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27 junho, 2026

Míssil de cruzeiro AATD de longo alcance: o que se sabe sobre o programa da PlasmaHub


*LRCA Defense Consulting - 26/06/2026

A empresa brasileira PlasmaHub, com sede em São José dos Campos (SP), esteve presente na Eurosatory 2026, realizada de 15 a 19 de junho em Paris. A participação ocorreu dentro do Espaço Brasil, pavilhão coletivo coordenado pela ABIMDE no Hall 5B, estande C100, junto com outras 18 empresas nacionais. A PlasmaHub vinha sendo associada, em publicações de terceiros nas redes sociais, a um sistema de mísseis de longo alcance para aplicações estratégicas, que estaria entre os destaques de sua participação no evento.

Até o fechamento desta matéria, porém, não foi localizada cobertura da imprensa especializada que confirme o míssil de longo alcance como destaque efetivo da presença da empresa na feira. Diferentemente de companhias brasileiras como Embraer, CBC, Taurus, Mac Jee e Condor, que tiveram estandes próprios na Eurosatory 2026, a PlasmaHub esteve no espaço coletivo do pavilhão nacional, o que pode ter limitado a visibilidade individual de seus produtos.
 
O sistema de lançamento e a propulsão híbrida
Segundo publicação do portal Brazil Defense Brief (BDB) feita antes da abertura da feira, o sistema contaria com um lançador móvel rodoviário configurável para dois a quatro mísseis em canisters. A solução integrada incluiria recarga de mísseis, fornecimento de combustível, controle móvel de missão, comunicações via satélite e integração C2 (comando e controle). Essas características, no entanto, não foram confirmadas por cobertura da feira em si nem por declaração oficial da PlasmaHub.

A propulsão, segundo a mesma publicação, combinaria dois estágios: um foguete de propelente sólido, usado como acelerador inicial (booster), e um motor turbojato, empregado na fase de cruzeiro. Essa arquitetura em dois estágios conferiria ao sistema capacidade de ataque de longo alcance, com ogiva de fragmentação por explosão.

Vídeo do perfil Global Militar postado no YouTube há seis meses, onde é dito que o míssil foi revelado pelo Jorn. Roberto Caiafa em seu blog Caiafa Master

O motor TJ-1000, da Turbomachine, e a confirmação pelo Exército Brasileiro
As imagens do míssil em montagem permitem identificar, no banco de testes, um motor turbojato de eixo único que corresponde, em proporções e posicionamento, ao modelo TJ-1000, fabricado pela brasileira Turbomachine. O motor tem peso seco de 70 quilos, 1.180 milímetros de comprimento e 350 milímetros de diâmetro, sendo capaz de gerar entre 1.000 e 1.200 libras-força de empuxo, conforme a configuração. Utiliza um compressor axial de quatro estágios, fabricado em peça única de alumínio, e turbina de um estágio. O mesmo motor já é empregado pela Avibras Aeroco, sob acordo de licença de fabricação, no míssil AV-TM 300 (também chamado MTC-300), que equipa o sistema ASTROS.

Fontes do setor apontam que versões mais potentes da propulsão, como um motor identificado como TF-1200, poderiam elevar o alcance de sistemas baseados no TJ-1000 a algo entre 1.500 e 2.000 quilômetros. Essa estimativa encontra respaldo em fonte primária: um trabalho acadêmico de 2025, produzido por sete oficiais do Centro de Instrução de Artilharia de Mísseis e Foguetes (CI Art Msl Fgt) do Exército Brasileiro como requisito para a especialização em Planejamento e Emprego do Sistema de Mísseis e Foguetes, confirma que a PlasmaHub está desenvolvendo míssil de longo alcance denominado AATD, o qual pode chegar até 2000 km. O mesmo documento confirma que a plataforma lançadora teria capacidade de lançar até duas munições, no mesmo sentido do que circulava em publicações de terceiros nas redes sociais.

