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19 setembro, 2026

Cadernos Prospectivos mapeiam competências decisivas para o futuro da BID

Oito estudos apontam que inteligência artificial, autonomia, integração de sistemas e novos materiais ampliarão a demanda por profissionais híbridos, formação contínua e políticas industriais de longo prazo



*LRCA Defense Consulting - 19/09/2026

Uma agenda para antecipar gargalos 
O futuro da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira dependerá tanto da incorporação de novas tecnologias quanto da capacidade de formar, atualizar e reter os profissionais que irão desenvolvê-las, integrá-las, certificá-las e mantê-las. Essa é a mensagem central dos oito Cadernos Prospectivos da BID, lançados em 19 de agosto, em Brasília, como resultado de uma parceria entre a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e a Fundação Instituto de Administração (FIA), da Universidade de São Paulo (USP).

A iniciativa foi acompanhada pela Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE), representada no lançamento por seu secretário de Relações Institucionais, Coronel RR Marcos Nunes. Os estudos abrangem os segmentos aeroespacial; armas e equipamentos de controle de tiro; defesa cibernética; sistemas C4ISTAR; munições, propelentes e explosivos, mísseis e foguetes; plataformas militares marítimas e fluviais; plataformas veiculares militares terrestres; e uniformes militares.

Mais do que relacionar tecnologias promissoras, os documentos procuram antecipar seus efeitos sobre o trabalho. Para isso, combinam pesquisa em fontes secundárias e consulta a especialistas, analisando difusão tecnológica, eventos futuros de impacto, mudanças nos perfis profissionais, conhecimentos, habilidades, aptidões, lacunas formativas e estratégias para o desenvolvimento da mão de obra. O horizonte predominante é de cinco a dez anos.

A tecnologia avança por sistemas integrados 
Embora tratem de cadeias produtivas muito diferentes, os cadernos convergem em um ponto: a inovação em defesa deixa de estar concentrada apenas na plataforma física e passa a depender de sistemas integrados, intensivos em software, dados, conectividade e capacidade de validação. Inteligência artificial, sistemas autônomos, gêmeos digitais, arquiteturas abertas, manufatura aditiva, cibersegurança embarcada, novos materiais e digitalização do ciclo de vida aparecem de forma recorrente.

No segmento aeroespacial, a transformação é descrita como uma passagem do modelo centrado em plataformas para outro orientado por sistemas integrados. A convergência entre inteligência artificial, autonomia, engenharia de sistemas, arquiteturas modulares, materiais avançados, propulsão elétrica ou híbrida e digitalização deverá ampliar a hibridização das funções profissionais. O estudo alerta que a falta de competências pode atrasar certificações, impedir a incorporação de tecnologias em programas estratégicos e comprometer capacidades produtivas nacionais.

Em armas e equipamentos de controle de tiro, sobressaem os sistemas baseados em inteligência artificial, munições programáveis, manufatura aditiva, sensores eletro-ópticos e infravermelhos, soluções eletrônicas de disparo, cibersegurança de hardware e firmware e rastreabilidade. O respectivo caderno associa essas mudanças à necessidade de combinar conhecimentos de mecânica, eletrônica, software, dados, materiais e metrologia.

Para munições, propelentes, explosivos, mísseis e foguetes, o mapa tecnológico inclui manufatura aditiva de motores e componentes, novos propelentes, materiais nanoenergéticos, gêmeos digitais, engenharia baseada em modelos, inteligência artificial aplicada a guiagem, navegação e controle, proteção térmica e tecnologias hipersônicas. Trata-se de uma cadeia na qual os requisitos de segurança, ensaio, controle de qualidade e certificação elevam ainda mais o custo de uma eventual escassez de especialistas.

Ciberdefesa e C4ISTAR colocam o fator humano no centro 
Os dois cadernos mais diretamente ligados ao ambiente digital rejeitam a ideia de que a automação reduzirá a importância das pessoas. Na defesa cibernética, a força de trabalho é apresentada simultaneamente como o principal ativo e o principal fator de vulnerabilidade. Arquiteturas de confiança zero, inteligência artificial defensiva, automação da resposta a incidentes, criptografia pós-quântica, segurança de sistemas ciberfísicos e inteligência de ameaças exigirão profissionais capazes de supervisionar algoritmos, validar modelos e decidir sob incerteza.

O crescimento quantitativo do emprego tende a ser moderado, mas a exigência qualitativa deverá aumentar. O caderno identifica demanda por perfis híbridos, rápida atualização e maturidade técnica e institucional. A competição com outros setores, a dificuldade de reter especialistas, a oferta limitada de cursos e o acesso restrito a ambientes realistas de treinamento aparecem entre os principais riscos.

No C4ISTAR, que integra comando, controle, comunicações, computação, inteligência, vigilância, aquisição de alvos e reconhecimento, o profissional deixa de operar componentes isolados e assume funções de integração, validação e decisão. Arquiteturas centradas em dados, redes definidas por software, fusão de sensores, segurança de confiança zero, automação criptográfica e apoio à decisão por inteligência artificial reforçam a necessidade de conhecimentos combinados em engenharia, operação, dados, cibersegurança e governança.

Plataformas ganham autonomia, conectividade e novos meios de sustentação
Nas plataformas militares marítimas e fluviais, os estudos projetam a adoção progressiva de gêmeos digitais, arquiteturas modulares e abertas, propulsão híbrida-elétrica, sistemas autônomos, cibersegurança embarcada, manufatura aditiva certificável, monitoramento estrutural contínuo e suporte logístico digital. A principal ruptura prevista não é a eliminação generalizada de ocupações, mas a reconfiguração das competências ao longo de todo o ciclo de vida, do projeto à manutenção.

O mesmo padrão aparece nas plataformas veiculares militares terrestres. Materiais avançados para blindagem, sistemas de proteção ativa, propulsão elétrica e híbrida, autonomia, fusão de sensores, conectividade segura e fabricação de peças sob demanda aproximam áreas que antes podiam trabalhar de maneira mais separada. Engenharia de sistemas, software, dados, cibersegurança, testes e certificação passam a formar um núcleo comum.

Nos dois segmentos, a capacidade de sustentar os meios ao longo de décadas ganha relevância comparável à capacidade de construí-los. Isso aumenta a importância da gestão de configuração, da documentação técnica, da rastreabilidade, da manutenção preditiva e da preservação do conhecimento acumulado por equipes experientes.

Uniforme militar passa a ser sistema tecnológico
O caderno dedicado aos uniformes militares mostra que a transformação digital e os materiais avançados alcançam também setores por vezes percebidos como tradicionais. Tecidos inteligentes com sensores, proteção balística leve, tratamentos antimicrobianos, resistência térmica e química, controle de assinatura, materiais sustentáveis, automação seletiva e autenticação por RFID ou códigos digitais transformam a peça de vestuário em componente da prontidão operacional.

Nesse caso, o impacto esperado recai menos sobre a redução do emprego e mais sobre sua requalificação. Produção, engenharia de materiais, ensaios, normas, rastreabilidade, logística e gestão de dados deverão trabalhar de forma integrada. Os estudos projetam crescimento moderado do número de trabalhadores, acompanhado por aumento expressivo da densidade técnica e regulatória das funções.

O perfil híbrido torna-se o recurso mais disputado 
A conclusão transversal dos oito volumes é que a BID precisará de profissionais híbridos. Não se trata apenas de reunir duas especialidades, mas de compreender interfaces: hardware e software; engenharia e operação; dados e decisão; materiais e fabricação; inovação e certificação; tecnologia e regulação.

Também ganham importância competências cognitivas e comportamentais. Resolução de problemas complexos, julgamento técnico fundamentado em dados, percepção de falhas, atenção seletiva, adaptabilidade, trabalho multidisciplinar, aprendizagem contínua e controle emocional aparecem como requisitos para ambientes nos quais uma decisão incorreta pode afetar segurança, confiabilidade e soberania.

