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05 abril, 2026

A fabricante turca que pode mudar o patamar da Taurus e que já vende para o Brasil

Com contratos conquistados na Malásia, nas Filipinas e agora no próprio Exército Brasileiro, a Mertsav Savunma Sistemleri chegou ao radar mundial de defesa como um fornecedor silencioso de metralhadoras de alta performance. Não por acaso, é ela que a Taurus quer comprar

Metralhadora pesada Mertsav MHMG-127 com calibre 12,7mm (.50)
 

*LRCA Defense Consulting - 05/04/2026

Há poucos anos, o nome Mertsav Savunma Sistemleri era praticamente desconhecido fora da indústria de defesa turca. A empresa não tinha o apelo de gigantes como FN Herstal ou Heckler & Koch, tampouco a visibilidade de fabricantes estatais. Operava nos bastidores: fornecia peças críticas para a indústria estatal turca, fabricava componentes de armas famosas sob encomenda e acumulava, em silêncio, mais de duas décadas de expertise no segmento mais exigente da indústria armamentista: as armas coletivas.

Hoje, a Mertsav vende para o Exército da Malásia, assinou contrato com os Fuzileiros Navais das Filipinas, fornecerá metralhadoras ao Exército Brasileiro e está na iminência de ser adquirida pela Taurus Armas, a maior vendedora de armas leves do mundo. A trajetória da empresa turca é, ela mesma, a melhor explicação para o interesse brasileiro. 

Quem é a Mertsav: da subcontratação ao produto próprio
A Mertsav iniciou suas atividades em 1994 com a produção de espingardas. Após 1997, passou a atuar exclusivamente na indústria de defesa. Com mais de 20 anos de experiência, forte capacidade de design e engenharia e equipamentos de última geração, tornou-se o maior fornecedor da Fábrica de Armas da MKE, empresa estatal turca, por mais de duas décadas, produzindo as peças principais mais críticas de armas como MG-3, G-3, MP-5, HK-33 e lançadores de granadas, muitas vezes como fornecedora exclusiva de componentes, como canos e mecanismos.

Ao longo desse período, produziu também componentes dos fuzis MPT-76 e MPT-55, projetos da Presidência das Indústrias de Defesa da Turquia. Essa expertise fez da Mertsav um dos mais importantes fornecedores da MKEK, das Forças Armadas turcas (TSK) e da Direção Geral de Segurança (EGM).

Com a abertura do setor privado de defesa turco, a empresa deu um salto qualitativo: deixou de ser apenas fornecedora de componentes e passou a desenvolver e fabricar seus próprios sistemas. Seu portfólio atual inclui a MHMG-127, metralhadora pesada calibre 12,7mm com velocidade de boca de 850 m/s, projetada para engajamentos de longa distância e alta cadência contra alvos terrestres e aéreos, além da metralhadora MMG762, calibre 7,62mm NATO, e da MMG556, metralhadora leve 5,56mm NATO com três opções de comprimento de cano, compatível com carregadores STANAG e sistema de alimentação por correia M27.

Atualmente, a empresa possui três unidades de produção em Istambul e na Área Industrial de Defesa de Kırıkkale.

Metralhadora pesada Mertsav MHMG-127 com calibre 12,7mm (.50)

As vendas que provam o produto: Malásia, Filipinas e Brasil
O cartão de visitas mais convincente da Mertsav não está nos catálogos, mas sim nos contratos assinados.

- Malásia: o Exército malaio abriu licitação para a aquisição de 86 metralhadoras pesadas 12,7mm. Com 14 concorrentes habilitados e preços variando entre RM 14 e RM 14,6 milhões, o contrato foi adjudicado à Kazakon Sdn Bhd, agente local da Mertsav na Malásia, pelo valor de RM 14,086 milhões. A empresa havia exibido os armamentos da fabricante turca na DSA 2024, a principal feira de defesa do Sudeste Asiático. O produto entregue será a MHMG-127, versão da Browning M2, uma das metralhadoras pesadas mais utilizadas no mundo.