O estudo, voltado à base industrial de defesa que sustenta o sistema ASTROS, traz a confirmação institucional mais robusta sobre o programa até o momento. Descreve a PlasmaHub como empresa com expertise na integração de sistemas componentes de mísseis, foguetes, além de munições pesadas com sistemas de guiamento acoplados, fundada em 2018 e classificada como Empresa Estratégica de Defesa (EED). Detalha ainda a rede de parceiros da empresa na manufatura horizontalizada de seus produtos: Edge Of Space (EOS), responsável por dispositivos pirotécnicos; Índios Pirotecnia; Castro Leite Consultoria (CLC), que contribui com navegação inercial; Airtech Defense; e a própria Turbomachine, fornecedora dos motores. A PlasmaHub aparece como responsável pelo desenvolvimento do computador de missão (descrito no documento como Mission First Computer).

O estudo também registra que a empresa alega que seus produtos estão fora da jurisdição das ITAR (International Traffic in Arms Regulations, o regime norte-americano de controle de exportação de tecnologias de defesa), embora dependa de insumos e matérias-primas importadas para executar seus projetos. Buscar a condição de ITAR Free é relevante para a competitividade comercial do míssil, já que produtos sujeitos às ITAR enfrentam restrições severas de exportação impostas pelos Estados Unidos.

Míssil em fase de montagem, com a seção do motor exposta no banco de testes

A ficha técnica completa do portfólio de mísseis
Materiais divulgados pela própria PlasmaHub detalham um portfólio mais amplo do que o míssil de longo alcance isoladamente. Ele inclui um míssil de cruzeiro de curto e médio alcance, o míssil de cruzeiro de longo alcance, uma estação de controle terrestre e uma estação de lançamento móvel baseada em veículo terrestre. A empresa também desenvolve um kit de guiamento e planeio para bombas da família MK (MK-81, MK-82 e MK-89), além de um foguete supersônico de artilharia e do já mencionado veículo lançador de satélites, em parceria com o consórcio liderado pela Cenic.

O míssil de curto e médio alcance tem alcance estimado entre 200 e 300 quilômetros, velocidade de Mach 0,80 e altitude de voo em torno de 20 mil pés. É propulsionado pelo motor turbojato TJ-200, da Turbomachine, e incorpora asas retráteis, aletas de controle em configuração cruciforme e entrada de ar inferior. O armamento emprega guiamento bidirecional com datalink, cabeça de guerra de fragmentação e erro circular provável (CEP) de 30 metros. O projeto tem como base o míssil de cruzeiro Caburé 300, desenvolvido pela própria Turbomachine e apresentado na LAAD 2015, o que indica linhagem de mais de uma década para o conceito.

Já o míssil de longo alcance, alvo principal desta matéria, mantém velocidade de Mach 0,75, carga útil de 200 quilos e o motor TJ-1000. Incorpora asas e superfícies de controle retráteis, lançamento a partir de canister e ogiva de fragmentação. O sistema conta ainda com sensor infravermelho para a fase terminal, CEP estimado em 2 metros, dispositivo de autodestruição e possibilidade de emprego de booster de aceleração, além da opção de lançamento a partir de uma unidade física dedicada.

A turbina TJ-200, por sua vez, é uma microturbina a gás de apenas 180 milímetros de diâmetro, com 12 quilos de peso e capacidade de gerar 220 libras-força de empuxo, suficiente para os 300 quilômetros declarados de alcance do míssil de menor porte.

Um papel potencial no ecossistema do ASTROS, mesmo com a Avibras reativada
O trabalho acadêmico do Exército situa a PlasmaHub dentro de um contexto institucional mais amplo: a crise da Avibras, fabricante histórica do sistema ASTROS, que entrou em recuperação judicial em 2022 por uma dívida de aproximadamente R$ 600 milhões. Essa crise comprometeu por anos o suprimento de munição e a manutenção do sistema, levando o Exército a mapear empresas alternativas da base industrial de defesa capazes de assumir funções antes exclusivas da Avibras.

Desde a conclusão do estudo, porém, o quadro mudou: em maio de 2026, a empresa, agora sob nova governança e rebatizada Avibras Aeroco, retomou suas operações após receber um aporte de R$ 300 milhões do grupo J&F e encerrar uma greve de 1.280 dias. A retomada inclui a continuidade do MTC-300 (AV-TM 300) e do próprio sistema ASTROS, que segue propulsionado pelo motor TJ-1000 da Turbomachine sob licença de fabricação, sem indicação de substituição por um motor próprio da empresa.

