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18 maio, 2026

Laboratório de soberania: como o Exército Brasileiro forja o futuro da defesa nacional

Do radar que rastreia caças de última geração ao rádio que unifica as três Forças, passando pela fibra de carbono produzida a partir do piche do petróleo nacional — um conjunto de organismos militares transforma ciência em capacidade de combate, reduz a dependência externa e posiciona o Brasil na fronteira da tecnologia de defesa. 


*LRCA Defense Consulting - 18/05/2026

Em meados de maio de 2026, militares e engenheiros do Centro de Avaliações do Exército embarcaram rumo a Anápolis, em Goiás, para uma missão que poucos anos atrás seria impensável: testar, em condições reais de exercício conjunto, um radar inteiramente concebido no Brasil capaz de detectar e rastrear o caça F-39 Gripen, a aeronave de combate mais moderna em operação nas Forças Armadas do país. O equipamento, denominado Radar SABER M200 Vigilante, foi desenvolvido pelo Centro Tecnológico do Exército em parceria com a Embraer e representa, segundo o próprio Exército, um marco para a defesa antiaérea nacional.

A cena sintetiza o que vem ocorrendo, de forma crescente e consistente, no ambiente de ciência, tecnologia e inovação da Força Terrestre brasileira: um conjunto de organizações militares - o CTEx, o CAEx, o Instituto Militar de Engenharia e outros órgãos correlatos - trabalha em sinergia para transformar pesquisa aplicada em capacidade operacional real, reduzindo a dependência de fornecedores estrangeiros e fortalecendo a chamada Base Industrial de Defesa.

CTEx: o coração tecnológico do Exército
Sediado no bairro de Guaratiba, no Rio de Janeiro, o Centro Tecnológico do Exército - formalmente denominado Centro Tecnológico General Argus, denominação histórica concedida em 2016 - é a principal organização militar voltada à pesquisa e ao desenvolvimento de materiais e sistemas de emprego militar da Força Terrestre. Subordinado ao Departamento de Ciência e Tecnologia, o CTEx integra o Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército Brasileiro (SCTIEx) e atua como elo entre a demanda operacional da tropa e a produção científica de universidades, empresas e agências de fomento.

O portfólio do CTEx é vasto e diversificado. Entre os projetos mais relevantes destacam-se o próprio Radar SABER M200 Vigilante, o Radar SABER M60 (voltado à defesa antiaérea de baixa altitude), o Míssil MSS 1.2 AC, a Arma Leve Anticarro (ALAC), os simuladores de voo Esquilo e Fennec para a Aviação do Exército, o Fuzil de Assalto IA2 (desenvolvido em conjunto com a IMBEL) e, mais recentemente, as pilhas térmicas nacionais destinadas ao controle e guiamento do Míssil MAX 1.2 AC, tecnologia que o país até então dependia de importação.

O caráter dual da tecnologia militar é um dos pilares do CTEx. Os projetos desenvolvidos pelo Centro têm aplicação tanto no ambiente de defesa quanto em setores civis, o que amplia o retorno do investimento público e estimula a formação de uma cultura de inovação no país. Segundo o próprio órgão, o CTEx trabalha de forma integrada com Instituições Científicas e Tecnológicas, com a Base Industrial de Defesa e conta com o apoio de agências governamentais como a FINEP e o FNDCT.

Alguns exemplos do uso da fibra de carbono

Fibra de carbono e a fronteira dos materiais estratégicos
Um dos projetos mais recentes e promissores do CTEx envolve o desenvolvimento de uma fibra de carbono produzida a partir do piche de petróleo, um subproduto do refino do petróleo brasileiro, em parceria com a Petrobras, a FINEP e o FNDCT. A iniciativa é considerada estratégica porque a fibra de carbono é um material de alto desempenho empregado em blindagens leves, drones, veículos militares, sistemas aeronáuticos e equipamentos individuais de combate.

A relevância do projeto reside, sobretudo, na redução da dependência externa. O Brasil importa praticamente toda a fibra de carbono que consome, o que gera vulnerabilidade logística e tecnológica em situações de crise ou conflito. A alternativa nacional, além de potencialmente mais barata, permitiria ao país controlar toda a cadeia produtiva de um material crítico para a defesa e para setores industriais como aeronáutica, energia, construção civil e indústria automotiva.