Essa mudança desloca parte da prioridade da formação inicial para a atualização permanente dos quadros já empregados. Cursos curtos, modulares e acumuláveis, programas de requalificação, treinamento no ambiente de trabalho, laboratórios compartilhados, simulações e intercâmbio com centros de excelência são apontados como instrumentos capazes de reduzir a distância entre a velocidade tecnológica e a velocidade de atualização dos currículos.

Formação depende de continuidade industrial 
Os cadernos deixam claro que não há política de qualificação sustentável sem demanda industrial previsível. A volatilidade dos orçamentos de defesa, a interrupção de programas, as restrições à exportação, a dependência de componentes estrangeiros e a reorganização das cadeias globais dificultam a retenção de profissionais e desestimulam investimentos empresariais em formação.

Por isso, as recomendações não se limitam às instituições de ensino. Ao governo, os estudos atribuem a responsabilidade de dar previsibilidade aos programas estratégicos, financiar infraestrutura de ensaio e formação, aperfeiçoar marcos regulatórios e articular educação, ciência, tecnologia, política industrial e Defesa. Às empresas cabe sinalizar competências futuras, oferecer ambientes reais de aprendizagem, estruturar planos de sucessão e investir continuamente em qualificação. Instituições de formação profissional e instituições científicas e tecnológicas devem atualizar currículos, docentes, laboratórios e metodologias, além de aproximar pesquisa aplicada e necessidades industriais.

Nos segmentos de armas e controle de tiro e de munições, mísseis e foguetes, as estratégias priorizadas incluem currículos multidisciplinares, capacitação regulatória para produtos controlados e bens sensíveis, intercâmbio técnico, parcerias entre empresas e instituições de ensino, promoção comercial externa, garantias para exportação e simplificação de contratações de pesquisa, desenvolvimento e inovação. A lógica é direta: produção e exportação regulares ajudam a preservar equipes que levam anos para alcançar plena proficiência.

Um instrumento para decisões de Estado e de empresa 
Os Cadernos Prospectivos não oferecem previsões fechadas. Eles organizam sinais, incertezas e possíveis trajetórias para que decisões sobre pessoas, laboratórios, cursos e políticas públicas sejam tomadas antes que a carência de competências se transforme em gargalo industrial.

Para a BID, o valor prático do conjunto está em aproximar planejamento tecnológico e planejamento da força de trabalho. Um programa pode contar com projeto, orçamento e infraestrutura, mas ainda assim sofrer atrasos se não houver engenheiros de sistemas, especialistas em certificação, técnicos de ensaio, profissionais de cibersegurança, integradores de dados ou operadores preparados para tecnologias novas.

A mensagem final é especialmente relevante para o País: autonomia tecnológica não se alcança apenas com a nacionalização de equipamentos e componentes. Ela exige preservar conhecimento, formar especialistas em escala compatível com os programas estratégicos e manter uma relação contínua entre Forças Armadas, empresas, governo, universidades, SENAI e instituições de ciência e tecnologia. Ao transformar esse desafio em agenda antecipatória, os oito cadernos oferecem uma base concreta para que a qualificação profissional seja tratada como parte da política industrial e da própria capacidade de Defesa.

Imagens da visita da FAB à Mac Jee revelam MAR-1 e produção de bombas BGB-82

Registros divulgados pela empresa mostram que a comitiva do COMGAP conheceu o míssil antirradiação, munições aéreas de 500 libras e a estrutura industrial destinada à fabricação em série



*LRCA Defense Consulting - 19/09/2026

O material fotográfico divulgado pela Mac Jee sobre a visita de uma comitiva do Comando-Geral de Apoio da Força Aérea Brasileira (COMGAP) acrescenta informações que não aparecem no texto institucional da empresa. As imagens mostram que os oficiais tiveram contato direto com o míssil antirradiação MAR-1, com bombas BGB-82 de 500 libras e com instalações destinadas à fabricação e ao acabamento de munições aéreas.

A constatação torna o encontro mais significativo. A visita não se limitou à apresentação genérica das capacidades do grupo. Dirigentes responsáveis por material bélico, certificação, manutenção e pesquisa aeroespacial observaram produtos específicos e a estrutura industrial que poderá sustentar sua produção, seu recebimento e seu apoio durante a vida útil.

A Mac Jee divulgou os registros nesta quinta-feira (17), sem informar a data exata em que a visita ocorreu. A comitiva foi liderada pelo tenente-brigadeiro do ar Valter Borges Malta, comandante-geral de Apoio da FAB, e reuniu representantes de organizações que participam de diferentes etapas do ciclo de vida dos meios aeronáuticos e bélicos. 


O MAR-1 integrou a apresentação 

Uma das fotografias mostra claramente um exemplar identificado como MAR-1, ainda com as inscrições do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e da antiga Mectron. Ao fundo, aparece outro componente com a mesma designação. A imagem confirma que o míssil fez parte da agenda apresentada à comitiva.

O MAR-1 foi desenvolvido no Brasil para missões de supressão de defesas aéreas. Seu sistema de guiamento passivo busca as emissões eletromagnéticas de radares adversários, permitindo atacar sensores e sistemas de defesa antiaérea. O projeto teve participação do DCTA e da Mectron e chegou a ser exportado ao Paquistão.

Em novembro de 2025, a Mac Jee anunciou a aquisição da propriedade intelectual exclusiva do MAR-1 e do míssil ar-ar MAA-1B Piranha II. Desde então, a empresa passou a apresentar planos de modernização do MAR-1, incluindo aumento de alcance e aperfeiçoamento de sua capacidade de detectar diferentes faixas de emissão de radares.

A fotografia não comprova que a FAB tenha decidido retomar o programa ou adquirir uma nova versão. Entretanto, elimina uma dúvida importante: o MAR-1 não era apenas uma possibilidade associada ao portfólio da Mac Jee. Ele foi efetivamente mostrado aos dirigentes da Aeronáutica.

Comitiva reúne áreas decisivas para o futuro do míssil
Além do comandante do COMGAP, participaram da visita o major-brigadeiro do ar Luiz Cláudio Macedo Santos, chefe do Estado-Maior do COMGAP; o major-brigadeiro Clauco Fernando Vieira Rossetto, diretor da Diretoria de Material Aeronáutico e Bélico (DIRMAB); o brigadeiro do ar Eduardo Alexandre Bacelar, diretor do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE); e o coronel aviador Gabriel Gaertner, diretor do Parque de Material Bélico da Aeronáutica do Rio de Janeiro (PAMB-RJ).

Também estiveram presentes o coronel engenheiro Nelson Muta Hotta, subdiretor de Material Bélico; o coronel aviador Alisson Henrique Vieira, diretor do Instituto de Fomento e Coordenação Industrial (IFI); e o coronel engenheiro Bruno Giordano de Oliveira Silva, diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEAv).

A composição da delegação é compatível com uma avaliação ampla. A DIRMAB e a Subdiretoria de Material Bélico atuam na gestão dos meios da FAB. O PAMB-RJ está ligado à manutenção e ao apoio do material bélico. O IFI tem responsabilidades de certificação, validação e garantia da qualidade. IAE e IEAv acrescentam competências relacionadas a foguetes, propulsão, sensores e tecnologias avançadas.

Essas atribuições não autorizam concluir que exista uma encomenda. Mostram, porém, que estavam presentes os órgãos capazes de examinar os principais desafios para recolocar um armamento complexo em condições de desenvolvimento, certificação, produção e sustentação. 



BGB-82 de 500 libras recebeu destaque 
Outro conjunto de imagens registra a apresentação da BGB-82, bomba de emprego geral de 500 libras fabricada pela Mac Jee. Em uma das fotografias, a comitiva aparece reunida ao redor da munição. Em outra, o brigadeiro Malta recebe uma maquete com a inscrição BOMB BGB-82 500 LBS.

A BGB-82 integra a família brasileira de bombas baseada na série internacional MK. A classe de 500 libras corresponde à categoria da MK-82, munição de queda livre amplamente utilizada e que também pode servir de base para a instalação de kits de guiagem.

O material fotográfico mostra ainda bombas de diferentes dimensões na área de exposição da empresa. Uma delas traz inscrição associada à família BGB. Outra aparece identificada como munição penetradora, embora o enquadramento não permita determinar com segurança o modelo apresentado.

