*LRCA Defense Consulting - 28/02/2026
Em 19 de fevereiro de 2026, em Melbourne, Flórida, dois dos maiores nomes da indústria aeroespacial assinaram um memorando de entendimento que pode mudar o rumo da mobilidade aérea militar norte-americana: a brasileira Embraer e a norte-americana Northrop Grumman anunciaram parceria para desenvolver uma versão aprimorada do KC-390 Millennium voltada ao reabastecimento aéreo da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) e de nações aliadas. A iniciativa acontece justamente quando generais aposentados e analistas alertam para o envelhecimento crítico da frota de mobilidade da USAF e para a crescente ameaça da China no Pacífico.
O alarme de um general que
pagou o preço por falar a verdade
O cenário que motivou a parceria Embraer-Northrop não surgiu
do nada. Em entrevista recente ao portal especializado The War Zone, o general
aposentado Michael "Mini" Minihan, que comandou o Air Mobility
Command (AMC) de outubro de 2021 a novembro de 2024, foi categórico: a frota
de mobilidade aérea americana está perigosamente desatualizada e mal equipada
para enfrentar um conflito de alta intensidade contra a China ou a Rússia.
Minihan ficou célebre, e pagou caro por isso, ao divulgar, em 2023, um memorando interno alertando sobre o risco de guerra com a China por Taiwan já em 2025. O vazamento do documento criou anticorpos institucionais que, segundo ele próprio admitiu na entrevista, foram determinantes para que fosse compelido a se aposentar antes do previsto. "Eu estava tocando o sino exatamente sobre as questões que você está fazendo agora", disse Minihan ao jornalista Howard Altman. "E esse alarme ainda permanece."
Agora como civil, Minihan foi ainda mais direto ao avaliar o estado da frota: os C-17 Globemaster III acumulam horas de voo em ritmo acelerado em crises encadeadas no Oriente Médio, e os C-5M Galaxy, a espinha dorsal do transporte estratégico pesado, registraram taxa de confiabilidade de missão de apenas 46%, segundo testemunho do general Randy Reed ao Congresso. "Não conheço nenhuma área da sua vida em que você tolera uma capacidade crítica operando menos da metade do tempo quando você precisa dela", sentenciou o general.
Embraer e Northrop: a aposta
estratégica no coração da América
É nesse contexto de vulnerabilidade que a Embraer e a
Northrop Grumman apresentaram sua proposta. O KC-390 Millennium já é operado
pelas forças aéreas do Brasil, Portugal e Hungria, e foi selecionado por outros
membros da OTAN. Trata-se do avião militar de transporte médio mais moderno em
sua categoria, projetado para operar em pistas curtas e não preparadas,
transportar cargas pesadas e realizar múltiplas missões, incluindo
reabastecimento aéreo pelo sistema hose-and-drogue (mangueira e cesto).
O problema é que a USAF não usa o sistema hose-and-drogue para reabastecer seus caças. A Força Aérea americana adota exclusivamente o sistema de boom rígido, utilizado pelo KC-135 Stratotanker e pelo KC-46 Pegasus, para reabastecer aeronaves como F-35A, F-15 e F-16. Para entrar nesse mercado, o KC-390 precisaria ganhar um boom de reabastecimento autônomo integrado ao seu fuselagem.
É exatamente isso que a parceria Embraer-Northrop se propõe a desenvolver. Segundo o comunicado oficial, as melhorias planejadas incluem um boom de reabastecimento aéreo autônomo avançado, comunicações aprimoradas, consciência situacional, opções de sobrevivência e sistemas de missão adaptáveis. "Queremos demonstrar a capacidade de reabastecimento por boom em poucos anos, no dígito baixo", afirmou Tom Jones, vice-presidente corporativo da Northrop Grumman Aeronautics Systems.
O CEO da Embraer Defense & Security, Bosco da Costa Junior, não mediu palavras ao anunciar a parceria: "O KC-390 é uma plataforma operacionalmente comprovada e com boa relação custo-efetividade que poderia ser rapidamente adicionada ao inventário da USAF."
ACE: a doutrina que o KC-390
foi feito para servir
O conceito de Agile Combat Employment (ACE - emprego ágil
em combate) é hoje uma das pedras angulares da doutrina da USAF para um
possível conflito no Pacífico contra a China. A lógica é dispersar aeronaves e
capacidades por múltiplas bases avançadas, muitas vezes improvisadas e com
pistas curtas, para dificultar ataques em massa por mísseis chineses. Nesse
cenário, um tanker capaz de pousar em campos de batalha austeros, reabastecer
um punhado de caças e decolar rapidamente para outro ponto é um ativo de valor
incalculável.
O KC-390 foi projetado para exatamente isso. Seus dois motores turbofan IAE V2500 permitem velocidades e altitudes superiores aos C-130 turbohélice, enquanto seu trem de pouso reforçado e sistemas de navegação o habilitam a operar em condições adversas. Para o general Minihan, a lógica é clara: "Precisamos de uma família de tankers que possa atender todas as necessidades do combatente em todos os ambientes operacionais."
Ao ser perguntado diretamente sobre a candidatura do KC-390 para o papel de tanker ágil capaz de apoiar pequenos números de caças em bases avançadas, Minihan foi favorável ao conceito sem hesitação: "Há espaço na Força Aérea para tudo isso [a família de tankers]. Vamos ser claros: é o que a força cinética precisa."