Rádios definidos por software: soberania nas comunicações
Outro vetor de modernização coordenado pelo CTEx, com participação direta do Instituto Militar de Engenharia, é o programa RDS-RONDON DEFESA, voltado ao desenvolvimento de uma família nacional de Rádios Definidos por Software. A arquitetura do sistema substitui componentes físicos dedicados por atualizações lógicas, o que garante flexibilidade operacional e simplifica a logística de manutenção dos equipamentos em campo.

O programa já gerou resultados concretos. O modelo portátil TRC-1222HH encontra-se em produção seriada pela Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL), e a versão Manpack TRC-1222M está prevista para 2027. Os rádios operam em múltiplas faixas de frequência (HF, VHF e UHF) e integram módulos criptográficos de alta segurança desenvolvidos pela empresa Kryptus, empresa brasileira especializada em criptografia.

A dimensão estratégica do programa ficou evidente na Operação Atlas, quando os novos rádios foram empregados com sucesso para unificar os sistemas de comunicação das três Forças Armadas: o STERNA da Marinha, o GCB do Exército e o Link-BR2 da Força Aérea. O desenvolvimento conjunto do projeto SCALHEETDS prevê ainda a integração com o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações (SGDC) na banda X, consolidando a autonomia de comando e controle em cenários de emprego conjunto.

Radar SABER M200 Vigilante

CAEx: onde o futuro é testado e certificado
Se o CTEx é o laboratório onde as ideias tomam forma, o Centro de Avaliações do Exército, identificado institucionalmente como Campo de Provas da Marambaia desde 1948, é onde elas são submetidas ao crivo da realidade. A missão do CAEx consiste em planejar, coordenar, controlar e executar a avaliação de materiais de emprego militar, realizar exames de valor balístico de munições e prestar colaboração técnica em assuntos de interesse do Exército.

A abrangência das atividades do CAEx é expressiva. O centro já avaliou fuzis de assalto, viaturas blindadas, sistemas de radar, monóculos de visão térmica, munições de diferentes calibres e uma variedade de equipamentos individuais de combate. Em 2024, conduziu os testes das viaturas blindadas Leopard 1A5 adquiridas da Alemanha antes de sua incorporação ao efetivo da Força. Mais recentemente, integrou o Exercício Conjunto Escudo-Tínia, coordenado pelo Ministério da Defesa e pela Força Aérea Brasileira, para avaliar o desempenho do Radar SABER M200 Vigilante em condições operacionais reais.

O lema não oficial do CAEx, 'Aqui se avalia o Exército do futuro', reflete com precisão a função do Centro no ecossistema de defesa nacional. Sem a validação criteriosa dos sistemas desenvolvidos pelo CTEx e por parceiros industriais, o Exército não poderia incorporar novos materiais com segurança e confiabilidade. O CAEx opera, portanto, como filtro de qualidade e garantia de que o soldado brasileiro receberá equipamentos efetivos e seguros. 

IME: a academia que alimenta a inovação
Fundado ainda no período imperial e continuamente reformulado ao longo da história republicana, o Instituto Militar de Engenharia ocupa posição singular no sistema de ciência e tecnologia do Exército. Mais do que uma escola de formação, o IME é um polo de pesquisa aplicada que alimenta projetos estratégicos da Força Terrestre com conhecimento de fronteira em áreas como inteligência artificial, sistemas de armas, cibernética, comunicações, defesa química e biológica, materiais avançados e tecnologias quânticas.

O Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Defesa (PGED), em funcionamento desde 2007, oferece cursos de mestrado e doutorado a militares e civis, formando pesquisadores capazes de conduzir projetos de alta complexidade na interface entre academia e indústria de defesa. Três linhas de pesquisa estruturam o programa: Comunicações, Computação, Cibernética e Inteligência; Mecatrônica, Matéria Condensada e Sistemas de Armas; e Infraestrutura, Logística, Meio Ambiente, Geoinformação e Energia.

Em janeiro de 2026, o IME firmou acordo com o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM) para a criação do Instituto de Pesquisas do Exército na Amazônia (IPEAM), com sede em Manaus. A iniciativa expande a atuação do IME para além do eixo Rio-São Paulo, levando pesquisa científica e tecnológica voltada à defesa e ao desenvolvimento sustentável para a região de maior importância estratégica do território nacional.

