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15 setembro, 2026

Do Mar Negro à Amazônia Azul: a revolução dos drones navais

Experiência da TideWise com o Tupan e o Programa SUPPRESSOR mostra que o Brasil já domina elementos importantes de uma transformação que está alterando o combate no mar, com plataformas não tripuladas assumindo missões de vigilância, guerra de minas, ataque, defesa antiaérea e operação em rede 



*LRCA Defense Consulting - 16/09/2026

Uma embarcação sem tripulação navega no mar, executa uma missão complexa e permanece sob supervisão de um centro de operações situado a centenas de quilômetros. No setor civil, a imagem já deixou o campo das projeções. No Brasil, a TideWise vem empregando seus USVs Tupan em operações offshore e demonstrando que autonomia, sensoriamento e comando remoto podem ser combinados em missões reais.

Uma reportagem publicada pelo Olhar Digital em agosto chamou atenção para essa capacidade ao relatar uma operação do Tupan supervisionada a mais de 300 quilômetros de distância. O dado, observado isoladamente, já é relevante para a indústria marítima. Quando colocado ao lado da evolução dos sistemas não tripulados na Ucrânia e no Oriente Médio, entretanto, assume outra dimensão: tecnologias semelhantes estão contribuindo para uma transformação da guerra naval.

A questão para o Brasil, portanto, não é apenas se embarcações autônomas podem reduzir custos ou retirar pessoas de atividades perigosas. É saber como a capacidade tecnológica que já existe no País poderá ser integrada a uma arquitetura militar distribuída, na qual navios tripulados, USVs, veículos submarinos, aeronaves não tripuladas, sensores e centros de comando atuem como componentes de uma mesma rede.


O Tupan demonstra a tecnologia no mundo real 
A TideWise, fundada em 2019, desenvolveu o Tupan, primeira embarcação não tripulada registrada na Marinha do Brasil, em 2020. Desde então, a plataforma avançou de demonstrações para operações comerciais. Em dezembro de 2025, por exemplo, o Tupan II realizou para a Petrobras um levantamento hidrográfico pós-dragagem no Porto de Imbetiba, em Macaé, percorrendo 27 milhas náuticas de linhas de sondagem em operação 100% remota. Segundo a empresa, a missão reduziu o tempo no mar em 33%, otimizou o processamento de dados em 57%, eliminou a exposição de pessoal a bordo e reduziu a pegada de carbono em 75%.

Em abril de 2026, TideWise, Petrobras e UFES iniciaram outra prova de conceito, desta vez para levantamento hidrográfico e geofísico na área piloto do futuro Parque Eólico Offshore RJ-02-Aracatu e ao longo do traçado de seu cabo submarino, próximo ao Porto do Açu. O Tupan foi empregado com batimetria multifeixe, sonar de varredura lateral e perfilador de subfundo.

O próprio LRCA registrou outra missão particularmente significativa: o Tupan II realizou coleta autônoma de DNA ambiental a mais de 200 quilômetros da costa, permanecendo cerca de 143 horas em navegação ininterrupta e operando nas proximidades de uma plataforma de produção. Essas experiências ajudam a demonstrar persistência, navegação autônoma, integração de sensores e operação remota em condições reais, atributos diretamente relevantes para aplicações militares.

Do uso dual ao Programa SUPPRESSOR 
A passagem da tecnologia civil para a defesa já está em curso. Em parceria com a EMGEPRON, a TideWise desenvolve o Programa SUPPRESSOR, voltado a embarcações não tripuladas para guerra de minas, guerra antissubmarino e patrulha naval.

O SUPPRESSOR-X, demonstrador tecnológico da família, participou em novembro de 2025 do exercício ARAMUSS e da MINEX-2025. Durante o ARAMUSS, realizou lançamento e recolhimento automáticos de um ROV da BRS Robótica Submarina e completou, em 45 minutos, as etapas de busca, classificação e identificação de uma mina de exercício. Poucos dias depois, na Base Naval de Aratu, repetiu a capacidade com identificação positiva de minas navais inertes.

Na mesma ocasião, a EMGEPRON e a Marinha do Brasil assinaram protocolo de intenções para possível aquisição de quatro unidades do SUPPRESSOR 7. O programa também teve sua mobilidade estratégica testada: SUPPRESSOR 7, SUPPRESSOR 11 e a Base Operacional Móvel foram avaliados quanto à compatibilidade com o KC-390 Millennium, permitindo conceber o deslocamento rápido do sistema para diferentes pontos do litoral.