Mesmo com a reativação da Avibras Aeroco, o mapeamento institucional que apontava a PlasmaHub como possível solução para a manutenção dos sistemas lançadores do ASTROS, dada sua expertise em plataformas e em sistemas lançadores, segue relevante: a base industrial de defesa brasileira tende a se manter diversificada, com a PlasmaHub, a SIATT, a Mac Jee e a Modirum Gespi mapeadas como possíveis fornecedoras complementares de munição, e com a PlasmaHub citada também na integração de sistemas de comunicações, meteorologia e cálculo de tiro, ao lado de RF Com e SIATT. Isso sugere que a empresa não atua apenas como desenvolvedora independente de um míssil próprio, mas também como possível ator de apoio dentro do ecossistema industrial que sustenta um dos principais sistemas de artilharia do Exército Brasileiro.

Uma visão mais ampla da PlasmaHub
O míssil de longo alcance é apenas uma frente da PlasmaHub. A empresa, formada por engenheiros com passagens pela Embraer, pela Avibras e pela Mectron, atua também no setor espacial: integra o consórcio liderado pela Cenic Engenharia responsável pelo desenvolvimento do MLBR (Microlançador Brasileiro), o veículo lançador de pequeno porte (VLPP) financiado pela Finep, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com participação da Agência Espacial Brasileira (AEB).

No consórcio, a PlasmaHub contribui com o banco de controle de lançamento, projetos aeroespaciais e montagem de módulos. O programa já passou pela Preliminary Design Review (PDR), em junho de 2024, e pela Critical Design Review (CDR), concluída com sucesso em 29 e 30 de maio de 2025, marco que autorizou o início da fase de construção e testes. Em janeiro de 2026, o MLBR concluiu também um teste de resistência do motor. A próxima etapa é a Systems Qualification Review (SQR), que avaliará a qualificação dos principais subsistemas do veículo.

Vale notar que o projeto concorrente ao MLBR, o VLN-AKR, liderado pela Akaer, foi cancelado por irregularidades na prestação de contas, o que deixou o MLBR como o único projeto privado em andamento no Brasil para o desenvolvimento de um microlançador.

 
Renderização do futuro Complexo Industrial e Tecnológico da PlasmaHub e Turbomachine em Paracuru (CE) em vídeo do perfil @beimoficial no Instagram, postado em setembro de 2024 

O polo industrial de Paracuru
Outra frente relevante é a expansão territorial do projeto. A PlasmaHub e a Turbomachine pretendem construir um complexo industrial de engenharia espacial em Paracuru, no Ceará, em terreno doado pela prefeitura, com a previsão de cerca de 60 empregos diretos e mais de 200 indiretos. O município fica a aproximadamente 80 quilômetros de Fortaleza e relativamente próximo do Centro de Lançamento de Alcântara (MA), o principal ativo espacial estratégico do país.

A presença da Turbomachine no complexo sugere integração vertical entre as duas empresas, unindo produção de propulsão e integração de sistemas no mesmo polo. Reportagens anteriores já haviam destacado que a PlasmaHub descreve seu míssil de cruzeiro como um projeto “100% nacional”, reforçando a lógica de soberania tecnológica que também orienta o programa MLBR.

Atmospherica Aviation encomenda mais dois Phenom 300E à Embraer

Operadora tcheca de fretamento amplia frota com entrega prevista para 2028 e mantém estratégia de renovação contínua com idade média abaixo de dois anos e meio 

 

*LRCA Defense Consulting - 27/06/2026

A Atmospherica Aviation (AAN), operadora de fretamento comercial e privado com base no aeroporto de Praga-Václav Havel, encomendou à Embraer Executive Jets duas novas aeronaves Phenom 300E, com entrega prevista para o segundo trimestre de 2028. A informação foi divulgada pelo portal especializado ch-aviation.

Em comunicado, a empresa afirmou que as novas aeronaves vão substituir as unidades mais antigas da frota, em linha com a estratégia de renovação contínua adotada pela operadora, que prevê a troca de cada aeronave após, no máximo, seis a sete anos de uso. A meta declarada é manter a idade média da frota abaixo de dois anos e meio.

A frota atual: Phenom e Praetor
Atualmente, a Atmospherica Aviation opera cinco unidades do Phenom 300E e um Phenom 300 de geração anterior. Dois dos jatos mais novos foram fabricados em 2025; os outros três têm origem em 2021, 2022 e 2023, respectivamente.

