*LRCA Defense Consulting, com a colaboração de Christian Lima - 17/08/2023
Em dezembro de 2022, o CEO Global
da Taurus Armas S.A., Salesio Nuhs, afirmou, durante um evento com investidores
na fábrica de São Leopoldo, que a Índia representa uma oportunidade ainda muito
maior e mais perene do que aquela que a empresa que teve no ano de 2021, quando
a Taurus percebeu e se preparou a tempo para a impressionante e inédita demanda
que viria nos EUA, aproveitando-a ao máximo e fazendo de 2021 o melhor ano da
história da companhia.
Ao serem analisadas as
declarações do CEO da Taurus em entrevistas para a imprensa (tanto brasileira
como indiana), bem como em lives e em outras oportunidades, é possível entender
o otimismo do principal executivo da multinacional brasileira maior produtora
mundial de armas leves.
Projeção trimestral
Para ilustrar o otimismo do CEO
da Taurus, esta Consultoria, em parceria com o engenheiro Christian Lima, preparou
uma projeção do faturamento trimestral possível, apenas com armas civis, ou
seja, deixando de considerar o imenso mercado militar e de segurança indiano,
no qual a Taurus já está participando de importantes e significativas
licitações.
No 2T23, foram produzidas cerca
de 4.300 por dia, com um ticket médio (TM) de venda de R$ 1303,93 ou US$
260,00. Em consequência, a produção do trimestre (78 dias) foi de 335.000 armas
que, ao preço do TM, geraram aproximadamente R$ 436.816,55.
Na Índia, é esperada uma produção
full de 1.000 armas civis por dia, com um TM de cerca de US$ 900,00 (valor
médio estimado). Assim, a produção trimestral seria de 78.000 armas civis que,
multiplicada pelo valor unitário do TM indiano, levaria a um total de cerca de
R$ 351.000.000,00.
Como a Taurus detém 49% da JV e
seus custos são praticamente zero, haveria um incremento próximo de R$
171.990.000,00 em seu resultado trimestral, correspondendo a cerca de 40% de
seu faturamento com armas no 2T23. Isso considerando-se apenas a venda de armas
civis.
Uma outra observação importante é
a de que a produção/venda full na Índia, ou seja, de 1.500 armas/dia,
redundaria em um total de 468.000 armas, significativamente superior ao número
(recorde) de 366.000 armas vendidas no mercado brasileiro em 2022.
Mercados governamental e civil
No entanto, além do mercado
civil, a Taurus, como foi comentado, já está participando de importantes e
significativas licitações no imenso mercado militar e de segurança indiano.
Além da megalicitação de 425.000
fuzis para as Forças Armadas indianas que a empresa está disputando e que se
definirá no início de 2024, as licitações futuras para órgãos policiais e
paramilitares do país já somam cerca de 260 mil armas de diversos tipos (fuzis,
submetralhadoras e pistolas). Ou seja, ainda sem ter inaugurado sua fábrica na
Índia, a Taurus já tem a perspectiva de concorrer a licitações que montam, por
enquanto, em cerca de 685 mil armas, além de um imenso e quase inexplorado
mercado civil.
No que se refere às licitações em
todos os níveis governamentais, a multinacional brasileira tem preços muito
competitivos, alta tecnologia/qualidade e volume de produção (algo que poucos
fabricantes têm), além de ter sido a primeira joint venture de armas
leves na Índia e de ter uma fábrica quase pronta para entrar em operação. Os
três primeiros fatores fizeram com que vencesse a concorrência para fornecer o
Fuzil T4 ao Exército das Filipinas no ano passado, também competindo com
grandes fabricantes internacionais de armas. Segundo o CEO da Taurus declarou
recentemente, existem dois grandes fabricantes que são favoritos na
megalicitação de fuzis indiana, sendo a Taurus um deles, e é bastante provável
que cada um fique com 50% do total.