Além de colaborar diretamente com o CTEx e o CAEx no desenvolvimento e na avaliação de sistemas militares, o IME atua no programa RDS-RONDON DEFESA, contribuindo com pesquisa nas áreas de comunicações e processamento de sinais. O instituto também participa de acordos bilaterais de intercâmbio tecnológico com países parceiros, fortalecendo a inserção internacional do Brasil em tecnologias sensíveis de defesa.

 

Diretoria de Fabricação: o elo entre o projeto e a tropa
Se o CTEx concebe, o CAEx certifica e o IME forma os pesquisadores, cabe à Diretoria de Fabricação (DF) fechar o ciclo, garantindo que os sistemas aprovados cheguem, de fato, à mão do soldado. Subordinada ao Departamento de Ciência e Tecnologia, a DF é o órgão responsável por planejar, coordenar e controlar a fabricação, revitalização, adaptação, modernização e nacionalização dos materiais de emprego militar da Força Terrestre, atuando em estreita parceria com a Base Industrial de Defesa.
 
Para exercer essa missão, a DF coordena o Sistema de Fabricação do Exército (SisFab), composto pelo Arsenal de Guerra do Rio (AGR) e pelo Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP). Os dois possuem mais de dois séculos de história, havendo contribuído com a produção de materiais militares já durante a Guerra da Tríplice Aliança e a Segunda Guerra Mundial. Hoje, cada arsenal tem vocação específica: o AGR concentra-se na fabricação de morteiros de 60 mm, 81 mm e 120 mm, na manutenção de rádios e equipamentos optrônicos e na blindagem de máquinas de engenharia, contando com moderno parque de máquinas CNC; o AGSP destaca-se na área de blindados, conduzindo a modernização da viatura EE-9 Cascavel Nova Geração e a nacionalização de componentes do Leopard 1A5, além da manutenção de armamento leve e pesado.
 
A carteira de projetos conduzida ou apoiada pela DF é extensa e abrange alguns dos programas mais relevantes da Força Terrestre. No âmbito do Programa Estratégico Guarani, a diretoria gerencia a produção da VBTP-MSR 6x6, a atualização tecnológica do Guarani 2.0, a adaptação da viatura para transporte de morteiro e o desenvolvimento do simulador de procedimentos do motorista. No programa de forças blindadas, acompanha a modernização do Cascavel NG e projetos relacionados às novas viaturas de combate. Também é responsável pela obtenção da Viatura Blindada Multitarefa Leve Sobre Rodas 4x4 Guaicurus, pelo desenvolvimento do sistema PROTEUS e pela atualização da torre UT30 nas viaturas Guarani.
 
Entre as realizações mais recentes, destaca-se a entrega, em julho de 2025, das Amostras 2 e 3 da Lancha de Operações Ribeirinhas São Félix do Araguaia (LOpRib-SFA) ao Exército Brasileiro, fruto de parceria entre a DF, o Arsenal de Guerra do Rio e o Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. As embarcações blindadas serão empregadas nos Comandos Militares da Amazônia e do Oeste, reforçando a capacidade de atuação em ambientes ribeirinhos de fronteira. O projeto exemplifica como a DF articula recursos e competências de diferentes Forças para gerar capacidade operacional em áreas de difícil acesso.
 
A DF também mantém diálogo ativo com fabricantes internacionais, como BAE Systems, para avaliação de possibilidades de produção nacional sob licença, e participa de fóruns como o Future Armoured Vehicles Survivability, buscando atualização permanente frente às tendências mundiais em proteção de blindados. Internamente, coordena a Reunião dos Diretores de Arsenais de Guerra (REDAG), fórum que define os programas internos de trabalho anuais e alinha prioridades entre a DF, os arsenais, a IMBEL e outros atores do sistema.
 
O papel da DF vai além da produção corrente. Em situações de emergência nacional, o Sistema de Fabricação demonstrou flexibilidade ao reconverter sua capacidade produtiva, como ocorreu durante a pandemia de Covid-19, quando os arsenais passaram a fabricar máscaras descartáveis e protetores faciais em larga escala para hospitais públicos e organizações militares. A versatilidade é, aliás, um dos atributos que distinguem os arsenais dos parques regionais de manutenção: neles, engenheiros militares lideram equipes técnicas multidisciplinares capazes de desenvolver soluções próprias, gerenciar projetos complexos e produzir itens críticos que o mercado civil não oferece ou cuja importação seria estrategicamente indesejável.