Esse conjunto é importante porque mostra que o Brasil não parte do zero. Já existem plataforma, software, integração com sensores e veículos submarinos, experiência operacional e uma arquitetura logística em desenvolvimento. 


A Ucrânia transformou o drone naval em arma de negação do mar 
A guerra na Ucrânia oferece a referência mais contundente sobre o efeito militar dessas tecnologias. Sem dispor de uma esquadra de superfície comparável à russa, a Ucrânia combinou mísseis antinavio, ataques de longo alcance, inteligência e embarcações não tripuladas para impor severas restrições à Frota do Mar Negro. O RUSI observa que essa combinação contribuiu para afastar parte importante da força naval russa de Sevastopol e criar uma ameaça de negação de área em águas relativamente confinadas.

O efeito estratégico não decorre apenas do número de navios destruídos. Uma plataforma barata e difícil de detectar pode obrigar o adversário a instalar barreiras, reforçar vigilância, deslocar helicópteros e aeronaves para defesa, manter sistemas de armas permanentemente alertas e retirar unidades de bases consideradas vulneráveis. Em outras palavras, o USV pode produzir efeitos muito superiores ao seu próprio valor financeiro.

De embarcação explosiva a plataforma multimissão 
A evolução ucraniana também desmontou a ideia de que o drone naval seria apenas um 'barco-bomba'. A família Magura passou por sucessivas adaptações. Em maio de 2025, a inteligência militar ucraniana afirmou que plataformas Magura V7 armadas com mísseis AIM-9 destruíram dois caças russos Su-30 sobre o Mar Negro. Pouco depois, foram apresentados publicamente Magura V5, V6P e V7 em configurações destinadas a ataque naval, emprego multifuncional, defesa antiaérea e uso de módulo de metralhadora.

A evolução continuou. Na parada ucraniana de sistemas não tripulados de agosto de 2026, foram exibidos Magura V7 com sistema de mísseis Sea Dragon, o maior Magura MV11 configurado como transportador de drones interceptadores e variantes Sargan capazes de levar quadricópteros de ataque, foguetes de 122 mm, sistemas de guerra eletrônica e defesa antiaérea.

O significado tático é profundo: o USV deixa de ser uma arma com finalidade única e passa a ser uma plataforma modular. Dependendo da carga útil, pode observar, retransmitir comunicações, transportar outros drones, realizar guerra eletrônica, lançar armas ou atuar como sensor avançado de uma força naval.

O Oriente Médio mostra a força da ameaça assimétrica 
No Mar Vermelho, os houthis demonstraram outra vertente do problema. O U.S. Central Command registrou repetidamente o emprego ou preparação de USVs contra navios militares e mercantes. Em 12 de junho de 2024, um USV atingiu o cargueiro M/V Tutor, provocando graves danos e inundação na praça de máquinas.

A experiência do Mar Vermelho reforça uma lição distinta da ucraniana. Mesmo quando sistemas não tripulados não conseguem atingir grandes combatentes de superfície, eles podem ameaçar navios mercantes, meios logísticos e infraestrutura marítima, obrigando forças muito mais sofisticadas a dedicar sensores, aeronaves, munições e horas de operação à sua neutralização.

O RUSI chama atenção exatamente para essa assimetria: navios de guerra bem defendidos demonstraram elevada capacidade de sobrevivência, mas unidades menos protegidas, embarcações auxiliares e o tráfego comercial permanecem muito mais expostos. A guerra de minas, por sua vez, torna-se um campo especialmente atraente para sistemas não tripulados, pois permite afastar tripulações da zona de maior risco.

O próximo passo: um USV transportando outros robôs 

Talvez uma das implicações mais importantes seja a transformação do USV em plataforma para outros sistemas não tripulados. A experiência ucraniana já aponta nessa direção. Um veículo de superfície pode transportar UAVs de reconhecimento ou ataque, drones interceptadores, ROVs, sonares, sensores de inteligência eletrônica e repetidores de comunicações.

O conceito encontra paralelo direto no que o SUPPRESSOR-X já demonstrou ao lançar e recolher automaticamente um ROV. Em vez de pensar o veículo apenas como uma embarcação, passa a ser possível imaginá-lo como um nó móvel capaz de levar sensores e outros robôs até uma área de interesse, operar durante longos períodos e transmitir informações para centros de comando muito distantes.

Para a Marinha do Brasil, isso abre possibilidades particularmente relevantes na guerra de minas, vigilância de áreas marítimas, proteção de infraestrutura crítica, guerra antissubmarino e inteligência, vigilância e reconhecimento. 