- Filipinas: em julho de 2025, o Corpo de Fuzileiros Navais das Filipinas concedeu à Mertsav a licitação para o fornecimento de 95 metralhadoras MMG762, calibre 7,62mm, pelo valor de cerca de 115 milhões de pesos filipinos. A empresa foi a única licitante a atender todos os requisitos técnicos e financeiros do edital. O contrato foi assinado por meio da representante local Wirox International Trading e destinou-se, provavelmente, ao Grupo de Operações Especiais dos Fuzileiros Navais. A MMG762 é considerada uma versão aprimorada da FN Minimi 7,62 (Maximi/Mk.48), e analistas filipinos apontam que a empresa pode igualmente concorrer no processo de aquisição de metralhadoras 5,56mm do Exército filipino com o modelo MMG556.

Vale ainda registrar que, nessa mesma disputa pelas Filipinas, a Mertsav e a Taurus participaram de uma licitação separada para fuzis 5,56mm, como concorrentes. A joint venture Nashe Enterprises/Mertsav ficou em terceiro lugar, enquanto a Taurus ficou em segundo, ambas superadas pela sul-coreana Dasan Machineries. A cena é reveladora: as duas empresas já orbitam os mesmos mercados, disputando os mesmos clientes e, em breve, podem estar do mesmo lado do balcão.

- Brasil: o caso mais significativo veio do próprio país sede da Taurus. Conforme revelado pelo CEO Salesio Nuhs em live realizada em 25 de março de 2026, a Taurus venceu uma licitação internacional, via Estados Unidos, para o fornecimento de 300 metralhadoras Mertsav MMG762 7,62mm ao Exército Brasileiro. A informação representa um dado de peso: antes mesmo de a aquisição da empresa turca ser concluída, as armas da Mertsav já estão sendo compradas para equipar as próprias Forças Armadas do país que quer comprá-la.

O acordo com a Marinha: tecnologia turca com uniforme brasileiro
Se os contratos internacionais revelam o alcance comercial da Mertsav, o protocolo firmado com a Marinha do Brasil em 10 de fevereiro de 2026 revela algo ainda mais importante: a intenção de transformar tecnologia turca em capacidade industrial brasileira.

A Marinha do Brasil, por meio do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), celebrou um Protocolo de Intenções com a Taurus para o desenvolvimento de novos sistemas de armas leves e coletivas. A cerimônia, realizada na histórica Fortaleza de São José, no Centro do Rio de Janeiro, contou com o apoio institucional do BNDES.

Segundo informações apresentadas durante o evento, os projetos de metralhadoras nos calibres 5,56mm e 7,62mm terão como base exatamente o projeto Mertsav, fundamentado nos modelos MMG762 e MMG556. A metralhadora calibre .50 será baseada no modelo MHMG-127. Também está previsto o desenvolvimento de um fuzil de assalto baseado no modelo MAR556 da empresa turca.

O CEO Salesio Nuhs foi direto ao anunciar o acordo: "Estamos dando um passo decisivo dentro da Taurus, indo em direção ao mercado de armamento militar, que são as Minimi em calibre 5,56mm, a 7,62mm, e a .50. Isso é uma tecnologia que nós estamos desenvolvendo. O Brasil, a nossa Base Industrial de Defesa, tem que ampliar os seus horizontes."

O Comandante-Geral do CFN, Almirante de Esquadra Carlos Chagas Vianna Braga, reforçou a dimensão operacional da iniciativa: "O armamento empregado pelo Fuzileiro Naval deve ser sempre o mais confiável. Disso depende a segurança dele, de todas as pessoas que estão à sua volta e daqueles que ele está protegendo. Assim, a busca por armamento desenvolvido especificamente para atender plenamente aos nossos requisitos operacionais representa uma excelente oportunidade."