Um ecossistema integrado e suas perspectivas
O que emerge da análise conjunta das atividades do CTEx, do CAEx, do IME e dos demais órgãos do Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército é a imagem de um ecossistema que, apesar dos constrangimentos orçamentários históricos, vem produzindo resultados significativos. A parceria com empresas nacionais como Embraer, IMBEL, Kryptus, Petrobras e Opto Space & Defense, associada ao apoio de agências como FINEP e FNDCT, criou um modelo de desenvolvimento que combina expertise militar com capacidade industrial e financiamento público.

Os resultados recentes demonstram que esse modelo funciona. O Brasil dispõe hoje de um radar de vigilância aérea de tecnologia nacional integrado ao sistema de defesa antiaérea do Exército, capaz de detectar aeronaves de quarta geração. Dispõe de uma família de rádios militares com criptografia nacional que permite a interoperabilidade entre as três Forças. Avança no domínio de materiais estratégicos que antes precisavam ser importados. E consolida uma capacidade de formação de pesquisadores em engenharia de defesa que alimenta o ciclo virtuoso de inovação.

Os desafios, contudo, não são menores que as conquistas. Projetos como o Radar SABER M200 Vigilante e os rádios RDS levaram anos de desenvolvimento e dependem de continuidade orçamentária e institucional para alcançar a plena maturidade operacional. A fibra de carbono nacional ainda está em estágio de desenvolvimento. E a integração entre os vários atores do ecossistema de defesa - militares, acadêmicos, industriais e governamentais - exige coordenação permanente e visão estratégica de longo prazo.

O que os episódios recentes revelam, porém, é que a Força Terrestre brasileira possui, em seus organismos de ciência e tecnologia, instrumentos capazes de projetar o país na fronteira da inovação em defesa. Mais do que proteger fronteiras, essas instituições constroem soberania, não apenas pela força das armas que desenvolvem, mas pelo conhecimento que acumulam e pelo tecido científico e industrial que ajudam a tecer.

17 maio, 2026

O fim da profundidade estratégica: o drone chega à capital e traz uma nova revolução na guerra aérea

 
 
*LRCA Defense Consulting - 17/05/2026

Em 13 e 14 de maio de 2026, a Rússia lançou contra a Ucrânia o maior ataque combinado de drones e mísseis desde o início da invasão em larga escala. Foram 1.567 drones de ataque e 56 mísseis disparados ao longo de 36 horas ininterruptas. A defesa aérea ucraniana abateu 1.362 drones, 29 mísseis de cruzeiro Kh-101 e 12 mísseis balísticos. Três mísseis hipersônicos Kinzhal chegaram aos alvos sem ser interceptados. Três dias depois, em 17 de maio, a Ucrânia respondeu com um dos maiores ataques de drones já lançados contra o território russo: centenas de VANTs atingiram Moscou e a região ao redor da capital, forçando o fechamento do espaço aéreo próximo ao aeroporto Sheremetyevo, causando ao menos quatro mortos e uma dezena de feridos. O ciclo atacar-ser atacado-atacar de volta, medido em centenas de drones por noite, descreve com precisão o caráter da guerra contemporânea.

O episódio não foi isolado. Ao longo de todo o mês de abril de 2026, a Rússia havia lançado um recorde de 6.663 drones contra o território ucraniano, média de 222 por noite, segundo a Força Aérea da Ucrânia. A escala e a cadência desses ataques tornaram obsoletos os modelos tradicionais de defesa antiaérea, baseados em mísseis caros e infraestrutura fixa, e aceleraram o surgimento de respostas radicalmente diferentes em ambos os lados do conflito.

O ataque russo de 13 e 14 de maio: saturação como estratégia
O ataque de dois dias foi concebido não apenas para atingir alvos específicos, mas para esgotar a defesa ucraniana por acumulação. A fase diurna de 13 de maio, que durou das 8h às 18h30, envolveu 753 drones dos tipos Shahed, Gerber, Italmas e Parody (este último, um chamariz), incluindo variantes a jato. Somados à onda noturna anterior de 139 drones, os lançamentos nas primeiras 24 horas superaram 892 armas não tripuladas. A defesa aérea ucraniana abateu ou suprimiu 710 desses drones até o fim da fase diurna, mas 27 chegaram a seus alvos.