Da plataforma isolada para a frota híbrida 
O movimento não está restrito aos países envolvidos diretamente nos conflitos. Em relatório publicado em junho de 2026, o Government Accountability Office dos Estados Unidos afirmou que as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio demonstram que sistemas robóticos e autônomos estão perturbando a guerra naval e desafiando formas tradicionais de superioridade marítima.

Segundo o GAO, a U.S. Navy pretende avançar para uma frota híbrida, na qual capacidades menores, mais numerosas e distribuídas complementem navios, submarinos e aeronaves convencionais de alto valor. A lógica não elimina as grandes plataformas. Ao contrário, procura ampliar sua consciência situacional, alcance e capacidade de sobrevivência por meio de uma camada de sistemas distribuídos e, em alguns casos, sacrificáveis.

Essa distinção é essencial. Fragatas, submarinos e navios-aeródromos não se tornam obsoletos porque existem drones navais. O que muda é a composição do sistema de combate: uma parcela crescente das missões de maior risco, persistência ou repetitividade poderá ser transferida para plataformas sem tripulação. 


A IA muda a escala da operação 

Há, entretanto, uma diferença entre teleoperar uma embarcação e construir uma verdadeira força autônoma. Se cada USV exigir um operador dedicado durante toda a missão, parte do ganho de escala desaparece. A mudança decisiva ocorre quando a automação permite que um operador supervisione diversos veículos, intervindo principalmente diante de situações anormais ou decisões de comando.

Nesse modelo, algoritmos podem assumir tarefas como manutenção de rota, prevenção de colisões, controle de formação, gerenciamento de sensores e resposta a contingências previamente estabelecidas. O ser humano permanece no ciclo decisório, especialmente quando há emprego de força, mas deixa de executar manualmente cada movimento da plataforma.

É aí que inteligência artificial e autonomia deixam de representar apenas conveniência tecnológica e passam a produzir massa operacional. Um centro remoto poderia supervisionar diversos USVs e estes, por sua vez, poderiam controlar ou lançar outros sistemas, criando uma rede de sensores e efetores espalhada por extensa área marítima.

A Amazônia Azul oferece um cenário natural para essa transformação

Para o Brasil, a discussão possui uma dimensão geográfica evidente. A Marinha precisa acompanhar uma extensa área marítima e proteger portos, terminais, plataformas de petróleo e gás, cabos submarinos, rotas comerciais e outros ativos estratégicos. Manter meios tripulados permanentemente próximos a todos esses pontos é operacional e economicamente difícil.

Sistemas não tripulados persistentes podem ampliar a presença sem exigir proporcional aumento do número de grandes navios e tripulações. USVs poderiam funcionar como piquetes de sensores, patrulhar áreas predefinidas, investigar contatos, apoiar operações de guerra de minas, transportar ROVs e UAVs ou fornecer dados para unidades tripuladas que permanecessem fora das zonas de maior risco.

A mobilidade estratégica demonstrada pelo Programa SUPPRESSOR acrescenta outra possibilidade. Sistemas transportáveis por KC-390 e apoiados por bases móveis poderiam ser deslocados rapidamente entre diferentes regiões do litoral, reforçando temporariamente áreas consideradas críticas. 


Autonomia também cria vulnerabilidades
A experiência de combate também recomenda cautela. USVs dependem de navegação, comunicações, sensores, processamento embarcado e software. Todos esses elementos podem ser atacados. Interferência ou falsificação de sinais GNSS, bloqueio de enlaces, guerra eletrônica, ataques cibernéticos e captura física da plataforma tornam-se parte da disputa.

Quanto maior a distância entre o centro de controle e o veículo, maior a importância da resiliência das comunicações e da capacidade de continuar a missão durante períodos de perda de enlace. Isso conduz inevitavelmente a graus maiores de autonomia embarcada, mas também amplia os desafios de segurança, certificação, regras de engajamento e controle humano.

Há ainda uma questão industrial. Para que uma capacidade militar desse tipo seja verdadeiramente soberana, não basta fabricar o casco no Brasil. Processadores, sistemas de navegação, comunicações criptografadas, enlaces satelitais, sensores, software de autonomia, inteligência artificial e componentes eletrônicos críticos tornam-se parte da mesma equação estratégica.