Quanto ao mercado civil, segundo
estimativas internacionais e da própria Índia, este país ultrapassou a China em
abril deste ano, tornando-se o mais populoso do mundo, superando a marca de 1,4
bilhão de pessoas.
Apesar disso, fontes
internacionais afirmam que a Índia possui apenas cerca de 74 milhões de armas leves
civis, principalmente antigos e obsoletos revólveres e pistolas. Segundo os
executivos da Taurus, em 2022 foram fornecidas 42 mil novas licenças e há cerca
de 11 milhões de licenças ativas. Isso acontece em virtude de uma legislação
bastante rígida e de costumes culturais milenares que levam, por exemplo, a uma
parte da polícia ostensiva ser armada apenas com porretes.
Aqui, é importante observar que o
que dá sustentação e perenidade a uma fabricante de armamento leve é o mercado
civil. Assim, é importante ressaltar que o foco da Taurus, nos EUA, na Índia e
no resto do mundo, é o mercado de armas civis, pois é neste que obtém as
melhores margens, sendo o motivo primordial de a fábrica indiana começar sua
fase operacional produzindo esse tipo de arma. As licitações, como toda a venda
por atacado, causam uma diminuição das margens, que é compensada, no entanto,
pelos altos volumes envolvidos.
Não parece haver dúvidas de que
um mercado civil com apenas 74 milhões de armas antigas para uma população de
1,4 bilhão de pessoas é um nicho atraente, perene e promissor, sob qualquer
ângulo que seja visto, e este é um dos motivos que levou o gigante Jindal Group
a procurar a Taurus e com ela firmar uma joint venture em 2020 para
produção de armas leves civis e militares na Índia.
A fábrica indiana tem capacidade de produção
total inicial de 1.500 armas por dia e está situada dentro de um terreno total
bem maior, possibilitando a expansão que for necessária no futuro. Além disso,
visando o prestígio a empresas locais, uma parte da produção está sendo
terceirizada, pelo menos inicialmente, fazendo com que a necessidade de espaço
interno fabril seja menor.
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Pistola Taurus PT57
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Pistola Taurus PT57 - a primeira arma civil a ser produzida
na Índia
Conforme os executivos da Taurus
Armas declararam em uma live no início do segundo trimestre, só há um
fabricante indiano de pistolas .32 ACP (7,65mm), maior calibre permitido para
uso civil: o Ordnance Factory Board (OFB), uma grande organização estatal sob a
tutela do Departamento de Produção de Defesa do Ministério da Defesa indiano. A
importação de armas para uso civil não é permitida.
A pistola Ashani MK-II no calibre
.32 ACP (7,65mm) é uma das armas mais recentes produzidas pelo OFB para uso
civil. Lançada oficialmente no final de 2017, essa pistola de oito tiros e ação
única foi desenvolvida internamente pelo OFB com base na pistola Colt 1903,
embora externamente se assemelhe à FN 1903 e à Remington modelo 51. Seu custo
final ao consumidor é de cerca de 1.200 dólares americanos.
A JHind India Taurus Private
Limited, cuja fábrica deve começar a operar ainda em 2023, irá produzir para
esse mercado a Taurus PT57, também no calibre 7,65mm. Trata-se de uma moderna
semiautomática de 12 tiros que é incomparavelmente superior aos modelos
produzidos pelo OFB.
Para se ter uma ideia do
potencial de mercado em relação a valores de ticket médio, enquanto a indiana
Ashani custa cerca de US$ 1.200,00, a Taurus PT57 custa, nos Estados Unidos,
cerca de US$ 300,00. Com isso, a Taurus poderá oferecer ao mercado uma arma
muito superior a um custo similar ou mais baixo para o consumidor, gerando uma
excelente margem de lucro.
Os executivos da Taurus
ressaltaram recentemente que, embora os custos de produção na Índia sejam entre
10 e 20% maiores que no Brasil, os preços de comercialização também são
maiores, o que levará o ticket médio a se situar entre 800 e 1.000 dólares
americanos por arma, no caso da pistola PT57, por exemplo.