A fase noturna começou imediatamente após o encerramento da onda diurna, sem pausa. A Rússia lançou então 675 drones de ataque adicionais, dois drones Banderol, chamarizes Parody, 35 mísseis de cruzeiro Kh-101 e 18 mísseis balísticos Iskander-M e S-400. A cidade de Kyiv foi o alvo principal. Os três Kinzhal foram disparados da região de Lipetsk a partir de aeronaves MiG-31K: capazes de velocidades superiores a Mach 10 na fase terminal, esses mísseis aerobalísticos representam um desafio de interceptação que poucos sistemas ocidentais de defesa aérea estão certificados para enfrentar. Nenhum dos três foi abatido.

O sequenciamento deliberado de ondas quase contínuas ao longo de 36 horas reflete um objetivo de planejamento russo que vai além de destruir alvos pontuais: manter operações de defesa aérea sem pausa exaure as tripulações, esgota estoques de interceptadores e degrada a capacidade decisória de comandantes que alocam recursos finitos contra uma ameaça contínua. A Ucrânia respondeu. Mas a resposta custou algo: mísseis disparados, tripulações privadas de sono, sistemas levados ao limite.

A resposta imediata: o STING e o recorde de 120 abatidas
Ainda durante o ataque russo de 13 e 14 de maio, a empresa ucraniana Wild Hornets anunciou que seu drone interceptador STING havia derrubado mais de 300 alvos em um único período de dia e noite, com três unidades respondendo por mais de 200 dessas abatidas. O número mais expressivo foi o de uma única tripulação: 120 interceptações em um período operacional, quebrando o recorde individual de tripulação duas vezes durante o mesmo intervalo.

Para contextualizar: 120 interceptações representam, aproximadamente, o volume de um ataque russo de tamanho médio concentrado contra uma única unidade defensora. O STING é um drone construído com armação impressa em 3D, propulsão quadrirrotora, capaz de atingir até 343 km/h e operar a altitudes de até 3.000 metros. Seu custo é uma fração de qualquer míssil superfície-ar; pode ser operado por uma equipe pequena e não requer a infraestrutura fixa de uma bateria antiaérea convencional. O fabricante reporta taxa de sucesso de cerca de 95% nas missões, mesmo em temperaturas de menos 30 graus Celsius.

O conceito é simples na formulação, mas revolucionário na prática: em vez de usar um míssil de dezenas de milhares de dólares para abater um Shahed que custa alguns milhares, emprega-se um drone interceptador ainda mais barato para destruí-lo no ar. Desde abril de 2025, o sistema acumulou mais de 3.900 destruições confirmadas de drones Shahed e Geran até fevereiro de 2026. Em dezembro de 2025, tornou-se o primeiro interceptador a abater o Geran-3, variante a jato do Shahed. Em abril de 2026, era responsável por 70% dos Shahed a jato interceptados. A produção mensal superou 10.000 unidades em março de 2026.

A resposta estratégica: o ataque ucraniano a Moscou
Em 17 de maio de 2026, três dias após o fim do maior ataque russo da guerra, a Ucrânia executou o que o Washington Post descreveu como o maior e mais letal ataque de drones ucranianos contra a região da capital russa desde o início da invasão em larga escala. Centenas de VANTs foram lançados contra Moscou e regiões vizinhas, atravessando mais de 500 quilômetros de território russo protegido por densa cobertura de defesa aérea, segundo declaração do presidente Volodymyr Zelenskyy. As autoridades russas afirmaram ter interceptado centenas de drones, mas confirmaram mortos, casas danificadas, infraestrutura afetada e destroços próximos ao aeroporto Sheremetyevo. Reuters e Associated Press reportaram ao menos quatro mortos, três na região de Moscou e um em Belgorod, além de mais de uma dezena de feridos.

Zelenskyy defendeu os ataques como "inteiramente justificados" após os recentes bombardeios russos em larga escala contra Kyiv. A declaração evidencia a lógica de reciprocidade que passou a estruturar o uso de drones de longo alcance no conflito: cada ataque russo de saturação contra cidades ucranianas tende a ser seguido por operações ucranianas de penetração profunda no território russo. O drone deixou de ser apenas um instrumento tático. Tornou-se o vetor principal de pressão estratégica e política.