Uma oportunidade para a Base Industrial de Defesa 
Nesse aspecto, a trajetória da TideWise merece atenção além da própria empresa. O desenvolvimento do Tupan e do SUPPRESSOR mostra a possibilidade de uma tecnologia de uso dual criar escala no mercado civil e, simultaneamente, gerar capacidades militares. Clientes comerciais, operações offshore e expansão internacional podem contribuir para sustentar competências industriais que seriam difíceis de manter exclusivamente com encomendas de defesa.

O Brasil dispõe ainda de outros projetos de sistemas não tripulados de superfície, submarinos e aéreos. O ARAMUSS 2025 reuniu, ao lado do SUPPRESSOR, o VSNT do CASNAV, o LAUV Triton, o FlatFish e o NAURU, mostrando que já existe um ecossistema nacional que pode ser explorado de forma integrada.

O desafio passa a ser transformar projetos e demonstrações em doutrina, escala, interoperabilidade e capacidade operacional permanente.

A pergunta já mudou 
A experiência da Ucrânia mostra que uma força naval inferior pode usar sistemas não tripulados para impor custos e restringir a liberdade de ação de uma potência naval superior. O Mar Vermelho demonstra que plataformas relativamente simples podem ameaçar o tráfego comercial e obrigar forças avançadas a gastar recursos consideráveis para proteger linhas marítimas. Os Estados Unidos, por sua vez, já tratam sistemas robóticos como componentes de uma futura frota híbrida.

No Brasil, o Tupan demonstra que embarcações autônomas podem realizar missões reais no ambiente offshore, enquanto o Programa SUPPRESSOR leva essa competência para problemas militares concretos, como guerra de minas, patrulha e guerra antissubmarino.

Por isso, talvez a pergunta relevante já não seja se a Marinha do Brasil precisará incorporar embarcações autônomas em maior escala.

A questão passa a ser quantas serão necessárias, quais missões deverão cumprir, qual grau de autonomia terão e, principalmente, como serão integradas aos navios, submarinos, aeronaves, satélites, centros de comando e demais sistemas que defendem a Amazônia Azul.

A guerra naval não tripulada deixou de ser uma hipótese. Ela já está sendo testada diariamente em combate. Para o Brasil, a oportunidade está em transformar a capacidade tecnológica que já possui em vantagem operacional antes que essa transformação deixe de ser oportunidade e passe a ser requisito.

18 agosto, 2026

TideWise mira expansão global às vésperas do lançamento do Suppressor 7

Deeptech carioca de embarcações autônomas amplia operação na Bélgica e capta investimentos enquanto o programa de defesa desenvolvido com a EMGEPRON se prepara para lançar ao mar sua primeira unidade operacional 



*LRCA Defense Consulting - 18/08/2026

A TideWise, deeptech sediada no Rio de Janeiro especializada em embarcações de superfície não tripuladas (USVs), formalizou nas últimas semanas sua expansão para a Europa, com a abertura de um escritório e a assinatura de um primeiro contrato na Bélgica. A movimentação ocorre em paralelo a uma rodada de investimentos aberta pela empresa e antecede por poucos dias um marco relevante do seu programa de defesa: segundo ata do Conselho de Administração da EMGEPRON (Empresa Gerencial de Projetos Navais) de 30 de abril de 2026, o lançamento ao mar do Suppressor 7, primeira unidade operacional da série desenvolvida em parceria com a estatal, está previsto para o dia 24 de agosto.

Fundada em 2019 pelo engenheiro naval Rafael Coelho, CEO da empresa, e pelo engenheiro de software francês Sylvain Joyeux, CTO, a TideWise projetou e construiu o USV Tupan, primeira embarcação não tripulada registrada na Marinha do Brasil, em 2020. Dois anos depois, a companhia já operava fora do País: em 2022, realizou na Bélgica a primeira inspeção mundial de parques eólicos offshore a integrar USV e drone, um indício de que a presença europeia da TideWise antecede em quatro anos o anúncio mais recente.

Suppressor: da vigilância submarina ao protocolo de intenções 

No Brasil, a trajetória da TideWise se consolidou principalmente pela parceria com a EMGEPRON no Programa Suppressor, voltado ao desenvolvimento de embarcações autônomas de superfície para guerra de minas, guerra antissubmarino e patrulha naval. O piloto tecnológico da série, o Suppressor-X, passou por dois testes decisivos em novembro de 2025: no dia 12, durante o exercício naval Aramuss, realizou pela primeira vez o lançamento e o recolhimento automáticos de um ROV (fabricado pela BRS Robótica Submarina), concluindo em 45 minutos as etapas de busca, classificação e identificação de uma mina de exercício; nos dias 17 e 18, na Base Naval de Aratu (BA), repetiu o desempenho durante a operação MINEX-2025, com identificação positiva de minas navais inertes.