A escolha da BGB-82 para a lembrança entregue ao comandante do COMGAP reforça a centralidade desse produto na visita. As bombas aeronáuticas parecem ter sido uma das principais capacidades industriais demonstradas pela empresa. 


Imagens mostram capacidade de produção em série 
A comitiva também percorreu uma ampla área fabril. As fotografias mostram numerosos corpos cilíndricos acondicionados em estruturas metálicas, peças em diferentes etapas de acabamento, equipamentos de movimentação e áreas protegidas para tratamento industrial.

O formato dos componentes e sua proximidade com a apresentação da BGB-82 indicam uma área relacionada à fabricação de corpos de bombas aeronáuticas. Não é possível determinar pelas imagens se as peças estavam carregadas com material explosivo ou se eram corpos inertes ainda em processamento.

Mesmo com essa ressalva, os registros comprovam que a FAB conheceu mais do que maquetes e projetos. A delegação observou uma infraestrutura organizada para produção seriada, armazenamento intermediário, inspeção e acabamento. Esse aspecto interessa diretamente ao COMGAP, à DIRMAB, ao PAMB-RJ e ao IFI, pois a incorporação de um armamento depende da capacidade de fornecimento regular, controle da qualidade, documentação técnica e apoio logístico. 


Possível apresentação do Armadillo 
Uma das fotografias externas mostra a comitiva diante de um veículo da família HMMWV e de uma estrutura verde com superfícies inclinadas e grades de proteção. O conjunto é compatível com o Armadillo, sistema lançador de foguetes de 70 mm desenvolvido pela Mac Jee sobre plataforma 4x4 e equipado com lançador retrátil.

Como o equipamento aparece parcialmente fora do enquadramento e não há identificação visível, não é possível assegurar que se trate do Armadillo. A imagem permite apenas registrar que uma plataforma terrestre da empresa, aparentemente ligada ao sistema, também foi apresentada aos visitantes.

As imagens redirecionam a interpretação da visita 
Antes da análise das fotografias, a composição da comitiva permitia considerar diferentes projetos do grupo, entre eles o acelerador RATO-14X, o MAA-1B e o kit de guiagem DAGGER. O material visual torna o quadro mais preciso.

Não aparecem nas imagens divulgadas identificações inequívocas do RATO-14X, do MAA-1B, do DAGGER ou do drone ANSHAR. Isso não significa que esses programas tenham ficado fora das reuniões. Significa apenas que a própria seleção de fotografias feita pela Mac Jee priorizou o MAR-1, a família de bombas BGB e a infraestrutura industrial.

A presença dos diretores do IAE e do IEAv mantém aberta a possibilidade de que o RATO-14X e outras tecnologias de propulsão tenham sido discutidos. O registro público, contudo, aponta de forma mais direta para armamentos aeronáuticos e para a capacidade de produzi-los em escala.
 

Segunda visita amplia o acompanhamento da FAB 
A nova visita ocorreu pouco mais de dois meses depois de a Mac Jee receber, em 1º de julho, o comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Marcelo Kanitz Damasceno, acompanhado pelo próprio brigadeiro Malta, pelo diretor-geral do DCTA, tenente-brigadeiro do ar Mauro Bellintani, e pelo vice-diretor do departamento, major-brigadeiro do ar Eric Breviglieri.

A primeira comitiva representava o nível estratégico e científico-tecnológico da FAB. A segunda reuniu órgãos ligados à certificação, ao material bélico, à manutenção e ao apoio logístico. A sequência indica um acompanhamento institucional mais amplo das capacidades da Mac Jee.

Ainda não há anúncio público de contrato, requisitos formais, cronograma de ensaios ou encomenda. As imagens, porém, permitem uma conclusão mais sólida do que a oferecida pelo comunicado: a FAB examinou produtos concretos, entre eles o MAR-1 e a BGB-82, e conheceu a estrutura industrial que poderia sustentar sua fabricação e seu apoio.

O fato não confirma a retomada do míssil antirradiação nem uma nova aquisição de bombas. Mostra que a relação entre a Aeronáutica e a Mac Jee alcançou um nível em que programas, produtos e meios de produção são apresentados diretamente aos responsáveis pelas etapas que transformam tecnologia em capacidade militar operacional.

18 setembro, 2026

DESAER adota engenharia digital da Siemens para desenvolver o ATL-100

A escolha de ferramentas para projeto e simulação soma-se à encomenda tecnológica de Maricá e à formação de uma equipe local; empresa ainda não anunciou prazo para o protótipo ou o primeiro voo 


*LRCA Defense Consulting - 18/09/2026

A DESAER selecionou o portfólio Siemens Xcelerator para o desenvolvimento do ATL-100, avião turboélice bimotor projetado para transportar até 19 passageiros ou 2.500 quilos de carga útil. Anunciada em 17 de setembro de 2026, a contratação prevê reunir projeto mecânico, sistemas elétricos, gerenciamento de dados e simulações em uma representação digital integrada da aeronave. O objetivo declarado é identificar problemas e avaliar alternativas antes da construção física, mantendo rastreáveis as alterações feitas pelas diferentes equipes de engenharia.

O anúncio ganha outra dimensão quando visto ao lado de duas medidas tomadas neste ano em Maricá, no Rio de Janeiro. Em março, a prefeitura assinou com a DESAER uma encomenda tecnológica e um termo de cooperação, com investimento municipal anunciado de R$ 32 milhões em estudos de engenharia, testes e validação. Em julho, a empresa apresentou um plano de contratação de 40 engenheiros e arquitetos para a implantação da unidade local. A nova infraestrutura digital pode oferecer a essas equipes um ambiente comum de trabalho, embora os comunicados não esclareçam se o contrato com a Siemens integra a encomenda financiada pelo município.

O que muda na engenharia 
O conjunto anunciado inclui o Designcenter, para o projeto tridimensional; o Capital, para os sistemas elétricos e eletrônicos; o Teamcenter, para organizar os dados e as versões do produto; e o Simcenter, para simulações de estruturas, fluidos e outros fenômenos físicos. Em termos práticos, a integração permite estudar como uma alteração em determinada parte do avião afeta outras partes e registrar qual configuração foi analisada. Esse encadeamento de informações é especialmente relevante em um projeto com várias configurações de cabine e diferentes missões.

O chamado gêmeo digital, porém, não é um avião pronto nem substitui automaticamente protótipos, ensaios físicos ou demonstrações necessárias à certificação. Seu valor está em permitir que a empresa teste hipóteses de engenharia, compare soluções e reduza retrabalho antes de fabricar componentes. Os ganhos efetivos de prazo e custo dependerão da implantação das ferramentas, da qualidade dos modelos e da validação dos resultados obtidos.

Uma aeronave para pistas com infraestrutura limitada 
A DESAER apresenta o ATL-100 como uma aeronave multimissão destinada ao transporte regional, à logística, à evacuação aeromédica e a operações de defesa e segurança. Segundo as informações divulgadas sobre o projeto, a cabine poderá ser reconfigurada e a aeronave deverá operar em pistas curtas e superfícies não preparadas, incluindo terra e cascalho. Trata-se de requisitos que interessam tanto à ligação de localidades remotas quanto ao apoio a operações em áreas com infraestrutura aeroportuária restrita. Essas capacidades, entretanto, ainda precisam ser demonstradas em uma aeronave construída e ensaiada.

Maricá entra na trajetória do programa 
A prefeitura informou que a primeira etapa de pesquisa e desenvolvimento seria conduzida no Galpão Tecnológico, em Inoã, e que a encomenda tecnológica abrange engenharia, testes e validação. Na apresentação de julho, anunciou-se que os engenheiros recrutados passariam por capacitação para o setor aeronáutico, enquanto arquitetos poderiam atuar também nos interiores das aeronaves. O investimento público e a formação da equipe mostram uma tentativa de criar capacidade local para desenvolver e futuramente produzir o ATL-100. A quantidade de profissionais já efetivamente contratados e a situação física da futura fábrica não foram detalhadas no anúncio da Siemens.

