiro ou balísticos.

Entrega prevista em Formosa e prorrogações
O termo de referência original estabelecia entrega em até 300 dias após a assinatura, em remessas parceladas conforme o cronograma da proposta. O recebimento deveria ocorrer no Centro de Logística de Mísseis e Foguetes, no Forte Santa Bárbara, em Formosa (GO). A vigência inicial era de 480 dias, e a garantia contratual mínima dos bens, de cinco anos a partir do recebimento definitivo.

O prazo de vigência foi posteriormente ampliado. O extrato do aditivo nº 1/2025, assinado em 21 de março e publicado no DOU de 25 de março de 2025, prorrogou o contrato até 24 de março de 2026, mantendo o valor total informado. Em março de 2026, o Atlas Público noticiou outra prorrogação, até 31 de dezembro daquele ano.

A transferência agora noticiada insere o compromisso de fornecimento na nova estrutura empresarial da Avibras. Seu significado é a continuidade de uma contratação existente, com a substituição da empresa responsável por seus direitos e obrigações, sem que o valor divulgado caracterize uma nova compra em setembro.

Execução ainda precisa ser esclarecida
O contrato original e o termo de referência permitem identificar os produtos, as quantidades e os preços pactuados. Entretanto, não mostram quantas munições já foram entregues e aceitas, os pagamentos realizados ou o cronograma atualizado do saldo remanescente.

A sub-rogação, por si só, também não comprova a retomada das entregas. O avanço documentado nesta apuração é a identificação precisa da encomenda cuja continuidade foi noticiada: foguetes para o sistema ASTROS, com participação expressiva das munições destinadas ao treinamento de suas guarnições.

Da falange ao algoritmo, a guerra certamente mudou. E a Defesa?


 
*Luiz Alberto Cureau Jr. - 28/09/2026

A história da guerra é, em grande medida, a história da adaptação. Quando lutar isoladamente deixou de ser suficiente, surgiram formações capazes de transformar homens em força organizada. Macedônios combinaram falanges, cavalaria e infantaria. Romanos acrescentaram flexibilidade, comando e logística.

A lição atravessa o tempo, nenhuma vantagem militar é permanente. Organizações também não sobrevivem apenas do passado.

No século XX, a combinação de armas tornou-se condição para vencer. No século XXI, continua necessária, mas já não é suficiente. O campo de batalha passou a integrar terra, mar, ar, espaço, ambiente cibernético e espectro eletromagnético. Drones observam e atacam. Satélites orientam operações. Inteligência artificial processa dados em velocidade crescente. Sistemas não tripulados, guerra eletrônica, sensores e redes encurtam o tempo entre detectar, decidir e agir.

Isso muda também o papel da indústria de defesa.

Já não basta fabricar uma excelente plataforma isolada. Um blindado, aeronave, navio ou míssil será tão eficaz quanto sua capacidade de comunicar, receber dados, operar sob interferência, proteger seus acessos e integrar-se aos demais meios. A nova combinação de armas é também uma combinação de tecnologias.

Para o Brasil, há aqui uma questão estratégica. Temos empresas, centros de pesquisa, universidades, engenheiros e programas militares. Mas possuir competências dispersas não significa possuir capacidade de combate integrada. Entre tecnologia e poder militar estão doutrina, escala, orçamento, treinamento e integração.

Forças Armadas e Base Industrial de Defesa não podem caminhar em pistas paralelas. A Força precisa indicar o problema operacional, a indústria, transformar a necessidade em solução, a academia, ampliar o conhecimento, e o Estado, assegurar continuidade. Sem demanda previsível, a indústria não investe. Sem indústria nacional robusta, a autonomia militar diminui. E sem doutrina atualizada, até a melhor tecnologia pode ser apenas equipamento caro.

O maior perigo é preparar estruturas para a guerra conhecida enquanto possíveis adversários se preparam para a próxima.

A falange foi revolucionária. A legião também. O carro de combate, o avião e o míssil igualmente. Hoje, a transformação passa pela integração de sensores, dados, inteligência, ciberdefesa, sistemas autônomos e decisão.

A história militar é severa com quem demora a aprender, tecnologia sem doutrina é ferramenta, doutrina sem indústria é intenção, e Forças Armadas sem capacidade de adaptação podem descobrir tarde demais que estavam prontas para a guerra de ontem. 
 
E o Brasil está pronto para a nova era ou ainda joga os dados da Segunda Grande Guerra?
 
 
*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 (Veterano) do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do 19º Batalhão de Infantaria Motorizado, comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Brigada de Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor de Defesa e Clima na Segura.  

Da prancheta do RUSI à trincheira ucraniana, o Super Tucano entra na disputa pela caça aos drones russos

Enquanto um estudo britânico propõe uma esquadrilha da OTAN de treinadores armados, a iniciativa de Kiev por 24 A-29 revela o nicho em que a aeronave da Embraer leva vantagem, mas esbarra no atual veto de Brasília



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LRCA Defense Consulting - 28/09/2026

Em menos de uma semana, dois movimentos vindos de lados diferentes do continente europeu chegaram à mesma conclusão: abater drones russos com caças de primeira linha e mísseis ar-ar de alto custo não é sustentável, e aviões de treinamento armados podem fazer o serviço por uma fração do preço. Em 19 de setembro, a agência Interfax-Ukraine noticiou que o ex-presidente ucraniano Petro Poroshenko trabalha para viabilizar a entrega de 24 A-29 Super Tucano, da Embraer, destinados à defesa da infraestrutura crítica do país. Quatro dias depois, o pesquisador Justin Bronk, do Royal United Services Institute (RUSI), o mais antigo think tank de defesa do mundo, publicou um estudo propondo a criação de um esquadrão multinacional da OTAN dedicado exclusivamente à interceptação de drones.

A aeronave brasileira aparece nas duas iniciativas, mas com pesos distintos. No texto britânico, ela é avaliada como excelente para uma parte da ameaça e insuficiente para outra. Na proposta ucraniana, é a escolha declarada. Entender essa diferença ajuda a medir, com realismo, o que o Super Tucano pode oferecer à guerra dos drones.

Um problema que já chegou ao espaço aéreo da Aliança 
O ponto de partida de Bronk é o aumento das incursões de drones russos de ataque unidirecional e de engodo no espaço aéreo de países da OTAN ao longo dos últimos 18 meses. Em setembro de 2025, F-35A holandeses derrubaram drones Geran ou Gerbera sobre a Polônia, provavelmente com mísseis AIM-120 AMRAAM. Em julho deste ano, F-16 romenos abateram ao menos três aparelhos; em agosto, um F/A-18 espanhol derrubou outro; e, em setembro, Eurofighter italianos abateram um drone não identificado sobre a Lituânia.