Foi também durante o Aramuss que a EMGEPRON e a Marinha do Brasil assinaram um protocolo de intenções para a possível aquisição de quatro unidades do Suppressor 7, sinalização que projeta o programa para além da fase de demonstração tecnológica. Em outubro de 2025, o sistema já havia passado por testes de compatibilidade de embarque no cargueiro KC-390 Millennium, da Embraer, no Primeiro Esquadrão do Primeiro Grupo de Transporte, na Base Aérea do Galeão (RJ): confirmou-se que os USVs Suppressor 7 e Suppressor 11, além da Base Operacional Móvel do sistema, atendem aos requisitos de dimensão, peso e condições técnicas para deslocamento aéreo rápido a portos ou zonas costeiras estratégicas.

O cronograma de lançamento do Suppressor 7 sofreu um ajuste ao longo do processo: previsões anteriores, incluindo um comunicado da própria EMGEPRON em novembro de 2025, indicavam julho de 2026. A ata do conselho de administração de abril deste ano fixou a nova data em 24 de agosto, com comissionamento programado para abril de 2027, segundo apuração da publicação especializada Janes. Até o fechamento desta matéria, a embarcação não havia sido lançada ao mar. 

Testes de compatibilidade de embarque no cargueiro KC-390 Millennium, da Embraer

Antuérpia como porta de entrada para a Europa 
A base europeia da TideWise, batizada TideWise Europe, está sediada em Antuérpia e já era mencionada publicamente pela empresa desde outubro de 2025, quando integrava a lista de próximos marcos apresentada durante a cerimônia de batismo dos USVs Tupan II e Tupan III, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro. Segundo Rafael Coelho, a Bélgica funciona como porta de entrada para o continente europeu, de onde a empresa pretende avançar para outros mercados, como Alemanha e França, e, num horizonte mais distante, para o Oriente Médio, a Malásia e a Austrália, inclusive por meio de eventuais aquisições de empresas locais.

Para sustentar essa expansão, a empresa mantém uma rodada de investimentos aberta, que deve financiar tanto a escalada europeia quanto a ampliação da frota no Brasil. A TideWise projeta faturamento de cerca de R$ 30 milhões em 2026, já com receita contratada, e deve encerrar o ano com aproximadamente 63 funcionários, acima da estimativa inicial. Desde a fundação, a empresa já captou cerca de R$ 15 milhões em rodadas de investimento, incluindo um aporte de R$ 10 milhões liderado pela MSW Capital, por meio do fundo MultiCorp 2, que tem a Embraer, a BB Seguros, a Baterias Moura e a AgeRio como cotistas, uma participação indireta que conecta a fabricante aeroespacial brasileira ao ecossistema da TideWise.

No mercado offshore, a lista de clientes da empresa inclui a Petrobras, a Equinor, a Repsol Sinopec Brasil e a Shell, além da própria EMGEPRON. Segundo Coelho, a indústria de apoio marítimo enfrenta um desequilíbrio crescente entre oferta e demanda de embarcações, o que deve pressionar os preços para cima e reforça o interesse de operadoras como Petrobras e Shell em tecnologias autônomas: um USV de cerca de 19 metros pode substituir uma embarcação de aproximadamente 60 metros, com economia estimada entre 30% e 40% para as companhias.

Tecnologia de uso dual: da defesa ao monitoramento ambiental 

A mesma plataforma que sustenta o programa de defesa também opera em aplicações civis. Cerca de três meses atrás, o USV Tupan II concluiu, em parceria com a Bio Bureau Biotecnologia, a Equinor e o MBARI (Monterey Bay Aquarium Research Institute), uma missão de coleta autônoma de DNA ambiental (eDNA) a mais de 200 quilômetros da costa, com cerca de 143 horas de navegação ininterrupta. A embarcação partiu do porto sob ondulação de 3,5 metros e chegou a coletar amostras em posicionamento dinâmico dentro de um raio de 500 metros de uma plataforma de produção em operação plena, reunindo cerca de 50 amostras processadas com a tecnologia de amostragem 3G ESP, do MBARI. A operação, financiada dentro da cláusula de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em projeto da Bio Bureau com a Equinor, é descrita pela Bio Bureau como a primeira campanha autônoma de monitoramento de biodiversidade offshore realizada em um campo de petróleo no País.