O próximo marco ainda precisa ser definido 
Até o momento, não foram divulgados o valor e a duração do contrato com a Siemens, a extensão das licenças e dos serviços contratados, nem um cronograma atualizado para conclusão do projeto, montagem do protótipo, primeiro voo e certificação. A AEROIN registra expressamente que não há data para o primeiro protótipo. A contratação das ferramentas é, portanto, um marco da organização do desenvolvimento, mas não permite antecipar quando o ATL-100 estará disponível para operadores civis ou militares.

Para avaliar o avanço do programa daqui em diante, será importante acompanhar a implantação real do ambiente digital, a consolidação da equipe em Maricá, a definição da configuração do avião e o início da fabricação e dos ensaios do protótipo. É nesses marcos que a infraestrutura de engenharia anunciada agora poderá ser medida pelos resultados que produzir.

Otokar e Leonardo concluem testes de tiro do blindado turco Tulpar com torre de 120 mm

Campanha valida a integração do veículo sobre lagartas com a HITFACT MkII; configuração é apresentada como opção para projetos de blindados brasileiros 



*LRCA Defense Consulting - 18/09/2026

A turca Otokar anunciou que concluiu, em parceria com a italiana Leonardo, a integração e os testes de tiro real do Tulpar Medium Tank equipado com a torre HITFACT MkII de 120 mm. Segundo a empresa, o conjunto atingiu todos os objetivos previstos para a campanha, inclusive os relacionados ao sistema de armas, ao controle de tiro e à estabilização. O anúncio marca uma nova etapa de desenvolvimento para uma configuração já exibida ao mercado e associada a ofertas de blindados ao Brasil.

O que foi demonstrado 
Na publicação divulgada em sua página oficial, a Otokar afirma que os ensaios verificaram a integração entre a plataforma e a torre, a interoperabilidade dos sistemas e sua funcionalidade geral. A empresa apresenta o resultado como demonstração de prontidão da solução e da flexibilidade da arquitetura modular do Tulpar. O comunicado não informa onde e quando ocorreram os disparos, quantos tiros foram efetuados, quais munições foram utilizadas nem os parâmetros quantitativos de desempenho.

A HITFACT MkII pode receber canhão de alma lisa de 120/45 mm ou canhão raiado de 105/52 mm, conforme a configuração. De acordo com a Leonardo, a torre dispõe de arquitetura digital e pode ser instalada em plataformas sobre rodas ou lagartas. A fabricante informa ainda que há opções de carregamento manual ou automático e compartimento de munição separado da tripulação. Esses dados descrevem a família de torres e não permitem concluir, por si, quais opções equipavam o exemplar submetido aos testes. 


O interesse brasileiro 
O Brazil Defense Brief relacionou o Tulpar com torre de 120 mm às propostas para a futura viatura blindada de combate carro de combate (VBC CC) do Exército e para a renovação de carros de combate do Corpo de Fuzileiros Navais. A publicação também menciona a oferta de uma variante de combate de infantaria do Tulpar ao projeto VBC Fuz. São aplicações diferentes de uma família de veículos: os ensaios anunciados agora dizem respeito especificamente à configuração com a torre HITFACT MkII de 120 mm.

A Otokar não cita clientes brasileiros em seu comunicado sobre os testes. Tampouco informa que eles foram conduzidos sob supervisão das Forças Armadas do Brasil. Assim, a conclusão da campanha industrial fortalece a demonstração técnica da proposta, mas não representa seleção do veículo, homologação brasileira ou compromisso de aquisição.

O passo seguinte 
Para as duas fabricantes, a passagem da apresentação pública do conjunto para disparos com o sistema integrado oferece um argumento técnico adicional em futuras disputas. Para avaliar seu peso nos programas brasileiros, ainda serão decisivos os requisitos oficiais, a proteção e a mobilidade exigidas, a logística, as condições de transferência de tecnologia e, sobretudo, os resultados de eventuais avaliações conduzidas pelas próprias Forças. A Otokar diz que pretende explorar novas oportunidades de cooperação com a Leonardo, sem anunciar encomendas decorrentes desses testes.

Embraer entrega à Flexjet o primeiro Praetor 600E

Operadora prevê 12 unidades até o fim de 2026; jato estreia cabine renovada com tela de 42 polegadas e inaugura nova etapa do acordo de até US$ 7 bilhões.



*LRCA Defense Consulting - 18/09/2026

A Embraer anunciou nesta sexta-feira, 18 de setembro, em Melbourne, na Flórida, a entrega do primeiro Praetor 600E à Flexjet. A operadora norte-americana é a cliente de lançamento da frota da versão atualizada do jato executivo supermédio e prevê receber 12 unidades até o fim deste ano, segundo seu próprio comunicado. A previsão indica a escala pretendida para a incorporação do modelo, mas ainda não equivale a entregas realizadas.

O marco integra o acordo anunciado em fevereiro de 2025, avaliado em até US$ 7 bilhões. O contrato reúne pedidos firmes de 182 aeronaves das famílias Phenom e Praetor, opções para outras 30 e ampliação dos serviços de suporte. O valor anunciado refere-se ao acordo potencial como um todo; a Embraer não informou no release quantos Praetor 600E compõem o pedido nem o preço da primeira aeronave.

Uma cabine concebida para trabalho e entretenimento 

A unidade inaugural incorpora a Smart Window™, opção escolhida pela Flexjet. Trata-se de uma tela sensível ao toque OLED 4K de 42 polegadas, integrada à parede lateral da cabine. Ela permite reuniões por vídeo, exibição de conteúdo em alta resolução e visualização externa ao vivo a partir de três câmeras instaladas na aeronave. Na configuração apresentada pela operadora, um sofá e dois assentos ficam voltados para a tela, criando uma área de reunião que também pode servir ao entretenimento.

A Flexjet informa que seus Praetor 600E terão conexão Wi-Fi via Starlink. A configuração divulgada também reúne novos assentos com ajustes elétricos, sistema de gerenciamento da cabine, comandos de voz, carregamento sem fio, iluminação ajustável e áudio aprimorado. São características voltadas a um público que busca utilizar o tempo de voo para trabalhar, descansar ou se entreter. 


Alcance e certificações 
O Praetor 600E conserva o alcance divulgado de 4.018 milhas náuticas (7.441 quilômetros), calculado com quatro passageiros e reservas IFR conforme os critérios da NBAA. De acordo com a Embraer, essa capacidade permite voos sem escala em rotas como São Paulo–Miami e Londres–Nova York, consideradas as condições aplicáveis a cada missão. A aeronave dispõe de comandos de voo digitais com redução ativa de turbulência, sistema de visão aprimorada E2VS e alerta de risco de ultrapassagem de pista ROAAS.

Apresentados em fevereiro de 2026, o Praetor 600E e o Praetor 500E receberam, segundo a fabricante, certificação da ANAC, da FAA e da EASA em abril e junho, respectivamente. Para o 500E, a primeira entrega à Flexjet está prevista para o quarto trimestre de 2026. A empresa afirma que já recebe unidades do Phenom 300E. A entrega antecipada à cliente de lançamento não altera a previsão divulgada no lançamento dos modelos para início das entregas de novos pedidos no primeiro trimestre de 2029.

Parceria iniciada em 2003
A relação comercial entre Embraer e Flexjet começou em 2003 e incluiu a introdução dos Praetor 500 e 600 na frota da operadora em 2019. Para a fabricante, a chegada do 600E à cliente de lançamento permite colocar em operação a evolução de uma família já estabelecida. Para a Flexjet, a aeronave amplia sua oferta de propriedade compartilhada com uma cabine configurada para atender a seus clientes.

A expectativa de 12 entregas em pouco mais de três meses será um indicador concreto da capacidade de produção e incorporação da nova versão. Por ora, a entrega confirmada é a primeira; a distribuição das demais aeronaves do contrato entre modelos e anos não foi detalhada nos anúncios consultados.