A presença do BNDES não foi protocolar. O presidente da instituição, Aloizio Mercadante, formalizou o apoio por documento oficial, destacando que a parceria está em plena sintonia com a Nova Indústria Brasil. A Missão 6 da NIB, voltada para a defesa nacional, conta com R$ 112,9 bilhões em investimentos até 2026, sendo R$ 79,8 bilhões de recursos públicos e R$ 33,1 bilhões do setor privado. O banco sinalizou que poderá analisar apoio financeiro a projetos futuros que gerem avanços tecnológicos e maior conteúdo local.

Uma das unidades de produção da Mertsav na Turquia

A proposta e o que vem depois
O movimento da Taurus em direção à Mertsav não começou em 2026. Em 1º de abril de 2025, durante a LAAD, maior feira de defesa da América Latina, as duas empresas assinaram o primeiro Memorando de Entendimentos (MoU). As negociações acumularam sucessivas prorrogações de prazo: em outubro de 2025, o MoU foi renovado até novembro, com extensão automática por mais dois meses.

Em 2 de abril de 2026, um ano após o início das tratativas, a Taurus formalizou uma proposta não vinculante para a aquisição do controle acionário da Mertsav. Segundo a companhia, a proposta não implica obrigação entre as partes, e para que a operação avance, ainda será necessário concluir as negociações, realizar auditorias, formalizar documentos definitivos e obter aprovações regulatórias.

O CEO confirmou que, caso a aquisição se concretize, as armas serão produzidas também na fábrica no Brasil, sem desativar as unidades turcas, o que transformaria a Taurus Turquia na quarta unidade produtiva da empresa no mundo.

Para analistas do setor, o conjunto de evidências é eloquente. A eventual aquisição representaria a primeira vez que uma empresa brasileira absorve tecnologia estrangeira de ponta no segmento de armas coletivas com o objetivo explícito de desenvolver capacidade nacional de produção e exportação. Mais do que uma compra corporativa, seria um salto de identidade: a Taurus deixaria de ser apenas a maior vendedora mundial de armas leves para se tornar, também, um fabricante completo de sistemas militares, do calibre .22 LR ao .50 BMG.

A Mertsav, por sua vez, deixaria de ser a empresa turca que poucos conhecem. Passaria a ser a tecnologia que equipa os Fuzileiros Navais e o Exército do Brasil.

Eve Air Mobility: do chão ao céu, a empresa brasileira que quer transformar o transporte urbano avança a passos largos

Com primeiro voo do protótipo, acordos firmes em dois continentes e liquidez garantida até 2028, a subsidiária da Embraer consolida posição de liderança global no mercado de aeronaves elétricas de decolagem vertical

 

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LRCA Defense Consulting - 05/04/2026

No dia 19 de dezembro de 2025, num aeródromo no interior paulista, um veículo elétrico ergueu-se do solo silenciosamente, mudando o rumo de uma empresa e, talvez, o do transporte urbano brasileiro. A Eve Air Mobility - uma subsidiária da Embraer dedicada ao desenvolvimento de soluções para mobilidade aérea urbana, incluindo eVTOL, gestão de tráfego aéreo urbano e serviços de manutenção - concluiu o primeiro voo de seu protótipo não tripulado em escala real na unidade de testes da Embraer em Gavião Peixoto, em São Paulo. O voo inaugural marcou o início da fase de testes em voo e confirmou a integração de sistemas essenciais da aeronave, como o conceito de fly-by-wire de quinta geração e os rotores dedicados exclusivamente ao voo vertical.

Para o CEO Johann Bordais, o momento foi mais que simbólico: foi a prova de que o projeto, gestado por anos, tinha sustentação real, no sentido mais literal da palavra. Ao divulgar os resultados do quarto trimestre de 2025, ele descreveu o feito como "o maior momento do ano" e afirmou que a porta para testes muito mais intensivos estava aberta.