Obstáculos políticos: o
secretário que ainda não olhou para o KC-390
Apesar do entusiasmo da indústria, o caminho até o
inventário da USAF é tortuoso. No Simpósio de Guerra da Air & Space Forces
Association (AFA), realizado em Denver poucos dias após o anúncio da parceria
Embraer-Northrop, o secretário da USAF, Troy Meink, foi perguntado diretamente
sobre o KC-390. A resposta foi desanimadora: "Eu não olhei muito para
isso", disse Meink, acrescentando um endosso caloroso ao Boeing KC-46
Pegasus: "O KC-46 é um ótimo avião."
A posição de Meink reflete um fato concreto: em 2025, a USAF não apenas manteve o compromisso com o KC-46 como expandiu seus planos de aquisição de 179 para uma frota potencial de 263 aeronaves. Boeing entregou 14 KC-46 em 2025 e projeta 19 entregas em 2026. O Pegasus continua sendo a espinha dorsal do reabastecimento aéreo americano de médio prazo, apesar de anos de problemas com o boom de reabastecimento e o sistema de visão remota.
A Embraer e a Northrop, no entanto, jogam com o horizonte mais distante. O programa Next Generation Air-refueling System (NGAS), cujo propósito é substituir eventualmente os KC-135 mais antigos, está em aberto desde sua concepção em 2023. Uma solicitação de informações (RFI) classificada como "informação não classificada controlada" foi emitida em agosto de 2025, mas sem requisitos específicos divulgados. É esse vácuo que as duas empresas esperam preencher.
O trunfo brasileiro: mais de
50% dos componentes já são americanos
Um dos argumentos mais poderosos da Embraer para o mercado
americano é a origem de seus componentes. Segundo a empresa, mais de 50% das
peças do KC-390 já são fabricadas em território norte-americano, um ponto
crucial para atender aos requisitos do Buy American Act, legislação que exige
preferência por produtos domésticos nas compras do governo federal dos EUA.
A Embraer já demonstrou capacidade de produção nos EUA: a montagem do A-29 Super Tucano para clientes americanos e de exportação via FMS (Foreign Military Sales) é feita em Jacksonville, Flórida. Agora, a empresa avalia a criação de uma linha de montagem dedicada ao KC-390 em solo americano, com Melbourne, Flórida, onde tanto a Embraer quanto a Northrop já têm instalações, sendo mencionada como possível sede.
Além disso, onze países já se comprometeram com o Millennium, e a parceria Embraer-Northrop mira um mercado além das fronteiras americanas. Holanda e República Tcheca, por exemplo, têm interesse em usar o KC-390 para reabastecer seus futuros F-35, que, por serem versões A (solo), operam exclusivamente com boom, abrindo uma lacuna de mercado hoje não atendida por nenhum tanker de porte médio.
Conectividade, IA e a
modernização que não pode esperar
Para além do debate sobre qual aeronave comprar, o general
Minihan identificou um problema ainda mais urgente: a falta de conectividade na
frota existente. "O carro que aluguei dirigindo do aeroporto ao meu hotel
tem mais conectividade do que a grande maioria da frota de mobilidade",
disse ele, sem rodeios. A conectividade em tempo real para consciência
situacional, manobra e distribuição de prioridades logísticas foi apontada
como o principal contribuidor para a sobrevivência das aeronaves de mobilidade
em ambientes contestados.
Não por acaso, o pacote de aprimoramentos do KC-390 Multi-Mission Tanker proposto pela Embraer e Northrop inclui explicitamente "comunicações aprimoradas" e "opções de consciência situacional e sobrevivência", itens que respondem diretamente às deficiências apontadas por Minihan e pelo exercício Mobility Guardian.
O general também defendeu fortemente o uso da IA no AMC e o conceito de operações com piloto único em tankers, como já testado no KC-46. Para ele, o KC-390, sendo um projeto do século XXI, nasce com vantagem estrutural sobre plataformas dos anos 1960: está desenhado para receber modernizações digitais e sistemas autônomos com muito menos atrito do que as aeronaves legadas.
Uma janela de
oportunidade... e uma corrida contra o tempo
O KC-390 não entrará no inventário da USAF da noite para o
dia, se é que entrará. O secretário Meink sinalizou frieza em relação ao jato
brasileiro, e o KC-46 continua dominando os planos de aquisição de curto prazo.
Mas o contexto estratégico joga a favor da candidatura da Embraer: a frota
americana está envelhecendo mais rápido do que consegue ser substituída, o
conceito ACE demanda exatamente o tipo de aeronave que o KC-390 representa, e a
parceria com a Northrop Grumman confere ao projeto credibilidade e acesso
institucional que faltavam nas tentativas anteriores.
O próprio Minihan, ao comentar o anúncio da Northrop com a Embraer, deu o seu aval implícito: "Esse anúncio aborda a criação de uma abordagem de sistema-de-sistemas para o problema... e fiquei feliz em ver que estão abordando o problema de forma diferente, porque esse é o tipo de abordagem que precisamos para ter sucesso."
Para o Brasil, que viu o KC-390 decolar como um dos maiores sucessos de exportação de defesa de sua história recente, a entrada no mercado americano seria um salto de legitimidade sem precedentes. Para a USAF, a questão não é se precisará de um tanker ágil e moderno, é se terá a visão estratégica de agir antes que o próximo "7 de dezembro" force a decisão.