Em entrevista exclusiva concedida à ch-aviation durante a AERO Friedrichshafen 2026, em abril, a gerente responsável pela empresa, Alice Horváth-Muška, informou que um sexto Phenom 300E, novo de fábrica, está previsto para chegar no segundo trimestre de 2027, substituindo o Phenom 300 da geração anterior. Segundo ela, essa sexta aeronave funcionará como reserva operacional, útil em situações de imobilização não programada em solo (no jargão do setor, AOG).

Além da frota de Phenom, a operadora tcheca mantém dois jatos Praetor 600, fabricados em 2024 e 2025. Essas aeronaves de porte supermédio operam sob o certificado de operador aéreo da Atmospherica Jets, uma segunda certificação obtida pela empresa em janeiro de 2026 especificamente para viabilizar aprovações operacionais não exigidas para o Phenom 300, como as relacionadas a voos transatlânticos. Horváth-Muška confirmou à ch-aviation que uma nova expansão da frota de Praetor está prevista. A empresa opera ainda, em caráter privado, um Citation Mustang utilizado para o transporte de técnicos em situações de AOG.

O Phenom 300E: líder de mercado há 14 anos
O Phenom 300E é a versão atualizada do Phenom 300, jato executivo leve lançado pela Embraer em 2009 e certificado para operação com piloto único. A atualização, certificada em março de 2020 pela ANAC, pela FAA e pela EASA, elevou a velocidade máxima de cruzeiro de Mach 0,78 para Mach 0,80 (859 km/h, ou 464 nós) e ampliou o alcance para 3.724 km (2.010 milhas náuticas) com cinco ocupantes e reservas de combustível segundo os critérios da NBAA. A aeronave é equipada com dois motores Pratt & Whitney Canada PW535E1, de 3.478 libras de empuxo cada, e tem teto operacional de 13.716 metros (45.000 pés).

Entre os diferenciais tecnológicos do modelo estão o sistema de alerta e prevenção contra saída de pista, conhecido pela sigla ROAAS e desenvolvido pela própria Embraer, além de piloto automático de aceleração (autothrottle), modo automático de descida de emergência e sistema de visão sintética, recursos que reforçam a consciência situacional em condições de baixa visibilidade. A aviônica é baseada na suíte Garmin G3000, batizada pela Embraer de Prodigy Touch Flight Deck.

Segundo dados da General Aviation Manufacturers Association (GAMA) divulgados pela Embraer em fevereiro de 2026, a família Phenom 300 segue como o jato leve mais vendido do mundo pelo 14º ano consecutivo, além de ser o bimotor a jato mais entregue globalmente pelo sexto ano seguido. Em 2025, a fabricante brasileira entregou 72 unidades da série, o maior volume anual da década, elevando a frota em operação a mais de 900 aeronaves distribuídas por 70 países, com mais de 2,9 milhões de horas de voo acumuladas.

Perfil da operadora
A Atmospherica Aviation atua no segmento de fretamento de jatos executivos a partir de Praga, com rotas concentradas na Europa e no Oriente Médio. A empresa integra o grupo CTR e mantém, segundo seu próprio material institucional, frota homogênea e relativamente jovem como diferencial competitivo frente a outras operadoras do setor de aviação executiva sob demanda.

26 junho, 2026

Imbel e KNDS assinam memorando para produzir munições de artilharia e de blindados no Brasil

Acordo foi firmado durante a Eurosatory 2026 e está ligado ao offset do Centauro II; Imbel também renovou parceria com a Safran, enquanto a KNDS vive reestruturação acionária que aproxima Alemanha e França

Registro da assinatura do memorando de entendimento entre Imbel e KNDS, durante a Eurosatory 2026
 
*LRCA Defense Consulting - 26/06/2026

A Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel) e o grupo franco-alemão KNDS assinaram, em 18 de junho, durante a Eurosatory 2026, um memorando de entendimento (MoU) para cooperação no setor de munições de artilharia e de blindados. O documento prevê o estudo das condições para a transferência ao Brasil de capacidades de produção de munições de 105mm, 155mm e 120mm, com apoio da Direction Générale de l’Armement (DGA), agência francesa de aquisições de defesa. No mesmo evento, a Imbel também renovou parceria com a Safran Eletrônica & Defesa Brasil para sistemas de controle e direção de tiro de artilharia. As duas assinaturas ocorrem em paralelo a uma reestruturação acionária da própria KNDS, que prepara a entrada do governo alemão em seu capital e uma futura oferta pública inicial (IPO) nas bolsas de Frankfurt e Paris.