Na Ucrânia, a conta é ainda mais pesada. Segundo o pesquisador, os F-16 da Força Aérea ucraniana já derrubaram bem mais de mil drones desde 2024, mas o emprego intenso consumiu rapidamente a vida útil das células, gerou filas de manutenção e levou a uma séria escassez de mísseis ar-ar. Os serviços de inteligência ucranianos estimam que a Rússia produza cerca de 3 mil drones a jato por mês, o que torna a pressão barata para Moscou e cara para quem se defende.

A proposta do RUSI 
Bronk defende uma unidade de 16 a 24 aeronaves, com tripulações treinadas apenas para essa missão e destacamentos em alerta na Romênia, na Polônia e nos países bálticos. Os requisitos são exigentes: interceptar os Geran-3 e Geran-4 a jato à noite, com tempo ruim e sob interferência no GPS, já que uma capacidade limitada aos drones a hélice seria facilmente contornada pelos russos. O Geran-4, lembra o autor, voa em cruzeiro entre 350 e 500 km/h, dependendo da altitude, do combustível e da ogiva.

A aeronave ideal, segundo o estudo, precisa estar disponível rapidamente, custar bem menos que um caça para adquirir e operar, ter dois assentos (um para o piloto e outro para o operador de sensores) e atingir ao menos 300 nós (cerca de 555 km/h). Esse limiar foi informado ao pesquisador por um grupo de voluntários que já opera na Ucrânia um PC-9 armado com casulos de metralhadoras minigun de 7,62 mm. Com essa configuração, o PC-9 só alcança tal velocidade em mergulho, mas, ainda assim, o grupo derrubou vários Geran-3/4 de dia e à noite.

O que o estudo diz sobre o Super Tucano 
Na comparação entre os turboélices, o A-29 sai na frente do PC-9: é mais potente, continua em produção (o PC-9 não é mais fabricado) e foi projetado desde a origem como avião de ataque leve. Suas metralhadoras .50 ficam embutidas nas asas, o que gera menos arrasto que os casulos externos, e ele dispõe de torreta de sensores integrada. Bronk considera que o desempenho, a pilotagem, a aviônica e a cabine biposto missionizada tornam o Super Tucano plenamente adequado para interceptar os Geran-2 e Gerbera, movidos a hélice.

A ressalva vem em seguida. Para o pesquisador, o A-29 é mais lento em cruzeiro e em subida que o suíço PC-21 e não tem desempenho suficiente, com carga útil, para interceptar de forma confiável os Geran-3 e Geran-4 a jato, a não ser com vantagem de altitude e uma vetoração quase perfeita feita por um controlador. O PC-21, por sua vez, é rápido, mas suas asas pequenas não foram projetadas para armamento, e as leis de neutralidade da Suíça provavelmente impediriam a venda de uma versão armada.

Os treinadores a jato M-346, da Leonardo, e FA-50, da KAI, seriam muito eficazes, com radar no nariz e desempenho transônico, mas têm custos operacionais próximos aos de um F-16 ou Gripen, e as carteiras de pedidos empurrariam a formação do esquadrão para depois de 2030. A opção que o autor considera mais atraente é o L-39NG, da tcheca Aero Vodochody: custo de operação comparável ao de um turboélice, capacidade de manter 300 nós em voo nivelado com cargas externas e linha de produção com folga. Em avaliação feita em agosto de 2026, Bronk afirma ter interceptado alvos simulados da classe Geran-4 a até 270 nós (cerca de 500 km/h) em média altitude.

Quanto ao armamento, o estudo prefere foguetes guiados de 70 mm às metralhadoras. A ogiva de um Geran, que pode chegar a 90 kg, costuma explodir quando atingida e ameaça o interceptador que dispara de perto; além disso, os projéteis que erram o alvo caem sobre território amigo. As opções citadas são o APKWS II, da BAE Systems, e o LGR275, da Thales, que custam entre 25 mil e 50 mil dólares por disparo. Para os europeus, o foguete francês teria vantagem, porque o fornecimento do APKWS pelo sistema Foreign Military Sales ficou difícil desde que os Estados Unidos passaram a empregá-lo em larga escala contra drones iranianos, a partir de fevereiro de 2026.

A escolha anunciada na Polônia 
Do lado ucraniano, Poroshenko afirmou que, durante a MSPO 2026, feira de defesa realizada em Kielce, na Polônia, entre 8 e 11 de setembro, negociou com representantes da Embraer e definiu uma frota de 24 Super Tucano. Ele apresentou a proposta em uma reunião da bancada do seu partido, o European Solidarity, com o ministro da Defesa, Yevhen Khmara. Segundo o ex-presidente, as aeronaves seriam empregadas contra os Geran, inclusive os de propulsão a jato, e contra o míssil de cruzeiro de baixo custo S8000 Banderol. O plano prevê negociar a operação por meio de um país da OTAN que mantenha contratos relevantes com o Brasil, e Poroshenko disse esperar receber os aviões até o fim do ano.

A iniciativa precisa ser lida com as devidas proporções. Poroshenko governou a Ucrânia entre 2014 e 2019 e hoje lidera um partido de oposição ao presidente Volodymyr Zelensky; não fala, portanto, em nome do governo. A Embraer não anunciou contrato nem respondeu às perguntas da Folha de S.Paulo sobre o assunto, e o país da OTAN mencionado não foi identificado. Como a LRCA Defense Consulting apontou em 21 de setembro, Portugal é o candidato mais provável: contratou 12 A-29N em dezembro de 2024, tornando-se cliente lançador da versão adaptada aos padrões da Aliança, recebeu as cinco primeiras unidades em dezembro de 2025 e abriga a OGMA, controlada pela Embraer em parceria com o Estado português. Lisboa não se manifestou.

Por que o interesse ucraniano pesa... e muito
Mesmo com essas ressalvas, a iniciativa tem um valor que nenhum estudo de gabinete substitui. A Ucrânia conhece, como nenhum outro país, a ameaça dos Geran em todas as suas versões, e conhece também as plataformas disponíveis: a própria solução improvisada que inspirou o estudo britânico, o PC-9 armado dos voluntários, é um turboélice fora de produção. O Super Tucano representa, na prática, a versão industrial e em série dessa ideia, com metralhadoras internas, sensores integrados, cabine blindada e ampla experiência em combate real.

O interesse também não é novo nem circunstancial. Em 2019, uma delegação da Força Aérea ucraniana avaliou a aeronave no Brasil como possível substituta dos L-39, e Zelensky tratou do tema com o então presidente Jair Bolsonaro. O pedido foi recusado pelo governo brasileiro em 2022 e novamente em 2023, já na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva. Sete anos depois da primeira visita, e agora com uma missão concreta, o avião brasileiro volta ao centro dos planos de Kiev.