CTEx e Omnisys levam morteiro nacional de 120 mm à era do combate digital

Acordo prevê acelerar a entrada em posição e digitalizar o apontamento do M2 Raiado, aumentando a precisão e reduzindo a exposição da guarnição no campo de batalha

Imagem meramente ilustrativa


*LRCA Defense Consulting - 18/09/2026

O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e a Omnisys Engenharia Ltda formalizaram, em 17 de setembro, um Acordo de Parceria para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação destinado à automatização do Morteiro Pesado 120 mm M2 Raiado.

A iniciativa pretende acelerar a transição do armamento entre as posições de transporte e de tiro, além de digitalizar seu apontamento. Os resultados esperados são maior rapidez na entrada em ação, redução de erros humanos e aumento da precisão na aplicação dos elementos de tiro.

Mais do que facilitar o trabalho da guarnição, a automatização procura encurtar o ciclo completo de emprego do morteiro: ocupar a posição, preparar a arma, receber os dados, apontar, disparar, corrigir e abandonar o local.

Essa rapidez tornou-se especialmente importante em um campo de batalha marcado pela presença de drones, radares de contrabateria, sensores acústicos e outros meios capazes de localizar a origem dos disparos e orientar uma resposta adversária.

Um armamento concebido e produzido no País
O Morteiro Pesado 120 mm M2 Raiado foi desenvolvido no início dos anos 2000 pelo então Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento, posteriormente incorporado ao CTEx, em 2005.

O armamento é fabricado pelo Arsenal de Guerra do Rio (AGR), organização militar responsável pela produção, manutenção e revitalização de diferentes sistemas empregados pelo Exército Brasileiro.

Com aproximadamente 717 quilos, o M2 Raiado é transportado sobre um reparo com rodas. Sua configuração permite o tiro em 360 graus, sem a necessidade de reposicionar completamente a base para engajar alvos em diferentes direções.

O sistema foi concebido para proporcionar apoio de fogo às unidades de Infantaria e Cavalaria, podendo ser transportado por terra ou por meios aéreos. Seu tubo raiado imprime rotação ao projétil, contribuindo para sua estabilidade durante o voo.

Em dezembro de 2022, o Comando de Operações Terrestres aprovou a primeira edição do Manual Técnico Morteiro Pesado 120 mm M2 Raiado, EB70-MT-11.424. O Exército também vem realizando a recuperação e a revitalização de unidades existentes, demonstrando a intenção de preservar o sistema em serviço.

Da preparação manual à assistência automatizada
Na configuração convencional, a entrada em posição exige uma sequência de operações realizadas pela guarnição. O conjunto precisa ser preparado e estabilizado, a arma deve ser nivelada e orientada e os elementos de tiro precisam ser aplicados aos mecanismos de direção e elevação.

A informação divulgada pelo CTEx não apresenta a arquitetura da solução que será desenvolvida. Entretanto, a referência à automatização da passagem entre transporte e tiro indica que o projeto poderá atuar também sobre os mecanismos do reparo, e não apenas sobre o aparelho de pontaria.

Atuadores elétricos, eletromecânicos ou eletro-hidráulicos poderão, em princípio, auxiliar na movimentação, estabilização e preparação do conjunto, reduzindo o esforço físico exigido da guarnição e o tempo necessário para colocar o morteiro em condições de disparar.

A solução efetivamente adotada, sua fonte de energia e seu grau de automação ainda dependerão do trabalho de desenvolvimento realizado pelo CTEx e pela Omnisys.

Apontamento digital reduz erros
No apontamento tradicional, a central de tiro calcula o azimute, a elevação e a carga necessária para atingir o alvo. Esses elementos são transmitidos à guarnição, que realiza manualmente os ajustes na arma, conferindo escalas, níveis e referências.

Em um sistema digital, sensores podem determinar a orientação, a inclinação e a posição geográfica da peça. Um computador recebe os valores calculados pela central de tiro e informa ao operador, ou aplica por meio de atuadores, os movimentos necessários.

O sistema também pode confirmar quando o morteiro alcançou a orientação correta e facilitar o reapontamento para outro alvo ou a introdução de correções após os primeiros disparos.

Essa digitalização reduz erros associados à transmissão dos dados, à leitura das escalas, ao nivelamento e à aplicação do azimute e da elevação.

A automatização não elimina a dispersão própria da munição nem a influência do vento, da temperatura, do desgaste do tubo e da qualidade das coordenadas do alvo. O ganho está principalmente na precisão com que a solução de tiro calculada é aplicada ao armamento.

Exército já testou sistema inercial de pontaria
A modernização do M2 Raiado possui um antecedente relevante. Entre 9 e 12 de maio de 2023, o Arsenal de Guerra do Rio realizou, nas instalações do Centro de Avaliações do Exército, testes para a certificação de um Sistema Inercial de Pontaria produzido pela Safran Electronics & Defense Brasil.

Segundo a divulgação feita na ocasião pelo Exército, o equipamento empregava sensores giroscópicos correspondentes aos três eixos do Morteiro Pesado 120 mm M2A1 R.

O sistema coletava e processava automaticamente diferentes dados. Em seguida, comunicava-se com o Sistema Gênesis de Direção e Controle de Tiro, permitindo o correto nivelamento dos mecanismos de direção e a introdução das correções necessárias para atingir o alvo. A atividade foi divulgada pelo Exército e reproduzida pela DefesaNet.

O acordo agora firmado não esclarece se aquela solução será incorporada, modificada ou substituída. Também não informa se a Safran participará da nova etapa.

O dado confirmado é que o projeto com a Omnisys aparenta possuir escopo mais amplo, pois inclui expressamente a automatização da transição entre transporte e tiro, além da digitalização do apontamento.

Rapidez aumenta a capacidade de sobrevivência
O primeiro ganho da automação será a redução do tempo de reação. A transmissão eletrônica dos elementos de tiro pode diminuir comunicações por voz, anotações, conferências e ajustes sucessivos.

A peça poderá entrar em ação mais rapidamente, executar correções em menos tempo e transferir o fogo para outro alvo com maior agilidade.

O segundo ganho será a maior precisão do apontamento. Sensores inerciais e codificadores angulares permitem conhecer continuamente a orientação real do armamento. Se os dados calculados pela central de tiro forem enviados diretamente à peça, reduz-se a possibilidade de erro humano.

O terceiro, e talvez mais importante, será a sobrevivência da guarnição e do armamento.

O disparo de um morteiro produz diferentes assinaturas. A trajetória das granadas pode ser detectada por radares de contrabateria, enquanto drones, sensores acústicos e observadores inimigos podem identificar a posição por meio do som, da fumaça, do clarão ou da movimentação da tropa.

Quanto mais tempo a peça permanecer na mesma posição depois de abrir fogo, maior será a possibilidade de sofrer um ataque de drones, munições vagantes, artilharia ou outros meios adversários.

A automação reduz essa janela de vulnerabilidade ao permitir que o morteiro chegue, seja preparado, cumpra a missão e abandone a posição em menos tempo.

Essa lógica é conhecida como shoot and scoot, expressão utilizada para descrever a capacidade de disparar e deslocar-se antes da chegada dos fogos de resposta.

Sistemas automatizados mais sofisticados demonstram a importância operacional desse conceito. O Patria NEMO, por exemplo, é apresentado pelo fabricante como capaz de abrir fogo em menos de 25 segundos e abandonar imediatamente a posição. O NEMO é um sistema em torre, muito diferente do morteiro rebocado brasileiro, mas a comparação evidencia por que os tempos de entrada e saída de posição se tornaram requisitos fundamentais.

Menos esforço para a guarnição
A automatização também poderá reduzir o desgaste físico dos militares responsáveis por preparar uma arma com mais de 700 quilos.

A assistência mecânica tende a diminuir a fadiga, reduzir o risco de acidentes e ajudar a manter o desempenho durante missões prolongadas. Também poderá liberar parte da guarnição para tarefas como segurança da posição, comunicações, observação e preparação das munições.

Uma eventual redução no número de militares necessários para operar a peça, entretanto, não foi anunciada.

