Projetos da Avibras Aeroco, SIATT, Mac Jee, XMobots,
Stella Tecnologia e de uma nova geração de empresas revelam capacidade
tecnológica crescente, mas o salto para a autonomia dependerá de encomendas,
escala industrial e continuidade orçamentária
*LRCA Defense Consulting - 15/09/2026O Brasil atravessa uma fase
incomum no desenvolvimento de armamentos inteligentes e sistemas aéreos não
tripulados. Empresas de diferentes portes da Base Industrial de Defesa (BID)
conduzem, simultaneamente, projetos de mísseis de cruzeiro, armas antinavio,
foguetes guiados, munições vagantes e aeronaves remotamente pilotadas
destinadas a reconhecimento, vigilância e ataque de precisão.
O movimento reúne companhias
consolidadas, como Avibras Aeroco, SIATT, Mac Jee, XMobots e Stella Tecnologia,
e uma nova geração representada por BRVANT, Advanced Technologies Security
& Defense (AdTech SD) e Akaer. Os programas apresentam graus muito
diferentes de maturidade. Alguns possuem contratos, certificações ou
plataformas em demonstração; outros permanecem como protótipos ou conceitos que
ainda precisarão comprovar desempenho, obter financiamento e chegar à produção
seriada.
Mesmo com essas diferenças,
o conjunto revela algo maior: o País começa a reunir competências nacionais em
praticamente todas as camadas do combate contemporâneo. A questão decisiva já
não é apenas saber se a engenharia brasileira consegue projetar esses sistemas,
mas se o Estado, as Forças Armadas e a indústria conseguirão transformá-los em
capacidade operacional permanente.
Avibras Aeroco e a reconstrução da capacidade de fogos de longo
alcance
A Avibras Aeroco ocupa
posição singular nesse panorama. A empresa é responsável pela família ASTROS,
um dos produtos de defesa brasileiros mais conhecidos no exterior, e participa
dos projetos do Míssil Tático de Cruzeiro de 300 quilômetros (MTC-300) e do
foguete guiado SS-40G, contratados pelo Exército Brasileiro.
O MTC-300 deverá
proporcionar à Força Terrestre a capacidade de atingir alvos estratégicos a
longa distância com elevada precisão. Mais do que uma nova munição, o sistema
representa o domínio de áreas sensíveis, como propulsão, navegação, guiamento,
planejamento de missão, integração com lançadores e produção de cabeças de
guerra. O programa oficial prevê ainda evoluções de alcance, guiamento terminal
e emprego contra alvos móveis.
A retomada da Avibras sob a
denominação Avibras Aeroco, depois de uma prolongada crise financeira, é
relevante porque preserva conhecimentos acumulados durante décadas. Também
devolve centralidade ao futuro do ASTROS, agora relacionado a uma arquitetura mais
ampla de fogos, busca de alvos, defesa antiaérea e integração multidomínio.
Entretanto, a recuperação da empresa somente se consolidará se houver
continuidade contratual, capital para recompor fornecedores e capacidade de
entregar os programas dentro de cronogramas realistas.
SIATT amplia família de mísseis e infraestrutura industrial
Na SIATT, o principal vetor
é a família MANSUP. O míssil antinavio nacional nasceu de um programa da
Marinha do Brasil para substituir o Exocet MM40 e preservar no País o
conhecimento relacionado a armas de negação do uso do mar. A versão inicial
possui alcance divulgado de aproximadamente 70 quilômetros, enquanto o
MANSUP-ER amplia o envelope de emprego e as possibilidades de exportação.
A empresa responde por
competências de guiamento, navegação, controle, telemetria e integração. O
acordo de fornecimento para as fragatas classe Tamandaré criou uma perspectiva
concreta de inserção do sistema em navios modernos da Esquadra. Paralelamente,
estudos de versões lançadas de terra e do ar podem transformar o MANSUP em uma
família multimissão, com maior escala industrial e comunalidade logística.
A entrada do EDGE Group como
acionista e parceiro estratégico acrescentou recursos financeiros, acesso
comercial e uma rede internacional de programas. Em 2026, a SIATT também
colocou em funcionamento sua unidade de Caçapava (SP), planejada para ampliar a
fabricação de mísseis, foguetes e sistemas de propulsão. A cooperação anunciada
com a Safran Electronics & Defense para estudar mísseis, munições de
permanência, defesa costeira e motores-foguete de propelente sólido pode
preencher uma lacuna crítica da cadeia nacional.