A Embraer, por sua vez, vem preparando o A-29 exatamente para esse papel. Em novembro de 2025, anunciou uma configuração antidrones com sensores, enlaces de dados, foguetes guiados a laser APKWS e metralhadoras .50, e passou a conduzir uma prova de conceito com um país não identificado. Em março de 2026, firmou parceria com a americana Valkyrie Aero para integrar ao Super Tucano o sistema Gunslinger, que emprega inteligência artificial na detecção, acompanhamento e neutralização de ameaças não tripuladas. Segundo a fabricante, 22 forças aéreas já escolheram o A-29, que acumula mais de 600 mil horas de voo.

A diferença de avaliação entre o RUSI e a proposta ucraniana também se explica pelo cenário. Bronk pensa em uma unidade de policiamento aéreo em tempo de paz, que precisa neutralizar sozinha uma incursão pontual, muitas vezes noturna e com drones a jato escolhidos justamente para testar a defesa. A Ucrânia enfrenta ondas mistas, que combinam Geran-2 a hélice, engodos Gerbera e vetores a jato, dentro de uma defesa em camadas com radares, artilharia antiaérea, guerra eletrônica, drones interceptadores e caças. Nesse ambiente, uma aeronave barata, persistente e altamente eficaz contra os alvos mais lentos libera os F-16 e os mísseis para as ameaças mais velozes. É o nicho que o próprio estudo britânico reconhece ao A-29.

O limite, porém, permanece. A velocidade máxima do Super Tucano, próxima de 590 km/h em condições ideais, não permite perseguir pela retaguarda um Geran-5, estimado em até 600 km/h, e deixa margem reduzida diante do Geran-4. Contra esses vetores, o A-29 dependeria de alerta antecipado, vantagem de altitude e armamento guiado, como a própria LRCA já havia ressaltado. Apresentá-lo como solução universal contra os drones russos, como sugere o discurso de Poroshenko, seria prometer mais do que a aeronave pode entregar.

O obstáculo político-ideológico em Brasília 
O caminho por um terceiro país tampouco resolve a questão política. Integrantes do governo brasileiro disseram à Folha de S.Paulo, em reportagem publicada em 21 de setembro, que nenhum pedido chegou ao Itamaraty e que, se chegar, o veto ao fornecimento militar à Ucrânia continua valendo. A legislação exige autorização do governo para a reexportação de produtos de defesa, de modo que aeronaves vendidas a Portugal só poderiam seguir para Kyiv com o aval do País. Pelo Decreto nº 9.607, de 2018, que instituiu a Política Nacional de Exportação e Importação de Produtos de Defesa (PNEI-PRODE), a exportação depende da anuência do Ministério da Defesa, ouvido o Ministério das Relações Exteriores.

Não há proibição legal automática, já que não existe embargo do Conselho de Segurança da ONU contra a Ucrânia, mas a posição adotada desde 2022 tem sido constante. Além dos pedidos pelo Super Tucano, o Brasil recusou a cessão de munições para os blindados Gepard e Leopard alemães enviados a Kiev e as solicitações ucranianas de viaturas Guarani, inclusive em versão ambulância. No entanto, o atual status quo poderá mudar caso o atual presidente do País não consiga se reeleger. 

A validação está na vitrine, e isso é muito importante para a Embraer 
Para a fabricante, o episódio funciona como vitrine, independentemente do desfecho. O Super Tucano foi citado como opção viável por um dos analistas de poder aéreo mais respeitados da Europa e escolhido por atores ucranianos que lidam diariamente com a ameaça. A validação ocorre justamente no momento em que a empresa tenta transformar Portugal em polo europeu do A-29N e oferecer a aeronave como resposta de baixo custo a um dos maiores desafios da guerra moderna.

O teste decisivo, porém, não será o discurso, mas a missão bem delimitada. Se for vendido como caçador de Geran-2, de Gerbera e de parte dos vetores a jato, integrado a uma rede de sensores e armado com foguetes guiados, o Super Tucano tem argumentos sólidos, reconhecidos até mesmo por quem prefere um concorrente. Se for vendido como resposta a todos os drones russos, estará exposto à comparação com jatos mais rápidos, terreno em que o estudo do RUSI já apontou a sua desvantagem.

27 setembro, 2026

Embraer reafirma Mahindra na disputa militar indiana e esclarece papel da Adani

Declaração de Bosco da Costa Junior mantém a divisão entre as parcerias militar e comercial em meio à concorrência por 60 aeronaves de transporte 



*LRCA Defense Consulting - 27/09/2026

A Embraer reafirmou que o Grupo Mahindra permanece como seu parceiro na disputa pelo programa de aeronaves de transporte médio da Força Aérea Indiana, enquanto a colaboração com o Grupo Adani está voltada à aviação comercial. O esclarecimento foi feito pelo presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, Bosco da Costa Junior, em entrevista à agência ANI repercutida pela imprensa indiana em 27 de setembro.

A declaração ganhou relevância porque a Adani também figura entre as empresas indianas que receberam o pedido de propostas para o programa militar. Questionado sobre a possibilidade de atuar com esse grupo na concorrência, Bosco reafirmou a escolha da Mahindra para oferecer o C-390 Millennium e a manutenção da parceria comercial com a Adani.

Parceria construída desde 2024 
Embora algumas manchetes apresentem a escolha da Mahindra como novidade, a cooperação foi anunciada em fevereiro de 2024, com a assinatura de um memorando de entendimento. Em outubro de 2025, as empresas aprofundaram a relação por meio de um acordo de cooperação estratégica, abrangendo comercialização conjunta, industrialização e desenvolvimento da Índia como centro de produção e suporte do C-390.

Em fevereiro de 2026, anunciaram planos para estabelecer uma instalação de manutenção, reparo e revisão na Índia, condicionada à seleção da aeronave no programa. A estrutura proposta inclui manutenção básica e pesada, inspeções estruturais, reparo de componentes, suporte de aviônicos e treinamento.

A entrevista atual, portanto, reafirma a composição da candidatura brasileira. Os textos consultados não anunciam um novo acordo entre Embraer e Mahindra nem apresentam uma decisão indiana de aquisição do C-390.

Concorrência por 60 aeronaves 
O programa busca iniciar a substituição da envelhecida frota de transporte indiana. Conforme a cobertura da ANI, o pedido de propostas foi encaminhado a Mahindra, Tata, Hindustan Aeronautics Limited, Reliance Defence e Adani. A imprensa informa uma opção de ampliar em 50% o lote inicial de 60 unidades, o que representaria mais 30 aeronaves, caso essa possibilidade seja exercida.

O LRCA já havia noticiado a emissão do pedido de propostas em 12 de agosto. Na entrevista agora divulgada, Bosco afirmou que a Embraer está empenhada em responder dentro do cronograma solicitado. A fabricante apresenta o C-390 como solução para substituir o An-32 e contribuir para a padronização da frota de transporte médio da força.