Mesmo com apontamento automatizado, permanecem atividades que exigem intervenção humana, entre elas o transporte das munições, a preparação das granadas, o carregamento do tubo, a segurança aproximada e a manutenção do sistema.

Também não há indicação de que o projeto incluirá um carregador automático. Assim, a cadência de tiro continuará dependendo, ao menos inicialmente, do trabalho da guarnição.

Munição nacional alcança até 12 quilômetros
O M2 Raiado emprega munições nacionais fabricadas pela IMBEL. O catálogo da empresa apresenta diferentes opções para morteiros pesados de 120 mm.

A granada alto explosiva convencional possui alcance de 6.600 metros e carga de arrebentamento de 2,1 quilos de TNT. A munição alto explosiva pré-raiada alcança 8.150 metros e carrega 4,4 quilos de explosivo.

A versão pré-raiada com propulsão adicional pode atingir 12.000 metros, ampliando consideravelmente a área de atuação da unidade apoiada.

A automação do apontamento não aumentará diretamente esses alcances, que dependem da munição e das características balísticas do armamento. O ganho estará na velocidade e na precisão com que os fogos poderão ser desencadeados dentro da área já coberta pelo sistema.

Integração com o Sistema Gênesis
Uma futura integração com o Sistema Gênesis de Direção e Controle de Tiro poderá conectar digitalmente o morteiro à cadeia de comando e controle.

Nesse modelo, as informações obtidas por observadores avançados, drones, radares ou outros sensores são processadas pela central de tiro e convertidas em elementos para cada peça.

Quando esses elementos chegam diretamente ao sistema de apontamento, elimina-se parte das transmissões intermediárias e reduz-se o tempo entre a identificação do alvo e a abertura do fogo.

A digitalização também facilita a concentração dos disparos de vários morteiros sobre um mesmo objetivo. Cada peça pode receber os dados correspondentes à sua posição e orientação, permitindo que os fogos cheguem de maneira coordenada.

Apesar do antecedente dos testes realizados em 2023, a integração do novo sistema com o Gênesis ainda não foi mencionada no anúncio do CTEx e deverá ser tratada como uma possibilidade técnica até que seja oficialmente confirmada.

Omnisys reúne competências de integração
Fundada em 1997 e controlada pelo Grupo Thales, a Omnisys atua em vigilância e controle do espaço aéreo, defesa aérea, guerra eletrônica, sistemas de rastreio, aviônicos, eletrônica de mísseis e aplicações espaciais.

A empresa possui experiência em sensores, processamento de sinais, eletrônica embarcada, integração de subsistemas e controle eletromecânico, competências compatíveis com um projeto de automatização do morteiro.

Em trabalho anterior para o Exército, a Omnisys desenvolveu o Sistema Transportável para Rastreio de Engenhos em Voo, destinado ao acompanhamento de mísseis, foguetes, granadas de artilharia, munições de grande calibre e aeronaves remotamente pilotadas.

Naquele programa, a empresa demonstrou a integração de subsistemas ópticos e de radar, além do controle eletromecânico dos movimentos angulares de uma antena.

A parceria com o CTEx reúne, portanto, o conhecimento militar e tecnológico acumulado no desenvolvimento do M2 Raiado com a capacidade industrial da Omnisys nas áreas de sensores, eletrônica, atuação mecânica e integração de sistemas.

Modernização não cria imediatamente um morteiro autopropulsado
A automatização anunciada não deve ser confundida com o desenvolvimento imediato de um morteiro autopropulsado ou inteiramente automático.

O comunicado não menciona a instalação do M2 em uma viatura blindada, a adoção de carregador automático, a proteção da guarnição ou a capacidade de disparar a partir do interior de um veículo.

O avanço previsto concentra-se na transição entre as configurações de transporte e tiro e na digitalização do apontamento.

Ainda assim, se o projeto entregar preparação mecanizada, localização automática da peça, aplicação digital dos elementos de tiro e integração eficiente com o Sistema Gênesis, o salto operacional será expressivo.

O Exército poderá preservar um armamento desenvolvido no País, suas munições e a infraestrutura de fabricação existente, acrescentando recursos mais compatíveis com o combate contemporâneo.

Questões ainda precisam ser esclarecidas
O anúncio não informa o valor do acordo, o prazo de desenvolvimento, a quantidade de protótipos nem o cronograma previsto para os testes.

Também não esclarece o grau de automação, a fonte de energia dos mecanismos, a participação de outras empresas, a possibilidade de modernizar todas as peças existentes ou a futura escala de produção.

Outro ponto a ser confirmado é a relação entre o novo projeto e o Sistema Inercial de Pontaria testado em 2023 com a Safran.

Essas definições serão importantes para medir o alcance industrial e operacional do programa. Mesmo em sua fase inicial, entretanto, o acordo sinaliza que o Exército pretende atualizar um de seus principais armamentos coletivos de apoio de fogo sem abandonar uma solução desenvolvida e produzida no País.

Para o M2 Raiado, a automação poderá representar menos tempo parado, maior precisão na aplicação dos dados e, principalmente, melhores condições para cumprir a missão de fogo e deixar a posição antes da resposta adversária.

17 setembro, 2026

A-29 Super Tucano antidrone: Embraer avança para demonstração com alvos reais

Demonstração conduzida com um país não divulgado busca validar o conceito operacional e aperfeiçoar a interface homem-máquina de uma solução que combina sensores, inteligência artificial e armamentos já integrados ao Super Tucano 


*LRCA Defense Consulting - 17/09/2026

A Embraer avançou para uma etapa decisiva do projeto destinado a adaptar o A-29 Super Tucano às missões de combate a sistemas aéreos não tripulados. A empresa está trabalhando com um país cujo nome não foi divulgado em uma demonstração de prova de conceito com aeronaves A-29 e drones reais empregados como alvos. O objetivo é refinar o conceito operacional e otimizar a interface homem-máquina de uma solução altamente integrada.

A informação, divulgada pelo portal norte-americano Breaking Defense em 16 de setembro, acrescenta um elemento novo aos anúncios feitos desde novembro de 2025. Até agora, a comunicação pública havia se concentrado na definição do conceito contra drones e, posteriormente, na integração do sistema de inteligência artificial Gunslinger, da Valkyrie Aero. O emprego de aeronaves e alvos reais mostra que o programa começa a sair do plano da arquitetura proposta para enfrentar condições representativas de uma missão.

O passo mais importante até agora 
Uma prova de conceito não equivale à conclusão do desenvolvimento, à certificação da configuração ou à declaração de capacidade operacional. Ainda assim, representa um salto qualitativo. É nessa fase que sensores, processamento, comunicações, armamentos, procedimentos e carga de trabalho da tripulação são avaliados como partes de uma única cadeia de engajamento.

O teste com drones reais permite verificar se o A-29 consegue receber ou gerar a indicação de alvo, localizá-lo, identificá-lo, acompanhá-lo e apresentar ao piloto uma solução de interceptação com rapidez suficiente. Também possibilita medir limitações difíceis de reproduzir apenas em simulação, como reduzida assinatura visual e térmica do alvo, manobras, interferências ambientais, geometria de aproximação e pouco tempo disponível para a decisão.

O cuidado com a interface homem-máquina é particularmente relevante. Caçar um drone pequeno, lento e de baixa assinatura não é apenas um problema de alcance de sensores ou de precisão do armamento. O sistema precisa transformar diversos dados em indicações claras, reduzir tarefas manuais e ajudar o piloto a priorizar ameaças sem retirar dele a decisão sobre o emprego da força. Uma apresentação inadequada pode aumentar a carga de trabalho justamente na fase mais crítica da interceptação.

Uma evolução construída em etapas 

A Embraer apresentou o conceito operacional do A-29 para missões contra drones em novembro de 2025. A proposta aproveita recursos existentes ou já integráveis à aeronave, entre eles sensores eletro-ópticos e infravermelhos, enlace de dados, metralhadoras calibre .50 e foguetes guiados a laser. A lógica é oferecer uma resposta de menor custo contra determinados drones, preservando caças de alto desempenho e mísseis antiaéreos mais caros para ameaças que realmente exijam esses meios.