A significância do ataque vai além do dano físico causado. Moscou representa o centro do poder estatal russo, a sede do governo de Vladimir Putin e um local que os líderes russos historicamente procuraram manter isolado das consequências cotidianas da guerra. Quando drones ucranianos alcançam a região da capital, questionam a narrativa do Kremlin de controle e segurança. Mesmo que a defesa aérea russa intercepte muitos dos drones, o fato de que Moscou precisa se defender repetidamente de ataques de longo alcance ucranianos cria uma mensagem política de peso: a guerra pode chegar à capital.

Há também um efeito de segunda ordem que Mark Kahanding, veterano de combate, oficial de artilharia de campo da Guarda Nacional do Exército da Califórnia e fundador da Cobalt Academy, destacou em análise publicada no LinkedIn em 17 de maio: cada sistema de defesa aérea designado para proteger a região de Moscou é um sistema indisponível em outro lugar. Cada radar, interceptador, unidade de guerra eletrônica e equipe de reparo mantido em torno da capital cria tensão adicional sobre o esforço de guerra russo como um todo. O efeito do drone de longo alcance não é apenas a destruição imediata: é forçar o inimigo a gastar atenção, mão de obra e recursos defendendo áreas que antes considerava relativamente seguras.

Da plataforma ao ecossistema: a dimensão doutrinária
Tim De Zitter, gerente de ciclo de vida de mísseis anticarro, sistemas VSHORAD, C-UAS e munições de patrulha na Defesa Belga e analista independente de OSINT, publicou no LinkedIn, também em 17 de maio, uma análise que capta a dimensão sistêmica do que a Ucrânia está construindo como resposta ao padrão ofensivo russo: não um único interceptador, mas um ecossistema completo de defesa aérea.

Segundo De Zitter, o CEO do programa Brave1, Andrii Hrytseniuk, descreveu um ecossistema de drones interceptadores que vai muito além de um único design anti-Shahed, com mais de 150 empresas trabalhando em soluções de interceptação dentro de um cluster de tecnologia de defesa que hoje inclui milhares de firmas. O sinal mais importante, na avaliação do analista belga, é a diversidade arquitetônica: a Ucrânia não está apostando tudo em uma única plataforma, um único fornecedor ou uma única resposta técnica. Está construindo uma família em camadas de pequenos interceptadores derivados de FPV, projetos de asa fixa, sistemas maiores de patrulha, híbridos X-wing, variantes de alta velocidade, plataformas de longa resistência e sistemas especializados para diferentes conjuntos de alvos, desde VANTs de reconhecimento e chamarizes até drones de ataque pesados tipo Shahed.

Isso importa porque a guerra de drones é agora uma disputa de curvas de custo. Um Shahed não deve exigir sempre um míssil caro, e um chamariz não deve consumir sempre um interceptador premium. A resposta ucraniana é construir muitas camadas mais baratas que possam corresponder à ameaça de forma mais inteligente, preservar os escassos mísseis de defesa aérea e transformar velocidade industrial em profundidade defensiva.

O debate sobre autonomia é igualmente relevante. Hrytseniuk apontou para um modelo human-on-the-loop, no qual um ser humano retém a autoridade de cancelar ou bloquear uma ação, mas não necessariamente aprova cada interceptação em tempo real. Trata-se de uma mudança significativa, impulsionada pela velocidade de reação necessária contra ataques massivos de drones, mas que levanta a questão central que todos os militares terão de enfrentar: quanta autonomia é aceitável quando segundos decidem se uma cidade, uma usina ou uma base aérea será atingida?

A guerra do custo assimétrico e suas implicações globais
O argumento econômico é inescapável em ambas as direções do conflito. Quando a Rússia lança 222 drones por noite em média, uma defesa baseada exclusivamente em mísseis superfície-ar se torna insustentável. Quando a Ucrânia ataca Moscou com centenas de drones de baixo custo, força a Rússia a consumir interceptadores caros para defender sua capital. A assimetria favorece, por uma vez, quem ataca com volume e quem defende com inteligência de camadas.