Produção e suporte com alcance internacional 
A Embraer também reiterou o interesse em ampliar sua cadeia de fornecedores e sua rede de manutenção a partir da Índia para acompanhar o crescimento da frota mundial do C-390. Essa ambição já estava presente no acordo estratégico de 2025 e no anúncio de manutenção de fevereiro de 2026.

Na frente comercial, a associação com a Adani contempla oportunidades ligadas à fabricação, à cadeia de suprimentos, aos serviços de pós-venda e à formação de pilotos. O esclarecimento de Bosco delimita essas duas frentes de atuação, preservando a Mahindra como parceira da proposta militar, cuja concretização industrial depende do resultado da concorrência.

26 setembro, 2026

Robôs terrestres abrem rotas e chegam pelo ar à retaguarda russa na Operação Vivaldi

O 3º Corpo de Exército da Ucrânia relata 30 km de trajetos desminados e o emprego de veículos explosivos lançados por drones; os resultados e o alegado pioneirismo ainda dependem de confirmação independente 

Imagem meramente ilustrativa rendererizada por IA


*LRCA Defense Consulting - 26/09/2026

Na ofensiva ucraniana no eixo de Lyman, no norte da região de Donetsk, robôs terrestres passaram a cumprir tarefas diretamente ligadas à progressão das tropas. Segundo o 3º Corpo de Exército, veículos não tripulados abriram rotas minadas no setor de Shandryholove e outros, transportados por drones aéreos pesados, foram lançados na retaguarda russa para ataques explosivos. As duas ações integram a Operação Vivaldi, mas têm funções e divulgações distintas.

Desminagem antes da progressão 
Em comunicado divulgado em 24 de setembro e repercutido pela agência Ukrinform no dia seguinte, o 3º Corpo afirmou que seus sistemas terrestres abriram 30 km de rotas no setor de Shandryholove. De acordo com a unidade, os robôs concluíram o trecho mais difícil em duas noites, sem mortos nem feridos entre os sapadores envolvidos. A comparação apresentada pelo Corpo é que duas companhias de engenharia precisariam de aproximadamente uma semana para executar a mesma tarefa.

Os 30 km se referem à extensão acumulada de rotas, não a uma faixa contínua de terreno nem à área total desminada. A unidade não informou publicamente a quantidade e o tipo de engenhos removidos, a largura das passagens, o número de robôs empregados ou o método de verificação da segurança dos trajetos. Por isso, tanto a extensão divulgada quanto a estimativa de tempo poupado devem ser atribuídas ao 3º Corpo, sem convertê-las em medidas independentes de produtividade.

O Corpo afirma ainda que veículos não tripulados retiram cerca de 60% das minas antipessoal em sua área de responsabilidade. Essa proporção descreve a atuação geral da formação, e não deve ser confundida com a operação específica em Shandryholove. Segundo os militares, os sistemas também fazem transporte de suprimentos, evacuação de feridos e lançamento remoto de minas. 


Robôs lançados por drones 
Em outra frente da Vivaldi, drones aéreos pesados da 3ª Brigada de Assalto lançaram veículos terrestres explosivos a mais de 10 km na retaguarda russa, segundo publicação do próprio 3º Corpo em 24 de setembro. A unidade atribuiu a tática ao grupo NC13 e divulgou imagens registradas pelas câmeras dos robôs. O uso do meio aéreo permitiu posicionar os veículos em locais que seriam difíceis de alcançar por deslocamento terrestre a partir das linhas ucranianas.

O Corpo classifica a ação como inédita no mundo. As imagens e a descrição divulgadas permitem relatar o emprego anunciado, mas não bastam para comprovar uma primazia histórica universal nem para medir, de modo independente, seus efeitos militares. A operação combinou também apoio de drones aéreos, guerra eletrônica, defesa antiaérea e ação da infantaria; não há base para atribuir a retomada das localidades aos robôs isoladamente. 

Imagem meramente ilustrativa rendererizada por IA

A manobra continua possível, mas sob novas condições
A Operação Vivaldi indica que a vigilância por drones dificulta ataques e contra-ataques, mas não impede avanços locais de infantaria e blindados. Segundo o vice-comandante do 3º Corpo de Exército ucraniano, coronel Rodion Kudryashov, a progressão exigiu meses de preparação: estabilizar a frente, reorganizar o comando, reunir recursos, atingir a logística russa e reduzir a capacidade inimiga de observar e atacar as tropas. Robôs terrestres e drones assumiram parte das tarefas mais expostas antes da entrada dos soldados. 

Na análise de Sameer Joshi, a lição central é que a força atacante precisa criar uma proteção local e temporária contra a observação e os ataques inimigos. Isso permite avançar por etapas; a cada nova posição, os meios de detecção, guerra eletrônica, defesa contra drones e comunicações precisam acompanhar a tropa e restabelecer a proteção. É uma leitura plausível da operação, mas os dados públicos ainda não mostram por quanto tempo essa proteção funcionou em cada avanço nem comprovam que o método produziria uma ruptura profunda. Assim, a Vivaldi sustenta uma conclusão mais precisa: a manobra permanece possível quando suas condições são preparadas e mantidas, embora seu alcance continue condicionado à reação do adversário e à capacidade de sustentar o avanço.

O que a combinação revela

Os dois usos apontam para papéis complementares na manobra: um sistema reduz a exposição de engenheiros ao preparar rotas para o avanço; o outro é inserido por via aérea para atacar a retaguarda. Em ambos os casos, o objetivo declarado é colocar máquinas nas etapas de maior risco antes de enviar soldados. Trata-se de uma evolução no emprego operacional dos robôs, não de prova de que possam substituir a engenharia de combate ou a infantaria.

Para o Brasil, o episódio reforça uma questão já presente no debate sobre sistemas não tripulados: além de veículos armados, uma força precisa integrar plataformas de engenharia, transporte, comunicações, drones aéreos e procedimentos de verificação de rotas em condições reais de combate. O LRCA já registrou o desenvolvimento nacional de robôs para neutralização de explosivos e estudos com plataformas terrestres remotamente pilotadas. A experiência ucraniana sugere aplicações a investigar, sem demonstrar que as soluções brasileiras já disponham das mesmas capacidades.

Drones um ano depois: Índia avança e Brasil busca escala

Nova Délhi prepara a maior encomenda de drones militares de sua história, com mais de US$ 2 bilhões reservados à indústria local; no mesmo período, o Brasil modernizou regras, testou sistemas nacionais e sinalizou recursos no orçamento, mas segue sem o programa de incentivo capaz de dar escala à BID



*LRCA Defense Consulting - 26/09/2026

Em setembro de 2025, a LRCA Defense Consulting, em matéria própria, apontou o estado indiano de Tamil Nadu e a política federal de incentivos da Índia como referência para que o Brasil estruturasse uma indústria de drones competitiva, e propôs a criação de um Programa Brasileiro de Incentivo à Produção de Drones (PBID). Doze meses depois, os dois países avançaram em ritmos muito diferentes. 