Em março de 2026, a fabricante anunciou uma parceria com a norte-americana Valkyrie Aero para integrar ao A-29 o Gunslinger, conjunto baseado em inteligência artificial destinado a processar dados dos sensores da aeronave, detectar e acompanhar múltiplos alvos e apoiar rapidamente o ciclo de decisão. A tecnologia não transforma o Super Tucano em uma plataforma autônoma de combate. Sua função é aumentar a consciência situacional e reduzir o tempo entre a detecção, a identificação e a autorização de um engajamento pelo piloto.

A demonstração agora revelada parece unir essas duas linhas de trabalho: a plataforma e seus meios de detecção e ataque, de um lado, e a automação da análise e da apresentação das informações, de outro. Embora a Embraer não tenha identificado o país participante, a presença de um operador estrangeiro sugere que o esforço está sendo orientado por uma necessidade concreta e não apenas por uma iniciativa promocional.

Uma lacuna entre a defesa terrestre e os caças 
O crescimento do emprego de drones de ataque e munições vagantes criou uma lacuna na defesa aérea. Sistemas terrestres de curto alcance são essenciais para proteger bases, tropas e infraestruturas, mas sua cobertura é localizada. Caças supersônicos e mísseis de alto valor podem interceptar essas ameaças, porém o custo por engajamento e a disponibilidade limitada tornam essa solução difícil de sustentar diante de ataques numerosos e repetidos.

O A-29 busca ocupar uma camada intermediária. Sua autonomia, velocidade relativamente baixa, capacidade de permanecer na área, sensores, armamento interno e pontos externos permitem patrulhar corredores prováveis de aproximação e ampliar a área defendida. O avião também pode receber informações de radares e centros de comando, deslocar-se rapidamente entre setores e atuar antes que o drone alcance o objetivo protegido.

Essa solução, contudo, não substitui uma defesa antiaérea em camadas. O Super Tucano depende de alerta antecipado, identificação confiável, coordenação do espaço aéreo e regras de engajamento rigorosas. Também deverá operar em ambientes nos quais a ameaça inimiga permita o emprego seguro de uma aeronave tripulada. Seu valor está em complementar radares, guerra eletrônica, canhões, mísseis e drones interceptadores, acrescentando mobilidade e persistência ao conjunto.

Interesse comercial para operadores atuais e futuros 
A Embraer informa que o Super Tucano foi selecionado por mais de 20 forças aéreas e acumulou extensa experiência em missões de ataque leve, vigilância, patrulha e treinamento avançado. A adaptação contra drones amplia a utilidade de uma frota já existente e pode ser oferecida tanto a operadores atuais quanto a novos clientes, especialmente países que precisam proteger fronteiras, bases aéreas, instalações estratégicas e grandes extensões territoriais sem manter caças de primeira linha permanentemente em alerta.

A divulgação do tema em diferentes portais internacionais também indica uma ação de posicionamento de mercado. A Embraer procura apresentar o A-29 não apenas como uma aeronave de contrainsurgência e ataque leve, mas como uma plataforma capaz de responder a uma das demandas mais urgentes da defesa aérea contemporânea. O argumento comercial ganha força quando deixa de se apoiar somente em uma configuração planejada e passa a incorporar uma demonstração com usuário potencial e alvos reais.

O que ainda precisa ser demonstrado
Os dados divulgados não esclarecem qual país participa da prova, que tipos de drones são empregados, quais sensores externos integram a cadeia de detecção, quais armamentos serão efetivamente disparados nem o cronograma para conclusão dos ensaios. Também não há indicação pública de contrato de aquisição associado à demonstração.

Essas reservas são importantes, mas não reduzem o significado do avanço. O combate a drones exige que uma boa ideia seja transformada em uma sequência confiável e repetível: detectar, classificar, identificar, decidir e neutralizar. Ao colocar o A-29 diante de drones reais e de um usuário não divulgado, a Embraer começa a buscar a evidência operacional necessária para provar que o Super Tucano pode cumprir essa sequência com eficiência.

Se os resultados confirmarem o conceito, o A-29 poderá ganhar uma nova função em seu já amplo portfólio de missões e oferecer aos operadores uma alternativa móvel, persistente e potencialmente mais econômica para parte do desafio contra drones. Mais do que uma atualização isolada, trata-se de reposicionar uma aeronave brasileira consolidada diante de uma transformação que já redefine a defesa aérea em diferentes regiões do mundo.

Colt CZ Group dobra o EBITDA no primeiro semestre e reforça o valor da participação da CBC

Com receita de CZK 15,9 bilhões (+44,2%) e EBITDA ajustado de CZK 4,6 bilhões (+95,1%) no primeiro semestre de 2026, o grupo tcheco-americano eleva o guidance anual e confirma que a estratégia de integração vertical, da nitrocelulose à arma acabada, está produzindo resultados sem precedentes. Para a CBC, segunda maior acionista com 19,52% do capital, cada ponto percentual de margem conquistado pelo grupo é um evento financeiro direto.



*LRCA Defense Consulting - 17/09/2026

Um semestre histórico
O Colt CZ Group divulgou, em 17 de setembro de 2026, seus resultados consolidados não auditados referentes ao primeiro semestre encerrado em 30 de junho. Os números confirmam uma aceleração estrutural, não conjuntural, do grupo: a receita total atingiu CZK 15,9 bilhões, crescimento de 44,2% sobre o mesmo período de 2025, enquanto o EBITDA ajustado chegou a CZK 4,6 bilhões, praticamente o dobro (+95,1%) do registrado na primeira metade do ano anterior. O lucro líquido avançou 72,7%, para CZK 1,6 bilhão.

A performance justificou a revisão do guidance para o ano inteiro. O grupo agora projeta receitas de CZK 31,0 a 33,0 bilhões e EBITDA ajustado entre CZK 8,0 e 8,5 bilhões, o teto superior cresceu em relação à orientação anterior. Na avaliação do CEO Radek Musil, o resultado valida a estratégia de longo prazo de construir um grupo verticalmente integrado e geograficamente diversificado. "Todos os nossos segmentos tiveram bom desempenho", afirmou Musil ao apresentar os números. "Entramos no segundo semestre com um alto nível de receitas esperadas já cobertas por pedidos confirmados."

O que chama atenção não é apenas o volume de crescimento, mas a qualidade dele: a margem de EBITDA ajustado passou de 33,0% no primeiro semestre de 2025 para 28,9% no primeiro semestre de 2026, aparente contração, mas decorrente da diluição natural causada pelo peso da receita de armas de fogo no mix, segmento de margens inferiores às de munição e energéticos. Isolados, os dois segmentos de maior valor agregado entregaram margens de 33,2% e 54,5%, respectivamente, ambas superiores às do período anterior.

Resultados consolidados: H1 2025 vs H1 2026

Colt CZ Group SE: demonstração de resultados resumida

Indicador

H1 2025

H1 2026

Variação

Receita total

CZK 11,0 bi

CZK 15,9 bi

+44,2%

EBITDA ajustado

CZK 2,4 bi

CZK 4,6 bi

+95,1%

Lucro líquido

CZK 0,95 bi

CZK 1,6 bi

+72,7%

Segmento armas de fogo — receita

CZK 5,8 bi

CZK 8,0 bi

+37,4%

Segmento munição — receita

CZK 5,2 bi

CZK 4,9 bi

-5,0%

Segmento munição — margem EBITDA aj.

26,5%

33,2%

+6,7 p.p.

Segmento energéticos — receita

CZK 2,6 bi*

CZK 3,0 bi

+14,3%*

Segmento energéticos — margem EBITDA aj.

54,5%

*Base proforma. Fonte: Colt CZ Group SE, comunicado de 17/09/2026

Os três motores do crescimento
O resultado do primeiro semestre é sustentado por três vetores distintos, cada um com dinâmica própria.