O ponto de atenção está na
autonomia efetiva. Investimento estrangeiro e acesso a mercados podem acelerar
os projetos, mas a relevância estratégica para o Brasil dependerá da
manutenção, no País, da engenharia, da propriedade intelectual, da produção de componentes
sensíveis e da liberdade de evolução e exportação dos sistemas.
Mac Jee reúne munições guiadas, sistema lançador e aeronave não
tripulada
A Mac Jee construiu um
portfólio que combina munições aéreas, materiais energéticos e sistemas
terrestres. Entre os projetos mais conhecidos estão o Dagger, kit destinado a
converter bombas convencionais em munições guiadas; o ANSHAR, apresentado como
aeronave não tripulada de emprego tático; e o Armadillo, lançador múltiplo
compacto instalado em viatura leve.
O Armadillo emprega módulos
de foguetes de 70 milímetros e foi concebido para ocultar o lançador durante
deslocamentos. Segundo a empresa, a configuração pode transportar um módulo
pronto para o disparo e outros três no compartimento de munições, permitindo
lançar mais de 70 foguetes em poucos minutos. O sistema já passou por
demonstrações e avaliações no Centro de Avaliações do Exército.
No segmento aéreo, a
associação com a Aero.ID no MQ-18 Arqus reforça uma tendência importante: o uso
de aeronaves relativamente simples e produzíveis em quantidade como lançadoras
de munições. Para a Mac Jee, a convergência entre plataforma, carga bélica,
sistema de guiamento e material energético cria a possibilidade de oferecer
soluções mais completas. Ainda será necessário, porém, conhecer com maior
precisão o estágio atual do ANSHAR, do Dagger e do Arqus, seus resultados de
ensaio e a existência de clientes lançadores.

XMobots avança da vigilância para uma família de emprego militar
A XMobots apresenta um dos
processos mais visíveis de expansão industrial no setor brasileiro de aeronaves
não tripuladas. A companhia reúne centenas de profissionais, verticaliza
componentes, sensores, inteligência artificial e sistemas de controle e anunciou
investimentos de R$ 220 milhões na área de Defesa.
O Nauru 100D obteve, em
setembro de 2026, autorização da Agência Nacional de Aviação Civil para operar
a até 30 quilômetros, a 6 mil pés, de dia e à noite, dentro das condições
estabelecidas pelo órgão regulador. A configuração de inteligência, vigilância
e reconhecimento tem peso máximo de decolagem de 9 quilogramas, decolagem e
pouso vertical elétrico e autonomia de até duas horas por bateria.
A mesma arquitetura está
sendo empregada no desenvolvimento do Nauru 100D UCAV, versão de combate
apresentada ao Exército Brasileiro, e em conceitos de operação coordenada em
enxame. A certificação da versão de reconhecimento não equivale à aprovação automática
das configurações armadas, mas consolida a célula, a navegação, o comando e
controle e a experiência regulatória sobre as quais a família poderá evoluir.
Em uma camada superior está
o Nauru 1000C, concebido para missões de maior persistência e carga útil. A
companhia também desenvolve o Nauru 500C e participa, com a Marinha do Brasil e
a Petrobras, de estudos para adaptar sistemas da família a operações embarcadas.
O conjunto coloca a XMobots em posição de disputar desde missões táticas de
pequenas frações até vigilância de fronteiras, apoio de fogo e operações
marítimas.
Stella Tecnologia aposta em autonomia, propulsão nacional e
resistência à guerra eletrônica
A Stella Tecnologia
desenvolveu uma família de plataformas que inclui o Atobá, o Albatroz, o Atobá
XR e o Albatroz Vortex. Os projetos buscam atender missões de longa
permanência, vigilância marítima e terrestre, emprego embarcado e transporte de
diferentes sensores e cargas úteis.
O Albatroz Vortex ganhou
destaque ao voar com a ATJR 15-5, turbina de fabricação nacional desenvolvida
pela Aero Concepts em cooperação com o Comando da Aeronáutica. A combinação de
uma plataforma brasileira com propulsão local atinge uma das áreas mais difíceis
da autonomia aeronáutica, na qual poucos fornecedores dominam materiais,
projeto térmico, fabricação e controle do motor.
Outro eixo é o
desenvolvimento de munições vagantes e de aeronaves de ataque guiadas por fibra
óptica. Essa solução mantém comando e transmissão de imagens por meio de um
cabo físico, reduzindo a vulnerabilidade à interferência de radiofrequência. A
experiência das guerras recentes mostrou o valor desse recurso, embora o peso
do carretel, as limitações de manobra e os resíduos deixados no terreno
imponham restrições.