A Índia passou da fase de fomento para a de compra em larga escala, convertendo as lições do confronto com o Paquistão, em maio de 2025, em contratos, novas regras de aquisição e metas de nacionalização. 

O Brasil também se movimentou, com uma nova regulamentação da ANAC, campanhas de avaliação de drones pelo Exército e uma ação orçamentária que passa a citar os drones de forma explícita. Falta, porém, uma política industrial dedicada ao setor.

A maior encomenda da história indiana 
Em 3 de junho, a agência Reuters revelou que a Índia deverá encomendar à indústria nacional, ainda em 2026, mais de US$ 2 bilhões (acima de 200 bilhões de rúpias) em drones militares de classe tática. A informação partiu de Smit Shah, presidente da Drone Federation India, entidade que reúne mais de 550 empresas e trabalha em estreita colaboração com o governo. Segundo ele, o plano está em estágio avançado, deve seguir um rito de aquisição acelerado (fast track) e prevê entregas em 18 a 24 meses. O valor representa um salto em relação às encomendas recentes de drones táticos, estimadas em 30 bilhões de rúpias (cerca de US$ 313 milhões). O Ministério da Defesa indiano não comentou a reportagem.

Os beneficiários potenciais vão de conglomerados como Adani Group, Larsen & Toubro e Tata Advanced Systems a empresas especializadas e startups como ideaForge, NewSpace Research e Asteria Aerospace, com produtos que cobrem reconhecimento, logística, munições remotamente pilotadas, ataque de precisão e componentes críticos. A motivação é explícita: no conflito de maio de 2025, os dois lados empregaram drones em larga escala, e o episódio expôs lacunas indianas de vigilância e ataque. 

Uma sequência de decisões em poucos meses 

A encomenda bilionária não é um fato isolado. Ela se apoia em uma série de medidas adotadas desde o início do ano:

• Orçamento recorde: o orçamento de defesa para o ano fiscal 2026-27 chegou a 7,85 trilhões de rúpias, alta de cerca de 15%, com 75% das aquisições de capital reservadas a fornecedores nacionais.

• Drone de combate furtivo: em 27 de março, o Conselho de Aquisições de Defesa (DAC) aprovou a compra de 60 aeronaves de ataque remotamente pilotadas do antigo projeto Ghatak, do DRDO, estimada em 390 bilhões de rúpias (aproximadamente US$ 4 bilhões), com meta de 80% de nacionalização.

• Compra descentralizada: em 2 de junho, o ministro Rajnath Singh assinou a nova delegação de poderes financeiros às Forças Armadas, que permite aos comandos adquirir diretamente, com verbas de custeio, drones que dispensam pista e custam até 50 milhões de rúpias por unidade, sem passar pelo ciclo centralizado de investimentos.

• Novas aprovações: em 3 de julho, o DAC autorizou cerca de 520 bilhões de rúpias em aquisições que incluem sistemas antidrone de guerra eletrônica, um drone kamikaze a jato para o Exército, drones embarcados e aeronaves não tripuladas de alta altitude.

• Contratos assinados: em agosto, o governo contratou a Tata Advanced Systems e a NIBE Limited, por 15,77 bilhões de rúpias (cerca de US$ 165 milhões), para fornecer sistemas de munição remotamente pilotada e 840 munições ao Exército.

Em paralelo, a minuta do novo Procedimento de Aquisição de Defesa, divulgada em fevereiro, impede a importação de itens incluídos na Lista Positiva de Nacionalização e cria um caminho específico para drones comerciais de prateleira (commercial off-the-shelf), que podem ser aceitos com base na certificação do fornecedor e em testes de recebimento, sem as longas avaliações de campo. 


A demanda, mais do que o subsídio, mudou o jogo 

A comparação com o cenário de 2025 traz uma lição importante. O esquema de incentivo à produção (PLI) para drones, destacado na reportagem anterior, teve orçamento modesto: 1,2 bilhão de rúpias em três anos. O que transformou a indústria indiana foi a combinação desse estímulo inicial com a proibição de importação de drones prontos, um mercado civil em expansão e, sobretudo, a decisão do Estado de comprar em volume e rapidamente de fornecedores locais.

O ecossistema resultante já soma mais de 600 empresas ligadas a drones, das quais mais de uma centena atua em defesa. O programa iDEX, voltado a startups e pequenas empresas, reunia 676 participantes em março de 2026, e 58 protótipos, avaliados em 38,5 bilhões de rúpias, receberam autorização de compra. A dependência de componentes chineses (motores, sensores e sistemas de imagem) continua sendo o ponto fraco reconhecido pelo próprio governo, que estabeleceu a meta de produzir no país ao menos 40% dos componentes-chave até o ano fiscal de 2028, com apoio de crédito barato do banco estatal SIDBI. A imprensa indiana também noticiou a preparação de um novo esquema quinquenal de incentivo à manufatura de drones, da ordem de 100 bilhões de rúpias, cuja implantação ainda não aparece confirmada nas fontes consultadas.

O Brasil também saiu do lugar 
Do lado brasileiro, o ano trouxe avanços concretos, alguns deles alinhados às propostas feitas pela LRCA em 2025:

• Nova regulamentação: a ANAC aprovou o RBAC 100 pela Resolução nº 805, em vigor desde 16 de junho, substituindo o RBAC-E 94. As operações passaram a ser classificadas por risco (categorias Aberta, Específica e Certificada), e não mais pelo peso da aeronave. O Decea complementou o marco com a ICA 100-40, sobre acesso ao espaço aéreo, e a ICA 100-48, sobre gerenciamento de tráfego não tripulado, ambas vigentes desde 1º de julho.

• Certificações nacionais: o Harpia, da Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD), recebeu Autorização de Projeto da ANAC em abril, habilitando sua produção em série; em setembro, o Nauru 100D, da XMobots, foi autorizado a operar até 30 quilômetros de alcance e 6 mil pés de altitude, de dia e à noite.

• Avaliação pelo Exército: entre 22 de junho e 3 de julho, a Diretoria de Fabricação conduziu uma campanha de pré-qualificação de drones lançadores de munição e de sistemas de munições remotamente pilotadas. Das 84 propostas submetidas por empresas da BID, 32 chegaram aos testes práticos e sete estavam qualificadas até 30 de junho; um segundo edital foi publicado em agosto. Entre os pré-qualificados figura a Vultis, startup criada por estudantes da UFSC em Joinville (SC).

• Espaço fiscal: a lei complementar que exclui até R$ 30 bilhões em investimentos de defesa do arcabouço fiscal, ao longo de seis anos, permitiu ao Exército projetar cerca de R$ 3 bilhões anuais para seus programas estratégicos entre 2026 e 2031.