Três meses depois, a cadência dos voos já responde à promessa. A Eve acumula 35 voos realizados e quase uma hora e meia de tempo de voo desde o voo inaugural de dezembro de 2025. Em 25 de março de 2026, a empresa foi além: realizou um voo de demonstração para autoridades do mais alto escalão; o evento contou com a presença do presidente da República, da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, do ministro de Portos e Aeroportos, do presidente da ANAC, e do presidente do BNDES.

O eVTOL e a tecnologia por trás do voo
O veículo da Eve não é um drone gigante nem um helicóptero elétrico. Trata-se de uma aeronave de nova categoria: durante o procedimento de voo inaugural, foram avaliadas a integração dos oito rotores dedicados à elevação vertical, o sistema de propulsão traseira e os controles fly-by-wire de quinta geração. O protótipo comportou-se exatamente conforme as simulações prévias, permitindo a coleta de dados essenciais para as próximas fases de desenvolvimento.

O plano de certificação está alinhado com as principais autoridades regulatórias do mundo. A ANAC atua como autoridade primária no processo, com participação prevista de outras entidades, como a FAA (Federal Aviation Administration), dos Estados Unidos, e a EASA (European Union Aviation Safety Agency), da Europa. A empresa pretende produzir seis protótipos certificáveis para conduzir a campanha de testes em voo com foco na certificação da aeronave, com expectativa de alcançar a certificação de tipo, realizar as primeiras entregas e iniciar a operação comercial em 2027.

Para 2026, a meta é ambiciosa: voos quase diários, expansão gradual do envelope operacional e a transição para o chamado wingborne flight, o voo de cruzeiro sustentado pelas asas. O processo de expansão do envelope deve permitir voos de até 30 nós (aproximadamente 56 km/h) nos próximos dias a partir de março de 2026, com velocidades crescentes nos meses seguintes.

Finanças: prejuízo calculado, caixa protegido
Desenvolver uma aeronave certificável nunca foi barato. O quarto trimestre de 2025 resultou em uma perda líquida de US$ 63,9 milhões, comparada a US$ 40,7 milhões no mesmo período do ano anterior, impulsionada por US$ 59,4 milhões em despesas de P&D. No acumulado do ano, a perda líquida chegou a US$ 224,3 milhões em 2025, com despesas de P&D totalizando US$ 194,7 milhões.

Os números assustam à primeira vista, mas revelam uma empresa que gasta com propósito. O consumo de caixa normalizado ficou em aproximadamente US$ 196,5 milhões, ligeiramente abaixo da faixa-alvo de US$ 200 a US$ 250 milhões. Ou seja: a empresa gastou menos do que havia prometido ao mercado, um sinal raro de disciplina financeira no setor de startups aeronáuticas.

O aspecto mais tranquilizador para investidores é a posição de liquidez. O caixa, equivalentes de caixa e investimentos financeiros totalizaram US$ 392,5 milhões, com liquidez total alcançando US$ 541,4 milhões. Bordais afirmou que essa posição garante as operações até 2028, quando a empresa prevê que as entregas estarão em alta velocidade. Parte desse colchão financeiro vem do BNDES: a Eve já utilizou US$ 118,2 milhões do total disponibilizado pelo banco de fomento, restando US$ 148,9 milhões ainda disponíveis.

Mercado global: pedidos firmes em dois continentes
Enquanto os engenheiros testavam o protótipo no interior de São Paulo, a equipe comercial trabalhava no outro lado do planeta. A Eve iniciou a conversão de cartas de intenção em pedidos firmes e passou a coletar pagamentos de pré-entrega, chegando a um total de 100 aeronaves sob acordos vinculantes.

Dois contratos firmes anunciados no fim de 2025 e início de 2026 simbolizam o alcance geográfico da empresa. A Revo, operadora de mobilidade aérea urbana em São Paulo, comprometeu-se com até 50 eVTOLs, incluindo suporte TechCare, com planos de transição de sua frota para um modelo totalmente elétrico na capital paulista. Do outro lado do globo, a AirX, empresa japonesa de mobilidade aérea sediada em Tóquio, assinou um pedido vinculante de até 50 aeronaves, com entrega inicial das duas primeiras prevista para 2029, voltadas a rotas turísticas e de última milha em cidades como Tóquio e Osaka.