Dois memorandos em uma mesma feira
Os dois memorandos foram assinados em dias consecutivos da feira. Segundo nota publicada pela própria Imbel, a renovação do acordo com a Safran ocorreu na quarta-feira, 17 de junho. Já a assinatura do MoU com a KNDS, na quinta-feira, 18 de junho, foi confirmada pela Adidância de Defesa da França no Brasil, que descreveu a iniciativa como parte da relação estratégica de defesa entre os dois países. Essa mesma formulação foi posteriormente replicada em publicações institucionais da própria KNDS e da conta diplomática francesa no Brasil, o que indica um texto padronizado, acordado entre as partes, para a divulgação pública do acordo.

O documento com a KNDS foi assinado pelo diretor-presidente da Imbel, general de divisão R1 Ricardo Rodrigues Canhaci. Segundo a Imbel, a parceria busca fortalecer a cooperação industrial entre as empresas e os dois países, e estudar as condições para a transferência de capacidades de produção de munições para o Brasil.

Já a renovação com a Safran Eletrônica & Defesa Brasil, voltada à integração de sistemas de controle e direção de tiro para a Arma de Artilharia, com foco em apoio à promoção comercial e em ampliação de oportunidades no mercado internacional, foi firmada pelo CEO da Safran Eletrônica & Defesa Brasil, David Montmasson, e pelo mesmo general Canhaci. Segundo a Imbel, a cerimônia contou ainda com a presença dos diretores Comercial, de Inovação e Industrial da empresa brasileira, e do Sr. Benjamin Faget, vice-presidente de Sistemas Optrônicos da Safran Electronics & Defense.

Munições de 105mm, 155mm e 120mm
Para a Imbel, a parceria garantiria a transferência de tecnologia para a produção de munições de artilharia de 105mm e 155mm, em padrão Otan e com alcance estendido, além de munição de 120mm para carros de combate. Uma das capacidades pretendidas é a produção local, em padrão Nato/Otan, de munições dotadas da tecnologia base bleed, recurso que amplia em pelo menos um terço o alcance total do tiro.

Já para a KNDS, o acordo facilita a importação de componentes e matérias-primas do Brasil, com potencial, no longo prazo, para que munições com a marca da própria KNDS sejam fabricadas e exportadas a partir do território brasileiro. Entre os produtos do portfólio da empresa citados como referência estão a munição de 155mm de alcance estendido LU 211 BB e a nova munição cinética de 120mm SHARD.

O acordo visa tanto o mercado interno (Exército Brasileiro e Corpo de Fuzileiros Navais) quanto os mercados de exportação, que atualmente registram forte demanda por munições de artilharia modernas. Um dos antecedentes que pavimentaram a assinatura foi a inauguração, em 10 de julho de 2025, na unidade de Juiz de Fora (MG), de uma nova planta de carregamento de munições pesadas com maquinário atualizado, uma das cinco fábricas que compõem a estrutura da Imbel. A data precisa da inauguração é confirmada pelo próprio site institucional da Imbel; reportagens de terceiros chegaram a situar o episódio em setembro de 2025.

O nexo com o offset do Centauro II
A munição de 120mm para uso no blindado Centauro II é resultado do offset (compensação industrial) acordado após a aquisição da viatura blindada de combate de cavalaria média sobre rodas (VBC Cav) 8x8. Em um primeiro momento, devem ser incluídas munições de treinamento dos tipos HEAT-T e HESH-T, respectivamente, alto explosivo de carga oca e alto explosivo de carga moldada, ambas traçantes.

Chama atenção a cronologia do processo: o Exército Brasileiro ainda não assinou o contrato de aquisição do primeiro lote de blindados 8x8, estimado em sete exemplares, mas já trabalha para receber o offset da munição de 120mm. Atualmente, a Força opera apenas as duas unidades do lote de avaliação, entregues entre agosto e setembro de 2024. A previsão é de uma aquisição total de até 98 exemplares, com entregas planejadas entre 2028 e 2033.