Ainda no plano internacional, a TideWise participou, no primeiro semestre deste ano, da 111ª sessão do Comitê de Segurança Marítima da Organização Marítima Internacional (IMO), que adotou o primeiro código internacional para embarcações autônomas (MASS Code), e marcou presença em feiras como a Oceanology International, em Londres, e o Industry Days, em Bruxelas. A empresa soma ainda reconhecimentos como a seleção para o selo KPMG Emerging Giants, o título de uma das 50 startups mais promissoras do globo pelo Enterprise Singapore e uma capa da revista Uncrewed Systems Technology. 


Um setor que amadurece 
Ao avaliar o cenário global do setor após a Oceanology International 2026, Rafael Coelho descreveu a passagem de uma fase de early adopter para uma de early majority: o debate teria deixado de girar em torno de provar a tecnologia para se concentrar em escalar operações com confiabilidade e padrões rigorosos. Segundo o CEO, contratos de USVs passaram a refletir a realidade operacional das plataformas, os softwares deixaram de operar como sistemas fechados e os ROVs compactos ganharam robustez, com um novo patamar de referência de resistência a 400 metros de profundidade. Coelho também chamou atenção para a consolidação do setor, com movimentos de fusão e aquisição, e para o avanço da qualidade dos produtos chineses, hoje considerados concorrentes genuínos no segmento de alta especificação técnica, uma dinâmica que tem se refletido também nos debates sobre a presença de equipamentos de origem chinesa no setor de defesa brasileiro.

Com o lançamento do Suppressor 7 previsto para os próximos dias e a expansão europeia em curso, a TideWise projeta consolidar, ao mesmo tempo, sua posição como fornecedora de tecnologia dual para a Marinha do Brasil e como exportadora de um segmento ainda incipiente na Base Industrial de Defesa nacional: o de sistemas navais autônomos.

15 maio, 2026

Brasil avança rumo ao submarino nuclear: EMGEPRON, AMAZUL e CTMSP alinham Projeto USEXA para produção de combustível estratégico

 

*LRCA Defense Consulting - 15/05/2026

Em movimento considerado decisivo para o Programa Nuclear da Marinha, EMGEPRON, AMAZUL e o futuro Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP) alinharam, na última terça-feira (13), ações relacionadas ao Projeto USEXA - Usina de Hexafluoreto de Urânio. O empreendimento, localizado no complexo de Aramar, em Iperó (SP), terá como missão produzir hexafluoreto de urânio (UF₆), insumo essencial para o enriquecimento isotópico do combustível que moverá o primeiro submarino nuclear brasileiro.

O que é o Projeto USEXA
O USEXA é uma usina projetada para converter "yellow cake" (óxido de urânio concentrado) em hexafluoreto de urânio (UF₆) na forma gasosa, etapa indispensável antes do enriquecimento isotópico. Sem esse gás, não é possível alimentar as centrífugas que produzem urânio enriquecido para o reator do submarino.

A iniciativa reforça a cooperação estratégica entre três entidades-chave:

Instituição

Papel no Projeto USEXA

EMGEPRON

Empresa de Gestão de Programas e Projetos da Marinha; lidera projetos de alta complexidade tecnológica e gerencia o Prosub

AMAZUL

Amazônia Azul Tecnologias de Defesa: empresa responsável pelo programa nuclear naval e pela construção do submarino

CTMSP

Futuro Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo: atuará no desenvolvimento tecnológico e na operação da usina

Importância para o submarino nuclear Almirante Álvaro Alberto
O Projeto USEXA é o elo faltante no ciclo completo do combustível nuclear brasileiro. Até agora, parte do UF₆ necessário era processado no Canadá, criando dependência externa em etapa crítica da cadeia. Com a usina operacional, o Brasil fechará totalmente o ciclo do urânio, da mineração ao combustível enriquecido, garantindo autonomia absoluta para o programa naval.

O submarino em desenvolvimento, o SNCA Almirante Álvaro Alberto, será o primeiro da América Latina e colocará o Brasil no seleto grupo de seis nações com submarinos de propulsão nuclear: EUA, Rússia, China, Reino Unido, França e Índia.