O portfólio total de intenções de compra é expressivo: a Eve mantém o maior portfólio global do setor, com quase 2.700 compromissos de eVTOL, muitos provenientes de operadores de helicópteros em busca de evolução de frota no longo prazo.

 

O ecossistema além da aeronave
A Eve não quer ser apenas uma fabricante de aeronaves. A estratégia da empresa passa por três pilares: o eVTOL em si, o Eve TechCare (plataforma de manutenção e suporte operacional) e o Eve Vector (solução proprietária de gestão de tráfego aéreo urbano). Essa abordagem integrada diferencia a empresa de concorrentes que apostam apenas no hardware.

A Eve se beneficia dos 56 anos de experiência da Embraer em projetar, certificar, fabricar e entregar aeronaves de última geração, além da presença global da companhia em serviços e suporte pós-venda. Não é um detalhe menor: no setor de eVTOLs, onde dezenas de startups sem experiência aeronáutica competem, a herança da Embraer representa um diferencial regulatório e industrial difícil de replicar.

A fábrica para produção em série já está em desenvolvimento. A produção ocorre em Taubaté, com capacidade projetada para até 480 unidades anuais.

Perspectivas: 2026 como ano decisivo
O ano de 2026 terá um papel central na história da Eve. Com voos quase diários planejados, a empresa precisa demonstrar que o protótipo é capaz de evoluir de um hover flight controlado para um voo de cruzeiro estável, etapa fundamental para convencer reguladores de que a aeronave é segura para operar em ambientes urbanos densamente populados.

"Estamos avançando com disciplina e consistência em nossa campanha de testes, reduzindo riscos e consolidando as bases para futuros voos para a certificação", afirmou Bordais após o voo de demonstração em março.

O cenário competitivo é desafiador: empresas como Joby Aviation e Archer, nos Estados Unidos, também correm para a certificação da FAA. Mas a Eve ocupa uma posição singular: é a única empresa do setor apoiada por um fabricante de aeronaves certificadas com mais de meio século de experiência, em um país com regulador alinhado ao processo, acesso a financiamento público e uma base industrial consolidada.

Se o cronograma se sustentar, 2027 será o ano em que os primeiros eVTOLs da Eve sairão da fábrica de Taubaté com certificação em mãos, e os céus das cidades brasileiras, japonesas e americanas começarão a ganhar uma nova camada de mobilidade. Por ora, em Gavião Peixoto, os motores continuam girando e os dados continuam sendo coletados, voo após voo, rumo a esse futuro.

04 abril, 2026

"Não deixamos ninguém para trás": o ethos militar que fortalece exércitos em combate

Uma reportagem sobre o princípio que transforma soldados em irmãos...


*LRCA Defense Consulting - 04/04/2026

"Como ex-piloto de helicóptero de combate que voou por dois anos em território hostil em zonas de combate, posso dizer que é muito reconfortante saber que, se você fosse abatido... tínhamos uma fé inabalável de que o exército dos EUA pararia tudo e que a nova missão em toda a área de responsabilidade seria seu resgate. Sou incrivelmente grata pela coragem do CSAR. Eles vão conseguir o segundo piloto."
— Amber S., ex-piloto de helicóptero de combate (LinkedIn) 

O presente e o passado se encontram sobre o Irã
Nas últimas horas, o mundo acompanha em tempo real uma operação de busca e resgate de combate (CSAR) em território inimigo profundo. Um F-15E da Força Aérea dos EUA foi abatido sobre o sudoeste do Irã, e equipes de resgate foram imediatamente mobilizadas. Pelo menos um helicóptero envolvido na operação foi atingido por fogo iraniano, mas conseguiu pousar com segurança. O presidente Trump está sendo informado pessoalmente sobre a perda do caça e sobre o andamento das buscas. Fontes ocidentais confirmaram que um dos tripulantes foi resgatado com sucesso.