Quatro sistemas ucranianos dominam a frota de caçadores de Shahed: o P1-SUN da SkyFall, o STING da Wild Hornets, o Octopus (ucraniano-britânico) e o Bullet da General Cherry. A produção total de interceptadores nos quatro primeiros meses de 2026 já superou a produção de todo o ano de 2025, segundo o ministro da Defesa Mykhailo Fedorov. A inovação vai além do hardware: em abril de 2026, tripulações ucranianas realizaram pela primeira vez a interceptação de um Shahed lançado a partir de um veículo de superfície não tripulado, e um piloto destruiu dois Shahed operando de um ponto de controle a 500 quilômetros de distância.

Para Kahanding, o ataque ucraniano a Moscou deve ser estudado muito além da Rússia e da Ucrânia, porque a mesma lógica pode se aplicar a outros teatros. Se a Ucrânia consegue pressionar a região da capital russa com drones de longo alcance enquanto enfrenta uma potência muito maior, outros Estados e atores não estatais vão estudar o modelo. Irã, Hezbollah, houthis, Coreia do Norte e China já demonstraram interesse em drones, munições de patrulha e capacidades de ataque assimétricas. A lição que podem extrair é simples: um país não precisa igualar os Estados Unidos, a Otan ou outra força militar avançada plataforma por plataforma. Pode usar sistemas mais baratos para criar problemas caros.

Implicações para a guerra contemporânea
O que se consolida no conflito ucraniano é uma nova gramática da guerra aérea. A profundidade estratégica está perdendo seu antigo significado: uma capital a centenas de quilômetros da zona de combate não é mais imune aos efeitos da guerra. A defesa aérea deixou de ser apenas uma questão de radares, lançadores e mísseis, tornando-se uma teia de abatidas definida por software, manufaturada em massa e continuamente atualizada, onde startups, soldados, voluntários e plataformas estatais iteram juntos sob fogo.

A lógica da saturação, explorada pela Rússia, encontrou uma resposta na escala e no custo: não um míssil perfeito para cada ameaça, mas camadas de interceptadores baratos e drones de longo alcance que alteram simultaneamente a defesa e o ataque. O recorde de 120 abatidas por uma única tripulação ucraniana e o ataque de drones a Moscou ocorreram com três dias de diferença, na mesma semana. Juntos, ilustram o novo ciclo da guerra contemporânea: velocidade de iteração industrial, custo assimétrico e alcance geográfico ilimitado.

Quem adaptar seus sistemas mais depressa do que o adversário adapta os próprios começa a mudar a economia do espaço aéreo. E, a julgar pelos eventos de maio de 2026, essa corrida já está em pleno curso.

Avibras Aeroco desenvolve o ASTROS II MK7 com capacidade para lançar míssil balístico tático

Imagem meramente ilustrativa
 

*LRCA Defense Consulting - 17/05/2026

De acordo com informações inéditas reveladas ao perfil @Defence360 na rede social X pelo CEO da empresa, a Avibras Aeroco está desenvolvendo uma nova versão do seu sistema de artilharia de saturação ASTROS II, designada MK7, com uma viatura lançadora 6x6 capaz de disparar o míssil tático balístico AV-SS 120 e que contará com maior autonomia operacional em relação às versões anteriores.

O que é o ASTROS II e a família MK
O ASTROS II (Artillery SaTuration ROcket System) é um sistema autopropulsado de lançamento múltiplo de foguetes e mísseis produzido no Brasil pela Avibras desde 1983. Concebido para a saturação de área com fogos de artilharia, distingue-se da concorrência por um lançador universal e modular capaz de disparar munições de diferentes calibres, de 127 mm a 450 mm, a partir da mesma plataforma, sem necessidade de substituição do veículo.

Ao longo das décadas, o sistema evoluiu por sucessivas variantes. O MK3 correspondeu à configuração inicial adotada pelo Exército Brasileiro, seguida do MK3M modernizado. O MK6, também denominado ASTROS 2020, introduziu o chassis 6x6 Tatra T815, comunicações digitais, novo radar de controlo de fogos e compatibilidade com o míssil tático de cruzeiro AV-TM 300, conhecido como "Matador", de alcance de 300 quilômetros na versão de exportação. Esta variante é operada pelas Forças Armadas brasileiras e foi exportada para a Indonésia, Malásia, Arábia Saudita e Qatar, entre outros.