Armas de fogo: o segmento cresceu 37,4% em receita, para CZK 8,0 bilhões, apesar do avanço modesto de 0,6% no número de unidades vendidas (291.724 armas). O que explica a discrepância é o mix: mais contratos militares e de segurança pública (M&LE), que pagam preços superiores aos do mercado comercial. Colt Canada foi o protagonista do período, com contratos de fornecimento de rifles C7/C8 para as Forças Armadas canadenses (30.000 unidades entre 2026 e 2029) e entregas ao Ministério da Defesa dinamarquês. O crescimento da receita canadense foi de 271% na comparação anual. A Colt também assegurou novo contrato de rifles M4 para clientes estrangeiros por meio do programa de Vendas Militares Estrangeiras (FMS) dos Estados Unidos.

Munição: a receita caiu 5,0%, para CZK 4,9 bilhões, em razão da redução das entregas no âmbito da iniciativa tcheca de munições para a Ucrânia e do impacto das tarifas norte-americanas sobre as importações, que deslocou parte das entregas para o mercado europeu. Esse dado, isolado, poderia sugerir fraqueza. Mas a margem de EBITDA ajustado saltou de 26,5% para 33,2%, sinal de que o segmento está vendendo menos volume e faturando mais por unidade, priorizando contratos de maior valor agregado. A Sellier & Bellot conquistou novos pedidos na Espanha, Polônia, Romênia, Croácia e Estônia, além de fornecimentos pela NSPA (NATO Support and Procurement Agency).

Energéticos: o segmento mais novo e mais lucrativo do grupo entregou CZK 3,0 bilhões em receita e margem de EBITDA ajustado de 54,5%, a mais alta do grupo pelo segundo trimestre consecutivo. A Synthesia Nitrocellulose, adquirida em janeiro de 2026, é um dos maiores fabricantes de nitrocelulose energética da Europa e da América do Norte, matéria-prima essencial para propelentes de munição de todos os calibres. O grupo projeta que o segmento de energéticos representará cerca de 16% da receita total e aproximadamente um terço do EBITDA ajustado ao longo de 2026.

O único vetor negativo foi o mercado comercial norte-americano: a receita dos Estados Unidos caiu 12,7%, para CZK 3,5 bilhões, combinando a fraqueza da demanda civil com o impacto das tarifas de importação. O grupo adota como estratégia de mitigação o controle de custos e o lançamento de novos produtos, incluindo a nova divisão Colt Optics, além da reorientação de parte do volume para o mercado europeu.

O que os números significam para a CBC
A CBC Europe S.à r.l. detém, desde 6 de janeiro de 2026, 19,52% do capital registrado e 19,60% dos direitos de voto do Colt CZ Group, posição que a mantém como segunda maior acionista e confere ao grupo brasileiro assento no conselho de supervisão. Cada ponto percentual de crescimento do grupo tcheco-americano tem, portanto, implicação financeira direta e mensurável para a CBC.

O mecanismo é duplo. O primeiro é a valorização patrimonial da participação: à medida que o Colt CZ Group eleva receitas, margens e lucros, o valor de mercado do grupo tende a se apreciar, e a fatia da CBC acompanha esse movimento. O segundo é o fluxo de dividendos: o conselho do grupo propôs, para o exercício de 2026, dividendo de CZK 30 por ação, sujeito à aprovação em assembleia. Com 12.227.843 ações em carteira, a CBC receberá, se aprovado, cerca de CZK 366,8 milhões apenas a título de dividendos, sem considerar eventuais ajustes derivados do desempenho do segundo semestre.

O resultado do primeiro semestre sugere que o desempenho anual pode superar o teto do guidance revisado. O grupo declarou operar com "alto nível de receitas esperadas já cobertas por pedidos confirmados" ao entrar no segundo semestre, linguagem que, no vocabulário de relações com investidores, sinaliza confiança acima da média na entrega dos números projetados. Se o guidance de CZK 8,0 a 8,5 bilhões de EBITDA ajustado se materializar, o segundo semestre precisará entregar entre CZK 3,4 e 3,9 bilhões, meta plausível dado que o segundo semestre costuma ser mais forte em contratos M&LE.

Para a CBC, há ainda um terceiro vetor de impacto, ainda latente, mas em maturação: o fornecimento de componentes e insumos ao Colt CZ Group por empresas do próprio ecossistema brasileiro. A Taurus Armas, controlada indiretamente pela CBC Global Ammunition, possui tecnologia de metal injection molding (MIM) exclusiva no Hemisfério Sul, e cada arma produzida pelo grupo tcheco pode conter até 14 peças fabricadas por esse processo. Negociações avançadas entre a Česká zbrojovka e a Taurus foram sinalizadas pela visita de executivos tchecos a São Leopoldo em maio de 2025. Se um contrato formal de fornecimento se concretizar, a CBC passará a capturar valor não apenas como acionista do grupo, mas como integrante de sua cadeia produtiva.

Impacto financeiro estimado da participação da CBC no Colt CZ Group (2026)

CBC Europe S.à r.l. - participação de 19,52% no Colt CZ Group

Item

Base de cálculo

Estimativa para a CBC

Participação no capital

19,52% de 62.637.242 ações

12.227.843 ações

Dividendo proposto (CZK 30/ação)

12.227.843 × CZK 30

~CZK 366,8 milhões

Guidance EBITDA 2026 (teto)

CZK 8,5 bi × 19,52%

~CZK 1,66 bilhão (proporcional)

Guidance receita 2026 (teto)

CZK 33,0 bi × 19,52%

~CZK 6,44 bilhões (proporcional)

Nota: os valores proporcionais não representam receita da CBC, mas a parcela do resultado consolidado do Colt CZ Group atribuível à sua participação acionária. Fonte: elaboração LRCA com base nos dados do Colt CZ Group SE.

O MoU com a Frankenburg e a camada adicional de crescimento
Os resultados do primeiro semestre foram divulgados no mesmo dia em que este veículo reportava o Memorando de Entendimento assinado pelo Colt CZ Group com a Frankenburg Technologies, empresa estoniana desenvolvedora do Mark I, míssil interceptador de drones com custo estimado em menos de um décimo do preço de um Stinger convencional. O MoU insere o Colt CZ Group, pela primeira vez, no segmento de sistemas de armas guiadas.

A combinação dos dois eventos é relevante para a leitura do que está se construindo. O resultado do H1 2026 demonstra que a base industrial do grupo, especialmente o segmento de energéticos, está operando com margens elevadas e capacidade de absorver novos negócios sem deteriorar a estrutura de custos. O Mark I, propulsionado por motor foguete de combustível sólido, é exatamente o tipo de produto que pode utilizar a nitrocelulose energética da Synthesia como insumo. Se a cadeia produtiva do míssil for integrada ao grupo, o segmento de energéticos, já o mais rentável, teria uma nova fonte de receita de alta margem, em mercado com demanda estruturalmente crescente na Europa.

Para a CBC, o encadeamento é direto: melhores margens no segmento de energéticos elevam o EBITDA consolidado do Colt CZ Group; EBITDA maior amplia a base de distribuição de dividendos e valoriza a participação acionária. O MoU com a Frankenburg não é, portanto, apenas uma notícia de expansão de portfólio do grupo tcheco. É mais uma peça na construção de valor que, ao final da cadeia, chega ao balanço da CBC.

Síntese
O primeiro semestre de 2026 entrega, com clareza matemática, a tese que sustentou a decisão da CBC de trocar a Sellier & Bellot por participação acionária no Colt CZ Group em maio de 2024: um grupo verticalmente integrado, em ciclo de rearmamento global, com três segmentos complementares e margens crescentes vale mais, e distribui mais, do que uma subsidiária isolada, por mais sólida que fosse. Com 19,52% do capital e assento no conselho de supervisão, a CBC não é espectadora desse crescimento. É co-proprietária dele.

O guidance revisado para CZK 31,0 a 33,0 bilhões de receita e CZK 8,0 a 8,5 bilhões de EBITDA ajustado em 2026, lastreado em pedidos confirmados, coloca o Colt CZ Group em trajetória de tornar-se, em valor de EBITDA, um dos maiores grupos de defesa da Europa Central. Para a CBC, isso significa que a decisão de 2024, por vezes questionada nos mercados brasileiros à época, estava muito bem calibrada.

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