• Sinal orçamentário: o PLOA 2027 reserva R$ 520 milhões à ação Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones e R$ 467 milhões ao Sisfron. A primeira ação não se destina apenas a drones e o projeto ainda depende de aprovação no Congresso, mas é a primeira vez que o termo aparece no título de uma das maiores ações de investimento da Força Terrestre.

• Sinal político: em 8 de setembro, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, afirmou ao Metrópoles que as Forças Armadas investirão fortemente em drones para reforçar a vigilância das fronteiras, onde atuam cerca de 20 mil militares, e citou a Ucrânia, a China e a Turquia como referências.

Somam-se a isso a inclusão de drones de impacto na lista de Produtos Estratégicos de Defesa, em agosto, e a Política de Inteligência Artificial do Ministério da Defesa, instituída pela Portaria GM-MD nº 4.360, de 24 de agosto, que trata da redução da dependência tecnológica, tema diretamente ligado à soberania sobre o software embarcado.

O que continua no solo 
Apesar dos avanços, o diagnóstico de 2025 permanece essencialmente válido. Em audiência pública da Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) do Senado, em 8 de setembro, convocada a pedido do senador Marcos Pontes (PL-SP) para discutir um Programa Nacional de Drones, foi informado que o País já tem 177 mil drones cadastrados na ANAC e registra cerca de 10 mil novos equipamentos por mês. A representante da Secretaria Nacional de Aviação Civil, Júlia Lopes da Silva Nascimento, listou os entraves: carga tributária elevada, falta de incentivos à cadeia produtiva, escassez de mão de obra especializada, pouco fomento à pesquisa, crédito restrito e ausência de uma estratégia nacional para o setor.

O presidente da ABDrone, Pedro Curcio Júnior, defendeu redução de impostos sobre equipamentos e componentes, apoio a pequenos empreendedores e integração entre ANAC, Decea e Anatel. Pela Força Aérea, o major-brigadeiro do ar Frederico Casarino tratou o desenvolvimento de drones nacionais como questão de soberania, resumindo a posição da FAB na frase "o melhor parceiro do Brasil é o próprio Brasil". Pontes anunciou a intenção de propor um marco legal para o setor e de criar uma frente parlamentar.

Em outras palavras, o Brasil ainda não criou um programa de incentivo à produção, um conselho nacional que articule governo, empresas e universidades, nem uma encomenda plurianual com volumes definidos. A diferença de escala é evidente: enquanto a Índia prepara um pacote superior a US$ 2 bilhões apenas para drones táticos, a principal ação brasileira que menciona drones soma R$ 520 milhões e é compartilhada com a Aviação do Exército. 


Lições para dinamizar a BID 

A experiência indiana dos últimos doze meses permite atualizar a agenda proposta em 2025, deslocando o foco do subsídio para a demanda:

• Encomenda firme e previsível: mais do que incentivos fiscais, a indústria precisa de um horizonte de compras. Um plano plurianual de aquisição de sistemas não tripulados, com quantidades e categorias definidas, daria às empresas a segurança para investir em linhas de produção, a exemplo do que o pedido de 60 aeronaves Ghatak fez pela cadeia indiana.

• Rito de aquisição compatível com a tecnologia: drones táticos envelhecem em meses. A pré-qualificação do Exército é um bom primeiro passo, mas precisa desembocar em compras experimentais por lotes e, possivelmente, em autorização para que os Comandos Militares de Área adquiram diretamente sistemas de pequeno porte já qualificados, como fez a Índia.

• Preferência nacional clara: a Lei nº 12.598/2012 já oferece os instrumentos de Empresa Estratégica de Defesa e Produto Estratégico de Defesa. Falta definir categorias de drones em que a importação seja excepcional, à semelhança da lista positiva indiana.

• Cadeia de componentes: metas de conteúdo nacional para motores, baterias, sensores, enlaces de dados e software embarcado, com linhas de crédito da Finep e do BNDES, atacariam o ponto que a própria Índia ainda não resolveu.

• Ponte entre startups e Forças Armadas: a presença de uma empresa nascida em ambiente universitário entre os pré-qualificados mostra que há talento disponível. Um mecanismo nos moldes do iDEX, com desafios, financiamento de protótipos e compromisso de compra, poderia multiplicar esses casos.

• O marco legal como oportunidade: o debate aberto na CCT do Senado pode ser o veículo para institucionalizar o PBID e o Conselho Nacional de Drones propostos em 2025, integrando regulação, incentivo à produção e demanda de defesa em um único instrumento.

Da vitrine à escala 
Há um ano, o Brasil tinha potencial, mas não tinha regras modernas, sinal orçamentário nem processo estruturado de avaliação de sistemas nacionais. Hoje tem os três, ainda que em estágio inicial. A Índia mostra que o passo seguinte, e decisivo, é transformar protótipos qualificados em encomendas de volume, com prazos curtos e preferência pela indústria local. Sem isso, empresas como XMobots, AdTech SD, Stella Tecnologia e outras seguirão demonstrando capacidade em vitrines e exercícios, mas sem a escala que sustenta uma base industrial. Com isso, o País pode, enfim, fazer a decolagem que parecia iminente em 2025.

Guardião Cibernético mobiliza instituições em sete cidades e testa resposta a crises digitais

Oito anos após sua criação, exercício coordenado pelo Exército amplia os cenários simulados; setor nuclear inclui transporte marítimo e fontes oficiais divergem sobre o número de participantes

Imagem meramente representativa


*LRCA Defense Consulting - 26/09/2026

O Exercício Guardião Cibernético 8.0 terminou na sexta-feira (25) após cinco dias de simulações de ataques capazes de afetar serviços essenciais. Com sede na Escola Superior de Defesa, em Brasília, e polos em Belém, Manaus, Curitiba, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, a atividade reuniu Forças Armadas, órgãos públicos, reguladores, empresas e instituições de ensino para testar a resposta conjunta a incidentes cibernéticos. Sua realização coube ao Ministério da Defesa, sob coordenação do Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber) do Exército, com participação da Marinha e da FAB.

No ambiente simulado, militares do Exército desempenharam o papel de atacantes. Equipes das instituições participantes precisaram identificar, conter e responder às ameaças, enquanto gestores exercitaram decisões e planos de contingência. Os setores envolvidos incluíram energia, água, telecomunicações, finanças, transporte e atividades nucleares. O treinamento, portanto, examinou tanto procedimentos técnicos quanto a articulação entre organizações responsáveis por infraestruturas críticas.