Característica

Submarino convencional (diesel-elétrico)

Submarino nuclear Almirante Álvaro Alberto

Tempo submerso

Dias (precisa emergir para recarregar ar)

Meses sem reabastecimento

Velocidade máxima

~20 nós

30+ nós contínuos

Furtividade

Limitada por necessidade de renovação de ar

Alta - sem motor diesel ruidoso

Alcance operacional

Regional

Global - opera em qualquer oceano

Com reator nuclear próprio e tecnologia 100% nacional de enriquecimento, a embarcação poderá operar por meses sem reabastecimento, reforçando a soberania do Brasil na Amazônia Azul, região de 4,5 milhões de km² rica em petróleo, biodiversidade e rotas comerciais.

Cronograma e desafios
O desenvolvimento do sistema de propulsão nuclear ocorre em Iperó (SP), onde estão localizados o Laboratório de Enriquecimento Isotópico (LEI) e o Labgene, protótipo terrestre do reatornaval. A Marinha pretende tornar o sistema plenamente funcional até 2027–2028, permitindo o início efetivo da construção do casco com propulsão integrada.

A previsão original era entrega do Álvaro Alberto entre 2034–2035, mas desafios orçamentários podem postergar o lançamento para além de 2035, possivelmente para a década de 2040. O orçamento atual do Prosub está estabilizado em cerca de R$ 2 bilhões por ano, mas a Marinha estima necessidade de R$ 1 bilhão adicional anuais para manter o cronograma original.

Apesar dos desafios, o alinhamento entre EMGEPRON, AMAZUL e CTMSP representa passo decisivo para acelerar a implantação da usina USEXA e eliminar a dependência externa de UF₆. 

A EMGEPRON recebeu, em sua sede, reunião entre o Diretor-Presidente da Empresa, o Diretor-Presidente da AMAZUL e o futuro Diretor do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP)

Impacto na soberania nacional
O Projeto USEXA não beneficia apenas o submarino nuclear. Com capacidade planejada de 40 toneladas de UF₆ por ano, a usina também poderá abastecer as usinas nucleares Angra 1 e Angra 2, atualmente dependentes de processamento externo.

"A iniciativa reforça a atuação da EMGEPRON em projetos de elevada complexidade tecnológica e relevância estratégica, ampliando sua contribuição para o desenvolvimento da Base Industrial de Defesa e para a soberania nacional", destacou o comunicado oficial da EMGEPRON.

Com quase cinco décadas de esforço técnico e científico iniciado em 1979, o Programa Nuclear da Marinha chega agora à sua etapa mais decisiva. A conclusão do Almirante Álvaro Alberto será um divisor de águas na história militar e tecnológica do Brasil, garantindo posição estratégica inédita no cenário geopolítico mundial. 

10 abril, 2026

Brasil avança em exportações de defesa com acordos históricos na FIDAE 2026

Ministério da Defesa assina memorandos com três estatais para viabilizar o modelo governo a governo; país dobra vendas militares no primeiro trimestre do ano


*
LRCA Defense Consulting - 10/04/2026

Em um movimento que sinaliza uma nova fase para a indústria bélica brasileira, o Ministério da Defesa formalizou, na Feira Internacional de Aeronáutica e Espaço (FIDAE 2026), em Santiago, no Chile, memorandos de entendimento com três de suas empresas vinculadas: a Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil (Alada), a Empresa Gerencial de Projetos Navais (Emgepron) e a Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel). Os acordos criam a base legal para que essas estatais atuem como intermediárias em negociações de defesa no formato governo a governo (G2G).

Os instrumentos estabelecem princípios gerais e compromissos de cooperação relativos à atuação em operações comerciais de exportação e à prestação de serviços de interveniência técnica em negociações intergovernamentais envolvendo produtos de defesa fabricados no Brasil.

O modelo G2G e seu entrave histórico
O modelo G2G é amplamente utilizado por potências militares como Estados Unidos e França. Nesse formato, o governo negocia diretamente com outro país para fornecer bens, serviços ou tecnologias. Mesmo que os contratos envolvam empresas privadas, a negociação é conduzida diretamente pelo governo do país fornecedor, que atua como "garantidor", supervisionando e assegurando a entrega dos produtos.

No Brasil, porém, esse modelo enfrentava um obstáculo jurídico de longa data. A equipe jurídica do Ministério da Defesa entendia que a legislação brasileira não permitia que o país fizesse a intermediação de vendas de empresas privadas nesse tipo de contrato; o modelo só podia ser usado em negociações com estatais. O problema é que as estatais não produzem os produtos necessários para atender à demanda internacional.

A solução encontrada foi criativa: uma estatal pode fechar um acordo de colaboração com a empresa privada para produtos específicos e atuar como sua representante durante as negociações. Os MoUs assinados na FIDAE 2026 institucionalizam exatamente essa estratégia.