A parceria da Stella
Tecnologia com Thales e Omnisys acrescenta sensores, comunicações e integração
de missão. O desafio será converter a variedade de protótipos em produtos
qualificados e demonstrar quais configurações possuem demanda definida,
financiamento e capacidade de produção em quantidade.

BRVANT, AdTech SD e Akaer formam uma nova linha de projetos
Entre as empresas que
precisam ser acompanhadas está a BRVANT. O projeto Carvalho foi apresentado
como uma aeronave não tripulada de maior alcance, capaz de receber diferentes
configurações de missão e incorporar inteligência artificial, além de aproveitar
conhecimentos da família de munições Hunter. A proposta é ambiciosa, mas
permanece em estágio de desenvolvimento. Seu marco decisivo será a construção e
o voo de um protótipo funcional, seguidos por campanhas de ensaio que confirmem
alcance, carga, navegação e resistência à guerra eletrônica.
A AdTech SD, por sua vez,
alcançou uma etapa regulatória concreta com o Harpia. A aeronave de asa fixa é
lançada por catapulta e recuperada por paraquedas e bolsas de ar, o que
dispensa pista. A autorização da ANAC contempla operação além da linha de visada,
BVLOS, a até 180 quilômetros da estação de pilotagem e teto operacional de 10
mil pés. Sua modularidade permite receber câmeras e outros sensores destinados
a vigilância de fronteiras, reconhecimento, busca e salvamento e apoio à
aquisição de alvos.
A Akaer acrescenta ao
panorama a capacidade de engenharia e integração aeronáutica. A empresa foi
escolhida para participar da implantação no Brasil do REACH-S, sistema não
tripulado desenvolvido pela ADASI, pertencente ao EDGE Group. A montagem final
e a integração no País podem abrir uma nova etapa para plataformas de maior
porte. O anúncio da aquisição da Akaer pelo EDGE, realizado em julho de 2026,
amplia o acesso a capital e mercados, mas também torna essencial acompanhar as
condições de preservação das competências brasileiras e a efetiva transferência
de atividades para o território nacional.

Um ecossistema que vai além das plataformas
O avanço brasileiro não
depende apenas das empresas que fabricam mísseis ou aeronaves. Aero.ID, AEL
Sistemas, Santos Lab, Omnisys, IACIT e Aero Concepts representam partes
importantes da cadeia de integração, sensores, comunicações, guerra eletrônica,
radares, propulsão e sistemas de missão.
Essa rede poderá ser tão
importante quanto as plataformas. Um sistema não tripulado militar exige
enlaces seguros, navegação resistente a interferências, sensores eletro-ópticos
e infravermelhos, processamento de imagens, inteligência artificial, estações
de controle, logística, treinamento e integração aos sistemas de comando das
Forças Armadas. Da mesma maneira, um míssil somente produz efeito estratégico
quando está ligado a meios confiáveis de detecção, identificação, designação e
avaliação de danos.
O teste decisivo será transformar projetos em capacidade de combate
O panorama demonstra que o
Brasil possui conhecimento para disputar segmentos de elevado valor
tecnológico. Avibras Aeroco e SIATT trabalham em armas de longo alcance e
negação do mar; Mac Jee combina munições e sistemas lançadores; XMobots e
Stella Tecnologia ampliam o espectro das aeronaves não tripuladas; BRVANT,
AdTech SD e Akaer acrescentam novas arquiteturas, níveis de autonomia e
possibilidades de integração.
Entretanto, a existência de
bons projetos não garante, por si só, soberania. A indústria precisa de
encomendas previsíveis, financiamento para concluir o desenvolvimento, campos
de prova, certificação militar, estoques mínimos e contratos que sustentem a
produção durante anos. Também precisa projetar desde o início para fabricar
centenas ou milhares de unidades, porque os conflitos atuais demonstram que
quantidade, reposição e custo passaram a integrar o próprio conceito de
desempenho.
O primeiro piloto desse novo
ciclo já está em curso nas pranchetas, laboratórios e fábricas da BID. O
próximo passo caberá à articulação entre governo, Forças Armadas e empresas:
selecionar prioridades, evitar a dispersão de recursos e assegurar que a tecnologia
desenvolvida no País resulte em meios disponíveis, doutrina, pessoal adestrado
e capacidade industrial mobilizável.