Quatro cenários no setor nuclear 

Uma das novidades mais concretas surgiu no setor nuclear. Segundo a Secretaria Naval de Segurança Nuclear e Qualidade (SecNSNQ), da Marinha, foram trabalhados quatro cenários em Brasília: uma usina nuclear em terra, um hospital, um laboratório e uma embarcação que transportava material nuclear com destino a uma usina nuclear flutuante. O cenário marítimo foi incluído pela primeira vez no Guardião Cibernético. A preparação utilizou o Anshar, simulador de ataques cibernéticos da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) informou que todos os cenários destinados ao setor foram inéditos ou reformulados. A autarquia distingue a simulação construtiva, voltada à gestão da crise, comunicação e coordenação institucional, da simulação virtual, em que equipes técnicas respondem a situações em tempo real. A ANSN também menciona um cenário relativo a pequenos reatores modulares, elaborado com colaboração da Marinha, sem especificar se corresponde ao transporte marítimo descrito pela SecNSNQ.

A composição das equipes demonstra a amplitude da resposta exigida por um incidente. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) relatou a participação de profissionais das áreas técnica, jurídica, de comunicação e da alta gestão. O chefe do Centro de Ciência e Tecnologia do Exército, general Hertz Pires do Nascimento, também destacou o papel da comunicação social para informar a população sobre uma crise e as medidas adotadas. 

Contagens oficiais ainda não coincidem 
A dimensão do exercício exige uma ressalva. O Ministério da Defesa informou na abertura cerca de 1.300 participantes, 300 organizações e representantes de 14 países. Nota do Exército divulgada na manhã do último dia repetiu esses números. Já a SecNSNQ registrou mais de 4 mil participantes, 382 instituições públicas e privadas e representantes de 20 países; a CNEN apresentou números próximos para pessoas e instituições.

As notas não esclarecem os critérios usados em cada contagem. Uma possibilidade é que os números menores retratem um conjunto mais restrito de participantes e os maiores incluam atividades nos polos e outras modalidades de participação, mas isso ainda não foi confirmado pelos organizadores. Também não há explicação publicada para a diferença entre 14 e 20 países. Por isso, os dados devem permanecer atribuídos a cada fonte, sem serem tratados como uma série única ou um balanço reconciliado.

Na edição de 2025, a Escola Superior de Defesa havia distinguido cerca de 750 profissionais e 169 organizações de aproximadamente mil pessoas envolvidas em atividades on-line. A experiência anterior mostra que diferentes modalidades podem produzir contagens distintas, mas não define quais critérios foram empregados em 2026.  


O que o exercício ainda precisa demonstrar 
O material divulgado até o momento descreve cenários, setores e procedimentos exercitados, mas não apresenta um relatório consolidado de lições aprendidas. Não foram divulgados, nas fontes consultadas, tempos de detecção ou contenção dos ataques simulados, vulnerabilidades encontradas ou medidas corretivas resultantes. Esses dados permitiriam avaliar com mais precisão o que o Guardião Cibernético revelou sobre a capacidade de resposta nacional.

Ao reunir instituições de setores interdependentes, a oitava edição ampliou as oportunidades de testar decisões e canais de cooperação sob pressão. A extensão desse aprendizado para a proteção efetiva dos serviços essenciais dependerá das correções adotadas após o exercício e de um balanço que permita verificar seus resultados.

Taurus no Gripen reforça perspectiva para mísseis brasileiros, mas integração exige etapas próprias

Avanço anunciado na Suécia mostra a capacidade de adaptação do caça; MICLA-BR é o candidato mais diretamente associado ao F-39, enquanto emprego do MARSUP ainda dependeria de decisões e estudos específicos



*LRCA Defense Consulting - 26/09/2026

A TAURUS Systems anunciou em 24 de setembro que concluiu em “tempo recorde” a integração do míssil de cruzeiro Taurus ao Gripen. O resultado é um sinal favorável para o Brasil, que opera o F-39 e desenvolve projetos próprios de mísseis de lançamento aéreo. Ele, contudo, não estabelece um prazo para integrar armamentos brasileiros nem prova que esse trabalho poderia repetir a velocidade alcançada na Suécia.

O comunicado da fabricante não informa a duração dos trabalhos, os testes realizados, o alcance da certificação ou a configuração precisa da aeronave. A notícia da Defense Express identifica o Gripen C/D sueco e relata que houve um primeiro lançamento em agosto. O F-39 brasileiro pertence à família Gripen E/F. Por isso, a experiência é um precedente relevante, mas seus resultados não podem ser transferidos automaticamente para a versão brasileira. 


O que a integração realmente demonstra 
A Saab apresenta o Gripen E como uma plataforma concebida para incorporar novos armamentos e atualizar suas funções de missão. Essa arquitetura pode facilitar o trabalho de engenharia. Ainda assim, a integração de um míssil envolve verificar peso e dimensões, suportes e alimentação elétrica, troca de dados, apresentação de informações ao piloto, programação da missão e separação segura durante o lançamento. Ensaios em solo e em voo e a aprovação da configuração completam o processo. A dificuldade e o prazo variam de arma para arma.

Há outra particularidade: a TAURUS Systems reúne a MBDA e a Saab entre seus acionistas. Essa relação industrial pode ter facilitado a cooperação no programa sueco. Ela não constitui, por si só, garantia de acesso equivalente a interfaces, equipes e recursos para um projeto brasileiro.

MICLA-BR é a conexão mais direta 
O MICLA-BR nasceu da busca da Força Aérea Brasileira por uma capacidade nacional de ataque de precisão a longa distância. Documentos de planejamento da Aeronáutica o descrevem como míssil de cruzeiro ar-superfície, com histórico de estudos para adaptar tecnologia do AV-TM 300. O LRCA Defense Consulting já registrou sua ligação histórica com a futura integração à família Gripen e observou que o projeto aparece no PLOA 2027 com R$ 11 milhões previstos para aquisição de mísseis de longo alcance.

A rubrica orçamentária, entretanto, não esclarece que material será adquirido, em que estágio está o armamento nem se há contrato de integração ao F-39. Uma eventual campanha dependeria de uma configuração definida do míssil, requisitos da FAB, financiamento, acesso aos dados técnicos necessários e um programa de ensaios acordado com os responsáveis pela aeronave.

MARSUP tem outro ponto de partida 
O MARSUP é objeto de um protocolo de intenções firmado em fevereiro entre a Marinha do Brasil e a SIATT para estudar mísseis ar-superfície antinavio derivados da experiência do MANSUP. Segundo a divulgação do projeto, o foco inicial está em aeronaves da Aviação Naval. Não há anúncio público de escolha do Gripen como plataforma do MARSUP ou de uma campanha para integrá-lo ao F-39.

A possibilidade merece estudo, sobretudo se houver interesse conjunto da Marinha e da FAB em uma capacidade antinavio lançada pelo caça. Seria necessário definir qual versão do míssil seria adequada, sua compatibilidade com a aeronave, a cadeia de designação de alvos marítimos e o custo da integração. Nesse caso, a experiência sueca inspira uma pergunta, não oferece uma resposta pronta. 