Uma parceria renovada, outra inédita
Diferentemente do memorando com a KNDS, descrito pelas partes como uma nova etapa de cooperação, o MoU entre Imbel e Safran é a renovação de uma parceria de longa data. Há registro de memorandos anteriores entre as duas empresas firmados em 2017 e em dezembro de 2020, este último também assinado por David Montmasson, então diretor-geral da Safran Eletrônica & Defesa Brasil.

A relação foi novamente renovada em dezembro de 2024, durante a 8ª Mostra BID Brasil, com a assinatura dos mesmos representantes que voltaram a firmar o acordo na Eurosatory 2026: Montmasson e o general Canhaci. Entre os resultados já colhidos dessa cooperação está a integração do sistema Gênesis de artilharia, da Imbel, a sensores e equipamentos óticos e inerciais da Safran, usada inclusive em viaturas blindadas Guarani e Cascavel.

IMBEL e Safran

Confirmações institucionais convergentes
A assinatura do MoU com a KNDS foi confirmada, com o mesmo texto padronizado, em pelo menos três canais distintos: a conta institucional da Adidância de Defesa da França no Brasil no Instagram, a página da KNDS France no LinkedIn e a cobertura jornalística especializada. Em sua publicação, a KNDS descreveu o acordo como mais uma ilustração de seu compromisso em construir parcerias de longo prazo com aliados e parceiros estratégicos, enquadrando a cooperação brasileira dentro de uma estratégia global da companhia.

Até a conclusão desta reportagem, o site institucional da Imbel havia publicado nota própria e detalhada sobre a renovação com a Safran, mas nenhuma nota equivalente sobre o conteúdo técnico do MoU com a KNDS. A própria KNDS também não havia detalhado o acordo em seus canais corporativos além da publicação padronizada no LinkedIn, o que reforça o caráter ainda preliminar do memorando, que tem natureza de intenção, não de contrato vinculante.

O pano de fundo: a reestruturação acionária da KNDS
O MoU com a Imbel foi assinado num momento de transformação societária da própria KNDS. Em 22 de junho, os governos da Alemanha e da França anunciaram acordo para que Berlim adquira uma participação de 40% na empresa, hoje detida em 50% pelo Estado francês e em 50% pela família alemã controladora da antiga Krauss-Maffei Wegmann (KMW), cuja saída planejada abriu espaço para a entrada do governo alemão.

Segundo apurou a agência Reuters, a operação avalia a KNDS entre 15 bilhões e 18 bilhões de euros, e a Alemanha também busca obter uma “ação de ouro” na unidade alemã da empresa, o que lhe daria influência ampliada sobre decisões de pessoal e estratégicas, garantindo equilíbrio de poder entre Paris e Berlim. O acordo abre caminho para uma oferta pública inicial (IPO) nas bolsas de Frankfurt e Paris, na qual, segundo o CEO da KNDS, Jean-Paul Alary, os acionistas privados venderão 20% do capital, enquanto os Estados francês e alemão deterão 40% cada um.

A movimentação ocorre poucos dias depois de Berlim e Paris cancelarem oficialmente o programa conjunto do caça de nova geração FCAS, por divergências sobre divisão de trabalho e propriedade intelectual entre as empresas dos dois países. O contraste é relevante: enquanto um programa bilateral de defesa colapsa, a cooperação industrial entre os dois países se reorganiza por outra via, a da própria estrutura acionária da KNDS, que se posiciona como uma das principais referências globais do setor de defesa terrestre.

Notas da editoria
O memorando de entendimento entre Imbel e KNDS é, por definição, um instrumento não vinculante. As próprias partes descrevem o objetivo como “estudar as condições” para a transferência de capacidades de produção, não como o início efetivo dessa transferência. Esta editoria tratará eventuais avanços contratuais, prazos e valores como fatos novos, a serem apurados separadamente.

A reestruturação acionária da KNDS é um processo institucional em andamento, sem relação contratual direta com o MoU brasileiro; sua menção tem caráter de contexto, para situar o momento em que a cooperação com o Brasil foi firmada.

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