O testemunho da ex-piloto de helicóptero de combate Amber S., citado na abertura desta reportagem, ganha assim um contexto dramático e atual: equipes CSAR especializadas são mantidas em alerta constante e acionadas rapidamente quando uma aeronave é perdida. "Esses pessoal do CSAR come, respira e dorme essa missão", disse o especialista Buckley. "Nenhum homem para trás. Nenhuma mulher para trás. Vamos buscá-los."

Uma promessa não escrita, mas gravada na alma
Embora amplamente conhecida e repetida nas Forças Armadas dos EUA, a expressão "leave no man behind" ("não deixe ninguém para trás") não está registrada em nenhuma doutrina militar oficial. É uma cultura das forças armadas e, por isso mesmo, carrega um peso ainda maior.

Esse ethos está gravado inclusive nos juramentos individuais: o juramento do Aviador diz "jamais deixarei um aviador para trás"; o juramento do Soldado afirma "jamais deixarei um camarada caído". As equipes CSAR desempenham papel central nesse compromisso, especialmente no resgate de pilotos abatidos em território inimigo. Se um piloto não for resgatado em menos de uma hora, sua chance de sobrevivência cai para cerca de 50% e despenca rapidamente.

Segundo pesquisa publicada no Journal of Military Ethics, a frase cria um compromisso individual profundo entre os combatentes que, por sua vez, fortalece o espírito de luta e o moral da unidade, ao mesmo tempo em que garante às famílias que seus parentes não serão abandonados, vivos ou mortos.

O impacto no moral: por que isso muda tudo
O impacto devastador no moral de uma unidade cujos soldados se sentem abandonados é bem documentado: a dúvida se instala, a confiança se corrói, e a própria base da camaradagem desmorona.

O inverso também é verdadeiro e tem consequências táticas concretas. As Forças Armadas britânicas, durante a Primeira Guerra Mundial, perceberam o valor estratégico do resgate para o moral: pilotos se mostravam muito mais dispostos a voar em situações perigosas quando sabiam que seriam resgatados se fossem abatidos.

Isso não é apenas sentimento. Isaac Ben-Israel, chefe de estudos de segurança da Universidade de Tel Aviv, articula a dimensão prática: "Pessoas que sabem que não serão abandonadas lutam melhor."

Casos históricos que definiram o princípio

- Capitão Roger Locher, Vietnã, 1972: o capitão Roger Locher foi abatido sobre território norte-vietnamita e conseguiu evitar a captura por 23 dias em território inimigo. O general John Vogt ordenou que todas as unidades sob seu comando paralisassem as operações, incluindo grandes campanhas de bombardeio sobre Hanói, e se concentrassem no esforço de resgate. Aproximadamente 150 aeronaves americanas foram redirecionadas para localizar e resgatar um único piloto. Locher foi recuperado com sucesso.

- A Batalha de Mogadíscio, Somália, 1993: a queda de um helicóptero durante a Batalha de Mogadíscio e os esforços subsequentes de recuperação resultaram na morte de 18 soldados americanos e 73 feridos. As consequências foram enormes, levaram a uma mudança de política pelo governo Clinton e à retirada das forças dos EUA da Somália. O preço pago para honrar o princípio pode ser alto, mas o abandono cobra um preço ainda maior.

- Matt Maupin, Iraque, 2004–2008: o especialista Matt Maupin foi capturado em 2004 perto do Aeroporto de Bagdá. Por anos, as unidades na área onde ele foi capturado continuaram investigando qualquer pista, por menor que fosse. Em março de 2008, seus restos mortais foram finalmente encontrados, numa operação batizada de Operation Trojan Honor (Operação Honra Troiana). Quatro anos de busca por um único soldado.

