Acordo intergovernamental assinado em Atenas prevê primeira entrega em 2027, pacote de quase € 590 milhões, retorno de € 33 milhões a Lisboa e formação das tripulações gregas em Beja; Embraer confirma oficialmente as opções
*LRCA Defense Consulting - 02/11/2026 - 08h55
A Grécia assinou nesta segunda-feira, 2 de novembro de 2026, em Atenas, o acordo para adquirir três aeronaves KC-390 Millennium, com opções para outras três unidades. O instrumento é um acordo de governo a governo entre Grécia e Portugal: Lisboa exerce parte das opções de compra que mantém com a Embraer e repassa os aviões à Força Aérea Helênica. A fabricante brasileira confirmou a operação em comunicado datado da capital grega, no qual informa que a primeira entrega ocorrerá em 2027. Segundo a Embraer, a Grécia passa a ser o sétimo país europeu a selecionar o modelo, ao lado de Portugal, Hungria, Países Baixos, Áustria, República Tcheca e Suécia.
A existência das opções já havia sido noticiada pela imprensa especializada europeia desde julho, quando o Parlamento grego aprovou o programa. O comunicado desta segunda-feira, porém, é a primeira confirmação oficial da Embraer de que a frota grega poderá chegar a seis aeronaves. A encomenda firme é de três unidades; a fabricante não divulgou preço, prazo nem condições contratuais para as três opcionais, tampouco informou se o contrato entre Portugal e a Embraer para o exercício das opções já foi formalizado.
O substituto dos Hercules
Para a Força Aérea Helênica, o KC-390 substitui a antiga frota de C-130H Hercules, cuja manutenção se tornou cada vez mais onerosa. A escolha foi construída ao longo de mais de um ano. Em 16 de junho de 2025, Atenas assinou com Lisboa uma carta de intenções para parceria em transporte aéreo militar. Em maio de 2026, o ministro da Defesa grego, Nikos Dendias, visitou Portugal e declarou publicamente o interesse no avião. Ainda em maio, a Embraer firmou com a estatal HAI (Hellenic Aerospace Industry) um memorando de entendimento para estudar a manutenção, o reparo e a revisão do KC-390 em território grego. Em 11 de junho, a comissão de Defesa do Parlamento grego aprovou o financiamento, depois do aval do conselho governamental responsável por assuntos de defesa.
A dimensão industrial pesa para Atenas. Conforme a LRCA Defense Consulting noticiou em 22 de outubro, Dendias defende participação mínima de 25% da indústria grega nos programas de defesa e indicou que a manutenção do KC-390, inclusive dos motores, poderá ser feita no país. Trata-se de objetivo político e industrial; o escopo efetivo depende de instrumentos ainda não divulgados.
Quase € 590 milhões e retorno para Lisboa
A Resolução do Conselho de Ministros português nº 207/2026, publicada no Diário da República em 22 de outubro, autorizou despesa de € 589.975.907,96, acrescida de IVA, distribuída entre 2026 e 2031. Até € 532.894.587,68 correspondem às três aeronaves e ao apoio logístico de entrada em serviço, contratados junto ao consórcio Embraer S.A. e Embraer Portugal S.A. Outros € 57.081.320,28 cobrem o conjunto de guerra eletrônica (fornecido pela israelense Elbit Systems), a formação, o apoio logístico, equipes técnicas na Grécia e a gestão do programa. A operação é integralmente financiada pelas receitas do contrato com Atenas, ou seja, o Tesouro português não desembolsa recursos próprios. Os valores referem-se às três aeronaves firmes e não ao preço das opções.
Segundo fonte oficial do Ministério da Defesa Nacional de Portugal ouvida pela agência Lusa, o Estado português terá retorno de € 11 milhões por avião, ou € 33 milhões no total, a ser canalizado para a indústria nacional. Lisboa justifica o valor pela participação portuguesa no desenvolvimento e na produção do KC-390 e pela adaptação e certificação da aeronave aos requisitos da OTAN. Parte dessa participação passa pela OGMA, empresa de Alverca controlada pela Embraer (65%) e pelo Estado português, que fabrica segmentos da fuselagem central enviados ao Brasil para a montagem final em Gavião Peixoto (SP).
Cronograma com versões diferentes
A fonte portuguesa ouvida pela Lusa prevê a primeira entrega em 2027 e entregas faseadas em 2029 e 2031, todas na configuração desenvolvida em Portugal para os padrões da OTAN. A imprensa grega, porém, informa que os dois aviões restantes chegariam gradualmente até 2030, mesmo horizonte divulgado em julho, quando o programa foi aprovado em Atenas. O comunicado da Embraer confirma apenas a entrega de 2027. A diferença só deverá ser esclarecida com a divulgação do texto do acordo ou de novo posicionamento oficial.
Portugal não atuará apenas como intermediário. Caberá a Lisboa supervisionar a produção, acompanhar a aceitação e a entrega das aeronaves, apoiar a transição operacional e conduzir a formação inicial de tripulações e mecânicos gregos na Base Aérea nº 11, em Beja, que o país busca consolidar como centro europeu de treinamento do KC-390.
Modelo de venda por meio de Lisboa
A operação estreia o mecanismo criado no aditamento assinado por Portugal e Embraer em 17 de setembro de 2025, que acrescentou uma sexta aeronave à frota portuguesa e reservou opções para até dez unidades destinadas a países europeus ou membros da OTAN, por meio de acordos de governo a governo. Com isso, a Grécia aproveita posições já asseguradas na linha de produção, sem esperar o prazo de uma encomenda nova. Restam sete opções no contrato português.
A cerimônia ocorreu durante a visita oficial do ministro português da Defesa Nacional, Nuno Melo, a Dendias. A imprensa grega relatou a assinatura na presença dos dois ministros. Antes do ato, a Lusa havia indicado como signatários previstos António José Baptista, diretor-geral de Armamento e Património da Defesa Nacional de Portugal, e o major-general Ioannis Bouras, responsável grego por investimentos e armamento de defesa. O comunicado da Embraer não identifica os signatários.
Capacidade nova, com ressalvas
Segundo a Embraer, o KC-390 transporta até 26 toneladas de carga, atinge 470 nós e, quando equipado, atua como avião-tanque e receptor de combustível. Além do transporte de carga e tropas, a plataforma executa evacuação aeromédica, busca e salvamento, lançamento de cargas e paraquedistas, combate a incêndios e apoio humanitário.
O ganho potencial mais relevante para a Grécia é o reabastecimento em voo. A versão tanque usa o sistema de sonda e cesto, compatível com os Rafale e os Mirage 2000 gregos; a Força Aérea Helênica não dispõe hoje de aviões-tanque próprios. Os F-16 helênicos, que usam lança rígida, não seriam atendidos. A própria imprensa grega, no entanto, adverte que a designação KC não garante, por si só, a integração imediata do reabastecimento dos Rafale: a certificação com cada tipo de caça é etapa à parte, sem prazo divulgado.
O que acompanhar
Os próximos marcos são o eventual exercício das três opções, a confirmação do calendário de entregas, o andamento da certificação do reabastecimento em voo e a definição do escopo da manutenção local com a HAI. Para a Embraer, a assinatura acrescenta mais um operador europeu e confirma Portugal como canal de comercialização, treinamento e sustentação do KC-390 no continente. Além dos europeus, a fabricante relaciona Brasil, República da Coreia, Uzbequistão, Emirados Árabes Unidos e Colômbia entre os compradores do modelo. Em comunicado, Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, destacou a confiança de integrantes da OTAN na aeronave e as sinergias europeias em treinamento, suporte e logística.
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