O MK7 e o míssil balístico AV-SS 120
A nova variante MK7, caso seja concretizada, representa um salto qualitativo na família ASTROS II ao incorporar, pela primeira vez, a capacidade de lançar um míssil tático balístico, o AV-SS 120. Trata-se de um desenvolvimento de grande relevância estratégica: nenhum país da América Latina dispõe atualmente de um sistema de artilharia de foguetes com um míssil balístico tático orgânico.

A designação "AV-SS 120" insere-se na nomenclatura tradicional da Avibras para os seus foguetes, em que "SS" indica superfície-superfície. O número sugere um alcance na ordem dos 120 quilômetros, embora os dados técnicos completos não tenham sido divulgados publicamente. A integração deste míssil no ASTROS II MK7 posicionaria o sistema num patamar comparável ao do M270 MLRS norte-americano equipado com ATACMS, ou ao russo Iskander, em termos de gama de alvos alcançáveis.

Além do novo míssil balístico, o MK7 deverá contar com maior autonomia operacional. Esta característica, referida pelo CEO da Avibras Aeroco ao @Defence360, aponta para melhorias nos sistemas de propulsão, alcance de deslocamento ou capacidade energética da viatura lançadora, embora os detalhes técnicos precisos não tenham ainda sido confirmados.

Contexto: a retomada da Avibras Aeroco
O anúncio surge num momento de recuperação para a empresa. A Avibras entrou em processo de recuperação judicial em março de 2022, acumulando dívidas de 394 milhões de reais, na sequência de anos de redução nas encomendas militares. Durante 2024 e 2025, grupos estrangeiros, incluindo a chinesa Norinco, a australiana DefendTex e a saudita Black Storm Military Industries, manifestaram interesse na aquisição da empresa, cenário que gerou forte resistência nas Forças Armadas brasileiras.

A reestruturação foi viabilizada em 2025 e início de 2026, com a captação de 300 milhões de reais junto de investidores privados, liderada pelo Fundo Brasil Crédito, e a entrada do empresário Joesley Batista como financiador. Em março de 2026, o Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou o plano de recuperação judicial por unanimidade e uma greve histórica de 1.281 dias foi encerrada após a homologação de um acordo de pagamento das dívidas laborais. A empresa passou a operar sob o nome Avibras Aeroco, com Sami Hassuani como diretor-presidente.

Programa ASTROS-FOGOS e o míssil tático balístico
Em março de 2026, o Exército Brasileiro transformou o Programa Estratégico ASTROS numa plataforma mais abrangente, designada ASTROS-FOGOS, que integra artilharia de foguetes, mísseis de cruzeiro e um sistema de defesa antiaérea contra drones e mísseis, com um investimento previsto de 3,4 mil milhões de reais para o período 2026-2031.

No âmbito deste programa, em 5 de maio de 2026, o Centro Tecnológico do Exército (CTEx) recebeu uma reunião de coordenação estratégica com a Avibras Aeroco, centrada no Projeto Míssil Tático Balístico (MTB), também referido como S+100, com alcance superior a 100 quilômetros. O MTB é desenvolvido sob a supervisão do Escritório de Projetos do Exército (EPEx) e da Diretoria de Fabricação (DF), com o requisito de interoperabilidade com os lançadores ASTROS existentes. Paralelamente, o Míssil Tático de Cruzeiro MTC-300 "Matador" encontra-se com cerca de 90% do desenvolvimento concluído, aguardando apenas a campanha final de disparos experimentais.

Significado estratégico
O ASTROS II é o sistema de foguetes de artilharia mais bem-sucedido já produzido na América Latina, com mais de 270 unidades fabricadas e operadores em pelo menos oito países. A introdução do MK7 com capacidade balística representa a resposta da Avibras às lições aprendidas em conflitos recentes, nomeadamente na Ucrânia, onde sistemas de foguetes de artilharia com munições guiadas de longo alcance se revelaram determinantes no combate moderno.

A combinação, num único sistema modular, de foguetes não guiados, foguetes guiados, mísseis de cruzeiro e agora mísseis balísticos táticos, diferencia o ASTROS dos seus concorrentes diretos, como o norte-americano HIMARS, que opera com um único tipo de contentor de munições de cada vez. Para os atuais operadores do ASTROS MK6, o MK7 poderá ser oferecido como uma atualização que amplifica significativamente o leque de opções táticas disponíveis, sem necessidade de adquirir uma plataforma inteiramente nova.

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