Uma oportunidade que depende de decisões 
O avanço com o Taurus mostra que o Gripen pode receber um míssil de cruzeiro de grande porte mediante um programa de integração bem conduzido. Para o Brasil, o principal ganho potencial está em planejar desde cedo o desenvolvimento do míssil e sua interface com o F-39 como partes de uma mesma capacidade operacional. A rapidez sueca fortalece a perspectiva, mas o calendário brasileiro só poderá ser estimado quando houver armamento definido, recursos contratados e dados públicos sobre os ensaios previstos.

25 setembro, 2026

Projeto na África do Sul abre nova frente tecnológica para a Atech, da Embraer

CEO da Atech confirma à LRCA que o desenvolvimento de AIM integra o contrato firmado com a ATNS em 2025; empresa estuda publicar documento técnico sobre a solução



*LRCA Defense Consulting - 25/09/2026

A Atech, empresa do Grupo Embraer, está ampliando suas capacidades em Gestão da Informação Aeronáutica (AIM) no âmbito do contrato assinado em 2025 com a Air Traffic and Navigation Services (ATNS), estatal responsável pelos serviços de navegação aérea da África do Sul. A confirmação foi dada à LRCA Defense Consulting pelo CEO da Atech, Rodrigo Persico, após uma publicação em que apresentou o projeto como um passo na expansão tecnológica da companhia.

“Esse trabalho faz parte do pacote com a ATNS de 2025, mas nos deu a oportunidade de desenvolver o AIM de ponta, com os recursos mais avançados que temos hoje em dia”, afirmou Persico. Ele acrescentou que a empresa considera publicar um documento técnico sobre o tema. A declaração esclarece que o avanço em AIM está associado ao contrato existente, sem anunciar uma contratação independente.

Do fluxo aéreo à informação aeronáutica 
O acordo anunciado em setembro de 2025 prevê a modernização do sistema de Gestão de Fluxo de Tráfego Aéreo (ATFM) da ATNS no centro de controle situado no Aeroporto Internacional O.R. Tambo, em Joanesburgo. O escopo divulgado à época incluía um centro de contingência e um ambiente de treinamento, simulação e testes. A própria Embraer registrou a contratação em seu relatório anual.

O ATFM procura ajustar a demanda de voos à capacidade disponível de aeroportos e setores do espaço aéreo. Já o AIM cuida dos dados de que dependem o planejamento de voo, a configuração do espaço aéreo e diversas decisões operacionais. São funções distintas, mas relacionadas: a qualidade e a disponibilidade das informações aeronáuticas são necessárias para que os sistemas de gestão de tráfego trabalhem com uma base coerente.

Segundo a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), o AIM envolve a gestão integrada e o intercâmbio de dados aeronáuticos digitais com qualidade assegurada. A ATNS descreve sua base aeronáutica centralizada como um meio de distribuir informações validadas e permitir a integração com outros sistemas. Isso ajuda a entender a relevância do domínio tecnológico que a Atech diz estar desenvolvendo, sem pressupor que a companhia substituirá toda a infraestrutura AIM atualmente usada pela estatal.

Uma capacidade com potencial internacional 
Em sua publicação, Persico afirmou que a experiência sul-africana amplia a capacidade da Atech de desenvolver, integrar, implantar e apoiar soluções de gestão de tráfego aéreo. O valor estratégico está na possibilidade de reunir, em um portfólio mais abrangente, a gestão da informação aeronáutica e as ferramentas que apoiam as decisões sobre fluxo e controle. Trata-se de uma perspectiva comercial, não de anúncio de novos contratos.

A Atech ainda não detalhou quais funções AIM compõem a entrega à ATNS, o estágio de desenvolvimento e implantação da solução nem quando essas funções deverão entrar em operação. Esses pontos permanecem abertos para esclarecimento pela empresa. A eventual publicação do documento técnico mencionado por Persico poderá oferecer uma visão mais precisa da arquitetura e das capacidades desenvolvidas.

Primeiro Embraer C-390 é entregue ao Uzbequistão e abre operação na Ásia Central

Aeronave foi recebida em Gavião Peixoto nesta sexta-feira; contrato firmado em 2024 inclui treinamento, suporte e peças de reposição



*LRCA Defense Consulting - 25/09/2026

A Embraer entregou nesta sexta-feira, 25 de setembro, o primeiro C-390 Millennium à Força Aérea do Uzbequistão. A cerimônia ocorreu nas instalações da fabricante em Gavião Peixoto (SP), com a presença do comandante da força aérea uzbeque, major-general Akhmad Jamolovich Burkhonov, e de Olimkhon Bakiyevich Rustamov, diretor da instituição estatal O‘ztextreyd, em representação do país. O Uzbequistão é o primeiro cliente do avião na Ásia Central.

O acordo foi firmado no fim de 2024, quando a identidade do comprador não foi divulgada. A Embraer revelou, durante o Singapore Airshow de fevereiro de 2026, que se tratava do Uzbequistão e indicou o emprego prioritário dos aviões em transporte e missões humanitárias. O contrato também abrange treinamento, apoio técnico e fornecimento de peças. A fabricante não informou no anúncio desta entrega o valor do negócio, o número total de aeronaves contratadas nem a data das próximas entregas. 


Da assinatura à primeira entrega 
A passagem da encomenda à entrega amplia a presença internacional do programa C-390 e dá início à incorporação da aeronave pela força aérea uzbeque. A entrega formal ocorreu no Brasil; o comunicado não especifica quando o avião chegará ao Uzbequistão ou entrará efetivamente em serviço. Essa distinção é relevante ao avaliar a capacidade operacional já disponível ao país.

Burkhonov afirmou que o C-390 representa um passo na modernização da força aérea e permitirá executar diferentes missões com maior eficiência e prontidão. Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, destacou a entrada do Uzbequistão na comunidade de clientes do modelo e o compromisso da empresa com o suporte à operação. 


Capacidade de transporte e versatilidade 
Segundo a Embraer, o C-390 transporta até 26 toneladas de carga e alcança velocidade de 470 nós, cerca de 870 km/h. Pode levar tropas e equipamentos, realizar lançamentos aéreos, evacuação aeromédica, busca e salvamento, combate a incêndios e assistência humanitária. Foi projetado também para operar em pistas temporárias ou não pavimentadas. Com equipamento de instalação rápida, pode desempenhar missões de reabastecimento em voo como aeronave abastecedora e receptora; o anúncio não esclarece se a unidade uzbeque foi entregue nessa configuração.

A encomenda uzbeque soma-se à expansão do C-390 além dos operadores iniciais Brasil, Portugal e Hungria. A República Tcheca também recebeu sua primeira aeronave em julho de 2026. Outros países selecionaram o modelo, mas seleção e operação efetiva representam etapas diferentes. Para o Uzbequistão, o resultado imediato confirmado é o recebimento da primeira unidade e o início do processo de integração de uma nova capacidade de transporte militar.

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