Embraer como protagonista
O impacto prático ficou evidente já no primeiro dia da feira. A Embraer e a Alada assinaram um Memorando de Entendimento para avaliar oportunidades no mercado de Defesa e Segurança por meio de contratos governo a governo. O acordo tem como objetivo explorar novos modelos de negociação que viabilizem a exportação de produtos e soluções aeroespaciais brasileiras para países que exigem esse formato de contratação institucional.

Para Fabio Caparica, vice-presidente de Contratos da Embraer Defesa, o memorando vai identificar e explorar possíveis oportunidades dentro do mercado de Defesa e Segurança, "permitindo aos países que exijam contratos de governo para governo uma nova opção de negociação para viabilizar a aquisição de produtos e soluções da Embraer."

Já o presidente da Alada, Sergio Roberto de Almeida, destacou o ineditismo do momento: "A exportação G2G é um modelo de negócio sem precedentes no Brasil, no qual a Alada desempenha um papel estratégico e decisivo, abrindo novas oportunidades de mercado para produtos, serviços e projetos aeroespaciais, com destaque especial para aqueles oriundos da Base Industrial de Defesa."

Entre os destaques da Embraer na FIDAE estão o KC-390 Millennium, a aeronave de transporte militar mais moderna de sua classe, e o A-29 Super Tucano, líder global em sua categoria.

Presença brasileira na maior feira aeroespacial da América Latina
A FIDAE chega à sua 14ª edição em 2026 e é realizada de 7 a 12 de abril na Base Aérea de Pudahuel, em Santiago. Considerada um dos principais eventos aeroespaciais da América Latina, reúne cerca de 377 expositores de 34 países, incluindo grandes empresas da indústria aeroespacial e de defesa, além da participação oficial do Governo do Chile e do Ministério da Defesa chileno, sob a liderança da Força Aérea do Chile.

A delegação brasileira é liderada pela Secretaria de Produtos de Defesa (Seprod). A programação inclui visitas aos estandes, reuniões bilaterais com autoridades e representantes de empresas, participação nos principais eventos oficiais e assinatura de documentos com organizações parceiras. Também participa do evento o Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Marcelo Kanitz Damasceno.

O Pavilhão Brasil, organizado pela Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (Abimde), reúne 16 empresas da Base Industrial de Defesa, além de outras três empresas nacionais que participam com estandes próprios.

Números que justificam a aposta
O timing dos acordos não é casual. O Brasil registrou um avanço expressivo no setor de defesa logo no início de 2026: o país mais do que dobrou suas exportações de produtos de defesa no primeiro trimestre, consolidando sua posição no mercado global.

As exportações saltaram de US$ 457 milhões no primeiro trimestre de 2025 para US$ 931 milhões em 2026. O resultado mantém a trajetória de crescimento do setor, que já havia registrado recordes consecutivos em 2024 e 2025. Entre os principais destinos dos produtos brasileiros de defesa estão Alemanha, Bulgária, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos e Portugal.

A indústria brasileira depende de exportações para sustentar projetos estratégicos. O risco é direto: sem contratos internacionais, o Brasil pode perder capacidade produtiva, atrasar programas e aumentar a dependência externa em defesa.

Base Industrial de Defesa: escala e desafios
Para além dos números, os acordos revelam uma aposta estrutural do governo brasileiro. A Base Industrial de Defesa tem em seu portfólio 283 empresas e 2.064 produtos cadastrados no Ministério da Defesa, como aeronaves, embarcações, soluções cibernéticas para proteção de dados, radares, sistemas seguros de comunicação e armamento.

O secretário de Produtos de Defesa, Heraldo Luiz Rodrigues, foi quem coordenou os acordos e defendeu a iniciativa: "Operações como esta são fundamentais para estimular e fortalecer a exportação de produtos de defesa fabricados no Brasil, conferindo credibilidade institucional às negociações e ampliando o acesso a novos mercados."

O secretário aponta que as empresas brasileiras possuem capacidade instalada expressiva e "produtos com reconhecimento mundial de altíssima qualidade", o que favorece o crescimento das vendas externas.

Ainda assim, analistas alertam que a escalada exportadora exige contrapartidas. A presença do Brasil na FIDAE 2026 confirma um movimento claro de expansão, mas também expõe um ponto crítico: o país já demonstrou capacidade tecnológica, mas agora precisa transformá-la em escala sustentável e produção contínua. Sem esse salto, o avanço internacional não se consolida e a autonomia estratégica brasileira fica sob pressão.

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