- Jessica Lynch, Iraque, 2003: durante a missão de resgate de Jessica Lynch, soldados do 75º Regimento de Rangers se recusaram a partir até que os restos mortais de todos os outros soldados mortos na emboscada fossem recuperados, mesmo tendo que cavar corpos em decomposição e transportá-los de volta aos helicópteros. "Isso deve dar uma ideia de quão seriamente o Exército dos EUA leva a crença de não abandonar um camarada caído."

Imagem meramente representativa

O caso israelense: quando a devoção encontra o dilema
Israel é talvez o exemplo mais extremo dessa devoção e de suas contradições.

Para Israel, a política é clara: "Sempre deixamos nenhum para trás. Soldados mortos também, mesmo valor", disse a porta-voz do Exército israelense Noa Meir à Newsweek. O país chegou a trocar mais de mil prisioneiros palestinos para resgatar o soldado Gilad Shalit, mantido em cativeiro por cinco anos.

Mas Israel também desenvolveu o lado mais sombrio dessa obsessão: a Diretriz Hannibal.

Criada em 1986 após uma série de sequestros de soldados israelenses no Líbano e as polêmicas trocas de prisioneiros que se seguiram, a diretriz autorizava o uso de força máxima para impedir a captura de soldados israelenses, mesmo que isso significasse colocar em risco a vida dos próprios cativos.

Segundo Asa Kasher, que escreveu o código de ética do Exército israelense, a doutrina equivalia à máxima: "Um soldado morto é melhor do que um soldado sequestrado."

A diretriz foi formalmente revogada em 2016, mas investigações do jornal Haaretz revelaram que a ordem foi invocada em 7 de outubro de 2023 em três instalações militares infiltradas pelo Hamas, potencialmente colocando em risco civis além dos militares.

O paradoxo israelense revela a tensão máxima do princípio: o mesmo amor feroz pelo combatente pode, nas circunstâncias erradas, voltar-se contra ele.

As equipes CSAR: a promessa em carne e osso
O resgate em combate é uma corrida contra o tempo e contra o inimigo. Assim que um piloto é dado como desaparecido, a coleta de inteligência começa em escala total: "Tudo, desde inteligência humana até imagens de satélite, drones e sinais eletrônicos, tudo é usado para localizar o piloto", explicou Scott Fales, ex-sargento-mor e paraquedista de resgate veterano da Batalha de Mogadíscio.

A operação CSAR nunca é simples. Requer caças para defesa aérea, aeronaves de supressão de defesas inimigas, helicópteros de resgate, aviões-tanque para reabastecimento em voo, drones de reconhecimento e muito mais, tudo coordenado enquanto o inimigo já está alerta e à procura dos tripulantes.

O lema oficial dos paraquedistas de resgate da Força Aérea americana diz tudo: "These Things We Do, That Others May Live" (Fazemos essas coisas para que outros vivam).

Por que isso importa, mesmo quando custa caro
Há críticos que argumentam que o princípio pode ser perigosamente caro. O comprometimento pode entrar em um ciclo vicioso: ao tentar resgatar um soldado, perdem-se outros e esses também "não podem ser abandonados".

Mas a maioria dos analistas militares e veteranos converge para uma conclusão: o custo de não honrar o princípio é ainda maior.

Quando uma nação percebe que suas Forças Armadas falharam em honrar esse compromisso, a confiança pública se estilhaça, enviando uma mensagem gélida que mina os valores pelos quais o exército existe para defender.

E há uma dimensão muito humana nisso. O testemunho da piloto Amber S. com o qual abrimos esta reportagem não é retórica: é a diferença entre um piloto que mergulha em território inimigo confiante em seus camaradas, e um que hesita. Entre uma tripulação que dá tudo de si e uma que guarda algo em reserva, por precaução.

Hoje, sobre o sul do Irã, essa promessa está sendo testada mais uma vez, em tempo real e sob fogo inimigo, com recompensas em dinheiro sendo oferecidas pelo governo iraniano para capturar os tripulantes americanos vivos. E mesmo assim, as equipes CSAR estão lá.

Porque é isso que fazem... Que outros possam viver!

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